All language subtitles for El Marginal S01E04

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Original subtitles

UMA SÉRIE ORIGINAL NETFLIX

Obrigado por ter vindo, Sr. Dr. Juiz.

Venho sempre a este restaurante.

As massas caseiras deles são ótimas.

Palacios, não tenho tempo a perder.

Não tenho prazer nenhum em ver-te, ainda menos com esse sorriso estúpido.

A minha filha está desaparecida.

Acho que foi um erro contratar dois desclassificados como vocês.

Para si podemos ser desclassificados, uns suburbanos, não é?

Mas o senhor, Sr. Dr. Juiz...

Usar a sua posição como juiz da nação para roubar um bando de criminosos.

Não sei o que é pior.

Vamos diretos ao assunto.

No momento em que lhe dermos informação sobre a sua filha,

o senhor irá poupar vários milhões.

Parece-me que o acordo que fizemos é um pouco injusto, não acha?

De quanto estamos a falar?

De trezentos mil dólares.

É menos de 10% do que está em jogo.

A vida da sua filha, claro.

E a vida do meu irmão que está em risco.

Vocês sabem onde está a Lunita?

-Depende. -Depende de quê?

Depende de se está disposto a pagar ou não.

Já não depende de se estou disposto a pagar ou não.

Agora depende de se estou disposto a deixar-te viver ou não.

Mãos ao alto! Polícia!

O Morcilla foi-se.

Morci? Vamos ver.

O paneleiro está a fazer-se de morto?

Não, está mesmo morto.

Ámen.

Que Deus o tenha.

O que te aconteceu?

Levei com um balde de óleo.

Certo.

O meu irmão diz para o metermos naquele frigorífico ali.

E se não couber, que o cortemos ao meio.

O que se passa? Faz-te impressão cortá-lo ao meio?

-Não, mas respeito os mortos. -Lá vem o santinho.

Que raio de mania que tu tens.

Que seca!

Isto tem de ficar em segredo.

Até que o meu irmão e o diretor resolvam o que fazer com o corpo do Morci.

Vamos a isso.

Estou a brincar. Vamos levá-lo.

Até que enfim, filho da puta.

Parece que é desta.

Não é, foi a número 17.

-Eu tinha-te dito que era a 17. -Eu é que falei na 17.

Disseste que a 17 estava na entrada da vila, idiota.

Vamos.

Achas que é o Morcilla?

Como pode ser o Morcilla?

A Luna disse-me que era um tipo gordo e que ela lhe deu.

Ela mentiu-te. Vendeu-te gato por lebre.

Tu disseste-me que o Morcilla estava todo cortado.

Sim, foram os tipos dos Sub-21. Vi-o no duche com o braço ferido.

Aqui está. É o Diosito.

Para, um pouco para trás.

Lá vai ele.

O filho da puta teve cuidado com a câmara.

Não, idiota. Não é o Morcilla.

E a miúda disse-te que foi o gordo.

Que piada, paneleiro.

Bingo. Filho da puta.

Lá está o César.

O tipo que esteve com a miúda é dos Sub-21.

Temos de investigar.

-É a esposa de Gustavo Sosa? -Sim.

Como está? Sou a Emma.

-A senhora Emma. Obrigada por me receber. -Não, por favor.

-Em que posso ajudar? -Estou um pouco preocupada.

Eu sei que fizeram tudo bem, explicaram-me tudo.

O diretor disse-me que não estiveram envolvidos.

-Mas... -Vem comigo.

Vamos sentar-nos aqui.

O que aconteceu?

A minha sogra recebeu uma chamada daqui.

A minha sogra não está bem, tem problemas de coração.

Eu vim cá na quarta-feira, para visitar o meu marido

e disseram-me que ele estava no hospital.

O diretor disse-me que não era grave.

-O diretor recebeu-te pessoalmente? -Sim.

O diretor foi muito atencioso. Disse-me que ele tinha uma gastroenterite,

mas que eu não devia dizer nada, porque era um vírus que havia aqui dentro.

E fui embora mais ou menos tranquila.

Mas depois recebemos aquela chamada. A minha sogra atendeu

e disseram que era daqui da cadeia. Ela pensou que era o Gustavo, mas não era.

Era outra pessoa.

Era alguém que não quis dizer o nome.

E disse que...

Que o meu marido morreu.

Que alguém lhe deu um tiro.

Mas não foi aqui na prisão.

Foi alvejado na rua, foi o que disseram.

