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Por: B@L@
Naquele dia eu decidi morrer.
Se eu fosse voc� come�ava com...
aquele miudinho ali, com a bola.
Uma gra�a.
Chegou aqui com problema
de coordena��o motora...
mas melhorou muito.
Se bobear, vai ser jogador de futebol.
Ei! Ivanoel! Ei! Menino.
O que aconteceu com aquele menino?
Foi recapturado...
de novo.
�, l� o Ivanoel. O Ivanoel
Ele � craque em matem�tica.
O que ele fez?
Roberto?
Ele fugiu de novo,
ele foge toda hora...
Esse menino � um problema.
A gente...
j� tentou de tudo com ele.
Mas parece que num...
N�o adianta.
- Quantos anos ele tem? - Treze.
J� rouba, j� fuma, cheira cola...
� irrecuper�vel. Vamos...
Eu posso falar com ele?
Margherit... Daccord...
Merci.
Voc� que sabe... Qualquer coisa, � s� gritar.
Se precisar eu estou na minha sala.
A primeira coisa que eu vi dela
foi o bico do sapato.
Oi.
Por favor...
eu posso conversar com voc�?
Eu achei aquilo muito estranho...
ningu�m nunca tinha me dito por favor...
Alors...
Un truc tr�s important pour moi...
Meu nome � Margherit.
E o seu?
Voc� nasceu aqui em Belo Horizonte?
Quantos anos voc� tem?
Quantos anos voc� tinha quando veio para c�?
Eu n�o vou falar nada n�o, dona.
Eu n�o vou falar nada n�o, dona.
Eu n�o vou falar nada n�o, dona.
Eu n�o vou falar nada n�o, dona.
Eu n�o vou falar nada n�o, dona.
D'accord, j� vi que voc� n�o vai falar nada n�o, dona.
Obrigada pelo seu tempo.
Minha voz vai ficar guardada a� dentro?
Vai.
A dona quer saber como � que eu vim para aqui?
Quero.
Vamo l�.
Bom...
a� eu contei a minha hist�ria pra ela
Uma vez n�...
eu, minha m�e e meus irm�o a gente tava sem dinheiro.
A� a gente teve a id�ia de assaltar um banco.
A gente pegou uma Kombi...
- Sabe o que � que � Kombi, n�? - Sei.
A� chegou l�, a gente tava rendendo todo mundo.
Os caixa tudo passando o dinheiro pra gente
Eu quero dinheiro!
M�os pra cima todo mundo!
Eu quero dinheiro! Pega a�! Vai!
Abre a bolsa!
M�os ao alto! Anda! Anda! Anda!
P�e o dinheiro a�!
Passa o dinheiro!
A� veio a pol�cia.
Minha m�e viu policia, e...
"Corre! Policia!"
Policia! Policia!
Pol�cia!
Vai, vai, r�pido! Vamo.
A� meus irm�o e minha m�e, tudo entraram dentro da Kombi
Roberto! Roberto!
Eu fiquei.
M�os na cabe�a vagabundo!
Minha m�e falou pra mim...
Tudo bem, meu filho, voc� � de menor...
eles v�o te mandar para a FEBEM.
L� v�o te dar casa, comida e escola!
Voc� vai virar doutor.
E eu vim para c�.
Bom, j� vou!
Ent�o a gente teve a id�ia de assaltar um banco
Depois a gente pode conversar um pouco mais?
Ai chegou l� a gente tava rendendo todo mundo os caixa tudo
passando dinheiro para a gente. Ai veio a pol�cia e minha m�e...
N�o vai d�, n�o, dona
"corre! Policia! Pol�cia!"ai meus irm�os
e minha m�e entraram tudo dentro da kombi.
Eu vou fugir essa noite.
Eu acho que ela n�o acreditou em mim...
mas naquela noite eu fugi mesmo.
Dois dias depois eu que n�o acreditei.
Quando ela apareceu l� na pra�a Rui Barbosa.
Roberto aquela mulher tava aqui
te procurando ontem, �.
Roberto!
Putaquilamerda!
� tua namorada, �?
Minha namorada, � sua m�e, � palha�o!
Eu v� me mandar daqui.
Espera. Por que n�o vai l� falar com ela.
T� com medo de qu�?
Ent�o vou l�.
Pereba!
O qu� que a dona t� querendo?
Eu procurei voc� na FEBEM...
e a P�rola me disse que voc� tinha fugido.
T� querendo me leva de volta pra l�, �.
Eu gostaria de conversar mais um pouco com voc�.
Eu n�o gosto de conversinha n�o, dona.
Vamo bora! Pol�cia! Pol�cia!
Mas voc� contou t�o bem sua hist�ria e...
- N�o vai dar, n�o, dona. - � r�pido.
Outra hora.
Quando?
- Voc� pode andar mais devagar? - Pra qu�?
Para conversar um pouco mais.
Espere...
Eu me... N�o entendi, piruli?
Pirulitar, vai embora, cai fora, sai!
Como � que �? Sair? Como �?
Pirulita, sai?
Pilutirar? Que bonitinha essa palavra?
Olha, vamos fazer assim:
Voc� vai l� pra minha casa...
- eu fa�o um lanche pra gente... - Pera ai, p�ra ai, p�ra ai...
A dona quer que eu v� na sua casa?
- Isso. E voc� me explica pirulitar. - Quem mais t� l�?
N�o tem ningu�m.
N�o vou cair nessa, n�o.
Est� com medo de mim?
Eu? Com medo da dona?
Mui�? A dona � que devia ter medo de mim.
Doidoriodoriona, n�.
Eu olhei pros meus amigos
e tava escrito na testa deles:
Vai l� e rouba tudo dessa trouxa
Alors, on y va? Se pirulitamos?
- Ent�o vamos. - Vamos!
Ciao, hein.
E a sua maman? Voc� nunca mais viu ela?
Sua m�e.
Eu nunca tinha visto tanta comida junta.
Quantos irm�os voc� tem?
Mas ela ficava fazendo tanta pergunta...
que ela nem me deixava comer direito.
A� eu resolvi testar a paci�ncia dela.
Sant�!
A paci�ncia dela era irritante.
A� eu resolvi apelar.
Putaquilamerda, esse bolo � ruim pra caralho!
Olha, maior bosta... todo esfarelado!
Como?
