All language subtitles for O.Amor.dá.Voltas.2019.PT-BR

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Original subtitles

"Depois de quase dois anos e tantas cartas,

é difícil ser original.

Nem vou tentar, porque tudo que eu disser,

tudo que eu sinto,

e que até hoje eu só consegui dizer nessas cartas,

não vai mais ter importância por uma razão:

Estou voltando para casa mês que vem."

"Esse tempo longe,

só confirmou o que eu sempre senti

mesmo tendo aprendido com a sua viagem

que não eu devo ficar esperando muita coisa em troca.

Tomara que agora você consiga dizer cara-a-cara

as coisas que até hoje só o papel em branco conseguiu tirar de você.

Porque eu também vou tentar te falar

coisas que nunca tive coragem de dizer antes.

Sem medo."

"Nada mais de... “gosto muito de você”...

Eu sei que quando a gente se encontrar,

eu vou conseguir te dizer eu te amo

sem dar aquele sorrisinho irônico depois.

Acho que tudo que eu vivi aqui,

tudo que você me escreveu,

fez eu me entender um pouco melhor.

E agora tudo que eu estou sentindo

é que nem aquela música do Marvin Gaye,

que eu te falei, lembra?

O médico que mora comigo canta muito."

"Sabe que depois disso de tudo que aconteceu,

das coisas todas que você passou, que eu passei.

Eu acho que eu descobri, ou entendi,

que só tem um ponto final mesmo na vida.

Aquele do seu medo de avião, dos seus remédios,

do avião que caí, sabe? Do fim mesmo, o resto não."

"Tipo a gente, acho que tudo,

África e Brasil, está junto ou separado,

encontros e desencontros, o ontem, o hoje.

Eu te amo!

Como sempre, como nunca.

Porque eu e você somos reticências..."

É.

"...reticências."

Eu te amo muito!

Sem sorrisinho, vamos casar.

Você está louco? Está todo mundo olhando.

Deixa olhar. Não tem importância.

Você não vai falar com a minha irmã?

André, André, você não vai falar comigo?

Ei, Dani, caramba. Quase que eu não te reconheci.

Da ultima vez você tava de cabelo vermelho, foi depois do verde.

Vamos? Quero saber da viagem.

Você vai contando no carro?

E a poligamia?

Não, essa eu não aproveitei, não.

Pera aí, você não vai contar mais nada?

A gente quer saber, das guerras, a cultura,

quanta gente você salvou?

Não, já falei tudo, já. Já foi!

Você está diferente, sabia?

Tem alguma coisa que eu não estou conseguindo identificar.

O que você acha que é? Quer uma dica?

Eu acho que esse carro que não tem nada a ver com a Beta,

porque é muito velho e a Beta...

não tem nada a ver.

Ai, é bom estar de volta.

Obrigado!

Não, eu estou falando de mim.

Eu acabei de acabar minha faculdade na USP.

- Ah é? - Uhum.

É, e essa eu acabei mesmo, meu.

Às vezes as pessoas demoram para descobrir o querem da vida, né?

Eu pergunto porque que você tem isso,

ou vou me assustar com a resposta?

Meu carro, minhas regras.

De quem é essa casa?

André, eu preciso te contar uma coisa.

Eu sei que eu devia ter te falado isso antes, e que...

A mamãe chegou.

É porque, aconteceu umas coisas definitivas...

Amor, eu tô super atrasado por trabalho.

Um pouco, enquanto você...

Que porra é essa?

Esse é o Sérgio, meu marido.

Fala cara, beleza?

Esse é o André.

Teu ex.

Marido?

Esse é seu ex?

Isso é pegadinha, né?

Sua irmã enlouqueceu?

Eu devia ter te contado no caminho.

E o beijo do aeroporto?

Que beijo?

Ele que me beijou, não foi nada demais.

- Como é que é? - Nada?

Ele não estava sabendo, vamos.

E você não podia ter contado antes?

A filha é sua?

A filha é dela. Uau!

Já ouviu pergunta mais idiota?

Faz sentido né?

Pergunta mais idiota feita pelo maior idiota do mundo.

- Também não é assim André. - Também não é assim?

Você acha que é fácil encontrar a namorada,

mulher que você queria que fosse a sua esposa,

com a filha no colo, casada com sei lá o quê?

Eu sei que deve ser difícil.

Maldito elevador!

A Beta tinha prometido arranjar alguém,

para dar uma arrumada no apartamento de vez em quando.

Acho que depois desse Sérgio ela desistiu, né?

Pelo menos você não terminou como o seu peixe.

Teobaldo?

Teo?

Meu Deus do céu, o que aconteceu com a minha vida?

Você foi pra África, meu filho.

E...

Quantos anos tem a criança?

Seis meses mais nove?

Sete mais oito, foi prematuro.

E você quiser saber, foi quando você desapareceu.

Eu passei por uma quarentena. Eu desapareci por um bom motivo.

Sim, mas ela não sabia disso.

Mas essas coisas não dá pra explicar,

Não tem data marcada, é de surpresa.

Não tinha como eu mandar um torpedo para ela,

Quer dizer, até tinha.

Uma mensagem, um e-mail, assim,

se tivesse um computador...

um celular por perto.

Eu estava no meu detox digital.

- Estava! Acabou? - Acabou!

Não, sei lá. Eu sei que eu tava numa quarentena,

e ainda assim eu escrevi uma carta explicando tudo.