Eu sei que deve ser alguém que não gosta dele,

por isso, é que disse aquilo.

Mas fiquei preocupada e vim para cá.

Tem calma.

Tem calma, vou ajudar-te.

Quero falar contigo, Kalina. Andava à tua procura.

Eu não percebo muito de métodos psicológicos nem nada disso.

Mas pelo pouco que sei, acho que estás a exceder-te.

Não faças cara de parvo.

Cuidado em seres demasiado amigo dos teus doentes, percebes?

Não, na verdade não estou a perceber.

Estou a dizer-te

que mostraste ao Diosito Borges o relatório da Emma.

O que diz ofende-me.

-É uma acusação muito séria. -Sim, são acusações muito sérias.

E posso denunciar-te, porque são muito graves.

E porque um doente teu ameaçou a Dra. Molinari.

E não posso permitir isso. Até permito outras coisas.

Por isso, tem muito cuidado.

Mantém esse anormal sob controlo. Não o deixes passar das marcas,

porque tu é que vais pagar as merdas que ele fizer.

Percebeste?

Não posso ser responsabilizado pelas ações de um dos meus doentes.

Podes, se fores cúmplice.

Não me assusto com facilidade, Lunati.

Caso haja dúvida, tomei as devidas precauções.

Não pense que sou um idiota.

Tu és um idiota.

Mas se estás a tentar extorquir-me, és o rei dos idiotas.

Várias pessoas sabem o que se passa.

Pessoas discretas, que não andam a contar os segredos.

A não ser que ocorra algum imprevisto.

Achas que me preocupo com o que as pessoas dizem?

A minha filha desapareceu. Temo pela vida dela.

Como se gostasse dela, Lunati.

Se temesse mesmo pela vida dela já teríamos feito um acordo

e não estaríamos a perder tempo.

Muito bem. Dou-vos o dinheiro que pedem.

Parece-me a decisão correta.

O meu irmão já tem alguns dados sobre o paradeiro da sua filha.

Onde está?

Não.

Não é que não confie em si,

mas gostava de assegurar o pagamento dos trezentos mil, primeiro.

Podemos fazer a operação hoje.

O senhor vai buscar o dinheiro

e vamos a um sítio onde tenho um cofre.

Não se preocupe, a sua filha está bem.

Assim que tiver o dinheiro, cumprirei a minha parte do acordo.

-Sabes onde ela está? -Não, eu não disse isso.

Eu disse que vou... que vamos cumprir a nossa parte do acordo.

Sai daqui.

Sai!

Maricas, viemos engravidar-te.

Vamos fazer-te uma pergunta, idiota.

Esta manhã no armazém da limpeza, cruzaste-te com um homem.

-Tinha um capuz, quem era? -Não sei. Porque me perguntam a mim?

O que estás a fazer, idiota? Porque me estás a bater?

-Cala a boca. -Seu filho da puta.

Não te armes em parvo. Sabes do que estamos a falar.

O homem veio de trás de ti, agarraste-o e abraçaste-o.

-Diz-me a verdade, paneleiro. -Chupa-me.

Não sou chibo.

-Cala a boca. -Para, não me batas.

Então fala, escumalha. Se não falas, dou cabo de ti.

Chupa-me.

-O que querem do César? -O que se passa?

Dou cabo de vocês.

Podem ficar com esse palito. Eu já comi, idiota.

Tratem deles.

Para onde estás a olhar?

Os teus dias aqui estão contados.

Baza.

Tu não sabes contar, colombiano?

Baza, idiota. Vá.

-Baza, idiota. -Baza.

Estás bem, puto?

-Estás bem? -Sim.

-Estás bem? -Sim, estou.

Estive a falar com a tua irmã.

Disse-me que não tem problema nenhum em receber-te em casa dela.

A sério?

Mas nunca falo com ela nem a vejo.

-Então, vai ser um reencontro a sério. -Sim.

O que diz o marido dela? Ele nunca gostou de mim.

Não sei, mas acho que ele decidiu dar-te uma oportunidade.

Foi ela que se ofereceu.

Olha, Emma,

não quero acabar com a tua esperança ou ser negativo,

mas não me vejo lá fora.

De que vou viver? Quem me vai dar trabalho?

O único currículo que tenho é ter estado aqui dentro toda a vida.

Há muita gente que te pode ajudar. Eu disse que temos muitos acordos.

