All language subtitles for Vestidas de azul 101.pt

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Original subtitles

Essa história é baseada no livro "Vestidas de Azul", de Valéria Vegas

e inclui referências ao documentário "Vestida de azul", de Antonio Giménez-Riso.

O passado é baseado nas vivências das protagonistas,

mas o presente é pura ficção.

Ação!

Não, bebê. Esses peitos!

Corta!

Ação!

- Nossa, que cabelo! - Corta!

Ação!

Ação!!

Que linda a mansão, hein?

Que maravilha!

Cuidado! Vai me acertar.

- Olá, Tamara. - Muito bem.

E você, Loren,

O que você gostaria de fazer depois do filme?

Bem, olhe,

gostaria de comprar uma casa grande para minha mãe em Trebujena

para que pelo resto da sua vida,

ela viva em paz.

E estarei ao lado dela, para que ela não se sinta sozinha.

E a verdade é que gostaria de vê-la feliz.

Ação!

Eu adoraria conhecer um rapaz

e que ele me amasse como eu o amasse.

E que ele me ame acima de tudo por quem eu sou,

e formar uma família, ter meu apartamento...

É o que eu mais quero neste mundo.

Eu gostaria de abrir meu próprio salão de beleza

e que minha mãe viesse conhecê-lo

e fazer o cabelo.

Eu saí bonita?

Eu me vejo tendo sucesso,

demonstrando a grande atriz eu sou.

Me vejo sendo protagonista dos melhores filmes do país

com os diretores mais vanguardistas do momento.

Meu maior sonho é ter sucesso em tudo...

na televisão, no cinema... Em tudo!

Porque para mim, os palcos deram o melhor da vida.

Se você tirar isso de mim, você me mata.

Eu sempre sonho

que um dia seremos tratadas como os seres humanos que somos.

Mas acima de tudo,

que aquelas que vierem depois de nós

saibam e valorizem

o quanto lutamos.

VESTIDAS DE AZUL S01E01

Legenda TeQuê

CAPIÍTULO 1 LOREN

Existem muitos dispositivos de esquecimento,

de exclusão, de apagamento.

Tem o armário, a omissão...

Sim, mas também o nosso próprio silêncio,

porque nós que temos identidades diferentes da estrutura cishetero,

não fomos apagadas apenas pelos outros,

mas também por nós mesmas.

É por isso é tão importante que nos concentremos muito mais

naquilo que nos une, do que naquilo que nos separa,

porque, historicamente e durante muitos anos,

muitas de nós fomos expulsas,

- excluídas de nossas casas... - Exatamente.

Ou de nossas famílias.

A única coisa que sempre tivemos foi a nossa amizade,

porque nem sequer nos foi permitido ter “filhos”.

Quem quer ter filhos?

Bem, parece que alguém quer conversar.

- Qual o seu nome? - Olá, meu nome é Jônatas.

Estou ouvindo você falar e me parece que caímos

na complacência e vivemos baseados em lembranças.

A memória também está sendo construída neste momento nas ruas.

- Mas sem esquecer o passado. - Espera, essa pessoa tem razão

quando diz que às vezes nos apegamos demais ao passado

e esquecemos o que acontece na rua.

Além disso, não vamos defender o modelo hetero tradicional

de família e filhos para deixar como legado,

porque como coletivo somos muito mais que isso.

Eu fiz muitos filmes, certo?

Pode parecer incrível para você, mas trabalhei com Almodóvar.

Bem, ele cortou minha cabeça na foto

e a verdade é que não achei muito engraçado,

mas fiz muitos filmes, até filmes de terror.

E não me refiro exatamente ao "Hotel Glam".

Bem, se formos para a música...

Na música tenho muito para te contar.

Comecei cantando copla.

Porque eu gostava de música típica.

Mas aí mudei um pouco o estilo para algo mais...

Sacha, amor, graças a Deus você me ligou.

Como está? Como foi Malena?

Não muito bom, na verdade. Não como eu esperava.

Não sei porque estou fazendo este livro.

Além disso, acabei de chegar em casa,

vi as caixas da mudança e não me atrevo a abri-las.

É que faz pouco tempo que você terminou com o Miguel.

Bem, não estou ligando para dar uma notícia muito boa, tá?

O que aconteceu?

Rocío, de Valência, faleceu.