"Tô numa quarentena,

vai ser difícil se comunicar, quando der eu escrevo, beijos..."

Eis que dois meses depois...

Por que ela voltou a me escrever?

Sei lá. Acho que...

você insistiu tanto, né? E...

talvez ela não quisesse te magoar.

Dá para ver que o plano dela funcionou que é uma beleza.

Merda!

Porra!

Já te ligou umas cinco vezes.

Atende!

Oi André, por que você está me ligando?

Eu estou muito confuso. Eu não estou entendendo nada.

Você foi me buscar no aeroporto.

Foi besteira minha, eu achei que tava te devendo uma explicação.

E deve. E as cartas?

Que cartas, André?

Eu estou casada.

Desculpa eu devia ter te falado isso antes,

mas é melhor você não me procurar mais.

Fica bem.

Alô?

Sei que isso parece meio estranho,

mas eu estou procurando um peixe exatamente do mesmo tamanho,

do meu antigo, sabe?

Você tem um desses?

Não fazem mais desses.

Não dá para consertar?

E aí, como é que você...

Incrível!

Tudo igualzinho como era antes.

- Você quer beber alguma coisa? - Quero.

Eu fiz compras.

Mas eu posso pegar ou vai perder a simetria?

- Não, pode pegar. - Ta.

Eu também limpei o sofá.

O peixe está diferente.

Eu me esforcei, mas ele saiu de linha.

Quantas vezes você veio aqui antes?

Eu tenho uma boa memória.

E eu entendo de peixes.

Bom, você pediu para eu vir...

É que, é que...

Eu queria sua ajuda para trazer a Beta aqui.

Então, isso aqui tudo foi pra...

Isso não vai fazer o tempo voltar!

Ela está casada, tem uma filha.

Mas isso você já sabe.

Acabou o jejum digital?

Você poderia me ajudar, hein?

Preciso conversar com ela para entender.

Que mais que tem para entender?

Sabe...

eu entendo que ela tenha ficado magoada comigo por eu ter ido viajar,

que ela tinha expectativa de casar,

que ela tenha ficado ainda mais puta,

porque eu parei de escrever quando eu fui pra quarentena

e que ela não tenha respondido minhas cartas depois de tudo isso.

Agora, eu não entendo ela grávida,

voltar a me escrever, como se não tivesse acontecido nada.

Pior do que isso, me escrever como se me amasse,

mais do que nunca.

Não entendo que tipo de vingança é essa,

que faz a pessoa ir no aeroporto,

me humilhar do jeito que me humilhou depois de tanta coisa.

Tá vendo? Até você deve está chocada com o que eu me transformei.

Já me viu falando assim?

De mim, assim? Desse jeito sentimental?

Foi nisso que ela me transformou.

Eu, eu, não sei o que te dizer.

Eu... queria poder...

Bom, deixa eu ir,

que eu acho que eu já me meti demais na vida de vocês dois.

Que isso?

É uma festa hoje à noite.

Não dá. Eu preciso conversar com ela.

Ta. O Sérgio trabalha hoje à noite. Ela deve estar sozinha em casa.

Se você mudar de ideia...

Ta.

Eu preciso falar com você.

Eu estou aqui embaixo.

Muito bom te ver, André!

Mas você não acha o local e a hora meio estranhos para tua visita?

Desculpa, Elaine. Eu achei que a Beta ia estar em casa.

Não, hoje é sexta feira,

eles saem pra balada e eu fico com a minha netinha só pra mim.

Mas se não fosse isso seria estranho.

Deve ser difícil pra você, André?

Voltar.

E ainda mais tendo que lidar com tudo isso à sua volta.

Eu rezava todos os dias pra que você voltasse inteiro.

Todos aqui.

Parece que eu joguei metade da minha vida fora.

Você é muito jovem. Que bobagem.

Ai meu Deus. Vou ter que ir lá. Espera só um pouquinho.

- Vou buscar uma bolsa de água quente. - Oi menina, oi.

Calma, calma, vem cá, vem cá.

Oh, aqui, calma, calma. Vai passar.

Cadê o pum do tio?

Opa. Está bom, né?

Então...

- Então o quê? - Vão com calma vocês dois.

Eu estou calmo, eu estou muito calmo.

Eu, não sei se eu estou calmo,

porque eu não sei do que vocês estão falando.

Eu disse que eu estou calmo, mas você não precisa ser cínico.

Essa é nossa casa, esse é nosso elevador.

Se eu dizer que o meu melhor amigo mora aqui,

vocês não vão acreditar, né?

Nem começa, André.

Tá bom, desculpa. Vocês têm razão.

É porque eu queria falar com você mas...

tudo bem também.

Escuta aqui, se ela não falou contigo até agora

é porque ela não tem nada pra falar.

Até entendi isso, mas, tem umas coisas que não entendo ainda,

queria falar com o maior respeito que eu...

a filha de vocês é muito linda,

e eu não quero me meter no meio dessa história.

Não tem como você se meter no meio dessa história,

porque nada do que você disser, vai mudar essa situação.

Pensei que tivesse deixado isso claro quando eu te escrevi,

dizendo que não queria mais você,

que não ia mais te responder.

Que cara é essa?

O que está acontecendo,

o que vocês dois sabem e que eu não sei?

Nada.

Fala, André.

Tudo que ele disser você já sabe.

