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SEIS CONTOS MORAIS
A PADEIRA DO BAIRRO
Paris, Carrefour Villiers.
A leste, o Bulevar dos Batignoles.
Ao norte, a Rua de L�vis e seu mercado.
O caf� Le Dom� de Villiers.
� sua esquerda, a Avenida de Villiers.
O metr� Villiers.
A oeste, o Bulevar de Courcelles...
que conduz ao parque Monceau, onde h� uma obra de demoli��o...
marca o endere�o do antigo Cine-Clube, um centro estudantil.
Eu jantava ali todas as noites enquanto estudava para os exames.
Na mesma hora, Sylvie...
que trabalhava numa galeria de arte na Rua de Monceau...
voltava para casa, atravessando o parque.
S� a conhecia de vista.
Nos cruzamos muitas vezes nos 300 m de bulevar...
que separam o Carrefour do centro.
Trocamos olhares furtivos e...
...paramos por a�. -N�o vai segui-la?
Infelizmente, ela n�o � para mim.
Schmit, meu colega, me incentivava. Mas eu tinha medo.
V� em frente, tente a sorte.
-Como? N�o posso par�-la na rua. -Por que n�o? Nunca se sabe.
Eu gostaria de saber.
Sim, ela n�o era mulher a se deixar abordar no meio da rua.
E chegar dessa maneira n�o era do meu feitio.
Contudo, eu sentia sua disposi��o a meu favor.
Uma exce��o � sua regra, como eu � minha. Mas havia risco.
E eu n�o queria estragar tudo, mostrando o que eu n�o era.
� mesmo?
-H� muito tempo? -Mais do que de costume.
Ou�a, eu quero segui-la.
� melhor falar com ela, ou nunca ficar� curado.
Falar com ela?
Eu percebia a que ponto a queria.
Est�vamos em maio, e o final do ano letivo se aproximava.
N�o havia d�vida de que ela morava no bairro.
N�s a vimos uma ou duas vezes...
com uma sacola, fazendo compras.
Voc� viu? N�o fale t�o alto!
-Eu n�o disse nada. -� capaz que nem more por aqui.
Espere aqui.
-Tome cuidado. -S� vou olhar.
Entrou numa loja.
Ela olha para frente, para n�o ficar impressionada conosco.
-Pois eu vou segui-la. -V� em frente.
SORVETES
Ainda que conseguisse segui-la at� em casa sem ser visto...
eu teria ido adiante?
Eu alcan�o voc�.
Estava decidido a tudo, quando a sorte finalmente me sorriu.
L�.
-O qu�? -L�.
L�.
Como?
-Desculpe! -N�o tem de qu�.
-Mesmo? -Nem esbarrou em mim.
Felizmente.
N�o sei o que me deu hoje. Tropecei nesse neg�cio e quase ca� de cara.
-Queria ter visto! -Eu disse ''quase''.
-Como? -Quase, n�o cheguei a cair.
Com esses carros, n�o se ouve nada.
-Vou por ali. -E eu, por ali.
Quero me desculpar. Tomamos um caf� juntos?
Hoje n�o d�, talvez outro dia. N�s nos vemos sempre.
�, eu...
-At� logo, senhor. -At� logo, senhorita.
Nos 3 ou 4 minutos que durou nossa conversa, s� tive um pensamento:
ret�-la a todo custo, dizer qualquer coisa...
sem pensar na impress�o que causaria...
e que n�o seria l� muito boa.
Mas minha vit�ria era indiscut�vel.
Com o nosso encontr�o, pude fazer o convite.
Ela pareceu n�o se ofender. Ao contr�rio, aproveitou a chance.
Sua recusa n�o me preocupou, pois poderia lhe falar...
num pr�ximo encontro, que n�o tardaria. Melhor, imposs�vel.
Mas aconteceu algo que eu n�o esperava.
Minha sorte inesperada foi seguida de um azar extraordin�rio.
Tr�s dias, oito dias se passaram, e n�o a vi mais.
Schmit, para estudar melhor, voltou para a casa da fam�lia.
Embora apaixonado...
a id�ia de fugir �s horas de estudo n�o me veio � cabe�a.
Meus �nicos momentos livres eram as refei��es. Ent�o eu n�o jantava.
Como o jantar durava 30 min e a ida e a vinda 3 min...
minhas chances de cruzar com Sylvie se multiplicavam por 0.
Mas o bulevar n�o parecia ser o melhor posto de observa��o.
Na verdade, ela poderia passar por outra rua e at�...
como eu n�o sabia de onde ela vinha, pegar o metr� ou um �nibus.
Em compensa��o, era imposs�vel que n�o fizesse suas compras.
Por isso, decidi estender as buscas at� a Rua de L�vis.
Mas, devo confessar...
as tocaias nas tardes quentes eram mon�tonas e cansativas.
O mercado tinha variedade, frescor e o irresist�vel apelo alimentar.
