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O IGNORANTE
Leve-me até a beira do mar.
"Ele me olhava de um jeito austero.
Eu baixei os olhos e me senti desconfortável.
É incrível como essa gente não respeita nada
e não quer ser simples".
AS PLÊIADES ARTHUR DE GOBINEAU
Quem é?
E agora, meu camarada, espere pelo pior.
Com certeza você errou o endereço, senhor.
Não sei o que o senhor veio procurar aqui, mas...
está perdendo o seu tempo.
Não tenho dinheiro escondido
e tudo que tem nesta casa pouco me importa.
Pegue tudo que o senhor quiser. Eu não ligo!
A sua família é grande. Tem grana, muita grana.
Tem um pouco de fama...
Estou interessado no resgate, entendeu?
A minha família? Os meus parentes?
Eles estão se lixando para o que possa me acontecer.
Já que é assim, acho que vou cortar um dedo seu.
O dedo médio, é claro. A língua não, vou precisar dela.
Uma orelha!
Pode ficar à vontade. Orelha, dedo médio...
Dedão do pé, talvez.
Todos eles só estão esperando uma coisa: que eu morra,
para pegar a herança.
Portanto, alguns pedaços do meu corpo, pequenos ou grandes...
Está vendo o que pode acontecer qualquer dia, papai,
se insistir em morar sozinho?
Mas não me aconteceu nada, meu pequeno Laurent.
Porque era de mentira.
Acabou a aula de anatomia?
Deixe-me morar com você. Eu ficaria menos preocupado.
Eu não preciso de ninguém.
Por enquanto.
- Você se preocupa com o meu futuro? - Está duvidando de mim?
Não. Você nunca foi ganancioso.
Eu sei que você me ama e eu amo você também.
É por isso que me recuso a confinar você aqui
junto com este velho horrível que me transformei.
Que vaidade!
Você ainda é desejado e sabe muito bem disso.
Vou fazer um trabalho aqui perto.
Pode ligar no meu celular quando quiser.
Só volto à noite.
Faça o jantar pra mim. Assim você se ocupa.
Não vou incomodar você.
Não enquanto você estiver...
Vivo?
- Pelo menos é encorajador. - Papai... O seu humor é mórbido.
Pegue. Coma tudo.
Não posso mais comer isso.
Quatro cirurgias, meu estômago, meus intestinos...
Você vai ver, quando envelhecer, essa ladainha do "nunca mais".
Bom, você pode vir morar aqui, mas com uma condição:
- o endereço da Marguerite. - De jeito nenhum, querido papai.
Você me deixou espantado agora há pouco.
- Não ficou com medo. - Medo? Do quê?
De ser assassinado?
De ser amputado? Serrado?
Não.
Não, só de apanhar.
Eu bato em você se não me aceitar na sua casa.
ABRIL DE 2007
Tudo bem?
Se quiser voltar pra casa correndo, eu bato em você.
- Isso não tem graça. - Tem medo por você ou por mim?
Já disse que não acho engraçado.
- Vai me bater? - Se for preciso.
Não acha que já apanhei bastante?
Eu não me importo. Me dê o endereço da Marguerite.
Pare com isso!
Idiota de merda...
Quando penso que carreguei você no colo durante um mês...
- E a mamãe? - Uma noite foi o suficiente.
Mas depois você foi embora.
Eu não fui embora.
Eu fugi.
Eu fiz exatamente do jeito que você gosta, meu velho Rodolphe.
Sem alho, sem cebola e sem pimenta.
CHRISTIANE OUTUBRO DE 2007
Sem raspas de limão.
Eu esqueci que você era tão maníaco.
Eu não sou maníaco, Christiane.
Tenho meus gostos, mas posso me adaptar.
Aliás, está muito bom.
Ah, finalmente!
Quero lembrar você
que nós não nos víamos
há mais de 20 anos.
É verdade.
Quanto mais o tempo passa,
mais reconheço que estava com saudade de você.
- Você não está curioso? - Quanto a isso, eu não mudei.
Mas posso adivinhar o motivo da sua visita inesperada.
Bom, eu acho...
que você vai ficar bastante surpreso.
Por que o Laurent e não o Ferdinand?
Como você conhece o Ferdinand?
Você esqueceu que a Janine era minha amiga?
Eu poderia responder que você não tem nada com isso.
O Laurent me pediu de um jeito tão agradável para vir morar comigo,
que me conquistou.
Vai contar como foi?
Não. Sinceramente, isso não é da sua conta.
O Laurent não para em casa. Ele passa o dia na rua.
Na sua idade, pode acontecer qualquer coisa!
A minha saúde está excelente. Nunca fico entediado.
Tenho meus livros, meus Blu-rays, meu computador...
e acabei de fundar uma nova empresa.
Não... Uma empresa? De quê?
Não importa. De aluguel: caminhões, máquinas para agricultura...
Passe esse chocolate, por favor.
Você lembra da Astrid?
Não, não responda.
Ela até veio tocar aqui.
Agora, abra bem seus ouvidos.
A Astrid é sua filha.
Eu sei. Não contei para você
já que o meu marido assumiu a paternidade.
Além disso, eu tinha a impressão
- que você não queria filhos. - Venha sentar. O café vai esfriar.
Como dizer a ela que eu não quero mais ver a Astrid?
Vou escrever.
Parece que você ficou sem palavras.
Agora está entendendo melhor o motivo da minha visita?
Nem um pouco.
Você quer o quê? Dinheiro?
Quer dizer que você tem uma empresa. Gerente e sedentário...
Agora vive sentado.
Justo você que adorava escapulir por aí.
O que você quer dizer exatamente com "escapulir"?
O próprio significado da palavra.
Foi por esse motivo, entre outros,
que eu pedi o divórcio.
Com muita elegância, devo dizer. Ficou com a culpa só para você.
Só para deixar você furioso.
Para cutucar seu orgulho de macho.
Eu era rica quando conheci você.
E estou mais rica ainda depois da morte do meu marido.
Nós não tivemos filhos.
- Exceto a Astrid, evidentemente. - Eu sei disso.
Eu sempre adorei esta casa.
A Astrid também.
Você sabe.
Eu não saí daqui de bom grado.
Foi uma surpresa!
Estou vendo que ela está quase igual.
É claro que houve muitas idas e vindas.
Eu lhe ofereço uma pensão vitalícia.
Esta casa nunca vai ser sua.
- Foi aqui que nós nos amamos tanto. - Que você me amou.
- Você não me amou? - Eu achava que sim.
Durante um tempo.
Eu nunca deixei de pensar em você.
Nas suas carícias...
Nas suas palavras...
Tão doces!
Nos ataques de nervos?
Nas suas atenções.
No seu jeito... de fazer amor.
Nas minhas raspas de limão.
No seu humor...
devastador.
Nas suas escapadas.
Não é a palavra certa.
Na sua sexualidade desenfreada, se preferir.
Eu não era suficiente para você.
Você tinha tudo...
mas não era suficiente para você. Eu me acomodei.
Depois...
Minha querida Christiane,
você levou todo esse tempo para vir me rever
e acho que teve esse trabalho para nada.
Para nada?
Rever você! Acha que isso é nada?
Diga logo o que sabe sobre a Marguerite.
- Quem? - Esqueça, esqueça.
Me dê um beijo.
Eu estava brincando.
Veio alguém aqui ontem?
Acha mesmo que vou lavar esses pratos cheios de resto de comida?
Sou sempre eu que lavo a louça.
Sim, veio alguém aqui ontem.
Quem?
A Christiane.
Ah... aquela.
Você está triste?
Um pouco.
Mais do que você imagina.
Você ainda a ama?
Bom...
Vamos deixar as coisas bem claras de uma vez por todas.
- Nunca mais me faça perguntas. - Como é?
Chega de perguntas.
Será que devo falar da Astrid?
SETEMBRO DE 2008 - E do Ferdinand?
Por que voltar a trabalhar?
Você tem dinheiro.
Por isso mesmo, tenho muito.
Não esqueça que eu ajudo o pessoal do vilarejo
os desempregados,
os imigrantes ilegais,
os sem-teto...
É assim que sou recompensado:
oficiais de justiça na porta...
notificação de cobrança...
Você precisa de ajuda. Contrate uma secretária.
