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Legendas: Luís Filipe Bernardes
"Qualquer homem mais correto que seus vizinhos constitui uma maioria de um."
BROOKLYN ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA DO NORTE
# Seus lábios dizem não, não #
# Mas seus olhos dizem sim, sim #
# Sinto falta dos seus beijinhos #
# Só porque não fui sabida #
Bertha!
Bertha!
- Essie? - Uh-huh.
- Já estou indo. - Uh-huh.
Se não fosse pela dieta, podia servir-se de uns bombons.
Uma coisa é certa, falou em bombons eu perco o controle.
Grande coisa, ficará em forma um dia mais tarde.
- Olha o gelo que você pediu. - Que lindo!
Presente de Natal do meu filho.
Estava em oferta.
Muito prático. Vou esvaziar para devolver.
Não, eu te empresto. Vai causar boa impressão.
Boa impressão pra minha filha e meu genro, desde quando?
Se importa se eu fumar um mentolado?
Todo dia você muda de marca.
Estou experimentando com filtro.
Melhor que isso é não fumar.
Sou viciada.
- Essie. - Hm?
Por que está fazendo hora? Não tinha compromissos?
É o que sempre digo, faça-os esperarem.
Não espere mais do que deve.
Devem ser os meninos.
Entrem, entrem.
- Oi, Alice. - Oi, mãe.
- Jerry! - Oi, mama, como vai?
- Alice, Alice... - Oh, mamãe!
Me deixa olhar para você.
Nossa, como você está jovem.
- Qual é o segredo? - O de sempre. Água quente com limão.
- Parece cansada. - Um bom banho resolve.
- Que bálsamo para meus olhos, Jerry!
Oh, mama...
- Vamos, deixa eu... - A partir de amanhã...
eu é que farei dieta de água quente com limão.
- Olá, Alice! - Oh, olá, Sra. Rubin.
- Jerry, você conhece a Sra. Rubin. - Claro, prazer em vê-la, Sra. Rubin.
Igualmente.
- Como foi a viagem de Washington? - Teve um pouco de turbulência.
- Vieram de avião? - Sim, mas não queríamos te contar.
Ainda bem que não soube. Como estão seus pais, Jerry?
Ótimos. Vamos levá-la para jantar lá amanhã.
Veremos... Tome um drink, querido.
Pegue gelo no lindo balde que Essie me emprestou.
Que bom ter vizinhos tão prestativos.
Talvez não seja por muito tempo.
Essie está pensando em se mudar do Brooklyn.
Para Manhattan. Um apart-hotel
Custa um pouco mais, mas meu filho diz que vale a pena...
voltar a morar num bairro decente.
Qual é o problema com este bairro, Sra. Rubin?
Passe pela Avenida Nostrand e verá.
Aquela gente está vindo pra cá. Está cheio deles.
Que gente, Sra. Rubin?
Você sabe, Gente de cor, porto-riquenhos...
É mesmo?
Lembro que há poucos anos não permitiam judeus neste mesmo bairro.
- O que uma coisa tem a ver com a outra? - Tudo.
Sra. Rubin, a única maneira de acabar com preconceitos...
é acabando com eles dentro de nós mesmos.
Juro que não é questão de preconceito.
Só não gosto de morar perto deles.
Mas essa é a questão. Não gosta de morar...
Que tal levar as malar para o quarto, Jerry?
Esvaziei o armário e duas gavetas da cômoda.
- Está bem. Vou me barbear. - Depois a gente come.
- Foi um prazer conversar com a senhora. - Igualmente.
Seu marido é bastante argumentativo.
Em relação a esse assunto, com certeza. E eu também.
Que tal alguma coisa para beber ou comer?
Se tiver, estou morta por uma soda de cereja preta.
Tenho. Não vai morrer tão cedo.
- Você também, Essie? - É diet?
Se quer diet beba água.
Água tônica diet!
Vai viajar novamente, tipo Costa Rica ou México?
Se for para onde nos mandarem.
Sua mãe preferiria que ficasse por aqui, vá por mim.
Não dá para Jerry arranjar trabalho aqui mesmo?
Como diplomata ele recebe ordens como qualquer outro.
- Ah, entendo. - Alice!
- Sim? - Esqueceu de trazer meu creme de barbear.
Alice!
Jerry precisa de creme de barbear. Tem dentro do armário do banheiro.
Também tem giletes.
Não estou encontrando.
Com licença, Sra. Rubin.
Pode estar na cara deles que nunca veem.
Se faltar um produto na farmácia é só chamarem sua mãe. Quanto remédio.
Ela gosta de estar preparada para emergências.
Como é possível não encontrar isto?
Ah.
- A Sra. Rubin ainda está aí? - Uh-huh.
Livre-se dela com jeito. Enquanto isso faço minha barba...
e você conta nossos planos para sua mãe.
Essa não, seu covarde.
Preciso de você para apoio moral.
Na minha modesta opinião seria melhor se contasse em particular.
Contar o quê, Jerry? Que vamos levá-la conosco?
Sabe que isso é impossível.
Se é impossível então vamos enfrentar isso juntos.
Não demora.
Dessa vez vê se raspa direito debaixo da narina esquerda.
- Toma, querida. - Obrigada.
- Você é um amor, mamãe. - Mal sabia o que comprar.
Seu pai usava navalha e David um barbeador elétrico.
Agora creme de barbear vem em lata feito creme chantilly.
- Você quer, Essie? Tenho muito. - Ah, não, obrigada.
Vou reservar meu apetite para um martini.
Tenho que pegar minha bicicleta.
Ah... agradeça seu marido pela conversa realmente estimulante.
Tchau!
- Tchau, Sra. Rubin. - Tchau, Bertha.
- Tchau, Essie. Coma bem. - Uh-huh!
Bem, Essie se foi, agora podemos falar.
Tem alguma coisa para me contar, Alice?
Tenho sim, mãe. Mas quero que Jerry esteja presente.
Talvez nem precise ele estar aqui.
Talvez sua mãe seja vidente.
Janeiro? Dezembro? Vou ser avó, é isso, Alice?
Não, mamãe.
- Você consultou o médico? - Sim, mamãe. Está tudo bem.
- Não vai precisar se operar? - Não!
Ele me prescreveu uma série de exercícios.
Exercícios? Agora é assim?
E um monte de pílulas.
O que precisa é de muito descanso.
Olha quem fala. Você é que devia se poupar mais.
Por que aceitou aquele emprego?
É meio expediente. Dois dias por semana.
Meio expediente ou não...
precisa tomar o metrô e ficar em pé o dia inteiro.
Sabe que fico preocupada.
Gosto de me manter ocupada.
Ademais, pesa menos nas suas finanças e me sinto melhor.
Não fale assim, mãe. Mesmo trabalhando minha vida toda eu nunca...
Shhh!
Alice, posso te perguntar uma coisa?
Sabe que dia foi terça-feira passada?
Sim, mamãe. Foi aniversário da morte de David.
Não esqueci.
Acendeu uma vela yahrzeit?
Lembra do dia em que foi convocado e o levamos até o metrô?
Sabe do que esqueci? Dos guardanapos.
Preparei a jantar preferido do Jerry.
Carne assada, sem banha. Sei que ele não gosta de gordura.
- Kugel de batata. - Que maravilha.
Ervilhas e cenouras.
E com a economia que fiz no bolo de limão...
comprei creme para Jerry tomar no café.
Creme? Depois da carne?
Acompanho os anúncios de televisão. Preciso ser moderna.
Jerry não se importaria.
Sei que ele gosta de creme no café.
A família dele nunca seguiu kosher.
Às vezes me pergunto por que observo essa dieta.
Mas acho que tenho a resposta.
Lembra da piada do seu pai?
Ainda bem que não gosto de espinafre...
porque se gostasse comeria e detestaria.
Também sou assim.
Então, qual é a novidade do Jerry?
Só posso dizer que Jerry foi promovido.
Grande Jerry. É como dizia seu pai...
um dia ele ainda chega a embaixador.
Para seu pai ele já era embaixador.
Parece que estou ouvindo seu pai dizendo para seus amigos...
'Meu genro embaixador agora está na França'.
Como seu pai pregava mentira falando do Jerry.
Oh, mãe...
Sabe do que precisa?
Enxaguar o rosto, ajeitar o cabelo e retocar o batom.
- Gostei dessa cor. Qual é? - 'Heavenly Persian Melon.' Pode ficar com ele.
Não, pra mim prefiro 'Bachelor's Carnation.'
Mãe, o que você vai vestir no jantar dos pais do Jerry?
Como pude esquecer? Tenho uma reunião importante.
É no Comitê de Meios e Recursos e eu sou a presidente.
Pois acho que outra pessoa terá que bater o martelo.
Quero que venha conosco.
Escuta, gosto muito do pai do Jerry.
Mas eu e a mãe dele...
Onde está escrito que famílias de noivos têm que se gostar?
Mãe, estou-lhe pedindo, por favor.
Jerry tem que contar à família sobre o novo cargo...
- ... e quero que esteja conosco. - Quando vou saber sobre esse novo cargo?
Você vai?
Está bem. Levarei minha agulha de crochê.
- Alice! - Sim?
- Que tal me preparar um drink? - É pra já.
Também quer um, mãe?
Sim, uma água tônica com Dr. Pepper.
Não vem com essa, você bem que bebia antigamente.
Só em casamentos e Bar-Mitzvahs.
Vem pra cá. Vamos conversar com Jerry.
Pergunte se ele quer me ver.
Precisa de permissão para entrar no seu quarto pra ver seu genro?
Um homem sem calças não gosta de ver sua sogra.
Bata.
Vamos entrar.
Vem, mãe.
Adoro cheiro de loção Bay Rum.
- Jerry. - Obrigado, querida.
Mamãe está louca pra ouvir a novidade.
É um cargo novo? Onde, em Washington?
- Jerry, não sente na colcha! - Pode sentar, Jerry.
É à prova d'água.
Mama, finalmente saí do serviço consular
e vou para uma embaixada como adido econômico.
- Que embaixada? - E foi promovido de Classe 5 para 4.
Melhora conforme os números descem?
Significa que começa com $9,025 por ano...
e chega a $10,630 daqui a três anos.
Já é alguma coisa. Mas onde?
Mama, não sei se entende como funcionam essas promoções...
Pois diga.
Após avaliarem meu desempenho decidiram me dar esse pulo.
Só me contaram ontem e Alice e eu saímos para celebrar.
Me deixa celebrar também!
Jerry vai ser adido na nossa embaixada no Japão.
Japão.
É uma grande oportunidade. Trabalharei na equipe do Sr. Noah Putnam.
Ele vai negociar grandes acordos comerciais com o governo japonês.
E Jerry fará um briefing em Washington antes de embarcarmos.
Quer dizer que será removido para Tóquio.
Isso mesmo, mãe.
E viverá com as pessoas que mataram seu irmão.
Sei como se sente e como é difícil, mas já faz tanto tempo.
O mundo mudou. Estamos na era espacial.
Antigos inimigos se tornaram amigos importantes.
Vai ser o fim do mundo se continuarmos alimentando esse ódio.
Talvez se possa ensinar isso nas escolas.
Não odeiem mais os japoneses. São nossos amigos.
Não odeie mais os alemães, eles são nossos amigos.
Eu não sei onde ir para aprender esse tipo de coisa.
Para mim é como se fosse ontem à tarde.
Você é jovem, Jerry.
Ainda dá para aprender.
Vamos ficar fora três anos.
Corta o coração saber que ela ficará aqui sozinha
longe daqueles que ela mais ama.
Ainda está pensando em levá-la conosco, é isso que está dizendo?
Sim, querido, e podemos fazê-lo com um mínimo de economia.
Isso é o menos importante.
Mas e ela? Trata-se de uma mulher que viveu quase a vida toda no Brooklyn.
Ademais, uma vida bem fechada.
Como pretende transplantá-la para um país estrangeiro?
- Mas, Jerry... - E não é um país qualquer.
É o Japão.
- Ela ficaria tão animada de viajar... - Em um mês isso passa.
E os três anos restantes?
Mas Jerry, Tóquio fica do outro lado do mundo.
Suponha que eu engravide.
Não seria ótimo tê-la por perto?
Não seria?
Seria ótimo se estivesse grávida.
Só acho que não é tendo sua mãe por perto que isso vai acontecer.
Só sei de uma coisa. Me faria feliz.
Alice. Jerry.
- Sim, mãe? - Jerry...
Não quer comer alguma coisa para ajudar a bebida descer?
- Obrigado. - Jantaremos daqui a uns 15 minutos.