E o que aprendeste de carpintaria pode ajudar-te muito.

Vou recomendar-te. Sabes que gosto muito de ti.

És muito importante para mim.

Sim, mas com a minha idade e com o meu passado, quem me vai dar trabalho?

O que se passa? De que tens tanto medo?

Porque não me contas? Vai fazer-te bem.

Estavas preocupado porque não sabias para onde ias.

Isso está resolvido.

Não sei.

Não sei, Emma. Não sou capaz.

Não.

Não sei. Já nem me lembro de como é estar lá fora.

Vou ter de aprender tudo, como uma criança.

Já nem sei atravessar a rua.

Não sei andar de autocarro.

E nem falar com um desconhecido.

Às vezes, imagino-me a passar a porta com o meu saco e...

Não sei.

Talvez esteja a ficar louco.

Sinto que me estão a atirar para dentro de uma jaula.

Além disso, estão aqui os meus amigos, a minha família do coração.

Estás tu.

E vou estar lá fora.

Tu também és da minha família de coração, sabes?

Vai correr tudo bem. Tem calma.

Mas que corte, amigo.

Uma coisa parva, foi eu que o fiz, como um idiota.

Os Borges andam muito agitados.

Um maluco meteu-se no armário das limpezas.

Tinha um capuz. Acho que sei quem era o idiota.

-O que queres, meu? -Nada.

Só para saberes.

Não me interessa o que fazes, Pastor.

Não te metas com aqueles idiotas.

-Tem cuidado. -Obrigado.

-Põe-lhe cebola. -O quê?

-Com cebola sara mais depressa. -Obrigado.

-Tenho de te pedir um favor. -Um favor?

Precisas de um favor? Como te posso ajudar?

Preciso que alguém da tua equipa veja o Verruga. Ele sai dentro de dias.

Lamento muito,

tenho a equipa toda exausta com os turnos, sabes?

Estou a pedir-te como um favor pessoal. É muito importante para mim.

Eu tento falar com ele, mas acho que falar comigo não chega.

Por favor. Ia fazer-lhe muito bem, a sério.

É bom que fales com ele... Fazes um bom trabalho.

Mas neste momento não posso permitir qualquer tipo de favoritismo.

Porque depois

qualquer coisa pequena, mínima,

tenho o Antín em cima de mim. Percebes?

-Certo. Obrigada por nada. -Por favor.

Que merda. Estou mesmo a precisar.

Tenho pouco dinheiro. O meu advogado está a pedir.

-Os advogados são uma seca. -Pois.

Sabes quanto pagam nas oficinas?

Na carpintaria ou...

São umas sanguessugas. Sacam-te tudo.

Anda cá, ouve.

Vamos, meu. Baza.

O meu irmão vai fazer uma cena em grande.

Se queres dinheiro, pergunto-lhe se precisa de mão de obra.

Está bem. Sim.

O que é?

Ele depois diz-te.

-Ele não confia em ninguém. -Certo.

-O que sabes fazer bem? -Adapto-me a qualquer coisa.

Tudo menos a jogar com os dardos.

Peña, tenho andado à tua procura.

Tens uma visita.

-Quem veio vê-lo? -A irmã.

A tua irmã? Ela é boa?

Anda cá, idiota. Somos da família.

E é aqui que introduzimos as variáveis de comportamento do estabelecimento.

Por exemplo, a taxa de mortalidade. A nossa é zero.

Não morreu um único recluso num ano. Somos um estabelecimento modelo.

Quero dizer, podemos fazer o que quisermos com o assunto do Sosa.

Ótimo, porque há um pequeno problema.

Qual é o problema?

Temos de pôr dois tipos.

Dois? O que queres dizer?

O Morcilla.

Juntou-se ao Criador.

-O que aconteceu? -Passei-me com ele.

-O que fizeste ao corpo? -Está no frigorífico da oficina.

O idiota não segurou o capô do carro e caiu-lhe na cabeça.

Podemos dizer que foi com o Sosa, que tentaram fugir juntos

e tiveram uma discussão.

O famoso ajuste de contas.

Como quiser.

Vou dizer à minha mulher para dar mais qualquer coisa à mulher do Sosa

para ela nos deixar em paz.

-À tua mulher, a sério? -São primas afastadas.

Que merda de família que tu tens.

Pastor, não sabia para onde te tinham mandado.

Sem se tocarem, por favor. Só podem dar as mãos.

Finalmente, encontrei-te.