- Que? - Devemos ir o mais rápido possível.

Claro, claro. Eu vou te buscar.

Ei, você tem chiclete ou algo assim por aqui?

Acho que tem no porta-luvas.

E isto?

Miguel deu isso para mim.

Amor, se precisar conversar sobre o Miguel

ou sobre a adoção, estou aqui.

Estou bem.

Bem fechada.

E você como vai? Como foi seu encontro?

Meu encontro?

Meu encontro, como você. Foi bom, super bom.

- Sério, me diga. Como foi? - Eu não sei bem.

O que acontece é que eu já começo com minhas paranóias

e todas as minhas inseguranças e fico “presa” nela o tempo todo.

Me acha super linda, super feminina e...

Parece que já estou esperando que perceba

que não sou mulher o suficiente.

E deixá-lo sair com uma mulher cis, que é o que eles sempre fazem.

Não tenho paciência para quem está começando.

- Olá, meu amor! - Mamãe!

- Olá, Sacha! - Como vai?

- Me dá um pouco mais? - E como está indo o trabalho?

Bom, mas sobrecarregado, para ser honesta.

Bom, normal, tia, você faz tudo;

o rádio, a TV, as palestras... Tudo que te mandam, você aceita.

Porque não sei o que vai acontecer amanhã,

mas também não aceito tudo.

Mas se você vive sobrecarregada, não sei se vale a pena.

E você? Você não comeu nada. Não gostou?

Sim, Lola,

o que acontece é que eu encho rápido.

Bem, para sobremesa tem pudim.

Aliás, fiz um delicioso para você levar para o Miguel.

Tá bom.

E como ele está?

Bem, ele está como sempre.

Você sabe que o Miguel é um pouco simples, então... Com as coisas dele.

Ei, eu realmente gosto de pudim. Você vem comigo e nós levamos isso?

Cristina, Cristina...

Como eu sinto sua falta.

VESTIDA DE AZUL - 1998

Mãe, ainda temos o vídeo-cassete?

Sim, querida.

Bem, aqui estamos.

Já estamos aqui.

Que bonita.

- E para onde vai a vadia? - Ei? Vou beber.

- Loren, onde você esteve? - Me disseram que você estava viajando.

- Sim, estive fora. - Em viagem, nada. Fora, nada.

- Bem, linda, eu estive fora. - Eu digo o que me disseram.

- Deixa ela contar a verdade. - Ela esteve no hotel Carabanchel.

- Pois, sim. - E diga se o que dizem é verdade

que lá você tem que foder com todo mundo à força.

Mentira. Você fode com quem você quiser.

O que aconteceu aqui?

Não foi esta fita que Cristina te deu?

Merda! Porra!

Você sabe como foi. Ela se assistiu na TV e enlouqueceu.

- O que está acontecendo? - Tenho certeza que gravaram por cima.

Bem, nada, amiga, ficamos sem filme.

VESTIDA DE AZUL

OBJETOS EXCLUSIVOS

RESULTADOS PARA: DOCUMENTÁRIO VESTIDA DE AZUL

"Vestida de Azul" é um documentário espanhol de 1983,

produzido e dirigido por Antonio Giménez-Rico.

O filme retrata a vida de seis mulheres transexuais,

a maioria obrigada a se prostituir para ganhar a vida.

Que noite de merda, meninas.

- Olá, meninas. - Olá. Como está a noite?

- Não tão boa quanto a sua. - Me contam isso e eu não acredito.

Mesmo na véspera de Natal tenho mais clientes.

Vou embora.

Quando tem uma noite ruim, é preciso saber vazar.

- Vá embora, para podermos brincar mais. - Olha para ela.

Loro! Você é um papagaio com tanto cachimbo.

Você sabe o que vou fazer?

Vou me levantar, minha bunda parece uma pedra.

Quieta!

E esse barulho?

- Vocês ouviram isso, tias? - Porra.

É uma sirene...

- É a polícia. - Vamos, vamos.

Isso é uma guerra?

- Foda-se. - Guerra Nas Estrelas.

A única coisa que faltava agora.

- Que barbaridade! - Você está louca ou o quê?

Que todo o Congresso está cheio de policiais e soldados

- ou sei lá o quê. - E que porra isso importa?

Tem algo acontecendo que vai terminar em guerra.

- Vamos levá-las para algum lugar? - Não, deixa elas.