O que eu vou falar?

Não tenho nada para falar.

Vai cara, fala!

Fala, André.

Fala, porra!

Tá, eu não sei porque vocês estão fazendo isso...

mas está bom, tudo bem assim...

é, porque depois dessa carta que ela falou,

ela voltou a me escrever várias, né?

- Você está louco? - Tem essa aqui,

essa eu não vou te entregar porque eu ia te entregar pessoalmente

eu escrevi no último dia lá.

Mas essa com certeza eu não escrevi pra mim mesmo.

Vale a pena dar uma lida.

Você acha mesmo, André, que eu escrevi para você?

Que nunca foi capaz de me dizer um eu te amo.

Foi sim, por causa das suas cartas.

Porque ela me escreveu isso, e ai isso, ai isso,

ai eu me abri, ai eu escrevi isso, isso e isso.

Se quiser. Quer que eu leia? Eu posso ler também.

Como que você teve coragem de escrever isso?

Você estava grávida de mim.

Eu já falei que não fui eu, que ele está louco.

Estou muito louco.

Tudo que você escreveu aqui,

você nunca disse nada parecido para mim.

Não fui eu!

Perdeu maior festão.

Eu preciso ir ao banheiro.

Preciso falar com você e tem que ser agora.

Mas aqui, agora?

Tem lugar melhor que sua casa?

Aqui não é minha casa, é o banheiro.

Sim, é.

Assim eu vou fazer xixi na calça.

Mas o teu negócio já está pra fora.

Dani, ou você sai ou você fala o que você veio falar.

Não tenho nada para falar, não.

Também já bebi, eu vou beber mais.

Essa música está meio, tipo antiga, né?

Nasci tipo, tipo...

Se você me contar porque você foi pra África,

eu te conto um segredo meu.

Sei lá,

eu queria fazer uma coisa que fosse importante,

queria salvar as pessoas.

Pronto, agora fala você.

Negativo, isso não se qualifica como segredo.

Você tem que me contar qual era o problema de um lugar mais perto tipo,

nordeste, sertão.

Exatamente por isso, porque era perto.

Tá, mas qual era o problema de estar perto?

Esse é o segredo que você tem que me contar.

Quando eu tinha quinze anos tudo o que eu mais queria

era fazer tatuagem, sabia?

Mas isso não era o correto.

E aí você foi pra África aos vinte nove,

porque aos quinze você não fez a tatuagem.

Você já sentiu como se você não tivesse feito,

nada do que você devia ter feito na vida?

Eu já senti como se eu tivesse feito, muito mais do que eu devia ter feito.

- Eu nunca fiz uma tatuagem! - É revoltante.

Sempre fui muito certinho.

E o casamento era o próximo passo da minha vida precoce.

Casamento ou África.

Aí quando você decidiu que era o momento,

a vida foi lá e fudeu contigo.

Estou um pouco enjoado.

Acho que eu vou deitar.

- Vai nessa. - Acho que é melhor.

Você vai embora?

Por quê? Ficou carente?

Não, besta.

Eu estava só mesmo contando o segredo.

Então, se você olhar pelo o meu ponto de vista,

não foi tão diferente de você assim.

Eu fiz tudo o que eu quis,

eu fiz todas as tatuagens que eu tive vontade de fazer.

Fez, né?

Não me arrependo.

Poderia viver sem metade delas. Poderia, mas enfim.

Pintei meu cabelo de oito cores diferentes.

Não gostei de nenhuma.

Enquanto você namorava uma pessoa, eu tinha

dezesseis caras.

Eu sempre quis casamento.

Também tentei várias profissões.

Eu queria que esse fosse o meu segredo, mas não é.

Na verdade eu não queria ter visto a Beta jogar no lixo,

aquela carta que você implorava para ela te responder.

Eu também não queria ter pensado no seu desespero,

quando você ligou atrás dela e eu tive que te dizer,

que ela não queria mais falar com você.

Eu não queria ter tido essa ideia idiota de te responder no lugar dela

porque agora eu não tenho como te dizer,

eu não fiz isso de propósito, eu não fiz isso de sacanagem.

Eu não...

Eu não queria que você ficasse assim,

Eu queria que você,

ficasse feliz lendo o que eu estava escrevendo.

Só que eu fui idiota de não ver

que isso ia acabar assim, que a gente ia ficar nessa situação,

no meio dessa confusão?

Na verdade o que eu não queria mesmo era ser apaixonada por você.

Ei, ei.

Onde você aprendeu a ser tão escroto?

Tentar acabar com meu casamento daquele jeito, você está louco?

Eu, eu?

Bom dia, André, desculpa te acordar.

Aqui olha, tuas chaves,

engole elas de uma vez que eu não quero nada que me aproxime de você.

Ei, calma, calma! Olha só!

Você que falou para entregar as cartas, eu estava saindo fora.

Você tava infeliz no seu casamento, você me meteu nisso,

- foi você que fez merda. - Você está doente!

Você foi até a minha casa infernizar a minha vida

e agora vai tirar o corpo fora?

É ridículo, é patético!

Que cavanhaque é esse?

Até a porra do peixe tá igual. É isso mesmo?

É outra espécie, você acha que eu sou algum tipo de neurótico?

Não, acho que você é bem normal, André.

Um cara que copia carta no carbono é bem normal.

Acho que não vai levar a nada essa discussão.

É, não vai mesmo.