Esqueci de aquecer as ervilhas e cenouras.
Jerry, não agi muito bem há pouco.
Não te parabenizei pela promoção.
Fiquei me recriminando na cozinha.
- Me desculpe. - Não tem por quê, mama.
- Não precisa se desculpar conosco. - Jerry tem razão.
Vivemos uma nova era com espaçonaves, mísseis, foguetes.
É só pegar o jornal e outro torpedo foi lançado.
Já tem tantos lá em cima que está tudo congestionado.
Imagine só se colidirem. Nem quero saber, não é da minha conta.
Também não é da minha conta se as pessoas querem ir à lua.
Só peço que não me reservem uma passagem.
É difícil aceitar esse mundo novo, mas é preciso conviver com ele.
Parece que tudo mudou.
Tudo menos uma coisa.
Meu amor por você, Alice.
E meu amor por você, Jerry.
Vamos, prove os aperitivos.
- Mama. - Hm?
- Que tal vir conosco? - Já disse à Alice que iria aos seus pais.
Não é disso que estou falando. É de Tóquio, Japão.
- Alice, isso é alguma piada? - Não, não é piada.
Alice quer que venha e eu também.
Japão? Como posso morar no Japão?
Podem fazer turismo, compras...
- Tem milhões de coisas pra fazer. - E estaríamos juntas.
Me tranquilizaria tanto.
Tem alguma coisa que me faria mais feliz, hm?
Agradeço o convite.
Obrigada.
Mas acho que não.
Não... acho que não.
A que distância fica o Japão?
Cerca de 15,000 km.
Oi.
Jerry!
Bom dia, bem-vindos à American Airlines,
voo 17, direto para San Francisco.
O tempo de voo será de 5h 47m.
O Capitão Jones lhes dará maiores informações sobre nosso voo.
A pressão da cabine é controlada para seu conforto.
Em caso de alteração a máscara de oxigênio será ejetada automaticamente.
A possibilidade de terem de usá-la é extremamente remota
mas o regulamento exige que se faça uma demonstração.
Assim que foram ejetadas é importante observar o aviso para não fumar...
e seguir as instruções que nossa comissária ora demonstrará.
Coloque a máscara no rosto cobrindo o nariz e a boca.
Automaticamente a máscara será abastecida de oxigênio.
Permaneçam com a máscara até serem avisados.
Para maiores informações ou instruções...
Isso só acontece uma vez em um milhão, mãe.
O que será, será.
Já estamos no ar. Olhe pela janela.
É a primeira vez na vida que vejo uma nuvem de cabeça pra baixo.
Daqui a pouco passa e estaremos num enorme transatlântico.
Mal dá pra esperar.
Sua atenção, por favor.
O exercício de salva-vidas será às 3 da tarde
em ambos os postos indicados no salão principal.
Contamos com a participação de todos.
Obrigado.
- Está se sentindo melhor, mãe? - Estou bem.
- Ainda está enjoada? - Tudo bem.
Trouxe sua cesta de costura.
Se me sentir melhor amanhã eu costuro.
Você não comeu nada.
Às 4 eles trazem chá e bolinhos. Comerei um pouco.
Dá dó te ver desse jeito.
- Olá, meninas. - Oi, querido.
Já viu algum golfinho?
Só vejo é água cinza.
Logo você verá os golfinhos, peixes voadores e montes de navios.
- Bom dia. - Bom dia.
Essa é loira natural, Alice.
- À noite vão passar um filme. - Qual?
Duelo na Cidade Fantasma.
Vi há quatro meses no Albee.
É com o Robert Taylor. Sabe, Alice...
acho que Robert Taylor é judeu.
Por que não sobe conosco para jogarmos shuffleboard no convés de cima?
Você até pode jogar também.
É fácil jogar. É só acertar uma bola de madeira com um bastão comprido.
De repente virei um Mickey Mantle.
Asano-san.
Bom dia, Sr. Asano.
Permita que me apresente. Black, do Departamento de Estado.
- É uma honra, senhor. - Gostaria de apresentar-lhe minha família.
Seria uma honra.
Minha esposa, Alice.
Como vai, Sr. Asano?
E minha sogra, Sra. Jacobi.
Como vai?
É a primeira vez que as duas vão ao Japão.
Na verdade, eu também.
Ficaria feliz se puder ajudar de alguma maneira.
Se porventura quiser jogar golfe no meu clube...
ou se precisar de qualquer informação.
meu escritório estará à sua disposição.
Fico muito agradecido, mas espero não precisar incomodá-lo.
Tenho certeza que a embaixada se encarregará de tudo.
Sua embaixada é muito eficiente.
Agora, se me dão licença.
- Mama, tem certeza que não quer subir?
Tenho certeza. Pode ir. Alice precisa fazer exercício.
- Não. Ficarei com você. - Por favor, me sentiria melhor se você fosse.
Ficarei aqui olhando a neblina.
- Jerry, leve-a, por favor. - Muito bem.
- Até mais tarde. - Tchau, querida.
- Não devíamos deixá-la sozinha. - Algum dia terá que falar com um japonês.
Alice, se você não confia na sua mãe, eu confio.
Permita-me.
- Muito obrigada. - Não há de quê.
Isso é o apito do navio sinalizando que é meio-dia, Sra. Jacobi.
Não é causa para alarme.
Obrigada.
O mar está bastante encapelado esta manhã.
Mas não é de surpreender.
É comum nesta latitude.
Obrigada.
Obrigada.
Vamos, mãe, pegue s casaco
- Onde vamos? - Para o exercício de salva-vidas.
Não se preocupe, não estamos afundando.
Do jeito que estou me sentindo, antes estivéssemos.
Vamos.
Está meio apertado. Acho que preciso de um maior.
- Cadê o Jerry? - Estou aqui, mama.
Boa tarde, senhoras e senhores.
Sou o Sr. MacMillan.
Os exercícios para incêndio e salva-vidas são realizados pelo menos uma vez por semana
em todas as embarcações americanas...
de acordo com os regulamentos da guarda costeira americana.
Devem se encaminhar para este posto, Número 5,
vestindo seus coletes devidamente amarrados...
assim que ouvirem seis ou mais apitos do navio
acompanhados dos alarmes de bordo.
Este é seu bote de salva-vidas.
É todo equipado para sobrevivência no mar.
Possui remos, velas, primeiros socorros, água, rações de comida...
e um rádio com capacidade para alcançar até 80 km de distância.
Nós do SS President Hoover agradecemos seu interesse e cooperação.
O exercício está completo. Obrigado pela cooperação.
Obrigado, senhoras e senhores.
- Está bem, mama? - Claro que estou bem.
- Me deem os coletes, vou descer. - Pode deixar que eu levo.
- Eu levo. - Meninos...
parem de me tratar como se eu fosse feita de vidro.
Fiquem aqui e se divirtam. Me dá os coletes.
Obrigada, mãe.
O colete deve estar muito desconfortável. Posso ajudar?.
Não preciso de ajuda. Muito obrigada.
Permita que lhe pergunte. Eu a ofendi de alguma maneira?
- Não. - Se for o caso, perdoe-me.
- Não é necessário. - Essa sua atitude é porque sou japonês?
- Sim. - Por causa da guerra.
Por causa do meu filho.
De alguma forma ele foi afetado?
Peço que me conte, por favor.
Muito bem.
Estava tudo num telegrama.
'Em nome do Ministro da Defesa
é com profundo pesar que venho informar-lhe
que seu filho David Elias Jacobi
foi ferido em ação em ação em Attu
no dia 14 de maio de 1943.
Endereço de correspondência para David Elias Jacobi
147329,
aos cuidados da Direção do Hospital, Seção 8 PO, San Francisco.
Assinado Julio, General Adjunto.
Mais tarde nos chamaram.
Mas quando chegamos...
ele já tinha morrido.
Sim, Sr. Japonês. Meu filho foi afetado de alguma forma.
Nosso filho foi morto num contratorpedeiro durante um bombardeio americano.
Nossa filha...
era enfermeira em Hiroshima em agosto de 1945.
Tudo porque você e o Sr. Hitler queriam dominar o mundo.
Não era o que eu e minha esposa queríamos, Sra. Jacobi.
Nem meu filho, nem minha filha nem nenhum dos nossos amigos.
Tudo que queríamos era...
uma existência feliz e pacífica com as flores, a lua e o sol.
Isso é tão diferente do que você também queria, Sra. Jacobi?
Não.
Então...
podemos começar de novo?
Como vai?
Como vai?
Bom dia, Sr. Black.
Bom dia, Sr. Asano.
Pelo jeito o capitão encontrou o caminho do sol.
Assim todos ficarão mais bem dispostos.
Espero que sua sogra esteja passando bem nesta linda manhã.
Sinto muito se a aborreci ontem.
Ela me contou.
Acho que agora ela está entendendo um pouco melhor.
É muito difícil para ela.
Muita gente no meu país...
odeia os americanos sem razão alguma por causa da guerra.
Mas sua sogra tem toda justificativa para nos odiar.
Às vezes me pergunto o que é pior, a guerra ou suas consequências.
Acho que no caso dos nossos países
demos grandes avanços em prol do entendimento.
Em termos, com certeza. Mas ainda existem problemas.
Todo problema tem solução entre homens de boa vontade.
Parece discurso de saudação.
Você será um grande trunfo para sua embaixada.
É o que pretendo, senhor.
Para tanto também deve tentar...
familiarizar-se com a questão do livre comércio,
uma assunto que gera mais atritos que boa vontade.
A questão está sendo estudada a contento, senhor.
Para a conferência em agosto.
Não, Sr. Black, não ando lendo sua correspondência.
Acontece que meu governo pediu-me que participasse.
Até foi bom que nos conhecêssemos em circunstâncias tão aprazíveis
para que possamos discutir o assunto informalmente.
Se quiser ver os demonstrativos da posição japonesa, tenho aqui...
Há de concordar que até agosto a situação deverá estar mais definida...
e ambos estaremos mais bem preparados para avaliar seus demonstrativos.
Não, não concordo.
- Bom dia, Jerry. - Bom dia, mama.
Bom dia, Sra. Jacobi.
Bom dia, Sr. Asano.
Tenho pastilhas para tosse Smith Brothers.
- Ótimas para a tosse. - Obrigado.
- Jerry, tenho Life Savers, se quiser. - Não obrigado.
- Melhorou muito. Ótimo sabor. - Pode ficar. Tenho muitas.
Muito obrigado.
Já sei, já sei. Meio-dia.
Meu relógio está marcando uma hora. Esqueci de atrasar ontem à noite.
Não se esqueça que na próxima quarta
atravessaremos a Linha Internacional de Data
e perderemos um dia inteiro.
E como eu faço com meu relógio?
Não faz nada. Um dia é terça depois será quinta.
O que acontece com a quarta?
Quando retornar terá sua quarta-feira de volta.
Isso para mim não será tão cedo.
Esta é sua primeira viagem para o exterior?
- Não, a terceira. - Sempre para a Europa?
Comecei na Europa. Nasci na Rússia.
Perto de Moscou.
Estive na União Soviética no verão passado.
Na minha época era só Rússia, com o czar.
Por isso meu pai fugiu para ficar com meu tio em New Haven.
Para não ter que servir ao exército do czar.
Um ano em seguida veio minha irmã Gussie,
depois minha irmã Rachel e depois minha mãe.
Por último, a eleita fui eu. Que viagem longa.
Posso perguntar quantos anos tinha quando isso tudo aconteceu?
Quem é que anda com certidão de nascimento?
Mas pelo que minha mãe dizia,
nasci na quinta vela de Hannukah.
Quinta vela de quê, Sra. Jacobi?
Hannukah. A festa das luzes.
Seria mais ou menos em dezembro...
porque é como o Natal.
Foi quando eu nasci. No ano seguinte à morte da mãe do meu pai.
Assim quando finalmente cheguei a New Haven eu tinha...
doze e uns quebrados.
Ainda era muito menina para enfrentar tanta dureza.
Não conhecia essa história.
Pois é.
Até eu já quase tinha esquecido até sentir esse cheirinho de mar.
De repente voltou tudo... 'precipitado'.
Lembra-se do seu espanhol.
Conheci tantos estrangeiros na minha vida, Sr. Asano,
que sei algumas palavras soltas em várias línguas.
Polonês, húngaro, russo, hebraico, iídiche, claro...
Até inglês de vez em quando.
Seu inglês é muito claro e preciso.
Ah, se a Sra. Barber pudesse ouvir isso.
Ficaria feliz em lhe dizer.
Era minha professora de inglês no colégio.
Costumava dar-me aulas especiais.
