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(1941)
Lydia MacMillan...
Lydia MacMillan...
Hoje esse nome est� nas manchetes de todos os jornais,
quando se presta homenagem em Nova Iorque ao trabalho a que se dedicou sua vida toda.
Levamos voc�s � cerim�nia de inaugura��o...
do Orfanato MacMillan para crian�as cegas e parapl�gicas.
Com voc�s o Vice-Governador do Estado de Nova Iorque.
Nesta era de destrui��o...
tendemos a esquecer...
que, acima das bandeiras das na��es em guerra,
est� a bandeira da humanidade.
Ela hoje tremula no alto deste edif�cio.
Este grande abrigo abre hoje suas portas...
para as crian�as �rf�s e cegas do nosso pa�s.
Esta institui��o n�o foi constru�da com pedras e argamassa.
� fruto de um cora��o dedicado a servir � humanidade.
Lydia MacMillan, ser� sempre nosso privil�gio e honra
servirmos � bandeira que voc� levantou.
Sinto muito, mas a Sra. MacMillan n�o poder� receber ningu�m hoje.
Estar� muito cansada.
Quem estar� cansada? Acha que uns simples discursos me cansam?
O que deseja?
Raios me partam. Estou pasma. � Michael Fitzpatrick.
Nossa, isso � pior que os discursos.
Preciso sentar-me.
Lydia, permita-me de todo cora��o...
Por Cristo, terei que ouvir outro discurso? Sente-se.
Pode deixar-nos, Trudie. Este � um antigo namorado meu.
Olhe bem antes de sair.
� assim que o seu estar� daqui a 40 anos.
Voc� n�o mudou nada.
� uma das d�divas de ser solteira. N�o se muda.
A gente se decomp�e, mas n�o muda.
Seu colete est� desabotoado.
Fica mais confort�vel assim.
Se tivesse casado com voc� n�o andaria por a� desabotoado.
Nem cheio de fiapos no palet�.
- Devia ter casado com voc�. - N�o, Lydia, fez coisa melhor da sua vida.
Sempre achei que acabaria casando-se.
- Mas n�o se casou, n�o �? - N�o. Tive vis�o demais e encantos de menos.
Tolice. Lembro-me de pelo menos quatro pretendentes.
Quatro?
Bob, Frank, Richard...
- E eu? - Claro.
Sim, Michael, quatro.
Agora que nos reencontramos, acha que falariam muito...
se nos encontr�ssemos de vez em quando...
para lembrar o passado?
Ainda gosto de provocar coment�rios, mas at� quarta-feira estarei ocupada.
Ent�o me ligue na quarta-feira e...
n�o venha acompanhada.
Lembra de vov� exclamando?
Uma vez a bordo a mo�a � minha.
Estarei a bordo na quarta-feira.
Adeus, Michael.
- Lydia. - Ol�, Michael.
- Que bom que veio. - N�o teria faltado por nada.
H� tr�s dias que s� penso nisso.
Acompanhe-me. Tenho uma surpresa.
Michael, est� com um olhar muito matreiro.
Ora, ora. Raios me partam.
Este � o Central Park ou o lado negro da lua?
Eu esperava isso depois que eu morresse
encontrando-me tocando uma harpa na esquina.
- Senhores. - Foi ideia do Michael.
Que maravilha, Bob, estou encantada.
Contanto que n�o sejam fantasmas.
Falando por mim, sou t�o real quanto sempre fui.
� assustador.
O que est� fazendo com roupa t�o formal a esta hora?
Sou gerente de casa noturna e �s vezes, le�o de ch�cara.
- Como um gorila? - Sim.
Nessas horas minha experi�ncia em futebol vem a calhar.
Voc� sempre me assustou com sua virilidade, Bob.
E voc�, Lydia, sempre vibrante e arrebatadora.
Querido Frank.
Vejo-a agora exatamente sempre a vi. Com meu cora��o.
Nunca perdi um dos seus concertos, Frank.
Voc� sempre gostou da minha m�sica. Lembrava disso quando tocava.
De como gostava de todos os sons que eu produzia.
� a parte de mim que ela amava.
N�o vale, Frank. Nada de galanteios antes de tomarmos ch�.
Tolice. Quero ouvir tudo.
Tudo o que sentimos um pelo outro durante 40 anos.
Pessoalmente s� penso numa coisa.
Por que n�o se casou comigo, Lydia.
Essa ideia � minha, meu senhor.
Sempre me perguntei isso. Mal chego ao altar e ela evaporou.
Das nossas vidas tamb�m, de todos n�s. De repente e para sempre.
Houve alguma raz�o, Lydia?
- Sim. - Qual foi?
Acho que temos idade para sermos honestos.
Isso s� pode significar uma coisa: foi um homem.
- Algu�m que amou. - Sim.
- Surpreende-me ele n�o estar aqui. - Refere-se a Richard?
Eu o convidei. Talvez ainda apare�a.
Ent�o existe um fantasma chamado Richard.
Eu sabia. S� conte a verdade a um homem ap�s os noventa.
Ch�. Outro golpe baixo. Esqueceu do licor da vov�?
Ah, que maravilha.
O primeiro ch� que me ofereceu foi em 30 de junho de 1897.
30 de junho de 1897. Parece uma data muito importante.
O que foi? Gettysburg? Manilla Bay?
Ah, lembrei.
- Foi o dia do meu primeiro... - Seu primeiro baile.
Por favor, Dr. Fitzpatrick, lembro-me perfeitamente.
Eu era bem jovem e despreocupada, mas muito bonita, com certeza.
Era uma beleza. A mo�a mais bonita de Boston.
N�o vou discutir.
S� o passado tem o poder de aprimorar tudo.
Lembra-se do lindo vestido branco que usei aquela noite?
- Como branco? Era azul. - Era cor-de-rosa.
Eu devo saber, pois o guardei no arm�rio.
Aqui. Aquele dia voc� era a coisa mais linda do mundo, Lydia.
Vov�! Vov�!
Vov�!
Shhh. Srta. Lydia, sua av� est� l� dentro com um m�dico.
Ora, que bobagem. Vov� est� t�o doente quanto eu.
- Senhorita Lydia! - � verdade, todo mundo sabe.
Vou mostrar meu vestido novo. N�o � lindo?
Vov�!
Ent�o essa � a Srta. Lydia.
- A pr�pria, Michael. - Mas ela tinha sardas.
Tinha, sim.
Milagres acontecem.
Nunca deixaram de acontecer.
� impressionante como as pessoas mudam quando crescem.
N�o se aflija, Michael.
Vai conhec�-la assim que o apresentar � Sra. MacMillan.
N�o fa�o quest�o de conhecer a Sra. MacMillan.
Nada tenho em comum com essa gente.
Tenho outros planos para n�s, pai.
Quero que pe�a suas contas. J� trabalhou demais.
Sei que n�o ganho muito no laborat�rio, mas dar� para n�s dois.
Se voc� fizer as compras.
Est� oferecendo-me outro emprego, senhor?
Estou falando s�rio.
Eu tamb�m.
S� fui pai uma vez, Michael.
Mas sou mordomo nesta casa h� 40 anos.
Seu bom senso lhe dir� com que estou mais habituado.
Inconscientemente sempre seria seu mordomo...
e raramente seu pai.
E ficaria sem jeito para pedir aumentos.
Francamente, Michael, voc� n�o precisa de um pai.
E n�o tem dinheiro para um mordomo.
Saia desta casa! Caia fora!
Nunca mais porei os p�s nesta casa, nem que viva mais cem anos.
Nunca mais, Sra. MacMillan. Nunca Mais!
E n�o mude de ideia, seu curandeiro teimoso.
Tem mais sa�de que um lenhador, senhora.
S� � mimada e cheia de vontades.
Ponha-se daqui para fora, seu mercen�rio.
E se chama de m�dico.
N�o reconheceria o diabo nem com os chifres � mostra.
Saia logo, seu traste.
Homem de Medicina? Um asno, isto sim.
Que insol�ncia!
Quer convencer-me de que meu f�gado est� perfeito.
Devia expuls�-lo de Boston.
Ent�o, minha jovem, o que deseja de mim?
Acha que isso � um vestido?
Pois mais parece um roup�o de banho.
J� para cima.
V� se vestir. N�o tem mais idade para exibir-se nua.
- N�o estou nua, vov�! - N�o discuta comigo.
Sua Jezebel. Para mim est� nua.
Olhe esses ombros!
- Qual � o problema? - Est�o despidos, sua assanhada.
T�o despidos quanto o ventre de uma enguia.
N�o tem nada demais nisso. Todo mundo mostra se forem bonitos.
E os seus s�o maravilhosos, � isso?
- N�o tenho vergonha deles. - Como ousa responder-me assim?
Venha c�. Lydia, sua malcriada!
Ou veste um vestido decente ou ir� para a cama.
- Vestirei o que eu quiser! - Lydia, venha c�!
N�o sou nenhuma crian�a e n�o pode me tratar assim.