Escuta o que eu vou te dizer.

Fica longe de mim,

longe da minha filha,

da minha vida.

- Beta? - E, e...

Aqui, isso aqui,

isso aqui é seu.

Porque isso aqui,

isso aqui são as coisas mais bonitas

que alguém podia ter escrito para outra pessoa.

Eu passei não sei quanto tempo querendo ouvir isso, André.

Querendo poder também escrever o que essa Beta que você inventou escreveu.

Não, eu nem poderia tentar,

porque eu namorava um covarde.

Você está tentando agora estragar a única coisa boa

que eu estou fazendo da minha vida.

Porque o Sérgio, ele sim, teve coragem

de seguir em frente com o nosso relacionamento enquanto você...

Um covarde você já falou.

Eu nunca achei que você fosse capaz de fazer isso.

Da próxima vez me imita melhor.

Beta, calma, calma! Ei, ei, beta, beta.

Beta é o cacete.

E eu sempre odiei esse cavanhaque.

Não! Aí você está mentindo.

Está complicado acreditar que você escreveu as cartas no lugar da Beta.

André...

- Nem pensa em olhar para mim. - Eu já te pedi desculpas...

Também não fala. Guarda a tua garganta para sua irmã.

A gente vai acabar voando de madrugada

e eu não gosto de pegar voo de madrugada.

Não tinha outro voo?

Tinha o que a Beta pegou.

Você acha que está em posição de ficar fazendo gracinha?

O que foi agora?

Não tinha um voo com menos de três escalas?

- Fala? - Tinha, o que a Beta pegou!

Mas só tem igual na semana que vem.

Quem que foi a besta que resolveu ter uma casa de praia no fim do mundo?

Meu pai. Era a casa dos sonhos dele.

E ele pediu pra gente não vender quando ele morresse.

Eu gosto de casa de praia.

André!

Não dá pra ir. Eu não posso!

Mas eu preciso ir de qualquer maneira, preciso ajeitar a droga que eu fiz.

Claro que eu não estou falando para você não ir.

Só estou falando que eu não pego mais um avião assim, agora, de novo,

com tanta escala, tão rápido depois de ter voltado da África.

Você tem certeza que ela foi sozinha?

A Debinha já saiu do peito e minha mãe falou que a Beta,

estava precisando de um tempo sozinha para pensar.

Para pensar?

Mas ela não devia ter ido atrás do marido dela?

Tem o Sérgio, mas também tem você.

Eu não estou inventando mais nada, tá. Minha mãe falou, eu juro.

Ela deve ter ficado mexida com as cartas que eu escrevi.

E aí, você já decidiu se vai fazer aquele doutorado em Paris mesmo

ou ficar por aqui e abrir um consultório?

Como é que você sabe disso? Eu não falei para ninguém.

Ah, eu escrevi para você, né, "Beta"?

Eu queria ir pra Paris,

mas aí a minha suposta namorada estava um pouco hesitante com a ideia.

Até fiquei surpreso porque a minha namorada de verdade,

ela sempre adorou a ideia de morar na Europa.

Achei que fazer planos para morar fora era um pouco demais.

Ah, então quer dizer que a farsa tinha limite?

Passou meu sono, não preciso mais conversar.

Bom fala, ei, eu quero saber, sério.

Não, foi só um bocejo, não precisa falar.

Não, mas eu quero saber o que você acha.

Por linhas tortas,

você é a única pessoa que sabe das minhas dúvidas.

Então eu quero realmente saber o que você pensa.

Até porque agora você não corre mais o risco,

de prometer nada que você não possa cumprir, né?

É, Paris é legal,

mas depois você pode fazer um curso em Londres

depois um outro em Roma, por que não um outro em Nova York?

Não entendi.

Você tem que decidir se você quer viver assim, André.

Porque você corre o risco da sua vida passar em outro lugar.

Disso eu entendo.

É, eu acho que agora a gente está acordado até demais.

Vamos, que acabou a confraternização?

Vamos, eu dirijo.

Nem a pau! Eu estou "interaço".

Dani, Dani...

Dani, a gente tem que ir.

Mas eu dirijo você parece um velhinho no volante.

Você vai quebrar meu carro.

Carro velho!

A curva, a curva!

Olha o caminhão, Dani!

Eu me pergunto se eu estou com tanta pressa assim?

Eu estou!

Fica tranquilo que não vai acontecer nada.

Vai quebrar o carro.

Eu imagino você passando, tipo tartaruga, né?

Eu respeito cada vez mais os quebra molas que passam pelo meu caminho.

Ah, eu tenho que te mostrar uma coisa.

Não tem, não, não tem, não.

- Tenho, sim. - Não tem, não.

- Tenho, tenho sim! Tenho! - Não, não tem não.

Sabe porque, porque você está com pressa.

Sim, vai atrasar só um pouquinho,

mas tem uma coisa que vai deixar você menos bravo comigo.

O quê? Você vai diminuir a velocidade?

O que é isso? Rali?

- Melhor! - Melhor para quem?

Para nós.

Quem chegar por último é um chato de galochas.

"Chato de galochas"?

Quem é você? Minha vó disfarçada?

Tira essa camisa.

A outra também.

A calça, André! A calça!

Ui, que vovô sexy!

Vem, a água está uma delícia! Está quentinha, vem!

Vem, vamos.

Caraca, é isso que você chama de quentinha?

Está quenti...