Até explicar tudo para ela
já vou ter resolvido tudo sozinho.
Orgulho?
Ou imprudência?
Me deixe em paz.
Vá fazer suas entregas.
Hoje é domingo.
Domingo?
E como é que você sabe?
Pode falar.
Nem sei mais como eu vivo.
Nem onde eu moro.
- Os oficiais de justiça vêm quando? - Não se meta nisso.
- E nós dissemos "chega de perguntas"! - Você disse.
Porra, Ferdinand!
Dez anos sem notícias e eu paguei cada mês.
Merda!
Vá trocar de roupa. Está sempre com essa porcaria aí!
Ele sentiu vontade de chorar.
Eu jamais vou saber por quê.
Chega de perguntas.
Ou ele paga, ou nós confiscamos.
Nós confiscamos, ou ele paga.
É luxuosa.
Eu até diria mais...
É luxuosa.
Sumam daqui!
Ele pagou no prazo.
- Pagou o quê? - Pagou para quem?
Tudo!
Seguro Social e todos os impostos.
- Não é verdade. - Mentira...
Cuidado! Saiam ou eu atiro.
- Não é verdade. - Mentira...
Primeiro, você paga.
Depois, se você puder...
se quiser, você atira.
Você paga primeiro...
e em seguida, você atira, se quiser.
- Se puder... - Se quiser...
Piedade.
Está com raiva de quem?
Por que gritou desse jeito?
Os oficiais de justiça...
Pareciam do Tintin.
Eu matei os dois. Um e o outro, bum!
Depois...
Depois nós enterramos os corpos no jardim
e você ficou cansado por me ajudar.
Essa história já acabou.
Telefonei para eles. Eles reconheceram os erros.
Podia ter me contado.
Eu estava ocupado.
Não imaginava que o seu jardim fosse assim.
Eu o imaginava mais rico, mais exuberante...
Mais original, como você.
Mas isto aqui... Com concreto?
Enfim, não tenho nada que ficar falando.
É, você já falou bastante.
Eu falei bastante, mas não disse nada.
E você? Me deixe ver...
Você envelheceu razoavelmente. Não está acabado.
Sem muita, como se diz...?
A última vez foi quando?
Há 6 anos.
Ah, sim, sim... Verdade.
Ao todo.
Enfim... Desculpe, desculpe.
- Não quer sentar, Valentine? - Obrigada. Eu acho que não.
- E eu? - Você?
Sim... Eu.
Você é você: soberana.
Não fale assim comigo. Você me humilha.
- Como? - Isso mesmo...
Com esse ar de inocência,
todas as suas belas frases são venosas.
Você tem ódio de mim?
Seria uma estupidez.
Você fez a sua vida, eu fiz a minha...
- Eu ainda amo você. - Pare com isso...
Sim, sim... Sim.
Pegue uma almofada, rápido!
- Uma almofada? - É...
Aquela ali.
Rápido, por favor.
Qual?
- Tanto faz... Não! A grande. - Esta aqui?
Mas o que é que ela vai fazer com a almofada?
Obrigada.
Oh, meu Deus...
Livrai-me da tentação, livrai-me do mal.
Livrai-me da tentação, livrai-me do mal.
Livrai-me do mal. Livrai-me do mal.
Meu Deus...
- Viu como estamos velhos? - Pois é...
Eu teria adorado que você me carregasse nos seus braços.
Eu não teria feito isso.
Você fala isso, mas eu não acredito.
Escute, vamos falar de coisas sérias.
Eu vim dizer que vou entrar para um convento.
- Convento? - É... Não é longe daqui.
É das dominicanas, em Saint-Maximin.
Você pode ir me ver lá. No horário de visita, se você...
sentir vontade, ou se precisar.
Eu vou rezar por você, de qualquer forma.
Rodolphe, eu acho que isso até que vai ser útil.
- Esse rapaz com você aqui e... - Ele é meu filho.
É mesmo? Não é o que andam dizendo.
Melhor assim, melhor assim...
Com o seu passado e tudo mais,
se eu não ajudar, você vai direto para o inferno.
- Que é bem quentinho. - Sem blasfêmia, por favor!
- Valentine, não vai me dizer... - O que me fez vir aqui?
É que para entrar para o convento é preciso de um tipo...
- Um tipo de quê? - Um tipo de dote.
Dinheiro.
Espero que não esteja falando sério. Você não vai conseguir nada.
- Acreditou em mim? - É lógico.
Você é mais idiota do que eu imaginava. Adeus!
Espere.
Você sabe onde a Marguerite está?
Marguerite...
Ela está no campo.
Adeus!
Ela esteve no vilarejo.
E andou pedindo informações sobre nós dois.
A sua Valentine deve ter achado que sou seu amante.
Não fique com raiva dela.
Ela quer saber da vida alheia. Ainda mais dois amantes.
Você amou todas elas. Não foi uma pergunta.
Vai saber...
- Ela tinha belos... - Peitinhos?
- Não. - Peitões.
- Bem... - E tetonas que você tentava tatear.
- Você conhece essa? - Coisa da mamãe.
A Anémone?
- Não achei que ela fosse tão culta. - Espertinho...
Você me impressiona às vezes.
Que bom! É melhor assim.
O que está fazendo aqui? Hoje não é domingo.
- Eu menti para você. - Isso é muito bonito.
Eu não trabalho. Bom, não estou mais trabalhando.
Gostei do seu moleton. Custou caro?
Está precisando de dinheiro?
- O que você acha? - Precisa de dinheiro?
Adivinhe.
MIMI OUTUBRO DE 2009
Você pode ficar aqui, Mimi.
Vou colocar uma fechadura do seu lado para você se sentir independente.
Na verdade, eu não sei muito bem por que estou aqui.
Pensei em fazer várias perguntas, mas não lembro de nenhuma.
Talvez eu tenha vindo apenas por causa do sol
e a bela luz do sul.
Vamos lá... Para o inferno com as perguntas! Pegue.
Quantas chaves! Parece o Barba Azul.
Eu ainda não matei ninguém.
Matar...
Tem coisa pior.
Fazer sofrer.
Sabe, isso me fez lembrar de uma pergunta.
O que você amava em mim?
A sua delicadeza.
A sua inteligência.
O seu comprometimento.
Os seus penhoares...
Os meus penhoares?
E...?
Os seus seios.
Quando você dormia, ou fingia que dormia,
eu os apalpava...
e me sentia vivo.
Vivo?
Eu diria "distante".
A Marguerite sempre esteve entre mim e você.
Marguerite...
Eu coloquei duas garrafas de água na geladeira.
Uma mineral e outra com gás.
Isso é tudo?
Você é linda.
Você é muito linda.
Isso não basta para você?
Eu era ciumenta.
Agora não sou mais.
Aliás, que motivo eu teria para continuar sendo?
Eu nunca mais vi a Marguerite
depois do meu casamento com a Anémone
e o nascimento do Laurent.
Não me olhe com essa cara de cansada.
- Você não é nenhum navio naufragado. - É isso que você acha, tolinho?
De qualquer forma, o meu escafandro está pronto.
Então, mergulhe! Eu vou ficar.
Venha dançar, Rodolphe.
Não, eu estou bem aqui.
Dance com o Laurent. Eu vou ficar olhando.
Então, coloque a música.
Nós vamos improvisar uma pista de dança.
Nós éramos jovens...
alegres...
sem preocupações.
Não acha isso muito clichê?
Não ligo a mínima para clichês, meu pequeno Laurent.
Felicidade é clichê.
Sabe...
você é parecido com a sua mãe.
E nada parecido com o seu pai.
A valsa...
é uma bela imagem da vida.
A gente gira...
gira, gira...
vai girando sem parar...
e mesmo assim...
E um... Rodolphe, música!
E um, e dois, e três...
E um, e dois, e três...
A única vez que dancei valsa foi num sonho.
- Com quem? - Com uma boneca.
Sério? Com uma boneca?
Eu, como vê, dançava valsa frequentemente.
E também...
gostava de cancan.
Sabe?
Se ainda conseguisse levantar a perna,
eu adoraria dançar cancan de novo.
Parece que ela está viva.
- Ela está viva dentro de você. - É o que dizem.
Vá descansar. Eu fico aqui com ela.
Não, você não.
Você a amava mais que as outras. Novamente, não é uma pergunta.