Tenho idade para mostrar meus ombros.
Se n�o puder vestir-me como as outras, n�o irei ao baile.
Irei para a cama e nunca mais me levantarei.
At� morrer. S� por causa de uma av� mesquinha e fria.
Sua tonta, se come�ar a chorar lhe darei umas palmadas.
N�o se anime, ningu�m vai chorar.
Quem � voc�?
Se me permite, gostaria de apresentar-lhe meu filho, Dr. Michael Fitzpatrick.
Acaba de chegar de Nova Iorque.
M�dico? Livro-me de um charlat�o e j� aparece outro.
S�o todos uns charlat�es.
J� gastei 37 anos de vida e uma fortuna com voc�s, curandeiros...
s� para dar uma tr�gua ao meu f�gado.
N�o prego olho h�...
tr�s d�cadas.
Tudo por conta desse �rg�o infeliz.
- Oh, l� vai ele de novo. - Posso ver sua l�ngua, senhora?
- Para qu�? - Por favor.
Talvez possa diagnosticar durante a crise.
- Grande ajuda. - Ahhh...
Ahhh. V� alguma coisa?
Relaxe, por favor.
� �bvio.
- O qu�? - Gastrocolite aguda.
- Eu tenho isso? - Definitivamente.
Pode n�o gostar do que vou receitar. Um composto de carv�o.
Quero que tome tr�s vezes ao dia.
Fa�a a receita, meu jovem.
Primeiro m�dico que diz coisa com coisa.
- Gastrocolite, hein? - Aguda, senhora.
Aguda? Oh!
Sei onde contra� isso. No mar.
Engoli toneladas de �gua salgada quando jovem.
Acabou com meu f�gado.
Sabia. E foi isso que matou o Capit�o Macmillan.
Meu marido.
Disseram que foi uma bala alojada na perna.
Os MacMillan n�o morrem de balas.
Foi a �gua do mar.
Isso mesmo, foi v�tima do mar. � a sina dos MacMillan.
Onde est� Lydia?
Lydia, venha c�.
Quero que conhe�a nosso novo m�dico de fam�lia.
- Como se chama mesmo? - Michael Fitzpatrick, senhora.
Ah, sim. � filho do James.
Nunca vi pai t�o bom.
Espero que tenha herdado sua intelig�ncia.
- James, quero comer alguma coisa. - O ch� j� est� pronto.
- Ch�? Odeio ch�. - Com um pouco de licor.
Ah, melhorou.
Vov�, que tal meu vestido?
Posso ir ao baile ou terei que ir para a cama?
Quem vai para a cama sou eu.
V� para o baile ent�o, vestida de sereia.
Na sua idade eu n�o teria ousado.
Os homens mudaram. Est�o mais frios.
Uma vez a bordo a mo�a � minha.
J� n�o se ouve mais isso.
D�-me a receita. Mandarei avi�-la imediatamente.
Vamos, vamos.
Quero aquela pasta que me fez t�o mal ontem.
Sinto-me t�o melhor hoje. N�o deve fazer mal.
Por pouco, me deixaria presa, a velha pirata.
� isso que ela �. Velha pirata.
Espero que tenha receitado um rem�dio horr�vel.
Adoro ela. De verdade.
� o meu ideal.
- Dr. Fitzpatrick? - Sim, Srta. Lydia.
- Acha dez d�lares muito dinheiro? - Bem, eu...
- Gosta do meu vestido? - Estava admirando-o.
Quantos metros de chiffon acha que tem aqui?
- Tente adivinhar. - Quil�metros.
- Voc� dan�a? - Sim.
Oh, que l�stima.
Sinto muito.
N�o tem problema. M�dicos raramente dan�am, n�o?
- Nunca. E voc�? - O qu�?
N�o sei.
Meu Deus, quase me esqueci do seu convite.
- Que convite? - Para o baile.
Tem que ir mesmo que n�o saiba dan�ar.
N�o � contra dan�ar, �?
M�dicos s�o contra tudo. Mas voc� n�o parece um m�dico.
Isto �, n�o se parece com o velho Dr. Whitteridge.
Vai divertir-se muito. Aparecer� em todas as colunas sociais.
Aqui est� o convite.
- Dez d�lares, por favor. - Dez d�lares?
Sim, pelo convite.
Ah...
Claro.
Que tolice minha.
- Dois... - Dois.
- Quatro... - Quatro.
- Nove. - Como voc� tem dinheiro!
Saindo pelos bolsos.
- Dez. - Obrigada.
- Gostaria de passear no jardim? - Adoraria.
Oh, n�o. Deve estar morrendo de fome. Tome ch� conosco.
E um licor. Adorar� o licor da vov�.
Vov�!
O Dr. Fitzpatrick ficar� para o ch�.
Para mim foi amor � primeira vista.
Para mim n�o.
Acho que foi a avareza e esperteza dos MacMillan.
Quem vendesse mais convites ganharia um pr�mio.
Ainda me sobrava um quando o conheci.
Lydia!
Nunca esqueci aquele baile.
Sim. Lembra-se do sal�o?
Sim. N�o fazem mais sal�es como aquele.
Perdi a respira��o quando entrei.
Tem raz�o, Bob. Desde ent�o j� vi muitos sal�es bonitos...
mas nenhum t�o lindo.
Entrei como se fosse num sonho, flutuando.
Lembra-se como as pessoas andavam naqueles ch�os espelhados?
Dos milhares de espelhos nas paredes.
Os candelabros pendurados como imensas magn�lias.
Lembra-se das centenas de harpas?
O divino conjunto de m�sicos?
Centenas, me pareceu.
Pergunto-me que fim ter�o levado aqueles lindos violinos.
Assim como a maravilhosa fila de pr�ncipes encantados.
E o momento em que Bob, meu pr�ncipe encantado, tirou-me para valsar.
Foi como dan�ar nas nuvens.
Lembra-se, Michael?
Sim, eu me lembro, mas n�o dessa forma, Lydia...
Na verdade, o sal�o n�o tinha nada de especial.
- Voc� est� louco. - Escute aqui, eu vi aquele sal�o.
Que nada. Voc�s apenas sonharam que viram.
S� eu � que vi.
Na verdade...
Os candelabros pendurados como imensas magn�lias.
Lembra-se das centenas de harpas?
Do divino conjunto de m�sicos?
Acho que centenas.
Sempre me pergunto que fim ter�o levado aqueles lindos violinos.
E o momento em que Bob, meu pr�ncipe encantado, tirou-me para valsar.
Foi como dan�ar nas nuvens.
Com licen�a.
- N�o � maravilhoso, Bob, querido? - Sim, cativante.
Queria ficar dan�ando com voc� para sempre.
N�o seria maravilhoso s� ficar dan�ando para sempre?
- Ficar�amos cansados. - Bob, voc� � t�o engra�ado.
Posso sentir os m�sculos dos seus bra�os.
Sinto que poderia carregar-me como se fosse uma pluma.
- Daria para carregar vinte iguais a voc�. - Mas n�o quero que carregue vinte.
S� eu. Queria que me levasse para uma ilha bem distante.
Cheia de palmeiras, corais, sereias e cabanas.
N�o adoraria, Bob?
Algum problema com Boston?
A noite est� perfeita, n�o? Como pode, tanta beleza?
N�o sabia que existia tanta felicidade em todo o mundo.
E nunca acabar�. Ser� sempre assim.
Luar, jardins, eu e voc�.
Voc� me ama muito, Bob?
Acho que nunca houve amor como o nosso no mundo inteiro.
N�o sente a energia?
Oh, Bob! Oh!
Olha que lindo est� o c�u. Milh�es e milh�es de estrelas.
Lembra-se?
A noite tem mil olhos, o dia um s�.
Mas a luz dum dia refulgente se apaga assim que o sol desce.
A mente tem mil olhos, o cora��o um s�.
Mas a chama de uma vida inteira se apaga assim que o amor fenece.
�!
Aquela noite voc� estava muito po�tico, Bob.
Sim. Eu bem que estava.
Lembro-me de voc� sob o luar, falando como Byron e Shelley.
Nunca vi ningu�m falar t�o bonito.
Era como escutar um rouxinol.
Quem, Bob?
Eu mesmo.
Lembra tamb�m do dia do jogo de futebol de Harvard?
Que lindo dia de ver�o, hein, Lydia?
Bob!
Bob, querido, vov� o espera �s 7:00.
Sabe que nossa vida est� em jogo. Voc� me ama? Sei que sim. Te adoro.
Oh, Bob!
Lembre-se, n�o beba e n�o fume. Se vov� lhe oferecer, recuse.
E n�o se atrase. Vov� detesta retardat�rios.
Voc� me ama? Diga que sim! Ah, Bob!
Vov� odeia o MacKinley. Queria que o Dr. Eliot fosse presidente...
e botou na cabe�a que MacKinley o fez desistir.
- Sete em ponto. Preciso correr. - Certo, sete horas.
