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Original subtitles

Exatamente, Clara. Imagina, se vim at� aqui � justamente por isso.

Voltarei agora e terei que dar um monte de explica��es bem claras.

Sim.

Sim. � que ela n�o�

Se ela tivesse dito algo, seria uma hist�ria diferente, mas ela n�o disse.

Ela n�o disse claramente que n�o quer o cargo.

Ela n�o disse: "Eu n�o quero o cargo."

Claro.

N�o, mas� Sim�

Se vim at� aqui n�o foi para ouvir um "n�o", foi para ouvir um "sim".

Exatamente. Se ela�

Se ela quisesse dizer �n�o�, ela diria �n�o�.

Bem, por isso mesmo. Um sil�ncio n�o � um "n�o".

N�o � um "n�o". Tome seu caf�.

- N�o quero caf�. - Pegue, tome seu caf�.

Clara, a situa��o aqui � muito clara.

H� uma pessoa que se comprometeu com algo.

E eu assumi um compromisso, por causa do compromisso dela. Sim?

Ent�o o que eu fa�o?

Venho at� aqui para que essa pessoa fa�a o que tem que fazer, e s�.

S� isso. N�o�

Mas h� pistas!

H� todos os tipos de pistas. Como o carro desse cara, sim.

N�o, mas agora tenho as chaves, sim.

N�o, n�o, ele n�o sabe.

N�o, ele n�o sabe de nada.

N�o, para ser sincero, ele parece bastante perdido.

E Laura� N�o, n�o � um mist�rio.

Vamos, sejamos l�gicos:

ela est� indecisa, quer o cargo mas eu estou aqui no meio.

E por algum motivo, ela n�o quer me contar pois estou envolvido.

Ent�o n�o podemos misturar o lado acad�mico com uma situa��o�

Espere! Espere um segundo!

- Vou buscar a��car. - Iremos a Fort�n Olavarr�a.

Espere um segundo, por favor. Pode esperar no carro?

Sim, estou aqui. Ou�a�

Clara, para ser claro�

isso n�o � apenas algo profissional.

Sim.

� por isso que tento n�o misturar as coisas.

Voc� pode imaginar que eu estaria�

Arrasado.

Bem, sim, estou um pouco arrasado.

Voc� sabe como �. A academia n�o nos prepara para a tristeza.

N�o acho que seja uma boa ideia ficar l�.

N�o, n�o sinta pena de mim tamb�m.

Bem, a agrade�o muito, Clara. Muito obrigado.

Fa�amos o seguinte. Vamos sair agora e�

a mantenho atualizada das coisas.

Perfeito.

E esperamos que assim seja.

� o que esperamos.

Esperamos que sim. Muito bem, obrigado!

Muit�ssimo obrigado. Tchau.

Tchau.

Acredita que ela deixou as chaves com uma crian�a?

Uma crian�a?

Um garoto, um ga�cho da regi�o. Uma crian�a, sim.

Mas quem me ligou n�o foi...

N�o. O gerente do posto ligou para voc�.

Quem � o pai do garoto?

Por qu�? N�o.

O gerente do posto � o gerente do posto.

O pai do garoto deixou as chaves com o gerente.

E tamb�m deixou seu n�mero de telefone.

Neste peda�o de papel.

Imagino que reconhecer� a caligrafia.

Pode me devolver?

Me disseram que ela poderia estar perto de Fort�n Olavarr�a.

Sabe de alguma coisa?

- Art Subs - 15 anos fazendo Arte para voc�!

Legenda - willian_as -

I A AVENTURA

Acho que j� passamos por aqui.

Eu sei que passamos.

- Ent�o o que estamos fazendo? - Procurando por ela.

Nos disseram para procurar em Fort�n, e estamos procurando.

Mas assim? Em todo canto?

Espere aqui.

Ol�, boa tarde.

Como vai?

Posso perguntar uma coisa?

Procuro uma amiga, que provavelmente esteve aqui nos �ltimos dias.

Ser� que voc� a reconhece�

Vejamos�

Essa mulher n�o esteve por aqui?

Mesmo?

Talvez, mas�

Voc� chamou ali?

Chamei, mas ele deve estar tirando uma soneca. Ningu�m saiu.

- N�o, mas ele deve estar l�. - Sim?

- Mas voc� a viu? - Sim.

Obrigado.

Oi, como vai? Tudo bem?

- Prazer. - Igualmente.

Ou�a, estou procurando uma amiga e me disseram�

que ela pode ter estado aqui nestes �ltimos dias.

Ela � minha namorada, ent�o cuidado com o que diz.

N�o, porque normalmente n�o h� muitas pessoas por aqui.

Mas ela diz que a viu, e talvez voc� se lembre�

Porque o trem passa por aqui e n�o h� muitas pessoas por a�

S� de vez em quando, e no fim de semana�

Sabe onde posso procur�-la?

Ela � muito parecida�

Laura, claramente, esteve na cidade.

- A senhora a viu. - Ela a viu?

Sim. Mostrei a foto para ela, ela disse que�

na semana passada ou na anterior,

uma mulher ficou vagando a tarde toda.

S�o coisas que as pessoas notam mais nas cidades pequenas.

Voc� tem algo a dizer?

Como o qu�?

N�o sei. Algo que eu deveria saber.

Acho que n�o.

Vamos encontrar Puricelli.

Quem � Puricelli?

� um cara que tem um armaz�m. E ele aluga quartos.

�� para l� que v�o os forasteiros", disse a senhora.

"Forasteiros"? Ela usou essa palavra?

"Forasteiros", ela disse, sim.

Laura, uma forasteira.

Ela conversou com voc� sobre o cargo?

N�o.

Ela nunca disse nada sobre o cargo?

Acho que n�o.

Mas voc� trabalhava com ela na prefeitura.

N�o.

Ah, ao telefone voc� disse que sim.

Eu disse que trabalho na prefeitura, mas n�o trabalho com Laura.

Eu trabalho em outro setor.

Qual setor?

Mobilidade.

Mobilidade?

Transporte de materiais.

Voc� transporta coisas?

Sim.

E como conhece Laura se voc� transporta coisas?

�s vezes nos mandavam juntos para 30 de Agosto,

para La Indiana, ou para os campos onde ela trabalhava.

Ent�o voc� dava carona para ela?

�s vezes, sim.

Espere aqui.

- Como vai? - Ol�.

Ol�, boa tarde. Tudo bem?

- Rafael, prazer em conhec�-lo. - Daniel.

Ou�a, Daniel, estou procurando uma amiga

de Buenos Aires. Ela pode ter vindo aqui para fazer uma liga��o.

Eu tenho uma foto dela. Queria saber se voc� a viu por aqui.

N�o, eu n�o a vi por aqui.

Ela tem tentando se comunicar, mas n�o sabemos onde�

Onde devo continuar procurando?

Talvez no outro armaz�m, por aqui perto.

- Mas est� tudo fechado. - N�o, aqui n�o. Na estrada.

Certo. Onde devo fazer o retorno?

Vire � esquerda aqui e de l�

Vamos. Temos que ir a outro armaz�m.

E devemos come�ar a nos preocupar se encontrarmos algo estranho no caminho.

Claro. Eu o mantenho atualizado.

Sim. Certo, escute.

Mande beijos para todos os rapazes e garotas da c�tedra.

Teremos que esperar.

Ol�. Boa tarde.

Como vai? Meu nome � Rafael. Tudo bem?

Ou�a, estou procurando uma amiga.

Uma mulher�

Ela � minha namorada, na verdade. Achamos que ela pode ter estado aqui.

Voc� a reconhece?

Porque ela�

Ela trabalha na classifica��o de plantas, flores�

Ah, sim.

H� um homem na Am�rica que tem�

uma planta��o de orqu�deas.

- Orqu�deas? - Isso.

- Qual � o nome desse homem? - Abrante.

S� um momento, por favor. Vou anotar�

Abrante.

E isso � na Am�rica?

ADEUS, ADEUS VOU EMBORA, VOU EMBORA

Temos que ir para a Am�rica.

Temos que ir ver um tal de Abrante.

Parece que Laura esteve aqui,

que contaram a ela sobre ele e tenho certeza que ela foi v�-lo.