- Não, não, não, não. - Para de ser...

- Não sei boiar. - Não sabe boiar?

- Ah, eu me afundo. - Enche o peito de ar.

É lindo, né?

Oi? Hã?

- São vinte e uma tatuagens. - Sério? Contei doze só.

Você acha que elas tão aí pra qualquer um ver?

Você é engraçada.

Engraçada? Mas, engraçada divertida ou engraçada estranha?

Os dois, para o seu bem vai ser melhor quando

você descobrir o limite entre uma e outra.

Você está falando do quê?

Ah! Estou falando do que você fez, né? Parece uma peça mal pregada.

Eu sei que fiz merda mas eu não estava pregando peça.

André, eu já te expliquei!

Mas é porque eu dormi no meio da sua explicação.

Depois eu te expliquei de novo.

Eu sei, eu sei. Você ficou com pena de mim,

eu sozinho na África, ouviu meu desespero.

Tá, tá! Essa é a versão oficial.

Mas eu fiquei com a sensação...

de que você continuou falando depois que dormi.

- É só uma sensação. - Sei. Deve ser.

E aí? Valeu ou não o rali?

Valeu, valeu.

Que merda, hein? Se desse pra voltar no tempo.

Eu que o diga.

Não tinha feito nada disso?

Acho que não.

Acho que não teria escrito aquelas cartas.

Não estou falando de carta, não. Estou falando disso aqui.

- Está com essa ideia fixa, né? - Foi mal.

Eu tive medo da primeira vez que eu fui fazer a tatuagem.

É?

É, porque eu achei que era muito definitivo, sabe?

Mas aí, eu, aí eu comecei a entender

que na verdade cada uma delas era um momento da minha vida.

Inclusive tem até algumas cartas que eu escrevi pra mim mesma.

Mas enfim, e aí eu queria carregar esses momentos comigo.

Para não esquecer quem você foi?

Até porque não tem muito como, né? Quem eu fui é quem eu sou.

Ah, ui.

Vai dançar?

Melhor não, melhor não.

Se eu fosse dançar, eu iria arrasar e...

É, o mundo não está preparado pra isso.

Não.

E você, se você pudesse voltar no tempo você iria de novo?

Uma parte minha diz que não.

Não só pela Beta, mas porque é tanta desgraça.

Se não é doença de miséria, é ferimento, idiotice humana.

E a sua outra parte. Por que você iria de novo?

Eu sei que eu não mudei nada daquela situação, mas eu estava lá.

Será que a gente pode mudar de assunto?

Não gosto de falar disso.

Minha vida continua cagada, eu não tive nenhuma redenção.

Você quer saber?

Eu acho incrível você ter ido pra África.

Sério, acho de uma coragem surreal.

Estranho, sua irmã me acha um covarde.

Não importa, você precisava disso.

As únicas decisões de vida que eu consegui tomar, por exemplo,

foram essas.

Não é verdade.

É, sim!

Eu tenho um pouco de inveja dessas suas mil e uma vidas.

De tentar, sabe?

Aquilo é uma blitz?

POLÍCIA RODOVIÁRIA FEDERAL

O que foi? Não me diga que você trouxe maconha.

Que maconha, o quê?

Então, relaxa. É só a droga de uma blitz.

Boa noite.

- Boa noite. - Boa noite.

Habilitação e documento do carro, por favor.

Habilitação

e o documento...

essa licença é do ano passado, cadê a desse ano?

Ah! Deve estar aqui em algum lugar.

Por que o senhor não sai do carro para conversar?

Oh, senhor policial. Ela já falou que está procurando.

Escuta, não tem uma forma mais simples da gente resolver isso?

Com certeza!

É só sair do carro pra gente conversar.

Não, ninguém tem que conversar nada, não.

Olha só, eu estou tentando ajudar

mas já que o espertinho aí resolveu criar um caso...

Não, não, o senhor está sendo ótimo.

Lima?

Dá para acreditar nesse babaca?

Por que você teve que falar com ele assim?

Por que eu estou cansado desse tipo de gente.

Milhões de pessoas morrendo no mundo e

esse cara tentando arrancar uma grana tua.

Cadê esse documento? Acha logo.

Está tudo em ordem, né?

Mais ou menos.

Eu precisei do dinheiro para outra coisa.

- Com licença, com licença. - Toda.

Olha, eu queria pedir desculpas.

O senhor sabe como é, ele acabou de ser demitido do emprego e

ele não teve a intenção de faltar o respeito...

Com licença.

É, o senhor não tem vergonha de abusar de uma pessoa

cujo o único pecado foi não ter dinheiro

no final do mês para pagar o imposto?

- Escuta aqui... - Não, não terminei de falar não.

Engraçado, a gente está no Brasil,

com certeza tem um cara perigoso agora, assaltando uma velhinha indefesa,

enquanto a gente está aqui um batendo papo.

Então tem como o senhor, por favor, nos deixar em paz e

fazer alguma coisa de realmente útil?

Cidadão, você pode buscar o carro às 10h,

se pagar multa e os impostos,

essa é a lei.

Aproveita a estadia na nossa cidade.

Você é bom com autoridade, né?

É sempre assim?

Estava precisando desabafar.

Foi bom pra você?

Foi, foi ótimo.

Que bom.

Ah, que bom!

Inacreditável, olha isso aqui!

Não tem nada perto, só esse motel.