Bob, Bob, Bob...
lembre-se que voc� detesta MacKinley.
Est� cheio de sab�o, querido, mas te amo mesmo assim.
Sete em ponto.
- Abaixo MacKinley! - Como?
Abaixo MacKinley. Odeio ele.
- Eu tamb�m. Um canalha. - Pior.
Entre. Sente-se.
Encontrar� cigarros naquela caixa.
- Cigarros? - Sim.
- N�o fumo. - Talvez prefira beber algo?
N�o toco em bebida. Vinho � uma perdi��o.
Quer dizer que n�o bebe.
Detesto. Assim como cigarros, bebida e MacKinley. Que tal?
Rapaz excepcional.
Viu o jogo hoje, Sra. MacMillan?
N�o, mas soube que se destacou.
Foi assim que aconteceu.
Nosso meia deu um passe errado.
Jimmy, nosso atacante, joga a bola para a linha de 40 jardas.
Nos alinhamos para escolher um lan�ador.
Que sou eu. O meia faz um passe perfeito...
Corremos pela direita e vejo o ponta de linha vindo na minha dire��o.
Tiramos ele da jogada.
A� eu corro pelo centro, por tr�s do nosso atacante direito e...
continuo correndo assim...
Est� b�bado!
Quem, eu?
Quanto voc� acha que a equipe duraria, Sra. MacMillan,
se o treinador cheirasse a �lcool?
Me diga, sim?
Como v�, MacMillan, sem �lcool. Sem �lcool.
Saia da minha casa. Est� b�bado. Caia fora.
V� embora.
Caia fora, seu bode b�bado.
- Mas preciso ver Lydia. Eu a amo e... - N�o ouse p�r os p�s nesta casa de novo.
E nem pense em se aproximar dela,
quebro-lhe todos os ossos desse corpo. Agora saia!
Vov�! O que aconteceu?
Volte j� para seu quarto, mocinha.
E n�o me toque mais no nome desse rufi�o, sen�o lhe dou uma co�a.
Amanh� a mandarei para sua prima Sally.
- Volte para seu quarto. - Mas, vov�!
Ol�, Michael.
- Lydia. - Espero n�o estar incomodando.
Claro que n�o.
O que a traz aqui?
Michael, acredita em direitos iguais para mulheres...
ou acha que somos escravas, nada mais que vacas no pasto?
Responda, mulheres s�o escravas?
- Claro que n�o. - Ent�o est� do meu lado.
O que aconteceu?
Oh, Michael...
Constrange-me dizer, mas estou apaixonada.
- E vov� o odeia. - Por qu�?
Porque � jovem e brilhante. E ser� um sucesso.
Ela n�o acredita.
Oh, Michael.
Lydia.
Mas ela est� enganada. Ele � de boa fam�lia.
Boa fam�lia?
Estou confuso.
- De quem est� falando? - Bob!
Bob Willard.
Vai me mandar amanh� para a Virginia para visitar a boba da minha prima Mary.
Mas n�o sou uma escrava. N�o me deixarei ser despachada assim.
Sei que todos os cientistas s�o frios...
O que � isso, Michael?
Um microsc�pio.
Mas voc� � diferente. Na verdade n�o � um cientista.
Quer dizer, voc� me ama. Isto �, � sua maneira, claro.
Como um irm�o.
E vai me ajudar.
Sim.
Obrigada, Michael.
N�o � maravilhoso ter um amigo?
Para que s�o essas bolhas de sab�o?
S�o corp�sculos de sangue. Estou contando leuc�citos.
� um teste para diabetes.
Voc� � t�o inteligente.
Por isso vim v�-lo.
Vamos fugir.
- V�o fugir? - Esta noite.
J� marcamos com o Juiz de Paz em Quincy.
�s 8:00.
Sabe o que est� fazendo, Lydia?
Claro, eu o amo.
Michael, disse que me ajudaria.
Jurou.
O que quer que fa�a?
J� pensei em tudo.
Vov� quer que a acompanhe a uma palestra hoje � tarde.
Daqui a uma hora voc� passa l� em casa...
examina minha l�ngua, diz que estou muito doente e que preciso de repouso.
Vov� ir� sozinha. Assim que partir, levanto e fugimos.
Michael, aonde vai?
Vou contar a verdade a sua av�.
Seu traidor desprez�vel!
- N�o importa o que sou. - N�o ousaria.
Farei qualquer coisa para impedir que arru�ne sua vida.
Seu hip�crita. Estou percebendo tudo.
Quer ficar bem como vov� para se adiantar na carreira.
- Pensei que fosse meu amigo. - E sou.
Est� bem, seu lacaio. Tem sangue de criado nas veias.
Casarei amanh�, ou qualquer outro dia.
Ningu�m vai impedir-nos.
Contarei ao Bob o que fez. � melhor tomar cuidado.
Ent�o, mocinha, explique-se.
Onde estava?
J� estava indo sozinha para a palestra.
Desculpe, vov�. Tive uma tonteira e sentei um pouco na pra�a.
- Dr. Fitzpatrick, senhora. - � mais que bem-vindo. Mande entrar.
- Onde est� indo? - N�o quero v�-lo.
Disse que estava doente. Fique a�, mocinha.
Ol�, Michael, como vai?
Gostaria de falar-lhe a s�s, Sra. MacMillan.
- Oh, Michael... - N�o se preocupe comigo...
d� uma olhada em Lydia. Voltou cambaleando feito um pelicano.
Estou bem, vov�.
Tolice, tem o f�gado dos MacMillan. Estique a l�ngua.
N�o.
Posso v�-la, por favor?
N�o seja malcriada.
O pulso est� acelerado.
O que acha? � o f�gado?
� poss�vel.
- Est� meio amarelada. - Com certeza � o f�gado.
Acho...
que deve ficar de repouso.
Pode ficar de repouso at� amanh� de manh�, nem um segundo a mais.
Partimos para a Virg�nia amanh� cedo.
Vou lev�-la mesmo que esteja mais amarela que um chin�s.
V� para a cama. Irei � palestra sozinha.
Por que t�o s�rio? Ted MacMillan n�o me conquistou sem lutar.
Ele lutou como um tubar�o.
Uma vez a bordo a mo�a � minha.
Essa ra�a deve estar extinta.
James, prepare as malas de Lydia. Ela parte amanh�, com ou sem f�gado.
Conduza-me � carruagem.
Oh, Michael, voc� � um cavalheiro.
Tenho que me apressar. Temos que estar em Quincy �s 8:00.
Acabo se ser chamado de cavalheiro.
E �, filho.
Ningu�m diz a um cavalheiro que ele � um cavalheiro.
11:00. Meu Deus.
Acha que o Sr. Fairfield voltar� mesmo?
Foi chamado para fazer o testamento de um moribundo.
- Voltar� assim que puder. - Mas mandou que vi�ssemos �s 8:00.
Mas o Senhor quis de outra maneira.
Talvez seja melhor voltarem de manh�.
Quando meu filho voltar ser� de um leito de morte.
Estar� triste e cansado.
Talvez seja melhor mesmo.
Talvez seja melhor mesmo.
Voltaremos de manh�.
- Boa noite, senhora. - Boa noite, senhora.
Uma pena o jantar que encomendei. Champagne e tudo mais.
Tive que pagar tudo adiantado. At� o quarto.
Cairia bem jantar agora. Ostras, peixe, frango, sorvete, torta.
Bob...
E por que n�o? Isto �, o jantar e o champagne?
- Fala s�rio? - Sim, tem algum mal?
N�o, nenhum. Mas tem certeza?
Puxa, Lydia, que legal!
Cocheiro, para a Quincy House. R�pido.
Sou o Sr. Robert Willard. Reservei um quarto ontem.
Sim, Sr. Willard. Posso estender-lhe minhas felicita��es?
Sra. Willard?
- E ao senhor tamb�m. - Obrigado.
Quarto 22.
Queira me acompanhar.
Pode servir logo o jantar.
Sinto muito, mas a cozinha fechou �s 9:00.
Mas tem o champagne.
Posso servir-lhes pessoalmente.
Posso preparar uns sandu�ches, se desejar.
- Pelo menos podemos tomar o vinho. - Que sandu�ches preferem?
- Acho que de pat�. - Muito bem, senhora.
- Para mim de presunto, rosbife e queijo. - Muito bem, senhor.
Por aqui, se faz favor.
Oh, desculpe.
Tome, beba, querida.
N�o, obrigada, n�o quero mais.
Para voc� tamb�m chega, por favor.
Por qu�? J� est� tudo pago.
Claro que est�.
A voc�, Lydia, a mo�a mais bonita de Boston.
Que del�cia.
Vamos, querida, beba.
N�o seja estraga prazeres.
N�o, est� tarde e quero voltar para casa.
E desperdi�ar todo o champagne? P�ssima ideia.
Talvez at� seja melhor, ainda n�o estarmos casados.
Gra�as a Deus que n�o nos casamos.
Como assim?