Com todas as informa��es que tenho,

n�o posso deixar de pensar em algo.

Abrante � produtor de orqu�deas.

Abrante mora na Am�rica.

Na Am�rica est� o rastro da �nica esp�cie que falta.

Olha�

Est� vendo? Laura ainda tinha uma esp�cie n�o classificada.

PENDENTE

"Pendente."

O neg�cio � o seguinte:

Laura se comprometeu a terminar um trabalho.

E � exatamente isso que ela est� fazendo.

Nem mais nem menos. Terminando um trabalho.

Ela foi para a Am�rica em busca de uma esp�cie que ainda precisa classificar.

Quem sabe por que diabos�

Tudo se encaixa.

Ela enlouqueceu.

Bem, como tantos outros enlouqueceram:

Sinclair, Treviso, Paill�n� O pr�prio Franco Vidal.

Entende?

Todos foram atr�s de uma esp�cie que faltava classificar

e jogaram a vida fora procurando por ela.

Compreende?

- Sim, mais ou menos. - Ou�a�

Temos que ir para Am�rica encontrar Abrante.

A resposta est� l�.

Sim, o problema � que�

Eu realmente�

N�o podemos deixar passar esta oportunidade.

Laura est� perdida.

A fam�lia dela est� preocupada.

Ela est� destruindo minha carreira. Ela roubou seu carro.

Eu conhe�o uma vers�o de Laura

e voc� conhece outra.

N�o h� ningu�m al�m de n�s dois procurando por ela.

Entende?

N�o, como eu disse�

Eu sei, eu sei. � complicado com seus filhos ou com a sua ex.

Mas tudo bem, vamos resolver isso.

- Agora no caminho ligamos para� - Viviana.

Viviana e explicamos mais ou menos para ela.

Sim?

Usarei o telefone que este Nereo me disse que acha que pode conseguir.

E vou ao banheiro.

Voc� deveria ir tamb�m.

Andaremos uns 40 quil�metros.

II A PARTE DE EZEQUIEL

Ent�o os deuses ou o azar, ou quem sabe,

o castigaram deixando-o cego.

Por isso, na Inglaterra, a express�o "Peeping Tom", ou "Tom el Mir�n",

� a usada para descrever os voyeurs.

Claro, voyeurs. H� muitos "Mir�ns" aqui na r�dio.

Olha o Rodro�

Est�o todos alvoro�ados com a hist�ria de Lady Godiva.

Obrigada mais uma vez, Laura,

pela coluna Mulheres que Fizeram Hist�ria. Muito obrigada.

E seguimos com Um Mar de Novidades com o humor de Patita

e muito mais not�cias.

A r�dio � uma m�dia cega. At� voc� assistir com os ouvidos.

A Esta��o. �nica. Assim como voc�.

LU11 convida voc� para o primeiro Concurso Viagem � It�lia,

organizado com a Casa de Cultura de Trenque Lauquen.

Agora voc� tamb�m pode mudar o curso da hist�ria.

Porque viajar � para todos�

Ol�.

- Muito bom, eu a estava ouvindo. - Gostou?

- Sim, n�o conhecia a hist�ria. - � divertida, n�?

Muito boa.

Tem um mapa ou coordenadas?

N�o, mas vamos para La Indiana, perto de 30 de Agosto.

Certo.

� o qu�? O campo perto de La Querencia?

Isso. A caminho de La Querencia.

La Querencia primeiro?

Voc� quer?

Est� bem.

Parece que hoje estamos falando sobre nudes�

- Quem � Anita Ekberg? - A Doce Vida!

N�o se lembra daquela cena emblem�tica

dela tomando banho quase nua na Fontana di Trevi?

- Assim como Lady Godiva! Nua! - Exatamente.

Pois bem, se os ouvintes quiserem participar do concurso�

� verdade que ela andou nua a cavalo?

Nua mesmo?

Parece que sim.

Deve ser bem desconfort�vel.

Sim, deve ser. Nem quero imaginar.

E o cara era louco.

Obrigar a esposa a fazer isso.

N�o, n�o. Tecnicamente, ele n�o a obrigou.

- Acha que era um jogo? - N�o, n�o. Que jogo?

Ela fez isso para que ele reduzisse os impostos.

O que foi?

Acho que era um jogo er�tico entre eles.

N�o. A lenda diz que ela se sacrificou pelo povo.

Acho que foi um jogo entre eles.

Ele adorava a ideia da esposa nua em um cavalo.

Ele tinha essa fantasia.

Pode ser qualquer coisa.

Ela gostava. Ambos eram pervertidos.

Acho que � voc� quem est� fazendo disso um romance er�tico.

Para mim � �bvio.

Pelo menos ele baixou os impostos.

Era o seu namorado?

Sua m�e?

N�o. Meu namorado. Ligo para ele depois.

Certo.

Ele deve estar sentindo sua falta.

Sim. Estamos construindo uma casa juntos,

ent�o ele me liga muito, h� muitas coisas para decidir.

Estamos reformando uma casa que era dele e que agora ser� nossa.

- E precisa fazer de tudo. - Claro.

Portas, janelas�

Sim. A cor da parede do quarto. Tudo.

Sim, eu entendo bem.

Voc�s v�o para a casa e se casam.

Sim. Vamos morar juntos, digamos�

RAFA

- Desculpe, preciso atender. - Claro. Sem pressa.

Al�? Sim, eu estava almo�ando.

Vamos, me diga! Fala!

Ali est� ele.

- Ol�, Hugo. - Ol�, Laura.

- Como vai? - Tudo bem, e voc�?

- Como vai, Chicho? - Ol�! Como vai, Hugo?

Tudo bem por aqui.

Sigo procurando a que ainda falta.

Vim fazer uma �ltima checagem mas�

Ainda me falta aquela que parece Azahar de monte. Olhe.

Eu disse ao Hugo que poderia estar

atr�s de La Ollita ou em El Molino.

Ah, sim, eu sei. Esses podem ser bons lugares.

Sim, porque j� procuramos no monte e nada.

- Vem, Chicho? - N�o, vou ficar. Podem ir.

Encontramos outras coisas, mas n�o a que eu queria.

Est� se fazendo de dif�cil.

Bem, s� tem uma pendente.

- N�o � t�o ruim assim, n�o �? - N�o.

- O que far� esta tarde? - Do que precisa?

Ir a um campo.

- Onde? - Na Rota 33.

Eu tenho o mapa.

Uma antiga propriedade. Mart�n Fierro, o nome. Conhece?

Acho que sim.

- Creio que posso encontrar isso l�. - Beleza, vamos l�.

S� preciso buscar as crian�as. Se importa de ir com elas?

- N�s achamos! - Vamos ver.

Estava no mapa antigo, mas n�o neste.

N�o, pai! � na outra dire��o!

Parem!

Mas estamos dizendo, � na outra dire��o!

Chega!

N�o! N�o! Sentem-se.

Mandei sentarem!

- N�o! - Sentem-se.

Acho que a propriedade Mart�n Fierro � bem ali.

Ali. Aquela casinha.

� s� isso?

Eu acho que sim.

Esta propriedade pegou fogo.

Ser� que o mapa da prefeitura n�o est� errado?

Esta propriedade pegou fogo, voc� tem raz�o.

Sim.

Pegou fogo.

Talvez se referissem � regi�o de Mart�n Fierro.

N�o, "Propriedade Mart�n Fierro"�

Desculpe. Estava com as crian�as?

- N�o, est�o com a m�e. - Ah, certo.

O neg�cio � o seguinte.

Eu fiz uma descoberta.

� bobagem, mas�

Mas eu queria saber o que voc� acha.

Claro.

- Pode nem interess�-lo. - N�o, certeza que me interessarei.

- Tem algo a ver com flores? - N�o. � outra coisa.

Eu me sinto uma louca.

Veja.

Eu achei isto.

Cartas.

Exatamente. Cartas.

Acho que me tornei a �nica testemunha de um pequeno mist�rio.

- Caramba. - Sim.

Sinto que ningu�m mais sabe disso. Apenas eu.

Bem, agora voc� tamb�m.

Est� bem.

Voc� as encontrou no hotel ou o qu�?

N�o. Espere. Deixe-me explicar.