-Quem raio és tu? -Foi o Lunati que me mandou.

-Onde está o meu irmão? -Não sei, mandaram-me a mim.

-Estás a magoar-me, larga-me. -Diz a verdade.

O teu irmão acordou tudo com o Lunati.

Mas não quer dizer nada até ele lhe dar o dinheiro.

Obrigada.

O Lunati vai dar-vos o que pedem.

Mas não quer negociar mais com o teu irmão.

-Quer que falemos os dois. -Nem pensar.

Sabes onde está a Luna. É evidente.

Temos de agir rapidamente. Não podemos perder mais tempo.

O Lunati pediu-me que apelasse à tua boa fé.

Fizeram um acordo de cavalheiros. Sabes que ele vai cumprir.

-Por favor! -Não.

-A vida da miúda está em risco. -Tratem com o meu irmão, mas rápido.

Porque eles vão transferir a miúda.

Têm de a resgatar quando a transferirem. Têm de estar preparados.

De agora em diante, fala comigo. Por favor.

-O Lunati diz para não o traíres. -Não tentem manipular-me com merdas.

O único que pensa na miúda sou eu.

Quando tiver pormenores, passo-os ao meu irmão.

Pensei em ti todo o dia

Quero mais

Tudo bem?

Marito, aqui o tens.

-Pastor. -Mario, como estás?

Senta-te.

Fica à vontade.

Traz o uísque.

-Como o queres? -Como tu o beberes.

-Traz dois. -Está bem.

Obrigado.

O meu irmão disse-me que queres trabalhar.

-O armazém não chega? -Sim.

O armazém é bom, obrigado.

Mas estou um pouco aborrecido de vender aos putos.

Procuro um trabalho melhor.

Com um pouco mais de ação.

Tinhas razão.

Ele é como nós.

Vês? Eu disse-te.

Ele tem uma cabeça boa.

Quero que saibas que sou muito generoso com as pessoas que trabalham comigo,

com os que se portam bem.

É por isso que todos querem trabalhar comigo.

Porque lhes dou uma oportunidade de crescerem.

Para de me tocar, deixa-me em paz.

Dou-lhes uma oportunidade de crescerem.

Eu partilho. Generosamente.

Podem levar uma boa vida.

Até aqui dentro.

Não te preocupes, Mario. Não te vou desiludir.

Ótimo.

-Bem-vindo à equipa. -Obrigado.

Bem-vindo.

Ótimo.

Quero que te juntes a uma coisa que estou a planear.

E se correr bem, a tua parte seria...

Oitenta mil pesos.

Chega-te?

Isso é muito bom.

Eu disse que sou um tipo generoso.

Bom.

Isto envolve transferir

alguma mercadoria, um pacote que tenho aqui na prisão.

É preciso levá-lo para uns quilómetros daqui.

São umas horas de viagem.

Não sei, pode surgir algum inconveniente, mas duvido.

Anda comigo.

Traz os uísques, Diosito.

Nunca se sai daqui de dentro.

Um recluso é sempre um recluso.

Como os polícias.

Uma vez polícia, sempre polícia.

Está escrito nas caras deles.

Na cadeia, enchemo-nos de ilusões.

Se nos portamos bem, estamos melhor preparados para voltar ao mundo.

Um mundo de merda.

É raro sair daqui com vida

e sem feridas que nos deitem abaixo.

E depois conseguir trabalho.

Ganhar o suficiente para sobreviver.

E ficar cheio de ilusões

ou de ódio, sem saídas.

A prisão entranha-se de tal forma que quando saímos a levamos connosco.

Lembras-me para levar o dinheiro à escola? À cooperativa.

-Sim, não te preocupes. -Sim, até logo.

-Até logo, adeus. -Obrigada.

Anda cá, meu amor. Ajuda-me a escolher.

O quê?

Onde queres ir? A Punta del Este? A Córdoba?

Ao norte, que ainda não conhecemos?

Não sei, já te disse que não tenho cabeça para viajar.

E além disso, Punta del Este?

Não temos autorização para o Lucas.

Ele não pode sair do país.

Já pedimos ao teu irmão que assinasse a autorização muitas vezes.

Então, vamos para o norte.

Para o norte?

Dizes-me porque temos de sair a correr, de repente?

Tenho o direito de saber.

-Já te disse. -O quê?

Apareceu-me uma oportunidade de negócio.

Isso não explica nada.

Confia em mim.