Esse bolo aqui! Olha! Puta bolo seco da porra!
Prefiro p�r areia na boca... do comer esse bolo,
gosto de merda.
Vai si fude, ah?
�, se n�o quer, deixa de lado,
come outra coisa, olha esse aqui.
C"est vrai. Il para�t terrible!
T� como voc� falou? Esfare... Esfarelado.
T� esfarelando mesmo.
Toma aqui esse.
A� eu desisti e fui fazer o meu trabalho.
J� viu que lindo esse passarinho?
Sabe que essa casa � de uma amiga minha.
Tem um mont�o de coisa linda.
Eu adoro!
Legal essa ma��, hein.
E ai acho que s�o os copos, n�?
- Que voc� est� fazendo? - Nada, u�!?
Roberto, devolve esse gravador.
- Que gravador? - Roberto!
O gravador n�o! D�, d�...
Fica quieta a�
- Voc� quebrou! - N�o mexe, n�o!
- Fica quieta! - Devolve a bolsa!
Arr�te!
Fica me seguindo, caralho!
- Ai meu deus quebrou tudo. - Fica quieta a�!
Devolve, arr�te!
Ah, quelle conne, quelle conne...
Merde... merde, merde.
Margherit, voc� n�o tem id�ia
do que podia ter te acontecido.
- Esses meninos... - Eu sei. Eu errei.
Tem menino, que sai do caminho, Margherit.
O Roberto � um desses.
Eu lembro quando ele chegou aqui...
pequenininho, assustado...
a� foi crescendo e caiu para o lado errado.
Fugiu com uma turma de meninos mais velhos,
descobriu a rua.
A m�e vinha visitar e ele nunca tava.
Isso acabou separando ele ainda mais da fam�lia.
Acontece toda hora, Margherit.
Sai, sai...
Sai, sai da frente!
� o Cabelinho de Fogo!
Vamo bora, vamo bora!
O cabelinho de fogo era o rei da rua.
Eu queria ser que nem ele.
O cara tinha tanta moral,
que nem precisava roubar.
Era s� ele chegar perto das pessoas
que elas iam entregando as coisas pra ele.
N�o fugiu por qu� caralho? T� querendo morrer?
Voc� � mudo ou retardado moleque?
- Eu quero... - Quero o qu�, caralho?
Eu quero entrar na sua turma.
- Que porra � essa? - Eu fumo maconha, eu cheiro, eu robo
Voc� � fedelho, s�.
- Olha o que eu consegui hoje, olha - D� isso aqui, fedelho, anda.
- Putaquilamerda! - Qu�?
Isso � jeito de falar comigo, �?
- Eu quero entrar na sua turma, p�! - Ah, �?
Voc� qu� entrar para minha turma, �?
Ent�o voc� vai ter que fazer um teste. T� a fim?
T�.
Baixa as cal�as, moleque.
N�o t� escutando n�o?
- Vamo, moleque! - Vamo, porra!
Levanta moleque.
Vem...
Voc� n�o quer fazer parte da turma, hein?
Seu teste � agora. Seu merda.
- Anda. - Quieto porra!
Voc� vai entrar agora pra turma. Agora que voc� vai entrar.
Agora merda.
N�o queria entrar pra turma, hein.
Agora, vai ter que ser a mulher da gente.
Ai, ai, para!
Para!
Naquele dia eu queria morrer.
Mas nem isso eu consegui.
Qu� isso! Menino!
Espera, menino! Volta aqui!
Abre a porta, Roberto!
Abre a porta!
O que aconteceu?
Voc� t� machucado?
O que voc� quer?
Roberto...
Voc� n�o tem direito de invadir minha casa!
Isso � uma violence!
Roberto, sai j�!
Eu vou chamar a FEBEM!
Vou chamar a pol�cia!
Voc� tem um minuto para sair da�!
Um minuto!
Acabou o seu minuto!
Roberto...
eu n�o chamei a pol�cia, nem a FEBEM.
Eu vou deixar voc� dormir aqui hoje, mas amanh�...
eu quero que voc� v� embora, entendeu?
Tem um prato com comida aqui para voc�.
Deixo aqui na porta.
Quando der...
voc� deixa o meu �culos fora, pra mim, por favor, Roberto.
Se voc� quiser, pode dormir no outro quarto, hoje.
En ce moment il don't dans sa chambre � c�t�.
Je voulais �tudier son cas, mais, je ne suis pas s�re d"avoir
envie qu" il soit aussi pr�s de moi.
C"est comme �tudier un fauve, que ce serait enfoui de moi.
Voc� n�o quer falar nada?
Por que voc� veio para c�?
Est� bom. Se voc� n�o fala, eu falo.
Eu nasci numa cidade chamada Marseille...
num pa�s chamado Fran�a.
Minha cor preferida � azul...
eu sou pedagoga.
Meu signo � c�ncer.
Eu gosto mais de ver�o que de inverno...
mais do dia que da noite.
J'adore la bicyclette.
Gosto de andar de bicicleta.
A coisa mais linda que tem no mundo para mim...
� um cacho de uva da Champanhe.
E a minha comida preferida � coq au vin...
"Coq au vin".
� galinha cozinhada com vinho.
Esta � a minha segunda vez no Brasil.
Antes eu vim passear em Salvador e em Rio de Janeiro.
Fiquei seis meses.
Mas desta vez eu n�o vim passear, vim estudar.
�. Por isso que eu estava l� na FEBEM.
E por isso que eu quero saber a sua hist�ria.
Compris? Entendeu?
A dona fala muito estranho.
� que onde eu moro, as pessoas falam como eu.
� uma l�ngua diferente.
Je parle le fran�ais. Tu as compris?
Erieu nari�o entendiri� nariad�.
O que voc� falou?
Erieu estoriou falariando a l�ri�ngua...
dos minirino de ruariua.
Ari�ari�
N�o entendi nadinha.
� assim que a gente fala na rua.
Vamos fazer uma troca?
Voc� me ensina a sua l�ngua...
que eu te ensino le fran�ais.
Oui!
Pode perguntar o nome de qualquer coisa nessa casa...
que eu falo o nome dela em franc�s.
Mas tem que perguntar assim,
"Quest-ce que ceest?"
Que quer dizer, "o que � isso" em franc�s.
Quesqu�?
Quest-ce que ceest?
Quesqu�?