Geralmente vou � biblioteca procurar material para a r�dio,

para a minha coluna.

- A bibliotec�ria costuma� - Susi.

III AS CARTAS E OS LIVROS

Susi! Existe uma se��o sobre mulheres na ci�ncia? Algum fasc�culo?

- Mulheres cientistas? - Sim.

Temos algumas coisas sobre homens cientistas.

Mas mulheres cientistas�

N�o sei se h� algo. Se � que existe.

Mulheres cientistas?

Claro. Homens cientistas, sim. Mas mulheres�

que descobriram algo�

Mary Curie.

- E a dos macacos? - Quem �?

A que escreve sobre os chimpanz�s. Ela � muito boa.

Deixe-me ver.

Ela deve ser cientista. Ou�a:

�Dedicada � ci�ncia e guiada pelos fatos emp�ricos da realidade�.

- Ela � como uma cientista. - Sim.

Mas ultimamente ela n�o tem ajudado tanto. Diferen�a de crit�rios.

Ela fala de Mercedes Sosa, ou coisas locais.

Estou procurando coisas mais universais, cientistas.

Ou coisas que s�o mais in�ditas, como a Papisa Juana,

a Rainha de Sab�, Mata Hari�

- Mata Hari � muito boa. - Sim, Mata Hari � muito boa.

E as mulheres locais�

Alfonsina Storni, Evita, Mercedes Sosa�

Quer que eu pegue as biografias que temos?

- Pode ser. - Pepe!

Temos algumas. Se quiser posso separ�-las

e voc� escolhe as que quer levar�

Um dia Susi reuniu todas as biografias de mulheres que havia na biblioteca.

E as levei para o hotel.

Comecei a ler. Nada me convenceu muito,

at� que me deparei com a russa.

Uma mulher chamada Alexandra Kollontai.

E o livro se chamava �Autobiografia de Uma Mulher Sexualmente Emancipada�.

- Sobre o que � o livro? - � uma autobiografia.

- De uma mulher sexualmente emancipada. - Claro.

Achei uma boa ideia fazer a coluna, gostei muito de como ela escrevia.

Certo.

O que mais me chamou a aten��o foi um aspecto da edi��o:

cada vez que Kollontai se referia a uma conquista pessoal,

havia uma nota de rodap� do editor

dizendo que, nos dias finais, Kollontai pediu para converter

a primeira pessoa do singular para a primeira pessoa do plural.

Ou seja, toda vez o �Eu� teve que ser substitu�do por "N�s".

Desculpe. Pode repetir?

O �Eu� teve que ser substitu�do pelo �N�s�.

O curioso � que me deparei com as anota��es

feitas por algu�m que tamb�m leu o livro

e ficou surpreso com esse mesmo aspecto da edi��o que eu.

A mudan�a de �eu� para �n�s�.

Isso me interessou: algu�m leu o livro e concordou comigo.

Talvez em outro momento, em outro lugar.

PARA N�S�

Me perdi um pouco nessa �ltima parte.

N�o se preocupe com isso.

A quest�o � que a mesma coisa chamou a aten��o de n�s duas.

- Das duas? - Sim, n�s duas. Espere�

No in�cio do livro havia um carimbo que dizia �Propriedade Mart�n Fierro�.

E abaixo dele uma nota que dizia:

�Carmen Zuna, lido pela primeira vez em setembro de 1962�.

A tinta usada por essa Carmen Zuna

era a mesma das marca��es que encontrei no livro.

Entende?

Propriedade Mart�n Fierro.

Sim. Eu menti para voc�.

N�o era pelo trabalho. Era espionagem.

Certo.

Ent�o esse livro pertencia a essa tal Zuma�

- Zuna. - Zuna.

Sim, mas, enfim, isso n�o � importante.

Quando cheguei na metade do livro�

Vejo que as p�ginas pulavam da 45 para 50.

E ent�o percebi que entre essas p�ginas,

que estavam grudadas intencionalmente, havia algo.

Uma carta.

Uma carta de amor?

Sim.

Sim.

A carta era endere�ada a ela.

Para Carmen Zuna.

Essa foi a primeira carta que encontrei.

E ent�o me dei conta� que n�o era a primeira carta entre eles.

Que fazia parte de uma correspond�ncia iniciada antes.

A carta que encontrei � datada de 1962

e assinada por um tal Paolo Bertino.

- Paolo Bertino� - Sim, Paolo Bertino.

Os Bertinos s�o italianos, tinham terras aqui.

Exatamente.

- Creio que ainda restam algumas. - Sim. Poucas.

E sobre o que eram as cartas?

Eu conto depois.

Mas eram cartas de amor?

Sim, eram. Bem�

Mas a� entram em cena as abelhas.

O livro sobre abelhas.

A carta terminava com a promessa de enviar um novo livro

no qual estaria escondida outra carta.

E referia-se ao �universo das abelhas�.

A� eu deduzi que toda essa correspond�ncia,

as cartas entre Paolo e Carmen poderiam estar escondidas

entre os livros da Biblioteca de Trenque Lauquen.

Eu s� precisava encontr�-los.

E para isso eu tinha algo, eu tinha uma pista:

a pista que a mesma carta estava me dando. Entende?

- Acho que sim. A pista eram as abelhas. - Exato!

Ol�.

Confere.

Confere.

Confere.

Confere.

Confere. "Autobiografia de Uma Mulher"�

N�o, vou ficar com esse.

Kollontai, faltando.

Susi, posso te fazer uma pergunta?

Existe registro de doa��es? Isso consta em algum lugar?

Espere um segundo porque isso� eu me perco.

O que voc� quer?

Eu quero saber algo sobre uma cole��o.

- Qual? - Mart�n Fierro.

- Propriedade Mart�n Fierro? - Sim.

� uma cole��o enorme.

Agora, quanto �s mulheres cientistas e tudo mais, esque�a.

N�o. N�o � isso.

� porque fiquei intrigada pois encontrei um carimbo�

- Espere um segundo. - Voltei para a biblioteca.

Pedi � Susi que me deixasse ver o registro das doa��es que tinha l�.

Poder�amos ver os registros das doa��es?

Certo. Mas a escada � segura? Digo, n�o vai nos matar�

Estamos indo agora.

Venha comigo.

Entre os milhares de cart�es,

encontrei uma cole��o da Propriedade Mart�n Fierro.

E a� comecei a procurar algo relacionado ao universo das abelhas.

Abelhas�

120�

A VIDA DAS ABELHAS

- E? - Encontrei um. "A Vida das Abelhas."

- Boa! - Sim.

Encontrei na se��o infantil. Sendo que n�o � um livro infantil.

Quando abri o livro, n�o havia carta,

mas havia uma nota com um n�mero de p�gina

e v�rias p�ginas arrancadas.

Comecei a procurar todos os livros assinados por Carmen Zuna,

que, por causa do carimbo, foram arquivados na cole��o Mart�n Fierro.

Ent�o percebi que todos os livros de Carmen

tinham ido parar nas m�os dos Bertinos ou sabe-se l� onde.

Mas ningu�m jamais encontrou as cartas?

N�o ao que parece.

A PERSONALIDADE DOS ANIMAIS

A CIDADE GREGA

It�lia.

Roma.

Cartas que v�o e v�m entre Trenque Lauquen

e v�rias cidades italianas.

V�rias de Roma, algumas de Turim.

Muitas de Quincinetto e Scalaro, que eu nem sabia onde ficavam.

�Isto � o que eu ofere�o a voc�, cartas de amor, indo e vindo.

Come�a assim��

Encontrei uma carta em cada livro.

Montei um mapa com tudo isso.

Eu as classifiquei, as ordenei por data, as estudei.

Li todos os livros. Bem, nem todos�

Espere, espere. Desculpe.

- Posso fazer algumas perguntas? - Sim.

- Al�m de encontrar essas cartas� - O que n�o � pouca coisa.

Correspond�ncia oculta entre milhares de livros.

- Incr�vel. - Sim. E da�?

Isso � o que pergunto a voc�:

E da�?

E da�, o qu�?

Bem�

Deixe-me dizer de outra forma.

Por que est� t�o interessada em tudo isso?

Digo, al�m dos mil livros�

Qual � o mist�rio?