Achei que seria rom�ntico fugirmos.
Agora vejo o que realmente significa.
Quando me casar ser� numa igreja.
Como sempre sonhei.
Com o lindo vestido branco da minha av�.
Com �rg�os e damas de honra.
Os rapazes da universidade em fila.
Os rapazes da faculdade como acompanhantes.
E toda Boston l� para me ver.
Como assim, quando se casar?
Vai se casar comigo, n�o vai, querida? Amanh�?
Bob, por favor me leve para casa.
Por que, n�o est� se divertindo?
- Claro que est�. - Bob, quero ir para casa.
Bob, solte-me. Est� me machucando.
Sabe que te amo. Claro que sabe.
E tamb�m me ama. Vamos ser felizes.
- Me solte! - O que foi, sua tolinha.
Ei, aonde voc� vai?
Commonwealth Avenue, Boston.
Posso pagar o cocheiro primeiro?
Uma donzela em apuros, hein?
Olhe para ele, ele cora.
Eu n�o queria te machucar, Bob.
� quase minha mem�ria favorita.
Eu tenho me arrependido de ter tratado uma garota que me amava desse jeito h� anos.
Bobagem. N�o foi amor.
Eu te amei, as l�mpadas e os violinos.
Tudo isso junto.
Que bom come�o, certo?
- O que? - Vida boba.
Como eu tive com vov� quando eu disse a ela.
- O que voc� disse a ela? - A verdade.
E o que ela disse?
Ela disse muito baixinho:
Ent�o ele deixou voc� ir? Crian�a, essa � a pior parte da hist�ria.
Eu poderia ter matado ela.
Ela era uma grande dama.
Se um homem n�o tivesse morrido, eu teria me casado com voc�
e eu estaria liderando um clube.
Poderia ter sido divertido.
Mais divertido do que eu tive. Sente-se, Bob, essa � a melhor coisa.
A vida segue.
Acima e abaixo,
pelos cantos e abaixo da terra.
Um rio correndo para o mar.
Um rio de dores de cabe�a.
E voc� me deu uma das boas, Michael.
Durou muito tempo.
O enterro do primeiro amor.
Sim?
Deseja que abra as cortinas, Srta. Lydia?
N�o, obrigada, James.
N�o tomou seu ch�, Srta. Lydia?
Estou sem apetite, James.
N�o quer ir � �pera. N�o sei o que fazer com a menina.
Continua sofrendo pelo bobalh�o do Bob.
H� meses que n�o se alimenta direito.
Por isso a trouxe para Nova Iorque.
� amor de crian�a, querida Sarah.
D� nos nervos v�-la inerte feito um peixe no cais.
Arrasto-a para os bailes e teatros. Cerco-a de jovens e o que acha?
S� mexe uma guelra de vez em quando para mostrar que est� viva.
O que � isso, James?
S�o os soldados marchando para o cais.
Partem para Cuba amanh�.
Michael tamb�m ir�.
Estarei com ele mais tarde.
Vov�! Sabia que Michael vai para a guerra?
Gostaria de v�-lo antes de partir. James vai estar com ele. Posso ir junto?
Claro, Lydia. Pode ir.
- V� andando, James. N�o perca tempo. - Muito bem, senhora.
Lydia ir� acompanh�-lo para despedir-se de Michael.
Vamos, James.
Francamente, Sarah. Devia estabelecer mais limites.
Por mais leal que seja, James � apenas um criado.
Sabe o que eu era antes de conhecer o Capit�o MacMillan?
- Nunca acreditei. - Pois pode acreditar, sua tola.
Vendia peixe no mercado do meu pai.
Foi assim que conheci o Capit�o MacMillan.
Ele procurava um arenque.
Mas deix�-la ir a uma churrascaria qualquer com o mordomo?
N�o � churrascaria.
Dei ao Michael dois ingressos para ir ao Toni Pastone Music Hall.
- Mas isso � uma taberna! - Tolice, � muito pior!
Mas sei que ir�o divertir-se.
Comi tanto, Michael.
Nunca me senti t�o feliz.
Veja como se divertem as pessoas que n�o podem frequentar a �pera.
Minha �ltima receita para voc� antes de partir para a guerra.
Carne todo dia, cebolas, batata assada e dois copos de cerveja.
Estarei gorda como aquela loura quando voltar.
Contanto que espere por mim.
Amo-a desde a primeira vez que a vi.
Se for verdade vai durar. Diga-me quando voltar.
Agora n�o, por favor.
Amadurecerei enquanto estiver longe, Michael..
Tenho vivido como uma boneca de porcelana, toda afetada.
As mulheres hoje t�m que fingir que s�o vazias.
T�o delicadas que s� podem frequentar a �pera.
Ou ch�s com vinte acompanhantes montando guarda.
Ora veja, uma nova Bunker Hill.
Sim, � hora de as mulheres fazerem sua revolu��o.
Cansei de ser alienada.
J� sei! A donzela em apuros!
Hotel Quincy, Quincy, Massachusetts, dezembro passado.
Nunca esque�o uma fisionomia. Especialmente uma t�o bela.
N�o se preocupe, rapaz. N�o quero ser desrespeitoso.
- Fico feliz em v�-la mais alegre. - Acho melhor irmos embora, Lydia.
- Voltarei sozinho. - Imagino que seja o piv� da hist�ria.
D� para perceber quando uma mulher est� chorando.
Est� faltando pouco para lhe dar na cara.
N�o te darei raz�o para tal.
Adeus, donzela em apuros.
Saia da frente!
- Embarque! - Melhor eu ir.
- Adeus, Lydia. - Adeus, Michael. N�o vai me beijar?
- Quando voltar. - N�o, agora, por favor.
- Adeus, Lydia. - Michael...
Desculpe, senhorita.
- Adeus, Lydia. - Adeus, Michael.
- Pai! - Adeus, meu filho.
Deus te aben�oe.
Adeus, Michael.
- Tome cuidado! - N�o se preocupe, tomarei.
Ainda n�o te dei raz�o, companheiro.
Adeus, donzela em apuros.
Ainda posso v�-lo cumpriment�-la com essa arrog�ncia.
Ele nunca a deixou, certo?
Sim, v�rias vezes, mas n�o para sempre.
Qu�o curioso, certo?
Quando naveguei pensei que mudaria sua vida,
mas quem fez isso foi aquele estranho.
Seja franca, apaixonou-se por ele na hora em que ele lhe acenou?
Foi aquilo que mudou tudo?
No dia da sua partida heroica para Cuba,
n�o estava pensando nem em voc� nem no Richard.
S� tinha cabe�a para um homem: Johnny.
N�o me lembro de nenhum Johnny.
- Que Johnny? - Foi ele que mudou minha vida.
Esses homens s�o fuzileiros ou marinheiros?
- S�o fuzileiros. - T�m armas e tudo?
Sim. Fique aqui. Est� melhor?
Sim, d� pra escutar melhor. Como eles s�o?
S�o altos?
S�o.
S�o muito altos. E vestem uniformes azul e vermelho.
Vermelho e azul? Puxa, nem sei o que � isso.
Bem, vermelho � como o som das cornetas.
�? E azul?
Azul �...
Azul �...
Enfim! Onde se meteu fugindo de casa e se perdendo?
Venha comigo. N�o tenho um momento de paz.
S� segui a m�sica, m�e.
Encontrei-o no cais. Ele queria ver os soldados.
Foi Deus ela ter encontrado voc�. Onde j� se viu fugir assim?
Deixando todo mundo desesperado.
- S� estava seguindo a m�sica, m�e. - Cale-se!
- O que quer aqui? - Quero ajud�-la.
Que ajuda gente como voc� pode dar?
N�o � a primeira a dar as caras aqui.
Some daqui.
- N�o vou embora. - N�o vai, �?
- Saia antes que te parta o pesco�o. - N�o vai quebrar nada, sua tola.
T� me ofendendo, �? Saia j� daqui, sua lambisgoia.
Antes que jogue esta lavagem pra ficar fedendo o resto da vida.
- Jogue, duvido. - Saia, saia!
Pode jogar, mas n�o me impedir� de fazer o que quero.
Saia!
Johnny. Ajudarei voc�, sua m�e e todos neste lugar infecto.
Nem que tenha mover c�us e infernos ou toda a lavagem do mundo.
LAR PARA CRIAN�AS CEGAS
O primeiro disse: "Quem andou sentando na minha cadeirinha?"
O segundo, "Quem andou comendo do meu pratinho?"
O terceiro: "Quem andou pegando meu p�ozinho?"
O quarto disse: "Quem andou provando meu mingau?"
O quinto disse: "Quem andou usando meu garfinho?"
O sexto disse: "Quem andou cortando com minha faquinha?"
O s�timo disse: "Quem andou bebendo da minha x�cara?"
A� o primeiro viu que algu�m tinha dormido em sua cama e disse:
A cesta est� quase pronta, Sally.
Sim, senhorita Lydia.