Quem vem pra cá?

Graças a Deus, ninguém.

É a nossa chance de conseguir um quarto vazio.

E aí, você dirige ou eu?

Nossa, faz tempo que eu não venho num desses.

Somos dois.

Eu já posso virar?

Você nem precisava ter ficado de costas.

Você me viu basicamente pelada hoje na praia.

Nossa, assim você vai destruir a noite local.

Está com fome?

ABERTO

Estou.

Obrigada.

Isso aqui, quer dizer a ausência disso,

fez eu descobrir que eu sou brasileiro mesmo.

Por que em que outro lugar do mundo existe isso?

Tudo bem, está faltando uma coisa.

Queijo com goiabada não tinha no cardápio.

Isso você me mandou algumas vezes.

Tinha um lado "retrô".

Carta com comidinha,

bem romântico. Não tinha?

Sei, "retrô" que nem aquele cara ali atrás?

Pensa em mim, chore por mim,

ligue pra mim, não não ligue pra ele...

Até nisso você é irônico? Canta sério, né André?

Isso era eu cantando sério.

- Desculpa. - Não, tudo bem.

Vai, canta você.

Invés de você ficar pensando nele,

invés de você viver chorando por ele,

pensa em mim, chore por mim,

ligue pra mim, não não liga pra ele,

pensa em mim, chore por mim,

liga pra mim, não não liga pra ele.

Olha, agora a música ficou até boa.

Você já teve umas bandas, não foi?

Sim.

Mas os músicos prejudicaram meu talento.

Como você lembra disso?

Lembro disso e lembro de muitas outras coisas também.

Tudo bem, você não escreveu

o que você escreveu pra sacanear ninguém.

Ah, esse assunto de novo, não.

Juro, o que eu tenho que fazer pra você entender que eu

fui uma idiota ao quadrado, míope, eu realmente não vi

que alguém ia se ferrar lá na frente de qualquer jeito?

Sim, isso eu já entendi.

O que ainda me deixa confuso

é como você escreveu aquelas coisas?

A nossa letra sempre foi parecida, a minha e a da Beta.

Foi só um esforço a mais.

Mas eu não estou falando disso, não. Estou falando que,

não dá nem pra comparar, as suas cartas com as cartas da Beta.

Ela escreve legal, mas é,

porque você, sei lá, você fez eu me abrir, você...

futucou lá dentro.

Eu queria entender, como é que você fez isso?

O que você pensava para escrever o que você escreveu?

Ah, quando eu escrevia eu fingia que eu era uma outra pessoa,

que eu tava numa outra situação, tipo num filme, sabe?

Imagina um daqueles filmes de loira fatal com detetive,

que tem aqueles diálogos surreais, divertidíssimos,

onde todo mundo é inteligente, e tem umas tiradas maravilhosas, sabe?

Ninguém fala assim, ninguém é desse jeito.

Eu prefiro, filme realista.

Pensa nas coisas que você fala.

Você não é um filme realista.

Tá, faz sentido.

Enfim, finge que eu sou a tal loira fatal e você está chegando em mim.

Vai se solta, deixa sair.

Faz o seguinte, vai naquele balcão e

vem me oferecer um whisky.

Vai André, vai!

Obrigado, obrigado.

Pausa de 15 minutos.

Senhorita.

Poderia lhe oferecer um drinque?

Poderia.

Meu nome é Carmen.

Você gosta?

Preciso mastigar primeiro para saber o gosto.

Você é bastante atrevido, sabia?

Se eu fosse atrevido a gente não estava de pé só conversando.

Eu estou sentada.

Pra mim isso não é sentar.

Comigo mulher bonita senta na mesma cadeira.

Nesse caso eu faço diferente do que mamãe me ensinou.

E como foi que ela te ensinou?

Mulheres primeiro, eu me sento antes.

E você,

no meu colo.

A sua mãe também te ensinou a ser grosso desse jeito?

A vida é a minha escola.

Desde quando?

Desde que te vi entrar...

percebi que o teu sonho, era ser possuída por um caminhoneiro.

Desculpa.

Caminhoneiro, você pegou muito pesado. Que isso?

É para não rir.

Continua, continua.

Você pegou muito pesado.

Pesado vai ser, Carmem, te jogar na parede...

Você sempre foi apaixonada por mim. Admite!

Carmem não se apaixona assim por qualquer um.

Estou falando de você.

Por isso, você escreveu as cartas.

Ei, ou, chega!

Se não, a gente não vai sair daqui nunca.

Eu vou lá.

Não, não! Eu não quero ir!

Tem que ir.

O que vocês estão fazendo aqui?

Você também não vai colocar sua sunga e dar um mergulho?

Desculpa, é porque a Dani precisa conversar com você primeiro.

E o que você sugere?

Assim, que eu me jogue dentro da água também.

Falei que não queria mais ver tua cara.

Nem...

não.

Você quer que eu vá lá de novo tocar a buzina para ela sair?

Pode deixar, que eu já vou lá falar com ela.

Toma teu tempo.

Dani?

Dani, Dani.

Contou?

Dani, está tudo bem?

Não tem como ficar bem. Me deixe, André.

Desculpa, eu devia ter ido com você.

Dani. Dani, Dani.

Eu não vou deixar você sair assim.

Você não vai sair daqui sem conversar comigo.

Eu vou ficar aqui na...

Não precisava ter sido tão dura com ela, né?