Eu amei todas elas da mesma forma.
Até a Marguerite?
Cale a boca.
É a primeira vez que vejo uma mulher que eu amei morrer.
Além disso,
isso ainda pode acontecer com todas as outras.
Aquelas de uma hora, de um dia, de um ano...
Todas aquelas que não estão mortas, que continuam vivas sei lá onde,
das quais não tenho notícia.
As sobreviventes...
Ainda não é verão.
Estou ouvindo cigarras.
Onde você está, meu amor?
Minha delicada,
minha frágil,
minha cruel Marguerite...
O Laurent não assistiu essa palhaçada. Eu fiz bem em proibir que ele visse.
A terra e o aspersório.
A água benta não desperta os mortos.
Ele deve estar jogando no tablet.
Cada um com seus prazeres...
O meu era as mulheres.
Merda... Não gosto mais dessa cara.
Não suporto a deterioração das minhas feições.
Os lábios que vão afinando...
os olhos que vão diminuindo...
e todo resto com eles.
Meu Deus...
Que merda! Não consigo parar de invocar essa criatura.
O meu professor dizia:
"Nunca esqueçam a primeira linha."
Nossos rostos vão ficando enrugados por causa dessas malditas guerras.
Todas elas religiosas.
Afeganistão, Paquistão, Israel,
Palestina, Síria...
Esqueci de algumas.
Também esqueci das religiões.
E então, o que é isso?
Pulamos a primeira linha.
Deus.
Eu sei.
Sim, eu sei.
Ele está aqui para erradicar o medo da morte.
A morte é uma coisa natural.
Não existe nada melhor que o efêmero, como as folhas e as flores.
Meu Deus...
Quanta bagagem vamos juntando com o tempo!
É por isso que eu amava as mulheres.
Caramba...
Como pude amar tantas?
Uma verdadeira procissão.
Tinha uma ruiva, a Madeleine.
Madaleine não era o nome verdadeiro dela.
Ela vivia me dizendo: "Antigamente, eu ia para cama cedo."
Na verdade, ela passava muito tempo na cama.
E a pequena Chantal...
Uma bonequinha que não sabia dizer "não".
A irmã dela, a Yvette, que amava uma suruba.
"Mas não com a minha irmã, viu?"
Nunca entendi por quê.
Também tinha a Thérèse, a feiosa. Ela cantava dia e noite.
Essa detestava a posição "papai e mamãe".
Precisava de criatividade.
Para ser franco, eu não tinha muita inspiração.
Rachel... Ah, Rachel!
Uma freira.
Enfim, acreditei nela e...
Ela era realmente de cair o queixo.
Freira dominicana.
Que apetite!
Quem imaginaria?
"A Crucificação Encarnada".
Eu lembro dela sussurrando para mim:
"Eu adoro a cruz do seu corpo..."
Nós não somos de pedra, meu Deus.
Que carnaval!
Papai? Tem uma pessoa esperando você.
Onde?
- No portão do castelo! - Engraçadinho.
Preciso me trocar.
Que merda...
Quem é?
- Uma freira! - O quê?
Rachel? Será possível?
Rachel... Sim, a Rachel.
Eu não reconheci você.
É claro que não.
Eu não sou a Rachel, sou a irmã dela. Sarah.
- A mais velha. - A irmã dela?
Sim, meu irmão.
Está vendo isto aqui?
Não pegue ainda.
"Para ser aberto 33 anos depois da minha morte."
É evidente que não sabe que a Rachel se suicidou há 33 anos.
Que Deus a perdoe!
Ela se suicidou por sua causa.
O que acabou me atrapalhando.
Eu ia me casar com um homem muito rico, muito decente, só que...
de uma família muito católica.
O suicídio é um pecado mortal.
Por causa dessa desordem, eu entrei para a Ordem faz 33 anos!
Depois, fiquei procurando, procurando, procurando em vão.
Até que um belo dia, milagrosamente,
uma mulher se apresentou no convento como noviça.
Uma certa Valentine. Lembra de alguma coisa?
Vou adivinhar: você é dominicana.
Me deixe terminar. Valentine, ou melhor...
Irmã Adeláide do Santo Sepulcro
trocou confidências comigo e mencionou o senhor.
Ela me chamava de idiota.
Um lampejo de lucidez, sem dúvida.
Estou completamente confuso.
Vir aqui falar com o senhor não me deixou nada feliz.
É mesmo?
Chega de insinuações irreverentes.
Certo. Se a Rachel se suicidou...
Vou repetir para você ouvir bem.
Se a Rachel se suicidou, não foi por minha causa.
Foi por causa das regras do monastério.
E da religião.
Todas essas mulheres e todos esse homens
que têm cheiro de confinamento,
que têm vergonha dos seus desejos...
Ah, não...
Aquela freira, a sua irmã...
eu não a violentei.
Ela sentiu prazer como você também poderia sentir.
Vou considerar as suas palavras uma provocação infantil.
Bem...
Quero dizer que está me enchendo o saco.
O que veio fazer aqui afinal?
Castigar-me?
Ou me converter?
Não, de modo algum.
De qualquer modo, o senhor só se importa com... com...
- Cuidado com o que vai falar! - Com...
Com o seu conforto.
Mentiram para você.
Eu sou muito rico e ajudo muita gente.
Mas isso vem à calhar! Eu cuido de necessitados,
de deficientes visuais, de sem-tetos,
de crianças abandonadas, mães que fazem aborto,
de meninos delinquentes, de meninas perdidas...
De toda essa gente?
O senhor é muito rico.
- O que pode me oferecer? - A porta!
Está pouco se fodendo para mim?
Não use palavras das quais não sabe o significado.
Se bem que com freiras nunca se sabe.
Escute...
Se quiser, posso lhe oferecer uma xícara de chá.
E mais nada.
O céu vai castigar o senhor!
Só posso sentir pena do senhor. Pegue.
ABRIL DE 2010
- O que foi? - Não é um oficial de justiça.
Se bem que...
Não achei você hoje de manhã e recebi no seu lugar.
Uma nova notificação de cobrança.
Jogue isso fora.
Você vai ver...
Esses oficiais...
Vou processar todos. Vai sair bem caro pra eles.
Ainda está usando essa bosta de agasalho?
O que me resta agora?
Tirar o pó? Limpar as janelas?
Não posso nem encostar na sua cama, nem dormir no seu quarto.
Suma da minha frente!
- Não vai nem... - Saia daqui!
Que idiota...
OUTUBRO DE 2010
Vou matar os dois.
Eles estão se escondendo.
Isso mostra que eles estão com medo.
Mas vou matar os dois.
Um oficial de justiça sempre tem medo. Isso é normal.
Mas dois?
O que está fazendo aqui no meio da noite?
Já procurei lá embaixo
e não encontrei os dois.
Aqui também não.
Eles podem estar na varanda.
Quem eles pensam que são?
Eles ficam o tempo todo contando
e não levam nada em conta.
- Seu impertinente de merda! - Não!
A culpa não é minha.
Eu paguei as contas no prazo.
Não! Não me bata!
Pare de me bater!
Mamãe...
Eu fiz o dever de casa.
Eu juro!
O professor não gosta de mim.
Ele está falando mentira.
Ele é mentiroso!
Sim, um mentiroso.
A vida vai ensinar você.
Você não precisa de estudos.
Em vez de ser instruído, você vai ser esperto.
É verdade, vovô?
Ninguém fala comigo do jeito que você fala.
Porque os outros acham que podem se dar bem
adquirindo conhecimento.
Você vai encarar a vida como ela é.
Agora, tem muito trabalho pela frente.
Para ele
e para mim.
Ah, meu pequeno rapaz...
Eu vou cuidar disso.
Desde quando?
É proibido fazer perguntas.
Não enche o saco. Desde quando?
Não faz muito tempo. Você perdeu os sentidos.
Não perguntei isso. Desde quando você é sonâmbulo?
Desde a infância.
Eu vivia levando bronca porque faltava na escola.
A mamãe me batia.
A Anémone?
Ela era um doce.
Na cama, talvez.
Agora você está indo longe demais!
Uma noite eu levantei e resolvi ir bater nela,
mas eu errei de quarto. Não era o dela, era o da minha tia.
- Marguerite? - Sim.
- Você bateu na Marguerite? - Ela não ficou brava.