N�o � uma coisa aben�oada, senhora?
Todos os santos est�o atentos � sua bondade.
Olha!
- Que maravilha! - � mesmo, Mary.
- Que horas s�o? - Quase onze horas, acho.
Aqui est� o menu.
O pre�o dos ovos subiu de novo. Tanto a gema quanto a clara.
Tem um senhor que deseja falar com a senhora.
Frank Audrey.
Deseja falar comigo?
Sim, sou Frank Audrey.
- Deve ter ouvido falar de mim. - Claro que sim.
- N�o quer sentar-se? - Muito obrigado.
Mas n�o vou demorar.
Sei como � ocupada. Soube do trabalho que realiza.
Queria que soubesse como a m�sica pode ser importante.
E se estaria interessada em alguma ajuda.
Claro que estaria. Nem sei como agradecer.
� muita gentileza sua.
Oh, perd�o.
N�o queria constrang�-la. Pedi aos jornais que n�o divulgassem, mas...
tamb�m sou cego.
Mal distingo o claro do escuro.
- N�o tem um piano ali? - Sim.
�s vezes d� para sentir. Eles emitem sons.
Minha especialidade como professor de cegos seria forma e cor.
Consigo fornecer um livro com imagens para seus ouvidos.
Poder�amos ter uma aula sobre como seriam as estrelas.
Fiz um estudo a respeito.
Consigo ouvi-las � noite como �gua num c�rrego.
S�o azuis, assim.
Acho que veriam o que eu vejo.
A� virar�amos a p�gina para a cor vermelha.
Reconhece, Srta. MacMillan?
� o p�r do sol. Acho muito impressionante e instrutivo.
Mais divertido do que tocar Chopin para quem v�
de tudo, menos Chopin.
A� poder�amos ter uma aula sobre...
como a Srta. MacMillan parece.
Importa-se se a descrever sem restri��es?
Jovem...
sens�vel...
muito bonita.
Mas j� tenho idade, Sr. Audrey.
Ah, n�o.
De onde �, Srta. MacMillan?
- Boston. - Boston?
Para a cidade de Boston,
de feij�o e bacalhau, onde os Cabot falam com o Lowell
e os Lowell s� falam com Deus.
- O que voc�s querem agora? - Toque no mar, Frank.
Sim, o mar.
Muito bem, o mar.
Senhoras e Senhores, a coisa mais surpreendente sobre o mar
� que est� saltando.
Rugido de bota.
Ele tamb�m � cego.
Muito grande e muito cego.
Todos prestem aten��o.
Aqui temos o mar e o vento soprando
o sol vermelho acima.
O sol se p�e assim
e o vento cresce
e n�s temos uma tempestade.
Aqui vem as grandes ondas.
Que grande onda!
Maior que esta casa, claro.
Ondas gostam de casas, correndo.
O mar est� negro.
O c�u est� negro.
Cavalos brancos correm.
O que est� acontecendo?
Eu n�o vejo cavalos nem nada.
N�o vejo nada.
Os cavalos acabaram. Aqui est� o palha�o que voc� gosta.
N�o me diga que voc� n�o v� isso,
pulando e chutando, girando.
- Voc�s gostam? - Sim.
Tem pernas de borracha e uma cabe�a como um travesseiro.
Dan�a na lareira.
E acabou.
Bem, acabou. Estou muito cansado, crian�as.
Hora do jantar, crian�as.
- Onde est� a Srta. Lydia? - Est� retocando a maquiagem.
Mas nem precisaria. Ser� a mais bonita da festa.
Ela vai a uma festa?
E por que n�o? Merece dan�ar com a vida que leva aqui.
Ainda mais com o Dr. Fitzpatrick. Ele voltou de Cuba louco para dan�ar.
Crian�as, j� passou da hora do jantar!
Sr. Frank, se pudesse v�-la agora.
O que est� vestindo, Srta. Lydia?
Posso ouvir o farfalho.
Eu sinto o cheiro das flores.
Venham, crian�as. Podem toc�-lo. � de seda.
Voc�s j� a conhecem.
Voc�s se lembram do bal� do bicho da seda de Frank?
Como eles saem do casulo e fazem rosca.
Vamos, crian�as. Para o jantar.
V�o indo. Preparei uma surpresa de Ano Novo para voc�s.
- Boa noite. - Divirta-se, Srta. Lydia.
- Srta. Lydia. - Sim, Frank?
Posso tocar seu vestido?
- Oh, seda moir�. - Com fios dourados.
Dan�ar� com seda moir� de fios dourados nos bra�os do galante Dr. Fitzpatrick...
que acaba de chegar de Cuba.
Vai ador�-lo, Frank.
Lydia!
Michael.
Que bom que voltou.
- Parece que foi h� mil anos. - Quase isso.
Estou orgulhoso do que voc� fez.
- Trabalho maravilhoso. - Mais para mim do que para eles.
Michael, este � Frank Audrey.
Frank, este � Michael Fitzpatrick.
Como vai?
Nem preciso ser apresentado, Dr. Fitzpatrick.
Tudo � Michael nesta casa.
Uma combina��o de santo patrono e objeto de estudo.
Pois bem, v� com seu her�i.
Tenho um tren� l� fora puxado a cavalos.
- Boa noite, Frank. - At� logo.
Com licen�a, Sr. Audrey.
- Quem est� a�? - Sou eu, Ruthie.
Ah, � voc�. Soube que seus olhos est�o melhorando.
- Sim, Frank. - Viu a Srta. Lydia?
Vi, sim.
Esqueci de beij�-la.
- Voc� a ama, n�o �? - Amo, sim.
Como ela �?
Tem cabelo castanho escuro.
E seus olhos, de que cor s�o?
Azuis.
Azuis.
Sim, azuis da cor do mar.
� mais alta que eu?
Claro que n�o.
Tamb�m conhece o Dr. Fitzpatrick, n�o?
- Claro. - E como ele �?
Alto e muito bonito.
Ah...
Boa noite, Frank.
Louro e azul.
Alto e bonito.
Esse cara tamb�m a ama.
Eu amadureci muito enquanto voc� estava fora.
J� estou quase decidida.
Contra mim?
Contra o casamento.
Tenho um trabalho a realizar.
Trabalho para uma vida inteira.
N�o me surpreende.
Toda mulher moderna est� passando por essa fase hoje em dia.
Ent�o voc� entendeu. Ficarei solteira.
E pelo jeito ficarei at� os noventa.
Ent�o meu namoro ser� dos mais duradouros.
Est� tentando for�ar a passagem. Vejamos se ousa.
Ningu�m nos ultrapassar� hoje. Esta noite � nossa.
Se quer apostar corrida, por que n�o passa?
Est� bem.
Vamos, corram seus jegues!
Isso! Assim � que �.
Sintam o vento.
Voc� � magn�fica.
- O qu�? - Disse que � magn�fica.
Tudo � magn�fico.
Uma cavalheiro em apuros!
Dan�a com o perdedor?
Ora, ora, ora.
Parece que h� sujeitos piores que eu espalhados por a�.
Sim, ele era muito pior. Infinitamente pior.
Era da pior esp�cie. Perverso e maravilhoso.
Era? Nunca mais viu esse diabo disfar�ado?
Vi, sim. Gostaria de contar-lhes a respeito.
Ora, Michael. Tenho idade suficiente para confessar meus pecados sem chocar ningu�m.
Pecados, Lydia � verdade, Michael?
N�o sei. Acho que n�o.
- Do que est� rindo? - � maravilhoso.
Voc�s me conheciam t�o bem.
At� me amaram. Mas nunca me conheceram.
N�o era a mim que amavam, e sim uma ilus�o que criaram.
N�o � verdade, voc� era muito real.
Oh, n�o.
S� havia uma verdadeira Lydia.
Existiu por pouco tempo em MacMillan Port.
Lembra-se, Michael?
Sim.
Foi fundada pelo meu av�.
Ele construiu barcos l� que ele levou para o Cabo na �frica
Minha av� nasceu l�. E meu pai.
Quando chegou a minha vez de nascer, minha m�e foi levada para o porto
e eles reabriram a velha casa.
Eu nasci l�.
Eu nasci l� duas vezes
e l� eu morri uma vez.
Voc� quer conhecer Lydia MacMillan, senhores?
Raios e fa�scas
Eu odeio ir ao t�mulo como um fantasma,
uma sombra p�lida que ningu�m realmente viu.
Voc� quer me ver de verdade?
Em carne e osso, a Lydia viva?
Se voc� n�o se importa em mostrar.
Foi � muito tempo.
Faz tanto tempo.
N�o me importarei, pois n�o aconteceu comigo.
Aconteceu com algu�m que j� morreu.
Morta como os ventos que sopravam por MacMillan Port.
Lembro-me encostada contra o mastro de um barco de pesca.
O mar estava agitado.
Ali estava ele, seu rosto de marinheiro castigado pelas intemp�ries.
Sorria ao vento, feliz como um menino num tren�.