A palavra mais difícil em inglès é 'the'.
A palavra mais difícil em inglês é 'lollipop'.
Está pegando uma corrente de ar?
Peguei um resfriado quando embarquei. Acho que ainda não passou.
Ora, então tome uma aspirina.
Obrigado, mas tomei um anti-histamínico esta manhã.
Está vendo? Não gosto nada disso.
Só faria isso em caso de extrema necessidade.
- Sente tontura? - Não.
Para mim os melhores remédios são sempre os mais simples.
Água com sabão e ameixas cozidas.
Oi!
Onde você vai, Jerry?
Só estou me espreguiçando.
Perdão.
Toma uma manta.
Se está resfriado mantenha os pés sempre aquecidos.
Obrigado.
Minha esposa tinha a mesma opinião quanto a pés aquecidos, Sra. Jacobi.
Em maio fará três anos de falecida.
Então... você também teve seu quinhão.
Eu também perdi meu marido. Vai fazer quatro anos.
Foi uma doença prolongada?
Entre o diagnóstico e o fim, apenas três semanas intermináveis.
Meu Sam ficou doente quase quinze meses.
Acredita que trabalhou até o último minuto?
- Em que área, Sra. Jacobi? - Flores artificiais.
Tenho uma subsidiária que fabrica flores artificiais.
Tem?
Se me permite dizer, os japoneses eram nossos piores concorrentes.
Quer um conselho?
Vá pra sua cabine, tome uma xícara de chá com limão e mel.
De meia em meia hora gargareje com água quente e água oxigenada.
- Tem água oxigenada? - Não, mas estou bem.
Só de olhar para seus olhos dá pra ver que está com febre.
Que milagres carrega nessa bolsa, Sra. Jacobi?
Tinha um termômetro. Devo ter deixado na minha valise.
Vou pegá-lo. Quer alguma coisa, Jerry?
- Não obrigado. - Não quero dar trabalho.
Não é trabalho. E no caminho falarei com o comissário.
De mim ele espera tudo. Sabe de uma coisa, Jerry?
Do jeito que me olha deve me achar uma 'meshuggah'
O que significa... 'meshuggah', Sr. Black?
Minha sogra usa tanto essa palavra. Esquece que não é inglês,
Significa maluca.
Não louca, digamos aloprada.
Bem, Sr. Black, se sua sogra é 'meshuggah',
claro está que é ótimo ser assim.
Serviço de quarto.
Agradeceria muito se embrulhasse isto para mim, por favor.
Mas claro.
- Deseja para presente. - Apenas papel e fita brancos.
Tenho de tudo. Faço muitos embrulhos japoneses.
Use duas folhas, já que uma é para uma ocasião triste
e esta não é uma ocasião triste.
Deseja que lhe traga peixe cru, senhor?
- Peixe cru? - Bem, no Japão...
é costume dar peixe cru junto com presentes em ocasiões festivas.
Peixe cru é muito antiquado.
A moda agora é algas marinhas.
- Sim, senhor. - Muito obrigado.
- Deu tudo certo, não é, Jerry? - O quê?
No princípio eu tive medo mas... graças a Deus ela saiu da depressão.
Isso é verdade.
Trata todos os passageiros como se fossem sobrinhos e primos.
Quando a vejo com o Sr. Asano
conversando como velhos amigos num banco de praça...
Quanto a isso tenho minhas reservas.
Tem?
Hoje ele mandou outra garrafa de champanhe para nossa mesa.
Não gosto de receber presentes de pessoas com quem faço negócios.
Estou certa de que nenhuma comissão investigativa do Congresso
vai acusá-lo de conflito de interesses por causa de duas garrafas de vinho.
Acho que a jogada do Sr. Asano é outra.
Boa noite, Sr. Graham.
- Ah, apreciando a brisa do mar, querida? - Sim, mamãe.
Sente-se, Jerry.
- Soube que andou tomando uns licores. - Não me mandou ser sociável?
Sabe que são gente boa. Ele médico na Standard Oil...
e moram numa propriedade com dez ammas...
que é como se diz empregados em indonésio.
Não conheço essa echarpe, mãe.
- Parece francesa. - Presente do Sr. Asano.
Comprou para sua nora,
mas quis me dar como lembrança pelas pastilhas contra tosse.
É um costume japonês chamado...
okaeshi.
- É lindo. Foi muito gentil da parte dele. - Também gostei.
- Nós vamos jogar bridge. - Eu sei. Com o casal inglês.
Ela é americana. Conheceu-o em Los Angeles quando ele era vice-cônsul......
Não tem uma biografia que não conheça neste navio, mama.
Fala com todo mundo sobre nós?
Quem tem orgulho dos filhos fala.
- Quer nos ver jogar? - Não. Tenho um encontro com o Sr. Asano.
Vamos jogar dominó. Sabe que ganhei um dólar dele?
Seria um grande jogador se se concentrasse. Ele fala demais.
- Do que ele fala? - Sabe como é homem. Negócios.
- Está com a cabeça cheia. - Por exemplo?
- Impostos. - Impostos?
Sobre seus produtos. Jerry sabe do que estou falando.
- Vai haver uma grande conferência em agosto. - Eu sei disso.
Boa noite. Sra. Black.
- Sr. Black. - Boa noite.
Acabo de contatar meu escritório em Tóquio
e pedi que mandassem um carro e uma van para Yokohama.
Se sua embaixada não providenciou transporte, fiquem à vontade para...
As providências já foram tomadas. Obrigado.
Pensei em jogarmos aqui fora. Está muito abafado nos salões.
Ótimo.
Gostariam de jogar conosco?
Dominó a quatro é muito estimulante e bastante imprevisível.
- Obrigado, mas estamos comprometidos. - Queira desculpar-nos.
- Até mais tarde, mãe. - Vá. Faça um slam.
A lua está uma verdadeira abóbora hoje.
No meu país observar a lua é uma tradição.
Temos um feriado para isso.
- Um feriado para observar a lua? - Chama-se tsukimi.
A observação dá-se na noite de 15 de agosto
e novamente em 13 de setembro.
Quem observa na primeira data
e deixa de fazê-lo na segunda data
diz-se que houve uma observação unilateral, o que não é aceito.
- Acha estranho, Sra. Jacobi? - Oh, não.
Na nossa religião celebramos quase tudo em dois dias.
- Há muitos festivais. - Sim...
No Japão há um festival para quase tudo.
Na primavera é Showa no Hi.
Temos a mesma coisa. Na primavera é Shavuot.
Shavuot.
- No outono é o Shubon no Hi. - Shubon no Hi.
Espero que celebre Shubon no Hi comigo.
Ornamentamos nossas casas com grãos e os frutos da terra.
Nós fazemos o mesmo. Temos o Sukkot.
Montamos uma barraquinha cheia de uvas e maçãs.
Deve ser encantador.
Obrigada.
Espero que me convide para um dos seus festivais.
Se tivermos um festival em Tóquio considere-se convidado.
Mas os meninos, acho que não observam essas datas.
- Sabe como são esses jovens modernos. - Com certeza, Sra. Jacobi.
- Mas temos que ser modernos. - Isso é difícil.
Existe alguma coisa fácil? O que a vida oferece a gente aceita.
Transcende-se.
- Como? - Transcende-se.
Em essência, essa é a filosofia zen-budista.
Simplificando o que acreditamos,
As agruras da vida são testes que, uma vez superados,
conduzem à serenidade dos espíritos iluminados.
Quer dizer que se temos 'tsores'... problemas...
nos tornamos uma pessoa melhor se o superarmos.
Pelo jeito andou estudando zen-budismo.
Sou uma mulher simples.
Já tive meu quinhão de felicidade, de tristezas...
de 'kvelling' pelo meu marido e meus filhos...
Kvelling?
Como explicar 'kvelling'?
Bem.
'Kvelling' é a maneira como ficamos e nos sentimos
quando algo maravilhoso acontece com quem amamos.
É como.... bem...
é como quando Alice se formou na Faculdade Smith com as maiores notas.
É orgulho. Não, não, é mais. É...
É 'kvelling'.
'Kvelling' seria um excelente acréscimo ao vocabulário zen-budista.
Se dissesse para alguém que estou num navio a 1,000 km de Yokohama...
explicando o que é 'kvelling' para um japonês, quem iria acreditar?
O mesmo problema terei eu explicando isso para minha nora.
Adoro essa música.
Sam e eu levamos as crianças a essa peça no nosso aniversário de casamento.
Depois fomos todos dançar no Copa.
Sam sempre gostou....
Não importa o que diga ou faça, acabo sempre voltando para o Sam.
Tudo me faz lembrar.
Não consigo me convencer de que ele se foi.
Eu tampouco.
Podemos estar enganados nesta área, Sra. Jacobi,
mas seguimos um padrão histórico.
É?
Várias culturas chegaram à mesma conclusão independentemente.
Os chineses e os romanos, por exemplo.
Há séculos, creio que foi Cícero quem disse:
'Se erro em crer na imortalidade da alma, erro com prazer.'
'Tampouco almejo que este erro, que tanto me compraz, me seja subtraído.'
Tudo que eu penso, sempre descubro que alguém já pensou antes de mim.
Gostaria de dançar?
- Há séculos que não danço. - Nem eu.
Podemos tentar?
- Acho que não... - Mas a ideia foi sua.
Seja moderna.
Não sabia que dançavam assim no Japão.
Aprendi a valsar em Oxford em 1925.
Olha, Alice, estamos dançando.
Eu vi pela porta.
Estou como morto no jogo. Queria ver como você estava.
- Sinto um calor quando danço. - Posso pegar algo para beber?
Não quero dar trabalho, mas talvez algo efervescente.
Um club soda, por favor.
- Deseja alguma coisa, Sra. Black? - Não, obrigada, Sr. Asano.
O que foi, Alice?
Está com aquela cara de quando cabulava aula.
Mãe...
O que foi, querida?
Que foi que aconteceu?
Mãe, quando fui para a Costa Rica com Jerry...
conheci uma costa-riquenha, mulher de um oficial de Gabinete.
Ela era maravilhosa comigo, eu dependia muito dela.
Um dia ela me pediu que pedisse a Jerry para ele falar com Primeiro Ministro...
porque seu marido ia ser despedido.
Só então percebi minha ingenuidade.
Eu estava sendo usada.
Então... acha que o Sr. Asano só está sendo simpático comigo por causa do Jerry?
Em um mês Jerry estará negociando com empresários japoneses
dentre os quais o Sr. Asano é o mais importante.
Estou sendo clara?
Eu entendo inglês.
Nosso governo está tentando fazer com que os japoneses...
cortem voluntariamente suas exportações
antes que o Congresso baixe um decreto de barreiras tarifárias.
Sabe o que é barreira tarifária, mãe?
Sim...
Seu pai e eu escrevemos para nosso congressista
sobre um desses decreto antes de você nascer.
Desculpe, mãe. Sempre esqueço que você foi mulher de negócios.
E quem é negociante vê de cara com quem se está tratando.
Pois te asseguro que o Sr. Asano é um homem respeitável.
E não está sendo simpático comigo só para cooptar o Jerry.
Tenta entender, querida.
Na diplomacia há que se tomar muito cuidado com amizades fáceis.
Adorei que você conhecesse alguém com quem conversar, mas...
por outro lado deve admitir que foi meio estranho.
Afinal, ele é um milionário.
Ah, e a lei diz que a Sra. Jacobi só pode falar com pobres.
Claro que não. A questão é que...
ele é japonês.
E eu achando que ele era texano.
Por favor, mãe, pense no que estou dizendo.
Estou pensando, Alice.
Estou pensando em como me mandou ser sociável e agir como todo mundo.
É só eu botar o pé na água e você diz que estou me afogando.
Muito bem. Volte para seu bridge.
E não se aflija. Se é o que você e Jerry querem...
não falarei mais com aquele...
- ... aquele 'gunnif' (aproveitador). - - Não precisava falar assim.
- Não é o que quis dizer? - Não, eu...
Obrigada.
- E nosso jogo, Sra. Jacobi? - Acabei de falar com Alice...
Amanhã será nosso último dia e tenho que fazer as malas.
Pensei em ir para a cabine e colocar mãos à obra.
Eu compreendo.
Sr. Asano...
quero agradecer-lhe pela echarpe.
pela dança... por tudo.
O prazer foi meu, Sra. Jacobi. Com sua licença, boa noite.
Mamãe, você agiu como uma verdadeira diplomata.
E que diplomata. Obrigada pelo elogio.
Quis fazer um amigo de um inimigo.
E o que eu fiz?
Fiz um inimigo de um amigo.