Leia isto.

- Em voz alta? - Por favor.

"Carmen, me sinto arrasado.

Sinto que at� ontem eu era uma crian�a e que voc� me tornou um adulto.

Algo acaba de come�ar.

Perdi minha virgindade de novo�

desta vez definitivamente.

Todas as mulheres com que j� estive antes,

a mulher com quem fui casado por mais de dez anos,

cada uma das minhas muitas amantes,

aparecem diante de mim como menininhas.

Sua vagina, Carmen. Sua vagina.

Algu�m me deu um mapa do seu tesouro e comecei a explor�-lo.

Quero voltar � sua vagina sem parar.

Mergulhar nela, dar minha vida a ela.

Se eu pudesse morar l�, Carmen,

se esse sexo devorador me aceitasse como habitante permanente,

eu seria, depois de tantos anos, finalmente feliz.

Meu falo � um pobre inocente.

Um pobre cego que entrou na selva e agora n�o pode sair.

Estou chorando. Sou um n�ufrago. Estou perdido.

Paolo."

O mist�rio � ela.

Carmen Zuna.

- Inacredit�vel. - Sim.

"Querida Carmen:

Ontem pensei em voc� o dia todo."

- J� abandonou o formalismo. - Sim.

"Esse pequeno quarto de hotel, essa escada,

essa mesa ser�o para mim pequenos santu�rios, pequenos templos."

- Vejamos� - Interessante. Muita informa��o.

Sim. Sabemos que se encontravam em um hotel.

Mas a escada� Quem sabe por que ele disse isso.

Talvez eles sempre come�assem na escada.

Na escada do hotel, voc� diz?

Eu n�o ficaria surpreso.

O que n�o entendo � a mesa. Por que ele menciona a mesa?

"A mesa. Essa mesinha de madeira

e voc� em cima.

Seu olho esperando aberto como�"

"Seu olho esperando aberto como uma laranja�"

Ah, t� bom�

�Quero que o ver�o j� chegue.

Por favor, amada Carmen, vamos nos encontrar novamente.

Vamos marcar hora e local para nosso pr�ximo encontro.

L� estarei, sempre seu. Paolo."

- "Carmen, pe�o perd�o." - Ele volta ao formalismo.

�O aluno n�o estava � altura da tarefa.

Eu falhei. Falhei com voc�, e eu mere�o puni��o.

Eu fui tolo, fui fraco.

V�-la nos bra�os daquele homem, ver aquele homem possu�-la,

v�-la excitada, ofegante, gritando, entregue,

grosseira.

Ardente como um fogueira por aquele homem vulgar,

aquele homem bruto e �spero,

por aquele animal que n�o sabia e n�o podia

saber quem tinha nos bra�os era demais para mim.

A cena me torturou e continua a me torturar.

L� estava eu, sentado, a observando.

O ga�cho me observando,

rindo de mim enquanto a possu�a.

E voc�, Carmen, sua felicidade, sua f�ria, sua risada,

olhando para mim contente como uma crian�a."

Caramba.

"N�o sei se conseguirei�

N�o sei se conseguirei continuar meus estudos.

N�o sei se essa arte � para mim.

N�o sei se sou �til para voc�.

Se dou conta do seu fogo,

minha senhora, minha rainha, minha sacerdotisa.

Eu sou pior que voc�.

Eu n�o mere�o nada de voc�, Carmen.

Nem que me humilhe. Paolo."

- Est� ficando um pouco estranho. - Sim.

Qual a sua vis�o disso?

A madame levou o ga�cho para o haras.

Acha que ela � propriet�ria de terras?

N�o sei. Parece ser esse o caso, n�o �?

Sim.

- Vamos? - Vamos.

�Carmen, minha amada.

Uma breve nota nesta tarde ventosa.

Estou t�o excitado que n�o sei por onde come�ar.

Sinto que estou em uma prova sobre um novo assunto.

Eu escrevo cartas para voc� e as rasgo.

N�o encontro as palavras.

N�o reconhe�o minha letra no papel.

Ser� que estou apavorado com a ideia de perder meu lugar no seu cora��o?

Seja o que for, mal posso esperar.

Eu sei que ele ser� recebido como um de n�s."

Agora que n�o entendo nada.

"Seja o que for, mal posso esperar.

Eu sei que ele ser� recebido como um de n�s.

E voc�, Carmen? Quando a verei de novo?

Ser� em breve?

Sinto sua falta mais do que nunca. Paolo."

"Querida Carmen: J� n�o sei por que lhe escrevo.

Tr�s meses se passaram desde que voc� partiu.

Onde voc� est�? Com quem poderia estar?

Quem est� no lugar onde eu estive por tantos anos?

Foi t�o f�cil me substituir?

"Carmen, j� n�o sei mais onde encontro for�as para escrever,

mas sinto que � a �nica coisa que posso fazer.

N�o estou conformado que isso seja uma despedida.

� Carmen, � minha viajante,

� minha aventureira, n�o me deixe assim!

Depois de abandonar tudo, este inc�ndio deixou muitas feridas.

- Ele deixou a esposa? - Sim.

- Paolo era casado. - Claro.

Ent�o me lembro que o seu corpo � o mapa da minha vida,

e sem o seu corpo estou perdido.

Suas cartas chegam at� mim desde os lugares mais remotos.

E suas palavras tornam-se igualmente remotas e vagas.

Ser� que voc� as escreveu pensando que seriam as �ltimas?

N�o posso aceitar isso.

Eu nego essas palavras, eu as impugno.

S�o as palavras de uma menina.

Uma menina que repete mecanicamente

os versos cru�is das brincadeiras infantis.

Mas voc� n�o � uma menina, Carmen.

E isto n�o � um jogo.

Seu, Paolo."

Ele a est� perdendo.

Sim.

N�o entendo por que ele insiste tanto nas palavras.

Que palavras?

�S�o as palavras de uma menina.

Uma menina que repete mecanicamente."

Como seria?

Te deixo, te deixo, te deixo.

Para mim, parece o jogo de palmas.

Te deixo, te deixo, te largo, te largo,

te mato, te mato, te enterro, te enterro. Adeus, adeus, adeus!

N�o sei.

O que acha que ela disse a ele?

- Tchau tchau? - Tchau tchau.

Tchau, tchau, adeus?

Adeus, adeus?

- Vou embora! - Vou embora.

Adeus, adeus, vou embora, vou embora.

Sim, isso soa mec�nico.

Sim.

Se voc� se arrepender Vou embora, vou embora

Tendo dado o seu amor Adeus, adeus

N�o foi minha culpa Vou embora, vou embora

Voc� me deu a chance Adeus, adeus

O ci�me me oprime Eu n�o sei por qu�

IV "ADEUS, ADEUS, VOU EMBORA, VOU EMBORA"

Tudo bem, Abrante, obrigado.

Saio por onde entrei e sigo direto para Piedritas?

Sim, sim.

Em frente, voc� ver� uma placa. Certo?

Estou com pressa. Com licen�a.

N�o, n�o. Por favor. Obrigado.

Muito obrigado. At� mais.

Nada, cara. Este Abrante n�o faz ideia.

Ele n�o sabe sobre Laura�

ou quem � o cara do bar. Ele n�o sabe de nada.

Ele n�o tem orqu�deas h� dez anos.

Ele n�o sabe nada sobre plantas. S� tem porcas.

M�es.

3 meses, 3 semanas e 3 dias.

Em 114 dias, eles conseguem de 8 a 12 leit�es.

Portanto, cada porca poderia ter at�

uns 30 leit�es por ano.

Dez m�es�

300 por ano.

Cada leit�o pesa 10 kg, mais ou menos 5.000, 5.500 pesos.

Bom neg�cio, n�o?

O que Abrante me contou

� que h� uma grande reserva natural aqui perto, perto de Piedritas.

Talvez l� esteja o que procuramos.

Laura?

N�o exatamente.

O pendente de Laura.

Acho que isso pode nos levar a Laura.

Se lembra exatamente quando foi a �ltima vez que a viu?

N�o tenho certeza.

Claro, com a quest�o do carro�

Ah, claro. Quando ela pegou meu carro emprestado.

Quando ela roubou seu carro�

Desculpe, mas n�o sinto que ela roubou meu carro.

