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[trilha sonora futurista de suspense]
[música triunfante no anúncio ao fundo]
[funga]
[motor elétrico do ônibus assovia suavemente]
[trilha sonora de suspense continua]
[ruídos computacionais suaves ao fundo]
- [alarme dispara] - [trilha de suspense cessa]
[em tom assertivo] É o titânio da articulação.
[alarme para]
[ruídos computacionais tecnológicos]
- [bipe futurista] - [motor chia suavemente]
- Desculpa o transtorno. - [homem] Imagina.
Eu tô sempre arrumando problema.
[trilha sonora eletrizante]
[funcionário] O senhor vai abrir as caixas 572, 1058 e 1300.
- Correto? - [homem] Uhum.
[trilha sonora apreensiva suave]
[bipes sequenciais suaves, ruídos computacionais pulsantes]
[trilha cessa]
[estrondos metálicos densos]
[trilha sonora futurista serena]
[grunhe]
[ofega suavemente e grunhe]
[expira]
[grunhe suavemente]
[estrondo metálico]
[baque]
[ofega nervosamente]
[trilha serena recede]
[trilha fica apreensiva]
- [claques metálicos] - [ruídos de motorização]
[trilha apreensiva aumenta]
- [claque] - [ruídos eletrônicos intensos]
- [zumbido magnético forte] - [claque]
[trilha se intensifica]
- [trilha recede e para] - [ruídos de ferramenta elétrica]
- [ofega nervoso] - [estalos metálicos]
[trilha sonora ameaçadora]
[funcionário balbucia e geme]
- [grita] - [estrondo alto]
[alarme dispara]
[trilha sonora ameaçadora continua]
[ruídos elétricos e estalos metálicos]
[alarme continua ao fundo]
- [segurança 1] Vamos pra dentro! - [segurança 2] Vai lá. Mais rápido!
[segurança 1] Aqui! Por aqui.
[ambos grunhem]
[segurança 1 geme de dor]
[tiros ricocheteando em metal]
[ambos grunhindo]
[grunhidos de esforço]
- [ossos estalando] - [segurança 2 geme]
[geme]
[segurança 2 grunhe]
[geme]
- [grita] - [estalar de ossos]
[homem geme e ofega]
[alarme continua ao fundo]
[policial 1] Parado!
- [policial 2] No chão! - [policial 3] Não tem saída!
[policial 1] Você tá cercado!
- Anda! - [policial 2] Parado aí!
[homem ofega e tosse]
- [policial 1] Vamos! Anda, vai! - [policial 2] Vai, vai!
- [policial 1] Anda, porra! - [homem ofegando e tossindo]
- [grita] Que é isso? - [policial 1] Perdeu, vagabundo! Vamos!
Larga a moça, ajoelha devagar.
Vai, levanta as mãos pra cima. Vamos!
[policial 2] Vai, larga a moça. Não tem saída, não. Bora!
[policial 1] Ô! Ei! Perdeu, vagabundo! Vamos!
Abre a porta, irmão. Não tem pra onde ir, não, mermão. Bora!
- [estrondo] - [mulher berra]
[policial 1] Vai atrás dele!
[policial 2] Cadê ele?
[policial 1] Porra, caralho!
[alarme continua ao fundo]
[mulher ofegando e gemendo]
[estrondo]
- [ruídos elétricos oscilantes] - [homem ofegando]
- [homem tosse e ofega ao longe] - [trilha sonora melancólica]
[sirenes ecoando distantes]
[homem respirando com dificuldade]
- Vamos sair daqui. Vem! - [metal arranha o asfalto]
[homem geme e ofega]
[voz exausta] Já era pra mim parar.
Não fala besteira, porra. Levanta!
Levanta!
[homem tossindo]
Olha pra mim.
A gente vai terminar isso junto. Tá ouvindo? Vamos terminar junto!
[ofega]
[voz exausta] Toma. Toma, pega.
[sirenes se aproximando]
- Você vai ter que terminar isso sozinho. - Não.
Levanta.
- [homem 2 grunhe] - [homem 1 geme e ofega]
- Vou pegar a moto. - [sirenes se aproximando]
[trilha sonora melancólica continua]
[sirenes ecoando próximas]
[homem 1] Irmão!
Não vou te deixar aqui.
[ofegando]
Eu sei.
- [ossos estalam] - [eletricidade desenergizando]
[som ambiente abafado]
[vocalização melancólica se avoluma]
[homem 2 ofega]
[moto dá partida, ronca]
[pneus cantam]
[trilha atinge o clímax e termina]
[mulher] O ano é 2035.
E o mundo mudou.
[engrenagens rangem suavemente]
Mas isso não importa.
Porque, desde que o mundo é mundo, sempre existiram três tipos de pessoas.
Os que lutam por si, os que lutam pelos outros
e os que lutam até o fim.
[ária "Nessun Dorma" toca]
Meu nome é Maria
e eu nasci predestinada pra ser uma campeã.
Como a minha mãe.
[público vibrando ao fundo]
[locutor de TV] Que salto incrível! Helena Santos do Brasil!
- Eu dei minha vida por esse sonho. - [grita]
- Isso! - [Maria] Eu treinei pra caralho.
Vai! Não desiste!
[ofegando]
[Helena] Boa! Que bom…
[Maria] A minha mãe me preparou pra assumir o lugar dela.
[Maria criança geme]
[trem range ao fundo]
[Maria] E eu estava pronta.
Eu seria uma grande campeã.
- [público vibrando] - [Maria] Como ela.
[locutor de evento] E a filha da grande recordista Helena Santos
é a próxima competidora
na prova de salto em distância.
Ela segue os passos de sua mãe, tentando quebrar mais um recorde mundial.
♪ Vincerò! ♪
[flashes de câmera estalando]
[prótese emite chiados sofisticados]
[atleta grunhe]
[prótese emite zumbido agudo de energização]
["Nessun Dorma" se encerrando]
- [silêncio brusco] - [Maria] Peraí, só um pouquinho.
Só tem dois detalhes.
Eu não sei se você percebeu, mas essa aí não sou eu.
Essa é a minha irmã, Gabi.
E isso na perna direita dela é uma prótese biônica.
[ruído de energização da prótese]
[Gabi grunhe]
[público vibra]
[locutor] Com esse supersalto,
Gabi Santos é a nova recordista mundial!
[Gabi berra]
[Maria] É, esse era pra ser o meu lugar.
Meu destino era ser uma mulher superpoderosa,
como a minha mãe.
Aí, justamente quando a minha carreira estava decolando,
a revolução biônica aconteceu.
E mudou tudo.
[locutor] Gabi Santos,
a primeira paratleta brasileira
a se tornar biônica.
Ganha medalha de ouro no primeiro Pan Biônico.
Que maravilha!
É! Essa vitória é pra vocês!
- É pra vocês, galera! - [público vibrando]
[Maria] Acontece que eu sou do tipo que luta até o fim.
Afinal de contas, eu era uma predestinada.
E o destino tinha acabado de me dar uma segunda chance.
Átila Hirsh, 36 anos, conhecido como Miúdo.
Ex-boxeador ranqueado… [riso surpreso]
O cara era uma verdadeira promessa do esporte.
Sei. Os biônicos apareceram e a carreira dele evaporou.
O que a gente sabe até agora é que esse Miúdo
amputou o próprio braço num acidente forjado
pra ganhar uma prótese biônica.
Mas a armação foi descoberta e cancelaram a autorização da prótese.
[efeito sonoro impactante]
[detetive Guerra] Prótese pirata. E como controla isso?
Precisa do implante, não?
Sim, o NIM.
É praticamente impossível colocar as mãos num chip desses.
Pois é. Há mais ou menos um mês,
o corpo de um paratleta biônico morto por overdose
foi roubado de um necrotério lá em Buenos Aires.
Eles acharam o corpo uns dias depois com um buraco na cabeça e sem o NIM.
Aposto que esse NIM veio parar na cabeça desse aqui.
[trilha sonora instigante]
Tira uma foto dessa tatuagem. Dá uma fuçada, vê o que você descobre.
Vamos lá.
[ruídos computacionais tecnológicos]
- [treinador] Vai! - [socos em saco de pancada]
- [treinador] Isso! Vai, vai, vai! - [vozerio]
[homem] Treinei teu irmão desde moleque.
Cria minha.
Filho meu, porra.
[treinador] Jab, cruzado, jab! Isso!
Sei nem o que falar, irmão.
[moicano] Não precisa falar nada.
Ninguém precisa falar nada.
[vozerio continua ao fundo]
[assovia chamando]
- [lente clica encaixando] - [moicano] Quem é?
Quem é esse aí?
[Decano] O garoto que apareceu no ginásio outro dia.
- Tá doido pra ajudar. - [bipes tecnológicos]
Entende tudo de tecnologia, parceiro.
Como é que é teu nome, moleque?
Tio Hard.
Quê?
Tio Hard.
Tio Hard.
[trilha sonora sombria suave]
E por que que você quer entrar pro movimento?
Eu sou o cara que você precisa, mano.
[trilha se intensifica levemente]
[baque alto ressoa]
[moicano] Acabei de perder meu irmão, caralho.
[sussurro incisivo] Por que você tá aqui?
Tô cansado de ser espectador, mano.
Eu quero ir pro jogo.
Eu quero fazer a diferença.
- [moicano] Vocês ouviram? - [lutador] Opa…
[moicano] Ele quer fazer a diferença.
É por isso que o movimento não pode parar.
E não vai parar.
Faz o que você tem que fazer aí.
[ruídos computacionais tecnológicos]
E aí?
- Na escala de pureza, esses daqui são S1. - [Decano] Tsc…
[Tio Hard] Esses daqui são…
SV2.
Que porra é essa?
[Decano] A qualidade dos diamantes. Nesse grau de pureza, no máximo…
500 mil a gente vai conseguir.