Tudo em ordem. Podem me seguir até o taxi, por favor.
Obrigada.
Por que não se senta aqui enquanto pegamos o taxi?
Está bem, Jerry.
Sra. Jacobi.
Caso deseje fazer turismo ou se precisar de alguma ajuda...
por favor, aceite meu cartão.
Obrigada, Sr. Asano.
- Foi um prazer conhecê-lo. - O prazer foi todo meu, Sra. Jacobi.
Estamos prontos, mãe.
Podia pelo menos ter-se despedido do Sr. Asano, Alice.
Não tive oportunidade, mãe.
Por que a...
Proteção contra vírus.
Dele ou nossos?
Ora, ora, estava esperando vocês.
- Você é Alice Black. - Sim, olá.
- Você é o Sr. Black. - Como vai?
- E com certeza esta é a Sra. Jacobi - Como vai?
Eu sou Lily Putnam. E esta é sua nova casa.
Bem-vindos a Tóquio!
- Espero que estejam todos muito felizes. - Gentileza sua nos receber, Sra. Putnam.
- Ficamos muito agradecidos. - O mesmo digo eu.
Adoramos ter encontrado esta casa para vocês, Sra. Black.
Há poucas casas ocidentais em Tóquio.
Se não fosse pelos pagodes o bairro até parece Flatbush.
Oh, este é Ichiro Watanabe, seu mordomo.
Nós o chamamos de Eddie.
É com grande honra que recebo meus novos patrões.
que são mandachuvas americanos.
- Ele é nosso mesmo? - Com certeza.
E fala inglês. Trate-o como uma joia rara.
- Foi uma dificuldade encontrar. - Foi muita gentileza sua.
Sei como é difícil mudar-se para um país estranho.
- Já morei em tantos. - Ficamos muito agradecidos.
Pois vai mudar de ideia quando ouvir a sua agenda.
A vida de mulher de diplomata em Tóquio é estafante.
Tem que fazer uma visita formal a todos situados acima de você hierarquicamente,
e todos abaixo de você têm de fazer visitas formais a você.
Mas é bom receber visitas.
Bem... não é bem visita...
apenas deixam cartões.
Se me acompanharem até o salão de festas
posso trazer-lhes um chá ou talvez uma Coca-Cola.
Também preparo muito bem Bull Shots.
- Querem Bull Shots? - Não, obrigada, Eddie.
Salão de festas.
Estão vendo, é bem bonito, não?
É meio rococó,
Mas foi construído no final do século XIX...
para o Embaixador de Sua Majestade.
Quando derem seu toque pessoal...
Sempre pensei em biombos japoneses, fontes e arranjos de flores.
Pelo menos é maior que o bangalô que tivemos na Costa Rica.
É muito bonito, talvez meio empoeirado, mas...
nada que um bom removedor não resolva.
Que tal abrirmos as janelas para iluminar o ambiente.
Sra. Jacobi, se quiser abrir as cortinas sugiro que peça ao Eddie.
Em toda cada japonesa só pode haver um...
Bem, como disse o Eddie, patrão.
Assim, acho melhor se organizarem nesse sentido.
Na verdade a responsabilidade será conjunta.
Conjunta como? Jerry e Alice são os patrões, eu sou convidada.
Então, Eddie, se importa de abrir as cortinas?
Olha só! Um telefone igualzinho aos do Brooklyn.
Dá pra acreditar?
Moshi moshi. Hai. Chotto matte kudasai.
É da embaixada, Black-san. Putnam-san, para o senhor.
Alô. Sim, é o Sr. Black.
Claro, Sr. Putnam. Muito obrigado.
Seu representante nos pegou no cais e foi muito eficiente.
Sim, a Sra. Putnam está aqui.
Tem sido muito gentil.
Claro, se for preciso.
Não, não tem por que esperar até amanhã.
Irei imediatamente. Obrigado. Até logo.
- Já vai sair, Jerry? - É importante.
- Sério, Alice. - Mas logo no primeiro dia?
Negócios são negócios, Alice.
Vão se ajeitando que já volto.
- Obrigado de novo, Sra. Putnam. - Foi um prazer.
Se puder, diga a meu marido que seria bom se chegasse a tempo para jantar.
Até logo. Qualquer coisa que precisem é só me ligar.
- Obrigada. - Até logo. Até logo, Jerry.
Até logo, querido.
Bem, Sra. Black, já deu para sentir o gostinho de como as coisas são por aqui.
Acho que não veremos muito nossos maridos nestes próximos meses.
Estou acostumada. Já passei por isso na América Central.
Mas o Japão é um posto muito formal.
Bem, quais são seus planos?
Pensei em nos ajeitarmos depois fazer um pouco de turismo com mamãe.
Ótima ideia.
Mas você chegou em cima dos preparativos para a conferência
e quero que você conheça todo mundo.
É muito importante para seu marido e para nós.
Também está incluída, Sra. Jacobi.
Não se preocupe comigo. Ficarei bem. Tenho tanto que fazer.
Tenha cartas para escrever, estou fazendo uma saia para Alice...
bem... estou muito ocupada.
Alice, será que posso ir para meu quarto. Quero dar uma resfrescada.
- Nem sei onde ficam os quartos, mãe. - Já selecionei quartos para todos.
Queira acompanhar-me, Jacobi-san.
- Vou com você, mamãe. - Fique aí, converse com a Sra. Putnam...
e marque suas visitas, querida.
- Até logo e obrigada. - Sra. Jacobi.
Siga-me.
É uma grande adaptação para mamãe.
Este é seu quarto, Jacobi-san.
Bem amplo.
Vestiário.
E este é o banheiro.
É?
Funciona?
A casa é toda ocidental, com exceção do banheiro que é japonês.
O que tem de tão japonês?
Senta no banquinho e empregada joga balde de água na senhora.
Depois entra na banheira.
Se é assim que se faz, eu tentarei.
Hurrá.
- Olá, Sr. Putnam. - Olá, Sr. Black. Prazer em revê-lo.
- O prazer é meu. - Obrigado.
Sente-se.
Seu inteligência e sua experiência vão ser muito úteis.
Obrigado, senhor.
Não o teria chamado no seu primeiro dia em Tóquio
mas soube que o Sr. Asano viajou no mesmo navio que você.
Sim, senhor.
Um individualista da escola antiga.
E nosso osso mais duro de roer.
Talvez venha a ser proveitoso que tenham se dado bem.
- Não sei pode chamar assim. - Veremos.
Faltam poucos meses para o período 'doyo'.
Período 'doyo'?
É no início de agosto.
É quando os rizicultores preparam seus campos seguindo o calendário lunar.
Toda noite eu estudo os costumes japoneses.
Espero que faça o mesmo.
Já fiz, senhor.
Fiquei contente de chegar ao Japão no ano do tigre.
Ora, vejo que tem estudado mesmo. Isso é muito bom.
MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORES DO JAPÃO
- Onde está o Sr. Asano? - Já deve estar chegando.
Com licença.
Sr. Black.
Bom dia, senhor.
Espero que sua família esteja feliz no Japão.
Está sim, senhor. Obrigado por perguntar.
Por favor transmita meus cumprimentos à sua sogra.
Obrigado, senhor.
Podemos nos sentar, senhores...
e prosseguir com nossas negociações.
É uma honra para nós que o Sr. Asano
finalmente tenha concordado em participar das deliberações.
O Sr. Asano pediu para fazer uma declaração.
Ficamos honrados que os representantes do governo americano
tenham vindo pessoalmente tratar das negociações em pauta.
Lamento se até o momento as discussões tenham sido infrutíferas.
Quando voltar para casa, Sr. Black,
seria bom pedir à sua sogra umas pastilhas Smith Brothers.
Eddie!
Eddie!
Eddie!
Eddie, pode levar a tábua de passar. Mas antes, dê um jeito na tv.
O horizontal não para, e quando para parece espinha de peixe.
Sintonizarei direito.
Os Lo-Hi's eu vejo no Brooklyn.
Mas a gente se amarra em música americana.
Esse casamento já deu o que tinha que dar.
- Como consegue entender, Jacobi-san? - Pelos filmes.
Os casais brigam sempre por causa dos ciúmes dela.
Então concluí que ele tem outra mulher.
Não! É ela que tem outro homem.
Da forma que vejo, ele é casado com duas mulheres.
Acho que ele andou bebendo.
O que ele está falando?
O programa foi interrompido...
para um campeonato de luta de sumô!
- Vamos assistir? - Eddie, por favor!
- Não gosta de luta de sumô? - O que tem pra gostar?
Ficam agachados, depois pulam feito loucos...
- ... e dão cada golpe. - Aquele é o melhor nisso. Aposto nele.
Boa sorte. Desliga isso, Eddie.
Já chega, desliga isso.
Talvez tenha alguma coisa no rádio.
Oi!
Tenta a estação das Forças Armadas.
Apesar da formidável defesa e da média de home runs do time local,
o Los Angeles Dodgers conseguiram 4 pontos de vantagem ontem à noite
ao massacrarem o San Francisco Giants por 12 a 4.
Pode desligar, Eddie.
Esse Los Angeles Dodgers é fera.
Não quero mais saber deles desde que saíram do Brooklyn.
Apesar de sentir saudades.
O que é que eu vou fazer agora?
Por que não vai dar uma volta?
- Na chuva? - Ela vai e vem.
Atravessa pelo meio.
Se me afastar um quarteirão desta casa eu me perco.
Por que não vai ao cinema?
Vi um filme ótimo...
Duelo na Cidade Fantasma.
Esse outra vez.
Me amarro no Robert Taylor.
Sabe, acho que Robert Taylor é japonês.
Se me dá licença, tenho serviço para terminar na cozinha.
Eddie, por que a pressa?
Sente aqui um pouco.
Me fala da sua namorada.
É sério?
A família dela é muito antiquada, Jacobi-san.
- Nos conhecemos através de um 'nakodo'. - O que é um 'nakodo'?
Nakodo é...
é um parente ou amigo
que arranja um casamento ideal.
Ah, 'shadchan', um casamenteiro.
Não, nakodo.
Ele sugeriu que a gente se casasse.
Mas nossas famílias têm que estudar os noivos sugeridos...
no que toca a saúde, patrimônio, inteligência, caráter...
Acho uma ótima ideia.
- Não, não é... - Não?
Não... não...
eles não gostam de mim porque passo tempo demais em Shinjuku...
que é considerada uma área muito ruim de Tóquio.
- E é? - Hm... é um barato lá.
E sou muito respeitado.
Sabe, Jacobi-san...
Se conseguisse uns pacotes de cigarro,
umas garrafas de whisky e perfumes franceses...
no comissariado da embaixada...
eu venderia no mercado negro e dividiríamos o lucro.
Não me fale em negócios e nem me trate como sua sócia.
E Eddie...
Não me toque mais nesse assunto nesta casa.
Nunca mais!
- Vou trabalhar na embaixada do Canadá! - Não, por favor, Eddie!
Embaixada canadense.
Eddie, não quero ver minha filha aborrecida.
Se me pagar uns míseros yens a mais, quem sabe...
Outra vez yens! Chega de yens.
Olá, Eddie.
Por que está passando roupa na sala?
Não era eu, era a Jacobi-san.
Ah... Oi, mamãe.
- Oi, Alice-san. - Algum recado?
- Quem toma recados é o Eddie. - Eddie?
Sim, seu marido ligou e pediu que lhe desse o seguinte recado:
Está neste momento em conferência com o Número 1.
Obrigada. Mais alguma coisa?
Só que Jacobi-san falou comigo de forma desrespeitosa.
Mas engolirei meu orgulho e ficarei...
se aumentar meu salário.
Está bem, falarei com o Sr. Black.
Vem, mãe Quero te contar do coquetel.
Alice, seus sapatos estão molhados, o vestido também. Vamos tirando.
Está bem.
Pelo jeito andou se desentendendo com O Eddie-san.
Esse Eddie é um bom aproveitador.
Pelo menos toma recados.
Número 1. Só pode ser o...
Sr. Asano, quem mais?
É estranho que tenha custado tanto a chegar à reunião do Jerry na Embaixada.
Só falava nisso no navio.
É uma técnica diplomática.
Botar todo mundo nervoso fazendo-se de difícil.
Jerry me explicou ontem à noite.
Contou pro Jerry o que te falei do meu sofá-cama?
Mencionei, mas acho melhor não interferirmos, não é?
Quer dizer, Jerry já deve ter estudado todas as alternativas possíveis.
Alice, tenho muita experiência.
- É só Jerry falar com esse Sr. Putnam... - O Sr. Putnam é um homem difícil.