Bom�

Est� bem.

- Voc� dava carona para ela, n�o �? - Sim.

Certo.

Com que frequ�ncia, se lembra?

Uma ou duas vezes por semana.

Dependia do trabalho que ela tinha que fazer.

Como era?

Me conte a rotina. Voc�s se encontravam na prefeitura?

Geralmente eu a buscava na r�dio.

Na r�dio?

- Ela trabalhava em uma r�dio. - Quem?

Laura.

Laura trabalhava em uma r�dio?

Ela tem uma coluna em um programa.

O programa da Juliana.

Me diga, ela lhe contou algo sobre mim?

Digo, ela contou que tinha um namorado?

- Sim, ela me contou. - Certo.

Est� bem.

Ent�o, a r�dio�

- Sim. - Prossiga.

Eu a buscava na r�dio�

�amos ao campo onde ela tinha que trabalhar.

�s vezes almo��vamos�

depois a deixava no hotel. Isso � tudo.

Certo.

Esse trabalho foi o primeiro passo para ser nomeada

para a c�tedra.

Dividimos uma c�tedra.

Eu sou o chefe, ela ainda n�o foi nomeada.

Ela estava prestes a ser nomeada�

Certo.

Ou seja, se ela fizesse bem esse trabalho, o cargo seria dela.

Certo.

� por isso que n�o entendo o que est� acontecendo.

Certo.

Pode me dizer o nome da r�dio?

LU.

L de Laura, U de Uva.

11.

Certo.

Vamos.

Voc� dirige, estou cansado.

O que aconteceu?

Pneu furado.

Vamos pegar o macaco.

- N�o. - N�o, o qu�?

- N�o est� aqui. - Como assim?

Lembrei agora, no dia que Laura pegou o carro emprestado,

tirei tudo do porta-malas para limpar e deixei em minha casa.

N�o, eu n�o entendo.

Voc� sai dirigindo sem macaco?

Vale lembrar que n�o estava nos meus planos vir at� aqui.

Como sou azarado!

Vamos ligar para o seguro.

Tem certeza sobre o macaco? N�o quer ver s� pra garantir?

Tenho certeza, mas vou verificar.

Viu?

Essa � a mochila da Laura?

Ligue para o seguro, por favor.

Pois bem.

Eles estar�o aqui em uma hora, hora e meia.

"Autobiografia de Uma Mulher Sexualmente Emancipada."

Caramba.

Ent�o eu posso dormir melhor�

Poderia me ligar para acordar �s quinze para as cinco?

Sim, claro. Meninas, voc�s querem assistir TV na cozinha?

Vou ajustar meu celular

mas se n�o escutar prefiro ser acordado por uma profissional.

Posso tomar caf� da manh� nesse hor�rio?

Eu vou ver, senhor.

Se for muito complicado, um caf�, algo r�pido.

A� n�o saio de est�mago vazio.

- Prepararemos um caf� para voc�. - Eu agrade�o.

N�o se preocupe com meu amigo, ele provavelmente continuar� dormindo.

- Muito obrigado. - De nada. Boa noite.

- M�e, podemos assistir TV? - Em um minuto.

Quando?

Assim que eu terminar de limpar as mesas.

- Bom dia. - Bom dia.

- Vai tomar caf� da manh�? - Vou.

Com licen�a. Poderia me trazer mais croissants, por favor?

Mas os de manteiga.

Doce ou salgado?

Doce.

Doce.

- Dormiu bem? - Sim.

Que bom.

N�o tomou banho?

- N�o. - A ducha est� �tima.

S� para voc� saber�

H� muito a fazer.

Eu estive na reserva esta manh�.

Reserva muito bonita, muito bem conservada, n�o havia nada l�.

Nem um vest�gio. Nem um vest�gio do pendente, da Laura.

Nem sequer vest�gios das mulheres que trabalhavam l�.

Obrigado.

Ent�o me mandaram de volta para c�, Am�rica.

Para um viveiro municipal.

Eles queriam me mandar para um zool�gico. Nada.

N�o h� nada.

O assunto � outro.

As not�cias do dia est�o aqui.

�O homem sempre tentou impor seu ego a n�s, mulheres,

e nos adaptar completamente aos seus fins.

Assim, apesar de tudo,

estourou a inevit�vel rebeli�o interior

porque o amor se tornou uma pris�o�.

Vou ler outro.

�Tive que partir, tive que deixar o homem que escolhi,

caso contr�rio, este era um sentimento subconsciente,

eu teria me exposto ao perigo

de perder minha exist�ncia independente."

Mais um, sublinhado com tinta.

�A diminui��o da nossa capacidade de trabalho foi perdida

em experi�ncias emocionais est�reis.�

� a mesma tinta do peda�o de papel onde ela anotou o seu telefone.

O peda�o de papel que ela deixou no posto.

Est� claro o que est� acontecendo aqui.

Laura estava construindo uma casa comigo.

Ela estava prestes a assumir um cargo na minha c�tedra.

N�o � que Laura tenha enlouquecido.

� que ela ficou com receio.

Receio?

De qu�?

Em geral.

No amor ou no trabalho.

Um homem ou uma vida independente. Uma carreira�

Laura precisa encontrar esse pendente.

Resolver o enigma.

E sentir�

que conseguiu sozinha.

Que ningu�m resolveu para ela.

Que eu n�o resolvi isso para ela.

S� ent�o ela poder� retornar � vida normal.

Est� tudo aqui.

Neste livro.

Rafael�

Preciso que voltemos para Trenque.

Encontrar as pessoas que estiveram pr�ximas dessa Laura.

Preciso que voc� venha comigo.

Vou pagar o hotel.

E pegar alguns produtos regionais que comprei na excurs�o esta manh�.

Vejo voc� no carro? J� enchi o tanque.

Com licen�a, posso fazer o checkout?

- Sim, claro. - Obrigado.

Eu vou ao banheiro. Vou deixar o cart�o aqui.

Algo que eu nunca quis

� ser ingrato

� por isso que nunca esqueci

O quanto voc� esteve ao meu lado

Eu poderia dizer que voc� e eu

Temos sido bons amigos

N�o sei se � o destino

Que separa os caminhos

Voc� sempre com tanta pressa

Escondendo-se em sua risada

Talvez voc� nunca tenha entendido

Que meu andar � lento e triste

Eu te ofereci minha alma sincera

E voc� nem sequer

Foi capaz de segurar minha m�o

N�o sei se foi em v�o

Voc� mal poderia pedir desculpas Uma pena

E n�o pergunte por qu�

N�o h� sentido em saber

Apenas sente-se em sil�ncio Ao meu lado

E n�o pergunte por mim Quando eu j� tiver ido embora

V OS CAMINHOS

CARTAS DE AMOR

PROPOSTA

PROPRIEDADE MARTIN FIERRO

EU / N�S

ABELHAS (SEM CARTA)

SEM PISTAS

�QUEM TEM FILHOS ACEITA A VIDA� P�GINA 48. PAVESE, LE AMICHE

SEM RESPOSTA

CAMINHAR

MINHA RESPOSTA � JUANA

� a �nica nota de Carmen assinada por ela.

N�o entendo como esse detalhe me passou batido.

Se h� uma nota de Carmen entre as coisas de Carmen,

� porque esta nota nunca foi enviada.

E � porque este nome, Juana,

representa algo que ela queria omitir.

Algo que ela pensou, escreveu, mas depois n�o enviou.

Misterioso, hein?

- � a �nica vez que ela � mencionada? - Sim, a �nica vez.

H� algo curioso sobre as Juanas�

H� um livro sobre Juana D'Arc, um sobre a Irm� Juana In�s de la Cruz

e o livro sobre Juana D'Arc tamb�m � traduzido por uma Juana, Juana Castro.

Certo.

Certo�

- Mil Juanas. - Sim.

N�o sei. S� conv�m considerar. Talvez isso nos ajude a pensar.

Claro.

Claro�

- O que voc� tem? - Nada.

- O que foi? - Nada.

Encontrei algo.

- Carmen Zuna. - N�o!

O que me chamou a aten��o de cara em Carmen � que ningu�m a conhecia.

Eu cresci nesta cidade. Todo mundo se conhece.