Ela logo percebeu que eu era sonâmbulo.
Ela só disse:
"É errado querer bater nos outros, mesmo nos sonhos."
Essa frase é a cara dela.
Eu tenho muita vontade de vê-la.
E continuou: "Se o seu pai ficasse mais aqui..."
Deixa pra lá.
Fale de você.
Eu não sei nada de você.
As suas saídas durante o dia...
Você tem...
uma namoradinha nova?
Comigo você pode se abrir.
Eu não gosto de mulher, papai.
O que foi que você disse?
- Se for só isso... - Eu tinha medo que...
Papai?
Papai? Fale comigo.
Papai!
Fale comigo!
Você podia ter entrado.
- Não suporto aventais brancos. - Nem eu.
Se bem que, às vezes, o que tem por baixo...
Conheci umas enfermeiras muito, muito bonitas nos velhos tempos.
- Eu vou dirigir. - É meio arriscado.
Não é uma dorzinha de cabeça que vai me privar dos prazeres da vida.
E depois, essa internação foi totalmente inútil. Não acharam nada.
Não sei por que chamou os bombeiros. Só se foi para...
- Que esperto! - Muito esperto.
Se vir você mais uma vez com esse agasalho,
eu vou queimá-lo, entendeu?
Se não me falha a memória, e ela nunca falha,
- você estava me dizendo que... - Deixa pra lá.
- Olhe pra estrada. - Não, não vou deixar pra lá.
É a sua felicidade que me preocupa. A sua péssima noção de felicidade.
Nós estamos muito distantes um do outro.
Separados por dois andares. Você que preferiu ficar no "barraco".
Aliás, lembre que me proibiu de entrar lá.
Eu fiz um canto só para mim.
Talvez eu mostre para você.
Sabe, eu também experimentei coisas diferentes na adolescência.
No internato acontecem muitas coisas. Isso é inevitável.
- Não quero ouvir suas confidências. - Que pena...
Bom, eu fui experimentando...
Eu experimentei um pouco de tudo e depois
- encontrei o meu primeiro amor. - A mamãe.
Não, não foi a sua mãe.
Marguerite, a sua tia, se prefere.
A sua mãe apareceu num bom momento,
se é que podemos chamar de "bom momento"...
e você chegou.
Como ela era uma mulher de princípios, nós regularizamos a situação.
Como vai o seu namorado?
Continuo sendo discreto.
- Por que parou? - Tem um semáforo ali.
Não tem não.
Eu esqueci!
É que tinha uma obra aqui. Eu me enganei.
Vai, acelera!
Não, eu...
Não sei o que eu tenho.
Essa dor de cabeça...
Desculpe. Pode pegar a direção?
É na minha cama
Que eu procuro em vão Pelos corpos delas
De um lado
MAIO DE 2011
e do outro sem parar
- O que está cantando? - Uma música!
Eu ouvi, mas que música é essa?
Uma música que ouço muito no rádio que eu gosto muito.
- Ah, é? Música antiga? - Não é não.
- Não é não. - Como assim?
Para você, que é jovem, é antiga. Mas ela ainda está na moda.
Na moda... Está me gozando?
Viu? Escute...
É na minha cama
Que eu procuro em vão Pelos corpos delas
De um lado e do outro sem parar
Sem insônia
É a manhã
Que revela a minha impotência
E meu desejo de conciliação
Morrendo de tédio
Eu sempre
Sonho com meus amores do passado
Com as mulheres que eu abandonei
Com todas aquelas que eu traí
Descaradamente
Jamais
Essas lembranças dolorosas
Todas as lágrimas e todos os gritos
Todas essas palavras tão mal escritas
Poderão manchar os meus amores
É na minha cama
Que eu procuro em vão Pelos corpos delas
De um lado, de outro e no meio dela
Sem insônia
É a manhã
Papai!
Papai!
- Você me chamou, Laurent? - Sim! Estou esperando faz uma hora.
Estou pronto para descer.
Não precisa ter pressa!
Não precisa mais ter pressa.
Já vou!
Ele levou um tempão para arrumar o quarto
e agora está com pressa de...
Toda vez que a minha mãe me chamava do terraço, eu gritava assim:
Já vou!
Que porcaria é essa?
Ah, não...
Não está bom assim.
Laurent, me dê a sua echarpe.
Qual?
A azul.
Anda logo!
Puta merda...
O que está acontecendo?
Fiquei dois meses esperando e agora essa afobação? Por quê?
Porque sim.
- O que é que eu vou ver? - Vai ver chegando lá.
Você transformou meu barraco num palácio maravilhoso.
E além disso está bem vestido.
- Gostou? - Muito.
Bem agradável...
Você deu um bom trato no jardim.
Sabe que gosto muito dele.
O melro ainda canta lá?
- Por quê? Não ouve do seu quarto? - Ouço sim.
E aquilo é o quê? Seu namorado?
Já disse que estava sem ninguém. E continuo.
- Continua? - Sim.
- Se pelo menos ele fumasse cachimbo... - Você é realmente patético.
Sei...
Ei, você aí!
- Agora pode se explicar? - Acho que você não vai acreditar.
Eu acho que posso acreditar.
Pierre, sua vez.
Olá.
Conte tudo.
Eu perdi a minha esposa faz 2 meses.
- Isso acontece até com gente de bem. - Papai... Pare ou vá embora.
Isso não é engraçado para ninguém.
Eu sempre vivi com a minha mulher
e não imagino outra pessoa no lugar dela.
Eu vendi tudo: propriedades, casas, apartamentos...
móveis...
Tudo liquidado. Em dinheiro líquido.
E fui embora.
Andando a esmo...
dias inteiros.
E noites também.
Uma noite, passei na frente de uma boate bem estranha.
Devia ter tido cuidado por estar com muito dinheiro, mas eu entrei.
Eu bebi...
Mecanicamente, um copo atrás do outro.
Só depois fui perceber que era uma boate gay.
O acaso sempre leva a culpa.
O senhor gosta de simplificar as coisas, não é?
Com certeza.
Quanto mais a gente envelhece, mais a gente tende a simplificar tudo.
Mas continue.
Conte a sua experiência gay.
Eu estava no bar...
Despertando mais pena do que desejo.
Enfim, não em todos.
Aí, o Laurent chegou e...
e me disse: "Não deveria ficar aqui, senhor."
Eu nem vi como ele era.
Quando chegou aqui, ele viu a bagunça toda.
Ele esvaziou os bolsos, tirou uma porção de notas
e nós transformamos, como você cantou,
o seu barraco num palácio maravilhoso.
Ele tem muito jeito para reformas.
Se o problema era dinheiro, você podia ter me pedido.
Você acha que o meu dinheiro é fedido?
Por que ele deu esse dinheiro?
- Em troca de alguma coisa? - Ainda estou conhecendo você.
Ato espontâneo não deve fazer parte do seu vocabulário.
Sim, foi uma troca, é claro.
Ganhei um teto,
um amigo que não me pede nada,
um amigo para conversar,
mesmo quando a gente só troca um "bom dia"...
Mas nunca...
nunca ele me falou do senhor.
Estou começando a entender por quê.
Vá embora agora.
Não.
Se quiser, vou embora amanhã cedo.
Eu não invadi a sua casa. Só estou descansando um tempo.
- E como estou na sua casa... - Casa dele!
Aqui é a casa dele.
E paciência se ele for embora e me abandonar aqui.
Ele tem todo o direito.
- Eu não sou seu rival. - Acha que tenho ciúme? De quem?
O meu filho é um fantasma para mim. Ele não existe.
Vamos dar um tempo.
MAIO DE 2012
Talvez a Simone.
Simone, com certeza.
Estou enganada, ou faz 8 anos que você não vem me visitar?
Não vai responder?
Tudo bem. Não é porque perdeu a noção.
- É porque tem vergonha. - Sim.
E eu sei por quê.
Você nunca ousou me contar que está com aquele inútil do Laurent
que nunca soube o que fazer com seus 10 dedos.
Ele ainda tem os 10?
Caramba! Ria um pouco.
Antigamente, nos bons velhos tempos,
você adorava os meus ataques, as minhas extravagâncias.
- Não tenho mais espírito para isso. - Você nunca teve espírito.
Arrogância, sim.
E como vai a sua empresa?