Logo, não fale nada com o Jerry.
Está bem.
Divertiu-se na embaixada francesa?
Muito. Pena que você não foi comigo.
Já frequentei essa sua alta sociedade.
Não deu muito certo.
Tinha medo de falar alguma coisa errada.
- O que você fez hoje? - Assisti à televisão e...
não ralha comigo... Passei a camisa de smoking do Jerry.
Não ia falar, mas não devia ter feito isso.
Esqueceu do que falei quanto a perder autoridade com os empregados?
Mas eles não sabem passar como você.
Jerry vai ficar lindo na festa do General Garrett hoje.
Vai vestir o quê? Seu vestido preto de canutilhos?
Eu não vou. Se não posso falar com civis, vou falar o que com um general?
- Mãe, por favor. - Alice...
Não insista. Eu não vou.
Deve ser nosso embaixador pessoal. Vamos, mãe.
- Oi, querido. - Oi, Alice.
- Olá, Jerry. - Olá, mama.
- Tudo bem na conferência? - Poda ter sido melhor.
Estive com o Sr. Asano. Mandou lembranças.
Que bom que ele foi simpático.
Não diria bem assim. Alice, pode me trazer um drink?
Claro. Também quer um, mãe?
Não sou muito chegada a bebida. Vou pegar o gelo.
Vou tomar sem gelo, Alice.
- Parece estar exausto, querido. - Pareço porque estou.
Deve ter tido um dia carregado.
De amargar.
Faz o seguinte...
toma um bom banho...
eu esfrego suas costas como toda esposa japonesa...
e você me conta tudo.
Primeiro vou tomar meu drink.
Estou preparando uma dose dupla.
Que tal tomar o drink e tirar um cochilo?
Levo seu jantar no quarto.
- Não precisamos tanto ir ao General Garrett. - Precisamos sim.
Nem vão perceber. Vai ser uma grande festa.
- Sim, grande, chata e uma obrigação. - Está bem.
Devia ter-me visto hoje. Fui à embaixada francesa.
Umas 40 mulheres. Todas de Balmain autênticos.
Serviram champanhe no salão, chá de jasmim no jardim de inverno...
Coisa fina...
- Alô? - Sr. Black?
Sim, é o Sr. Black.
- É o Sr. Putnam. - Ah, olá, Sr. Putnam.
Sr. Black, acabo de falar com o embaixador.
Preciso informar-lhe que o negativismo do Sr. Asano...
focou-se especialmente a você.
Pode explicar?
Não tenho certeza... talvez.
Se pudesse falar em particular com o Sr. Asano amanhã antes de retomarmos a conferência...
A conferência não será retomada amanhã.
O Ministério das Relações Exteriores comunicou ao embaixador
que a delegação japonesa pediu um adiamento sine die.
Acho melhor que se apresente aqui amanhã às 9:30...
para reavaliarmos a verdadeira natureza de suas relações com o Sr. Asano.
Muito bem. Até logo, senhor.
Alice, preciso conversar com sua mãe.
- Com minha mãe? - Sim, com sua mãe.
Não sei se 'minha mãe' está disponível. Serve falar com mamãe?
Me poupe do sarcasmo.
O que foi, Jerry? O que mamãe tem a ver com isso?
Não sei.
O que você falou pra sua mãe no navio sobre o Sr. Asano?
- Exatamente o que lhe disse. - Ela voltou a falar com ele depois daquilo?
- Como vou saber? - Não acha que devemos descobrir?
Antes de botar mamãe contra a parede tem algumas coisas que eu preciso saber.
- A conferência foi um desastre. - Por quê?
- Adivinha. - Aparentemente sou muito burra.
Como pode? Não te disse no navio para...
- O gelo, meninos. - Obrigada, mamãe.
- Acho melhor nos vestirmos. - Ainda temos tempo.
Preciso rever umas coisas.
Gostaria de jogar cartas, mãe?
Com licença. Falou do meu aumento com seu marido?
Agora não, Eddie, por favor.
Enquanto espero vou ligar a televisão para ver o resultado da luta de sumô...
Não, Eddie. Não pode ligar a TV para ver resultado de luta de sumô.
Jacobi-san deixou.
Mas eu não sou Jacobi-san, sou Black-san.
Não trabalharei em casa onde não possa assistir luta de sumô.
Onde mama-san pega gelo e passa camisas...
e eu não recebo um mísero aumento.
Aceitarei a oferta do Encarregado de Negócios canadense.
Eddie, espera... Espera um momento.
Me desculpe.
Já estamos de saída e poderá assistir à televisão quanto tempo quiser.
E conversaremos em particular sobre o aumento.
Não sou respeitado.
É uma honra tê-lo trabalhando conosco, Eddie.
Obrigado, Black-san.
- Que história é essa de aumento? - Sabe como ele é...
Disse uma coisa para ele, Jerry. Por isso está tão zangado.
Se não interferisse com Eddie, seria melhor para todos.
- Ela não interfere! - Alice, por favor.
Jerry tem razão. Não se repetirá.
Mama...
tem algo que preciso lhe perguntar.
Precisa perguntar agora, Jerry?
- Só porque Eddie está aborrecido? - Não é sobre Eddie.
É sobre o Sr. Asano.
Sim... disse que não foi bem simpatia.
Não, mama. Diria até que foi extremamente frio.
- Por quê? - Não sei, mama.
Estou tentando descobrir.
O que aconteceu no navio entre você e o Sr. Asano?
Sabe muito bem. Jogamos dominó e conversamos.
- Do que vocês falaram? - Mãe...
pelo jeito Jerry teve um dia horrível na conferência.
Graças a seu velho amigo o Sr. Asano.
Recusou todas as propostas, entrar em qualquer acordo...
As negociações foram pelos ares e nós teremos que recomeçar...
Por que estou falando 'nós'?
Alguém terá que começar da estaca zero mas sem Jerry Black!
Você é um dos sete na conferência. A culpa não é sua.
Não? Se estivesse lá não estaria dizendo isso.
Nosso Sr. Asano parecia se comprazer em me alfinetar, em me frustrar...
em tornar claro como minha presença ali era insuportável.
Tudo bem, ele se curvou, eu me curvei, quase batemos um na cabeça do outro!
Mas nem tentou disfarçar seu desprezo por mim.
Todo mundo percebeu.
Na saída era só do que se falava.
Melhor seria nem irmos ao General Garret hoje.
Por que ele haveria de fazer isso com você?
Não sei, mama.
Talvez você saiba melhor que eu.
Jerry, para com isso!
Talvez não tenha gostado das minhas sugestões
para os tecidos que devia fabricar.
Não discutimos suas sugestões sobre tecidos.
Só quero saber o que lhe disse no navio depois que Alice te preveniu.
Eu não a preveni, Jerry!
Só fiz o que me mandaram fazer.
Mas o que você disse?
Falou com ele de novo, não foi?
Sim. Quando desembarcamos ele me deu seu cartão...
e disse que o procurasse se quisesse fazer turismo.
E o que você disse depois?
- Não registrei por escrito. - Ele estava danado?
Não, Jerry.
Foi educado.
- Precisa continuar com isso? - Preciso, sim!
Detesto ter que fazê-lo, mas preciso.
Escuta, mama, só mais uma pergunta.
Alguma vez lhe disse que não queríamos que o visse mais por ser japonês?
Jerry!
Por quem você me toma? Uma velha maluca pronta para um asilo?
Não sou uma pessoa? Não tenho juízo? Sou o quê, uma 'schlemiel', uma idiota?
- Mãe, tudo bem. - Tudo bem o quê?
Tudo bem ficar trancada aqui com medo de abrir minha boca, é isso?
Tudo bem nada. Sou adulta e não está nada bem!
E quero voltar para casa.
- Falamos disso outra hora. - Falaremos agora!
Tenho dinheiro no banco. Suficiente pra me levar pra Nova York,
voltar pra Tóquio e me levar de volta de novo.
Por isso, não se preocupem.
Mãe, eu não quero que você vá.
E esse dinheiro é de suas economias.
Juntei para um dia chuvoso.
Está vendo algum sol brilhando?
Vou voltar!
E não quero saber mais de perguntas.
Jerry, fale com ela.
Alice, sua mãe é adulta.
Se quer voltar, sabe o que está fazendo.
É só isso que tem a dizer?
- Então vou com ela. - Alice, sejamos sensatos!
Sensato sobre o quê?
Jerry, eu só quis saber de uma coisa.
Você volta pra casa arrasado por causa de uma conferenciazinha qualquer..
fala aos berros, age como se fôssemos suas inimigas...
- Chega! - Não aguento mais. Você é igual à sua mãe!
E ele deve te achar igual à sua mãe.
Sempre no lugar errado na hora errada.
Não é culpa sua.
Nem é culpa do Jerry.
Acontece.
Vá falar com ele.
Você dirá a, ele dirá b...
depois vocês se entendem.
Vamos.
Eddie, isso daqui fica longe?
Ah, Asano-san!
Fica em Denenchofu.
- Não fica longe de carro. - Então me chama um taxi.
Não posso chamar. Tem que pegar na rua.
Anote num papel.
O endereço, o número de telefone e onde fica.
Em japonês.
Tem certeza que está escrevendo certo?
- Claro, Jacobi-san.
Anote em outro papel o endereço e telefone desta casa.
Jacobi-san não sabe onde mora?
Onde eu moro eu sei muito bem.
776 Eastern Parkway, Brooklyn, Estados Unidos da América do Norte.
Vamos, vá pegar um taxi.
Eis o seu taxi, Jacobi-san.
Já disse para onde ir.
Eddie!
Promete que não conta pra ninguém aonde eu vou?
- Se deixar eu ir ao cinema. - Peça ao Black-san.
Black-san dirá não. A senhora, sim.
- Sim, Eddie. Não faz mais diferença. - Obrigado.
Está escrito aqui.
Vamos, vamos...
Jerry, os dois sumiram. Mamãe e Eddie.
- Não é possível. - Estou te dizendo.
Ela nunca sairia com Eddie.
Não gosto de pensar nela à noite sozinha em Tóquio.
Talvez quisesse ficar sozinha.
Talvez quisesse um pouco de privacidade. É sempre assim quando se sente magoada.
Não pretendia magoá-la. Mas tenho andado tão preocupado.
Eu também não ajudei muito. É tanta tensão.
Não se preocupe, Aposto que foi ao cinema.
Espero que sim.
Melhor se apressar senão se atrasa para o General Garrett.
Você demora mais pra se vestir que eu.
- Vou esperar mamãe. - Eu também.
- Mas você tem que ir. - Nós dois temos que ir.
E iremos assim que mama voltar.
Jerry, não seria melhor ligar para alguém?
Para a Divisão de Segurança na embaixada?
Bobagem. Vai se aprontar.
Alô, é da embaixada? Aqui é Jerry Black.
Quero falar com a Divisão de Segurança.
Quanto é?
- Arigato. - Qual é a casa?
O número? Qual é o número?
Um, dois, três, quatro, cinco. Cinco, como um número!
Espera, por favor! Você ficou com o endereço!
Por favor...
Alô! Alô!
Tem alguém em casa?
Por favor!
Com licença, conhece um Sr. Asano?
Sr. Asano, ele mora por aqui...
Obrigada.
Olá, o Sr. Asano mora aqui, sim?
Senhor Asano.
Alguém aqui deve falar inglês...
Inglês?
Por favor, posso usar o telefone?
Tele... Alô! Alô!
Por favor... me chama um taxi.
Um taxi.
Sra. Jacobi.
Que surpresa.
Ah, Sr. Asano!
Que alívio!
Me perdoe por aparecer sem avisar...
mas tenho que falar com você.
Mas está encharcada. Como pode?
Vim de taxi, assim que saí...
ele desapareceu.
Procurei por tudo.
Não tem números.
Agora é você que pegará um resfriado.
Conceda-me a honra de entrar em minha casa.
Obrigada.
É nosso costume remover os sapatos.
Ah... não tem problema.
Acompanhe-me, se faz favor.
Queira entrar.
Queira perdoar a desordem da minha casa.
Não quero incomodá-lo, só queria...
Minha casa está à sua inteira disposição.
Esta é minha nora, Sra. Ayako Asano.
Como vai?
Ela disse, 'Seja bem-vinda, é um prazer recebê-la.'
Minha nora pede que a acompanhe.
Fará o possível para que fique mais confortável.
Muito obrigada.
Espero não estar interrompendo seu jantar.
É uma honra recebê-la em minha casa, Sra. Jacobi.
É um desejo que tenho alimentado há muito tempo.
Obrigada.
Madame Butterfly.