N�o sei como sua cabe�a n�o congelava.
E a minha tamb�m.
Mas por dentro estava aquecida.
Como um gatinho junto ao fogo.
O fogo estava l� para n�s dois.
Nenhum vento do Atl�ntico o apagaria.
T�nhamos ido ao continente para nos abastecer ap�s uma semana em MacMillan Port.
Part�ramos de Boston sem ao menos uma chaleira de caf�.
S� t�nhamos peixe congelado e p�o, duro que nem pedra.
Agora t�nhamos comida, para mim e Richard.
Comida para uma vida inteira.
Era uma casa cheia de fantasmas.
Fantasmas de pescadores e piratas.
Ao se aproximar, parecia que espreitavam das janelas.
Lembro-me da velha porta de carvalho, rangendo ao entrarmos.
Largamos as compras, Richard reclamando de fome.
V� para o fog�o. Quero fil� com batatas e muito caf�.
Se minhas m�os n�o congelarem, o jantar sair� na hora de sempre.
Voc� foi maravilhoso enfrentando aquela ventania.
Parecia um viking.
Sou um viking, mas preciso de roupas secas.
Est� encharcado. Vou pegar umas secas.
Mudar de roupa � a maneira mais segura de pegar resfriado.
O certo � secar-se em frente ao fogo.
Preciso de um machado para cortar essa manteiga. Est� congelada.
Ned, abra o quarto l� em cima para que se aque�a.
Sim, senhora.
Chega de tanta agita��o. Venha c�.
Richard, tem que parar de falar comigo como se fosse um estivador.
Venha c�, j� disse.
Comportou-se bem no barco. Nunca reclamou.
- Estava aterrorizada. - Eu percebi.
Voc� me admira muito, n�o �?
Quer chova ou fa�a sol.
Passaremos um ano inteiro sem fome.
A vida inteira terei fome por voc�.
Richard, pare de se comportar como um lobo.
N�o gosto desse tipo de coment�rio. Venha c� minha fogueira.
- Ned est� olhando. - Deixe.
- D� vontade de rir. - Ent�o ria.
Querido, est� todo molhado e frio.
N�o...
N�o estou.
N�o, n�o est�.
O mar e o vento est�o dentro de voc�, mas est�o quentes.
Importa-se se eu estiver salgada?
Lembro-me da lamparina na mesa e do vidro rachado.
Do cheiro de querosene, da sua luz amarelada.
N�o falamos.
Apenas comemos e escutamos a tempestade.
A pequena lamparina parecia iluminar o mundo.
N�o me lembro de olhar para ela.
Nem de pensar em como era aconchegante.
S� pensava nele.
E como a sala estava quentinha.
Mas depois, muito tempo depois...
fiquei presa �quela lamparina como uma mariposa.
Deixei-me consumir por ela.
Lembro-me da outra sala.
Havia um tapete velho com folhas verdes.
Meu av� adorava cachorros. Estava todo ro�do.
Lembro-me da neve na janela formando rostos p�lidos a observar-nos.
Procura algo especial?
- Quero ler um poema. - Adoraria isso.
Parece que os MacMillan n�o eram muito l�ricos.
Querido...
Vov� ter� um ataque quando souber de n�s.
- Est� preocupada? - N�o.
Ent�o esque�a.
Gostaria que ela estivesse aqui.
Saudades de Boston?
N�o, seu tolo. Gostaria que ela visse como estou feliz.
Mal posso pensar de t�o feliz.
Como era ing�nua e fr�vola.
Isto deve ser diferente de uma vida normal, n�o acha?
- Sim. - De que maneira? Diga.
Porque somos s� n�s dois. Essa � a principal diferen�a.
Eu ou voc� com outra pessoa pode ser considerado amor, mas...
seria triste.
N�o seria como n�s dois.
- Por qu�? - Por qu�?
Porque temos a mesma tormenta batendo em nossas veias.
Como a mand�bula superior e inferior de um lobo.
Travamos a mesma luta e temos o mesmo gosto.
Parece uma feiticeira.
Voc� me deixa louco.
Arranca meu cora��o com seus olhos.
- Pare, por favor. - N�o.
Pare.
Quero ler um poema.
Por qu�?
Porque quero ouvir outra pessoa al�m de mim falando de amor.
Oh, meu querido...
Existem outras pessoas? Existe um mundo l� fora?
N�o consigo lembrar-me de nada.
Nem saber onde estou.
- S� sei que vai beijar-me. - N�o vou beij�-la.
Vou ler um poema para variar.
Lalla Rookh, de Thomas Moore. Conhece?
N�o. Leia. Precisa de mais luz?
N�o. Tenho olhos de lince.
Lia livros no beliche do navio com todas as luzes apagadas.
Que est�pida! Que garota est�pida!
Oh, as del�cias deste momento
em que, fosse meu o mundo, a ti teria escolhido.
S� a ti dentre todos os tesouros do mundo
para ter de volta a meu lado, minha pura e perfeita Lalla Rookh.
Sempre que vejo neve lembro-me de MacMillan Port.
Era t�o diferente.
Talvez esteja enganada.
Talvez a neve pare�a diferente quando se � jovem.
Tem certeza que sabe pintar um nome novo, Richard?
Claro. Lalla Rookh.
- N�o gostou? - Que outro nome poder�amos dar?
N�o o odeio. Apenas aquela outra doidinha na neve.
Aquela mocinha ing�nua e fr�vola.
Fritava panquecas naquela manh�. Estavam horr�veis.
Adorava trabalhar para ele.
Adorava v�-lo aparecer com o �ltimo cachecol que havia feito para ele.
Est� lindo. � a cor perfeita.
N�o terei tempo para o caf� da manh�. N�o quero perder o vento.
- Tudo bem. Tamb�m n�o comerei. - N�o!
- N�o quero que venha. - Por qu�?
Por que quero que fique em casa.
Mas vai ficar fora por muito tempo.
N�o. Voltarei daqui a seis horas se o vento continuar.
- Por favor, fique. - Mas, por qu�?
Por favor, querida.
Muito bem, se n�o me quer.
Quero-a para sempre.
- Verdade? - At� morrer, todo minuto.
Sou t�o tola. Quando fala assim, minhas pernas tremem.
Tremem mesmo.
O Ned vai com voc�?
Claro, j� embarcou.
O que est� olhando?
O ninho do p�ssaro da tempestade. Fica bonito ao amanhecer.
Ficar� vazio at� voltar.
N�o vai n�o. Sempre estarei aqui.
Quando se sentir s�, olhe para qualquer canto e me ver�.
Assim.
Minha querida.
Amo-a tanto.
Que manh� mais linda.
Posso ir at� o p�er com voc�?
Richard!
H� momentos insuport�veis de se lembrar.
- Desamarre, Ned. - N�o, deixe-me faz�-lo, Richard.
Acho que n�o conseguir�.
- A corda est� muito esticada. - Claro que consigo.
- Aqui est�, capit�o. - Obrigado.
Tome cuidado.
Adieu!
Lembro-me como torci para que o vento n�o enfunasse as velas.
Se o vento parasse ele teria que voltar.
Mas o vento n�o tinha fim.
N�o parou.
N�o parou.
Como uma mulher de viking,
t�o absorta fiquei a esperar que at� esqueci de comer.
Comecei a rezar pelo que aquela mocinha tola julgava ser felicidade.
E n�o parei de rezar desde ent�o.
Foi uma noite intermin�vel.
A pobre Of�lia ali � espera diante de um mar vazio.
De repente despontou um feixe de luz que crescia � medida que se aproximava.
Era o Lalla Rookh retornando.
O velho Ned estava no leme.
Estava b�bado.
Sua express�o era a de um velho desgostoso com a vida.
Mas dentro havia uma grande alma.
Tudo isso irradiava do seu rosto naquela noite.
Trazia uma carta para mim.
O vento quase a arrancou das minhas m�os.
Antes tivesse.
Teria sido melhor. T�o melhor
Um ano inteiro melhor.
Ele segurou a lanterna e eu li a carta ali na ventania do p�er.
Eu n�o, ela leu.
Ele tinha partido, seu cora��o dilacerado.
Estava comprometido com outra mulher.
N�o era culpa sua. Acontecera um ano antes.
Voltava para v�-la.
Havia l�grimas e lam�rias na carta.
"Pode levar algum tempo, talvez uns meses.
"Envio-lhe a alian�a de casamento de minha m�e.
"Todo m�s mandarei outra.
"Acredite em mim.
"Confie em mim.
"Espere por mim.
"Meu cora��o ficou em MacMillan Port e voltarei para busc�-lo.
"Perdoe-me.
"Perdoe-me pela maneira como parto.
Perdo�-lo pela maneira como partiu.
N�o teve for�a para encarar minhas l�grimas.
Por isso tinha embarcado no Lalla Rookh.
Que esperasse, dizia ele.
Acho que a carta realmente voou depois que a li.
Acho que a carta voou mesmo com o vento depois que a li.