Mas não é o que a gente precisa? Não é o suficiente?
Os hackers pediram um milhão. O preço não é negociável, porra.
Então a gente faz o que eu tinha falado. Armamento pesado e metemos a gigante.
A gente precisa de um biônico.
[Decano] Pronto… Vai tirar essa porra de onde?
Me explique.
[arrasta cadeira]
A gente vai construir um biônico.
Igual a gente fez com o meu irmão.
Só que, dessa vez, a gente vai fazer diferente.
A gente tem que achar a pessoa certa.
Eu conheço uma pessoa.
[trilha sonora se intensifica]
[Maria respirando aceleradamente]
[trilha sonora tensa continua]
[respira aceleradamente]
[voz ecoando] Qual foi, branquelo?
Tu mesmo.
Você é desses tarados, é?
Tem tesão em ver atleta usando roupinha coladinha no corpo?
Tô te zoando, parça. Pode olhar à vontade, tá?
E ó…
se é amigo do meu irmão, é meu amigo também.
Irmão?
[Maria em locução] Agora é um bom momento
pra falar um pouco mais sobre a família Santos.
[trilha sonora melancólica]
[Maria] Eu e a Gabi vivíamos competindo.
A amputação na infância por conta de um tumor
não tirou dela a gana de saltar mais longe do que eu.
- Muito pelo contrário. - [Helena] Bora, bora!
O Gus, meu irmão, ele cresceu no meio disso.
De um lado, o pai tocando os treinos da Gabi.
[risos descontraídos]
[Maria] Do outro, a minha mãe cuidando de forma implacável
da minha promissora carreira.
Só que, mais cedo do que a gente imaginava,
ela se foi.
A morte prematura da minha mãe foi um choque.
A família Santos nunca mais foi a mesma depois disso.
[trilha melancólica se intensifica]
Mas, apesar de tudo,
a minha ligação com o Gus cresceu cada vez mais com o passar do tempo.
[trilha recede e cessa]
E aí? Tudo bem?
Tudo bem, e você?
- Tudo, né? - [Gus geme brincando]
Maria, esse é o Heitor. Heitor, Maria. Ele é muito seu fã, viu?
- É? - É.
Você quer o quê? Uma selfie?
"Selfie" entrega a idade.
- [bufa] - [Gus ri]
Pô, cara, foi mal. Esqueci de te falar que a minha irmã é meio vintage, sabe?
[Maria suspira]
Por que você treina aqui?
[sirenes de polícia ao longe]
Eu gosto daqui.
Eu me sinto em casa.
Sei lá, é meio simbólico pra mim, sabe?
Eu acho que tem tudo a ver com o estado atual dos atletas comuns.
Abandonados.
[trem e outros ruídos urbanos ao fundo]
Desde quando você passou a ter amigos legais, hein, Gus?
- "Gus", não. "Tio Hard." - Quê?
Tio Hard, meu nome no grupo.
Deixa eu te falar. O Heitor tem um projeto muito foda.
É um grupo que ajuda atletas passando por dificuldades.
Gente que precisa de verdade, sabe? Tipo, uma galera que ficou pra trás mesmo.
- Tem umas outras paradas aí também… - Que paradas?
[risinho sarcástico] Quanta novidade, hein, Tio Hard?
[Gus ri]
Heitor.
Heitor.
A gente se esbarra por aí então, tá?
Maria!
E minha selfie?
[trilha sonora serena]
[homem] Todos sabem que as nossas próteses são protagonistas absolutas do show.
Sem dúvida nenhuma,
um dos produtos mais desejados e cobiçados mundialmente
nos dias de hoje.
Um projeto que nasce reabilitando veteranos de guerra,
evoluiu pra sociedade.
Mas o que ninguém imaginava é que essa tecnologia
acharia um lugar tão especial no mundo dos esportes.
Amém! [ri]
[homem] Em menos de quatro anos, atletas biônicos,
usando versões mais potentes que as próteses destinadas ao público,
dominaram a cena dos esportes competitivos
e se tornaram sensação mundial.
Só que a revolução mal começou.
O próximo update do NIM
vai destravar um novo nível de potência pro nosso hardware.
Quanto?
Trinta por cento.
No mínimo, 30% a mais de força e velocidade.
E já tá sendo homologado, né, Dário?
[Dário] Disponível pros próximos Jogos Biônicos.
Você tá sabendo, né,
que os Jogos vão ser o destaque do marketing da Biona?
E a Gabi vai ser o destaque do destaque.
A sua marca vai estar no topo do novo panteão olímpico.
Eu tô te dando ouro, meu amor… De mão beijada!
Tá, tá… Quanto você quer? Deixa eu ver.
[assistente] Isso foge do orçamento. Vai estourar o budget.
[mulher] Pff…
Bora.
Ô Wanda!
Eu tenho certeza que ela vai trazer o novo recorde.
[suspira, engole em seco]
Tá fechado.
Mas, Ricardo…
[cerrando os dentes] …eu quero a porra do meu recorde.
- [bipe de fechadura] - [porta desliza]
[respira fundo]
[trilha sonora animadora]
[Heitor] Vamos, gente. O dia vai ser longo.
Todo mundo comendo. O treino vai ser pesado.
[Decano] Bora comer, que remédio tá caro!
É isso. O treino vai ser pesado hoje, hein, gente?
[atleta] Obrigada, viu?
[Heitor] Cuidado que tá quente, tá? E aí, meu amigo?
Quem não pegou suco, é aqui, viu, galera?
- [Carlão] Pode levar. - [Heitor] É isso, aí.
- [Carlão] É ela! - [atleta 2] Obrigado.
- [Carlão] Opa! Parabéns hoje, hein? - [atleta 3] Opa, valeu.
- [Carlão] Aqui. Valeu. - [atleta 4] Obrigada.
Que bom que você veio. Muito bom.
[Carlão] Foco. Mantém assim. Ó, tá faltando ao treino, hein?
[Heitor] Quem tá faltando ao treino? Ó…
- Ah, você veio! Que bom. - [atleta 5 rindo] Sim!
[vozerio]
[Decano] Bora, a última! Foi! A última, bora! [batendo palmas]
[Gus] Vai, vai, vai!
- Em 15, hein? - Vamos de medalha! Bora!
Ele te venera, sabia?
E eu já disse pra ele que é melhor gostar da irmã celebridade.
Mas ele não me escuta, né…
[treinadora ao fundo] Legal! Isso aí!
Eu tinha uma relação muito parecida com meu irmão mais novo.
Fala mais.
- Baby e Miúdo. - [treinador ao fundo] Concentra!
[ri]
Você era o Baby, né?
Era.
[Maria ri]
Foi no auge da carreira dele que essa revolução começou.
Aí vieram as próteses, e tudo ficou mais difícil.
[risinho sarcástico] Difícil… Difícil sempre foi, né?
Agora tá basicamente impossível.
[suspira]
Eu mesma já perdi as contas de quanta merda eu tive que injetar
pra chegar nem perto dessa galera.
Dizem que automutilação é o novo doping.
[efeito sonoro retumbante]
Caralho…
Cortar um braço ou uma perna
pra colocar uma prótese biônica no lugar é…
É uma loucura isso, hein?
E sem contar que é ilegal.
Né?
É.
[vozerio de atletas e treinadores continua ao fundo]
Se bem que, se você fosse biônica, tenho certeza que seria a número um.
Vamos!
Vamos, que o dia tá lindo, hein?
[atletas comemoram, riem, aplaudem]
[ruídos futuristas de holografia]
[trilha sonora instigante]
[motor roncando em alta rotação]
[trilha sonora se intensifica]
[voz robótica] Gabi Santos!
[ruído do holograma se energizando]
[música eletrônica futurista]
[público vibrando]
[voz robótica] E agora, com vocês, a nova estrela exclusiva Biona
e atual recordista mundial de salto em distância,
Gabi Santos!
[público vibra e aplaude]
[homem] Gabi!
[homem 2] Olha ela!
[Gabi exclama]
- [aplausos] - [falas indistintas]
[homem] Bora!
[Gabi] Aí!
Gus, tá gato, bofe!
Tu tá animada, hein?
Tô feliz! Tô feliz que você veio.
[apática] Parabéns…
pelo novo patrocinador.
[música pop tocando ao fundo]
Você não consegue, né? Ficar feliz vendo a amputada da família…
Não fode, vai, Gabi. Eu nunca te tratei como…
Mas não se incomodava em me ver chegando em segundo. Ou melhor…
- Atrás de você. - Isso não é verdade.
- Eu sempre te apoiei. - [música ambiente fica abafada]
- Quando? - [trilha sonora tensa]
Quando, Maria?
Porque, pelo que eu me lembre, era tudo sobre você.
A mamãe só pensava nos treinos da Maria, nos campeonatos da Maria.
Se não fosse o papai, eu tava fodida.
Eu passei a minha vida toda em segundo plano.
Agora sustenta, gata, vamos!
- [tensão cessa, música retorna] - Minhas filhas, o que tá pegando?
Nada.
- É festa, filhas. Vamos curtir! - É festa, é festa!
Agora é minha vez!
Agora é nossa vez, meu amor.
O mundo mudou, Maria. Faz as pazes com isso, mona!
O que que é isso, pai? Eu quero, hein? Vamos lá, galera!
- Tá tudo bem? - [Gabi e amigos celebrando]
[chiado suave de movimento das próteses]
[som ambiente abafado]
- [comemorações abafadas] - [ruídos perturbadores]
[ruídos perturbadores se intensificam]
- [som ambiente se normaliza] - [Maria] Atenção aqui! Boa noite.
Só um minutinho da atenção de vocês.
Vamos abrir aqui a roda, por favor. Dá licença aê.
[música ambiente cessa]
[Maria] Boa noite.
[convidados resmungando]
Você tem razão, Gabi.