Eles estão acostumadas a se virar por conta própria.

Uma guerra, ele disse. Será menos.

Eu, assim como você, estava indo para casa.

Sandra, você não estava indo?

- Vamos? - Venha.

- Você vai para Cuatro Caminos? - Sim, querido.

- Bem, eu vou com você. - Loren, e você?

Eu? Tenho quatro estradas pela frente até chegar a Vallecas.

- Venha vamos. Tchau. - Vamos, meninas.

- Até mais tarde, putas. - E você, novata, não vá sozinha,

- que você não conhece Madrid. - E tem um longo caminho, né?

Venha comigo, vamos para o mesmo lado.

Bora lá.

Meninas,

como Chapeuzinho Vermelho, cuidado com o lobo.

Tenha cuidado, vá.

Então, Loren, você já faz isso há muito tempo?

Toda a vida.

Bem, não durante toda a minha vida, desde que me tornei Loren.

E você é de onde?

Sou de uma cidade de Zamora.

Nossa, que muffins bons tem em Zamora.

Sou de uma cidade muito bonita de Cádiz.

- Chama-se Trebujena. - Quando você chegou em Madri?

Eu me lembro perfeitamente.

Foi na década de 60, logo depois de fazer o serviço militar.

Que sofrimento é fazer o serviço militar.

E graças a Deus a vida colocou como meu companheiro

o meu amigo Pandereta.

Ele era é bem afeminado, como eu.

É que sem amigos não somos ninguém.

E como foi bom tê-la ali.

Eles nem agradecem, Lore.

Parece que o gato comeu a língua deles.

E o que você estava esperando, filha? Mal sabem falar.

São mais chucros do que um burro.

Viu, onde fica Soria?

Soria? O que você perdeu em Soria?

Aquele moreno ali.

Só o que me faltava!

Soria fica ao norte, acima de Madrid.

Eles fazem uma manteiga muito boa lá.

Não tenho o que fazer em Soria, né? Porque ele nem olha para mim.

Essas pessoas se matam à pauladas. Um dia você pisca para ele,

e, quando você menos espera, sua mão está ali.

E você sabe o que está acontecendo, Rocío?

Que naqueles anos eu ainda nem sabia quem era.

O que eu sabia era que não me encaixava ali.

- Lorenzo Arana. - Presente.

Controle seu tom, garoto.

Eu já dava pinta, filha.

Três,

quatro,

cinco.

E agora mais cinco. Pela Espanha!

E viva a Espanha, filho.

Mas quer saber? Tem coisas que não podem ser escondidas

e sempre temos que perseguir nossos sonhos.

- Pandeirinha. - Diga.

Aqui, filho.

Não fume tudo de uma vez.

Ei, e Oviedo?

Que chata você está com esse mapa mundial.

O que não sei é como você consegue ficar aqui,

porque tem essa coisa que fede.

Tenho meu cantinho como os riachos de ouro.

Vamos lá, com elegância.

Ei, e onde esses dois vão?

Onde mais? Procurar mulheres.

Mulheres? Aqui?

Aqui não, seu idiota. Nas ruas e nos portos.

Vão procurar putas.

Bem, me disseram que ela vem se apresentar em Sevilha.

Aquela francesa que é tão bonita...

Aquela que dizem que já foi um homem.

Você quer ir ver?

Eu? Eu não acredito em nada disso. Isso é tudo mentira.

É publicidade, nada mais.

Além disso, como você e eu vamos para Sevilha, Dona Encrenca?

- Você é uma encrenqueira. - Eu irei.

Agora, se quiser ficar... Você que sabe.

E sabe o que acontece?

Dessa forma nossos amigos,

sem perceber, mudam nosso destino.

Vamos ver...

Vamos ver quem volta em seguida.

Você certamente tem algumas ideias, filho.

Disseram que é a primeira operada no mundo.

- Operou o quê? - A buceta.

- O que? - Ela fez uma cirurgia na buceta!

Desculpe.

Perobinho.

Onde quer que você vá, tem que chamar a atenção.

Obrigado.

Damas e cavalheiros,

com todos vocês,

Coccinelle.

Ela é linda. Parece uma boneca.

Li em uma revista que ela esteve no exército.

E olhe para ela agora.

Que coisas fazem na França, hein?

Ei, onde fica a França?

