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A Condenação (O Processo do Desejo)
Olhe: querem tirar uma foto de nós.
Este efeito extraordinário de circularidade...
de movimento infinito...
Se viram bem, debaixo parece que reproduz o DNA.
E, embutidas na parede da frente, há outras colunas.
Ele já percebeu que está acontecendo algo incrível...
absurdo. Transformou-se, nas suas mãos.
Observem seu olhar espantado com essa transformação...
que, obviamente, o faz perder o objeto do desejo.
Bem, podemos seguir.
O que houve? Se perdeu?
Esta é uma sala famosa pelos incríveis efeitos acústicos.
Se vocês se colocarem nos 4 cantos da sala...
Sim, nos 4 cantos. Alguns em cada um. Sussurrem...
qualquer coisa, ouvirão tudo. Portanto, cuidado.
Sandra, venha ouvir.
Não se distraiam.
Venham. O museu vai fechar.
Por que olha com tanto interesse?
O olhar do menino me impressiona.
É como se ele tivesse medo que alguém...
possa impedi-lo de mamar.
Não me parece amedrontado.
É o olhar de Leonardo, o inventor, o gênio.
Um seio é outra coisa para ele, não pode condicioná-lo.
Esse olhar exprime uma intuição profunda do mundo...
um nascimento que não corre mais perigo...
no sentido que o seio de nenhuma mãe...
jamais pode afetar ou limitar sua criatividade.
O que faz aqui?
Sabe que estamos presos aqui dentro?
venha. talvez ainda tenhamos tempo. Pode haver alguém.
E agora?
Não podemos ficar aqui a noite toda.
Nunca viu o castelo à noite?
No escuro não se vê nada.
Não existe o escuro absoluto, um pouco de luz sempre há.
Venha, não tenha medo.
Nos museus, preocupam-se em iluminar tudo.
Por exemplo: um quadro deve ser visto em toda sua superfície.
Sob uma luz objetiva. plana, econômica...
que não faça nenhuma sombra.
Enquanto que esta luz parcial, mas viva...
dá uma profundidade diferente...
quase a ilusão de movimento.
O professor tenta me violentar no escuro.
Você é mais forte do que eu.
Pode fazer o que quiser.
Talvez nada.
Por que parou?
vê aquela estátua? É bonita porém imóvel, como você.
Como eu?
Sem dúvida você se mexeu muito.
Mais do que sentia. certo?
Tive medo de não sentir nada...
e que você notasse.
Venha.
Já que me violentou...
agora venha.
Busco sempre uma imagem...
as curvas e a candura de uma mulher bonita.
Busco a demissão de uma mulher que as obras de arte não me dão.
Agora você é uma imagem imóvel como um quadro de Goya.
O meu desejo nada quer de você.
Meu impulso é lhe dar vida...
violentá-la para lhe dar movimento como um menino que nasce.
Você tenta me destruir, como faz um menino que nasce.
Mas eu sei que te amo, pois nada quero de ti.
És comparsa nesta noite entre todas as imagens imóveis.
E jamais comparo uma mulher entre imagens imóveis.
As lembranças tornam-se vivas e viram estátuas.
Te amo, pois destruirei o quadro de Goya. Depois me farás em pedaços...
como se faz com estátuas. Pois apenas me restará a lembrança de ti.
Eu não queria te olhar,...
e te pegar por trás, sem te ver.
Mas tu te virastes.
Teu rosto foi como o sol para um vampiro. Semeastes o amor em mim.
Amor pelo teu rosto, que está num corpo que ainda não vive.
Escuta minha súplica inútil, deixa-me fazer.
Eu te darei o meu corpo, sem o qual não posso viver.
Podemos ir.
Aonde?
Embora. Eu tenho as chaves.
Sou o advogado de Biasi. Defensor do réu.
O Tribunal está em sessão.
Processo Colaianni. A defesa.
Advogado Gregório.
A parte cível. Advogado Tassoni.
Colaianni, Lorenzo...
Arquiteto, nascido em Roma em 13 de dezembro de 1946...
residente e domiciliado na Rua Balestrari, nº 1 0. Acusado de: a>>...
a>> infringir o art. 65 do Código Penal;
por ter privado Alessandra Celestini...
da liberdade pessoal; e b>> de infringir o art. 519...
por ter coagido, com violência e ameaça, Alessandra Celestini...