Não digo que nos vai dar para a vida toda,

mas se correr bem, podemos estar descansados uns anos.

É ilegal, não é?

É por isso que estás com medo?

Podes ter calma? Está tudo bem. Não há problema.

Vai fazer-nos bem descansar.

-Tenho de atender. -Claro que sim.

Eu levo isto.

Estou. Lunati?

Não fiques triste. Anima-te, querida.

-Falta pouco. -O meu pai pagou?

Não, menina, ainda não.

Em que estás a pensar?

Diz-me e eu trago-te um presente.

O que me podes oferecer? Sei que isto é uma prisão.

-Não vendem aqui merda nenhuma. -Adoro quando refilas.

Sempre em pé de guerra. É a minha menina.

Vamos falar um pouco.

Depois dou-te algo que te vai agradar.

Estou a pensar no meu pai. Não percebo porque não paga.

E a tua mãe?

Morreu há dois anos.

Que pena.

Se fosse viva, já estaria com ela em casa.

E se o meu pai não pagar, o que vão fazer?

O teu chefe disse que lhe ia mandar a minha cabeça embrulhada, como presente.

Não. Não te preocupes.

És mulher. A tua cabeça não vale nada.

Que piada parva.

Aqui ninguém te vai tocar.

O único que te toca sou eu.

Não te preocupes que estarás com a tua família em breve.

O teu papá juiz paga e nós soltamos-te.

O telemóvel para o qual ligou está desligado ou fora da área de cobertura.

O telemóvel para o qual ligou está...

Podes baixar essa merda? Está a dar cabo da minha cabeça.

Que se passa, mano?

Aprende a conviver. Isto não é um hotel de cinco estrelas.

Aprende a conviver tu, filho da mãe.

Parece que está a ter um mau dia.

Está a levar muito a sério o papel novo de idiota.

A música já está bem assim? Já não te incomoda?

Como estás? Só te faltam umas horas.

Sim, mas vou ser sincero, estou acagaçado.

-Acagaçado? -Do que pode acontecer lá fora.

Não pode ser pior do que cá dentro.

Eles vão fazer-me uma festa de despedida. Porque não vens?

Sim, claro que vou.

Também estás convidado, mas só se estiveres de bom humor.

Obrigado.

Foste à parte da prisão antiga?

Não, nem penso em ir lá.

-Tens alguém à espera lá fora? -Sim, a minha irmã.

Só não sei se ela quer mesmo ou se foi porque a Emma lhe pediu.

Estás quase a sair.

Vais voltar em breve ou pensas morrer antes?

Estás velho, Verruga.

Com tanta liberdade de uma vez vai-te dar uma coisa.

Que país generoso.

E pensar que antigamente as pessoas como tu eram mortas em jovens.

Controlo de população.

Entravam três, matávamos três.

E quem tinha o controlo éramos nós, os guardas prisionais.

Depois vieram os esquerdalhos de merda,

com a parvoíce dos direitos dos reclusos

e agora nós somos vossos criados.

O que vale é que temos um diretor com tomates,

que mantém os valores da velha escola.

Por isso, prepara-te.

Porque vais ter um bom baile de despedida.

Velho cagão de merda.

Espero que te deem um tiro na esquina.

Obrigado.

Menos dez.

Tens muita sorte.

Sim, uma sorte do caraças.

Por isso estou aqui em vez de estar com os meus amigos, não é?

Baralha tu, que sabes o que estás a fazer.

Nunca conheci uma miúda que jogasse tão bem às cartas.

Baralhas muito bem.

És assim em tudo?

-Há quanto tempo cá estás? -Há dois Natais.

Porque me raptaram a mim? O teu chefe conhece o meu pai?

Estamos a jogar às cartas ou é um interrogatório?

-És muito inquisitiva. -Quero saber.

O teu pai é uma espécie de sócio do meu chefe.

Estava combinado.

Resolveu uns quantos casos e deixava-nos trabalhar.

Mas um dia o filho da mãe lixou-nos.

Apanhou um carregamento de droga e muito dinheiro.

Como se diz aqui, ganhou uns trocos como juiz e lixou-nos a todos.

O pior foi que ficou com o dinheiro todo. Dinheiro que não é dele.

Não pode ser.

Não pode? Pensa bem.

A tua vida não melhorou de repente?

Não sabia que os juízes faziam visitas.

-Às vezes fazemos. -Está bem.

A que devo a honra da sua vista, Sr. Dr. Juiz?