Está linda, Sra. Jacobi.
Conceda-me a honra de sentar-se à minha mesa.
Sinto muito não termos cadeiras ocidentais, mas...
creio que não achará o zabuton muito desconfortável.
É muito confortável.
Então é assim que você mora.
- Parece um documentário. - A honra é minha que esteja em minha casa.
Sr. Asano, quero falar uma coisa muito importante.
No Japão nunca se trata de assuntos importantes antes das formalidades.
Espero que não se importe.
Isto é chá verde.
Espero que aprecie.
Chá é sempre chá.
Que sabor adorável. Sabe a salsa quente.
Isso são bolinhos com pasta de feijão.
Servem-se por ocasião da visita de um estrangeiro importante.
Delicioso!
Sabe a...
cottage cheese.
Minha nora providenciará que leve uns quando partir.
Obrigada.
Linda porcelana.
Fica linda na bandeja.
Pedi a minha nora que lhe dê um jogo idêntico.
Ah, obrigada.
Minha nora espera que lhe conceda a honra de aceitar o kimono.
- Acha que lhe assentou muito bem. - Obrigada, mas não poderia.
Sr. Asano, quero lhe falar do meu genro, Jerry.
Sra. Jacobi, deixe-me mostrar-lhe minha casa.
Somos uma ilha...
e procuramos sempre, por exemplo,
fazer com que nossos jardins pareçam...
maiores do que realmente são.
Esta casa vem dos meus ancestrais, Sra. Jacobi.
Vivemos aqui há muitos séculos.
No fundo do jardim verá um pequeno templo.
Quando o tempo melhorar gostaria que o conhecesse.
- Isso violaria a sua fé? - A casa de Deus é a casa de Deus.
Nunca vi uma árvore dessas.
Parece um pretzel.
Nem no Prospect Park. Ah, como adoro árvores e flores.
Minha nora providenciará que leve todas as flores que desejar.
Já basta... Sr. Asano.
Quero falar-lhe do meu genro, Jerry.
Sra. Jacobi, sou forçado a quebrar um costume meu
pois estou pensando numa coisa.
Sim? O quê?
Devo confessar que estava meio zangado consigo.
Oh, eu sinto muito.
Nossa relação a bordo foi tão agradável.
Fez de uma monótona viagem um prazer inenarrável.
Fico lisonjeada.
E de repente resolveu reassumir...
uma atitude distante.
Não foi por isso que vim falar com você.
Tenho a impressão de que os meninos estão envolvidos nessa decisão.
Sou muito chegada aos meninos.
Mas não são os filhos que devem orientar os pais...
e sim os pais que devem orientar os filhos.
Não na América.
É sábia e venerável, Sra. Jacobi.
E apenas os veneráveis...
têm a experiência e a maturidade...
para entender questões de relações pessoais.
O Jerry também entende, Sr. Asano.
E se fiz alguma para que se aborrecesse com Jerry...
eu lhe rogo que não desconte nos negócios.
Hoje, ao cumprimentei da forma habitual,
ele se curvou demais.
Isso porque ele não está acostumado a se curvar.
Teria preferido um aperto de mãos ocidental.
- Mas, Sra. Asano, o Jerry... - Agora serviremos o sakê, Sra. Jacobi.
Vinho de arroz.
É servido quente. Creio que achará excelente neste tempo inclemente.
Obrigada.
Kampai!
Minha família diz ' l'chaim ', Sr. Asano.
Estávamos falando do meu genro.
Imagino que tenha noção da natureza dos meus negócios com seu governo.
Sim. Soube que as coisas não foram bem hoje por causa da sua teimosia.
Teimoso, não. Prático.
Reduzir nossas exportações acarretará desemprego
e será um duro golpe para a economia nacional.
Mas isso não é culpa do Jerry.
Prometa que não terá mais malquerença com ele.
Meus sentimentos pessoais não vêm ao caso, Sra. Jacobi.
Trata-se de uma questão de princípio.
Quem cede aqui, ganha ali.
Meu governo sabe que tem que ceder um pouco.
A questão é quanto.
Primeiro seu governo pediu que reduzíssemos...
nossas exportações de veludo em 1 milhão de metros por ano.
Agora pedem uma redução de 2 milhões por ano.
E não sugeriram como compensar a perda?
Prometeram apenas que fariam o melhor possível..
Esta é uma frase muito empregada por seu genro.
Sinto dizer que o melhor possível não é o suficiente.
Tem razão. Bancos não aceitam o melhor possível.
Isso é verdade.
Tentei falar com Jerry, mas minha filha não gosta que me meta.
Se tem opiniões para dar, Sra. Jacobi,
por favor, 'meta-se'.
Bem...
não tenho esse direito. Não entendo muito de negócios.
Sou dona de casa e consumidora.
Só estou falando isso por causa do meu 'davenport'.
O que é um 'davenport', Sra. Jacobi?
Hoje em dia chamam de sofá cama.
De dia é um sofá, de noite você puxa e vira uma cama.
Interessante.
Bem, eu tenho um sofá-cama no meu apartamento...
cujo contrato de aluguel foi estendido para mais um ano...
Do apartamento...
Apartamento 2A.
Meu davenport é um móvel lindo.
Sam e eu o compramos na Callahan and Driscoll, na Livingstone Street.
Sam e o Sr. Driscoll eram do mesmo clube e ele fez um ótimo desconto.
- Que simpatia. - O Sr. Driscoll era um verdadeiro príncipe.
E bem esperto.
Passou muita dificuldade durante a Depressão.
Porque só vendia dos melhores móveis de Grand Rapids
e quem podia pagar por isso nos anos 30?
Os anos 30 também foram difíceis no Japão.
Mas o Sr. Driscoll usou a cabeça.
Continuou vendendo móveis, mas acrescentou esfregões,
vassouras, prendedores de roupa...
coisas que as pessoas podiam comprar e não podiam dispensar.
Ele diversificou.
Exatamente! Ele diversificou.
É a primeira coisa que você deve fazer.
Concordo, Sra. Jacobi, mas em que área?
Por enquanto nossas pesquisas de mercado ainda não indicaram nada.
Ora, pesquisas de mercado.
A melhor pesquisa de mercado é a experiência pessoal.
Bem... onde eu estava?
Onde eu estava?
Acho que estava no seu sofá-cama.
Ah, sim, meu sofá-cama.
Ano passado recebi umas visitas em casa.
Os Rosenzweig, que moram no 4B...
e Essie Rubin, que mora no 1C.
Essie levou o Sr. Wexler, que vende canetas tinteiro.
Bem.
O Sr. Wexler tirou do bolso
sua caneta tinteiro totalmente à prova de vazamento.
Adivinha o que acontece?
Phht....em cima do sofá-cama.
Essie e o Sr. Wexler quase tiveram um troço.
No dia seguinte aparece o Sr. Wexler com um removedor de tinta especial
também fabricado por ele.
Funcionou. Tirou a tinta.
Mas também acabou com o tecido.
Sinto até pena do Sr. Wexler.
Eu mais ainda. Mas tinha que restaurar meu sofá.
Então me decidi pelo azul bebê.
Azul bebê.
Bebê...
Nana nenê...
Bem...
tive que procurar na AS, na Macy's, na Gimbel's...
sabe o preço dos tecidos para forração na América?
Minhas pesquisas de mercado indicam no mínimo $2 por metro.
Pois tente encontrar a $2 o metro.
Cinco dólares faz mais sentido.
Bem, talvez tenha dado muita volta.
O que quero dizer é o seguinte.
Aqui no Japão, com custos de produção mais baixos,
concentre-se em fabricar material de forração mais barato e aí você verá.
Não terá nenhuma concorrência nos Estados Unidos.
Obrigado, Sra. Jacobi...
reverei a pesquisa de mercado nessa área.
É só mudar seus teares.
- Como sabe disso? - Também sou prática.
Então, está decidido?
Receio que não, Sra. Jacobi.
Tenho consultar o Conselho de Administração...
os acionistas, bem como a posição do governo.
Então por que me deixou falar?
Pode não ter apresentado uma solução mas levantou uma bandeira.
Forçou-me a pesquisar mais a fundo e prometo que o farei.
Ótimo!
Havia decidido que a reunião de hoje seria a última.
Mudei de ideia.
Por deferência a você, Sra. Jacobi,
darei prosseguimento às negociações com seu governo.
Com meu governo.. ou com meu genro?
- Com seu genro. - Oh, obrigada, Sr. Asano,
Obrigada, obrigada.
Bem, já tomei muito do seu tempo. Vou pegar um taxi.
Não, Sra. Jacobi. Deve ficar para jantar.
É muita gentileza, mas hoje jantei mais cedo.
- Acho que isso não é verdade... - Mas é...
Não. Está com medo de comer na minha casa.
Ouviu dizer que comemos peixe cru e polvo.
- Nunca ouvi falar disso, juro! - Mas é verdade.
Contudo, mandei preparar um jantar especial para você,
num outro serviço de porcelana...
composto de iguarias totalmente compatíveis com kosher.
- Como você sabe de kosher? - Você me contou.
Eu contei?
No navio!
Que moça simpática. Queria poder falar com ela.
- Não fala uma palavra de inglês. - Nenhuma.
Não seria de estranhar, já que você não fala uma palavra de japonês.
Quem disse?
Sei falar... sei dizer...
'moshi moshi', que é alô no telefone...
sei dizer 'dozo', que é por favor...
arigato, que é obrigada...
e... espera... tem mais uma, deixa ver...
sei dizer bem-vindo que soa como 'dói se te mastiga'
Com essas três expressões sempre será feliz no Japão.
- Arigato! - 'Dói se te mastiga'!
Sra. Jacobi.
Há uma coisa que não expliquei.
Já observou este kakemono?
Oh, é muito bonito.
- É pintado à mão? - Sim.
É uma antiga forma de arte japonesa.
Como vê, mostra um antigo império de um lado da ponte...
e uma dama da corte do outro.
A ponte simboliza que estão separados.
A questão que se coloca é, devem eles cruzar a ponte?
Existe alguma razão para que não atravessem?
O imperador era um viúvo.
Fazia-se grande oposição a que se casasse de novo.
Não diga.
Apesar de todos os seus tesouros, era um homem solitário.
- Ah, que pena... - E quando conheceu essa dama...
sentiu-se muito atraído.
Embora fosse de outra província...
não fosse nobre...
e pertencesse a outra religião.
Entretanto, após pensar bem...
e algumas cabeças rolarem...
- Ei, isso não foi certo. - Talvez não.
Obrigada.
Finalmente, silenciada a oposição,
ele atravessou a ponte até ela...
devagar mas firme...
tomando o maior cuidado para não tropeçar.
Ótimo.
Acha que o imperador fez bem?
Se eles se amavam, o que os outros tinham a ver com isso?
Eles não se conheceram como de praxe, através de um...
nakodo.
Um casamenteiro.
Não observaram o tempo de exigido...
como é nosso costume ao arranjar casamentos.
Nós também temos esse costume.
Sam e eu namoramos durante dois anos.
Dessa forma, eles não frequentavam, por exemplo, teatros...
concertos e festividades nacionais juntos...
para que pudessem se conhecer melhor.
Acha isso errado?
Quando se é velho o tempo é mais escasso.
Acho que o imperador estava certo.
Não se se concordo com você.
Por que não?
Que diferença faria se fossem a teatros, concertos e festividades nacionais?
- É uma questão de etiqueta. - Ah...
Às vezes questões de etiqueta são superestimadas.
Sou antiquado, Sra. Jacobi.
Gosto de observar certas formalidades.
Sra. Jacobi...
Conceder-me-ia a honra de acompanhar-me durante o inverno...
a teatros, concertos e festividades nacionais?
Sr. Asano!
Sra. Jacobi, com certeza entendeu minha alegoria.
Para mim foi só uma bela história, eu...
Sra. Jacobi, com o tempo talvez possamos atravessar a ponte...
e juntos alcançarmos a serenidade dos espíritos iluminados.
Entrementes, não há mal algum em sermos amigos.
Gostaria muito de sermos amigos.
Então, podemos jantar?
Dozo.
Sra. Jacobi, você é nossa convidada de honra.
Oh, Sr. Asano, imagina só ser uma convidada de honra!
Ah, boa noite.
Boa noite, Sr. Black, fui designado para acompanhar o caso Jacobi.
Agradeço muito, Capitão Norcross. Queria entrar.
Esta é minha esposa.
Querida, este é o Capitão Norcross da Divisão de Segurança da embaixada.
Muito prazer, Sra. Black.
Por que chamou de 'Caso Jacobi', capitão.