à conjunção carnal, em Roma, no dia 4 de junho de 1989.
Aproxime-se, arquiteto.
Sente-se.
E então, arquiteto?
Ouviu as acusações?
Confirma as declarações feitas no inquérito?
Pode não responder às perguntas. É seu direito.
Nas suas declarações no inquérito...
refuta...
a acusação de violência carnal.
E alega que Sandra Celestini foi... consenciente.
Consenciente.
Sim. Livre e consenciente.
Não me expressei assim.
Disse, substancialmente,...
... embora tenha utilizado palavras diferentes.
Não falo de consenso. Ser consenciente significa...
Escolher livre e conscientemente uma determinada ação.
Só que, na relação sexual, liberdade e consciência...
de certo momento em diante perdem importância...
... são obstáculos.
A beleza do ato sexual está no grau de inconsciência...
que o homem e a mulher, juntos, conseguem atingir.
O senhor disse "de certo momento em diante".
Logo, há um antes e há um depois.
Mas antes... antes daquele certo momento...
Sandra Celestini estava...
de acordo? Se não consenciente, estava de acordo?
Talvez não, mas não tem muita importância.
Posso admitir, tranquilamente, ter coagido Sandra, tê-la forçado...
mas sem tê-la violentado. Isso não.
Mas não se perguntou, antes ou durante, tempo não faltou...
''Estou agindo bem?'' ''Estou agindo mal?''
Não tive nenhum conflito moral.
Nenhuma dúvida...
Alguma hesitação? Algum escrúpulo? Não.
Pondo de lado a violência carnal...
lhe parece normal, razoável...
escolher um museu público, à noite...
para atos sexuais?
Não é normal, nem razoável. E talvez seja ilegal...
mas não houve violência nenhuma perante o Código Penal.
- O que lhe dá tanta certeza? - O orgasmo de Sandra.
Para você fazer amor é um sofrimento?
Pense em mim. Pense em mim!
Entenda-se. O senhor insiste que não houve...
violência carnal porque Sandra Celestini teve...
um orgasmo.
Mas como pode provar isso?
O orgasmo não é demonstrável, como uma lei científica.
Nem há como descrevê-lo.
E quanto mais inconsciente, mais lindo.
Fica apenas um vestígio no íntimo de quem o sente.
Perdoe-me a ingenuidade da pergunta,
mas por que a Celestini o denunciou, se foi tão lindo?
Pela força.
Eu disse, não foi decisão dela.
E as chaves?
O que me diz das chaves?
- Simulou que não as tinha. - Não simulei nada.
Não era obrigado a dizer que tinha as chaves. Era um fato privado.
Além disso...
- fiz de propósito. - De propósito.
Sim. Para obrigá-la a ficar.
Então a sequestrou. Isso é sequestro.
Não. Sandra voltou a subir livremente. Ficou trancada dentro livremente.
Eu apenas não lhe disse que tinha as chaves.
E se tivesse dito, ela teria querido sair?
Não se sabe.
Talvez desejasse ficar.
E por que, se ainda não a havia encontrado?
É uma hipótese.
Todavia, a Srta. Celestini estava numa situação...
de inferioridade.
A inferioridade é ligada a não ter coragem de assumir o próprio desejo.
Renunciemos às suposições e às interpretações.
Limitemo-nos aos fatos. Voltemos ao relato.
- Podemos começar do início? - Como queira,...
mas nada se esclarecerá com um relato.
Por quê?
Uma descrição material, rica em detalhes, ainda que exatos...
se tornaria grotesca, falsa.
Será falsa.
Mas não prejudicaria.
Anote-se que...
o acusado se recusa a responder mais perguntas.
Há perguntas para o acusado? Nenhuma.
A parte cível? O promotor público?
Volte ao seu lugar, arquiteto.
Faça entrar a testemunha.
Aproxime-se.
Deve prestar juramento.
Ciente da responsabilidade que com o juramento assumo...
juro dizer a verdade, nada mais que a verdade. Diga: eu juro.
- Eu juro. - Sente-se.
Devo interrogá-la sobre coisas delicadas.
Conte como se sucederam os fatos.
Sim.
Eu estava visitando o Museu do Castelo Farnese.
Com colegas.
Na saída, me sobreveio um receio.
Estava certa de que havia perdido as chaves do meu apartamento.