O mundo mudou.
Vocês quebraram todos os recordes.
[em tom sarcástico] Viraram invencíveis, né? Heróis.
Desbancaram todos os atletas comuns…
- [vaias] - Sai daí, Maria!
[Maria] Quem é que vai querer ver um atleta saltando sete, oito metros
quando um biônico consegue saltar quase o dobro disso, fácil?
[vaias aumentam]
Eu lembro que vocês…
[mulher] Ninguém quer você aqui!
Vocês eram muito melhores que isso.
Vocês faziam a gente acreditar que o impossível não existia.
Mas hoje…
Hoje vocês são só lucro, né?
Números pros patrocinadores. Nada mais que isso.
[vaias]
- [Maria] Vocês eram verdadeiros heróis. - Ricardo!
- Vocês não inspiram mais ninguém. - [mulher] Sai fora!
- Gabi… - [mulher 2] Que chata! Eu, hein…
Você…
não me inspira mais.
- Ai, meu Deus, Maria… - [trilha sonora eletrizante]
- Que porra foi essa, Maria? - Tá tudo bem, tá, Gabi?
Vou aceitar que as coisas mudaram. Eu vou me adaptar.
- Ela não vai estragar meu momento. - Fica tranquila.
Ó, a festa continua, hein, galerinha?
[convidados vibram]
- Licença, licença. - [Ricardo] Ei!
- O que que houve com a tua irmã? - Eu não sei, pai.
[vozerio continua]
[trilha sonora enérgica de música eletrônica]
[música eletrônica continua]
[Maria] Eu lembro que tinha uma música que a minha mãe sempre colocava
pra tocar nos meus treinos.
Era uma ópera italiana.
["Nessun Dorma" toca]
[Maria] Eu achava meio careta no início.
Mas, com o tempo, essa música virou uma espécie de hino pra mim.
Ela me tranquilizava.
Me fazia voltar pra minha origem.
E, por algum motivo ou destino,
essa música tava presente
justo na noite em tudo mudou.
["Nessun Dorma" continua]
[tenor prolongando vibrato] ♪ Vince… ♪
- [som ambiente abafado] - [freios rangem]
♪ …rò! ♪
[socorrista] …sofreu acidente de moto.
[socorrista 2] Uma van bateu na moto dela.
[socorristas conversam indistintamente]
["Nessun Dorma" termina]
[trilha sonora sombria suave]
[bipes de monitor de sinais vitais]
[inspira fundo]
[trilha sombria se avoluma]
[Gabi] Maria?
[Ricardo] Filha!
Que que aconteceu?
Maria. O que que rolou depois que você saiu da festa?
[gemidos sofridos]
[Gabi sussurra] Calma.
- Calma. - [Maria geme ofegante]
[respiração chorosa]
- A minha perna, pai! - [Ricardo] Tá tudo bem.
[Gabi] Calma!
[Maria grita] Me solta! A minha perna, pai!
- [Ricardo] Tá tudo bem, meu amor! - [Gabi] Calma!
[Maria] Meu Deus, minha perna!
- [Ricardo] Doutora! - [Maria] A minha perna!
- [Ricardo] Enfermeira! - [Maria] A minha perna!
- [gritos desesperados continuam] - [bipes acelerados]
[médica] Calma. Relaxa, relaxa.
[Ricardo sussurra] Tá tudo bem.
[trilha sonora sombria se suaviza]
[trilha cessa]
[Hanna] Em 2025, a caveira foi usada como símbolo pelos atletas não-biônicos.
Eles protestavam, pedindo garantia de direitos.
É exatamente o mesmo símbolo da tatuagem do Miúdo.
Exato.
Agora, se liga nesse figura aqui, ó. [risinho sarcástico]
Heitor Hirsch, conhecido como Baby. Irmão do Miúdo.
Ele era tipo um manager da carreira do irmão.
Daí, juntos, eles criaram um grupo de apoio aos atletas comuns.
E a ficha dele?
Cara, ele até teve algumas passagens,
mas tudo coisa pequena, tipo protesto, desobediência civil,
umas coisas de patropi arruaceiro, saca?
Sei lá… Tem mais alguma coisa aí.
Esse Miúdo pode ter sido protótipo deles.
Ouvi dizer que esse grupo prega que todos os atletas devem ter direito
a amputar seus membros pra se tornarem biônicos.
Vamos intensificar o trabalho da Inteligência em cima desse Heitor.
Tentar cavar mais alguma informação a respeito desse grupo de apoio.
[ruídos computacionais]
[pássaros cantando, ruídos urbanos distantes]
[bipe de notificação]
- [bipe de notificação] - [respira fundo]
[bipe de notificação]
[expira]
[bipe de mensagem enviada]
[bipes sequenciais suaves]
[ecoar distante de sirenes e helicópteros]
[Gabi] Olha só, menina, quem diria!
Duas aleijadinhas na mesma família, hum?
Coincidência, né?
Ou destino.
Ó, destino! Chique… [ri]
Então vamos ver?
Como é que a Sra. Destino se vira sem as muletas. Vamos?
Eu ajudo. Aproveita que eu tô boazinha.
[ri]
- [bipes de ativação da prótese] - [zumbido de inicialização]
Vem cá.
- Vem, vem, vem! - [geme baixinho]
Ó, primeiro vamos ver como é que você tá. Como é que você tá aí, hein?
Vamos lá. Em três, vou soltar a sua mão.
Preparada?
Cadê o sorriso? Vamos lá.
Três, dois, um…
Você consegue, vai.
- [geme] Que saco! - Opa! Peraí, calma.
Calma, mana, é normal. É normal isso, é a primeira vez.
Ó… Encaixa o quadril alto, coloca todo o seu peso na ponta do pé.
- Você consegue. - Tá.
Você consegue! Vamos lá. Quero ver.
Três, dois, um.
Vai, Maria!
[ambas celebram]
Você podia me ensinar a ser melhor nessa parada toda, hein?
Que que você acha?
- [prótese chia sofisticadamente] - Por favor, né, Maria?
Caralho, Gabi.
Eu perdi uma perna!
Aham.
Acho que você não tá pensando no que você perdeu, não.
Mas no que você vai ganhar. Né?
[prótese chiando suavemente]
[trilha sonora promissora]
[ri]
[Maria] Avião.
Cavalo.
Compasso.
Ampulheta.
Barco.
Prédio.
[Dário] Esse é o NIM.
Esse chip é o que realmente possibilitou a revolução biônica.
Ele é capaz de captar todas as nuances e os impulsos do córtex motor
e transmitir pras próteses com precisão absoluta.
Trem.
- [Dário] Maria… - Borboleta.
- Você vai sentir agora… - Tatu.
…uma leve pressão na sua nuca…
- …e um formigamento no seu corpo. - Jacaré.
Avião.
[zumbido agudo]
- [impacto] - [chia de dor]
- [médica] NIM posicionado em… - Compasso.
…L32, H76,1.
[Dário] NIM implantado com sucesso na região do córtex motor.
Excelente.
Maria, deu tudo certo.
Primeiro, eu vou pedir pra você mexer o seu braço direito, por favor.
Isso, mais um pouco.
- [assistente] Compensação iniciada. - [Dário] Gerando parâmetros.
- Sinal NIM wireless ativo. - [ruído computacional suave]
NIM integrado com sucesso.
[trilha promissora continua]
- E é igual à da Gabi? - É, sim.
- [ruído de ferramenta elétrica] - Mas essa foi feita sob medida pra você.
[respiração trêmula]
♪ É nóiz por nóiz ♪
E agora?
["Nóiz" de Emicida tocando]
♪ E se não for assim não funciona ♪
♪ Eu já esquematizei tudo sozin Outra vez ♪
♪ Meu bando de neguin Pra ruir o império do cês ♪
♪ No sapatin, devagar, devagarin ♪
♪ Ó só, num tira, não Aí, Jão, onde é que tá meu din… ♪
Vai, garota!
[Dário ri]
É impressionante a simbiose entre a parte mecânica e orgânica.
É muito natural.
Agora ela vai entender que o jogo virou, e é a perna biológica que atrasa ela.
[Ricardo suspira]
Gabi…
["Nóiz" de Emicida continua]
[prótese emitindo zumbido progressivo]
[chiados de ferramenta elétrica]
- [Dário] Boa! - [Gabi] Olha ela!
Cento e cinquenta quilos!
Bem bacana.
Pra quem começou hoje tá ótimo.
- Gabi! - Ué, gente.
[Dário] Vamos lá, equipe!
Três, dois, um.
[zumbido agudo progressivo]
[baque]
["Nóiz" de Emicida continua]
♪ Deus ajuda quem cedo madruga pro turno ♪
♪ Imagina o que ele vai fazer por mim Quando ganhar que eu nem durmo ♪
♪ Nem percebo se é diurno, noturno ♪
♪ Na campana igual soldado De metranca, coturno ♪
♪ Ligeiro passando o cerol Independente de plateia ♪
♪ Faço o que tem que ser feito Que nem o Sol ♪
♪ Cumpro minha obrigação ♪
♪ A tempestade não se pergunta Se molha os homens ou não ♪
♪ Ela cai… ♪
O carro-forte vai tá subindo aqui a Francisco Matarazzo
e aqui na subida do Elevado é que tá nosso problema.
Não se a gente colocar um bloqueio justamente aqui
que forçar o carro a sair numa rua deserta.
- Eu acho a melhor opção. - [celular vibra]
Bloqueia, vai pra lá. Desvia aqui, ó.
["Nóiz" de Emicida continua]
[Gabi] Aqui ó, tua irmã favorita correndo.
♪ Nóiz E nesse nóiz não existe porém ♪
♪ Nóiz, e se não for nóiz Não vai ser ninguém ♪
["Nóiz" termina]
Acho que a gente vai tentar um salto.