E naquela noite descobrimos

que não merecemos viver em segredo.

E é isso que te digo, Rocío, nossas amigas

são a coisa mais importante que temos nesta vida.

Com a morte humana, a nossa e a dos nossos entes queridos,

Nossos corações ficam comovidos e nossas mentes ficam confusas.

É por isso que é importante não pensar na morte como um fim.

A vida é curta,

mas os sinais permanecem depois de nós,

sinais de amor,

pegadas que outros recordarão com carinho

e alegria

e eles ajudarão você a continuar.

É por isso que me dirijo a todos vocês para perguntar:

Alguém quer nos honrar com algumas palavras

em memória de Rocío?

Uma serva, padre.

Boa tarde, queridos amigos e queridas amigas.

Esta tarde, para todos nós, é um dia muito triste.

Estamos aqui para nos despedir

da nossa querida amiga Rocío,

que eu sei que todos vocês a amam muito

porque ela era uma tia maravilhosa e estupenda.

Eu a amava especialmente como uma irmã.

Além do mais, ousaria dizer que a amava como uma mãe.

Sempre me lembrarei de como ela cuidou dos meus cachorros

para que eu pudesse ir de férias para Almería

ver minha família, meus pais e meus irmãos.

Mas embora hoje seja um dia muito triste,

também temos que lembrar dela

por causa de quão feliz e divertida ela era.

Acima de tudo, a mãe das putas, porque foi a primeira

a primeira a cobrar por minuto.

Eles a chamavam de Taxímetro.

Com toda a sua buceta.

Ainda me lembro do dia em que aquele homem chegou e disse:

"Rocío, me amarre."

E ela o amarrou com algemas na cama

e as chaves sumiram.

O cara ficou amarrado lá por três dias,

então tiveram que colocar fraldas nele.

Como ela era divertida.

- Essa história é verdadeira? - Sim.

Esta tarde reunimos todas suas amigas de Valencia

e a família que você formou.

Então, onde quer que você esteja, descanse em paz.

Amém.

Muito obrigado por essas lindas palavras.

Por Rocío, rezemos um Pai Nosso.

Você gostou da paella, né?

Ficou para morar.

- Ela é super legal. - Paca, olha para ver uma dela.

- Vamos, jogue os dados. - Olha, de novo com o cachorro.

- Que linda com o cachorrinho dela, né? - Sim.

Vamos, Paca, mexa o copo com os dados e role, querida.

Olha, olha.

4!

1, 2, 3... Com certeza.

Querida, a propósito,

amanhã venho limpar a casa,

veja como está sujo e quanto lixo velho tem.

- E é assim que ajudo a família. - Se você quiser, eu vou com você.

Pois sim. Se você vier me ajudar, melhor ainda.

E você pega algumas das coisas velhas que tem,

- que eu sei que você adora. - Uma coisa, meninas.

Você se lembra do filme “Vestido de Azul”?

- Sim. - E nenhuma de vocês tem isso?

- Não. - Não.

Eu conheci Loren.

Éramos colegas e amigos no escritório.

Sério? Você acha que ela ficou com a fita?

Não, querida. Já se passaram muitos anos desde que o pobrezinha morreu.

E por que você quer aquela fita agora?

Se isso é mais velho que...

- Ninguém vê mais isso. - Ninguém quer mais isso.

Isso porque as pessoas não entendem o que fazemos.

Precisamente por esse motivo. Eu adoraria ver na íntegra.

O que eu quero ver é o "Papá Piquillo".

Aquele do macaco do Chiquito de la Calzada?

- Eu amo. - 7, 8, 9. Casa.

Minha tia me matou!

Bem, o jogo acabou.

Você fica aqui, vou para casa,

vou ligar para meu irmão para saber como está Angelico.

- O que aconteceu? - O que aconteceu com ele?

Uma chateação. Detectaram um câncer, querida.

Senhor. Sinto muito. De que é?

Acho que detectaram isso na próstata.

Sinto muito, Paca.

- Esta semana ele vai operar. - Em Madrid?

Em Madrid. Então tenho que ir para Madrid.

Você pode ficar na minha casa, se quiser.

Obrigada, querida, por me oferecer sua casa.

Porque eu ia ficar sozinha em uma pensão, mas prefiro ficar com você.

Embora eu fique mais tempo no hospital.