Voltei a entrar, para procurá-las.
Tive medo.
O museu...
estava completamente deserto.
Mas precisava encontrá-las, ou não teria para onde ir.
Ao voltar, lá dentro, me perdi.
Não consegui achar o caminho para a saída.
Já estava quase conformada a passar a noite no castelo...
quando aquele homem surgiu, subitamente, às minhas costas.
Perturbou...
imediatamente, a calma que eu havia alcançado.
Ele era...
provocador...
na sua impassividade...
como...
como os maníacos que escondem suas intenções violentas.
Depois foi muito correto.
Mas sua correção abalava a minha segurança...
como se, através dos...
dos gestos ou...
dos movimentos habituais...
ele...
fizesse alusões ou estimulasse...
a ânsia de uma violenta sensualidade.
E eu tinha razão.
De fato, tentou na primeira vez...
me pegar por trás.
Depois se afastou.
Mas na segunda vez...
sim...
me violentou.
Ele...
me jogou sobre o sofá, com violência.
Depois me insultou,...
dizendo que. .
que eu não era capaz de fazer amor.
E, na terceira vez...
ele...
se aproveitou da minha fraqueza...
e, me vendo indefesa, me possuiu...
sobre um leito no qual eu me deitara para repousar.
Ele...
Ele tem uma autoconfiança...
que impõe a sensualidade, mesmo se a mulher tentar resistir.
Sem fazer longas falas...
ou simplesmente falando de arte...
remexe os sentimentos mais íntimos, que temos direito de esconder.
E é verdade...
que usou sua força física, ainda que não para me machucar.
Mas sabia que eu não podia me defender, que eu não podia fugir.
Sabia que eu não podia escolher conscientemente...
e com lucidez, o que eu queria fazer.
Era ele que tinha o poder.
E as chaves.
Que não quis dividir comigo.
Me obrigou...
mesmo sem recorrer à violência...
a relações sexuais que somente a mim caberia decidir ter ou não.
E me feriu...
ridicularizando minhas dificuldades sexuais.
E não foi bom...
na sua busca absurda e violenta...
por uma beleza impossível.
É tudo.
Não me desejas. Por que fazer amor à força?
Para ser pior do que antes?
Não percebes que me faz mal?
Acha que o arquiteto é culpado?
Não digo isso.
Mas está convencido de que é.
- Eu não disse isso. - Já disse. Duas vezes.
O que eu disse duas vezes?
- Esqueça. - O que eu disse duas vezes?
Tenho certeza de que ele não a violentou.
O que te leva a acreditar na Sandra e não no arquiteto?
Ela me pareceu sincera. Sincera.
E o arquiteto reconheceu tê-la forçado, coagido.
- Não é a mesma coisa. - E o que é?
Você é um estuprador! Acreditar na Sandra lhe convém!
Como assim, estuprador?
Me violenta cada vez que me ilude! E me ilude sempre!
- Sempre? - Não é nenhuma novidade.
Nunca me disse.
Não me refiro à sua capacidade sexual, que é normal.
Falo de uma coisa muito diferente.
Você não se importa.
Sabe tudo. Vê tudo.
Tem tudo sob controle.
E chama isso de desejo?
Você tem que me levar ao orgasmo! Você!
Porque orgasmo eu não posso ter sozinha!
Não entende isso?
Giovanni, você nunca será um estuprador.
Infelizmente, nunca será.
- Infelizmente? - Sim, eu disse infelizmente.
Antes me acusou de estuprador, e agora reclama por eu não ser.
Você entendeu.
Você entendeu.
Você vai me enlouquecer.
Eu quero que enlouqueça! Quero!
Quero te fazer ficar louco! Ao menos uma vez!
- Como? - Descubra você.
Isso não faz sentido.
Falo por mim!
- Por quê? - Não pergunte sempre por quê!
Giovanni...
Este processo...
se baseia em um direito fundamental: o direito de propriedade...
e, em particular, no direito de propriedade do nosso corpo.
Todo ser humano...
livre...
normal...
é dono absoluto de seu próprio corpo.
Respeitando a liberdade alheia, cada um pode fazer o que quiser.
Até mesmo atirar-se da sacada, se quiser.
Lorenzo Colaianni...
indiscutivelmente, negou esse direito...
essa liberdade de escolha, a Sandra Celestini.