Des oiseaux. Qu"est-ce que c�st?
Quest-ce que ceest?
C"est une fen�tre.
Quest-ce que ceest?
C"est une chemise.
Quest-ce que ceest?
Oiseau
Quest-ce que ceest?
Fen�tre.
Quest-ce que ceest?
Chemise.
Quest-ce que ceest?
C"est une magn�tophone...
N�o quebrou.
Quer contar sua vida para ele?
Vamos fazer um neg�cio, voc� fica aqui uma semana...
e em troca me conta a sua vida.
Aceita?
Eu aceitei e contei a minha hist�ria pra ela.
Eu contei que quando eu era pequeno
eu empinava pipa o dia inteiro.
Mas o que eu gostava mesmo era de la�ar tudo que era fio.
Eu deixei tanta pipa presa naqueles postes...
que eu tinha certeza que um dia minha rua ia sair voando.
Outra coisa que eu adorava era ir no bar do seu jorge.
Eu tinha um super poder que fazia ele mudar de cor.
N�o vai esquecer de me pagar hoje n�o.
O seu jorge era casado com a wilma.
A wilma era uma giganta que vendia biju.
Ela tinha as pernas mais compridas do mundo.
Quem sempre ficava na frente do bar era o Seu Artur.
Ele tinha uma bicicleta que cuspia fogo...
e sempre tava com uma faca na m�o.
Mas eu n�o tinha medo dele...
eu tinha medo era do Seu Batista...
ele ficava o tempo todo dizendo que o mundo ia acabar.
Liberdade vos digo. N�o as impe�ais.
Por que � delas o reinos dos c�us.
E n�o entrar� nele...
quem n�o for parecido com uma crian�a.
Prepara-te irm�o.
Prepara-te para o ju�zo final.
Tenha seu cora��o aberto,
sua mente pura.
A minha m�e era lavad�ra.
Ela deixava as roupas t�o brancas...
que parecia que ela pendurava nuvens no varal.
Eu morava com ela e com os meus nove irm�os.
Eu era o menor de todos, o ca�ula.
A gente morava numa casa com teto de zinco.
Vai menino vamo, vamo.
Ele deixava a casa t�o quente, mas t�o quente...
que se voc� entrasse com uma galinha viva...
... num instante ela saia assada.
Eita! Que t� servido.
Vamo gente. Vamo ajud�.
Vem meninada senta.
Domingo era dia de frango.
Mas um dia o frango sumiu.
Depois foram as laranjas, que a gente comia de sobremesa,
depois sumiu o feij�o,
depois sumiu o arroz...
s� sobrou mesmo a canjiquinha.
Mesmo sem o frango, eu gostava do domingo...
porque era o dia que a gente ia ver televis�o na casa do Seu Jos�.
Era a �nica televis�o da rua.
Olha eu agrade�o imensamente voc�s n�o terem comprado.
"Este � um pa�s que vai pra frente, �, �, �, �
de uma gente alegre e t�o contente, �, �, �, �"
para que as crian�as tenham um futuro, elas precisam de cinco coisas:
O "F"da f�, o "E"da educa��o, o "B"de bons modos,
o "E"da esperan�a e o "M"da moral.
Sabe onde elas encontram tudo isso? Na FEBEM.
Aqui as crian�as carentes ter�o a chance de se tornar homens de bem.
Ter�o a chance de se tornar m�dicos, engenheiros, advogados.
FEBEM, mais uma vit�ria do nosso governo!
Filho... vamo trocar, filho.
Bota o bra�o aqui.
A FEBEM s� podia aceitar um dos filhos da minha m�e.
E como eu era o ca�ula ela me escolheu.
Eu fiquei todo feliz porque...
pela primeira vez na vida eu tava
sendo escolhido pra alguma coisa.
E os meus irm�os ficaram morrendo de inveja.
M�e, o que tem l� na FEBEM?
Um monte de coisa boa...
A senhora entra naquela porta a esquerda embaixo da passarela.
Quando a gente chegou l�,
eu vi que a FEBEM era bem diferente do que eu tava pensando.
Minha filha! Pelo amor de Deus!
T� esperando essas crian�as h� meia hora.
- Eu... - N�o interessa.
Bem no meio, bem no meio.
T� na posi��o errada.
Eu quero uma fila aqui agora.
Eu quero uma fila aqui agora.
A�, isso... Voc�. Vai, vai.
Ooh, uma fila aqui.
A senhora tem que assinar aqui...
aqui...
e aqui.
Eu tenho que assinar daquele outro jeito.
Ah, claro.
Com licen�a.
Vai ser melhor para ele, n�?
Ele � o meu ca�ula, sabe?
Se Deus quiser vai ser doutor.
Com ele aqui eu vou poder trabalhar mais.
Eu tenho outros nove em casa, sabe?
- Bom, � s� isso. - T�, t� tudo certo?
- At� logo - Tamb�m.
- T� logo, viu. - At� logo
� por aqui.
� que eu vou dar tchau para ele.
Ah, � melhor n�o.
Sem despedida � melhor para os dois.
Lh, eu vejo isso todo dia.
No dia da visita, faltam vinte dias.
A senhora vem e fala com ele.
- T� bom? - Mas eu queria, fala com ele...
Dirce, voc� acompanha ela por favor.
Claro.
- T� logo, boa tarde. - Boa tarde.
Quando eu vi a minha m�e indo embora, eu pensei...
ela t� se esquecendo de mim.
Manh�!
M�e!
M�e!
M�e!
M�e! M�e!
M�e!
M�e! M�e!
M�e! M�e!
Calma menino, que qu� � isso?
Vem, vamos conhecer os outros meninos. Vem.
- Eu quero ir embora pra casa. - Agora sua casa � aqui.
Na primeira noite que eu passei na febem...
eu fiquei morrendo de saudade da minha m�e e dos meus irm�os.
A� ent�o eu fiz a �nica coisa que eu podia fazer: Chorei.
Quem � que t� miando a�, hein?
Mas nem chorar eu podia.
Depois do caf� da manh�...
eu ia ter a primeira aula
de educa��o f�sica da minha vida.
Eu imaginava o professor
um sujeito fort�o...
parecido com o tarzan
Bom dia!
Bom dia!
Mas a Dona Judith
parecia mais... um hipop�tamo.
O ch�o at� tremia quando ela andava.