Tá bom, Maria? Vamos tentar um salto.
- Tudo bem, Dário? - [Dário] Vamos lá.
- Maria, e aí? Se sentindo bem? - Tudo certo, vambora.
- Muito bem. - Vamos nessa?
Ó lá, é a música que você pediu.
- Vamos pro salto? - Bora.
["Nessun Dorma" tocando no alto-falante]
[Ricardo] É isso aí, filha.
Seu primeiro salto. É uma novidade.
Tá? Fica tranquila, não força.
Eu sei que você tá ansiosa. O pai também tá.
- Tá. Bora! - Bora.
[bipes suaves]
[prótese emite estalos discretos e zumbido agudo de energização]
[monitor apitando]
[apitos aceleram]
[Dário] Maria!
[apitos muito acelerados]
[buzina soa]
["Nessun Dorma" cessa]
[Maria grita assustada]
Filha!
[Gabi] Cuidado, doidona!
Você quase fritou.
Olha o seu display.
[NIM apitando]
Se ele chegar no zero, você entra em coma.
Eu já te falei isso várias vezes, Maria, mas acho que você não tá levando a sério.
[ofegando]
[gemidos de esforço]
Olha o seu display de novo.
Ele é que vai mostrar a capacidade do seu cérebro
de suportar os impulsos do NIM. [incisivo] OK?
- OK, é que eu me empolguei. - [sarcástico] É.
E é como se essa máquina sempre tivesse feito parte do meu corpo.
Mas é aí que mora o perigo, filha.
A ansiedade afeta diretamente os neurotransmissores,
e isso drena o seu cérebro.
Taí o segredo do seguro emocional.
- Tá bom? - Tá.
E isso vale pra você também, viu, mocinha?
Hum… Tá querendo ensinar o padre a rezar missa?
Mas vem cá… Como eu faço pro número voltar ao normal?
- Recarregando seu cérebro. - Ah, fácil, mas como eu recarrego…
Dorme. Descansa.
Uma boa noite de sono. Tá bom, Maria?
[trilha sonora apreensiva suave]
[Gabi] Hoje você vai ter que apagar, gata. Doze horas de sono no mínimo, tá?
[vozerio de atletas e treinadores ao fundo]
[trilha sonora sensual]
[chiados sofisticados de dispositivo robótico]
[ruído de articulação mecânica bem lubrificada]
[ambos ofegando]
[gemidos abafados]
[trilha sensual cessa]
[trem passa assoviando ao fundo]
[sirenes ecoam ao longe]
[Maria expira]
[suspira]
Chegou a hora.
[Maria] Por que você precisa fazer isso?
Porque eu "preciso" fazer isso?
Eu tô fazendo pelo suor,
pelo sangue,
pela alma de todos os atletas que deram a vida treinando por nada.
[trilha sonora dramática suave]
Eu preciso fazer isso, Maria,
por eles.
Pelo meu irmão.
Por você.
[trilha dramática se intensifica]
Eu só te peço uma coisa.
Eu quero meu irmão fora desse lance.
[bipes sequenciais suaves de escaneamento]
[trilha sonora apreensiva]
O carro acabou de sair pela principal. Tá no elevado.
Subindo a rampa.
Ih… Tá tendo alguma confusão na frente aqui, ó.
Caralho, bloquearam o elevado? Esquisito. Como bloqueiam o elevado?
Vira à direita aqui.
[trilha sonora apreensiva se intensifica]
[Decano] Pelo amor de Deus, volta vivo. Agora bota pra foder, porra.
Vai!
[Carlão hiperventila empolgado]
E aí, pretinha, tá animada? Ei.
Ei, psiu! Olha pra mim.
Não precisa ficar com medo, não, vai?
Titio Carlão tá aqui pra te proteger, vai.
Eita! Gostei.
Opa, gostei da pegada, hein? [ri]
É, depois a gente conversa.
[ruído de articulação mecânica bem lubrificada]
Tá tudo bloqueado. Isso aqui tá meio estranho, hein?
Ô, se liga aí, se liga!
[pneus cantam]
[pneus cantam]
[trilha tensa atinge o clímax e cessa]
- [som ambiente abafado] - [Maria respira fundo em câmera lenta]
[baque]
[rangido metálico e faíscas estalando]
[baques secos]
[som ambiente se normaliza]
[estrondo metálico denso ressoa]
[ruído de articulação mecânica]
[gemendo]
[chiado de articulação mecânica bem lubrificada]
[choraminga]
[trilha sonora ameaçadora]
[guarda balbucia amedrontado]
- [expira] - [guarda 2 balbucia amedrontado]
- [estrondo] - [gemidos amedrontados]
- Porra! - [estrondo]
[motor de moto roncando em alta rotação]
[chiado de articulação mecânica]
[estrondo e estilhaços]
[clique]
- [som ambiente abafado] - [trilha sonora de suspense]
[nota musical lentamente aumentando e ficando mais aguda]
[estrondo]
[guardas tossindo]
[grunhidos de luta]
[guarda geme]
[motoqueiro grunhe]
[guarda 2] Parado aí!
- [zumbido de energização da prótese] - [Maria exclama]
- [estrondo] - [geme]
[guarda ofegando]
[geme, ofega]
- [lâmina dilacerando] - [guarda gemendo]
[baque]
- [guarda engasgando] - [trilha sonora tensa]
[ofegante]
[trilha sonora se intensifica]
Três viaturas entrando pela Avenida do Estado.
Mete pé daí agora. [grita] Sai daí, porra!
Vem, vem! Vem!
Vem! Vem, porra!
- Vem! - Vamos.
Vamos!
Vamos, porra!
[sirenes se aproximando]
[moto dando partida ao fundo]
[moto roncando, se afastando]
Pega essa porra e vambora que tá tudo certo.
Puta que pariu.
Que porra de cara é essa, hein?
Quer fazer merda, mas não quer sujar a mão.
É isso, cocota?
Hein, cocota, é isso?
Parabéns, hein?
Arrebentou. [ri]
[trilha sonora tensa recede]
[Carlão] Porra! [gargalha]
Porra!
Seu filho da puta! Seu merda. Você não devia ter feito aquilo!
Ele viu o teu rosto.
Você falou em ajudar as pessoas, não matar, Heitor!
Toda vitória demanda sacrifício, você sabe muito bem disso.
Mais do que ninguém.
[Decano] Falei que não ia dar certo trazer a namorada pro rolê!
- [Maria] O que você tá fazendo aqui? - [Decano caçoa]
Que merda é essa?
Eu te falei, Heitor, pra deixar meu irmão fora desse lance!
Eu tô aqui porque eu quero!
Teu irmão é o geninho dessa porra toda.
Nem o drone a gente tava conseguindo fazer funcionar, Maria.
- Vamos começar a contar? - [Decano] Vamos.
[Heitor] Separa as de 100, 50, 20.
- E duzentinhos, pai? Ó, uma baladinha. - [Heitor] Então separa as de 200 também.
[Decano fala indistintamente e ri]
Pra que você precisa desse dinheiro?
A gente ficou sabendo que vai chegar um carregamento com dez NIMs
pra Solid Limbs.
Só que a gente não sabe como, onde e nem quando.
Esse dinheiro vai virar criptomoeda, que vai direto pros hackers.
Eles vão localizar o lote dos NIMs.
- Botou pra foder, papai! - [Heitor e Carlão riem]
Dez atletas vão virar biônicos.
Ex-companheiros que tiveram esse direito negado.
Que nem você.
OK.
Muito bonito seu discurso.
Mas quero meu irmão fora disso.
- Vem cá, moleque. Vem cá. - Tá me machucando. Me solta.
- Me solta, porra! - Eu não quero você perto dessa gente.
Eu vi o Heitor matar uma pessoa a sangue frio sem motivo.
E você achou que essa porra ia dar no quê?
Me admira você, irmãzinha.
Tá pensando pequeno agora?
Pois saiba você que isso é só o começo de uma revolução.
Que revolução, Gus?
- Eu tô pensando no seu futuro. - Futuro porra nenhuma!
É sempre a mesma coisa! Eu não posso fazer nada.
Não tem espaço pra mim nessa família. Eu não consigo existir perto de vocês!
[trilha sonora tensa cessa]
- [voz tenra] Do que você tá falando? - [choroso] Não sou nada perto de vocês.
Vai embora. Vaza.
[trilha sonora tensa retorna e cessa]
- [sinfonia de sirenes] - [vozerio indistinto]
[guarda] Não consegui ver o rosto de ninguém. Foi tudo muito rápido.
O carro tombou?
Vocês perderam a direção?
Não. O carro não tombou coisa nenhuma.
A gente foi atingido por um golpe.
- Um golpe? - [guarda] É.
Um deles tinha uma perna estranha lá,
uma coisa meio biônica.
- Perna direita ou esquerda? - [guarda] Direita, esquerda…
Sei lá… Direita.
Fatídico acidente envolvendo uma ex-atleta de alta performance,
irmã da superestrela biônica.
- Não te parece estranho, não? - Hum…
Pode ser uma coincidência mesmo.
Coincidência?
E Heitor Hirsch visitando Maria no treino fechado dentro da Solid Limbs?
Sei lá. Vai ver que a mina tava a fim de dar uns catas, uns beijos no cara.
Mas por quê? Tá achando que ela tá envolvida com a parada do carro-forte?
Não sei. Talvez.
Uma prótese biônica serve pra bater recordes, mas…
também é uma arma.
[Hanna assente]
Vem cá.
Qual é a hora e data do acidente?
Por quê?
[telefone tocando ao fundo]
- [freio range] - [baque e estilhaços]
Ah, não sei, não.
Vendo essa cena toda, não me parece ter sido algo premeditado, entendeu?
Fazer dessa forma? Numa rua monitorada, cheia de câmera…
Justamente pra provocar esse tipo de reflexão.
