All language subtitles for Vedo nudo (1969).SATRiP

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Original subtitles

VEJO TUDO NU

Stop. A Koscina já acabou.

Até que enfim!

Teresa, as minhas peles, por favor!

Obrigada, querida, estou cheia de pressa.

Tilly! Onde está a Tilly?

Tilly, um pouco de pó-de-arroz, por favor!

Obrigada, querida! Adeus, "realizadorzão"!

Desculpa, mas tenho mesmo de me escapar!

Obrigada, está óptimo!

Querido Franco! Olá!

Adeus, querido! Obrigada por tudo, até amanhã! Adeus!

Senhora Agostini. Vamos, Rizzuto.

Adeus, chefes! Até amanhã!

Aviso que amanhã venho duas horas mais tarde

porque hoje cheguei a horas,

e podia ter vindo uma hora mais tarde.

Estou a ficar farta desta produção.

Ritina, querida, dá-me aquelas folhas.

Não, não quero saber.

Fica com elas. Dás-me amanhã de manhã.

Que antipatia!

Bom dia, senhora Koscina!

Pare, pare, senhora!

Pare porque está aqui uma pessoa ferida.

Para cima, ajudem-me, para cima, força, para cima, devagar, ajuda aí!

- É grave? - Parece que sim!

- Mas como é que aconteceu? - Não sei. Não vi como foi.

Meu Deus! Tentem não sujar o assento.

Meu Deus!

E onde é que o metemos? No porta-bagagens?

Devagar, devagar!

- Meu Deus! - Mas, é grave?

Sim, não está a ver? É preciso ser rápido.

Vá, senhora, vá! Fecha!

Santa Joana! Mas onde é o hospital?

A uns dez quilómetros. Sempre em frente. Vá, vá!

Era a Koscina. Será que estão a rodar um filme?

Vá, pedala! Não me esgotes a paciência!

Oiça, enfermeira, tenho aqui um ferido. Temos de ser rápidos.

- Vamos, depressa! - Então? Vai-se embora?

Agora, a quem devo dirigir-me? Por favor, militar!

- Diga, menina! - Tenho um ferido no meu carro.

- Ponha-se à vontade, por favor! - Olhe, que é bastante grave.

Irmã, temos um ferido,

diga ao Giacomo que venha dar-me uma mão.

Giacomo, depressa, faz o registo.

Muito bem, leva-o!

Digo-te que é ela. Eu cá tenho o vício de cinema!

A estas actrizes, conheço-as uma a uma.

De facto, a cara não me era estranha.

Acho que em vez de olhar para a cara só olhei para o resto!

Tu não viste que por baixo das peles estava quase nua?

Tem cá um par de... Pomo-lo aqui, irmã?

Ai, eu...

Fica tranquilo que tudo vai correr bem.

- Ai, as minhas costas! - Avisem o professor.

Eu vou lá, irmã.

la a caminho

da minha vivenda,

em Marino...

Quando alguns desconhecidos me pediram para parar

e me meteram o ferido no carro. Não sei mais nada.

Mas é mesmo, a menina?! Que honra! Permita-me: Professor Cacopardo.

Encantada!

Sargento! Temos a sorte enorme

de ter aqui connosco a famosa Silva Koscina,

e você deixa-a ficar aqui em pé,

no meio do corredor como uma qualquer beneficiária.

Não faz mal!

Como não? É um dever, menina Koscina.

Por favor, acomode-se na salinha.

- Mas, não quero incomodar, professor. - Considere-se em sua casa.

- Certamente terá muito que fazer. - Por favor!

O senhor é muito simpático.

Só a sua presença, sendo só por um segundo, ilumina...

digamos assim, este ambiente de sofrimento.

Repare, repare como olham para si. Aquele com os óculos tem uma colite.

Aquela senhora tem uma úlcera. Repare como estão contentes!

Só uma visita sua vale mais que todas as minhas curas.

A menina faz-me concorrência.

Até o meu assistente, Mazza, ficou com melhor aspecto.

Não é por acaso que é uma diva, que em latim quer dizer, divina!

Por favor, professor! Sou somente uma profissional, como você.

Como eu? Demasiado gentil!

Eu acho que há uma diferença demasiado evidente.

Mazza, de quem gostas mais, de mim ou da menina Koscina?

Professor, um homem nem sequer deve ser bonito!

- E a que devemos este prazer? - A menina acompanhou um ferido.

Um lindo gesto humanitário, a sério!

De resto, a beleza, digamos assim, está sempre a par da bondade.

Vê-se que as actrizes também têm um coração.

Ceccarelli, já está alguém a tratar desse ferido?

Sim, sim, professor. Estão quatro pessoas.

Muito bem.

Eu não vou muito ao cinema.

Sabe, nós temos um trabalho de responsabilidade,

e o tempo é pouco.

Mas os seus filmes, vi-os todos.

Sabe que a menina,

é ainda mais bela em pessoa? Se é que é possível!

- Obrigada! - Posso?

Mas, é anémica?

Não. Deve ser da sombra clara.

Ainda trago a maquilhagem de cena.

Já imaginava! Uma bela moça como você é a imagem da saúde.

A vida deu-lhe tudo!

Sim, menos aquilo que todos sabem.

Não posso ter filhos.

Com a sua abertura de bacia, com essas belas ancas.

E quem lhe diz que isso só depende de si?

Pode também ter a ver com o seu marido.

Mas, eu não sou casada.

Pois! Que tolo! Já o tinha lido na "Novella 2000".

Vou observá-la.

Claro, professor!

- Devo tirar tudo? - Pode tirar o postiço!

Não, não, não é preciso. Como não é preciso?

Com sua licença!

- O apêndice, tirou-o? - Sim, sim, está a ver?

Nossa mãe, mas o que é que está a acontecer aí nas coxias?

Agora, provavelmente, tem o ovário irritado,

pode dar-se o caso de ter-se obstruído uma trompa.

No entanto, se me der a honra de voltar

gostaria de lhe fazer um exame às trompas.

Gratuitamente, está claro!

Visto que o professor é tão simpático, vou aproveitar.

Agora, se me permite, vou ver o seu ferido.

Aquele homem deve-lhe muito. E eu também.

Se não fosse ele, nunca teria tido o prazer de a conhecer.

Venha, de caminho, mostro-lhe o meu hospital.

Obrigada, professor!

Aqui está. Este é o serviço de doenças infecciosas.

Que andará a fazer o professor que não chega?

Vou já chamá-lo.

Quer dizer que tenho de começar, eu.

Também te dói o casaco?

Aqui estão os doentes crónicos.

Sabe que a menina quase correu o risco

- ... de ter-me como colega? - A sério?

Quando estudava, na Catânia, fazia teatro,

como amador, é claro!

Até tive hipóteses!

Parabéns! E porque é que não continuou?

O que é que quer? Foi a licenciatura, depois o hospital.

Era particularmente dotado nas obras de Pirandello.

Sim! O Luigi!

Sim, sim, ele mesmo.

Mas, onde está o Pancrazi? Chamem-me o Pancrazi.

Eu vou chamá-lo, professor.

Menina Koscina, pode dar-me uma fotografia?

- Peço desculpa. Não trago nenhuma. - Então, dá-me um autógrafo?

Com muito gosto!

- Isto aqui é uma catarata? - Não. Foi um murro no olho, professor.

- Aqui está bem? - Professor!

- Lá na sala operatória, o ferido... - Estás contente?

- Quem é? - Sylva Koscina,

- ... dá-me também um autógrafo? - Sim, sim.

Dê-me também um, a mim. É para a minha netinha.

Tome atenção, menina, veja se não é uma livrança.

É tão bonita! Parece a Santa Teresa.

Cá está!

Agora, chega! Chega porque a menina já está cansada.

- Não, não. Chega, chega! - Também quero!

- Mas... - Tenham paciência!

Mais belo que isto? Nunca tires esse gesso. Vai!

- Quer beber alguma coisa? - Não sei!

Irmã Ignazia, o que é que podemos oferecer à menina?

- Agradar-lhe-ia um "Gebion"? - Não, obrigado.

- Não bebo nada fora das refeições. - Olhe que o "Gebion" lhe faria bem!

Ainda bem que não lhe ofereceram uma limonada "Rogè".

Professor, aqui está o Pancrazi.