Boa sorte, Paca.

Tudo vai sair bem. Confie em Deus.

Não se preocupe, Juani, sou muito positiva.

Agora há muitos avanços. Querida, estou indo embora.

- Um beijinho. Até amanhã, querida. - Até mais, minha vida.

- Tchau. - Se cuide, querida.

Pode contar comigo.

- Até logo. - Tchau, meu amor.

- Meninas, estou indo embora. - Até logo. Boa tarde.

Ei, Valéria, se quiser, volte amanhã para tomar um café

e eu te conto coisas sobre Loren.

Além disso, eu tenho muitas fitas antigas do arco da velha.

Talvez o filme que você procura esteja disponível.

Bem, não está aqui, Juani.

Não está aí? Bem, que pena, filha.

Sabia que ontem não consegui dormir pensando na Loren?

As coisas que lembrava sobre ela.

E como vocês se conheceram?

Mais ou menos, desde quando cheguei a Madrid.

Bem, desde o ano 86.

E claro que desde a primeira noite em que nos conhecemos no escritório,

nos tornamos boas amigas.

As más línguas nos chamavam de Pili e Mili.

No trabalho, colocava ela em todos quadros que pudia,

porque ela estava velha e tinha menos clientes.

E eu, jovem, fofa...

Você agora me vê como mística

mas já fui muito lagarta.

Mas não pense que o quadro foi feito para ser pintado, tá?

"Quadro" é quando fazemos pequenas coisas entre nós.

Que tudo é mentira, logo tudo é piada.

É, eu sei.

As coisas que devem ter vivido.

Se eu te contasse.

Olha, numa véspera de Natal...

Vocês também comemoravam juntas?

Claro, boba. Se éramos íntimas,

como não comemorar juntas?

Mas, Valéria, ela não gostava nada, nada do Natal.

- Nada! - E isso por que?

Porque não lhe trazia boas lembranças.

O Lute...

O Lute não sabe de nada.

Pelo o que ela me contou,

Loren estava servindo em uma família nobre.

Ela é ainda pior.

Acho que aí ela começou a perceber

que muitas pessoas não se importam conosco.

Sabe, Valéria, nesta vida sempre existe classes.

Um momento, queridos.

Quero fazer um brinde

à saúde do meu neto mais velho, Jaime,

que em breve completará 21 anos.

- Por Jaime. - Por Jaime.

Não coma o queijo, é caro.

Quem se importa? Essa gente come o ano todo, Pepa.

Leve isso antes que esfrie. Como está lá em cima?

Como está? Como uma turca com um piano.

Você vê, ouve e cala a boca.

Mas é verdade, Pepa. Como estaria?

Estão falando sobre Lute, aquele que ficou preso no Porto.

Não é esse Lute. Você nem sabe.

Ele é o duque de...

Garotinha!

Esse é marido da neta...?

O próprio. É o maior entretenimento deles.

Sempre que podem, estão o criticando.

Eles têm medo de que...

E você, aquela que olha, escuta e fica calada...

Querido, mas uma coisa é ser pego

e outra é fazer a sua futura esposa

passar por uma situação tão ridícula.

Você acha que ele se importa com o que as pessoas pensam?

Ele só se preocupa consigo mesmo.

E ele foi pego? Sim, mas ela também não acredita em você

que tem um pescoço tão bonito para exibir qualquer jóia.

Eu cuidaria bem de mim, se fosse o Lute,

para manter minha noiva feliz.

Ainda mais seu avô, esquecemos de quem estamos falando.

Esse sem-vergonha...

Cara.

- Era isso que eu estava procurando. - Boa noite. Como estamos?

- Tem fogo? - Acho que não,

- mas vou procurar. - Posso?

- Sim Sim. - Isso é o suficiente para mim.

Você está aqui há muito tempo?

Aui onde, filho? Em Madrid, na casa ou na varanda?

Não seja engraçadinho, cara. Na casa.

Vai fazer quatro anos que estou na casa,

em março.

Eu estudo no exterior há anos e por isso não te vi.

- Na França? - Sim.

- Como a filha de Conchi? - Sim.

Você não sabe as coisas que se aprendem lá.

Qual o seu nome?

Loren... Lorenzo.

Lorenzo.

Adoro a noite de Madrid.

Pois me parece igual a qualquer outro lugar.

Quem disse?