Você acha que sou clarividente?
As pessoas sabem de tudo nos vilarejos.
Bom... O que você quer?
- Dinheiro? - Não.
- Dinheiro não me importa. - Melhor assim.
Vai fechar a empresa? Vender sua casa?
Ainda não chegou a hora.
Você mente com muita facilidade.
Eu sou apenas a sua cunhada.
Desde a morte do seu irmão Armand que você me evita.
Não foi uma surpresa. Nós nunca fomos muito amigos.
Mas enfim, eu existia.
Eu existo mesmo sem ele, não?
Um beijinho no cemitério e depois, mais nada.
Você nem se preocupa com a sua sobrinha.
A Mathilde?
Eu a vi pouquíssimas vezes.
Que absurdo... Você nunca olhou para ela.
Agora olhe.
Você não a reconhece?
Ela é muito bonita.
- Ela nunca me procurou. - Timidez. Você a impressiona.
Ela foi embora com o marido e a filha para a China.
Ela foi aprender pintura.
Pintura como ela idealiza: realista, realista, realista!
- E? - E nada.
Bom...
Se não foi por causa de dinheiro, não foi por minha causa também.
Por que veio até aqui?
Eu queria...
o endereço da Marguerite.
E por que eu o teria?
Você tem.
- Continua de caso com ela? - Jamais... Eu acabei com tudo.
Apesar das suas... distrações?
Apesar delas.
Apesar de tudo.
- Você não vai fazer merda, não é? - Pelo contrário.
Bom...
O prazer do amor
Dura apenas um instante
A dor do amor...
Dura a vida inteira
Eu não deveria confiar em você. Você já fez muitas besteiras.
Desta vez eu não vou perdoar você.
Obrigado, Simone.
Obrigado.
Esse bobão vai chorar...
"Eu sei o que você vai pensar, Marguerite.
Que o tempo não conserta as coisas."
Está vindo de onde... com essa garrafa térmica?
É para o meu chá.
- Seu chá já está aqui. - Agora que eu vi.
- Você está esperando alguém? - O Messias.
Você nunca vai mudar.
"Marguerite...
Sim, eu sei o que você vai pensar.
Que o tempo não conserta as coisas, que meus erros são imperdoáveis,
mas eu não estou querendo ser perdoado".
Está gastando energia à toa. Isso nunca vai dar certo.
- Me deixe terminar a carta. - Tudo bem. Termine a sua carta.
"...não estou querendo ser perdoado. Eu quero simplesmente..."
Quer dizer que estou gastando energia?
Sim, eu acho.
- E como é que você sabe? - Eu sei e pronto.
- Você está me cansando hoje. - Eu já percebi.
Fique aí com a merda do seu jogo... Está me ouvindo?
Quando fala sozinho, eu ouço você.
Mas não posso dizer que estou escutando.
Merda...
E por que não vai dar certo?
Por que não vai dar certo...
Quer mesmo que eu responda essa pergunta?
Acho que você é bem perspicaz para saber a resposta, não?
- Você, que diz que sabe de tudo... - Sim?
sem nunca ter aprendido nada,
qual é a dificuldade de viver?
Isso não me interessa.
E então?
Não poder aproveitar os benefícios da morte.
ABRIL DE 2013
Qual é o seu nome?
O meu é Alex Dupin.
Não estou a fim de brincar.
Não entendi direito. Não está a fim de brincar ou de gozar?
Seu sorriso vale mais que um "vá se foder".
Como prometi, estou aqui.
Mas apenas por obrigação, pelo que parece.
Eu sabia que ia ficar chateado. Não podemos ir pra minha casa.
Por quê?
O seu pai fica vigiando você ou tem um relacionamento secreto?
Eu tenho um relacionamento, mas não é secreto.
Não é o que você imagina.
Estou com uma pessoa no meu barraco, como diz o meu pai.
O meu não é tão lacônico. Ele se chama Boris.
Talvez um dia você o conheça.
- E esse relacionamento é importante? - É importante.
- Para você ou para ele? - Nada a ver.
Ele ficou em casa um tempo, me ajudou a reformar a casa.
Ele não é do meio.
Para ele é só um remédio para a depressão e para mim...
é um relacionamento como eu nunca tive.
Bom...
nós sempre transávamos lá em casa.
Como não podemos mais, precisamos achar outra solução.
Entendi. Não sei como dizer adeus.
Nesse caso, adeus.
Você não me conhece, mas isso não tem importância.
Boris Dupin.
Entre outras coisas, eu vim devolver as suas chaves.
Está esperando alguém?
Eu sou o pai do Alex.
Alex... Você ainda lembra?
Não fique preocupado. Eu não vim pegar o lugar dele.
O estilo de vida dele não é para mim, mas eu respeito.
Sinceramente, não sei o que ele viu em você.
- Pergunte para ele. - Sim, está certo.
Você está certo.
Se bem que...
É você que faz a comida ou compra tudo pronto?
Muito refinado.
Acontece que o Alex está à beira do abismo e isso não é figurativo.
Ele está muito triste.
Você tem tinto bom aí?
Uma taça de vinho cairia bem.
Está certo.
Está certo.
O que podemos falar para ele?
Esse seu adeus foi um capricho ou não?
Eu não lhe devo explicações.
Isso é evidente.
Isso é evidente, mas...
precisamos encontrar um remédio. Já sei!
Você encontrou a mulher da sua vida e vai casar com ela.
Não?
Pode ter sido o seu pai.
Também não?
Isso é lamentável.
Lamentável...
Além de tudo, ele pinta!
Eu nem arriscaria tentar.
Já entendi. Filhinho de papai e...
Não é tão complicado.
Diga que você encontrou o seu grande amor.
Um rapaz, um rapaz bonito...
Vamos encontrar algum. Eu pago para ele.
Não?
É lamentável, muito lamentável...
Você faz ideia?
Tem obrigação de me ajudar!
O Alex está à beira do abismo, à beira do suicídio!
Como podemos resolver isso?
E então?
Por vários motivos, eu me sinto incapaz de ressuscitar os sentimentos
que não tenho mais em mim.
Quer dizer que é definitivo...
Mas eu sei como é. Eu já passei por isso.
Quando a mãe do Alex me abandonou, eu sofri muito.
Um mês, um dia... Os anos foram passando e...
Me perdoe... Ela está aqui.
Ela está aqui e não quer sair. Isso é terrível...
Você tem razão. Vir procurar você pode ter sido um erro.
Não tem uma taça de vinho tinto?
A todos os apaixonados que sofrem!
Adeus.
Laurent?
Merda... O que ele está aprontando agora?
- Laurent! - Estou aqui embaixo!
Você demorou para subir.
Bom...
Eu preciso ir ao médico.
Você pode me acompanhar?
- Não, eu... - Tudo bem, tudo bem. Já entendi.
Me espere no escritório, por favor.
Tenho uma coisa muito engraçada para contar.
Você vai ver.
Engraçada?
Com licença?
O Pierre me pediu para devolver as suas chaves.
OUTUBRO DE 2013
Ele foi embora para sempre?
É melhor você ler esta carta.
- Estou incomodando? - E se estivesse?
Qual é a piada?
Você sabia que a sua bisavó morreu com quase 110 anos?
E que antes de morrer ela insistiu em vir ver você no seu berço?
Ela olhou para baixo
e depois de um momento de reflexão, ela disse:
"Se não me falha a memória, é um menino."
Está inventando isso.
É a pura verdade.
E a minha moeda? Como você achou?
Por acaso ou dentro da gaveta?
Do que está falando?
Da minha moeda, que estava na gaveta de cima e agora está na de baixo.
Como você.
Se essa é a piada, eu não vejo nenhuma graça.
Não acharam o endereço indicado.
Eu avisei.
Você é tão seguro de si...
Escrever para ela...
Não acha que ela já sofreu bastante?
Quando amamos de verdade,
o sofrimento deve ser compartilhado.
Você a traiu e agora quer parar de se sentir culpado.
Não...
Não...
Eu só tentei preservar a pureza do nosso amor
de um jeito meio infantil.
Ou meio imbecil, talvez.
Mas dessa culpa eu não me arrependo. Eu assumo a responsabilidade.
Assumo porque ela me deu um filho: você.
- Pode guardar esse carinho. - Você guardou o seu para outro.