Vamos l�, seus boc�s!
Todo mundo em posi��o!
Cad� a filas? N�o. Fila.
M�o um no ombro do outro.
M�o um no ombro do outro!
Todo mundo em posi��o!
Aten��o!
Vou fazer para voc�s verem!
Um...
Dois...
Tr�s...
Quatro...
- Entenderam? - Entendemos!
- Entenderam? - Entendemos!
Ent�o agora, todo mundo comigo.
� um...
Dois...
Tr�s...
Quatro...
Cinco, seis, sete, oito.
De novo!
Um, dois, tr�s, quatro...
Cinco, seis, sete, oito.
De vez em quando na FEBEM
apareciam umas mulheres...
com uns �culos esquisitos.
Eram as psic�logas.
N�o � ai n�o, meu amorzinho.
Tinha uma coisa que eu gostava nelas.
- Quer um biscoito? - Quero.
� que toda vez que eu errava um teste...
elas ficavam com pena de mim e me davam um biscoito recheado.
A� � que eu errava mesmo.
Anota a� no prontu�rio dele...
problemas de dislalia avan�ada...
apresentando sinais de dislexia e discalculia.
- Eu tenho dislalia? - Isso d�i?
�s vezes.
Eu gostei daquele neg�cio de doen�a.
As pessoas prestavam aten��o em mim.
- Morreu! - Morreu.
Me d� mais um pouco... Eu tenho discalculia.
Pois � menina, ela teve c�ncer no �tero, v� se pode?!
Que horror, tadinha... N�o tem doen�a pior.
N�o tem.
Voc� de novo?
- Que foi agora? Dislexia na barriga, n�?
N�o doutor, � outra coisa.
Que que � agora ent�o?
C�ncer no �tero.
C�ncer no �tero...
Vem c� vem.
Senta aqui um pouquinho.
O m�dico contou pra todo mundo.
A� ningu�m mais tinha pena de mim.
Eu quero ir para casa.
Voc� vai acostumar, Roberto.
Aqui voc� n�o tem uma cama s� para voc�?
N�o tem escola, n�o tem comida?
Aqui � bom Roberto.
Voc� n�o quer mais eu, n� m�e?
Se voc� perguntar isso de novo, eu te dou uma surra.
A vida na FEBEM n�o tinha a menor gra�a.
Mas a� chegou o natal...
e disseram que o papai noel
vinha visitar a gente
s� que, pra ganhar presente,
tinha que ser bonzinho...
e limpar tudo.
Eu ficava imaginando o papai noel...
naquele tren� voador...
eu tinha certeza que ele ia trazer
uma bicicleta para mim.
Pera ai, pera ai. Calma! Afasta aqui.
Cuidado aqui!
Afasta aqui. D� licen�a.
Segura a�.
Pera ai! Calma ai! Calma!
N�o corre tanto.
Todo mundo l�!
Quem chegou?
Pera a�!
Vamo ver o Papai Noel.
Entra a�, vai. Encosta a�!
�, o Papai Noel l�!
� l�, � o Papai Noel!
Vai chega a�, hein!
Oh, Oh! Crian�ada!
Olha o Papai Noel!
Ohoho! Chego o Papai Noel.
- Esse n�o � o Papai Noel. - � a dona Judith.
Calma!
Segura o saco aqui.
Gente � o Papai Noel ali.
Depois do natal eu ganhei mais um presente.
Bom Roberto, voc� j� fez sete anos...
Ent�o voc� vai ter que mudar...
para a outra turma.
A turma dos meninos maiores.
Quem tem de sete a catorze anos tem que ficar l�. T�?
� tarde, o bedel vai passar e levar voc� e os meninos...
que v�o trocar de lado.
T� bom.
Eu queria ficar aqui.
�, mas n�o d� mais, Roberto.
Mas vai ser bom l�... tem outras coisas para fazer...
outros meninos...
T� bom?
Pode levar ele.
A febem do outro lado do muro...
tinha mesmo outros meninos e outras coisas para fazer.
A principal era apanhar.
Foi l� que eu conheci o cabelinho de fogo.
Pr�xima vez voc� vem.
N�o t� vendo que ele � menor que voc� n�o rapaz?
Vai, vai.
Para fazer parte da turma,
tinha que parecer dur�o.
E para ser dur�o, tinha que falar muito palavr�o.
Buceta roxa.
Perereca azeda.
T� de olho em voc�. Fica esperto, t�?
Caralho.
Viado.
T� de namoradinha ai �? Caralho essa porra!
Toma no c�.
Vagabunda.
Mulher pelada.
Bunda suja.
Filho da puta.
Putaquilamerda.
Putaquilamerda � legal.
Putaquilamerda.
Putaquilamerda!
Putaquilamerda!
Seu irm�o Os�ias se machucou um dia desses
Vai, Lucas!
Jogando bola.
Chuta essa bola, Samuel!
E voc�? Tem muitos amigos?
M�s passado n�o deu pra vir n�o.
Sai muito dinheiro de condu��o.
� caro.
Ficou com saudade d"eu.
Voc� est� mais gordinho.
Chuta essa bola, porra!
Putaquilamerda!
Samuel! Samuel!
Chego a hora. Chego a hora...
Vamo, vamo, � agora, � agora.
Vamo! Vamo!
- Vamo! - Vai
Desce por l�!
Vai! Vai, vai logo.
Aquela foi a minha primeira fuga.
Mas fugir da FEBEM era uma coisa t�o comum...
que tinha at� uns buracos no muro para a gente subir.
Iogo depois me apanharam,
mas a� eu fugi de novo.
A� me apanharam de novo...
e a� eu fugi de novo...
e me apanharam de novo...
e eu fugi de novo.
E de novo e de novo e de novo...
no final das contas,
eu fugi umas cem vezes da FEBEM.
Na verdade eu nem sei
por que eu fugia tanto.
L� eu tinha de tudo.
Companheirismo...
comida de primeira...
nata��o...
Seu merda!
Orienta��o pedag�gica...
Muleque do caralho.
�s vezes at� quarto privativo.
Mesmo com tudo isso,
sempre que eu voltava para a FEBEM...
eu sa�a de l� correndo.
Dos sete aos treze anos,
eu corri mais que jogador de futebol.
E a gente era meio que
um time de futebol mesmo.