Todavia,
pode se objetar...
que, em algumas circunstâncias especiais, quando se diz "não" se quer dizer "sim"...
e vice versa.
Que a intenção pode ser o contrário do que é dito.
E, sobretudo,...
que a pulsão inconsciente...
podem ser o contrário da intenção consciente.
Pulsão inconsciente que, enquanto tal,...
... não deveria ser punível.
É esta...
a ameaça...
ao princípio da responsabilidade individual...
de que falei no início.
E, a essa ameaça,...
não se pode fugir se não nos esforçamos em manter...
uma separação rigorosa entre a parte consciente e a inconsciente...
e escolhermos ficar do lado da consciência!
Ou nos arriscamos a não poder mais julgar!
Eu me esforcei para compreender...
as razões de certos comportamentos.
Por exemplo,...
é difícil explicar, racionalmente, como e por que...
Sandra Celestini...
ficou trancada naquele castelo.
Pode-se até formular a hipótese de que ela...
deixou se trancar, voluntariamente,...
para encontrar o Colaianni. Mas é uma hipótese sem fundamento,...
pelo simples fato de que ela jamais o viu antes!
Resta, pois, o fato...
racionalmente inexplicável.
A presença de Colaianni não é, porém, inexplicável.
Pelo detalhe das chaves. Esse detalhe...
determina duas situações totalmente diferentes.
Sandra não tinha como sair do castelo. Colaianni tinha.
Sandra estava presa no Castelo, mas não Colaianni.
Sandra estava em situação de inferioridade perante Colaianni.
Essa diferença entre as situações e a personalidade de Colaianni...
são elementos que constituem a premissa de uma violência sexual...
que é muito diferente da violência do estupro sobre a qual lemos...
cotidianamente nos jornais e que normalmente julgamos aqui.
Mas que foi realmente violência sexual...
no sentido mais profundo do termo! E isso porque Sandra...
naquela situação não era livre para decidir se verdadeiramente queria ou não...
ter relação sexual com Colaianni. Mas Colaianni, sim, ele era!
Ademais, Colaianni já admitiu...
tê-la forçado, obrigado, a ter relações como ele desejava!
Como se o fim de Colaianni não fosse o próprio prazer sexual...
mas o prazer de obrigar Sandra a fazer uma coisa que ela jamais aceitaria...
conscientemente e voluntariamente!
E depois...
com que prepotência assume essa... autoridade...
esse direito, esse poder!
E tudo em nome da beleza.
Da beleza inconsciente...
do orgasmo.
Silêncio, por favor!
Silêncio.
Silêncio.
Continue, senhor promotor.
Prossiga, por favor.
Me desculpem.
Por favor, prossiga.
Sim. Peço a este Tribunal...
a condenação de Lorenzo Colaianni...
à pena de 2 anos e 6 meses de reclusão...
e ao pagamento das despesas processuais.
E proponho que seja concedida liberdade provisória.
Com licença.
Monica!
Espere!
- Escute. - Fez de propósito.
Está louca! Isso é paranoia!
Me deixe em paz.
Não admito que duvide da minha boa fé!
Não sente, é normal.
- É uma culpa? - Não sei.
Conversaremos depois.
- Acabou. Não insista. - Isso eu não aceito!
Acabou!
E não me siga!
Não me seguiu. É um idiota. Não há nada a fazer.
Sua peça acusatória não me agradou. Dá margem a apelação.
- Colaianni foi condenado. - A sentença não é tarefa nossa.
Essa manhã observei você.
Você não parecia um promotor público.
Estava irreconhecível, apagado!
Sua peça acusatória foi, juridicamente, insignificante.
Você é um promotor público! Essa é a sua parte!
E não é cabível...
Não é cabível que um promotor tenha que se justificar.
Sim, porque, em um certo momento, tive a impressão...
de que você queria se justificar perante o réu.
Deu-se conta de que falou por apenas 6 minutos?
Um processo tão importante e você fala por 6 minutos?
Eu não devia ter aceitado esse caso. A apelação...
A apelação. Cuidado.
Faltam 3 dias. Sim, sim.
- Boa noite. - Boa noite.
Mas que boa surpresa!
- você está linda. - Obrigada.
- É muito gentil. - É a verdade. Vamos dançar.
Boa noite.
Ei, não. Isso é demais!
Passe um guardanapo.
Aguarde um momento.