A minha filha não tem nada a ver com o problema que tivemos.

A tua filha? Não sabia que tinhas uma filha.

Não te armes em parvo, Borges.

Quero fazer um acordo. Devolves-ma e fazemos negócio.

Não faço ideia do que estás a falar.

Se quiseres, negoceio o que precisares.

Ultimamente, as coisas não me correm bem.

De que negociações estamos a falar?

Onde a tens? Ela está bem?

Fazes ideia do calvário pelo qual estou a passar?

Sinto que me estás a acusar de algo, mas estás enganado.

Olha bem para a minha situação.

O que posso fazer de uma cela escura e triste?

Borges, eu vim aqui ser sincero contigo.

Olha.

Não tenho câmaras. Não tenho microfone.

Nem sequer avisei a Polícia.

Peço-te que negociemos como homens com princípios.

E sem filhas pelo meio.

Estás a falar-me de princípios? Até o meu cu se ri.

Quem me paga o tempo que aqui estive?

Não esperava que me fizesses a cama que me fizeste.

E fizeste-a porque és um aldrabão, um merdoso.

Os ciclos interrompem-se em algum momento, terminam.

Eu disse-te que iam atrás de ti, que te estavam a investigar.

E que íamos cair todos.

Sabes que mais, Borges? A determinada altura alguém tem de cair.

Já entendi.

Sabes o que podes fazer com o meu dinheiro?

Gastá-lo com a tua família.

A tua filha tem problemas de saúde? Precisa de um aparelho?

É bom que não lhe toques nem num cabelo.

-Também tens filhos, não é? -Sim.

E dou qualquer coisa por eles, porque sou um pai a sério.

Há alguns que não querem saber dos seus por uns trocos.

Sabes? Espero mesmo que não lhe toques nem num cabelo.

O que se passa, Lunati? Estás nervoso?

Adeus, Lunati. Puta que te pariu.

Até gostas de mim. Não sou só eu que namorisco contigo.

-Esse olhar. -Ganhei.

Apanhei-te. Estavas a fazer batota. Era para ganhares.

Vem cá um bocadinho.

Vais ficar aqui o dia todo, meu?

-Estava a descontrair, Borges. -Não digas o meu nome aqui!

Sabes que se as coisas correrem mal

és tu que lhe vais meter um balázio nos cornos?

Por isso, se gostas dela, o problema é teu, percebes?

E não voltes a dizer o meu nome.

Temos muito que fazer. Vamos.

Idiota.

-O que é que ele disse? -Nada.

Ele não disse nada.

Promete que vais tomar conta de mim.

Já chegaram.

Como estás?

Vá lá, Verruga. Só tens coisas boas diante de ti.

É como um sonho, não é? Vais sair.

Olha como se faz de bonzinho para agradar às miúdas.

Tem cuidado quando saíres,

vais ficar à espera do elétrico e já não há.

Se vires uma televisão estranha, é um computador.

Já chega. Vá lá.

Sentem-se. Vamos tomar uma bebida.

E esta!

Olá, doutora.

-Como vão as coisas? -Como está?

Bem. Não pensei voltar a vê-lo.

-Disse que se ia embora. -Prolonguei a estadia mais um pouco.

-Ouvi dizer que a sua irmã veio visitá-lo. -Sim.

Que estranho. O seu processo diz que não tem família.

Não sei o que diz o meu processo.

Não sei o que esconde, mas tenha cuidado,

porque como eu soube qualquer um pode saber.

Como vão as coisas por aqui?

Verruga. Olha.

-O que é? -Contribuímos todos.

Não.

Aceita. É para que tenhas algo para quando saíres. Porque não?

Olha o que está aqui. É do pavilhão todo.

Nós também te comprámos um presente.

Nunca pensei! Obrigado.

É lindo.

Cheio de classe, Verruga.

-Tens de dizer qualquer coisa. -Não.

Sim, vá lá.

Queremos um discurso, deixem-no falar.

-Sim, vamos! -Queremos um discurso, vá lá!

Obrigado por tudo isto e por todos estes anos.

O que não tinha lá fora, tive aqui dentro.

São a minha família. A família do coração.

Tenho a certeza de que estes foram os meus melhores anos.

Bom...

Espero que fiquem todos bem sem mim.

Porque eu vou sentir muito a vossa falta.

Uma salva de palmas para o Verruga.

Toma, deixa-me dar-te um pouco disto.