- Às suas ordens, professor. - Então, Pancrazi?

Vejamos o que sabes fazer com aquela máquina.

- Menina, coloque a touquinha! - Que linda!

Professor, o ferido...

- Venha para aqui, para o pé de mim. - Desculpem,

- mas desapertou-se um chumaço. - Faça favor! Faça favor!

É só um minutinho.

Nua! Uma mulher nua! Vi a Koscina nua!

Não é nada, não se preocupe. Ele é muito sensível.

Prontos? Não se mexam!

Faça-me duas cópias.

Quero mandar uma ao professor Bernard.

Assim quando a vir é capaz de ter um enfarte.

Quer ver as cozinhas?

Irmã? Professor? Enfermeira?

Filhos da mãe!

E, quando tenho algum tempo livre, escrevo.

Há alguns anos, quando fazia turnos de noite,

ia escrevendo umas coisinhas.

Um livro de Medicina?

Não, não, uma história de amor.

Ideal para se fazer um filme.

Peço desculpa, professor, mas tenho mesmo de ir andando.

É uma história simples. Resume-se em poucas palavras.

Um médico jovem, enamora-se de uma paciente,

cuja beleza, sem querer ofender a sua, era única.

No entanto, a paciente era casada.

Mas o amor supera qualquer obstáculo e os dois fogem, juntos.

- É linda! - Ainda não acabou.

O marido apanha-os e durante uma cena dramática,

suplica ao jovem médico,

digamos assim, que não suje a honra da sua esposa.

A pensar que estava a agir para bem da mulher amada,

o jovem médico sacrifica-se e abandona-a.

- É lindíssima! - Mas ainda não acabou.

Uma noite, o mesmo marido chama o jovem médico

para comunicar-lhe que a esposa se tinha envenenado.

50 comprimidos "Luminal".

O jovem médico lutou toda a noite para livrar da morte a sua amada.

E finalmente, salvou-a.

Mais que um milagre da ciência, foi um milagre de amor.

- Gosto de histórias com final feliz. - Mas não teve um final feliz.

Aquela mulher com aspecto de anjo, ainda em convalescença,

acaba por fugir com um oficial de carreira.

Por ele é que se tinha envenenado.

Mas o que é que lhe está a contar?

A mesma história,

daquela vagabunda que lhe pôs os cornos?

E o jovem médico?

- Casou-se, depois? - Não.

Desiludido com o amor encontrou conforto na amizade.

Na amizade! Mas, na amizade de quem?

Do marido dela. Com o qual ainda me relaciono.

O seu guião é muito interessante.

Pode mandar-mo? Vou lê-lo com agrado. Até breve!

Ainda devo ter uma cópia. Hoje mesmo lhe mando.

- Desculpe-me. - Compõe-te.

- Até breve, professor! - Até breve, menina.

- Tive muito, muito prazer. - Vemo-nos em breve!

Adeus, menina!

Adeus, meus caros.

Adeus!

- Que bela? - Belo carro!

Não podemos distrair-nos. Está um ferido à nossa espera.

Vamos ao nosso dever.

- Onde está o Juiz DiLorenzo? - Na sala 3, mas não se pode entrar.

- Porquê? - Processo à porta fechada.

Senhora Loreta Ponente,

deseja retirar a denuncia feita contra o senhor Ângelo Perfili?

O que é que dizes?

- Não, senhor juiz. - E porque não?

- Porque fui prejudicada. - E, de que modo foi prejudicada?

Senhor juiz, a galinha era robusta e alegre.

Era paduana.

Mas desde que encontrou este malandro mau,

o que é que lhe hei-de dizer, entristeceu-se.

Mudou completamente de humor.

Já não come e dá bicadas nas outras galinhas.

E não só. Também desdenha do galo.

O juiz compreende que isto é um prejuízo.

Senhor Perfili.

O que é que têm a dizer em sua defesa?

Resumindo, eu, todas as manhãs, levanto-me às três

desde a morte do meu pobre pai.

Como eu era o mais novo,

quando foi feita a divisão das terras

deram-me as terras mais longe.

Tu conheces. Está acima do vale Fiùk.

Vamos aos factos.

Era o que estava a fazer, Sr. juiz,

porque tudo aconteceu mesmo neste meu bocado de terra.

Apoiei-me na árvore a cortar um naco de pão,

eu levo comigo sempre umas buchas de pão e mais qualquer coisa,

quer dizer, sempre hortaliças ou queijo,

porque não sou muito virado para a carne.

- É casado, você? - Não, senhor juiz. Sou jovem.

A mim, as fêmeas até vão bem comigo, mas elas não andam lá pela terra,

porque à terra, não a querem trabalhar.

Assim que têm 14-15 anos

vão para a cidade para trabalhar na fabrica.

Há para lá algumas velhas mas acho melhor nem ter nada.

Resumindo, se lhe tivesse sido apresentada uma ocasião,

você não teria ficado indiferente!

Eu não sei, não percebi, senhor juiz.

- Quero dizer, ter-se-ia casado? - Eu, sim. Sim, sim!

Havia a Filumena, a bisbilhoteira, de quem eu gostava tanto.

Andei três anos com os olhos postos nela, mas ela não me quis.

Sabe, estas mulheres de hoje têm muitas manias.

Ela queria o coiso, a...

Ai, como é que se chama aquela,

aquele armário para refrescar a comida?

A arca "frigerifica".

- Frigerifica? - Isso mesmo!

Está bem, deixemos isso para trás.

Mas diga-me, as suas experiências com as mulheres, acabam aqui?

Fale à vontade.

Quando há alguma feira

chega uma ou outra dessas prostitutas ambulantes

e dá logo vontade de ir com elas.

Mas não sei se sou um bocado bicho do mato

ou se é porque me envergonho, ou seja, não sei como é.

Metem-se a rir e não se conclui nada.

Mas isso não é justificação

para ter tido relações com uma galinha.

Bem, gosto muito de mulheres,

como é que lhe hei-de dizer senhor juiz, e agrado a todas,

mas onde estão, essas fêmeas?

- Sigamos em frente com os factos. - Sim, voltemos atrás, então!

Eu já tinha feito umas 4 ou 5 horas de enxada

e o sol começava a queimar, forte...

Sim, porque este ano, mais parece que o inferno enlouqueceu.

Atirei-me para baixo de uma planta para almoçar umas coisitas.

Mal tinha começado a comer aquele bocado de pão com queijo

foi quando ali apareceu aquela galinha.

Parou mesmo à minha frente, olhou-me e fez:

E eu nada!

Visto que eu não lhe dava muita confiança, afastou-se.

Acabei de comer e pensei em ir beber aquela água boa

e fresca da nascente, que para dizer a verdade,

ainda estava um bocado longe...

Enquanto estava nesta indecisão, eis que volta a passar a galinha.

Plantou-se mesmo à minha frente,

olhou-me olhos nos olhos e fez-me:

E eu nada, senhor juiz.

Aliás, nem sequer fui beber, até disse a mim mesmo:

beberei em casa, esta noite.

Estendi-me debaixo num bocado de sombra,

puxei o chapéu para tapar a testa...

Pensei, faço meia hora de sesta e depois vou trabalhar.

Quando estava mesmo a entrar no sono,

dei-me conta que a galinha tinha voltado.

Virei-me um bocado

e desta vez ela pára mesmo juntinho a mim.

Fez de conta que bicou em duas ou três migalhas de pão,

também me tocou na mão com uma asa

e depois mesmo na minha orelha, fez:

Senhor juiz, um homem não é de ferro!

Já percebi.

Então, considerando a particular situação de Angelino Perfili,

derivada do seu celibato forçado, e atendendo às atenuantes

causadas pela provocação grave, por parte da galinha,

condena-se o imputado

à indemnização dos danos à parte lesada.

Quanto pode custar esta galinha? Duas, três mil liras?

Duas, três mil liras! Julga que é um frango?

Uma galinha paduana, boa, pode custar até cinco mil liras!

- Ora, vai mas é coçar-te! - Está bem, cinco mil liras?

Senhor juiz, eu não quero estar agora aqui a regatear o preço,

mas se tenho de pagar, por cinco mil liras,

parece-me justo que a galinha ficasse para mim.

- Se vocês estiverem de acordo! - Eu, sim!

Cá para mim, basta que a pagues!