N�o me lembro de t�-la visto novamente.
- Deve ter ca�do no p�er. - Pobre Lydia. Que sujeito safado.
Vamos entrar?
Pobre Lydia.
Foi muito mais cega que eu.
Pelo menos amei algu�m que existiu.
E voc� deu seu cora��o a um fantasma.
- Nunca mais soube dele? - S� muito tempo depois.
Esperei como ele sugeriu na carta.
S� que mais desesperadamente do que ele pensava.
Voc� ajudou muito, Michael.
E a m�sica de Frank tamb�m foi um grande consolo.
Compus um concerto para voc�.
Estava em todas as linhas, em todas as notas.
Saiu direto do cora��o.
Foi bom n�o saber que escutava outra m�sica.
Nunca mais toquei aquele concerto.
J� o tinha quase esquecido.
Lembra-se?
Foi lindo, perfeito.
Querem que toque outra obra.
Como estava tocando apenas para voc�, o concerto terminou.
- Foi uma apresenta��o maravilhosa. - Muito obrigado.
- Parab�ns. - Fico feliz que tenha gostado.
- Sente-se bem? - Sim, avise que sairei dentro em pouco.
Ent�o?
- E voc�, gostou? - Que m�sica maravilhosa, Frank.
Maravilhosa � pouco.
Foi mais que isso.
Era voc�, Lydia.
O concerto nada mais � que uma descri��o do seu rosto.
O andante seus olhos azuis.
O allegro seus cabelos loiros.
Mas, Frank. Tenho olhos verdes e cabelos castanhos.
Ah...
Que diferen�a faz?
Ningu�m consegue realmente ver o que ama.
Quanta gente venera Deus sem precisar v�-lo?
O que os olhos podem ver melhor que o cora��o?
S� tenho certeza de uma coisa.
Certamente � mais linda do que posso imaginar.
Da pr�xima vez tocarei o concerto mais forte e mais r�pido.
Ent�o o andante ser� seus olhos verdes...
e o allegro seus cabelos castanhos.
- Lydia. - Sim, Frank?
Deixe-me ver seu rosto.
O que foi?
Nada, Frank.
Voc� mudou.
Suas m�os mudaram.
De que maneira?
Est�o mais quentes e macias.
Elas sonham.
Lydia...
Deixe-me am�-la.
� a minha luz.
Quem �?
- Ol�. - Ol�, Michael.
Ol�, Frank.
Parab�ns. Adorei seu concerto.
Obrigado.
Sua av� mandou cham�-la.
Espero que n�o se importe.
Ah...
Trouxe-lhe uma carta do orfanato.
Chegou assim que voc� saiu.
Pareceu importante.
M�s not�cias?
N�o. Mas tenho que correr. Voc� me perdoa, n�o?
Obrigada pela m�sica, Frank. Foi maravilhosa, maravilhosa.
Obrigada, Michael.
O que aconteceu?
N�o sei. Deve ter sido a carta.
Carta? De quem?
N�o sei e nem quero saber.
Achei que s� meus olhos eram cegos.
Agora vejo que meu cora��o tamb�m �.
- Est� come�ando a ver melhor. - Voc� a ama, Frank.
Sim, meu pobre Michael.
Tamb�m a amo.
Era uma carta am�vel.
Do tipo que se recebe apenas uma vez na vida.
Continha mais tr�s an�is e dizia que ele me amava.
Lembro-me at� hoje o que dizia.
"Eu te adoro.
"Eu a venero.
"Sonho com voc� a todo minuto onde quer que esteja.
"Espere por mim.
"S� mais um pouco.
"Chegado o inverno, nada mais nos separar�.
"Eu vou te ver na v�spera de Ano Novo na pequena igreja de que sempre falou.
"Vamos nos casar no Ano Novo ao badalar dos sinos.
"Esteja l�. Se n�o souber mais de mim, esteja l� � meia-noite.
"Eu te amo."
Naturalmente esperei at� que o viajante voltasse do seu misterioso ex�lio.
Finalmente o momento se aproximava.
Era v�spera de Ano Novo e eu estava me vestindo.
- Que horas s�o? - Dez horas.
Faltam duas horas. O que vamos fazer?
- Tomar um licorzinho. - N�o quero.
Bem, mocinha. Estou esperando para saber.
- Saber o qu�? - Ora, sua Jezebel, pare de me exasperar.
- Como ele �? - Voltaremos da igreja...
e ver� com seus pr�prios olhos.
� marinheiro, hein?
Sim.
Muito bonito.
Minha neta fugindo para casar-se com um marinheiro que n�o conhe�o.
Um simples faxineiro de conv�s e o mais safado do barco.
Tudo isso.
Beberr�o mentiroso com uma mulher em cada porto?
Tudo isso.
D� at� para imagin�-lo...
cambaleando feito um pelicano.
E voc� ama esse monstro?
Mas diga. Onde o conheceu?
Em que p�er conheceu esse d�ndi dos sete mares?
Diremos mais tarde, vov�. Vai ouvir uma hist�ria e tanto.
Garanto que vai se arrepiar quando ouvir.
Acabo de pensar em uma coisa.
Onde esteve naquele m�s em que escreveu...
aquela carta mentirosa dizendo que estava trabalhando em Nova Iorque?
Onde eu estava?
A bordo.
Raios me partam. Na minha �poca mulheres eram enforcadas por isso.
Parece muito contente, Lydia.
Acha-se muito madura, muito esperta...
muito moderna, n�o?
E acha que sou est�pida e antiquada.
Mas asseguro-lhe que seus modos modernos est�o errados
e que h� de pagar caro por isso.
N�o estrague tudo agora, vov�. Vamos nos casar hoje.
Este � meu primeiro e melhor presente de casamento.
Que horas s�o?
- Ainda s�o dez horas. - Vov�, venha c�.
Que lindo. O mundo todo est� feliz.
- Voc� o ama? - Sim.
- Se a impedisse me enfrentaria? - Sim.
Enfrentaria e a jogaria ao mar.
- Esse monstro a ama? - Sim, sim!
Vai am�-lo para sempre?
At� morrer.
Mesmo que ele se revele um canalha?
N�o importa o que se revelar.
Eu o amarei para sempre.
Com a mesma intensidade.
- Lydia. - Sim, Frank.
Acabo de estar com o Michael.
Est� examinando as crian�as rec�m-chegadas.
Despedi-me dele.
Parece imposs�vel que n�o o verei mais durante anos.
Mas sei que far� grande sucesso na Europa.
Sentiremos saudades.
E eu sentirei sua falta toda a minha vida.
- Oh, Frank. - Nada de l�grimas, n�o as mere�o.
Tentarei n�o ficar infeliz por muito tempo.
N�o jogue fora sua vida.
N�o a desperdice por uma lembran�a infame.
V� andando, minha querida.
E Deus a aben�oe.
J� olhei os dois garotos novos. Parecem estar bem.
Obrigada.
- Quero minha correspond�ncia. - Estou separando. N�o tem nada importante.
Deixe ver.
Esta, da Espanha.
Mandei avisar se chegasse algo do exterior. Por que n�o falou?
Sinto muito, Srta. MacMillan.
Ainda espera not�cias dele?
De quem?
N�o sei. Do estranho que nunca escreve.
Lydia, acho que est� na hora de lhe dizer uma coisa.
Est� sonhando com um fantasma, uma alucina��o.
- Por favor, Michael. - Tenho o direito de falar.
H� muito tempo a amo e sei da exist�ncia desse outro.
Amo-a. Quero casar-me e passar o resto dos meus dias com voc�.
N�o com voc� ca�ando fantasmas...
e sim de forma presente, juntos trabalhando, enfrentando e enriquecendo a vida.
Tenho mais a oferecer que seu fantasma, Lydia.
Coisas reais. Um lar, crian�as, meu amor.
Sim, eu sei.
- Eu a amo, Lydia. - Sim, eu sei.
- Sempre me amar�? - Sim.
Sabe disso.
Nunca far� perguntas?
Casar� sem pedir nada?
S� pedirei seu amor.
Oh, Michael.
Estou cansada. Cansada de alguma coisa.
Me abrace.
Me abrace.
- Ol�, James. Como vai vov�? - Est� muito melhor agora.
Creio que me precipitei mandando aquele telegrama ontem � noite.
- Fez bem em mandar. - O que aconteceu, pai?
Estava muita animada ontem � noite.
Disse sentir nos ossos que algo muito bom tinha acontecido.
Que eu tinha completado uma tarefa.
Embora n�o tenha feito nada. Nem ontem nem o ano todo.
Logo depois teve um ataque.
- Chamou um m�dico? - Sim, imediato. O Dr. Witteridge.
O que ele disse?
Disse que foi um ataque card�aco.
Mandou-a descansar e ela quase o esganou.
Ent�o ele lhe deu um sopor�fero.
Hoje j� estava muito melhor.
Como ele disse, s� precisa de descanso.