Tinha at� um monte de jogada ensaiada.
A escala��o era a seguinte...
o zagueiro era o Espantalho
que era muito bom nas roubadas.
Toma! Corre!
O Samuel era o goleiro,
ele agarrava bem a be�a...
o Pereba era o nosso ponta direita...
o cara driblava demais, ia pra l� pra c�...
n�o tinha quem parasse ele.
- Vai! - Minha bolsa.
Minha bolsa.
O Lampi�o era o meia...
porque a especialidade
dele era o lan�amento.
E eu era o centroavante.
O problema � que o time a advers�rio marcava em cima.
Se eu te entregar isso...
vou ser c�mplice dessa sua maluquice.
- Tem tudo a�? - Tudo.
Prontu�rio, parecer psicol�gico, ocorr�ncias...
Ele me falou de umas coisas
disse que levou surra, foi para solit�ria...
Isso n�o vai ter aqui.
- Teve que beber �gua de privada... - E acontece mesmo.
N�o tem como evitar.
Como voc� vai dizer a um bedel...
que convive no meio deles,
sendo desafiado a toda hora...
a n�o fazer esse tipo de coisa?
Cuidado, t�?
Tout va bien. Pode deixar.
Eu morro de medo desta hist�ria, Margherit.
E se te acontece alguma coisa?
J� t� at� vendo a manchete do jornal...
Pivete brasileiro mata pedagoga francesa...
V�o falar que o Brasil � culpado,
que a FEBEM � culpada...
que eu sou culpada.
S� preciso de mais um tempo.
Toma.
Merci, c"est vraiment gentil.
Isso, muito certo.
Vai.
Vai cair, dona.
N�o me chama de dona,
que eu n�o sou dona de ningu�m.
Ent�o como?
Sei l�, Madame.
Vai cair, Madame.
Non, on avance. Bien droit.
Na FEBEM a gente tinha sempre que olhar pra baixo.
Voil�.
Ai ela inventou esse neg�cio de andar com o livro na cabe�a.
Olha pra mim, no meu olho. Cabe�a reta.
Isso. M�o para baixo.
Dans mes yeux. Tu avances, maintenant.
Voil�! Voil�!
Estou falando que vai cair.
Mais um pouco.
- Viu? - �, n�o faz mal.
O nome desse livro � "20.000 Lieues sous les Mers"
T� aqui, �...
Vinte mil l�guas submarinas
Conta a hist�ria do Capit�o Nemo.
Ele construiu um submarino supermoderno, sabe?
Que passava o tempo todo
viajando embaixo do mar.
O mar � fundo?
Voc� nunca viu o mar?
Vem c� que eu vou ler um peda�o
da hist�ria para voc�.
Quando eu encontrar o meu �culos.
Que eu sem �culos, eu n�o encontro o �culos.
Lunettes, lunettes, lunettes, lunettes.
Ah! Les voil�.
No ano de 1866...
aconteceu um fen�meno inexplicado
n�o, inesplicado, e inexplic�vel,
"que provocou muitos coment�rios
entre a gente do mar...
aquele livro me levou prum outro mundo
parecia que eu tinha cheirado Tinner.
Roberto?
Oh, c"est pas possible! Oh, non! C"est pas vrai.
C"est pas possible! C"est pas vrai!
O� est-ce que j"ai mis mes cigarettes? Ah, l�!
Ah, tiens
c"etait par l�.
Ah! Les voil�.
Je trouvai Roberto en train d"inhaler un produit nettoyant.
Il le fait probablement parce qu"il ressent um manque de...
C"est idiot! C"est idiot!
O que � que voc� est� pensando?
Nada, uai.
Nunca mais quero que voc�
fa�a isso, entendeu?
Nunca mais!
Para ficar aqui voc� tem
que seguir regras!
E a regra � que aqui n�o pode
cheirar, nem fumar nada.
E sabe por que?
Porque na minha casa voc� tem 13 anos.
- Pensa que � minha m�e? - N�o sou.
Mas se voc� quer ficar,
n�o pode fazer mais isso. N�o pode!
E quem disse que eu quero ficar?
Eu vou � embora. Sai pra l�.
Ent�o vai, mas o azar � seu, porque...
porque amanh�...
eu vou fazer coq au vin.
J� fazia tr�s coco vans que eu tava l�...
mas eu fiquei quieto
A table...
eu tinha medo de falar alguma coisa...
ela lembrar do prazo e me mandar embora.
Mas a� teve um dia que eu n�o ag�entei e perguntei...
Madame, j� passou aquela uma semana
que voc� pediu para eu ficar aqui?
J� faz um m�s que voc� est� aqui.
Tudo isso?
Tudo isso.
E a madame vai querer que eu saia da sua casa?
Vou.
Amanh�.
Vai sair comigo at� o mercado.
Me d� duzentas gramas de sardinha por favor.
Roberto pega aquilo pra mim por favor.
Isso?
N�o, isso n�o, � muito caro.
C"est beaucoup trop cher, jeune homme. Non, non
Caro, mas... eu posso colocar aqui... assim, �...
Roberto! Enfin!
- Coloca l�. - Tava brincando.
Barraca do Jo�o... a melhor cacha�a de Minas Gerais.
Bom dia.
Promo��o...
Alface, essa daqui.
- Que qu� foi Roberto? - Nada.
Das 8 �s 16 horas.
Senhores, por favor, aten��o, aten��o.
Um minuto da sua aten��o, por favor.
Eu queria ir correndo pra casa.
Mas a� eu vi uma coisa na pra�a
que at� me fez esquecer que eu tava com medo.
Senhores. Por favor. Aten��o.
Senhores, senhorias...
bem amados, mal amados...
descasados, separados,
por favor, por favor.
Eu coleciono, coisas... casos, ocasos, lendas de muitos
tempos passados, futuros. De todos os lugares.
Um espet�culo.
...mas aten��o... Aten��o!
A pe�a mais rara da minha cole��o.
A de valor inestim�vel...
a sensa��o de minha cole��o.
� essa caneta aqui!
- Oh! - Oh!
Esta caneta parece uma caneta normal, n�o parece?
Olha, mas n�o toca. Olha... mas n�o toca.
Voc�. Olha... mas n�o toca.
Mas, o que faz dessa caneta, uma caneta especial?
Voc�s sabem me dizer?
� porque ela � de ouro?