Puxa aí a ligação do SAMU.
[Hanna resmunga]
[telefonista] Serviço de emergência, boa noite?
[homem] Acabei de presenciar um acidente de moto.
[telefonista] OK.
- [homem] Bem grave. - Qual a localização…
Peraí. Que horas foi a colisão segundo as câmeras?
É…
01h45.
E a ligação?
[Hanna] A ligação… Vamos ver. [murmura indistintamente]
[trilha sonora tensa]
[chiado suave da prótese]
[Maria] É… Eu acho mesmo que nada acontece por acaso.
["Nessun Dorma" toca baixo ao fundo]
[Maria] No fundo, as coisas têm seu plano secreto.
E esse plano pode parecer misterioso.
- [berro abafado] - Ou meio caótico a princípio.
Mas o destino é assim mesmo.
- [freio range] - [estilhaços]
[Maria] A gente só precisa continuar acreditando.
Confiando que, mais cedo ou mais tarde,
tudo vai dar certo.
[Gabi] Bom dia, sis.
Olha que ela acordou aquática hoje! [risinho]
E ontem? Onde é que a senhorita estava?
Virou minha mãe agora, é?
Se eu fosse sua mãe, Maria, as coisas seriam bem diferentes.
É, Gabi, não esquece que ela era a sua mãe também.
[prótese emite ruído defeituoso]
Essa prótese aí. Que que aconteceu?
Foi nada, não. Caí feio pra caralho.
Foi uma das minhas aterrissagens.
- [ruído defeituoso] - Aham… Sei.
Que que foi?
[Ricardo] Tenho uma notícia pra vocês.
Ih, já acordou assim. A notícia é boa ou ruim?
- Hein, Gus? - Sei lá.
A partir de agora, vai ter mudanças nessa família.
[Gabi] Olha! Tô curiosa agora.
Nós teremos duas atletas biônicas nos Jogos!
[ri]
- Ué? Mas a seleção não tava fechada? - [Ricardo] Abriram uma exceção, filha.
E, Maria…
você vai ter o mesmo patrocínio que a Gabi.
A Biona adorou a ideia de ter duas irmãs biônicas nos Jogos.
- Você tá dentro! - Ai, caralho, pai.
Conseguimos, filha! [riso animado]
[Maria] Pai…
Ai, que maravilha!
Faz uma foto nossa aí, Gus.
Ah, não… Sério, pai?
Seríssimo, pô! Bora.
Vem, filha.
- Precisa? - Claro!
Sorri.
[Ricardo ri]
[aparelho vibra]
[sons táteis de desbloqueio de tela]
[homem] O time Biona Solid Limbs tem o orgulho de anunciar Maria Santos
como a sua nova atleta.
E a sua estreia será imediata…
Maria Santos…
…nos Jogos Biônicos desse ano.
Jogos Biônicos.
[trilha sonora apreensiva suave]
Você tá achando mesmo que você vai me ganhar, né, garota?
[riso suave]
Olha, não sei.
Mas, se eu ganhar, dessa vez não tem mais desculpa.
Afinal de contas, a gente tá competindo de igual pra igual, né?
[articulações mecânicas chiando]
Parabéns, você tá mostrando quem você é. Eu gosto.
Eu devia ter filmado aquele seu discurso lá na festa, sabia?
Você se tornou o que mais odiava, Maria. [risinho sarcástico]
Você me incentivou, Gabi.
- O que você quer dizer com isso? - Ah, não enche.
Garota chata. Sai do meu pé, porra!
[Ricardo] Ei, meninas, ei!
Pelo amor de Deus, meus amores.
Falta uma semana pros Jogos.
Vocês são uma equipe!
Ô pai…
Eu não sei se você sabe, mas esse não é um esporte coletivo.
[tom de reprovação] Maria!
[sons delicados de disparos laser]
[vozerio de atletas e treinadores ao fundo]
Adidas, Nike, Fila… Qual que é dessa vez?
Polícia.
E você? Não quis seguir o legado da família?
Não é minha praia, não.
Eu nem gosto de esporte.
E, além do mais, tem muito galo nesse galinheiro.
[próteses chiando e zunindo suavemente]
Vai fritar, Maria?
[Gabi grunhe]
[trilha sonora tensa]
[zumbidos de energização]
Licença, licença.
[zumbidos de energização aumentam]
[Gabi grunhe]
[Gabi comemora exaltada]
[próteses emitem chiado de arrefecimento]
- [Maria] Só ganhou porque eu deixei. - Tu me respeita, garota!
Tu não consegue aceitar que eu que ganho nessa família, garota!
- Não fica empurrando, não! - Me solta!
- Você me respeita! - [Maria caçoa]
- [Gus] Parou, parou, parou! - [bate-boca indistinto]
[Maria] Me solta, cara!
[silêncio abrupto]
[Guerra respira fundo]
- [expira com esforço] - Foi mal aí, mano.
Polícia, Maria.
Polícia?
Detetive Guerra.
Eu queria falar com você a respeito do seu acidente.
Falar o quê?
Você encontrou o filho da puta que me atropelou?
- Na verdade, não. - Então a gente não tem nada pra falar.
Tudo que eu tinha que falar, já falei naquela noite.
- Tá nervosa assim por quê? - [Maria] Me larga, hein?
[freio rangendo e baque no vídeo]
Chega. Eu não quero mais ver isso.
Eu posso ver de novo?
Claro.
Quer dizer que não encontraram o motorista que fez isso com minha filha?
A van desapareceu, e o veículo está no nome de uma pessoa falecida.
Ela foi atropelada por um fantasma, é isso?
Ou alguém querendo se passar por um, né?
[Guerra] Eu queria mostrar mais uma coisa pra vocês.
É da central de emergências.
[Hanna] Uhum.
[telefonista] Serviço de emergência, boa noite?
[homem] Acabei de presenciar um acidente de moto bem grave.
[telefonista] Localização, por favor?
[homem] Na Vemag com a Presidente Wilson.
[telefonista] OK, senhor. O resgate já foi acionado.
[homem] O mais rápido possível, por favor. Obrigado.
[Ricardo] Continuo não entendendo nada.
O horário da chamada é anterior ao horário registrado pelas câmeras.
Como assim? A ligação foi antes do acidente?
Estranho, né?
Peraí. Vocês estão querendo insinuar que a minha filha forjou esse acidente?
Tem muita gente querendo ganhar superpoderes hoje em dia, sabia?
- Vocês estão de brincadeira comigo, né? - Calma, pai.
- Eles só estão querendo investigar. - [Guerra] Só mais uma pergunta.
- Podem me falar de Heitor Hirsch? - [exaltado] Que que isso tem a ver?
[Hanna] Ele é perigoso. A Maria pode estar sendo usada.
- Eles se conhecem faz tempo? - [Ricardo] Chega de pergunta!
Se quiserem falar comigo ou com os meus filhos,
a partir de agora é através do meu advogado.
[Guerra] Tá bom.
Eu fiz uma cópia de tudo isso e enviei o link pro seu e-mail.
- Prova da boa vontade de nossa parte. - Eu agradeço.
[trilha sonora levemente tensa]
[Gabi] Que que é isso, pai?
Por que tá agindo desse jeito pra defender ela?
Não pesa, hein, Gabriela? Não pesa!
Ei, ei, ei!
Você, Gus, que porra é essa? O que você tem com esse Heitor?
Qual que é o seu problema?
A Maria podia ter morrido.
Mas não morreu.
Muito pelo contrário, ela tá mais viva do que nunca.
- Você sabe disso, só se faz de bobo. - Vocês são assim mesmo, né?
Não conseguem ser… Sei lá.
- Sei lá o que, mano? - Irmãs.
Simplesmente irmãs! E você tinha que estar do lado dela!
[Dário] Jab, direto.
Mais um. Só um minuto.
- Tá lagando um pouco, não tá? - Tá estranho.
[Dário] Vou fazer uns ajustes aqui pra gente sentir
e quero que você me fale, tá?
[chiados suaves de articulação mecânica bem lubrificada]
[Dário] Não para.
Já falo com você. Só um minuto.
E aí, Maria?
Tudo bem?
Não.
Não, não tá.
[Dário] É…
Bom, se ajudar,
eu só quero que você saiba que eu tô aqui.
Pro que você precisar, a hora que você precisar. Tá?
Olha, Dário, você parece ser um cara legal.
Mas já deu de cara legal na minha vida.
- Bom treino. - [Maria suspira]
[trilha sonora sombria]
Não foi treinar, não?
É, não tô me sentindo muito bem.
[porta abre e fecha]
Caralho, mano, tô te ligando há mó cota. Cadê você?
Escuta. Tem um detetive na cola da minha irmã.
Ele já ligou os pontos entre você, ela e o grupo.
A gente tá fodido, mano. E agora?
Beleza. Eu te encontro lá.
[bipe]
[moto dá partida]
[celular vibrando]
[Ricardo] Oi. Tudo bem, filha?
Sei lá. Ainda tô meio abalada com tudo que aconteceu ontem, sabe?
[Ricardo] Tá bom.
Descansa e vem com tudo amanhã.
[Gabi] Obrigada, pai.
Te amo.
[trilha sombria continua]
[Ricardo] Maria.
Ei!
[chorosa] Que que foi?
Não, nada. É que…
a sua irmã não vai vir hoje.
Somos só eu e você.
Então bora trabalhar, né?
Bora trabalhar.
[trilha sombria cessa]
[buzinas ao longe]
[telefonista] Serviço de emergência, boa noite?
[homem] Acabei de presenciar um acidente de moto bem grave.
- [telefonista] Localização, por favor? - Na Vemag com a Presidente Wilson.
- [diálogo continua] - [música distorcida vazando na gravação]
[gravação termina]
[Gabi ofegando]
[telefonista] Serviço de emergência, boa noite?