Meu est�mago me incomodava. Naquele momento...
ele reclamava precisamente, j� adivinhando as f�rias...
a gulodice que a �poca das cerejas podia lhe oferecer.
Os cheiros variados e a confus�o da rua...
eram, apesar da pretens�o dos luminosos...
melhor distra��o que o vozerio e o cheiro de sopa do lar.
PRA�A DE L�VIS
Entretanto minhas buscas eram em v�o.
Milhares de pessoas moravam no bairro.
Talvez fosse um dos bairros mais povoados de Paris.
Deveria permanecer num lugar? Deveria andar a esmo?
Eu era jovem e tinha a esperan�a ilus�ria, talvez...
de ver Sylvie em sua janela...
ou saindo de repente de uma loja e acabando, como naquele dia...
cara a cara comigo.
Ent�o resolvi caminhar e passear.
Foi assim que descobri, na esquina da Rua Lebouteux...
uma padaria onde passei a comprar amanteigados, croissants e p�es...
que constitu�am a parte mais substancial das minhas refei��es.
Vamos, Jacky, v� embora. Entendeu?
Me deixe trabalhar.
-Sujeito chato! -Eu nunca lhe fiz nada.
-Se quer conversar, troque de roupa. -Volto mais tarde.
Sujeito bobo!
-Pois n�o? -Um amanteigado.
Ele me irrita!
-Qual? -Aquele.
-� para levar? -Sim.
40 francos.
Obrigada.
-At� logo, senhoras. -At� logo, senhor.
O amanteigado n�o era nem melhor nem pior que de outras padarias.
Era industrializado e se achava em qualquer lugar.
Mas na rua deserta eu podia comer � vontade sem ser visto por Sylvie...
que, na confus�o do mercado, podia aparecer de repente.
Al�m disso, a compra do doce criou uma esp�cie de ritual...
entre mim e a padeira.
Na minha idade, nada era melhor que fazer compras.
Ainda gosto de entrar nas lojas...
com o tom e a atitude de quem entra ali pela primeira vez.
At� logo, senhora.
Al�m disso, me agrada que percebam minhas manias e entrem no jogo.
Bom dia, senhorita. Um amanteigado.
40 francos?
Obrigado.
At� logo, senhorita.
At� logo, senhor.
E nada de Sylvie.
Estaria fugindo de mim? Por qu�?
Estaria no campo, doente, morta, casada?
Todas as hip�teses eram v�lidas.
No fim da semana, a tocaia se tornara uma formalidade.
Tinha pressa de voltar � padaria...
aprimorando a cada dia a chegada, o vagar, a bizarrice.
Senhor?
Dois amanteigados?
Sim.
-Droga! -N�o faz mal. Embrulhe separado.
Aqui est�.
Espere, acho que tenho trocado.
At� logo, senhorita.
At� logo, senhor.
N�o demorei a perceber que a padeira simpatizava comigo.
Mas, por vaidade talvez...
o fato de eu agradar a uma mo�a era natural.
Mas, como ela n�o entrava nas minhas prefer�ncias...
e s� Sylvie, mil vezes superior a ela, ocupava meu pensamento...
sim, porque foi exatamente por pensar em Sylvie...
que aceitei os avan�os, como era o caso, da padeira...
com melhor humor do que se eu n�o amasse outra.
-Bom dia, senhoras. -Bom dia, senhor.
Pois n�o?
N�o... Sim, um amanteigado.
E um p�o de leite.
E tamb�m um daqueles.
Sim.
Espere! O que �?
Folhado de laranja.
-Mais alguma coisa? -� s�.
Separados?
Sim, menos o amanteigado.
Me d� tamb�m uma torta de damasco.
Est� certo.
Eu me envolvia cada vez mais, achando que n�o iria muito longe.
E, depois, era uma boa maneira n�o s� de passar o tempo...
mas de me vingar de Sylvie e de sua aus�ncia.
No entanto essa vingan�a me parecia indigna de mim...
e foi contra a padeira que dirigi minha irrita��o.
O que me chocava n�o era que ela pudesse gostar de mim...
mas que pensasse que eu poderia gostar dela.
Como para me justificar, dizia a mim mesmo que era culpa dela...
e que tinha de ser punida por sua pretens�o.
A paquera avan�ava dia a dia, num clima de descontra��o.
De modo que os obst�culos que encontrei n�o me desanimaram.
Delicioso. Se eu pudesse, s� comeria doces.
Eu tamb�m.
Pois eu lhe ofere�o um.
-N�o, obrigada. -Sim!
-Sua patroa n�o est�? -Est� fazendo a janta.
Do que tem medo, ent�o?
Pensei que, de tanto ver doces, a gente acabasse enjoando.
Faz s� um m�s que trabalho aqui. N�o vou ficar muito tempo.
Em setembro, eu come�o nas Galerias Lafayette.
Fica aqui o dia todo?
At� as oito.
O que faz � noite?
Quer sair comigo?
Acabei de fazer 18 anos.