- N�o. - N�o.
� porque ela tem uma tinta m�gica e escreve no ar?
- N�o. - N�o.
Mas, o que � mais importante do que ouro e m�gica, hoje em dia?
Por favor, se animem!
O que � que �?
Mais importante do que o ouro e que a m�gica?
Eu vou dizer para voc�s...
� a hist�ria.
"L-S-T-O-R-l-A".
"Istoria!"
E voc�s sabem qual a hist�ria
dessa caneta, que faz ela t�o especial?
Voc�s sabem?
Porque foi com essa caneta...
que a princesa Isabel assinou a lei �urea.
A lei que libertou os escravos desse pais.
� a caneta da liberdade!
A liberdade ainda que tardia!
E por isso que anuncio com muita tristeza.
Que eu vou ter que me desfazer dela.
Porque eu estou doente.
Desculpa n�o ter falado antes, mas...
eu n�o estou bem. Estou morrendo...
E o m�dico me deu poucos dias de vida.
E como n�o tenho com quem deixar essa caneta.
Eu tenho que vender, o jeito � vender.
E qual seria o pre�o desta caneta?
Senhoras e senhores.
Um milh�o de cruzeiros? 10 milh�es de cruzeiros?
Para que ficar rico se eu vou morrer?
O homem � um bicho besta, n�o �?
A quest�o � que essa caneta tem
que ir para as m�os... de uma pessoa que saiba lhe dar valor.
Ent�o...
eu entrego, esta pe�a �nica...
� primeira pessoa que me der
dez cruzeiros.
Quem vai querer ser propriet�rio...
de uma rel�quia nacional.
Quem vai querer ser propriet�rio
de uma caneta... que libertou os escravos neste pa�s?
Quem? Quem? Quem d� mais?
Eu!
Est� bem! A� est� uma mulher decidida.
Eu tenho certeza que esta preciosidade ficar�
em �timas m�os.
Uma salva de palmas...
para quem vai proteger nosso patrim�nio.
Senhorita!
A caneta que princesa Isabel...
assinou a Lei �urea.
- Parab�ns! Parab�ns! Parab�ns! - Aqui est�.
Ah, eu vou pegar o seu troco e parab�ns pela aquisi��o.
Olha l�, �. Ele enrolou a gente.
Imagina, ele n�o contou uma hist�ria �tima?
Contou.
Ent�o... ele vendeu foi a hist�ria,
a caneta veio de brinde.
Olha, voc� tem uma marrom aqui dentro, n�o.
- Sim, sim. - Olha, vamos ver.
Essa marrom para Lei �urea, acho que � melhor.
Mas, minha querida senhorita, essa � da Independ�ncia.
Independ�ncia � um pouco mais caro.
- S�rio? - Desculpa, mas...
Voc� prefere Lei �urea ou Independ�ncia?
- Essa aqui, �. - Independ�ncia.
Isto daqui, voc� bota aqui dentro l� na pia, por favor.
O Cerezo tocou pra ele.
Cruzou dentro da �rea ele foi l� deu uma bicicleta.
Mas foi um fora de jogo, n�o?
Ele driblou todo mundo.
Vai ver quem � Roberto, t� tocando.
O Reinaldo � melhor depois a gente fala mais dele.
� o Reinaldo � melhor. Voc� j� me falou.
Quando eu vi o Cabelinho no port�o eu fiquei desesperado.
Eu n�o podia deixar ele entrar na casa dela.
- Roberto, o que foi? - E a�, pivete?
Voc� estava com saudade de mim?
- Oi. - Oi.
Eu sou amigo dele.
N�o sou?
- Qual � seu nome? - Cabelinho de Fogo.
- Eu sou Margherit. - Ah, t�.
- Legal essa casa, hein. - �.
- Voc�s se conhecem da FEBEM? - �.
E da rua tamb�m.
N�, pivete?
�...
Hmm... Escutou? Roncou! � fome...
Eu vou preparar alguma coisa, ent�o.
Se deu bem, hein, pivete?
Legal, viu?
Ela � americana, �?
Voc� sumiu, pivete.
Por que?
J� sei.
Se arranjou com a dona aqui, n�?
N�o.
Desistiu da turma, pivete.
Voc� passou no teste.
Agora, se pode fazer parte da turma.
E pra come�ar a gente d� um rapa nessa casa.
Olha aqui os passarinho, toma, esse vende r�pido.
Olha quanta coisa boa.
- Roberto, vem me ajudar aqui. - F�cil
Por favor.
Voc� nunca me falou
desse Cabelinho.
- N�o? - N�o.
- Esqueci. - Ele � seu amigo mesmo?
Roberto?
� aqui que voc� come ela, n�?
Chama ela a�.
Sai da�.
Cama grande.
Len�ol cheiroso.
Mulher cheirosa, mulher chique!
Chama ela a�, vai.
Roberto! Cabelinho!
Ela t� chamando.
Vamos pega tudo, vamo embora daqui?
Roberto! Cabelinho!
Qual �...
tem merda na cabe�a, hein?
Acha que ela vai te adotar?
Que voc� vai virar o filhinho dela?
Que vai vira branco...
Se exerga moleque.
- Isso, n�o! - Qu�? Ah, isso n�o pode?
Me d� isso a�.
"Me d� isso aqui".
- � isso que eu vou levar. - Me d� isso aqui.
- Devolve isso a�! - "Devolve!"
- Me d�. - � isso que eu vou levar.
Devolve isso a�.
Roberto!
Devolve.
Levanta seu bosta, levanta, levanta.
Fica no ch�o ent�o. N�o qu�, ent�o apanha ent�o, man�.
T� nervoso? T� nervoso? Isso ai.
Fica nervoso mesmo.
Levanta. Vem c�, vem c�.
Me d� isso aqui.
Me d� essa porra. Me d� isso aqui.
Me d� isso aqui. Me d� isso aqui.
Seu merda.
Fica com essa porra.
Fica com essa porra.
Roberto!
Voc� brigou, n�?
Nunca mais faz isso!
Nunca mais!
Vai tomar um banho!
Vai logo!
Uma semana depois a gente foi viajar.
Eu n�o sei se foi um pr�mio por causa do gravador...
ou se ela ficou com medo de alguma coisa e quis me tirar de l�.
Falta muito?
A gente acabou de sair, Roberto.