Ai! Recomeçamos? Eu arranco-te o pescoço, sabes?

Avó caiu escadas vem depressa.

São cinco palavras.

Desculpa, mas não é melhor: Avó caiu escadas vem.

ao menos poupamos uma palavra.

- Sim! - Registada.

Enza, desculpa, podes substituir-me por um momento?

Obrigado.

Diga lá!

- Registada! - Muito bem!

- Passas-me Bolonha? - Está aqui.

- Desculpa! - Deseja café ou cappuccino?

Cappuccino. Obrigado, senhora Carletti!

Há dias que o café me põe nervoso.

Posso chamá-lo, Hércules?

- Porquê? - Porque é o seu nome.

Sim!

É que nunca ninguém me chama pelo nome.

Na escola, na tropa e até aqui,

só o apelido e basta.

E depois o nome, Hércules, é tão feio!

Nunca o suportei.

Domingo, vou dar um passeio com alguns amigos.

Porque é que não vem connosco?

Iria de boa vontade,

mas não posso.

Menina Carletti, oiça!

A Carletti tem mesmo um fraquinho por ti.

Mas, por favor, o que é que estás a dizer?

Óptimo! Fazes bem. Não te deixes enganar!

Aquela, é da mesma raça da minha mulher.

Quer aprisionar-te!

Se já te foste salvando até agora, aguenta mais um pouco.

Estarás fora de perigo.

As mulheres são mesquinhas.

Ouve, onde é que meteste... o correio expresso de Turim?

- Toma! - Obrigado.

Se o chefe me chamar,

diz-lhe que fui dar um lindo passeio higiénico.

Vai, vai!

E depois, você esconde qualquer coisa.

Desculpe!

Não importa! Ponho-lhe o selo e meto-a no marco do correio.

Diga-me a verdade Hércules, há alguma mulher na sua vida?

Não há mais açúcar? Está um bocado forte este cappuccino.

Porque é que me evita?

Não é possível que você passe sozinho todos os Domingos!

Porquê tanto mistério?

É um amor proibido, talvez?

Veja, menina, é muito simpática e eu gosto muito de si, mas...

Mas, o quê?

Está avariado!

Boa tarde, minha senhora!

Eis a pessoa mais simpática deste prédio.

Obrigado.

Estou certa que me dará uma ajuda!

Quer que lhe leve o carrinho, minha senhora?

- Obrigada! - Não tem de quê.

Sabe, com o meu físico, é duro subir isto tudo.

- Meu Deus, quanto pesa? - Quase me convinha pegar em si.

- Oiça, tire-me uma curiosidade. - Sim.

- Em sua casa, está alguém? - Alguém?

- Desculpe, mas não entendo. - Não é que tenha pensado mal,

mas como ao meu marido lhe pareceu ver alguém por trás da janela,

pensei: pode ser a mãe, a irmã!

Estranho, porque sou órfão e era filho único, senhora.

Pobrezinho! Sinto muito!

De facto, em sua casa, nunca vi entrar e sair ninguém.

Por isso, estranhei.

Mas, o meu marido insistiu tanto!

Mas enganou-se, senhora.

Olhe que este Verão, quando a senhora estava nas termas

também me pareceu ver uma ruivinha em sua casa,

mas pensei logo: Não é possível, o senhor Armando é tão boa pessoa!

Uma ruivinha?

Bem, agora, se era essa a cor dos cabelos não posso jurar.

Obrigado pela ajuda.

De nada, minha senhora, sempre que puder, faço-o com muito gosto.

Armando, anda cá!

Fabiola!

Fabiola!

Onde é que ela terá ido?

Amor, porque é que não me respondeste?

Sabes que o Carlo Alberto escreveu?

Verás que também mandou saudações para ti.

O que é, não te sentes bem? Mas que má cara, tu tens.

Não terás ido ter com aquela gatona da escada B?

Vem cá, agora vamos ler a carta.

Caríssima Ornella,

faz hoje 4 meses que nos conhecemos.

É estranho,

nunca nos vimos e no entanto é-me natural

dizer: "que nos conhecemos".

Quem haveria de dizer,

que por causa de um gesto tão banal quase disparatado

como aquele de escrever no correio de uma revista feminina,

nasceria tanta beleza?

Agradeço-te a foto. Estás muito bonita

e também tens um olhar de malandreca.

Mas é um pouco difícil imaginar como estás agora

através duma foto de quando tinhas um ano e meio.

Não podes mandar-me uma mais recente?

Domingo, dei o meu habitual passeio de bicicleta.

Fechei os olhos e imaginei-te a pedalar ao meu lado.

Por pouco não fui chocar contra um camião que estava parado.

Quando nos poderemos ver?

Por vezes detesto o trabalho que me impede de ir ter contigo.

Responde-me depressa.

Com esperança e devoção, Carlo Alberto

P.S. Viste televisão, ontem à noite?

Passaram uma canção intitulada: "Longe dos olhos, perto do coração".

Não parece ter sido escrita para nós?

Caro Carlo Alberto,

a tua última carta, deu-me um imenso prazer

mas também me perturbou um pouco.

Perguntas-me quando nos encontramos.

Confesso que me sinto perturbada a responder-te.

Não pretendo que as minhas cartas causem em ti

um sentimento que vá para além da amizade.

Acho que estás a pedalar demais.

Mesmo que as tuas palavras me possam lisonjear,

eu prefiro que continues a ver-me

não como mulher, mas sim como amiga.

Fabiola, vem para a mesa!

Talvez eu também goste muito de ti mas,

tenho medo que quando nos encontremos

deixemos murchar a flor que cultivámos juntos.

Como diz aquele poeta de Turim: "Amo só as rosas que não colhi"...

Fabiola, não tens fome?

"Amo só as rosas que não colhi"...

Esta já se estava a queimar. Abaixemos um pouco o forno.

"e o que poderia ter acontecido e não aconteceu".

Desculpa a citação, mas sou uma romântica incurável.

A noite passada vi na televisão que na tua fábrica

chegam a fazer 500 automóveis por dia.

É incrível! Bravo! Estou orgulhosa de ti.

Não te farão trabalhar demais?

Fico contente que aos Domingos vás apanhar ar

e que passeies, mas toma cuidado.

A mim, essa bicicleta, faz-me algum medo!

Um abraço cordial.

Não! Saudações cordiais, tua Ornella.

Que cabeça! O açúcar no lugar do sal!

Que estranho! Quem será?

- Quem é? - Sou a filha da porteira.

- Desculpe, estava no duche. - São para a Senhora Ornella.

Quem é? É, por acaso, uma sua parente?

É uma prima, minha!

Como anda à procura de casa, agora recebe o correio aqui.

Se me deixar entrar eu arrumo-lhe a casa.

- É melhor, não! Estou nu e tudo! - Sabe o que notei?

Sim.

Que todos os inquilinos me deixam entrar menos o senhor.

E não estás contente?

São dezoito apartamentos ainda demoras a cá chegar.

- Está bem, vá! - Obrigado!

Cara Ornella, uma boa notícia. O director da fábrica

vai mandar-me a Roma por alguns dias. Finalmente podemos encontrar-nos!

Chego amanhã no voo das dezasseis e dez.

Vou ver-te no aeroporto? Assim espero. Teu Carlo Alberto.

Desculpe, o senhor é que é o contabilista Ribaudo?

- Não! - Desculpe!

Desculpe, o senhor é que é o contabilista Ribaudo?

Não!

- Desculpe! - Ribaudo? Disse Ribaudo?

- Sim. - Sou eu. Estava à minha procura?

Eu sou, o irmão da Ornella.

- Sinto-me honrado! - Muito gosto!

- Muito, muito honrado! - Muito gosto!

Estranho! A Ornella nunca me disse que tinha um irmão!

Mas pediu-me a mim,

pediu-me que viesse buscá-lo aqui, ao aeroporto

porque ela foi obrigada a partir de repente

por motivos familiares.

Que pena! Espero que não seja nada de grave.

Não, não. Está a morrer a tia.

Sinto muito! Mas, acha que ela vai lá ficar por muito tempo?

Depende da tia.

Sim, mas creio que ficará por lá pelo menos uma semana.

Mas, então não está a morrer!

Sim, sim, mas muito lentamente,

quero dizer, a tia é de tempera robusta,

luta e não tem muita vontade de morrer.