Ouvi muito bem, James. Terei tempo para descansar quando morrer.
Dr. Witteridge, aquele curandeiro.
C�rebro de minhoca.
O rosto tamb�m.
Que bom te ver, vov�.
Lydia, est� tremendo feito uma vara.
O que o James andou falando?
Nada, querida, vir�amos de qualquer jeito.
Temos not�cias para voc�.
Est� se sentindo melhor, n�o?
Aguento mais 50 anos, mesmo com Witteridge.
Devia estar muito mal para permitir que ele entrasse.
James o mandou entrar, eu o pus para fora.
Sabia que voc�s viriam.
Senti nos ossos, n�o precisam dizer por qu�.
Ent�o, quando ser� o casamento?
Ainda n�o marcamos. Pensamos...
Por Cristo, n�o pode dar mole com uma mo�a como Lydia.
Seja firme! Marcaremos aqui e agora.
H� dez anos que n�o fa�o um vestido novo.
Encomendarei um hoje.
De tafet� e renda prateada.
Quero dan�ar e assistir ao casamento, viva ou morta.
Voc� ser� meu pai, minha m�e e minha dama de honra.
Vov�...
Viu as rosas que lhe trouxemos? S�o lindas.
Voc� � muito mais.
- Acho melhor sentarmos e apreciar as rosas. - Pois sente-se voc�.
- Estou perfeitamente... - C�us, quase me esquecia...
Trouxemos isso para voc�, James.
Obrigado, Srta. Lydia.
� algo de que precisar� no futuro pr�ximo.
- N�o �, Michael? - Sim.
- Meu primeiro colete branco. - Para usar no casamento.
Tenho que confessar uma coisa.
H� anos quero beij�-lo mas nunca o fiz.
Sempre teve um ar t�o solene e importante.
Acha que posso beij�-lo hoje pela primeira vez?
Pai?
N�o ser� a primeira vez, Srta. Lydia.
J� tive esse privil�gio quando voc� tinha dezoito meses.
O que est� olhando. � menos educado que seu pai?
Chega. As crian�as devem estar famintas. E o almo�o?
- Est� pronto, senhora. - �timo.
- Est� meio p�lida. Acha que est� bem? - Espero que sim.
Antes reclamasse do f�gado.
Ficaria mais sossegada se reclamasse por rem�dios.
Michael...
sinto-me feliz nesta casa.
Feliz e parte de algo muito doce.
Como um p�ssaro da tempestade em seu ninho.
P�ssaro da tempestade.
Oh, Michael, n�o aguento mais. Tenho que lhe contar...
Querida...
Lydia, venha.
Sente no lugar de sempre, Lydia.
Voc� ali, Michael.
- James... - Sim, senhora.
Ponha mais um prato � mesa.
Outro prato?
N�o sabia que esperava visitas.
N�o espero ningu�m. Quero outro lugar ali.
Para voc�.
Vamos, n�o pegue no sono.
- Posso servir? - Disse para sentar-se.
Muito bem.
Chame-me de Sarah.
N�o fique de queixo ca�do, Maggie. Coloque mais um prato.
E nada de sopa para o James. Ele odeia.
Gentileza sua lembrar-se, senhora.
Pedi que me chamasse de Sarah.
Obrigado... Sarah.
A menos que esteja com frio, sugiro que tire as luvas � mesa.
Ah, claro. Desculpe-me, senhora.
Estamos todos juntos como deve ser.
Esperei muito por esse momento.
Navio reluzindo, por�es abarrotados e um homem de bem no leme.
Nenhum falastr�o cheio de gracejos. Um homem decente.
Nenhum safado mentiroso contando vantagens.
Mas raios me partam, um homem de bem.
De primeira.
Maggie.
Estamos aportando. Traga um licor.
E por isso, brindemos ao nosso novo capit�o, Michael Fitzpatrick.
Depois do funeral, fui ao MacMillan Port.
N�o havia neve nem vento, mas primavera
Eu fui sozinha para a velha casa de madeira.
Sim. Ele estava em todo canto.
O fantasma de Richard sorrindo afetadamente
Mas eu era forte demais para ele.
Enfrentei-o da forma que fosse.
Devia comer mais, Srta. Lydia.
Vai ficar fraca.
Quanto tempo vai durar esse nevoeiro? N�o acaba nunca?
S� mais uns dias. A� os dias ser�o bonitos e ensolarados.
- E esse buzina que n�o para. - Acaba se acostumando.
Sua av� reclamava muito depois que o Capit�o morreu.
Depois que a bala finalmente o venceu.
Costumava descer a escada de noite...
e olhar pela janela dizendo...
"� ele me chamando, Ned."
A� desatava a chorar.
Chorar lhe fazia bem, Srta. Lydia.
Passei as noites l� me fortalecendo.
Aprendendo a odi�-lo.
Dormia naquela cama e ria dele.
Dele e de todo homem que julga
poder atormentar uma mulher para sempre.
De todos os canalhas mentirosos
que enredilham e se apoderam para sempre do cora��o de uma mulher.
Sim...
aprendi a divertir-me com a lembran�a de Richard.
Via-o como ele era.
Um sujeito vil e est�pido.
Ficava acordada pensando como tinha sido tola.
Ria dele e de mim mesma enquanto a buzina de nevoeiro tocava...
Ol�, Lydia.
- Ol�, Michael. - Querida.
Achei que j� era tempo.
Por que n�o me escreveu?
Ainda n�o sabia o que dizer.
Acho que tenho uma vaga ideia.
E tamb�m sei outra coisa.
� irreal estar apaixonada por um fantasma.
- Vai passar, Lydia. - J� passou.
Ent�o pode voltar e seremos felizes.
Poderemos viver, trabalhar.
E amar.
Escute, Michael. Vim aqui para me fortalecer e decidir minha vida.
E j� decidi.
N�o ser� f�cil dizer, pois voc� � um amor.
E porque � o que ela queria.
Um homem de bem no leme, disse ela.
Mas eu n�o quero, Michael. N�o posso.
N�o tenho direito.
Tenho que pagar sozinha pelo que fiz.
Toda minha vida, com toda a minha vida.
Teria sido lindo, Michael.
Mas � tarde demais.
- Voc� n�o me ama. - Amo, de certa maneira.
Veria algo de bom na vida. E o navio estaria sempre reluzindo.
Mas eu n�o quero.
Se n�o posso ter tudo, n�o me contentarei com menos.
O que falta ent�o, Lydia?
Amor, Michael.
Amor como a luz do sol e a �gua salgada.
� o tipo de coisa que quanto mais se tem, mais se quer.
J� tive isso, Michael. Conheci e perdi.
Nunca mais hei de experiment�-lo de novo.
Nunca mais a partir de agora.
J� sou uma velha solteirona.
Como se tivesse 90 anos.
E morrerei assim.
Pois sou como todos os MacMillan que viveram nesta ilha, sedentos e gananciosos.
N�o faziam por menos.
Era sempre tudo ou nada.
Quarenta anos.
O trabalho, algumas lembran�as suas.
De Frank, de Bob.
De Michael.
Do fantasma.
Capit�o Richard Mason.
Sim, sim, o diabo disfar�ado.
O fantasma de MacMillan Port.
- Dr. Fitzpatrick. - Sim.
Recebi seu telegrama.
N�o sei quem �, mas decidi vir assim mesmo.
Do que se trata essa reuni�o?
Richard.
Ent�o foi a� que se escondeu esses anos todos.
Por tr�s desse rosto envelhecido.
� incr�vel demais, Richard.
Velho e enrugado como eu.
Com licen�a.
Eu sempre vou am�-lo at� que ele morra.
Como o amo esta noite.
N�o a reconhece, capit�o?
Acho que n�o. Acho que nunca a vi.
- Qual � o nome dessa senhora? - Por que?
N�o importa, capit�o. Aconteceu h� muito tempo atr�s.
Talvez nunca a tenha conhecido de verdade.
Engra�ado...
Eu a reconheceria em cem anos.
Com licen�a.
N�o se lembrou de mim.
Foi pego de surpresa.
Tolice. Esqueceu-se de mim.
Castigo perfeito pelos meus pecados.
Ningu�m se lembra deles.
- Voc� n�o est� chateada? - N�o, eu fiz papel de boba.
Em absoluto.
Voc� abriu seu cora��o para os homens que te amavam.
N�o, nenhum de voc�s realmente me amou.
Bob amava uma garotinha idiota.
Frank, por uma garota de olhos azuis e cabelos dourados.
Voc�, meu querido, amava um anjo.
E Richard... Richard s� amava Richard.
Enquanto ouvia suas hist�rias, pensei:
"Quem foi a verdadeira Lydia?"
"Qual delas? Qual delas?"
A verdadeira Lydia...
N�o havia uma verdadeira Lydia, Michael.
Havia dezenas deles. Pergunte a qualquer mulher. Elas sabem disso.
Toda mulher � s�bia e insensata, inteligente e absurda, boa e m�.
Assim como Lydia.
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