A madame n�o tem filho?
Como?
Filho... a madame n�o tem nenhum?
N�o.
Eu e o Patrick... a gente queria muito ter um filho,
mas eu n�o consegui engravidar.
Depois de um tempo a gente se separou...
ele teve uma filha...
eu nunca mais tentei.
Sabe, meu pai usava uns �culos bem grand�es assim.
Quando fazia muito frio l� em Marselha...
ele chegava em casa e o calor do aquecimento...
fazia com que as lentes dos �culos
ficassem assim como a janela.
Ele dizia...
Mon Dieu, je crois que je deviens aveugle!
Quer dizer, Meu Deus, eu acho que fiquei cego!
Ent�o eu ia correndo salvar o meu pai...
passando o dedo na lente...
e fazendo ele enxergar outra vez.
Ai ele me enchia de beijos.
Madame? Esse lugar que a gente vai vale esse caminho todo?
Voc� vai ver.
E se eu n�o gostar?
A madame vai ficar com raiva de mim.
Eu desconfio que voc� vai gostar.
A madame n�o vai falar mesmo?
T� chegando?
T�.
Mas eu vou fazer voc� sofrer mais um pouco.
Como assim?
- Que que � isso? - Chega para frente.
- Pra que isso? - Voc� vai ver.
Mas s� daqui um pouco.
Respire fundo e me diga o que sente.
Que cheiro voc� est� sentindo?
Cheiro de peixe podre.
Nada po�tico, hein.
Mas chegou bem perto.
O mar?
A� que andava o submarino do Capit�o Nemo.
- Eu posso ir l�? - N�o, n�o pode.
Era s� para voc� dar uma olhada. Vamos voltar para casa.
� brincadeira! Vai logo! Allez!
Putaquilamerda!
O Nau-ti-lus...
pas-sou o di-a na...
� "o dia na..."
su-per-f�-ci-e
na superf�cie.
- Co-mo se fosse uma... - Como se fosse uma...
- e-e-quis-po-si... - Exposi��o.
E por fim, quem pode dizer que viu de perto...
as profundezas do abismo?
S� dois homens...
o Capit�o Nemo...
e eu.
- Bravo! - Consegui.
Muito bem!
O que foi, Roberto? Vamos!
Qual o problema?
- Eles n�o vai deixar eu entrar. - Qu�?
Eles v�o me pegar.
- Quelle id�e. Allez! Viens! - N�o!
Vamos!
Viu?
Mas � que a madame tava aqui.
Vem c�.
Vem c�.
Olhe no espelho!
Por que algu�m ia te prender?
Olhe pra voc�!
Voc� n�o acha que a sua vida mudou?
Que voc� mudou?
Mas eu continuo preto.
E da�!
Quem me dera eu tivesse a sua cor, Roberto.
Deus coloriu o mundo todo...
mas esqueceu de colorir
n�s que somos brancos.
Eu sou t�o blanche...
que n�o posso tomar um raio de sol que fico rouge!
Como um camar�o!
Vermelha!
Desculpa senhores.
Isso, agora p�e o n�mero aqui embaixo.
Aqui?
Al�, oui?
Demain?
Tr�s bien, d"accord, merci. Entendu.
Cigarette, cigarette, cigarette, cigarette.
Aqui.
Merci.
Amanh� a gente podia fazer coq au vin.
N�o vai dar.
Amanh� eu vou almo�ar
com o c�nsul da Fran�a.
Com quem?
O c�nsul � um homem
que cuida dos franceses...
que est�o aqui no Brasil.
Hum... sei.
� que meu visto vai vencer.
E da�?
O visto � um documento que deixa eu ficar aqui no Brasil.
E a Madame vai ter que voltar para Fran�a?
Ainda n�o sei direito.
Mas um dia eu tenho que voltar para a Fran�a.
A minha casa � l�.
E a sua pesquisa?
J� acabou.
Daqui a uma semana? J�?!
�.
Ent�o, essa � uma conversa de despedida?
Eh, oui. C"est la fin.
Eu espero que o Roberto tenha ajudado na sua pesquisa.
Ajudou muito. E voc� tamb�m.
Vai ser dif�cil pra ele.
Vai.
Mas o Roberto n�o � mais aquele menino de cabe�a baixa...
que eu conheci, aqui na FEBEM.
O Roberto teve sorte.
N�o foi s� sorte. Foi trabalho.
Eu sabia que um menino de 13 anos...
n�o pode ser considerado irrecuper�vel.
O seu trabalho, minha amiga...
foi fazer o papel de m�e.
Voc� levou o menino para casa,
deu roupa, comida, carinho...
Eu ia adorar,
cuidar de cada crian�a...
como se ela fosse... �nica.
Mas n�o d�.
O que se faz aqui � pol�tica p�blica.
Isso aqui � uma guerra.
Uma guerra que voc�s est�o perdendo.
Ela j� come�ou perdida.
Quando uma m�e chega aqui e entrega o filho...
� porque ela j� perdeu a guerra para a pobreza.
Ela espera que a gente fa�a milagre.
A gente at� tenta.
Mas milagre � coisa que s� acontece de vez em quando.
Cigarette?
E ele? J� sabe?
N�o. Acabei de falar com o c�nsul.
Au revoir, ma Perle. Et courage.
Ela ia me odiar.
Mas era isso que eu queria
que ela sentisse por mim...
a mesma coisa que eu tava sentindo por ela.
Roberto?
Roberto?
Ah, mon magn�tophone.
Roberto?
Voc� est� bem?
T�.
Roberto, olha para mim.
N�o t� a fim de olhar, n�o.
Olha nos meus olhos.
O que � essa �gua toda?
Voc� esqueceu a torneira aberta?
N�o. Eu fiz de prop�sito.
Eu fechei os olhos e fiquei esperando o tapa.
Mas o tapa n�o veio.
Por qu�?
Porque a madame vai para Fran�a e vai me deixar aqui.
N�o vai?
Vou...
e voc� vai comigo.
Como � que eu ia sem voc�?
O que eu preciso fazer pra voc� acreditar que eu te amo.
Ela me fez enxugar a casa toda.
Mas eu nem liguei.
Foi o melhor castigo que eu j� recebi.
Essa � a famosa uva da Champagne.
Prova.
N�o � uma maravilha?
� gostosinha.