Preciso falar com você. É importante para mim.
Leu os jornais?
Alguns.
Se minha presença lhe incomoda, me retiro imediatamente.
- Não tomarei muito do seu tempo. - Tenho tempo. Estou totalmente livre.
Essa sua segurança lhe custou caro.
O que foge à norma, paga-se sempre.
Eu pago pela minha normalidade.
Eu gostaria que você me explicasse por quê...
Não se surpreenda com a minha pergunta.
Por que...
ontem à noite, em uma festa...
Sandra Celestini, diante de todos, jogou um bolo na minha cara?
- Essa é mesmo boa. - De acordo, mas por que eu? Não tinha motivo.
Mulher coagida reage, depois cede.
Não se pode coagir uma mulher a fazer o que não quer.
Eu não seria capaz. É contra o Direito Natural.
A lei se fundamenta no Direito Natural.
E eu, sabendo que não sou capaz,...
poderia me tornar um estuprador.
Até a Monica me acusou disso.
Monica é minha companheira.
Ou melhor, era.
Segundo Monica, eu seria...
sou um estuprador...
pelo fato de não saber fazer.
Por não saber fazê-la chegar ao orgasmo.
Mas eu jamais ficarei louco só porque quero!
O que devo fazer?
Eu nunca 'fiz' nada. Trata-se de ser de certo modo.
Mas o que significa ''ser de certo modo''?
Significa ser o oposto das mulheres. Jamais ser como elas.
Diversidade e solidão.
Solidão interior...
e, às vezes, material.
Elas têm um segredo que não entregam espontaneamente. Tem-se de coagi-las.
Mas ficam felizes em terem sido...
'violentadas', e não o conhecem mais. Pelo contrário,...
elas o denunciam. E talvez tenham razão.
Aqui é um torreão. O teto é de cedro do Líbano.
Ao centro vemos o brasão do Cardeal Farnese.
A saída é por aqui.
Como se faz para ficar louco por uma mulher...
e fazê-la perder a cabeça?
Desejá-la mais que qualquer outra coisa.
Não ver nem ouvir nada além dela.
Vencer sua resistência sem engodo, somente com a força do desejo.
Monica voltou.
Agora as coisas estão melhores.
Mas, na realidade, nada mudou.
Falta a beleza.
A beleza que há na inconsciência mais absoluta.
Mas lhe confesso que me parece impossível.
O impossível tem um preço.
Se teme a condenação, jamais conseguirá.
Que condenação? Por que me condenariam?
Uma condenação inevitável.
A beleza é aceita enquanto confinada nos museus, imóvel, contemplada.
Mas lhe dar vida, corpo, ação, movimento,...
é uma ideia intolerável para a sociedade ''normal".
você tem que descobrir se prefere não ser condenado...
por não fazer tanta questão de encontrar a beleza,...
ou se não a alcança por medo de ser condenado.
Outro dia fui ao Museu.
E acho que vi Sandra. E depois...
quando o Museu já tinha fechado,...
eu a vi em uma janela...
no Castelo.
É possível ou terá sido uma ilusão?
Todos ao trabalho!
Eles a machucaram? Por sorte eu ouvi.
Nesses casos é preciso agir sem pensar em nada.
Do que está falando?
- Não era violência? - Isso não é violência.
Então era o quê?
O que era?
Nunca serei como o arquiteto, eu sei.
Mas estou condenado a tentar.
A ir até o fundo, nesta procura...
que me mantém vivo. Eu sinto.
Senão, morrerei.
E nisso não há piedade.
Não, não há piedade. O desprezo das mulheres é real.
O da prostituta perante a impotência do cliente...
não é diferente do desprezo afetuoso e inconsciente...
da boa esposa que adormece nos braços do marido...
após cumprir o dever conjugal. Ambos fiéis a sua mediocridade.
Paridade e igualdade são tolices.
Os homens têm a ereção e o dever de exercitar essa potência...
mesmo sem nosso consentimento.
Mas nunca acontece.
Porque depois têm medo de perder a cabeça.
Medo de que uma violência descontrolada os leve ao delito...
ao estupro.
Medo da condenação...
e do ódio das mulheres.
O arquiteto teve sorte porque a sociedade o condenou.
O obrigou a pagar.
Ou se paga esse preço ou se corre o risco de pagar com a loucura,...
a noite que jamais tem fim.
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