[homem] Acabei de presenciar um acidente de moto.
- [diálogo continua] - ["Nessun Dorma" tocando na gravação]
[telefonista] OK, senhor. O resgate já foi acionado.
["Nessun Dorma" distorcida tocando]
[telefonista] Serviço de emergência, boa noite?
[homem] Acabei de presenciar um acidente de moto bem grave.
[telefonista] Localização, por favor?
- [diálogo continua] - ["Nessun Dorma" tocando não distorcida]
♪ Vincerò… ♪
[telefonista] Serviço de emergência, boa noite…
[gravação se repetindo em sobreposição]
["Nessun Dorma" atinge ponto apoteótico]
[prótese emite zumbido agudo progressivo]
[som de locomotiva a vapor acelerando]
[atleta grunhe]
[prótese em arrefecimento]
[locutor] E essa foi a 2ª tentativa do atleta americano.
[comentarista] E é incrível ver homens e mulheres ali de igual pra igual, né?
[locutor] Mais uma revolução proporcionada…
- [Dário] OK? - …pelas próteses biônicas.
Vamos lá, Gabi. Ajuste de patela, hein?
[assistente] Quadríceps em nível máximo de potência.
OK. É com você.
- [Ricardo] E aí, Dário? - Tá com ela agora.
[locutor] E agora, minha atleta favorita: Gabi Santos.
[público vibra]
Vamos, Gabs. Vamos, Gabs. Força! Força e potência!
[trilha sonora apreensiva suave]
Bom, meu amor, é isso, tá?
Se preocupa com a perna de apoio. Cuidado, sem excessos.
- Tá dominado, pai. - Beleza.
Aqui é a Gabi, porra! [berra]
Boa. Bate aí.
- [mulher] Uhul! - [Gabi gritando]
[Gabi exclama]
[público vibrando]
[berra]
[torcedora] Gabi!
[trilha apreensiva se intensifica]
[locutor] Ela vai para o seu 1º salto nos Jogos Biônicos
depois de seu recorde histórico.
[comentarista] Ninguém menos que a nossa Gabi Santos.
Vai com tudo, Gabi!
[trilha sonora tensa]
[som de locomotiva acelerando]
[som ambiente abafado]
[suspiros audíveis de espanto]
- [ruído de neon se distorcendo] - [grunhe]
- [som se normaliza] - [público vibra]
[locutor] Incrível, minha gente! Que salto!
Gabi Santos supera seu recorde
e firma definitivamente seu nome
como a maior atleta do esporte biônico.
[Gabi] Cês querem dancinha?
[comentarista] É impressionante como essa nova geração de próteses
vem trazendo mesmo um patamar novo de desempenho.
[locutor] E a seguinte competidora é Maria Santos, do Brasil.
- Irmã mais velha de Gabi Santos. - Vamos lá, Maria. Nível máximo.
- Boa sorte. - [vozerio ao fundo]
- [Dário] Maria na pista, hein? - [Ricardo] Vamos lá.
Filhona…
Pela tua mãe.
Família Santos.
- [trilha sonora apreensiva] - [expira]
[inspira fundo]
- [Gabi] Pega a mais braba! - [Dácio] Parabéns, Gabs.
- [Ricardo] Boa, Gabi! - Que vença a melhor, sister.
Que vença a melhor, "sister".
[trilha apreensiva continua]
Parabéns, filha.
[comentarista] Sabia que a Maria já foi uma promessa do salto em distância?
Na verdade, ela foi a maior pupila da mãe,
a saudosa Helena Santos.
[locutor] Mas agora ela tem um baita desafio pela frente.
Lembrando que essa é sua estreia nas competições biônicas.
[comentarista] É, e a pressão é grande! Lá vai ela, vamos ver!
- [efeito sonoro impactante] - [expira]
[som de locomotiva acelerando]
[prótese emite zumbido agudo progressivo]
[urro abafado]
[grunhido gutural de esforço]
[suspiros audíveis de espanto]
- [ruído de neon se distorcendo] - [prótese em arrefecimento]
[público vibra]
[Dário exclama]
[riso confiante] Eu sabia, porra!
[trilha sonora triunfante]
[locutor] Mas o que é isso, minha gente? 17,67!
Inacreditável!
Maria Santos supera o recorde da irmã
e é a nova recordista mundial do salto em distância.
É isso mesmo, gente?
[comentarista] É isso! Parece mentira, mas é isso mesmo.
Dois recordes quebrados na mesma competição.
Que noite histórica!
[Ricardo exclama] Ah, caramba!
[gargalha]
[vozerio da equipe]
[Ricardo] Wanda! Te falei, porra.
- É recorde! - Você é o cara, meu amigo!
[trilha triunfante continua]
[homem] Parabéns. Estamos indo bem!
[locutor] Olha aí.
- Temos um problema com o americano, hein? - [NIM apitando]
[comentarista] Ele já vinha mostrando dificuldades
em manter o NIM dentro de uma zona segura.
Acho que é isso.
[locutor] E tá fora! Martinez tá fora.
Segurança do atleta em primeiro lugar.
[comentarista] Mas isso significa que nós teremos uma final em família.
[locutor] Mas não deixa de ser um duelo.
E que duelo, senhoras e senhores.
Dá pra sentir a eletricidade no ar!
E Gabi Santos vai para o seu 2º salto.
[comentarista] Lembrando que, no total, cada atleta tem até três tentativas
pra fazer sua melhor marca.
[locutor] E lá vai ela, minha gente! Gabi Santos!
- [som de locomotiva acelerando] - [Gabi grunhe]
[trilha sonora dramática épica]
- [geme] - [público vibra]
[locutor] Que loucura, senhoras e senhores.
Que loucura!
[comentarista] Inacreditável!
Mais um recorde.
[trilha dramática épica continua]
[prótese emitindo zumbido de energização]
[comentarista] E agora é Maria Santos que já corre em direção ao 2º salto.
- [Maria hiperventilando] - [som de locomotiva]
[plataforma apita]
[urro abafado crescente]
[trilha dramática épica continua]
[zumbido agudo progressivo]
- [ruído de neon se distorcendo] - [grunhe]
[público explode]
- [comemora] - [locutor] Sensacional!
Maria Santos se coloca à frente mais uma vez!
18 metros e 25 centímetros.
Isso é um absurdo!
[celular apita]
[locutor] O que tá acontecendo aqui hoje é pra entrar pra história.
E aí?
- Os hackers entregaram o pacote, mano. - [trilha ameaçadora]
- É isso, porra. - Tá tudo aqui!
Data, hora, local…
Nós conseguimos, porra!
Ainda não, moleque. Mas vamos conseguir.
[comentarista] As duas competidoras estão dando um show, gente.
Agora a pressão tá toda na Gabi Santos,
que precisa bater a marca da irmã mais uma vez.
- Dário! - [NIM apitando]
[assistente] Por favor.
[apitos sequenciais]
[assistente] O nível do NIM dela está baixíssimo.
[Dário] Ela tá muito nervosa.
- Ricardo. - [Ricardo] Oi?
[NIM continua apitando]
- [Ricardo] Que que é? Que que tem? - [Dário] O NIM dela.
- O nível despencou. - Puta que pariu!
- O que que a gente faz? - Calma.
[Ricardo] Eu não posso deixar ela saltar assim.
- Faz alguma coisa. - [Dário] Não tem o que fazer.
- [som ambiente abafado] - [burburinho continua ao fundo]
Filha… Filha!
Filha!
- [Dário] Gabi! - [Ricardo] Espera.
Me solta!
- Escuta o Dário. - Você não pode saltar.
- Acontece que eu posso. - Não.
- Meu NIM tá dentro do limite. - No limite!
No limite. É perigoso.
Não salta.
A decisão é minha.
[Ricardo suspira] Gabi…
Gabi…
Gabi!
[público vibrando]
[trilha sonora apreensiva]
[inspira com força]
Para, Gabi! Chega.
Não fode, Maria. Quem é você pra me falar que acabou?
O que eu posso fazer?
O que eu posso fazer pra você mudar de ideia?
Você pode desfazer seu último salto?
[locutor] Ela vai saltar.
Gabi Santos vai tentar superar a marca de Maria!
Será que teremos um novo recorde?
[comentarista] É surreal, gente! Vamos ver.
Que expectativa, que momento!
[público bate palmas ritmadas]
[trilha sonora soturna de coro sacro]
[som de locomotiva acelerando]
[prótese emitindo zumbido progressivo]
[som ambiente abafado]
[urra]
[NIM apitando em frequência crescente]
[prótese em arrefecimento]
[suspiros audíveis]
[apitos progressivamente mais graves]
- [apitos cessam] - [público lamenta]
[locutor] Maria Santos
é a nova campeã mundial do salto biônico!
E, de maneira instantânea, se torna a mais nova sensação do esporte.
[comentarista] Depois dessa noite, ela assina o nome dela
entre os grandes atletas dessa nova geração.
Olha, é indescritível esse momento!
[comentarista continua inaudivelmente]
[coro sacro soturno continua]
[batimentos cardíacos lentos ecoando]
[aplausos e assovios abafados]
[trilha e som ambiente cessam]
[bipes de monitor de sinais vitais]
Ela tá sedada por enquanto.
Ela… Ela vai ficar bem. Fica tranquila, ela vai ficar bem.
O problema é que a interface entre o NIM e o córtex motor
foi completamente afetada.
É isso.
[Ricardo] Então já era.
Ela não vai mais competir, pô.
[enfermeira ao fundo] …a prótese vai funcionar.
[voz chorosa] Não foi assim que eu imaginei terminar o dia, Senhor.
Você imaginava o quê, pai?
Botando eu e ela pra competir…
- Não tem moral pra falar assim comigo! - E você tem, então?
[trilha sonora dramática suave]
Pra você tava ótimo, né?