Hum, hum, hum Gostosinha!?
�. Uai.
A gente atravessou o oceano...
para provar essa uva e voc� s� me fala que ela � gostosinha?
�, s� gostosinha. A viagem que foi boa.
� melhor parte da viagem � a viagem.
Slogan de uma companhia a�rea.
Experimenta mais uma.
Quem sabe essa aqui � mais gostosa?
Tu essayes toi-m�me. Voil�!
- E ent�o? - Pas mal.
- Pas mal!? - S� gostosinha mesmo.
Voc� � um cabe�a dura.
- Sou mesmo. - � mesmo. Toi, pas moyen.
Voc� n�o vem mesmo comigo?
N�o posso. De jeito nenhum.
Eu n�o quero ir sozinho.
Toma, um presente.
Uma coisa muito importante para voc�.
Tr�s important.
- Neste envelope? - �.
Pra voc� s� abrir no Brasil.
- Promete? - Prometo
- Promis? - Promis.
Dentro daquele envelope tinha s� um papelzinho.
E naquele papelzinho tava o endere�o da minha m�e.
"...glorioso... e o rei dir�, aos que..."
"est�o � sua direita."
"Vinde, v�s que tem de sido aben�oados..."
"pelo meu pai. V�m, herdai o reino..."
"que tem sido preparado para v�s..."
"desde o in�cio da cria��o."
"Quando o filho do homem chegar na sua gl�ria..."
"e com ele todos os anjos..."
"ent�o ele se assentar� no reino glorioso..."
"e o rei dir� aos que est�o a sua direita."
Ent�o eu vi a minha casa.
E ela.
J� fazia doze anos que eu tinha sa�do de casa...
mas ela me reconheceu na hora.
Me disseram na FEBEM que os meninos s� saem de l� Doutor.
O que voc� virou, filho?
Eu vou ser professor, m�e.
Gra�as a Deus!
Deu tudo certo, filho!
Ela quis saber tudo que tinha acontecido comigo.
Eu contei a minha hist�ria para ela.
A Margherit morreu em Marselha...
quando eu tava estudando no Brasil.
Entra debaixo da passarela � direita.
Muito obrigado.
Nem deu tempo de eu contar para ela que eu acabei voltando pra FEBEM
... mas como estagi�rio.
H� muito tempo atr�s...
no ano de 1866...
aconteceu um fen�meno.
Come�aram a falar, dois pescadores um com o outro...
a respeito de um grande monstro que estava no mar.
Bom, essa � a minha hist�ria.
Ou a hist�ria que eu fiz pra mim.
Ou a hist�ria que, que eu consigo contar.
De qualquerjeito, essa... � a minha hist�ria.
Chegou Jos� e falou com ele.
Eu acho que � isso.
"Voc� j� ouviu falar do Capit�o Nemo?"
"N�o, quem que � esse homem?"
"Este � um homem muito inteligente..."
"que fez um grande submarino de ferro."
� que eu conto historia verdadeira.
Eu vou aos lugares, procuro saber
quem contou a historia...
se � de verdade se � de mentira...
se tem prova, pra documenta as coisas.
A�, eu t� vendo um tanto de menina aqui, de crian�a...
e eu n�o conto hist�ria de crian�a, n�o.
Porque eu gosto de contar mesmo,
� historia de terror...
de assombra��o, essas coisa toda n�.
Eu vou contar uma primeira historia...
pra v� se voc�s est�o preparado mesmo...
pra ouvir, essa historia.
"A Prociss�o das Almas Penadas".
Ah! Pessoal! Nessa hora ele viu a cara das alma penada
E eu vou contar uma coisa pra voc�s...
quando a gente v� cara de alma penada...
pode acontecer tr�s coisas com a gente...
ou a gente caga na cal�a...
ou a gente mija na cal�a...
ou gente cai da �rvore.
Ele fez os tr�s, ele cagou, mijou e caiu.
Ahhhh!
Ela passava o dia inteiro no fog�o
de lenha da casa dela
fazendo docinho de coco,
docinho de amendoim
quando, assim, tava pronto,
ela pegava um tacho
virava num tabuleiro, pegava o tabuleiro
ai, ai, ai. E colocava na soleira da janela.
Soleira � aquele beiral que a janela tinha
colocava para o docinho esfriar.
Quando o docinho esfriava...
ela cortava em tabletizinho...
para vender pros meninos que vinham da escola
a� vendia os docinhos,
com o dinheiro comprava mais coco, mais amendoim
comprava arroz, feij�o,
comprava as coisas para ela.
Pois pessoal, naquele dia
tava ela fazendo a �ltima
fornada de docinhos
foi ent�o que ela escutou, gente,
o barulho do vento
E o barulho do vento, foi bem assim, presta aten��o, hein...
eu vou descrever esse bicho, pra voc�s
terem uma id�ias de como � que ele �, hein?
Os bra�os parecem com bra�o de gorila...
da grossura da coxa de um homem...
que rasteja assim no ch�o...
essa m�o, gelada desse jeito
e deste tamanho...
t� parecendo... � com a m�o...
Oh! Voc� assustou?
Ah, menina!
Nem te conto! Olha...
o marambai vem hoje
Deus me livre e guarde, menina...
sabe voc� que esse bicho � muito perigoso.
Numa noite vieram tr�s ca�adores americanos
vieram armados de canh�o, bazuca, raio laser, disco laser...
micro-onda, antena parab�lica, aquelas coisas modernas...
e cercaram o bicho...
Pois quando o bicho tava cercado...
ele deu uma patada...
e matou dois dos tr�s ca�adores americanos.
S� sobrou um.
Com os olhos esbugalhados. O cabelo arrepiado.
E a �nica coisa que ele fala no hospital
l� em Massachussetes, � uma coisa assim...
Era um marambaia, my God! Era um marambaia, my God!
N�o senhora!
Eu acabei de ter uma id�ia.
S� um minutinho.
Quando der meia-noite, o tal de marambaia...
vai vir procurar o docinho. E n�o vai encontrar.
Vai querer entrar na sua casa. Por onde que ele vai entrar?
Pela porta.
Quando ele empurrar a porta da cozinha...
vai espetar a m�o nas agulhas...
vai ver essa cruz...
vai pensar que � Deus
que mandou um anjo...
para te ajudar e nunca mais vai te incomodar.
Por: B@L@
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