É diferente. Tem algo...

Não sei. Algo especial.

Especial?

E você? É o mais rápido do oeste?

Não se preocupe, não vou falar nada.

O que esse degenerado está fazendo com você?

Entra! Pra casa! Venha!

Você vai se arrepender disso, doente.

Doente!

Esquisito!

E nem pense em voltar,

porque já aturamos absurdos demais durante todos estes anos.

Menino.

Eu sabia que isso iria acontecer a qualquer momento.

Pepa, ele começou.

Sim, mas ele é filho de quem é e você vem de onde você vem.

Pepa, ele não serviu no exército

e eu servi.

Sim, mas com ou sem serviço militar nada vai acontecer com ele,

já conheço essas histórias.

Vamos, pegue.

O que é isto?

É o endereço da casa onde minha prima trabalha.

Vou falar bem de você.

São americanos, da base de Torrejón.

Por serem americanos, são mais modernos.

Muito obrigado, Pepa.

Bora, vai.

Esse pequeno gesto mudou a vida de Loren para sempre.

Ela foi para aquela casa e lá podia ser quem sempre foi.

E foi quando a conheci.

Minha nossa, Juani.

Que sorte tiveram por terem se conhecido.

Como é importante compartilhar nossas vidas e nossas histórias,

- Você não acha? - Sim, querida.

Acima de tudo, estar próxima de pessoas que te amam e cuidam de você.

E ela nunca falou com você sobre o filme?

Sim, claro que a puta falava do filme,

só que eu não dava importância.

Mas sim, eu gostaria de rever “Vestida de Azul”

para me sentir próxima da Loren.

- Eu posso te ajudar com alguma coisa? - Sim.

Tudo o que temos aqui são joias da sétima arte.

Veja, "Colegiais Pervertidas".

Sim, cada um tem um preço diferente.

O que procuro se chama "Vestidas de Azul" e é dos anos 80.

- É espanhol? - Sim.

Bem, o que eu sei. Vai estar por aí, sei lá.

Procure bem, querida, veja se você encontra.

- Está aqui, Paca. - O que disse?

É esse?

Que feio! Parece de terror.

- 100 euros. - Como 100 euros, se aqui diz 10?

Claro que diz "10", mas esse é o preço antigo.

Como 100 euros? Se esse filme é do século passado?

- Isto é muito dinheiro. - Não pensava em pagar tudo isso.

Você perdeu a cabeça. Tá louco, 100 euros.

Pois bem.

- Paca. - O que?

- Distrai ele. - E o que eu digo para esse maluco?

Pede a ele...

Pede "Papá Piquillo", para a Beinve.

"Papai Piquillo"?

Pois bem, vou deixar esse e procurar outro.

Ei, venha aqui.

Quero que encontre um filme.

Minha filha quer saber se você tem um filme

que se chama "Papá Burillo" ou...

- "Papá Piquillo". - Pi... Pepinillo.

- De Chiquito de la Calzada. - Isso, o do macaco.

- Isso. - Pega ele pra mim.

Olhe, senhora, aqui.

Olha, aqui está, é verdade.

Procure agora o "Papá Piquillo 2".

- "Papai Piquillo 2"? - Sim, a segunda parte.

- Senhora, esse não existe. - Como que não?

- Não, Senhora. - Mas me contaram...

- "Papá Piquillo 2" não existe. - Bem, eu...

Vou levar este e "Papá Piquillo 1".

Tá. Você acha que sou idiota, né?

Eu amava quando era criança.

20 euros.

Garota, tanto trabalho para comprar "O Livro da Selva" e nada mais.

Não, boba, foi minha obra-prima.

Uia. Deixou a titia pra trás.

Bem, eu já estava prestes a bater no cara sem pensar.

- Oi, mãe. - Olá.

- Quanto tempo? - Não sei, uns dez minutos.

Ok, então me avise.

- "O livro da Selva"? - Não me pergunte por que eu tenho isso.

Então também não pergunto sobre Miguel?

Mandei mensagem no Instagram, porque não falava com ele há tempos.

E ele me disse que estão separados há dois meses.

Quando você ia me contar?

Desculpe, mãe.

Só não sei o que acontecerá conosco

se não contarmos as coisas uma para outra.

Eu só não queria preocupar você.

Mas eu me preocupo, Valéria.

Como não vou me preocupar?