[Maria exala]
[voz chorosa] Você nunca questionou o que aconteceu, né?
Duas biônicas…
- Muito conveniente. - [em tom vulnerável] Conveniente?
[voz chorosa] Eu sempre fiz tudo isso por vocês três.
Só pensando no futuro de vocês.
[funga]
[respira fundo]
- Escuta aqui. - [funga]
A gente tem um trabalho pra terminar. e o Heitor quer falar com você.
Se recompõe.
[respira fundo]
[trilha sonora dramática se avoluma]
[bipes de monitor de sinais vitais]
[Gabi] Maria.
Tudo bem? Como é que você tá?
Eu sei de tudo, Maria.
Eu sei que não foi acidente.
Você forjou
o acidente da sua perna, né?
Foi tudo armado.
- [Gabi geme] - [bipe de reprodução]
- [telefonista] Emergência, boa noite? - Escuta.
[homem] Acabei de presenciar um acidente de moto bem grave.
- [diálogo continua] - ["Nessun Dorma" vazando na gravação]
[Gabi] Eu consegui, Maria. Eu consegui escutar a tua música.
Lá no fundo da gravação.
[telefonista] Localização, por favor?
[motor roncando em alta rotação]
["Nessun Dorma" tocando ao fundo]
[bipes de notificação]
["Nessun Dorma" toca no carro]
["Nessun Dorma" continua carro]
Acabei de presenciar um acidente de moto. Bem grave.
Cruzamento da Vemag com a Presidente Wilson.
O mais rápido possível, por favor.
[motor dá partida]
[pneus cantando]
♪ Vincerò ♪
♪ Vince… ♪
♪ …rò! ♪
[freios rangem]
["Nessun Dorma" termina]
[pneus cantam]
[Maria tossindo e gemendo]
[grunhido alto choroso]
A ideia da música foi minha.
O jeito de sincronizar a moto e o carro.
O que aquele filho da puta do Heitor pediu em troca pra te ajudar?
Acabou, Gabi.
Esquece isso, tá?
Não tem mais nada. Acabou.
Não acabou, minha irmã.
Essa merda toda tá só começando.
[Heitor] A gente descobriu tudo sobre o lotes dos NIMs. Tudo.
Data, hora, localização…
[sirenes ecoando ao fundo]
A gente vai mudar o mundo, Maria.
Uma nova revolução.
Você sabe disso.
[trilha sonora apreensiva suave]
Mas a gente precisa agir.
E tem que ser agora.
Eu não consigo.
Desculpa.
[Maria engasga]
A gente fez um pacto, porra!
[ambos ofegando]
Eu te dei uma perna,
patrocínio, ganhou medalha…
Você me deve.
[trilha sonora dramática]
[prótese emite bipe de ativação]
- [prótese emitindo zumbido progressivo] - Eu não quero te machucar, Heitor.
[zumbido se intensifica]
[prótese emite chiado de arrefecimento]
[Wanda] Ricardo, você lembra o que você me prometeu, amigo?
Duas atletas biônicas.
Eu investi uma puta grana nessa parada.
E, com a Gabi fora de combate,
caralho, eu preciso da Maria na linha de frente!
Só que a tua filhinha já me deu o cano em duas coletivas de imprensa, amigo!
Isso é um absurdo! Me retorna!
[som ambiente abafado]
[trilha sonora dramática]
[Maria ofegando]
[Maria gemendo e ofegando]
[gemidos de falta de fôlego]
[bufa]
[bipes de monitor de sinais vitais]
[trilha sonora ameaçadora suave]
- [baque seco ecoando] - [ofegando]
[respiração pesada]
[Gabi geme]
- [Gabi gemendo de dor] - [Carlão] Shh.
[Maria respirando pesado]
[estalo de beijo]
Que é isso? Que que tá acontecendo… [grunhe]
[grunhidos de luta]
[Maria ofegando]
[gemido de esforço]
[ambos grunhindo]
[Ricardo grunhe]
[Maria geme]
[gemendo de esforço]
[Gabi chorando]
[Carlão] Vem com o titio, vem.
[Gabi balbucia ininteligivelmente]
Ai! Maria!
[chorando] Maria!
Maria! Maria…
- [Maria respirando pesado] - [Gabi se distanciando] Maria…
- [Gus] O que você tá fazendo? - [Ricardo tosse]
- [Gus] Pai, fala comigo! - [Heitor] Ei!
[Gus] É minha família, porra!
O combinado é vir aqui, pegar a Gabi e vazar!
Você tá fugindo do combinado, mano. Você não toca mais no meu pai.
- Você não toca… - Ei!
[grita] Presta atenção! Confia em mim, caralho.
- Confia em mim. - Gus…
- [Heitor] Vai pro carro, vai. - Gus…
[Carlão] Vem garoto, isso.
[alarme disparado ao fundo]
- [trilha sonora ameaçadora] - [Maria geme]
Eu não tô brincando.
[respiração trêmula]
Você vai até o fim com isso.
Até o fim.
[Maria respirando pesado]
[trilha e som ambiente cessam]
[helicóptero zunindo acima]
[Heitor] Em menos de uma hora, um VTOL vai sair do aeroporto
e vai voar direto pra cá,
no prédio da Solid Limbs.
Dentro dele vai ter uma maleta com os NIMs.
A única maneira de pegar essa maleta é no trajeto
entre o heliponto e a sala cofre,
que fica num andar com acesso extremamente restrito.
Nosso ponto de entrada é através do prédio ao lado.
- [Decano] Tá visualizando? - Deixa eu ver.
A distância entre um prédio e outro, contando com a avenida,
são 25 metros e 60 centímetros.
O último recorde dela é 18,25.
É um baita salto, irmão.
Olha ali.
Exatamente aquele ponto ali.
[Heitor] Você vai ter três minutos pra saltar,
entrar no prédio…
e pegar a maleta antes que ela chegue no cofre.
Essa distância é impossível.
[trilha sonora apreensiva]
Faz a porra do salto,
pega os NIMs…
e eu prometo devolver tua irmã.
Se essa maleta chegar no cofre,
já era.
[prótese emitindo zumbido progressivo]
[trilha sonora perturbadora evocativa de vertigem]
[Heitor no rádio] É agora. Vai, vai!
[prótese zumbindo]
[trilha se intensifica]
[batidas graves pulsantes]
[prótese zumbindo]
[Maria ofegando]
- [som ambiente abafado] - [gritando]
[zumbido agudo progressivo]
[gritos abafados]
[zumbido progressivamente mais agudo]
[grita]
- [estrondo ensurdecedor] - [zumbido cessa]
- [trilha sonora eletrizante] - [ofegando]
[guarda geme]
[Maria grunhe]
[grunhidos de luta]
[prótese emite zumbido progressivo]
[guarda geme]
[bipe de elevador abrindo]
[Heitor no rádio] Agora você só precisa sair daí.
Fica calma e lembra do plano, OK?
Garagem térrea, SUV verde.
[homem] Pega ele! Pega!
[Heitor] Vai, vai!
- [trilha eletrizante continua] - [vozerio de guardas]
- [motor dá partida] - [pneus cantam]
[pneus cantando]
- [Heitor ri empolgado no rádio] - [sirenes ecoando]
- Eu sabia que você ia conseguir, Maria! - [ofegando]
Minha recordista!
[trilha eletrizante cessa]
Ai, não acredito…
Foi ela, não foi?
A gente ainda tá tentando entender o que aconteceu.
Ricardo Santos tá hospitalizado e Gabi Santos tá desaparecida.
Tem certeza que essa é a melhor forma de proteger a Maria?
[sirenes ecoam ao fundo]
[Hanna] Psiu.
Olha aqui, ó. O rosto totalmente à mostra.
Ela tá bem camicaze, né?
[falas indistintas no rádio da polícia]
- [trilha sonora instigante] - [vozerio de policiais]
[sinfonia de sirenes]
[toques direcionados de sirene]
[motor roncando em alta rotação]
Heitor?
[expira]
[trilha sonora apreensiva]
- [respirando fundo] - [trilha fica ameaçadora]
[trilha se intensifica e cessa abruptamente]
[pneus cantam]
[Heitor geme]
[ofegando]
[ganindo]
[trilha sonora impactante]
[rosna]
- [motor alta rotação] - [estalidos]
[freios rangem]
Cadê minha irmã, seu filho da puta?
Cadê minha irmã…
[Gus engasga]
Gus?
Gus!
Gus! Ei!
Gus!
Que porra você tava fazendo em cima dessa moto, caralho?
O Heitor… O Heitor me obrigou.
Ei!
Foge.
[berra] Socorro!
- Gus! Ei! - [Gus sufocando]
Ei! Gus!
Gus!
Gus…
- [som ambiente abafado] - [zumbido desorientante]
[voz trêmula] Ei…
[Heitor] O que você fez, hein, Maria?
Perdão, mas eu não podia ficar sozinho com você.
Não com essa perna assassina aí.
[prótese zumbindo]
- Vou te matar, seu filho da… - [baque]
[tinnitus]
[Maria geme]
[homem assoviando marchinha]
[Gabi funga]
Como é que tá o pai, Maria?
E o Gus?
[Heitor e Carlão assoviam junto e riem]
[porta abre]
[homem] E então, Sr. Hirsch?
Será que dessa vez você vai me entregar os NIMs que você me prometeu?
A transferência das criptos tá na agulha.
Eu aperto um botão, e você fica alguns milhões mais rico.
Tá tudo aqui.
O que aconteceu, Maria?
Então seu plano sempre foi vender os NIMs?
Você me fez acreditar que era tudo pelos atletas.
Você entrou na minha cabeça, Heitor.
[chorosa] Você entrou na cabeça do Gus.
Eu aposto que você fez o mesmo com o seu irmão, né?
Bom, a conversa tá muito interessante,
mas eu realmente preciso terminar o negócio.