E da�? Seus pais n�o deixam voc� sair?
Bom, foi uma torta de damasco, um bab� e tamb�m um folhado.
Meus exames estavam acabando, eu ia sair de f�rias.
-Bom dia. -Bom dia.
-Quer ajuda? -N�o precisa.
-Incomodo? Tem medo que nos vejam? -N�o.
De todo modo, vou embora daqui a um m�s.
-Incomoda-se se eu a acompanhar? -N�o.
Venha, vamos por aqui. Quero lhe falar.
-Estou agindo mal com voc�? -N�o, j� disse. N�o � isso.
-Vamos sair juntos amanh�. -Me deixe em paz.
-Por qu�? -N�o sei, n�o conhe�o voc�.
-Mas pode conhecer. Pare�o malvado? -N�o.
N�o somos obrigados a nada. lremos ao cinema, na Champs �lys�es.
-N�o gosta de cinema? -Sim, muito.
-Vamos no s�bado. -Vou com meus amigos.
-Rapazes? -Rapazes, mo�as. Vou adorar.
-Mais uma raz�o! S�bado, ent�o? -N�o d�.
-Outro dia. Seus pais n�o deixam? -N�o, espero que n�o.
Amanh�, ent�o. Jantamos antes e vamos � Champs �lys�es.
Espero voc� �s 20h no caf� do Carrefour, Le D�me. Sabe onde �?
-Preciso me trocar? -N�o, fica �tima assim. Combinado?
N�o sei se minha m�e vai deixar.
-Mas voc� disse que... -Sim, em princ�pio.
-Diga que vai sair com uma amiga. -N�o sei.
-Escute. Voc� � romanesca? -Como?
Romanesca.
Passarei �s 19:30. Se n�o pudermos conversar, faremos o seguinte:
eu pe�o um doce. Se voc� me der dois, est� de p�.
Nesse caso, nos encontramos no caf� �s 20h. Entendeu?
-Sim. -N�o v� se enganar! Repita.
Se eu lhe der dois doces, est� de p�.
Bom, vou embora. Eu saio primeiro.
-Como voc� se chama? -Jacqueline.
At� logo, Jacqueline.
Pronto, eu tinha o que queria.
Mas a coisa assumia uma gravidade com a qual eu n�o contava.
Faltava � mo�a a desenvoltura que me punha � vontade...
e aliviava minha consci�ncia.
Onde fui me meter?
Mas eu ia viajar e me admiraria se acontecesse alguma coisa.
Eu tinha outra preocupa��o: no dia seguinte, fiz meus exames e passei.
Quase n�o fui ao encontro. Mas eu n�o tinha amigos na turma...
e a id�ia de passar a noite sozinho era insuport�vel.
Um amanteigado.
-Ol�. -Puxa! Oi!
Como vai? O que houve? Est� machucada?
N�o � nada. Um entorse que n�o se resolve h� 3 semanas.
Que chato! Fiquei admirado de n�o v�-la.
Eu o vi ontem, mas estava distra�do.
-Ah, �? -Pode acreditar.
Cuidado! Vamos para l�.
Num segundo, tomei minha decis�o.
-J� jantou? -Ainda nem lanchei.
-Esse calor me d� fome. -� um direito seu.
-Quer jantar comigo? -Por que n�o?
Volto num minuto. Eu moro no primeiro andar.
Espero aqui.
Aquele minuto durou 5, e pude pensar na minha imprud�ncia.
Podia ter convidado Sylvie outro dia e sa�do com minha padeira...
mas minha escolha era moral.
Tendo Sylvie, sair com a padeira seria o c�mulo da tara...
da aberra��o.
Uma era minha verdade, a outra era o erro.
Pelo menos era assim que eu pensava.
Para complicar a situa��o, come�ou a chover.
Mas foi o que me salvou.
-N�o pode ir assim. Vamos de t�xi. -N�o vai encontrar. Eu posso andar.
Tem certeza?
A rua estava deserta e a padeira, ao sair, podia nos ver.
De todo modo, pensava covardemente, estaria longe para fazer esc�ndalo.
N�o ousei olhar para tr�s e o trajeto foi intermin�vel.
Ela nos viu, esperou por mim no caf�? Nunca saberei.
ABERTO DIA E NOITE Quanto � conquista de Sylvie...
era coisa certa.
Soube a raz�o naquela mesma noite.
Tive muitas distra��es. Detesto que batam ponto na minha porta.
Talvez n�o saiba, mas minha janela d� para a rua. Eu vi tudo.
Estremeci um segundo, mas ela continuou.
Voc� � odioso. Quase me fez ficar com remorsos.
Mas eu n�o podia cham�-lo.
E n�o � da minha conta se quer passar mal com seus amanteigados.
-Eles s�o �timos. -Eu sei, j� provei.
-J� conhe�o todos os seus v�cios. -O que vai querer?
A torta do chefe.
N�s nos casamos 6 meses depois e fomos morar na Rua Lebouteux.
MKO
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