Para aquele Sr. Pierre...
de quem nunca mais ouvimos falar.
A história de amor já terminou?
Sob a luz do luar Meu amigo Pierrot
Me empreste a sua caneta Para...
Para?
Você é engraçado quando quer.
Um pouco vulgar, talvez.
E quem é ela?
Uma atriz.
Eu a conheci muito bem.
Mais uma.
- Você fechou a porta direito? - Sim...
Vá verificar. Eu já vou lá.
Isso não é nada católico...
Uns 4 euros, no máximo.
É falsa. Isso nem quebra.
Uma bugiganga.
- Ganhou isso em alguma quermesse? - Já estava aqui quando comprei a casa.
Como entrou aqui?
Fechaduras... Minha especialidade.
- Quantos controles remotos tem a TV? - Três.
- A cabo? - Satélite.
No máximo 200 euros. É uma merda.
Minha mulher e eu sofremos para ajustar a imagem e o som.
E este pequeno barômetro...
É a mesma merda. É só enfeite. Ele nem funciona.
Se você guarda de lembrança, tudo bem.
Ah... Isto aqui...
Isto aqui é diferente.
Não é de um grande artista...
mas é uma bela peça do começo do século.
- Pode chegar a... - Coloque no lugar.
Mandei colocar no lugar. E rápido.
Eu sei quem mandou você.
- Parece que vai atirar mesmo. - Sem pensar duas vezes.
- Cuidado! Você não está sonhando. - Coloque isso no lugar e vá embora.
Ele vai atirar mesmo...
Não faça besteira, meu querido.
Vou me apresentar: Isidore Dupin.
Não é "do pão", eu não sou padeiro. Já fiz a piada antes de você.
Oficial de justiça.
Aposentado.
Ou emérito. Não sei qual é o termo certo.
Os dois termos estão certos.
Parece que conhece esse Dupin. Quem é ele?
- Uma família inteira. - Como?
Você não vai entender.
Tudo bem.
Podemos conversar calmamente?
Podemos.
Então, vamos sentar para ficar mais à vontade.
Como eu estava dizendo,
eu não estou mais na ativa, não exerço mais essa profissão.
Mas ainda lembro de algumas instruções.
Pensem bem...
depois de 32 anos e meio de profissão...
entrando em imóveis deploráveis, em mansões um pouco mais espaçosas...
Aliás, falando disso, a sua está uma maravilha!
- E acho que ainda não vi tudo. - Certamente...
Ela é grande, bem grande.
Mas o que veio roubar aqui?
O que veio fazer aqui?
Não fiquem tensos. Eu não vim para con...
Para confiscar nada.
Hoje em dia, o problema recorrente na nossa administração
não é a pura ganância dos fiscais, é a incompetência deles.
Eles taxam, não importa como, qualquer um, qualquer coisa.
Nós, os oficiais, trabalhamos para ganhar nosso salário.
Trabalho sujo. Desculpe, adoro um sarcasmo.
Não se prive disso. É tudo que resta
para vocês, os velhos.
Portanto, neste caso, meu caro Laurent,
o seu rifle não serve para nada.
E ele não vale muito.
- E neste caso, o seu trabalho é...? - Aconselhar vocês.
Posso ensinar tudo que aprendi. Pode ser útil para vocês.
Vim ajudar vocês.
E tudo que aprendi não é nada bonito. Meu trabalho era vergonhoso.
Mas era bem pago.
Excelente!
Vocês que fazem ou pedem para entregar?
Bem pago? Exato.
Mas nunca tive dinheiro...
para comprar uma casa como a sua.
Mas não tenho do que me orgulhar.
Pensando bem, a única vez que tive prazer em fazer esse trabalho
foi na casa de um contrabandista.
É lógico que tudo que tinha lá não era dele.
Ele tinha documentação para provar que os móveis e objetos da casa
eram de outras pessoas.
Portanto: bens "inconfiscáveis".
Como um bem pode ser considerado "inconfiscável"?
É só usar o truque que eu falei.
Colocar no nome de outra pessoa. Um amigo, um conhecido...
Um cliente.
Outra coisa importante.
No caso de confisco,
nós não podemos destruir as dependências.
- Os dependentes? - Não, as dependências.
O que não passa pela porta
ou pelas janelas, não pode ser confiscado.
A não ser que os móveis da casa sejam desmontáveis.
Agora, estou pensando...
Vocês precisam estreitar a porta 40cm e as janelas, uns 25cm.
Ah... A porta balcão!
Precisam murar rápido.
E se confiscarem a casa?
Você é bem pessimista.
O que deu nele?
Acho que ele corre bem rápido para um aposentado.
Está estufado também?
Continue sonhando acordado e me conte mais tarde.
Idiota...
Minha cabeça...
"Não quero quebrar a cabeça" era o que um operário meu sempre falava.
Deu azar...
Ele caiu de um andaime de cabeça para baixo.
A vida é cruel.
PARA LER CONFIDENCIALMENTE
É fácil dizer que o acaso não existe.
Eu sempre fui contra essa afirmação.
Até a noite em que encontrei você naquele lugar
no qual eu não tinha motivo algum para estar.
Quando me dei conta de onde estava, eu comecei a rir. Você deve lembrar.
Você me pegou pelo braço e disse, seriamente, calmamente:
"Não deveria ficar aqui, senhor", ou alguma coisa parecida.
Já na rua, veio a sucessão de mentiras:
minha esposa morta, meus bens vendidos...
Era tudo tão inverossímil
que eu esperava uma reação sua, que ficasse com raiva.
Em vez disso, você ficou me observando com tamanha inocência
que me deixou extasiado.
Quase que sexualmente.
Na noite seguinte, com você tão próximo de mim, sem camisa,
até considerei tentar um gesto.
Mas você estava dormindo com a boca aberta como uma criança.
Eu não tive filhos.
Meu desejo estranho se transformou em afeição paternal.
É inacreditável...
Você me obedecia silenciosamente, cegamente.
Estas palavras não estão aqui por acaso.
Quem iria aceitar sem pensar pegar o seu carro,
ir até um lugar e voltar, com instruções na mão,
para trazer tudo que eu pedia?
Eu me perguntei:
"Ele está brincando comigo? Ele confiou em mim espontaneamente?"
O material chegou e começamos a trabalhar como bons camaradas.
Quando tinha terminado, uma manhã, você entrou no banheiro reformado.
Eu saí do chuveiro nu.
Você pediu desculpas e fechou a porta.
Como um idiota, eu me pus a chorar sobre a pia.
Eu também chorei.
E nunca soube por quê.
Ficou bem claro.
Foi confirmada a minha necessidade de ter um filho como você,
a vontade de ter uma relação simples e direta.
Eu queria acreditar que você também precisava de um pai como eu.
E ele apareceu, o verdadeiro.
Quando me apresentou a ele,
mesmo vendo que ele era impetuoso, seco e rabugento,
eu compreendi que jamais poderia ocupar o lugar dele.
As minhas mentiras não tinham servido para nada.
Por que você não se abriu?
Agora, eu preciso encontrar a minha verdade
longe de você, que me reconciliou com o mundo.
Eu sei que estou sendo muito formal,
mas era necessário que eu falasse com você assim.
Você jamais vai saber do meu paradeiro, dos meus novos erros.
Onde quer que esteja eu guardarei comigo,
veja bem como você me deixou sentimental,
aquela sua foto que eu tirei enquanto você dormia...
confiante, tranquilo.
A minha única satisfação nisso tudo
é que o seu "barraco" ficou bonito e combina muito com você.
Titio, você está aí?
- Olá. - Olá.
- Eu sou a filha da Simone. - Eu sei, prima.
Se está procurando o meu pai, ele está no jardim lá de cima.
Desculpe. Pensei que ele morasse aqui.
Sim, mas não aqui.
- Acho que estou incomodando. - Não.
Quer dizer, está. Eu estava perdido nos meus pensamentos.
Mas não é nada grave.
Quanto ao meu pai, é melhor voltar num dia sem chuva.
Ele está dormindo.
E tem mais, ele detesta ser acordado.
Precisa ter paciência.
- Bom, eu vou indo. - Não!
Me dê um conselho antes.
Eu não sei como abordá-lo.
De jeito nenhum.