- Acredito! - É uma pessoa curiosa! Sim!

Mas que pena! Veja só o contratempo!

Só de pensar que fui eu que pedi ao meu director para vir a Roma

com uma certa intenção, o objectivo de ver a sua irmã,

e afinal...

A Ornella também estava muito desgostosa.

No meio da desgraça... Bom, eu agradeço-lhe.

Por favor! Era um dever. Até um dia!

Oiça, desculpe! Senhor... Como é o seu nome?

Hércules.

Hércules, sabe, como tive de partir à pressa

e não fiz nenhuma reserva,

será que me pode indicar uma pensão agradável, familiar,

onde não se gaste muito?

Sim! Aqui há muitos.

Se quiser, eu acompanho-o.

Não, não, é demasiado incómodo, por favor!

Não, não, acompanho-o com muito gosto.

Também tenho de ir para a cidade! Dê-me a sua mala.

Não permito! Era só o que faltava!

Este é um lugar modesto, mas limpo.

E não se gasta muito.

Pelo tempo que vou ficar, serve muito bem.

- Oiça, desculpe a pergunta, mas... - Diga!

- Você vive com a Ornella? - Não, não.

- Melhor, quase nunca nos vemos. - Sabe, fazemos trabalhos diferentes,

frequentamos ambientes diferentes...

Se ela voltar diga-lhe que eu vou ficar três ou quatro dias.

Se a Ornella regressar, você sabe que...

Não creio que... volte.

Às vezes nestas pensões escapa-se à aventura.

Não, obrigado. Essas aventuras não me interessam.

- Adeus. - Adeus!

Senhor Carlo Alberto!

Já me esquecia! A Ornella pediu-me que lhe agradecesse

as suas lindas rosas.

Caro Carlo Alberto,

de regresso a Roma depois das melhoras,

do posterior agravamento

e depois da perda da pobre tia,

saber que vieste cá por minha causa,

confesso-te que me deu mais pena que alegria.

Carlo Alberto, menti-te.

O homem que te foi buscar ao aeroporto não é meu irmão,

mas o homem com o qual vivo,

e do qual, mesmo não o amando, não posso separar-me

por tantas razões que prefiro nem contar.

Como vês, não sou aquela flor de pureza que tu pensavas.

Sei que estou a dar-te uma imensa dor

mas também passei dois dias terríveis.

Não aguento mais a minha cabeça.

Imagina que ontem no trabalho, coloquei numa carta registada

um selo de 5 liras.

Mas o que mais me faz sofrer é saber

que perdi um amigo.

Acredita que só preciso de amizade.

Apesar de tudo espero não perder a tua.

Continuarás a escrever-me? Assim espero, senão o silêncio...

- Bom dia! - Sim!

- Desculpe mas... - Faça favor.

Não, não, não. É que como vou regressar a Turim

e visto que estava por estes lados, pensei:

Bem, deixem-me lá tentar! Foi isso.

Sabia que a Ornella não estava

e por isso não viria incomodar ninguém.

É verdade!

Mas não sabia que você...

De facto, encontra-me aqui por acaso.

Eu só cá passei para pôr água nas flores

e dar de comer ao gato. Bem, só isso!

- A Fabiola! - Sim, a Fabiola.

A inseparável companhia da Ornella.

Mas acomode-se. Vejo que você está de partida.

Sim, o meu avião parte esta noite, já deixei o quarto.

Muito bem!

Até pensei, não sei, talvez ir comer qualquer coisa por aí

e aproveitar o tempo que me resta para ver um bocado de Roma.

Se quiser entre e acomode-se.

Como também ainda não comi, talvez...

possamos preparar qualquer coisa aqui.

A Ornella deve ter para aí algumas coisas.

- Seguramente! - Por favor!

Obrigado!

A Ornella é uma boa cozinheira,

e se me permite, é também refinada na comida.

Eu no máximo, só sei fazer uns dois tipos de esparguete.

- Se quiser, ajudo-o. - Obrigado.

Olhe que eu ainda consigo desenvencilhar-me, sabe?

Quando se vive sozinho, o que é que quer?

Para estar mais cómodo pus um par de pantufas da Ornella,

aliás como calço o quarenta e um e como para homem é pequeno...

Mas se calhar quer lavar-se, os pés, as mãos!

Faça favor! Digo-lhe onde é.

A casa de banho parece-me que é aqui, sim!

Está bem! Muito obrigado.

- Dê-me as suas coisas. - Obrigado!

Costumo meter um pouco de pimentão. Gosta?

Sabe, nós os piemonteses usamos o pimentão, muito pouco.

Sabe o que usamos muito, em vez disso?

O cravinho, a noz-moscada, a canela...

Mas, canela na matriciana!

Certo. Para mim basta que não ponha alho.

Também não gosta?

Acho que é uma coisa tão pouco delicada,

e depois quando se está em contacto com as pessoas...

É um dever mantermo-nos frescos e agradáveis, não é?

Claro! Você em que é que trabalha?

- Sou empregado dos correios. - Você, também?

- Como, assim? - Então, como a Ornella!

- Sim, e o que tem de estranho? - Não, nada. Tinha pensado que

vocês tinham trabalhos diferentes.

É verdade. De facto estou num outro posto.

Dedico-me à parte dos selos

e por sua vez a Ornella está no atendimento.

Muito bem! Não tinha entendido.

Hércules, sabe que eu e a sua irmã nunca nos conhecemos?

- Como é a Ornella? - Bem, não está nada mal!

Claro que bonita, ela não é. É feiinha!

- Mas também já tem quarenta anos. - Fico contente.

Ora bem, Hércules, olhe para mim!

Acha que uma mulher bela e jovem, poderia sentir alguma coisa por mim?

Porque pergunta isso, Carlo Alberto? Você é muito distinto, jovem...

- Chega, vá! - Obrigado!

Oiça, entretanto o que é que posso fazer?

- Se quiser ralar o queijo! - Isso, sim, muito bem!

A minha pobre mulher,

sabe, ela não era má pessoa, mas nunca me entendeu.

Pelo contrário, a Ornella, é muito diferente:

É uma outra sensibilidade!

Se soubesse como partilha de todas as coisas que me interessam!

Sabe que uma vez, até me deu um conselho

sobre uma mistura de tabaco de cachimbo que era fantástica.

Ela deve ter experimentado, antes, não acha?

Pode passar-me o sal, por favor?

- Aqui tem! - Obrigado!

- Não! Isso é açúcar. - Não, não, olhe que isto é sal.

- Está aqui escrito. É, é sal! - Pois é.

- Isso não será pouco? - Não!

Não, oiça o que lhe digo, precisa de mais.

- Basta! Já está. - Agora, está bem.

Mas, falava-lhe da sua irmã, quando escrevi a carta ao jornal,

sim, um Domingo à tarde, para não o fazer perder mais tempo.

Sabe que recebi 52 cartas com respostas?

- Sim!? - Mas se visse a diferença

entre a carta da Ornella e as outras,

sim... enfim...

Bem, era a única carta

requintadamente feminina, posso dizer.

Que se via que tinha sido escrita por uma verdadeira senhora,

era a carta da sua irmã.

Temos muitas coisas em comum, a sua irmã e eu, sabe?

Por exemplo: ela também gosta de jogar às cartas.

Sim, sim!

Uma mulher que sabe jogar "Ramino" resolve-nos as noites.

Desculpe, mas sabe Carlo Alberto, acho que está a ir muito depressa.

Se a Ornella ainda não se casou, deve haver alguma razão!

Quero dizer:

Não creio que ela tenha assim umas intenções tão definidas.

Hércules, basta com esta comédia.

Diga-me a verdade. Você mentiu-me.

Confesse!

Essa historia da tia doente,

- ... é uma desculpa, não é? - É.

E a Ornella foi-se embora porque não me quis ver.

- É isso? - Sim, é isso.

Eu devia ter imaginado.

Fui muito impulsivo. Estraguei tudo.

Carlo Alberto, olhe que arrefece.

- Sim, bom apetite. - Bom apetite!

Está doce.

Sim, devem ser as ervilhas.

- Mas não pusemos ervilhas. - Pois, não é a altura delas.

Pensava que fosse diferente a "matriciana"!

Se não gostar, posso fazer-lhe uns ovos estrelados.