Uma mulher assim nunca passaria despercebida.

Menos ainda com o perfil de Carmen.

Como � poss�vel que ningu�m a tenha notado?

Tinha que ser algu�m que vinha � cidade de vez em quando.

Uma m�dica que vinha trabalhar no hospital.

Ou uma freira.

Mas naquela �poca n�o existiam conventos.

Procurei em todos os registros que encontrei.

Guia local, guia Kraft,

lista telef�nica, guia de com�rcio,

cat�logos profissionais, registros eleitorais.

Nem um vest�gio.

At� que tive uma revela��o. Uma intui��o.

J� que brincavam tanto nas cartas com a ideia do aluno,

da professora, do aprendizado.

- Talvez eu tivesse que ir� - Voc� foi � escola?

Escola N�mero 1. Eu sou ex-aluno.

Na escola me encontrei com todo mundo.

Chicho! Quanto tempo!

Tito, o zelador.

Lelia, minha professora da segunda s�rie.

Graciela, a bibliotec�ria.

E Mary, a diretora.

Perguntei se tinham algum arquivo daquela �poca, de 1960.

Eu n�o disse a eles exatamente para que era.

Eu simplesmente disse que estava interessado no arquivo da escola.

A primeira coisa que me mostraram foi uma foto da �D�cada de Ouro�.

Foi a era das grandes escolas.

Descobri que o corpo docente de 1960 a 1970 era excepcional.

Nesses dez anos, as professoras eram quase todas emin�ncias.

A �poca das grandes escolas, disseram.

Voc� sabe quem s�o todas essas professoras?

Algumas, sim.

Esta � Ana Mar�a Sastre.

O problema � que Tito, Graciela, Mary e Lelia

passaram algum tempo dando nomes �s professoras.

Reconheceram todas elas.

Ana Mar�a Sastre, Leoncia Garro,

Silvina San Miguel, "la Bergamasco" �

Ulda Saenz de Fosatti�

Esta � Ulda Saenz de Fosatti.

Piaggio, Trotta, Barragu�, Mu�iz.

Todas t�m nome.

Longobardi, e esta�

Quem � essa, porque sabemos at� essa aqui, mas e essa?

N�o me lembro dela.

N�o a reconhe�o.

N�o. As outras, sim.

Todas tinham nome, exceto uma.

- Beatriz Del Sarto. - Del Sarto�

- E esta? - Ela � Barrag�?

E essa de cabelo comprido?

N�o � a mesma que n�o conhecemos de l�?

Era sempre a mesma mulher:

uma professora que n�o ensinava em nenhum lugar.

Esta � a mesma foto de�

Esta � a foto de l�. Exatamente, � a mesma pessoa.

A revista do centen�rio da escola.

Olha, 100 anos.

Esta mesma foto aparece na revista do centen�rio da escola.

Vejamos se a encontramos aqui.

Com os nomes de todas as professoras, exceto o dela.

Vejam s�, aqui est� ela.

- Ah, olhe. � a mesma foto. - A� est� ela.

Garro, Scuderi, San Miguel�

Eu tenho uma hip�tese.

- Teresa Trotta� - Sim.

Piaggio�

Se todas t�m nome, exceto uma�

E esta?

� Carmen Zuna.

Carmen Zuna era professora.

- Substituta. - Como sabe?

Verifiquei todos os registros de 1960 a 1970.

Uma vez por m�s aparece uma assinatura e, ao lado: Substituta.

O nome nunca aparece.

Comecei a fazer perguntas. Especificamente, sobre Zuna.

Perd�o, voc�s conhecem uma tal "Carmen Zuna"?

N�o� Eu n�o.

Mary diz: "N�o parece familiar."

Perguntei sobre as substitutas daquela �poca.

Ela me disse que havia v�rias.

Eu pergunto: de onde elas viam?

De onde elas viam?

Ela responde:

Bem, a maioria delas de La Pampa.

�Quase todas de La Pampa, de Santa Rosa�.

Certo, voc� foi at� Santa Rosa

e procurou os registros de Zuna como substituta

que vinha de Santa Rosa quando faltava uma professora.

N�o. Eu pedi a Grace, na prefeitura, e ela procurou na internet.

- E? - Carmen Zuna.

Mas a foto era igual a esta?

N�o, n�o havia foto. Mas mesmo assim,

havia uma professora chamada Zuna. Professora substituta.

Nessa foto todas t�m nome.

S� uma que nunca tem nome.

- Acho que est� claro� - Sim, est� claro.

- Carmen Zuna! - Sim, sim.

VI CARMEN ZUNA

- H� outra coisa. - O qu�?

Chequei os registros dos alunos de 1965 a 1969 na escola.

E?

Mario e Marcelo Bertino.

- Ela era a professora dos filhos. - Exato!

Mario e Marcelo Bertino.

- Voc� tem mais fotos? - Sim, pode ir passando.

Esta � ela?

� ela.

Certo�

Mas espere. Isso fica melhor.

Continuei lendo as cartas que voc� me deu.

A partir da primeira metade do ano, Bertino � o mesmo de antes,

como uma esp�cie de amante que est� aprendendo.

E ela � a professora dele.

Mas em um momento algo acontece. Um evento.

Nas cartas, ele come�a a parecer preocupado.

Ele come�a a falar sobre outra pessoa.

Ele disse: �Ele ser� recebido como um de n�s�.

Quem � ele?

Ser� o ga�cho do haras?

A certa altura, ela vai embora.

Ele continua escrevendo cartas, completamente desesperado�

mas ela desaparece.

Ele culpa o outro.

Ele sente que ela o abandonou pelo outro.

Mas tamb�m ele n�o pode falar do outro com �dio.

Como se ele tamb�m amasse aquele outro.

S�o tr�s, e os dois amam Zuna.

E Carmen�

Quem ela ama?

O tempo passa. Finalmente, nas �ltimas cartas, Zuna reaparece.

E ou�a isto:

De repente, ele n�o � mais ele.

Ele � ela.

O terceiro agora � uma terceira.

Isso � tudo que eu tenho.

Pode esperar enquanto vou ao banheiro?

Claramente, h� um evento. Mas n�o � um amante.

Olhe esta foto.

Foi no final de 1968,

alguns meses antes de Carmen desaparecer do mapa.

E o que tem?

A express�o dela mudou.

- Ela parece triste? - Cansada, talvez?

- Ela est� mais gorda. - Est� gr�vida.

- Uma filha? - Juana.

� assim�

As cartas de 1969 reconstroem todo o mist�rio de 1968.

Em algum momento de 1968, conforme voc� leu,

Carmen engravida de Bertino.

Suponha que Bertino recebe a not�cia da gravidez enquanto est� na It�lia,

numa viagem de neg�cios.

Bertino n�o entende nada, n�o sabe o que fazer.

No in�cio, ele escreve coisas como:

�Eu cuidarei de tudo�, "N�o tenha medo",

"Voc� n�o est� sozinha."

Coment�rios de um homem casado para sua amante nesta situa��o.

Ele quer se comportar como um adulto.

Imaginando que abandonar a fam�lia seria algo escandaloso.

Mas uma resposta de Carmen,

que n�o sabemos qual �, o surpreende.

Algo aconteceu.

Algo muda dentro dele.

Por exemplo, veja o que ele escreve nesta carta:

�Sua resposta me deu esperan�a.

Nunca pensei que ter um filho comigo fosse uma possibilidade para voc�,

da mesma forma que uma Deusa

n�o tem um filho com um simples mortal.�

Esse � o tipo de coisa que ele escreve.

Est� descontrolado. Apaixonado como nunca.

E ele se refere a essa crian�a como um milagre,

um presente destino. Esse tipo de clich�.

E � a� que come�a o problema:

As cartas de Carmen param de chegar.

Mesmo assim, Bertino continua escrevendo para ela.

Ele mant�m o ritual das cartas e dos livros�

j� um pouco resignado.

Durante longos meses, aparentemente, Carmen n�o responde.

Nada, nem uma carta, nem uma �nica palavra.

Bertino sofre, teme, espera.

Finalmente chega a t�o esperada carta de Carmen.

E o que se l� nessa carta � ainda mais perturbador para Bertino.