Apesar do estrago, ela não fez por mal, né?

Que ideia de jerico, né.

Eu não fui dura com ela, não.

Não?

Ela só queria te ajudar, não era essa a ideia?

É, você acha?

Acho.

Eu acho que você poderia ter vindo sozinho.

Você não acha que era importante ela ter vindo junto?

Eu acho que você já está bem grandinho

e sabe o caminho.

Legal você está agindo assim de cabeça fresca.

Você está meio cansado da viagem, não está?

Estou um pouco.

Não, mas tudo bem o importante é ter resolvido a situação.

Toma um banho, André.

Estou fazendo uma comidinha, pra gente.

Tá, tudo bem! Legal, joinha.

Você não sabe quanto que eu estou aliviado.

E esses dias, conversando com a sua irmã

eu percebi o quanto que

apesar dela ter umas atitudes meio impulsivas, meio,

sei lá, ela é bem nota dez.

Nove, talvez.

Mas é muito legal, você não ficar crucificando ela, sabe?

Maduro...

André, essa sua preocupação exagerada com a Dani.

Ela sabia que tinha que me contar o que vocês descobriram e

que talvez eu não quisesse ouvir

por que eu ia querer sacrificá-la?

Eu queria ter uma conversa com essa vaca dessa médica,

que ficou o tempo inteiro do seu lado,

fingindo que era eu, debaixo dos seus olhos.

Como que alguém pode fazer uma coisa dessas?

Enganar, escrever cartas como se fosse uma outra pessoa.

Qual é o nome dessa louca?

Dani... O nome dela é Dani.

Dani? Dani tipo minha irmã?

Dani, Dani, Dani.

Para você ver, inacreditável, né? Não, e a letra?

Quase, quase igual.

Eu até agora não estou raciocinando direito.

Ainda bem que aqui a gente não tem muito mais do que fazer,

além de pensar.

É, não tem.

Você nunca gostou muito daqui, né?

É que aqui é meio longe, meio fim de mundo.

Ah, por isso que você foi pra África, para se perder numa metrópole.

Desculpa.

Eu não podia ter ido do jeito que eu fui.

Eu devia ter conversado melhor com você.

Você fugiu da gente.

E depois aproveitou a tal da quarentena pra...

Você aproveitou essa desculpa pra dar um tempo da gente.

Depois que eu voltei da quarentena,

eu entendi o que eu queria.

Quando você voltou ou quando a tal mulher começou a te escrever.

A mulher era você.

Eu lia pensando em você, eu respondia pensando em você.

Estou confusa.

Mas pelo menos eu não estou mais puta com você.

E a briga com seu marido?

Ele não acreditou que as cartas não eram minhas.

Na verdade, a Dani...

Sim, eu também pensei nesse negócio da Dani,

eu achei legal ela ter te trazido aqui.

Ela falou que não queria tomar partido nenhum,

mas que achava legal a gente conversar.

Até para eu saber de verdade o que quero.

Eu achei maduro, eu não esperava isso dela.

É, eu também não esperava isso dela, não.

Nota nove, você disse né?

Vamos fechar em oito, sete talvez.

Passa.

Quem é o bonitão?

Mais um dos romances da Dani.

Eu não lembrava que ela tinha feito medicina.

Ela já fez um monte de coisa.

Nossa, ela pegou bastante esqueleto nesse curso.

Ela se divertiu para valer em São Paulo.

Ai, eu adoro essa.

Já deu, né?

Não, tem umas ótimas para o final, passa.

Não, não quero ver mais fotos, não.

Vamos pegar mais um vinho?

Pode ser.

Lembra aquele dia que você me procurou lá na garagem do meu prédio?

- Sei, quando eu te persegui. - É.

Você me disse que tinha uma carta

que queria me entregar em mãos,

uma de um aviãozinho e que não entregou, então...

Então, o quê?

Então, eu estou aqui. Em carne e osso.

Você quer ver essa carta?

Você está lento hoje, André...

"Lembra daquela música do Marvin Gaye que eu te falei?

Você ia mesmo?

La o quê?

Casar comigo?

Eu disse isso?

Para, André.

Você falou que não ia mais se defender,

está escrito isso aqui.

La, claro que ia.

E eu até sabia quando.

Que era no aniversário de dez anos.

Primeiro dia que eu te vi lá no cursinho.

Isso não tem tanto tempo assim.

Não tem pra você que só foi perceber, que eu existia uns três anos depois.

Senta aqui.

Eu não era tão metida.

Em todo grupo de gata metida,

tem sempre uma que é gente boa, não é essa regra?

E eu, era a gente boa?

De vez em quando.

É, você é gente boa.

Nesses teus planos, eu ia aceitar casar contigo?

- La dar certo? - Não sei.

Quem entende de casamento aqui é você.

Nossa, por que você falou isso?

Porque é verdade. Foi você quem casou.

E a gente quer começar esse assunto?

Oi, desculpa, é aqui que é a casa da Carmen?

Não, é o que você está fazendo aqui? Pode ir embora.

- André fala alguma coisa. - É a Dani.

- O que aconteceu? - O que você fez com ela, cara?

É, é Carmen, Daniela, é porque ela bebeu demais, entendeu?

- Dani, Dani. - É só isso, ela é do copo.

Sacou?

- Larga ela. - Não, calma, parceria aqui.

Pronto.