Não, não, está muito boa, muito delicada,

parece um doce, um doce de esparguete.

Descreveu-me a Ornella de uma maneira tão diferente!

Tem mais a ver consigo!

Só de pensar que nem sequer

tive o prazer de provar os seus magníficos cozinhados!

Bem, não pense mais nisso, Carlo Alberto!

É "Freisa", é piemontês!

Sim, desde há algum tempo que a Ornella

prefere os vinhos piemonteses.

Porquê? Ela bebe?

Sim, infelizmente, o vinho é o seu hobby.

Às vezes até bebe duas garrafas à refeição.

- Saúde! - "Prosit!"

Sim!

Sabe, quando a minha pobre Rosinha morreu eu sofri muito.

Sim, foi?

Sim, mas depois, foi como uma sensação de liberdade.

- E, depois de quanto tempo? - Logo após o funeral.

Fechado! Quanto pagas?

Estava a jogar, a uma. Fechaste?

- Menos vinte e dois. - Aponta, aponta!

- Estou a apontar! - Dá-me tempo. Queres verificar?

- Não, não. - Então, não confias?

- Chega! Era só o que faltava! - Menos vinte e dois.

Não, mas a Rosinha,

tenho muita pena de o dizer, era um pouco materialista.

- Materialista, como? - Enfim! Vou fazer-te uma confidência:

Sabes que queria fazer amor a toda a hora?

Até mesmo, duas e três vezes por mês?

É incrível!

Nunca se podia falar,

ouvir música ou ler.

Com a Ornella é diferente.

É que... senti logo uma inteligência tão apurada,

tão fora do comum numa senhora.

Foi então que pensei:

aqui está a senhora que gostaria de ter sempre ao meu lado.

É tão verdade que, por isso

até pedi a minha transferência para Roma.

Como? Sem nunca a ter visto?

Olha que eu não estou à procura de nenhuma aventura.

A Ornella, como é que te posso dizer?

Gostaria dela, até se fosse coxa, vê bem!

Eu preciso de uma pessoa que...

que esteja sempre ao meu lado, que me faça companhia.

Tu deves de agradar às mulheres, não?

Sim, ocasiões nunca me faltaram.

Mas é muito difícil encontrar uma alma gémea, sabes?

E se uma mulher não te satisfaz espiritualmente,

como é que fazes para "coisa e tal"?

Mas que cartas me calharam!

Olha bem como coraste?

E depois ainda dizes que a Ornella é tímida!

Não! Isto deve ser do Whisky.

Não estou habituado, bebo sempre leite.

É a tua vez.

- Dá-me mais uma pinga, vá! - Claro!

- O café... está a vir por fora. - Espera, não saias daí, eu vou lá.

- Vais tu? - Sim, deixa-te estar.

- Obrigado. - Aliás já começo a habituar-me à casa.

- Já cá estou! Já está. - Bravo!

Ouve, já o deitei nas chávenas, fiz bem?

- Sim, fizeste bem, claro! - Ora, dá-me uma ajuda.

- Cá está! - Espero que esteja bom.

- Quantas? - Não, nenhuma. Eu tomo-o amargo.

- Sim? Pois eu gosto dele doce. - Pouco.

O café é melhor doce. Já está.

- Obrigado. - Não tens de quê!

- É a vez de quem? - É a tua vez. Eu já atirei a carta.

Sim, cá está ela, finalmente! Fechado.

Quanto pagas?

Quer dizer, eu já estou sem nada... ganhaste quase sete mil liras.

Tens sorte!

É estranho! Pus três colheres e ainda está amargo!

Não! É que é muito forte este café.

Vou por mais duas. Esperemos que fique mais doce!

É da marca "Ammazzacaffè".

Agarra na tua mão, cigana...

diz-me que...

Que destino terei!

Destino terei.

Bravo! Bravo! Cantas muito bem, bravo!

- Eu ando no coro de Stupinigi. - Percebe-se. Que belo timbre!

Mas que mal-educados, estes cá em cima.

Não. É que eles não estão habituados a ouvir vozes masculinas.

É, mas que coisa! Parece que se está numa prisão.

- Pois, sabes... - Fica bem um pouco de educação!

Olha a Fabiola!

Não me parece que se tenha divertido muito.

Ela está habituada à música clássica.

A Ornella só toca Mozart e Chopin.

- Este é o pobre pai? - Não...

- Esta é a mãe. - Era uma bonita senhora!

- Tinha varizes, era um bocadinho forte. - Sim?

- Não, desculpa, não te ofendas! - Claro que não.

Como estava a ver ali uma sombra debaixo do nariz...

Não, é mesmo um bigode. Não é uma sombra.

- Tinha um bocadinho de bigode. - Sim? É por isso.

Desculpa! Será que o pintor se enganou e fez um retrato do teu pai?

Não, pelo contrário, o pai não tinha um pelinho de barba.

Bom, tenho de ir andando.

Espera, dou-te as 6000 liras do jogo.

Bem, na verdade seriam sete.

Mas não o vou consentir.

- Chega, olha que me ofendes. - Está bem, não insisto.

Bem, devo dizer-te que passei uma noite fantástica.

Agradeço-te do fundo do coração.

Obrigado. Também eu. Há séculos que não conversava tanto!

Afinal, posso dizer que esta viagem não foi inútil.

Pois é, terei perdido a Ornella, mas encontrei um amigo.

- Também te agradeço. - Sabes, tenho cá uma sede!

- É do sal. - Como?

É uma carência de sal. É lógico que não reténs os líquidos.

Quando me transferir para Roma,

logo nos vemos. - Está certo!

Falamos por telefone.

Telefona-me. Tenho muito gosto.

Agora tenho de ir porque tenho medo de perder o avião.

Não. Se te despachares não o perdes.

E depois se o perderes, não faz mal porque amanhã até é Domingo.

Mas, sabes que estive quase para ficar, estive quase!

Até porque a Juve joga aqui amanhã!

- Ah, pois! - Ouve, não gostavas de ver o jogo?

Sim! Roma - Juve!

Claro! Mas não! Agora já deixei o quarto.

Que pena!

Não sei, a não ser que, só por esta noite,

se não te importasses, eu ficava em tua casa, não?

Claro! Mas como é que não pensei nisso antes?

- Aliás, só por uma noite! - Então vamos, vá!

- Onde é que vais? - Para tua casa.

Para minha casa?

Não disseste que por uma noite... Vá veste o casaco. Vamos lá!

O casaco... pois para casa...

Vou contigo. Onde é que moras? O quê?

- Não, quero dizer, vives perto? - Não. Não vivo perto.

Aliás, vivo bastante longe, é só isso!

Não importa. Apanhamos um táxi. Demoramos dois minutos. Pago eu.

- E o jogo também, amanhã, pago eu. - Apanhamos...um táxi...

- Então? Arrependeste-te? - Não, não, estava a pensar...

Olha, se estou a incomodar...

Não, não incomodas nada... Não, eu estava a pensar:

Já que aqui estamos, só por esta noite ficamos aqui,

- em casa da Ornella. - Não, aqui não sei se posso...

A Ornella ia ficar muito feliz. Sabes o que fazemos?

Tu podes dormir na cama da Ornella e eu arranjo-me num dos divãs.

Não. Na cama da Ornella, e ela não está cá...

Eu não... quer dizer, nem mesmo se ela cá estivesse,

quero dizer, de modo nenhum, até parecia...

Tenho cá uma sede, uma azia, desculpa!

Ora bem, obrigado.

- Achas melhor, aqui? - Sim!

- Carlo Alberto! - Sim?

Espera! Dou-te uma toalha lavada.

É um pijama da Ornella, aliás aqui, quem é que me vai ver?

Ouve Hércules, gostava de fazer-te uma pergunta um pouco delicada.

Se calhar nem tenho esse direito,

mas sei que posso falar contigo de homem para homem, não é?

Estás seguro de que a tua irmã não tenha uma relação?

Não, é que isso explicaria tudo.

Porque é que perguntas isso, desculpa?

Não sei.

Porque há aqui uma atmosfera, nesta casa, exactamente,

como se de vez em quando aqui passasse um homem.

Olha, por exemplo, agora vê, quero dizer,

esta lâmina de barbear o que pode querer dizer?

Deve ser da Ornella.