Engraçado... Tudo que eu ouvi falar de você
não parece corresponder com o que você é.
E o que eu sou, na sua opinião?
Um cara direto e atencioso.
- Onde está vendo isso? - No seu rosto, nos seus olhos.
Vamos ser amigos.
Por quê? Acabei de conhecer você.
A ocasião não poderia ser melhor.
Vamos deixar o preconceito de lado.
Você é uma mulher linda.
O dorminhoco se mexeu.
Eu vou indo.
Taratatá!
Eu não estava dormindo.
E ouvi tudo.
Não perca o seu tempo com o Laurent.
Se está tentando me seduzir, não é assim que vai conseguir.
O senhor é bem fiel à sua fama.
Eu tenho fama de muitas coisas.
Qual delas?
De grosseiro.
Ah, essa?
Não é a pior.
Eu prefiro a franqueza às... circunlocuções.
O que você quer? Dinheiro?
Que mundo é esse?
Todo mundo acha que eu sou rico.
E mesmo que fosse verdade...
- E por acaso não é? - Sou... e não sou.
Não, para os interesseiros. Sim, para os que eu amo.
Eu tenho uma surpresa para o senhor, meu tio. Aliás, duas.
Duas?
Aí já é demais.
Eu tenho 4 filhas.
Mona, Mado, Malou
e a mais velha, Marielle, 15 anos, que está aqui.
Dê um beijo no seu tio.
Eu sou pintora.
Eu me esforço para ganhar a vida assim,
para não depender do meu marido.
Eu escolho os meus modelos na família.
Já pintei a Simone, o Armand...
Quanto?
O quanto achar conveniente.
Me conte, vovô O que o senhor sabe da vida
E me passe um pouco Da sua sabedoria
A velhice não é uma doença
É um tesouro De segredos escondidos
E de ternura
Eu estou apenas começando A conhecer os adultos
E perto do senhor fico vibrando
Com a ideia de ouvir o senhor Revelar para nós
Alguns dos seus segredos
Fale da sua vida Das mulheres que amou
Fale sem rodeios Das suas dores de amor
- Eu já passei dos 20 anos - Eu ainda não cheguei lá
Antes de irmos embora Fale sobre a sua Marguerite
Ela foi para o senhor O seu amor e a sua lei?
Por que tantas mulheres
Se o senhor amou só uma?
Por que tantos dramas E juras de amor sob o luar?
E por que esse Laurent
Já que tem tantos filhos?
Vou pagar 10.000 euros e sumam da minha frente!
Tantos filhos...
A Simone deve ter falado para elas do Ferdinand e da Astrid
e talvez até da Janine.
Por que fica exibindo esta coisa horrorosa?
Para não me arrepender da minha juventude. Está feliz?
Papai, só vou ficar feliz no dia em que me contar a verdade.
Lá vem a intendente.
Intendentes, meu querido filho,
são oficiais do Exército que entregam suprimentos.
Justamente. Ele está trazendo um bolo.
Não vá embora!
A partir de agora, quero que você me ajude na empresa.
Obrigado por não terminar a frase com "pois nunca se sabe".
Gostei do seu terno. Custou caro?
Vai a alguma festa?
Olá, rapazes!
SUZANNE. ABRIL DE 2014 - Paciência se cheguei na hora errada.
Para os gulosos!
Estou vindo do seu contador.
Situação difícil.
E no trabalho o pessoal está comentando.
Comentando ou falando mal?
- Rodolphe, está me escutando? - Não, estou ouvindo você.
Você devia sair da toca e ir falar com os seus funcionários.
Sobre o quê?
Da chuva, do sol...
Para eles acalmarem. Largue isso. Me dá agonia.
Azar seu.
Como é?
Vai agonizar de agonia.
Esse joguinho de palavras me enche o saco.
Não reclame. Tem gente com muito mais problemas nessa profissão.
Quanto ao resto,
o seu trabalho é principalmente me isolar da "horda".
E se eu pedir demissão?
Mande isso por escrito numa carta registrada, datada e assinada.
Isso não vai demorar, estou avisando!
Agora que estou bem informado, vou para a minha ilha.
Você foi ótima, minha linda!
Vamos, não me faça esperar.
Eu jamais pensaria em abandonar você.
Vamos, não me faça esperar.
A minha mãe dizia:
"O Rodolphe pode ter vários defeitos,
mas continua fiel sempre à sua maneira."
A sua mãe era uma mulher admirável.
Ela fez muito bem de me abandonar.
Mesmo assim, continuamos amigos, o seu pai, ela e eu.
Eles eram muito felizes e inseparáveis.
Mesmo depois daquele acidente estúpido.
Nós estávamos indo encontrar com você em Toulon.
A sua mãe estava cantando uma música da Dalida.
- Sobre uma velha apaixonada. - Pare de se culpar.
Você foi o único sobrevivente do acidente. Foi acaso, não sorte.
E tenho novidades!
Eu duvido...
- A Simone mentiu pra mim? - Não...
A Simone não mentiu.
A Marguerite se mudou e eu sei para onde.
- Você a viu? - Como estou vendo você!
Eu estava almoçando no Zeyer. Conhece?
Na Place d'Alésia.
Nós nos abraçamos, a Marguerite me...
deu uma bronca porque nos vemos pouco,
e foi assim que consegui o endereço novo dela.
- Ela estava sozinha? - Sim.
O que você estava fazendo em Paris?
Eu queria me distrair.
Laurent!
SETEMBRO DE 2014
Essa cerca é uma piada.
Todos os cães da vizinhança vinham cagar no meu quintal.
- Os gatos têm permissão? - Os gatos têm permissão.
Sempre gostei mais de gatos. Desculpe.
Devíamos...
ter podado a cerca-viva.
O que a Suzanne falou para você no carro?
Os funcionários foram pagos...
ela vendeu a empresa e foi morar com o namorado em Paris.
Pensei que ela nunca fosse me abandonar.
As mulheres gostam de variar.
Talvez seja melhor assim.
- Com certeza é melhor assim. - É claro que você prefere assim.
- Vamos... - Não encoste em mim!
- Você está cambaleando. - Vá à merda!
- De onde tirou esse casaco ridículo? - É seu.
Não é tão feio.
- Agora não é mais ridículo? - Talvez não.
Eu pensei...
que nunca mais ia voltar aqui.
É, mas você voltou.
E você?
Enquanto eu estive no hospital, o que você fez?
Cabulei aula.
Como as crianças que estamos ouvindo?
Como quando você era pequeno?
Foi o que me contaram.
É verdade.
Aprendi mais com as flores e os animais do que com a tabuada.
Você prefere a natureza.
Árvores e flores...
Árvores, árvores e flores...
Por que não?
Espere!
Estou estufado.
Estou estufado, merda...
Sabe...
quando a minha mãe se sentia mal, ela dizia:
"O que Deus está esperando para vir me buscar?"
- Pensei que você fosse ateu. - Ateu?
Bem convicto.
Espere... Espere...
Com toda essa merda, não posso esquecer o cheque do Ferdinand.
E a Janine que não aparece mais?
Droga! Eu gostei muito dela...
Vai ficar melhor assim. Foi a enfermeira que me disse.
- Quem é você? - E você?
Laurent. Muito prazer e adeus.
- Vai insistir em entrar? - Sim, eu vim para isso.
Nesse caso...
Deve ser um mal-entendido. Estou na casa do Sr. Rodolphe?
Até parece que não sabe.
Levante as mãos, rápido!
Abaixe a arma. Não tenho medo de nada. Só de aranhas.
- A empresa foi vendida. - Que empresa?
Você não é oficial de justiça?
Não, vim visitar o Sr. Rodolphe por motivos particulares.
Quem é, Laurent?
Eu me chamo Ferdinand.
Venha sentar.
Então você é o filho que eu tive com a Janine?
Sim...
- e não. - Sim ou não?
Sei que passou a enviar dinheiro depois que eu nasci
para que ela pudesse me criar melhor.
Ela não quis que eu reconhecesse você.
É por isso que estou aqui.
Quer que eu reconheça você agora?
Nem sim, nem não.
Eu não sou seu filho.
Não estou entendendo mais nada.
A sua mãe foi...
uma das minhas primeiras experiências.
Eu fui imprudente
e você está aí.
Ela não queria nem ouvir falar de casamento.