Mais uma vez, Carmen n�o se comporta como ele esperava.

H� algo estranho.

Carmen anuncia que est� indo embora.

Para onde? N�o sei.

E Bertino tamb�m n�o sabe.

Carmen simplesmente disse isso a ele: vou embora.

E o que eu entendo

- � que Carmen come�a a caminhar. - Como assim?

Caminhar pelos campos�

Como voc� sabe que ela come�a a caminhar pelos campos?

Ele disse que n�o sabe onde ela est�.

Ele quer descobrir, mas no final se conforma.

Ele disse a ela:

�Depois de dias tentando descobrir onde voc� est�,

eu entendi que voc� n�o est� em lugar nenhum.

Ou melhor: voc� est� em todo lugar.�

N�o me convence.

Espere! Ela come�a a caminhar. H� mais ind�cios.

Quais ind�cios?

Veja essas cartas.

Se seguir o que ele disse,

� como se ela tivesse se tornado uma criatura selvagem, quase um animal.

Ele escreve coisas como:

�Peregrina dos pampas�, �exploradora solit�ria�,

"aventureira". At� "vagabunda"�

Carmen, uma vagabunda�

- Ele escreve "vagabunda"? - Muitas vezes.

Muito bem. Vamos imaginar isto.

Carmen caminha pela prov�ncia de Buenos Aires,

enquanto sua barriga cresce.

� como se ele a estivesse vendo:

caminhando por estradas de terra,

entrando em fazendas para pedir comida.

Sozinha, um tanto perdida.

Mas, ao mesmo tempo, determinada a n�o voltar atr�s.

E Bertino?

Enquanto isso, Bertino est� na It�lia.

Todas as cartas dele est�o seladas de l�:

de um vilarejo remoto onde se refugia.

E l� ele fica.

Bertino espera por ela.

Ele sabe da gravidez.

Essa gravidez � o que Bertino tenta imaginar nas cartas.

Onde ela est�?

Aonde ela est� indo?

Ela est� bem?

Ela sabe o que est� fazendo?

Ou ela enlouqueceu?

Com o que ela est� preocupada?

Ela est� preocupada com algo?

Ela vai voltar?

Naquela altura, Bertino pensou que seria um menino.

Veja, ele escreve:

�Ele ser� recebido como um de n�s�.

Ele confirma para ela que estar� l� com ela para cuidar dele.

Mas n�o parece ser suficiente.

Algo mudou em Carmen.

Algo aconteceu com ela.

Ele teme por ela.

Ele tem medo que ela esteja perdida.

Carmen responde apenas esporadicamente.

E, pelo que Bertino diz nas cartas,

as anota��es dela s�o err�ticas e amargas.

Mas Carmen est� bem.

Ela est� melhor do que nunca.

Ela encontrou nessa caminhada algo que sempre procurou�

Por algum motivo, ela n�o pode parar de caminhar.

Ela atravessa a prov�ncia inteira e n�o se cansa.

Ela caminha tanto, que chega at� ao mar.

E l� ela fica, esperando.

Suponhamos que algum tempo depois, em alguma cidade litor�nea,

nasce a menina.

Obrigada.

�Minha resposta � Juana� � a resposta do porqu� ela desiste da vida com ele.

Aquela vida cheia de amor e aventuras que tiveram.

Essa vida n�o � mais poss�vel.

E n�o h� como eles voltarem a ser os mesmos�

amar um ao outro.

As cartas de Paolo daquela �poca s�o cartas de um homem triste.

Ele sente falta dela.

Ele pensa nela o tempo todo.

Ele viaja pra l� e pra c�, como uma sombra solit�ria.

Pensa nela, enquanto viaja pela It�lia, como se tentasse encontrar algo.

Como se ele estivesse tentando substitu�-la.

E � aqui que surge um novo mist�rio. Ou�a�

Em algum momento, n�o sei como,

Juana aparece na It�lia, morando com o pai, com Bertino.

�Continuamos esperando por voc� aqui, Carmen. Sempre no mesmo lugar",

diz ele em uma das �ltimas cartas.

Como ela chegou l�?

Como � que Carmen deixa a menina ir? Ela a abandona?

Carmen e Bertino se encontram novamente?

Se n�o, como a menina viaja para a It�lia?

Aqui estamos no cora��o do enigma.

O grande mist�rio da hist�ria de amor entre Bertino e Carmen Zuna�

Juana.

- "A resposta � Juana." - A pergunta � Juana.

A menina cresce.

Ele a cria sozinho. Ela � a �nica coisa que o mant�m perto dela.

A �nica garantia de que Carmen pode voltar um dia.

E depois, o que acontece?

N�o sei.

Tudo o que sabemos � que em algum momento ele retorna.

E quase como uma cerim�nia, como um ritual,

ele deixa as cartas no mesmo lugar.

Ele sabe que ela n�o vai voltar,

mas prefere que as cartas estejam l�:

no mesmo lugar onde as encontrei.

Ele n�o escreve cartas para ningu�m?

Algo do tipo.

Bertino fala dela como se ela tivesse se perdido nos caminhos.

Ele aceita que ela n�o retornar�.

Carmen enlouqueceu?

Ou foi ele quem enlouqueceu?

Imaginando-a como uma esp�cie de personagem lend�ria?

Isso � algo que nunca saberemos.

O que sabemos � que eles n�o se viram novamente.

E ele nunca para de pensar nela.

A vida dele � ela.

E ele pensa nos anos que passaram juntos�

como o �nico momento em que a vida dele fez sentido.

Algo que eu nunca quis

� ser ingrato

� por isso que nunca esqueci

O quanto voc� esteve ao meu lado

Eu poderia dizer que voc� e eu

Temos sido bons amigos

N�o sei se � o destino

Que separa os caminhos

Voc� sempre com tanta pressa

Escondendo-se em sua risada

Talvez voc� nunca tenha entendido

Que meu andar � lento e triste

Eu te ofereci minha alma sincera

E voc� nem sequer

Foi capaz de segurar minha m�o

N�o sei�

VII A PARTE DE RAFAEL

Roma � uma das cidades mais belas do mundo. Voc�s j� conheciam?

N�o conhec�amos, Juliana, e adoramos. Foi como um sonho para n�s.

Quando crian�a, falavam comigo em italiano, por causa da minha fam�lia.

Ent�o consegui me comunicar. Pude entrar em contato, digamos�

O que quer que eu diga? Tamb�m n�o sei explicar, Clarita.

N�o sei.

N�o, n�o, mal educado... Ressentido, n�o sei.

N�o, como quiser, mas isso n�o se faz.

Voc� n�o larga ningu�m em Piedritas�

N�o pode isso.

N�o, n�o!

Isso mesmo.

Ele me odeia.

Ele me odeia.

Ele me odeia!

Nada, nada. N�o se preocupe, Clarita.

Ligo para voc� quando chegar.

Veja se consegue arranjar essa passagem para mim.

Veja se consegue�

a passagem�

Eu disse�

Veja se�

Nada�

Tchau.

Tchau. Tchau. Sim.

Vamos para um intervalo e j� voltamos com Um Mar de Novidades.

A r�dio � uma m�dia cega. At� voc� assistir com os ouvidos.

A Esta��o. �nica. Assim como voc�.

PREFEITURA DE TRENQUE LAUQUEN

Ol�. Como posso ajud�-lo?

Sim. Norma?

Normita.

Ah, como vai? Me chamo Rafael.

Rafael�?

Sou a pessoa com quem voc� providenciou a transfer�ncia de Laura.

Laura�?

Ela�

Laura?

Ah! Laura! Claro! Laura!

Desculpe. Sente-se, estou um pouco desorientada

lutando com esse papel de presente para embrulhar isto para meu afilhado.

Rafael! Nos conhecemos, mas por e-mail!

Sim. Mas n�o pessoalmente.

Recebeu o projeto pronto e assinado por mim, n�o foi?

Perfeito, sim.

- Gostaria de algo? Um caf�? - N�o, obrigado. Estou bem.

E o que o traz aqui?

- C� estamos� - Aconteceu alguma coisa?

N�o, n�o�

A verdade � que eu queria tratar pessoalmente

alguns assuntos que Laura deixou meio bagun�ados.