Sabes, ela é ruiva, tem um cabelo forte,

herdou-a da mãe...

Mas asseguro-te de que a Ornella não tem amantes.

Não, não. Eu acredito.

Se não precisas, meto-a no lugar.

Fabiola! Vem, vem cá, vem!

É chá de tília é maravilhoso para dormir.

Sim!? Obrigado. Queres um cigarro?

Não, obrigado. Eu não fumo.

- Fabi, vamos dormir! - Muito bom!

- Mas tu também fumas na cama? - Sim, porquê? Incomoda-te?

- Não, não, fuma, fuma! - Se quiseres, apago-o.

Não! A bem dizer, é só por uma noite!

- Ali tens a perazinha da luz. - Obrigado.

- Boa noite, então! - Boa noite.

Carlo Alberto!

Eu preparo o café, todas as manhãs às sete e meia, para mim.

Essa hora está bem para ti?

Sim, está muito bem. Mas sem açúcar, está bem?

- Boa noite, Carlo Alberto. - Boa noite, Ornella.

Outra mulher vítima do sádico monstro de Spoleto.

Tudo por causa do festival.

Se na escola, conseguisse encontrar uma substituta,

também vinha para cá...

Olha o que te digo, vê se vens depressa.

Afinal o que é que ficas a fazer em Roma depois dos funerais?

Trabalho não vai faltar.

Tenho de fazer companhia à tia Adelina, pobrezinha!

Mas, nunca mais de dois dias. No máximo, três.

Sim, sim, fica tranquila. Dá-me a mala!

Se vir o Francesco em Roma, o que é que lhe digo?

Diz-lhe que pare de escrever

e que nem pense em vir cá porque é inútil.

- Mas ele é tão bom rapaz! - Mãe, não fales nisso,

sabes bem que me incomoda falar dessas coisas.

Mas tens de fazer pela vida. Já tens vinte e cinco anos.

Queres acabar como a tia Cornélia que morreu aos 70 anos,

solteirona e vestida de branco?

Agora, vai-te embora, vai já para casa!

E faz como te digo, fecha bem a porta!

- Ouviste bem? - Sim!

Com todas as coisas que andam a acontecer por aqui não estou tranquila.

Seis são as vítimas do terror ontem vivido sádica e ferozmente...

Dê-me um café, por favor, mas não muito forte,

ou melhor, um vermute, duplo.

A única sobrevivente, aquela que poderia ter sido a sétima vitima

é a jovem Orlandina Bassi, à qual vamos fazer algumas perguntas.

Menina Orlandina, já se recompôs do choque do incidente?

Bem, realmente foi uma péssima experiência...

Na sua opinião, como é que, ao contrário das outras mulheres,

que acabaram por não resistir ao sofrimento, você sobreviveu?

Enfim, que lhe posso dizer? Trata-se de um sádico.

Excita-o ver as mulheres completamente nuas.

Então, acha que as outras vítimas se recusaram?

É lógico!

Estás a ouvi-la? Quem a tem e não a dá pode bem rebentar!

Foram umas estúpidas.

Se calhar, começaram a gritar e mostraram resistência.

E, no seu caso, menina?

Eu?

Eu fiquei calada, calada e fiz tudo o que ele me dizia...

- Tudo? - Tudo, sim!

Porquê? Você o que é que fazia no meu lugar?

E aqui está o retrato robô da cientista

que retrata o rosto do assassino.

Cabelo escuro, lábios suaves, nariz regular...

sobrancelhas fartas, sardas no rosto.

Roma. É elevadíssima

a adesão à greve das gasolineiras.

- Por favor, minha filha! - Desculpe, padre.

Já é tão difícil, para nós!

Desculpe!

Cesira!

- Cesira! Já chegou o leite? - Sim, menina, já o vou levar.

Obrigado. Deixo-lhe a porta encostada!

Ponha a garrafa em cima da mesa, por favor,

e fique atenta à porta porque o puxador está estragado.

- Fiquei com ele na mão. - Mas, você, quem é?

- Trouxe-lhe o leite. - É o leiteiro?

Não, foi a porteira que me pediu.

- Depois, eu arranjo-o. - Depois, o quê?

Depois de fazer o que tenho para fazer, que é mais urgente...

Mas, o senhor deve fazer o quê?

Bem, parece-me... que tenho de lhe arranjar o telefone.

Mas, o meu... o meu telefone funciona.

Eu sei. Realmente eu não queria...

mas infelizmente fui obrigado a vir.

Peço desculpa. É a ligação dupla que não funciona

e a avaria está na sua casa.

Mas agora vou ter de sair!

Sim, mas agora não pode sair!

Nem eu, nem a senhora, mas se concordar, eu despacho-me depressa

e assim é melhor para ambos.

Mas, você tem manchas na cara?

Acho que não. Sardas!

Isso sim, e tenho uma nódoa negra!

Cá está! Foi num dia em que bebi demais!

Tenho de vir um bocado para aqui.

Depois ponho-lhe tudo no sítio.

- Posso usar estas? - Não!

É inútil, eu cortei a linha,

infelizmente não pode fazer chamadas.

Isto é melhor do que as tesouras.

Obrigado.

Tem um pano? Não quero sujar o chão.

Não, não corra, nem sequer há pressa.

Santa Teresa do menino Jesus, ajuda-me tu.

Esperemos que... Não!

Não julgava que fosse preciso tanto fio.

Não! Vou fazer como a Orlandina.

Prende-me! Não vou oferecer resistência.

O que é que tem? É do tipo nervoso?

- Onde a ponho? - Onde quiser,

basta que não me faça mal. - Não, não... Eu faço devagarinho.

Nunca pensei que fosse assim tão fácil.

Bem, muito difícil não é.

Não olhe, menina? São umas mãos calejadas!

Pois são, mas têm um estranho fascínio.

Sinto um arrepio, só de as ver.

As mulheres sempre te fizeram mal, não foi?

A bem dizer, não!

Mas nenhuma me fez tanto bem como a senhora.

Como era a tua mãe?

Era do Abbruzzo.

Radiojornal.

Chegam-nos agora notícias de Spoleto.

Durante uma dramática caça ao homem levada a cabo toda esta noite,

foi finalmente preso o sádico assassino

que aterrorizou durante mais de três meses aquela região,

e que matou barbaramente seis mulheres jovens.

A captura foi feita de madrugada num local

onde o assassino se escondia...

Não percebo qual é a necessidade de estrangular uma mulher

quando é afinal tão fácil...

Bem, já está a chegar a hora de ir andando.

- Em que pensas? - Não! Eu estava a pensar

que ainda tenho de acabar a instalação.

Podes voltar amanhã.

Amanhã estou de folga.

Volto depois de amanhã, minha senhora...

Ai, desculpe, menina!

Desculpe, gostava de saber se o rápido Paris-Roma,

das 22 e 40, está atrasado!

Obrigado.

Também vais sair, esta noite?

Sim. Tenho de ver um amigo.

É um almoço de trabalho, aliás, bastante importante!

- Almoço? - Eu já almocei mas volto a almoçar.

As mentiras ferem uma mulher mais que a própria infidelidade.

Inghe, tu sabes que não sou capaz de dizer mentiras,

não me peças para as inventar.

Tenho sempre que inventar uma?

No fundo, se estás dividida, é problema teu,

tu é que sabes.

- Já chegámos a este ponto? - Não o digo por mim.

Tu sabes bem que eu não quero... mas entendo. A situação é difícil.

Seja como for, tu sabes que gosto de ti,

mesmo existindo estas coisas entre nós.

Lógico, se pudesses ter um pouco de paciência...

Antes, demonstravas tanta!

Agora ficaste ciumenta como uma italiana.

Está na hora, vou andando.

Está? Olá, Giulia!

- Sim, esta noite, também. - Sabes o que acho?

Acho que tu até tens muita sorte.

Pensa naquele porco do meu marido,

que até à Giusi, lhe comprou um apartamento.

Ao menos o teu, o dinheiro, não o desperdiça.

Sim, tens razão. Acho que sou uma burguesa,

mas há coisas que não entendo.

Vê-se que não conheces bem os homens.

Todos, olha, todos, do primeiro ao último, têm vícios...

O teu, ao menos, volta sempre para casa.

É jovem, bonita,

mas falta-lhe a coisa mais importante num matrimónio.