Ela me expulsou da vida dela.
Eu sempre preservei a minha honra.
Eu enviava cheques todo mês, mesmo depois do...
- O último foi há duas semanas. - Ele está aqui.
É verdade que você já é adulto.
Aqui tem outro.
Um outro cheque?
Eu falei que não era seu filho e é verdade.
Minha mãe não queria ouvir falar de você.
Deve saber por que, mas eu não sei.
Resumindo, ela abriu uma conta com todo o dinheiro que você mandou.
Tudo isso para não magoar você, que queria tanto ser o meu pai.
Ela morreu no mês passado.
Ela também?
Eu vim devolver o que você enviou enganado para mim.
Tudo isso?
Eu tenho 65 anos.
- Escute, isso é muita gentileza. - Não... É normal.
Podemos nos beijar, não?
A minha mãe adivinhou que ia terminar assim.
Extremamente generoso esse seu amigo. E você...
é um safado cheio de segredos.
Pensa que não vi você espiando atrás da porta?
Que pandemônio a minha vida!
Parece que tenho uma colmeia de abelhas na cabeça.
ABRIL DE 2015 - Vou receitar morfina
em doses controladas. Você vai cuidar disso.
Não tem nada pior do que cuidar de um velho doente ranzinza.
Não é dele que você precisa cuidar, é dos medicamentos.
Eu lhe devo quanto?
Nada. Conheço o seu pai desde que comecei aqui. Sempre gostei dele.
Essa é a minha maneira de demonstrar isso a ele.
Mesmo que ele não precise saber disso.
É por isso que não quer me dizer o que ele tem?
Não.
Se estiver interessado, vou pedir uma fundoscopia.
É claro que vamos confirmar com uma IRM,
mas estou pensando num tumor cerebral.
Precisa falar para ele.
Isso vai ajudar em quê?
Laurent!
Eu acabei de comprar duas passagens para Paris.
Chegou a hora de ir ver a Marguerite.
Quanto a você, Doutor...
não existe nada mais inútil do que precauções.
E quando sair,
trate de parar de relinchar porque minha cabeça está estourando.
Por que o senhor veio?
Vai me tratar por senhor?
Como trato todos aqueles que não gosto,
mesmo que os tenha visto mil vezes.
E então?
Eu estava...
precisando contar a minha história.
- As mentiras habituais... - As mentiras já ficaram para trás.
E você pegou o trem de alta velocidade.
Estou contando os minutos.
- Você sempre contou. - Com quem?
Não tente ser divertido.
Fale logo.
Tudo? Não estou disposto.
Só uma coisa
para lhe fazer justiça.
Justiça?
Você dizia que me amava e casou com a minha irmã.
Queria ter filhos comigo e teve um com ela.
Se veio para revê-la, veio à toa.
A Anémone foi para os EUA.
Eu sei muito bem que ela morreu.
Você se sente aliviado?
Maggie...
Você esqueceu de tudo?
Maggie, Mag... Não. Eu não esqueci de nada.
Nossos passeios na floresta...
nossas mãos entrelaçadas, seus beijos castos...
sua voz tão suave...
como a lã das nuvens.
"Você foi, para mim, o meu primeiro ideal,
a minha primeira razão de viver.
Você é tudo para mim.
O sol que me aquece,
o ar que respiramos e que nos revigora,
a alegria que exalta,
o bálsamo que alivia,
e o prazer que satisfaz.
Quando vejo você fazendo as suas preces,
com o véu sobre os cabelos, chego a acreditar em Deus.
Nem o tempo pode enfraquecer o meu amor."
E agora, vá embora.
Se é o que deseja...
O que eu desejava você massacrou junto com a minha adolescência.
O Laurent veio comigo.
Quer falar com ele?
Sim, mas isso não vai mudar nada para você.
- Quer uma taça? - Não.
- Faz tempo que anda bebendo? - Faz.
Desta vez, você vai falar sobre a minha mãe?
Ela é que devia ter falado sobre mim.
- Ela era a mais velha. - Eu sei tudo isso.
O que você não sabe
não é nada bonito, portanto...
é melhor nem lembrar.
Me diga como está sendo morar com o seu pai.
Péssimo. Eu mal o reconheço.
Se é que alguma vez conheci.
Mas foi você que decidiu ir morar com ele.
Eu fico me perguntando por quê.
Você sempre foi preguiçoso.
Vai ficar com a fortuna dele.
Ele não tem um tostão.
Ele não conversa muito comigo.
Tem a propriedade.
Ela vale muito. Você pode vendê-la um dia
e se quiser, pode vir morar na minha casa.
Jamais.
Eu não sou seu filho,
nem quero acabar virando, minha tia.
Você é cruel assim com o seu pai?
Na minha opinião, não o suficiente.
Eu não suporto a afeição dele.
Muito menos o jeito como ele me olha, como se eu fosse propriedade dele.
Eu não sou propriedade de ninguém.
Eu compreendo.
Só peço para não torturá-lo muito.
Por que você ainda o ama?
Não se faz esse tipo de pergunta.
Preciso ir embora. Ele vai ficar impaciente.
Só um minuto...
Quando você era pequeno, na escola aqui ao lado,
um dia eu perguntei: "Quanto é 1 mais 1?"
E você respondeu:
"1, às vezes 2, ou muitos mais."
Eu não lembro disso.
Aliás, não gosto de lembrar das coisas.
Ninguém vai mudar esses dois.
O que a Marguerite falou de mim?
O que a Marguerite falou de mim?
Vá se deitar.
Se não responder,
pode arrumar suas malas.
OUTUBRO DE 2015
Papai!
Papai!
Papai, pare!
- Ou vou ligar para a Emergência. - Calma, meu filho.
Foi só para ver a sua reação.
Você é realmente um escroto.
Pode ser...
Você vai ver mais tarde como é divertido ficar velho.
Você baba, urina na calça,
não consegue dormir porque as lembranças não deixam...
E o remorso...
Ou a satisfação plena, às vezes.
Você levanta várias vezes à noite para ir mijar.
E se finalmente você dorme...
os pesadelos vêm para cima de você.
Eles atacam o seu cérebro incoerentemente, sem piedade.
Você me manipula.
É o último prazer que eu posso lhe oferecer.
Você finge que fica furioso comigo mas...
mas não ousaria me internar numa casa de saúde, não é?
- Não me desafie. - Você jamais teria coragem.
Vamos correr de novo, papai?
Eu acho que
observei pouco a natureza.
Eu errei.
Ela é tão bonita...
Tão apaziguante...
Vamos entrar.
Está doendo?
Sim...
Dói tanto que sonhei que tinha sido decapitado esta noite.
Tem isto aqui.
Mas eu não vou conseguir. Não pode me ajudar?
Você falou de coragem? Onde está a verdadeira coragem?
Agora chega. Eu vou arrumar as suas coisas.
Me leve até a beira do mar.
- Beba. - Me deixe em paz!
Vai fazer bem para você.
Ele não era muito falante
E estava vivendo de ar
E muitas vezes eu devo ter perdido
A ocasião
Ele falava pouco, mas o seu olhar
Dizia mais do que ele queria
Talvez ele só estivesse esperando
A ocasião
A ocasião
Com seus pequenos olhos azuis
Vasculhando as minhas lembranças
Nada na Terra é mais obscuro
Que a sua história banal
Sob os seus cabelos brancos
Ele guardava os amores da sua vida
Mantendo seus sentimentos isolados
Ele os preservava como queria
Para a ocasião
Para a ocasião
Ele não era nada encantador
E resmungava a maior parte do tempo
Mas eu esqueci de aproveitar
A ocasião
No entanto, às vezes ele falava comigo
Com doçura e sem motivo
Mas eu não soube provocar
A ocasião
A ocasião
Tenho na cabeça uma lembrança
Mais engraçada do que triste
Eu tinha me recusado a obedecer
E ele me chamou de terrorista
Sob os seus cabelos brancos
Ele guardava os amores da sua vida
Mantendo seus sentimentos isolados
Ele os preservava como queria
Para a ocasião
Para a ocasião
Essa ocasião eu acabei perdendo
O tempo passou muito depressa
Vou me odiar eternamente
Ele está indo embora
Ele está indo embora
Ele está indo embora
Ele está indo embora
Ele está indo embora
O IGNORANTE
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