É só uma questão de conveniência, Sra. Black.
- Pode entrar, capitão. - Obrigado.
- Você também está preocupada. - Bobagem.
Bem, por enquanto o que sabemos é muito animador.
Contatamos todos os hospitais e prisões nas vizinhanças...
e o necrotério...
e todos os registros de acidentes de automóveis e outros tipos de violência.
Mas podemos confirmar que até o presente momento,
eliminando-se o imponderável, claro,
a Sra. Jacobi não está envolvida.
O que quer dizer com 'imponderável', capitão?
Ainda não recebemos notícias das prefeituras dos municípios vizinhos.
Minha mãe não tem por hábito ir a municípios vizinhos.
Bem, nunca se sabe.
Recentemente tivemos o caso de uma americana
encontrada com a garganta...
Bem, vamos ao que interessa.
Diga-me, sua mãe tinha algum distúrbio mental?
- Claro que não. - Mas querida, ela estava meio alterada.
Está bem, vamos contar logo a verdade ao capitão.
Estava mais que alterada. Tivemos uma crise aqui hoje!
- Não foi uma crise! - É só uma questão de semântica, Jerry!
Sua mãe costuma dar essas escapadinhas sozinha?
Claro que não.
Ela tem andado pela cidade a turismo ou indo a boates?
Acho que nunca botou os pés numa boate.
- Já tentou nosso empregado? - Sim, ele não estava em casa.
Mas as autoridades japoneses já destacaram um homem...
quem sabe um esquadrão...
Shinjuku, onde ele mora, não é uma das melhores zonas da cidade.
Minha nossa...
- O que foi isso? - Tem alguém na cozinha.
Eddie, onde você estava? Cadê minha mãe?
Escuta, Eddie, você viu Jacobi-san?
- Sabe onde ela foi? - Não, senhor.
Não acredito. Tem alguma coisa no seu olhar.
Com licença, Sr. Black, eu farei as perguntas.
Sou o Capitão Norcross, trabalho em conjunto com a Polícia Metropolitana.
Quero que responda algumas perguntas.
- Claro que sei que não está envolvido. - Não, senhor.
Onde esteve esta tarde?
- No cinema. - Que filme você viu?
Hercules Unchained.
Bem, Eddie, tem alguma ideia onde possa estar a Sra. Jacobi?
Chega. Vou embora. Vou pra Embaixada do Canadá.
Nossa.
Arigato!
Mama, nunca mais saia desta casa sem dizer onde vai.
- Mãe, estávamos desesperados. - Fui fazer uma visita.
Olá, como vai?
- É um alívio vê-la aqui, Sra. Jacobi. - Como vai?
Este é o Capitão Norcross, ele estava...
- Estava procurando pela senhora. - Desculpe se ficaram preocupados.
Mas o tempo voa quando estamos nos divertindo.
Agradecemos muito sua ajuda, Capitão Norcross.
Como não precisarão mais de mim...
- Boa noite. - Boa noite e muito obrigada.
Não há de quê. Darei a boa notícia na Central.
E sugiro que dê uma ligada para o General Garrison...
dizendo que nossa ovelhinha desgarrada voltou para casa
abanando sua...
Bem, boa noite.
Ganhou muitos presentes, Jacobi-san.
- Arigato. - Do itashimashite.
Ah, Eddie...
Está dispensado, e desculpe se o importunamos.
- Resolveremos tudo amanhã. - Não precisa, senhor.
É uma honra trabalhar numa casa onde mama-san volta de chofer...
e tantas demonstrações do respeito que lhe dirigem.
Boa noite.
Bem, vou colocar meus embrulhos no quarto.
Vamos ajudá-la, mamãe.
Mama, onde você esteve?
De quem era aquele carro?
Você andou bebendo, mãe?
Bebi uns copinhos de sakê.
Mas onde, mama? Onde?
Você já tomou sakê?
Tem gosto de avelã. É muito bom.
Estávamos desesperados por sua causa.
Quantas vezes eu me desesperei por causa de vocês?
Mama, quantos sakês você bebeu?
Desisti de contar.
Quanto tempo vai nos manter em suspense? Onde você foi?
Fui visitar o Sr. Asano.
- Ele te deu esses presentes? - Sim.
Já viu como eles embrulham as coisas?
Dá até pena de abrir.
Nesse embrulho tem bolinhos com pasta de feijão...
cor de rosa e verde.
E neste um kimono com um 'obo'... um 'obi'.
E neste, um conjunto de porcelana, serviço para dois.
Nesse um vaso de flores para eu fazer arranjos japoneses.
- O que foi fazer lá? - Bem...
Primeiro tomamos chá com bolinhos.
Depois nós jantamos.
Uma sopinha de leite com ovos. Depois comemos...
- ... peixe cozido. - Mãe!
Não estamos interessadas no menu.
Se quiser ouvir o resto tem que ouvir o menu. Sente-se.
Então... comemos peixe cozido.
E Alice, deu pra sentir que tudo que levava era um pouquinho de manteiga.
Também comemos nozes gingko, também chamadas figos prateados...
servidas em agulhas de pinheiro.
E durante o jantar, a criadagem tocou uns banjos compridos...
e uma canoinha virada de cabeça pra baixo.
Oh, Jerry, como eu me diverti.
Depois, o Sr. Asano,
e sua nora e seus criados me levaram até o carro.
Um carro cujas portas abrem pra cima para eu poder entrar.
- É um Mercedes-Benz. - Acha que ele ia ter um Chevrolet?
Jerry, será que temos sakê em casa?
Mãe, por que você visitou o Sr. Asano?
Bem...
já que criei problema para o Jerry achei que devia dar um jeito.
- Espero que não tenha tentado. - Tentei.
- Que foi que você disse? - Jerry...
...não pode culpar o Sr. Asano. Escuta.
Primeiro você pede uma redução de 1 milhão de metros de veludo.
De repente pede uma redução de 2 milhões.
- Isso é jeito de fazer negócio? - Mama, você não entende.
- Estamos sob pressão do Ministério do Comércio. - Sim!
Mas isso colocará o Sr. Asano numa situação econômica muito ruim.
Entretanto...
se ele diversificar vai pensar com a cabeça.
- Diversificar? - Vocês já conversaram sobre isso, Jerry.
Sim, por alto, mas ele rejeitou a proposta.
Talvez agora ele não rejeite. Falei com ele do meu sofá-cama.
Mama, não pode ir entrando na casa do Sr. Asano e falar do seu sofá.
- É uma situação cheia de implicações... - Grandes implicações.
Alice.
Alô.
Sim, é o Sr. Black.
Ah, olá, Sr. Putnam.
Acabo de ser informado pelo Ministro das Relações Exteriores
que nos reuniremos amanhã às dez.
E Jerry, o Ministro faz questão da sua presença.
Só pode ter sido ideia do Sr. Asano.
Portanto, sugiro que amanhã você conduza as negociações.
Não se esqueça. Às dez.
Sim, às dez horas.
Claro que estarei lá, senhor.
Boa noite.
Então?
Tem uma reunião muito importante amanhã às 10
com o Sr. Asano e o representante japonês da indústria têxtil.
Oh, Jerry!
Bem, mama, vejo que sua conferência hoje foi um sucesso.
O governo devia te contratar.
Um alto funcionário do governo na família é mais que suficiente.
Jerry, devíamos mesmo ter um pouco de sakê em casa.
Amanhã eu compro uma caixa.
Mama, concedo-lhe o primeiro prêmio Jerry Black por paciência e compreensão.
Chega... Mas eu te previno, Jerry,
É só o começo. Nada está decidido, nada foi combinado.
Vocês só vão conversar mais.
- Agora, Jerry... - Vamos, mais algum conselho?
- Quem sou eu pra aconselhar Jerry Black? - Está escondendo alguma coisa. Vamos.
Não quero parecer uma sogra como a das piadas.
Diga o que quiser, mãe.
Não é nada de importante, só...
Bem...
Sabe uma das razões que fizeram o Sr. Asano ficar danado?
Você se enganou e se curvou demais.
Ele achou que estava fazendo pouco dos seus costumes.
Eu sei que não estava. Só não sabia.
Fiz o que pude para aprender os costumes japoneses.
É que me falta tempo.
Você também não, não é, Alice?
Com toda essa vida social, entrega de cartõezinhos e chazinhos.
Mas deixe lhes dizer uma coisa, meninos.
É muito importante como se fala com estrangeiros sobre pequenas coisas.
Eu sei, pois fui estrangeira durante muito tempo.
E estrangeiro é gente muito sensível.
Mas também não precisa exagerar.
Por exemplo, a maneira como você trata o Eddie.
Não pode se curvar para um rapaz como o Eddie.
Não porque seja um criado, nem por ser japonês.
Mas porque ele está errado.
Não importa a cor da pessoa.
Se está errado tanto faz se é branco, preto, cor de rosa ou roxo.
Ninguém tem uma mãe como você no mundo todo.
- É? No mundo todo, hein? - Hm-hmm.
Mama, tenho uma ótima ideia.
Por que não se vestem e vamos todos ao General Garrison?
O Sr. Putnam está lá. Vamos ouvir música e faremos uma bela entrada.
- Ei, escuta... - E você vestirá seu pretinho com canutilhos.
Querida, não podemos ir.
O Sr. Asano vem aqui.
Aqui?
Jerry!
Jerry!
Jerry, o Sr. Asano vem aqui.
Aqui? Quando?
Hoje. É um costume japonês chamado 'Vô tomá xá.'
- O que é isso? - Segundo a etiqueta japonesa,
uma vez que se visita alguém a pessoa tem que retribuir imediatamente.
Não era mais fácil ele te trazer de volta?
Porque o Sr. Asano é muito formal em questões de etiqueta.
E também porque eu queria que estivessem preparados.
- O que vamos servir? - Chá.
Ele é um homem muito simples e um grande sábio.
Quero que o conheçam melhor. Verão como é um homem singular.
Não riam. Ele também me acha inteligente.
Espere até o pessoal saber que o Sr. Asano está arrastando asa pra você.
Acho até que ligarei pro General Garrison pra dizer por que não vou.
Será que eu torro uns Saltines? E temos anchovas.
- Japonês come anchovas? - Foram eles que inventaram.
Então não se importariam se fosse com o Sr. Asano
durante o inverno a teatros, concertos e festividades nacionais?
- Por que haveríamos? - Ora, nem precisa perguntar.
Neste país, quando um homem e uma mulher vão a teatros, concertos e festividades nacionais...
significa que estão namorando.
Que foi que disse, mama?
Ora, Jerry, mamãe deve ter se expressado mal.
Não. Quando o Sr. Asano diz 'namorando'...
ele quer dizer namorando.
- Não pode estar levando a sério. - Mamãe sabe que isso é impossível.
Não é, mamãe?
E o que você disse?
Escutei-o contar de um imperador que se casou com uma dama da corte.
Casou?
Mãe, você é uma mulher inteligente, sabe o que significaria um casamento desses.
Não precisa eu te dizer. Não pode estar pensando nisso.
- Não pode. - Só estou pensando.
Mas não tem o que pensar.
Sei do que estou falando. Já estive em muitos países.
Conheço esse tipo de coisa.
Na melhor das hipóteses seria difícil, mas no seu caso... é ridículo.
Ele quer dizer inadequado, mãe.
Não é para uma mulher como você.
É tão preconceituosa que nem bacon você come,
como pode se casar com um japonês?
- Chega! - Se pensar melhor...
Chega, já disse! E falo sério.
- Só queria dizer... - Você já disse!
Você disse preconceituosa.
Nunca nos oporíamos se você quisesse se casar de novo.
Se o homem fosse...
Deixa eu levantar algumas questões.
Não vê os problemas de casamentos inter-raciais?
Discutirei isso com o Sr. Asano, não com você.
Mas está fugindo da questão primordial.
A questão primordial que tanto o aflige é que o Sr. Asano seja japonês.
No Brooklyn, quando Essie Rubin disse
que não conseguia conviver com 'aquela gente'...
você se exasperou.
Lembra do que disse?
Pois se não se lembra, eu lembro.
Disse, ' Para acabar com preconceitos é preciso acabar com eles dentro de nós mesmos.'
Esqueceu, Jerry?
Ou quem sabe mudou de opinião?
E você, Alice? Você concordou com Jerry.
Falei teoricamente, mamãe, de forma abrangente em termos sociais.
- É diferente... - Quando é na sua pele.
É...
Bem, meninos, agora quero fazer uma simples pergunta.
Quem é preconceituoso?
Deve ser o Sr. Asano.
Não vai abrir a porta, Jerry?
E abra um sorriso.