O código chegou?
Acabou de chegar, senhor.
[Heitor] Pode abrir.
[apitos sequenciais de escaneamento]
[tranca destrava]
[homem 2] Ué. Não eram só dez NIMs?
- A gente vai ficar bilionário. - [homem 3] Rapaz… Segura, peão!
Esquece bando. Eu vou ter é a porra de um exército de biônicos.
Psst!
Maria.
Vem ver. Vem.
Vem ver o que você conseguiu pra gente. Vem cá!
[trilha sonora de guitarra distorcida]
[versão punk rock de "Vem Quente Que Eu Estou Fervendo" toca]
♪ Se você quer brigar E acha que com isso estou sofrendo ♪
[Maria urra]
♪ Se enganou, meu bem Pode vir quente que eu estou fervendo ♪
[geme]
♪ Se você quer brigar… ♪
[Carlão grunhe]
[Gabi grunhe]
[Maria geme]
[música continua]
[Gabi grunhindo]
♪ Pode vir quente que eu estou fervendo ♪
[ambos grunhindo]
[prótese zumbindo]
[Maria urra]
[Carlão berra]
[baque seco]
Ô cuzão!
[ambos grunhem]
["Vem Quente Que Eu Estou Fervendo" continua tocando]
- [geme] - [música cessa]
[Gabi ofegando]
- [lâmina dilacerando] - Não, não, não!
Eu vou te matar, filha da puta.
Você me traiu.
[Gabi urra]
- [Gabi urrando] - [Maria tossindo]
[ambos grunhindo]
- [Heitor grunhe] - [Gabi sufocando]
[trilha sonora dramática]
[Maria tosse]
[Gabi sufocando]
[Gabi e Heitor grunhindo]
[prótese emitindo zumbido progressivo]
- [carne esmagando, crânio rachando] - [prótese zumbindo agudo]
- [Maria exala] - [prótese arrefecendo]
Eu vou te matar, sua filha da puta!
[berra]
- [Maria rosnando] - [ossos estalando]
- [sirenes se aproximando] - Bora. Bora, Gabi.
- Maria, foge. Foge! - Não, vamos.
[voz trêmula] Foge, você consegue.
[sirenes se aproximando]
Foge, Maria, foge!
Vai, vai, vai!
[policial] Vai!
[policial 2] Segue, vambora!
- Um atrás do outro, hein? - [policial 3] Vai, em fila.
- Esquerda, seguiu, seguiu. - [policial 2] Agiliza.
- [Maria gemendo] - [policiais falando ao longe]
[trilha sonora tensa]
[policiais falam indistintamente]
Maria!
- [policial] Vai, vai! - Maria!
[policial] Vamos, vamos!
[sirenes ao fundo]
[policial] Olha ali atrás. Vai!
- Gabi. Você tá bem? Tá machucada? - Tô bem.
[rádio] Todas as unidades.
Perseguindo Maria Santos pelo túnel de acesso.
Solicitando apoio no setor sul.
[geme]
Maria!
[Guerra] Atenção, suspeita fugindo pela arquibancada do estádio!
[trilha sonora dramática]
[Guerra] Maria! Para, Maria!
Para!
- Chega, Maria! - [Maria grunhe]
[Guerra] Ninguém atira!
[NIM apitando]
Maria!
[Guerra no rádio] A suspeita tá encurralada.
Tá presa na cerca de arame farpado.
Todas as unidades convergindo.
[geme]
Deixa eu te ajudar, Maria.
- Muita gente já se machucou. - [tossindo]
[NIM apitando rapidamente]
[gemido de esforço]
[apitos se aceleram]
[zumbido arrefecendo]
Maria!
[geme]
Atenção, suspeita imobilizada.
Preciso de reforços do lado de fora do estádio.
[Hanna] QAP, unidade 6. Copia?
O delegado Guerra tá precisando de reforço na arquibancada.
[trilha dramática continua]
[Hanna] Ô Miranda! Você não sai daqui, tá?
Vocês dois, fiquem de olha nela aqui, tá?
- [policial] Pode deixar. - Bora lá fora.
[sinfonia de sirenes]
[trilha dramática se avoluma]
[tinnitus]
[ofegando]
[zumbido desenergizando]
[trilha dramática cessa]
[baque seco]
[tinnitus, ofegando]
[respiração pesada]
[prótese chia e apita]
[Hanna] Vamos, vamos, pessoal! Todas as unidades!
[respiração pesada]
- [policial] Ela tá ali, corre! Vai, vai! - [Maria tossindo]
[motor dando partida]
[pneus cantando]
- [vozerio de policiais] - [sirenes ecoando]
[policial] Corre!
[policial 2] Que carro é?
[policial 1] Vai, corre!
Parada. Parada!
Maria!
- [trilha sonora emotiva] - [Maria geme]
[policial 1] Elas tão fugindo, caralho!
Procura!
Elas tão fugindo, porra!
[pneus cantando]
[policial 2] Porra, caramba!
[policial 3] Vai, caralho!
[policial 4] Já era.
[geme]
[geme]
[geme]
[trilha emotiva continua]
[trilha cessa]
[repórter na TV] As irmãs Maria e Gabi Santos continuam foragidas,
e a polícia permanece sem pistas
do atual paradeiro das ex-atletas biônicas.
Mesmo assim, o responsável pela investigação, delegado Guerra,
declarou que a operação foi bem-sucedida,
pois os NIMs roubados foram recuperados
e a gangue do criminoso Heitor Hirsch foi desmantelada.
[pássaros e insetos]
[casal conversa indistintamente]
[Maria] Muito rápido! Isso. Na próxima, mais rápido ainda.
Vamos lá, Nicole. Isso!
- [treinador] Vem, Maria! - [Maria] Maria, isso, vamos lá!
A próxima você já pode voltar, hein?
[Maria em locução] A minha mãe dizia que eu era uma predestinada.
Mas eu aprendi que o destino não é dado, é algo que se busca.
[Maria] Cinco minutinhos de pausa,
e aí a gente volta novamente pro circuito, OK?
Tô muito orgulhosa de vocês e parabéns, galera. [risinho]
[Maria em locução] E eu acabei encontrando meu destino.
[treinador] Esticando o bracinho pra alongar. Isso!
[trilha sonora operística dramática]
Cuidado.
[Gabi] Pesado isso, hein, mano?
[treinadora] Bora, tão mandando bem!
Eu não tô acreditando que eu fiz isso.
- Bom te ver aqui. - [Dário ri]
Nem tanto.
Quando descobrirem que arranquei isso de lá, eu tô fodido.
[Maria e Gabi riem]
É… Impressionante, hein?
Lindo o projeto.
Com propósito. Parabéns.
Agora só quero saber como é que vocês vão manter isso aqui.
A gente tem um plano.
[treinadora instruindo indistintamente]
[Maria em locução] Pois é. A ironia é que a gente acaba encontrando
o nosso verdadeiro destino…
[carcaça precária chacoalha]
…justamente nos caminhos que evitamos percorrer.
[trilha dramática continua]
Precisavam se esconder tão longe? Qual é a proposta de vocês?
Você não queria um exército de biônicos?
Ainda quero.
[Gabi] É o que você quer, mas não é o que você precisa.
E do que é que eu preciso?
De três. Apenas três biônicos.
Você disse "três". Eu só tô vendo duas de vocês.
[porta range]
[bipe de prótese]
[trilha sonora épica]
[próteses zunindo e apitando]
[capanga geme]
- [bala ricocheteando] - [vidros quebrando]
- [prótese emite zumbido progressivo] - [capangas gemem]
[trilha épica cessa]
[próteses rangem sofisticadamente]
[negociante] Gostei de você, moleque. Qual é teu nome?
Pode me chamar de Tio Hard.
Tio Hard.
Gostei do nome. [ri]
- Bora. - [capangas] Vambora!
[trilha sonora épica reinicia]
[Gabi] É Tio Hard, tá?
- [Gus] Gostaram da postura? - [Maria] Seriedade, seriedade.
Agora a gente é empresário.
[Maria] Acho que ninguém podia imaginar que no final esse seria o nosso destino.
Ah, mas quer saber? Foda-se o destino!
Daqui pra frente, só importa a jornada.
E que, dessa vez, vamos juntos.
- [engrenagens rangendo] - [zumbido progressivo]
Peraí, peraí.
Dancinha da vitória, dancinha da vitória aqui, ó.
- Como que é? - Ó!
[Gabi urra]
[todos riem]
Bora!
♪ Um, dois, três, vai! ♪
[versão punk rock de "Vem Quente Que Eu Estou Fervendo" toca]
♪ Se você quer brigar E acha que com isso estou sofrendo ♪
♪ Se enganou, meu bem Pode vir quente que eu estou fervendo ♪
♪ Se você quer brigar E acha que com isso estou sofrendo ♪
♪ Se enganou, meu bem Pode vir quente que eu estou fervendo ♪
♪ Pode tirar seu time de campo ♪
♪ O meu coração é do tamanho de um trem ♪
♪ Iguais a você Eu já peguei mais de cem ♪
♪ Pode vir quente que eu estou fervendo! ♪
♪ Se você quer brigar E acha que com isso estou sofrendo ♪
♪ Se enganou, meu bem Pode vir quente que eu estou fervendo ♪
♪ Pode vir quente que eu estou fervendo! ♪
♪ Não vem que não tem! ♪
♪ Pode tirar seu time de campo ♪
♪ Meu coração é do tamanho de um trem ♪
♪ Iguais a você Eu já peguei mais de cem ♪
♪ Pode vir quente que eu estou fervendo! ♪
♪ Se você quer brigar E acha que com isso estou sofrendo ♪
♪ Se enganou, meu bem Pode vir quente que eu estou fervendo ♪
♪ Não vem que não tem! ♪
[música termina]
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