- Voc� � companheiro dela, n�o �? - Exato.

Voc�s v�o se casar.

Vamos morar juntos.

Verdade, isso mesmo.

- D� no mesmo. - Sim, d� no mesmo.

- Tem certeza que n�o quer caf�, nada? - N�o, n�o. Obrigado.

Na verdade, queria saber se voc� se lembra da �ltima vez que viu Laura.

Laura? Aconteceu algo com ela?

N�o.

De jeito nenhum.

Acontece que� Ela saiu de f�rias e depois de um tempo

n�o tive not�cias dela, mas n�o � nada.

Isso � estranho.

Ela veio � prefeitura para terminar um trabalho e assinou tudo.

Ela concluiu tudo certo?

Sim, impec�vel. Ela fez um excelente trabalho. �timo.

A equipe a adorava.

Mas acho que estava faltando algo, ela me disse.

Ela terminou tudo e eu agilizei para que

pudessem avan�ar com o cargo na universidade.

Estou muito grato a voc�.

N�o sei. Ela pesquisou um �ltimo campo,

me disse que cuidaria disso e que depois voltaria.

N�o me lembro exatamente o que combinamos.

Claro.

- O pendente. - Perd�o?

O pendente, a esp�cie que falta,

Ah, sim. Um pendente.

O pendente.

� o que diz no arquivo.

Sim, mas isso � apenas burocracia. "O" pendente, "o" que falta�

Claro.

N�o sabe quanto tempo ela ficou no hotel?

Isto � muito estranho.

Voc� foi rejeitado? Ela fugiu com um trenque lauquenche?

N�o, n�o, nada disso.

Tenho que passar informa��es precisas para a c�tedra

e Laura n�o me atende� Um monte de coisas.

Que estranho!

Ela tem uma passagem.

- Quem? - Laura.

Ela comprou uma passagem�

Para segunda-feira.

E como voc� sabe?

Porque eu sou a chefe dela.

Ela vai voltar. N�o se preocupe.

Sim. Eu sei que ela vai voltar.

Voc�s discutiram?

N�o�

Pensando agora, talvez tenha havido um pequeno mal-entendido, mas�

Acho que vou aceitar um ch�.

Olha�

N�o, j� sei o que vai dizer, mas n�o � isso.

Laura n�o faz coisas assim.

Ela n�o me deixou por outro.

Ent�o espere por ela, ela voltar�.

Obrigado.

Mas eu queria dizer outra coisa.

Laura fez um �timo trabalho�

Eu sei.

Mas no final ela saiu da linha.

Saiu da linha?

Sim. Talvez n�o seja nada, mas�

ela deixou de pagar algumas coisas no hotel�

Um pouco irrespons�vel.

Desleixada, sabe?

Muito frigobar, muito servi�o de quarto.

E ela nem avisou, se tivesse avisado ter�amos arranjado.

L�gico.

Nem preciso dizer que posso cuidar disso.

E pe�o desculpas em nome de toda a c�tedra.

Ela se tornou uma figura antip�tica, sabe?

Ent�o ela teve que sair de Trenque

e n�o sei por que mas ela decidiu ficar mais uns dias,

e a prefeitura n�o pagou o hotel, pois o contrato dela tinha terminado.

Ent�o, eu sendo t�o amig�vel�

Ofereci a ela um quarto que minha av� aluga.

E ela n�o s� n�o pagou,

ela nem deixou uma caixa de chocolates.

Minha av� � aposentada.

Bem, mais uma vez�

Cuidarei de dar um bom presente para sua av�.

Ela levou um par de galochas minhas tamb�m e uma capa de chuva.

Um Perramus.

Eu tamb�m me ofere�o para pagar por isso, Norma.

Ela virou uma inconsequente.

Ela deixou o quarto uma bagun�a. Tivemos que chamar algu�m para limpar

e ela havia criado uma esp�cie de habitat sujo e fedorento.

E as coisas dela?

N�o, ela levou, creio eu. E o resto foi devolvido.

- Como assim, devolvido? - Para a biblioteca.

Ela ia muito l� porque tinha um programa de r�dio, sabe?

Sim, sim�

E havia mapas e coisas da prefeitura,

mas tudo isso tamb�m foi devolvido.

Claro, voc� devolveu.

N�o, Chicho que devolveu.

- Quem � Chicho? - Chicho, o rapaz da Mobilidade.

Ah, sim, Chicho.

Sim, eu sei de quem est� falando.

Tenho que ir, sen�o perco o �nibus.

- J� vai embora? - Sim, eu nem trouxe roupa.

Vim passar o dia e acabei ficando.

Mas voc� voltar�.

Com certeza, sim.

Se Laura n�o voltar em alguns dias talvez eu comece a ficar preocupado.

- Eu acho que n�o. Ela voltar�. - Claro que ela voltar�.

Quer que o leve � rodovi�ria?

Estou � toa. Aproveito e deixo o presente do meu sobrinho.

Pode ser. Claro, j� me adianta.

- Quer ajudar com isso? - Sim.

Voc� j� conhece a prefeitura.

Parece uma geringon�a.

Foi aqui que Lau come�ou a trabalhar.

E esta � a rua principal, Villegas.

Notou como � uma avenida?

Bem, todas as ruas de Trenque s�o avenidas.

Este era �o� bar de Laura.

Kalos.

Ela vinha muito aqui. Passava o tempo aqui.

Acho que ela usava como escrit�rio.

Claro.

Foi para c� que Laura se mudou quando saiu do hotel.

Certo.

� a casa da minha av� Telma.

Essa com o banco.

Como eu disse, foi a� que ela deixou todas as coisas dela.

Parece um OVNI.

Sim.

Um disco voador.

Mais avenidas�

Todas s�o avenidas.

Este � o lago.

Trenque Lauquen significa �lago redondo�.

V� aquele quarto com a persiana aberta?

Laura ficou l� durante os primeiros seis meses de trabalho em Trenque.

Seu �nibus para Buenos Aires est� aqui.

D� um tempo a ela, Rafa. Talvez ela esteja confusa.

Sim.

Talvez eu chegue em casa e ela estar� me esperando l�.

E, claro, me ofere�o a assinar a conclus�o do projeto,

assumir a responsabilidade pela esp�cie que falta�

N�o sei, tamb�m posso mandar algu�m

terminar esse assunto semana que vem, e n�o fica pela metade.

N�o, n�o se preocupe, Rafael, obrigada.

O projeto est� parado e n�o conseguiremos outra verba para ele.

N�o, claro, sim.

Este foi um ano dif�cil.

Todos os cortes no or�amento foram para a Sa�de ap�s a coisa do macaco.

E agora com as elei��es e a reelei��o de P�rez Fox,

ningu�m quer arcar com um projeto de classifica��o de flores.

Nem uma alma.

Que coisa do macaco?

A coisa do macaco� Bem, eu chamo de coisa do macaco.

N�o leu a not�cia sobre uma apari��o no lago, h� algum tempo?

N�o. Eu n�o estou ciente disso.

Essa coisa apareceu e n�o sab�amos o que era, no lago do parque,

havia milhares de teorias.

Uma situa��o de uma m�dica daqui, meio pol�mica,

que levou para a casa dela. Uma loucura.

- E o que aconteceu? - Nada. Abrandou, no final.

Foi uma grande confus�o at� se saber que era um animal qualquer.

- Um jacar� ou algo assim. - Um jacar�? Jacar�s aqui?

Foi um papel�o.

Havia toda essa hist�ria de fic��o cient�fica�

E ent�o disseram que era tudo uma arma��o, uma fachada.

Uma arma��o?

Sim. Para manter as pessoas entretidas e assustadas

enquanto o lago era tomado por um projeto de privatiza��o.

Uma praia artificial.

Uma praia artificial em Trenque Lauquen.

- Com ondas artificiais. - N�o�

Nada de novo, ideia de P�rez Fox.

J� est� saindo.

- Foi um prazer conhec�-lo. - Igualmente.

Me mantenha atualizada e me avise.

Se voc� vier, reservarei um hotel pela prefeitura.

Ah, sim. Claro, claro.

Bem�

- Foi �timo conhec�-la. - Igualmente.

- Tchau. - Tchau.

Obrigado.

Boa viagem!

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