E não fique parado aí como um dois de paus.
E Jerry!
Nem uma palavra disso para o Sr. Asano, está ouvindo?
Nem uma palavra.
Vá abrir a porta e seja agradável.
- Boa noite, Sr. Asano. - Boa noite, Sr. Black.
Entre, por favor.
- Boa noite, Sr. Asano. - Boa noite, Sra. Jacobi.
Boa noite, Sra. Black. É um prazer revê-la.
Boa noite, Sr. Asano.
Não quer se sentar, Sr. Asano?
- Aceita um cigarro? - Não obrigado. Não fumo.
Estava contando para os meninos do maravilhoso jantar na sua casa.
Espero que eles venham jantar algum dia. Talvez no sábado que vem?
A menos, claro, que o Sr. Black veja algum inconveniente
durante as presentes negociações.
Seria um prazer, senhor.
Ainda não se manifestou, Sra. Black.
Alice não é de falar muito.
Contudo, sinto que há algo que gostaria de dizer.
Diga, por favor, Sra. Black.
Sr. Asano, minha mãe me contou...
bem, sobre sua conversa esta noite.
- Com certeza ficou surpresa. - Fiquei, sim.
Na verdade, mais que surpresa.
- Alice, chega. - Permita que continue, Sra. Jacobi.
Não sei como dizer.
Não aprova.
Sr. Asano, sei que se falar com sua própria família...
se levar em conta tudo que....
Sr. Asano, tenho certeza que se pensar melhor...
Sr. e Sra. Black, entendo muito bem sua posição.
Posso até suscitar questões que talvez não lhes tenham ocorrido...
pois sou budista do Zhengzhou, descendente direto do Príncipe Shotoku.
o que torna as coisas muito mais complicadas do que possam imaginam.
Mas qualquer decisão cabe exclusivamente a mim e sua mãe.
Temos a maturidade, espero,
para pesar tais situações...
que vocês não têm.
Alice, acho que o Sr. Asano aceitaria um chazinho.
- Como todo prazer. - Com licença.
- Jerry. - Sim, mama?
Por favor pegue um suéter para mim. Estou com um pouco de frio.
- Sim, claro. - Obrigada.
Costuma guardar seus suéteres na cozinha, Sra. Jacobi?
Sente-se, por favor, Sr. Asano.
Pelo jeito os meninos estão muito agitados.
Isso para dizer o mínimo.
- Falou com sua nora? - Falei, sim, Sra. Jacobi.
E o que ela disse?
Nada. Não ousaria me questionar.
Não ficou chocada de namorar uma judia?
Minha nora não tem consciência
das distinções teológicas existentes na sociedade caucasiana.
Se faz alguma objeção é simplesmente pelo fato de você ser branca.
Foi o mesmo argumento que ouvi do lado oposto.
Nesse caso, você tomou alguma decisão?
Sim.
Sr. Asano...
Se 'namorar' significa atravessar a ponte,
então é não.
Está cedendo à negativa da sua família?
Não.
Então posso saber o que a levou a essa decisão?
Primeiro gostaria de lhe contar o que não me levou a tomá-la.
Não me importo com mexericos.
E acho que poderíamos resolvermos a questão de eu ser ortodoxa e você não.
Mas a resposta ainda é não.
Sim, é não.
E sabe por quê?
Porque andei pesando os prós e os contras.
Você não quer se casar comigo, Sr. Asano.
Sente falta de sua esposa e de alguém com quem possa conversar.
Olha para mim e a vê.
Tudo bem, ela era japonesa e vestia kimono.
Hoje eu também vesti.
Eu vi muito mais que isso, Sra. Jacobi.
Não, Sr. Asano.
Você ainda não saiu do seu luto.
E nem eu.
Sinto-me honrada, muito orgulhosa...
e muito emocionada com o que me disse esta noite.
Mas você não é o Sam.
Jacobi-san...
Há algo que deixei de dizer hoje.
À minha maneira...
eu a amo.
Podem deixar de fazer essa cara.
Eu disse não.
Mas não pelas suas razões.
Pelas minhas.
Razões que vocês nem me deixaram falar.
O que ele te disse, mãe?
Uma coisa só para meus ouvidos.
Acha que foi fácil?
Que não foi bom ser tratada com respeito
e admiração por um homem maravilhoso?
E cortejada como seu pai fazia comigo anos atrás.
Foi bom, sim, não posso negar.
Passei uma noite em que me senti jovem de novo.
E passou.
Mas pelo menos tenho outra lembrança.
E talvez outro arrependimento.
Agora, meus queridos,
quero que comprem minha passagem para o primeiro voo de amanhã
para Nova York, porque eu vou para casa.
Ah, não, mãe...
a gente vai melhorar.
Melhor não podia ser.
Não fez sentido eu vir e não faz sentido eu ficar.
Você me escreverá sempre e eu responderei.
Por que está aí sozinho, Jerry?
Pode entrar, a água está ótima.
Caso haja necessidade de oxigênio devido a mudança de pressão na cabine...
máscaras de oxigênio individuais...
serão automaticamente ejetadas do compartimento acima dos seus assentos.
Para liberar o oxigênio, segurem a máscara...
Só acontece uma vez em um milhão.
Já viajou de avião?
Claro. Então não se preocupe.
Estou sentada aqui a seu lado. Qualquer coisa é só perguntar.
- Arigato. - 'Dói se te mastiga'
# Você me ouvirá te chamando #
# um dia desses debaixo de sua janela #
# E quando estiver te chamando #
# Saberá que voltei pra ficar. #
Yoo-hoo, Bertha!
Uh-huh!
Trouxe minha fruteira de prata para o centro de mesa.
Obrigada, Essie, mas a mesa está exatamente como eu quero.
Quer que eu pegue os aperitivos?
- Gostaria muito, Essie. - Falou.
Continuo achando que minha fruteira de prata ficaria muito melhor.
Mas não seria minha, Essie.
Essa florzinha está muito mixuruca.
- É estilo moribana. - Ah.
Outra palavra que aprendeu no Japão, né?
Outra palavra que aprendi no livro de etiqueta japonesa.
Bertha, você está um estouro.
É dos de $25.95.
Gostei do jeito que arrumou o peixe, Essie.
Mas não colocou a raiz-forte na alface.
Só tinha raiz-forte vermelha e não serve para um jantar formal.
Vou dar um pulinho na Waldbaum's para comprar da branca.
Não precisa, Essie. O Sr. Asano gostará dessa cor.
Além do quê, você só quer é sair para evitar de conhecê-lo.
Na verdade, Bertha, sinto vergonha. Devo me curvar, apertar a mão?
É só ser natural.
Ah...
Essie!
Hm?
Tem um monte de vizinhos no pórtico.
O que você fez? Anunciou que o Sr. Asano vinha aqui?
Só falei pro porteiro.
Parece um comício. A Sra. Rosenzweig trouxe até a cadeira de praia.
Sabe, Bertha, devia ter chamado uma criada para servir.
Ainda dá tempo. A faxineira ainda está no meu apartamento.
Ela tem até um quepe com um lacinho preto.
Que fique com seu quepe. Não preciso ostentar para o Sr. Asano.
Essie, senta!
Está ostentando bastante com esse jantar.
Quanto pagou pelos perdizes?
Não fiquei na bancarrota.
Sabe, Bertha, minha nora me deu um aparelhinho
que faz rosinhas de rabanetes...
rosquinhas de aipo...
e os pepinos ficam que nem bonequinhos.
- Vou fazer uns pra você. - Essie!
Não vá fazer. Senta!
Já decidiu sobre suas férias?
Ainda não. Estou em dúvida entre Atlantic City e as Ilhas Virgens.
Duro de escolher.
- Essie. Fica calma. - Hm-hmm.
- E feche aquelas portas. - Está bem.
Pode entrar, pode entrar!
Oh, Sr. Asano!
Que bom que você veio.
- Teve dificuldade em chegar? - Não. Lembro que me mandou...
tomar o Lexington Express até a Franklin Avenue...
depois baldear para outro trem
e saltar na Kingston Avenue.
Pensei melhor e tomei um taxi.
Devia ter sugerido isso em primeiro lugar.
Ah, meu apartamento.
Entre, por favor.
E perdoe a desordem da minha casa.
Quero que conheça minha amiga, a Sra. Rubin.
Essie, este é o Sr. Asano de Tóquio, Japão.
- É uma honra. - Igualmente.
Fez boa viagem do Japão?
Excelente, obrigado. Jatos são ótimos aviões.
Bem, se me dá licença, tenho que ir me vestir.
Vou pra casa de uma pessoa para um 'potluck'...
depois vamos assistir à sessão coruja e corujão.
Toda noite na televisão, Sr. Asano,
passam um filme inglês e depois outro com a Bette Davis.
- Espero que goste dos filmes, Sra. Rubin. - Obrigada.
Foi um prazer conhecê-lo, Sr. Asano.
- Espero poder repetir a ocasião. - Igualmente.
Sayonara.
- Ela ficou nervosa de te conhecer, Sr. Asano. - Foi gentil da parte dela dizer 'sayonara'.
- Gentil foi você de me visitar. - Gentileza sua de me convidar para jantar.
Foi gentileza...
Deve haver outro jeito de se começar uma frase.
Por favor, sente-se.
Fiquei tão animada quando você ligou...
tinha tantas perguntas a fazer e não fiz nenhuma.
Então, o que te traz para essas bandas?
- Várias razões. - Negócios?
Apenas incidentalmente.
Soube que assinou um tratado muito proveitoso.
Foi um acordo experimental de curto prazo.
Gostará de saber que envolve certo grau de diversificação.
- Ficou feliz? - Nem tanto.
Mas estou especialmente feliz de revê-la.
Também estou feliz de revê-lo.
Meu governo ofereceu-me um assento na nossa delegação nas Nações Unidas.
- Eu aceitei. - Parabéns!
Passarei algum tempo aqui em Nova York naquele lindo edifício envidraçado.
Que bom.
Sra. Jacobi...
fui a um jantar em Tóquio na semana passada...
em homenagem ao nosso ex-Ministro das Relações Exteriores.
Além do embaixador, seu governo fez-se representar por seu genro.
- Jerry foi bem? - Muito bem.
Começou seu discurso em japonês
Não em bom japonês mas... em japonês.
Vimos como uma grande deferência.
Minha filha também estava lá?
Ah, sim. Linda, num vestido vermelho escuro.
Muitos dos meus colegas comentaram como estava atraente.
- Seus olhos brilhavam. - Isso porque serei avó.
Mas que grande notícia!
A melhor que já tive.
Agora, se me dá licença.
Vou me preparar para servir o jantar.
Não demoro.
Bonito samovar.
Pertencia a minha avó.
Esse quadro na parede é sua avó?
Não, minha mãe.
E o outro é meu pai.
Este é seu marido.
E seu filho.
Sim.
Seu filho parece com o pai, não é curioso?
Ambos se parecem com você.
Nunca tinha notado.
Bem, sente-se à mesa, por favor.
Não precisa esperar por mim, Sr. Asano. Vou ficar pra lá e pra vá.
- Fique à vontade. - Estou muito à vontade.
Sua casa é muito acolhedora.
- Tem muito calor humano. - Obrigada.
Ah, espero que goste de picadinho de fígado.
Obrigado.
Excelente.
Parece...
bolinho de pasta de feijão.
- E o que é isso, Sra. Jacobi. - Isso é gefilte fish.
É feito de tudo quanto é tipo de peixe, representando todos os oceanos e lagos.
Comemos em feriados, dias de festa e noites de sexta.
- Ah, não acendi as velas. - Posso ajudar?
Não. A dona da casa acende as velas do Sabbath.
Esperei por você. Achei que gostaria de ver como fazemos.
Seria muito interessante.
É só isso.
Acabei de dizer, 'Louvado seja Deus, Nosso Senhor,
Rei do Universo.'
que nos santificou com Seus mandamentos
e nos instruiu a acender as velas do Sabbath, Amem.'
Amem.
E agora, um vinhozinho de amora preta.
Agora não vejo minha mulher em você, Sra. Jacobi.
Já superei meu período de luto.
Leva tempo, não é?
Claro que leva um pouco mais para mulheres que para homens.
De fato.
Vejo que há muitas peças em Nova York...
e uma série de concertos no Carnegie Hall.
E em breve teremos o dia de Ação de Graças.
Um das suas principais festividades nacionais.
Espero que possamos celebrá-lo juntos.
No dia de Ação de Graças você virá à minha casa.
Kampai...
Sr. Asano.
L'chaim...
Sra. Jacobi.
Legendas: Luís Filipe Bernardes
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