Eu acho que agora ela vai até amanhã.

- Ela sempre faz isso? - Não.

Beleza cara, agora já pode sair fora.

Que isso, cara? Não precisa ser grosso, não.

- Calma, André. - Calma, André.

Que calma o quê?

Não está vendo que ele quer se dar bem em cima dela.

Não, peraí cara!

Ela que deu em cima de mim, tá? Ela que me seduziu.

Eu conheço bem a minha irmã.

- Olha só, como é o seu nome? - Marcos Vinícius Albuquerque.

Muito obrigada, Marcos Vinícius,

eu até te levaria de volta mas eu estou um pouquinho alta.

O André pode fazer isso.

Não é? Levar ele de volta pra onde?

É, pra cidade, para o bar onde ela me atacou.

Ei, pelo visto ninguém está em condição de levar ninguém para lugar nenhum.

Quer assim, mais alguma coisa?

Um leite, de repente? Está dando gosto ver você comer.

Ah, se não for abuso tem como fazer uma

saladinha de fruta partidinha pra mim, por favor?

Vem cá, você pirou?

É, eu bebi demais.

Desculpa, não tive coragem de contar.

Tentei dar uma ajudada na situação.

Você está puto?

A história da médica é tão absurda que não deu nem

tempo de ter raiva de você ainda.

Mas a gente não pode deixar assim, né?

Daqui a pouco a gente fala.

O último que pular é um chato de galochas.

Vem!

Que mulher incrível, hein?

Gratidão!

Quem é esse ser?

Estou me perguntando isso até agora.

Deixa eu ir lá me livrar desse flashback.

Eu não vomitei ontem não, né?

Não.

Ótimo, então não preciso pedir desculpas.

Amém. Terra, fogo, ar!

Desculpa.

- Ei, ei! Vem cá! - Cai fora!

Dá um beijo vai, de despedida.

Que coisa, né?

Depois de tudo que você me disse,

que você me escreveu, sobre me expor, sobre

dizer tudo que eu sinto,

acho que eu me tornei uma pessoa melhor.

Triste é ver que era tudo da boca pra fora,

você é que nem eu. Pior!

Nunca teve coragem de dizer o que sente,

fica se escondendo aí...

Você era uma coisa de adolescente.

Aí eu desencanei fui fazer minha vida, depois...

depois você estava longe, você namorava minha irmã,

e com as cartas, eu achava que eu só sentia pena de você.

Eu...

eu queria muito contar tudo agora,

queria tirar esse peso da minha cabeça, mas eu não posso.

Sim, você tem medo que ela te odeie.

Não, ela é bem melhor do que isso.

Que bom, porque daqui a pouco ela vai descobrir,

que alguma coisa aconteceu,

porque eu mandava as cartas pra ela, ela não recebia...

Não, é só dizer que a médica louca subornou o porteiro

e ficou com as cartas, por favor?

Meu Deus do céu, você está desesperada.

Eu estou, ela vai descobrir que eu te amo, cacete.

Você é tão inteligente. Como é que você é tão lento às vezes?

Ele ficou feliz?

Sei lá Beta, acho que para ele é pesado,

está no meio, assim, dessa separação, sabe?

Ele está no meio, mas não é por causa dele,

não necessariamente por causa dele.

Não entendi.

O Sérgio é maravilhoso, mas não é pra ser.

A única coisa definitiva na minha vida é a minha filha.

Se eu vou querer ficar de novo com o André, isso é outra história.

Mas então, você não sabe se você ainda gosta dele, é isso?

Eu sei que gosto muito dele.

Mas, Dani, se eu tivesse certeza,

será que tinha rolado alguma coisa com o Sérgio?

Vai voar.

Vai voar!

Vem, Beta!

Dani!

Me ajuda. Vamos levar as coisas lá para dentro.

Dani.

- Tem mais coisa? - Acho que não.

Não?

É melhor deixar, as vezes a Dani fica meio estranha mesmo.

É, mas...

A gente veio aqui para te contar...

As cartas.

Foi ela.

Ela sabe.

Você está com frio,

e...

eu acho que...

te amo.

- André, minha irmã... - Tinha acabado faz tempo.

Você sabe muito bem que eu cansei de esconder o que eu sinto.

Acho que essa carta sempre foi para você.

Desculpa, eu não queria que fosse assim.

Esse teu esconderijo nunca foi muito bom.

Eu achava que eu ficava invisível.

Isso é algum tipo de penitência?

Olha, ficar na chuva não, mas pegar avião sempre.

Só que já parou de chover.

Por que você não foi na rodoviária?

Era mais lógico.

Ah, eu achei que você ia querer provar

que você tirou algo de bom do sofrimento.

Não é assim que funciona?

A gente não tem que amadurecer com as experiências da vida.

É, para algumas pessoas.

A Beta achou que tudo bem eu te procurar.

E você achou normal?

Eu achei que ela já estava há algum tempo procurando outras coisas.

E a gente não tem muito jeito mesmo, né?

Acho que não!

A imaturidade está entranhada na gente.

Pelo menos por agora.

Eu vi coisas que as pessoas nem imaginam.

Verdade, eu tinha esquecido. Você foi amadurecer na África.

Inclusive você vai entrar no avião daqui a pouco.

Como se não fosse nada.

Ei!

Dá a chave! Eu dirijo.

Tudo bem, eu não estou com pressa.

- Vamos? - Vamos.

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