É só que... não sei, não sei.

Estou como...

não consigo encontrar...

Não sei o que estou fazendo da minha vida ou do meu trabalho.

Estou perdida.

E com Miguel?

Não tem uma solução?

Pois, não sei.

O que você vai fazer sobre a questão da adoção?

Não sei.

Me perdoe minha menina,

o importante agora é que você esteja bem.

Não, isso não.

Desculpa.

Achei que poderia jogar fora.

São as revistas que encontrei na casa da Rocío.

Talvez jogue fora depois, mas quero revisá-las antes.

Aliás, encontrei o VHS de “Vestida de Azul”.

- Que bom, querida! - Sim, finalmente.

Amanhã verei com Paca e as outras, mas...

Mas acho que poderíamos assistir juntas agora.

Claro que sim, meu amor.

Te amo tanto...

- Eu também, coração. - Te amo tanto...

PARA VALÉRIA

"Querida Valéria, estou te mandando esta carta

porque é você quem sabe escrever e eu não pego uma caneta

desde que estive em Maiorca em 93.

Tenho certeza de que isso é bobagem,

mas quero que você leia para minhas menina,

para Paca, para Juani, para Bienve, para todas.

Elas não sabem,

mas antes de chegar a Valência e conhecê-las,

tentei a sorte em Madrid.

Foi uma noite horrível com tanques e soldados nas ruas

mas consegui fazer algumas amigas.

Era a noite de 23 de fevereiro,

embora tenhamos descoberto isso mais tarde.

Todas temos muito em comum,

mas às vezes a vida nos leva por caminhos muito diferentes.

Quem sabe se em Madrid eu não teria me tornado uma estrela de cinema,

como a artista que sempre fui.

Isso era impensável naquela época,

alguém que quisesse contar a nossa história,

sendo que a história nunca se importou conosco."

"Espera-se que os reféns sejam libertados nas próximas horas.

Foram algumas horas muito difíceis,

mas a Espanha é um país forte, um país unido.

Neste país caminhamos com firmeza..."

“No entanto, para mim, a vida teve um caminho muito diferente.”

"atitudes antidemocráticas.

Parece incrível como, depois de 40 anos de ditadura,

existe este tipo de comportamento antidemocrático.

Juntos alcançamos

um sistema monárquico e constitucional exemplar."

“Dizem que quem somos, é devido ao que nos acontece.

Eu discordo,

acredito que somos quem somos, apesar do que nos acontece.

Agora que o meu fim se aproxima,

começo a perceber que aquela noite foi a mais importante da minha vida,

porque o que aconteceu comigo me levou a deixar Madrid

e procurar um lugar mais tranquilo em Valência.

Graças a essa decisão,

encontrei mais do que amigas, encontrei uma família.

Serei sempre muito grata por terem me dado um lugar com todas vocês,

e é por isso que estou escrevendo para vocês,

para dizer que as amo muito.

Rocío."

Que tristeza da Rocío. Pobrezinha.

- Vocês sabiam de tudo isso? - Não.

Esse é o problema, meninas,

parece que às vezes nem nós mesms nos conhecemos.

Não podemos guardar essas coisas.

Isso é verdade.

Se não valorizarmos nossas vidas,

- como os outros vão valorizar? - E o que vamos fazer?

Eu, claro, vou escrever.

Eu vou fazer um livro.

Outro livro?

Meu Deus, mais um livro!

Um livro sobre o quê, Valéria?

Um livro sobre as garotas de “Vestida de Azul”,

que vão acabar tão esquecidas quanto o filme.

Você acha que isso realmente interessa a alguém?

Não me importa a quem interessa.

Existem centenas de livros que não me interessam e estão aí.

Chega de nos darem tão pouca importância.

Se este livro inspirar ou ajudar pelo menos uma pessoa,

como aconteceu com a Cristina, valerá a pena.

Concordo. Eu apoio você.

- Conta comigo. - Conte conosco.

E vou começar hoje.

Pois comece comigo.

E depois comigo.

E quando começo a falar, eu não paro.

O que é isso? São elas?

Que maravilha!

Que prazer conhecer você.

Sasha! Como está, cadela?

Você não sabe o quanto eu queria te conhecer.

Em memória de Isabel Torres, Laura Frenchkiss

e todas aquelas que não tiveram suas histórias contadas.

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