E isso, é culpa minha?

Faz-me rir, o psiquiatra!

Diz: é uma espécie de fetiche, é normal.

Há pessoas que até se apaixonam por sapatos.

Tenta dar-me uma explicação mas não me explica nada?

O caro psiquiatra da treta...

Os fetiches, os sapatos...

comigo tudo começou quando andava a pôr minas

debaixo dos tanques, isso é mais forte do que os sapatos.

O que acontece é que agora se já não tenho aquela excitação,

já nem me sinto... nem me sinto um homem, é isso!

E já que não experimentei ir com as mulheres...

E nem sequer eram da má vida,

eram as melhores amigas da minha mulher!

Aos 40 deve chegar, aos 32 já cá deve estar.

Se não se atrasar ao sair de Brennero e não meter o disco vermelho...

Será o 628 ou o 619?

Bom, aquela locomotiva põe-me doido!

Antes, a locomotiva a vapor era uma outra coisa,

sentia-se a respiração que nos perfumava a cara...

quase nos beijava.

Bem, vem adiantada!

Cá está ela! Cá está! Está a chegar!

Qual é esta? Pelo som, não é a 619.

Detesto! É a primeira vez que não a reconheço!

O que é que me estás a fazer? Sua má!

Linda! Toda em ferro! Locomotiva minha, mas quantas carruagens trazes?

Esta noite, parece que não têm fim!

Deixa estar.

Amanhã, mando-o para a lavandaria.

És uma pessoa muito boa.

Desculpa fazer-te sofrer, mas isto é mais forte do que eu...

Eu não sei o que me acontece quando oiço aquele som!

Maurizio, tu precisas de repouso. Porque não fazemos umas férias?

Vamos para uma pequena ilha! Ao menos lá livras-te de tudo.

Não é a fugir que deixo de me lembrar.

O que é que se passa na tua cabeça? O que é que sentes?

Não te percebo, Maurizio!

Não posso crer que estejas apaixonado por um comboio.

Não, não tem nada a ver com sentimentos.

Com o tempo, vais ver:

Se ficares do meu lado, eu vou conseguir!

Durante a última greve dos ferroviários já sofri muito menos.

É o 315: Roma, Milão, Mónaco.

Maurizio, não me digas que também estiveste com o comboio de Brennero!

Não, Inghe! Não houve nada entre nós.

Foi um simples conhecimento.

Juro-te.

Põe-lhe um fundo amarelo. Assim dá mais nas vistas!

- Olá, Margareth! - Olá!

- Mostra! Porque é que te vestiste? - Esse relógio, mostra-o lá!

Mas quem é que se vai importar com o relógio?

O que é que estás a dizer?

Não estamos a fazer o reclame do Philipe Watch?

E achas que a esta, lhe vão olhar para o pulso?

Leva estas coisas daqui! Desculpa!

Vejamos! Vira-te um pouco.

Muito bem, linda menina! Assim, como se te quisesses tapar,

com a mão à altura do banquinho. - Mas não fica natural!

Mas assim já olham também para o relógio.

Como é o slogan?

Tirem-me tudo, mas não me tirem o meu Philipe Watch.

Tirem-me tudo, mas não me tirem o meu Philipe Watch.

Não. Fica melhor: Sem o meu Philipe Watch, sentia-me nua.

Mantovani, preparaste-me aquela maqueta?

Sim, está pronta!

Obrigado.

- Gostas? - É uma ideia antiga.

Já aparecia num filme, há 30 anos.

Isso é o que tu pensas, se tu escrevesses:

Quando não estou nua, visto lingerie suave, leve como um sopro,

as pessoas sopram, estás a ver?

E assim talvez já comprem as cuequinhas!

- Doutor, estão a chamá-lo ao telefone! - Vou já!

Olha, o carrossel das botijas, Rosy, não lhe agradou. Protestaram!

Então, filma só a botija sem a rapariga, enche-a de água,

assim ainda fica mais sexy.

Depois, põe-lhe uma bela voz de mulher, a dizer:

Chamo-me Rosy, sou fofa, sou quente,

leva-me para a cama contigo. Só custo mil liras.

Boa, essa é boa!

Mas, se tiveres mais alguma ideia, também não me ofendo.

É sobre o directo, doutor.

Sim? Alguém tem qualquer coisa para a dor de cabeça?

- Eu tenho um Mindol. - Sim, obrigado!

- Sim? - Luísa?

Podia deixar-me uma mensagem em casa, no atendedor automático.

Posso ir buscá-la esta noite?

Não?

O quê? É uma ideia fantástica!

Fico à sua espera. Até logo!

Olha que com essa estás a perder tempo,

há já três meses que anda a brincar contigo.

A Marcè? Essa não é como as outras meninas com quem te dás, sabes?

Esta tem classe. Toma!

Depois, amanhã, conto-te.

Estou, Nanni! Fala a Jennifer.

Acabei de chegar de Londres e estou a ligar-te.

Se não estiveres morto, liga-me esta noite.

Muitos beijinhos.

Nanni, fala a Françoise. Vi que me telefonaste.

Pensei nas coisas boas que tens

e acho que queres aquilo em que estou a pensar.

Exprime-se mal mas entende bem.

Nanni, estás a ouvir? Fala o Carlo. Só te digo uma coisa, é muito feio...

Diga por favor, menina!

O Capuchinho Vermelho perdeu-se no bosque e tocou à porta da avozinha.

Você é a avozinha ou o lobo mau?

Sou a avozinha! Não se está a ver?

Entre, entre, Luísa! Não se assuste, não tenho intenções de comê-la!

Estava a ver que ainda não era desta que aqui vinha!

Mas você está toda encharcada!

Adoro caminhar debaixo de chuva.

Sim? Dizem que a chuva é um óptimo afrodisíaco!

- Que disparate! - No entanto, parece que sim.

O cenário ideal para uma cena de amor.

Espero que venha aí um dilúvio.

- Uma casa interessante... - Sim.

- Tem a ver consigo. - Acha?

Elegante, acolhedora, libertina, bastante banal...

- Whisky? - Não bebo.

Então, eu também não bebo. Um cigarro?

- Não fumo. - Ai!

Não bebe e não fuma!

E o que é que podemos fazer de agradável?

Conversar.

É a melhor maneira de nos conhecermos melhor.

Mas não é a única. E a noite é longa.

Mas não para mim. Tenho de voltar cedo para casa.

Às 11, vai telefonar o meu namorado, de Milão.

- Às 11, como? Já são 10! - Tão tarde?

O que está a fazer? Vai-se embora?

Não, mas temos de nos despachar senão chego atrasada.

Está certo. Não, aí é o terraço.

Visto que chove, é melhor no quarto.

Entretanto, vai-te despindo... eu ponho uma música.

Espera, Luísa!

Desculpa, mas tenho mesmo de me ir embora.

Não. Desculpa-me, tu! Juro-te que uma coisa assim,

nunca me tinha acontecido. - Deixa, não te preocupes.

- Pode acontecer a qualquer um. - E tinha de acontecer logo a mim?

Não devo estar bem!

Desde esta manhã que estou com uma dor de cabeça!

- Qual é o teu signo? - Carneiro.

Pois, tu, Carneiro e eu, Leão!

Se calhar não coincidimos astrologicamente.

Mas, já estive com tantas do signo Leão

e sempre foram para casa satisfeitas.

Uma coisa assim, se a contarmos, ninguém vai acreditar.

Por isso, é melhor nem contá-la, não te parece?

Ok, não conto a ninguém! Adeus!

Adeus!

Ao menos concede-me uma outra visita!

Com muito gosto.

Mas, vê lá se encontras um parceiro para jogar.

Acabámos de transmitir o terceiro episódio do romance adaptado:

"A Cabana do Tio Tom"

Por hoje, a nossa programação acaba aqui.

Voltamos amanhã, pelas 8h30 com a Tele-escola.

Senhoras e senhores, desejamo-vos uma boa noite.

- É estranho! Nem sequer falam... - Do quê?

De ontem à noite. Viste televisão?

- Não. - Se soubesses o que perdeste!

Imagina que, no fim da transmissão, a apresentadora,

sabe-se lá o que lhe passou pela cabeça,

Senhoras e senhores, boa noite...

e mostrou os seios.

- Nus? - Completamente.