-Mais um bocadinho. -Não, está bem assim.

Anima-te, Verruga. Afinal, divertiste-te ou não?

Sim, foi muito bom.

O teu jantar está pronto.

Comeste a paparoca, as miúdas mimaram-te, umas beijocas...

Roupas, dinheiro.

Já viste?

Tens de vir visitar-nos. Temos de continuar as aulas de desenho.

-Não sabes como desenha bem. -A sério?

Não me convidaste para a festa.

Espero que te portes bem, desta vez. Não voltes para cá.

Se te deixarem. Ouvi dizer que andam a linchar delinquentes como tu.

Sabias?

Deixa-o em paz, vá lá.

-Ele não te fez nada. -O que levas aí?

Ótimo. É do meu tamanho.

Obrigado.

Devolve-lhe a camisa.

-Qual é o teu problema? -Devolve-lha já!

O que se passa? Achas que é o Robin dos Bosques, idiota?

Sabes o que és? Não passas de um recalcado de merda.

Como não pudeste ser polícia a sério, só fazes merda com os presos aqui dentro.

Mas gostava de te ver na rua, a enfrentar o crime a sério.

-Queres lutar comigo? -Eu?

Encontramo-nos no ringue daqui por uma hora.

Frente a frente, tu e eu. Vou dar cabo de ti.

O que é o ringue?

O ringue? É um frente a frente na sala de visitas.

O Capece é desleal a lutar. Por favor, tem cuidado.

Ninguém o viu perder.

É o que vamos ver.

Lembras-te onde pus a medicação? Pus na mala? A do Lucas?

Deixaste-a lá em cima.

-Onde? -Na mala.

Estou com a cabeça... Podes vir comigo?

-Está bem. -Obrigada.

Estou.

Seu idiota. Tinhas de pedir mais dinheiro.

Já te foram contar.

Para de ser paranoico.

Ter cagufa não te serve de nada.

Na vida há que correr alguns riscos.

Vais agradecer-me.

Tenho algo importante para te dizer. Amanhã vem ter comigo.

Não posso. Amanhã pagam-me e desapareço.

A Betina e eu vamos viajar com o teu filho.

Não te preocupes, é por precaução.

De viagem, como? Quanto tempo?

Não sei. Até que as coisas acalmem.

Até que recuperem a miúda e possamos voltar.

Assim que me derem o que pedi, vou dar-lhes a informação.

Houve uma mudança de planos. É por isso que preciso que venhas.

Diz-me agora. Não tenho tempo de ir aí.

Vão mudá-la de sítio, percebes?

Sim, percebo.

-Sabes para onde? -Ainda não.

Mas sei que vai ser esta tarde, durante o jogo da Argentina.

Vou com ela.

Terei os dados do local, amanhã.

Está bem. Espero pela tua chamada.

-O Lucas está bem? -Está contente com a viagem.

-Adeus. -Até logo.

Quem era?

Sim, está tudo bem com o teu filho...

Concentra-te, amigo, a vizinha saiu.

-É a primeira viagem de avião. -Ouve, Fernando.

Se te vais embora, vai ver a mãe. Vai ver se ela está bem.

-Está bem. Eu vou. Não te preocupes. -Leva dinheiro. Paga adiantado.

Se demorares a voltar, expulsam-na de lá.

Está bem, vou fazer isso.

Falamos amanhã.

Tem cuidado.

Tens de estar muito atento, sim?

Percebes?

Pastor!

Pronto?

Vamos!

Dá-lhe!

Para, anormal! Para!

Já chega!

Já chega!

Cuidado!

Vamos!

E há sempre aquele momento em que nos sentimos completamente sós.

Sós com o nosso corpo e a nossa alma.

Afastados de tudo.

E não conseguimos pensar.

A cabeça transforma-se numa cela de onde não conseguimos sair.

São provas que temos de passar neste buraco infernal,

para que, com a graça de Deus, os pobres de espírito, os fracos

os que não podem resistir tenham, pelo menos, o perdão de Nosso Senhor.

Que Deus te perdoe os teus pecados e te guie até à vida eterna.

Querido Jesus,

não sejas o seu juiz, mas o seu salvador.

Ámen.

ESTA É UMA OBRA DE FICÇÃO. QUALQUER SEMELHANÇA COM EVENTOS

PERSONAGENS, NOMES E/OU CIRCUNSTÂNCIAS REAIS É PURA COINCIDÊNCIA.

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