- Não acreditas? - E o que é isso? É alguma anedota?

Hugozinho! Tu viste televisão, ontem à noite?

Sim. Vi até ao fim.

Chega aqui.

E a apresentadora com os seios nus, não viste?

- A apresentadora com os seios nus? - Mas, então estamos a progredir,

isso é melhor do que a televisão a cores.

Resumindo, viste-a ou não? Quando fez...

- Não. - Mas como é que é possível?

Se estavas à frente do televisor, tem lá paciência!

Viste-a de certeza.

Mas, doutor, eu apaguei-a quando apareceu a antena na imagem

e isso eu não vi.

- Esta noite, vou ver melhor. - Já percebi. Só eu é que vi.

Quer dizer que estou doido.

Desculpe.

Mas, quem é que está dentro da minha banheira?

Ninguém. Quem é que poderia estar?

Quem é que poderia estar?

Estou? Sou eu, a Greti!

Estou a falar para o meu belo e forte macho italiano?

Não! Enganou-se no número.

Na rubrica desta quarta-feira desportiva,

transmitimos do estádio olímpico de Roma

o encontro para a Copa de Itália:

Roma - Internazionale.

Os nossos programas "acabem" aqui por hoje

perdão, rectifico, "acabam".

Voltamos amanhã pelas 8h30 com a Tele-escola.

Aula do terceiro ano.

Senhoras e senhores, desejamo-vos uma boa noite.

Depois de tudo o que disseste,

acho que se trata de uma forma de alucinação

que deriva de todos estes bombardeamentos de nudez

que nos têm caído em cima,

e principalmente, a ti, na tua profissão.

Trata-se evidentemente de uma intoxicação de natureza sexual.

Seja como for, eu não me queixava. Estão bem pior os alcoólicos

que vêem ratos e morcegos. - Tu vês mulheres nuas.

O pior é que também vejo as feias.

Se soubesses o que anda para aí!

Não. Mas o que me preocupa...

é uma outra coisa.

Eu explico-te.

A fantasia é o elemento fundamental da nossa vida sexual.

Por um lado, tique: a imaginação.

Por outro lado, taque: a actuação do desejo.

Tique, taque...

Eu, o taque, já não tenho.

É lógico que, em ti, este equilíbrio se quebrou.

O teu cérebro só dispara como uma máquina fotográfica louca.

Ou seja, só faz tique.

Mas eu também quero fazer taque!

Olá, pai!

Gabriela, não cumprimentas o Nanni?

Já venho.

Cresceu muito, a Gabriela!

Acho que percebi essa questão da máquina fotográfica louca,

o equilíbrio quebrado, mas pergunto: como se ajusta isto?

Olha, entretanto, vou dar-te uma medicação,

mas o melhor seria um bom período de repouso.

É fácil de dizer!

Vai andar de mota, faz um desporto.

É muito importante, nestes casos, melhorar o físico.

E, por algum tempo, não penses em mulheres.

Isso é demais!

Com leite ou limão, Nanni?

Com limão, obrigado.

Gostava de saber:

Essas visões, essas imagens, são a preto e branco ou a cores?

Olha que não se trata de um filme, ouviste?

São aparições que surgem de vez em quando e de repente.

Estou a perceber.

Só perguntei porque li num tratado

que essas imagens costumam aparecer em cenários estranhos, específicos...

Por exemplo, com uma cor alaranjada,

como o vestido da minha mulher.

Federi, eu não vejo o vestido.

Rita, não te importas de sair?

Está bem conservada, a Rita. Não tem uma pontinha de gordura.

Pelo menos, poupa-me os comentários.

Olá, Nanni!

Desaparece!

Já está!

Tens razão, Federico,

o desporto é o melhor remédio.

Sinto-me mesmo bem.

Nanni, onde vais?

Vou tomar um duche, frio!

Vá, está bem!

O que é que está a fazer?

Desculpe, mas pensava que estava a ver uma mulher nua.

- Feche! - Fecho!

Bom dia, doutor!

Super!

Quanto?

Encha!

O óleo está bem?

Sim.

Então, o que foi?

Vi uma rapariga que estava a guiar completamente nua.

- Acha possível? - Se tiver carta de condução!

Está bem!

Vá, vá! Toca a circular!

O que é? Uma mosca?

Não, não. Conheço bem as moscas.

Boa noite!

Um, dois, três, quatro...

Bitte fraulein, feche as cortinas por favor.

- O que é que vê? - Mulheres nuas.

- E aqui, o que é que vê? - Uma mulher nua.

Só vê isso?

- Uma outra, nua. - Onde?

- Dentro da casa e está a pintar. - O que é que está a pintar?

Mulheres nuas.

Aqui também vê uma mulher nua?

Não, agora são duas. São as Kessler.

Incrível, esta é mesmo seca!

E agora?

Professor, o que é que eu devia ver? Vejo o que lá está!

São duas mulheres nuas com uma tampa na cabeça.

Por hoje, chega.

Obrigado, professor.

- Casa. - Casa.

- Porta. - Porta.

- Janela. - Janela.

- Tecto. - Teta!

Desculpe.

- Estrada. - Estrada.

- Praça. - Praça.

- Fonte. - Fonte.

- Obelisco. - Umbigo.

O que é que eu disse?

Vocês só pensam numa coisa, nesta clínica!

Uma mama... passa!

O que lhe sugere esta?

Um amor mercenário.

Porquê?

Bem, uma rapariga tão jovem a beijar um velho,

certamente que não o faz para se divertir.

Não confunda as suas ideias.

Isto é para tratamento de gente importante!

Fraulein, como vão os sonhos dele? Andam agitados?

Não fala quase nada durante o sono. Esta noite só disse porrca.

Terei dito porca!

Não se preocupe com a pronúncia.

Obrigado, professor.

O que é importante

é que você está a melhorar rapidamente.

Flor, grinalda, gineseu, pétala, pernas.

Caule!

Estrada, praça, fonte, obelisco.

Casa.

Casa, porta, janela, tecto.

Pêra

Pêra, figo, maçã.

Que coisas são estas?

Duas garrafas verdes, vazias, com tampa,

de três quartos de litro.

Não. São de um litro.

Que bonito!

E isto?

Um pôr-do-sol no cimo de uma montanha.

E o que é aquele ponto pequeno?

Um alpinista na encosta

depois de escalar uma passagem de sexto grau.

Fiz muito montanhismo em jovem, sim...

Isto, já vimos?

Sim.

Diga-me, então... O que é que vê?

Bem, vejo tantas coisas.

Um prato, um gato, a Lua.

- Não vê uma mulher nua? - Sim, vejo.

Mas há tanta flor, grinalda, gineseu, pétala, pernas

casa, porta, janela, tecto.

Bom, você está completamente curado.

Agora vem a prova mais difícil.

A conta da clínica.

Obrigado, menina.

Você ajudou-me muito.

Prefere pagar em francos ou em dólares?

Prefiro em letras de câmbio.

Não sei o que é.

Muito bem, aguardo-o em Londres.

Sr. Hardy, trabalharei bem para si. Não se preocupe.

Não se preocupe!

Obrigado! Até breve!

Menina, acompanhe Sr. Hardy.

- Adeus, boa viagem. - Obrigado.

Carlè, como estás? Regressei há poucos dias.

Estou muito bem. Nunca estive tão bem!

Então, vemo-nos esta noite! Adeus!

Marcè, vem cá.

Olha que bela ideia!

O frigorífico Ignis até se vende no Alasca.

Parece-me um pouco pobre.

Sim!?

E se lhe puser um pinguim?

- Ainda fica pobre. - Então meto-lhe dois.

- Então, façamos uma coisa. - Sim.

Colocamos uma bela rapariga.

Metes-lhe uma casaca curta, um cilindro e as pernas nuas...

Marcè, não te entendo.

Porque é que temos de mascarar uma rapariga de pinguim,

quando há pinguins verdadeiros?

E depois basta com essa publicidade erótica.

O público já está cansado.

Já não se aguenta ver tantas mulheres nuas...

A DIVA

AUDIÊNCiA À PORTA FECHADA

ORNELLA

O MIRONE

A ÚLTIMA VIRGEM

LOCOMOTIVA MINHA!

VEJO TUDO NU

Tradução: ESPIRAL CRIATiVA

Legendagem: MEDIA RECORDING

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