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O que fa�o aqui?
Distante e pensativa,
tudo o que gosto numa cena rom�ntica.
Mas as tarefas n�o podem esperar, anda.
Sou um homem de rituais e h�bitos.
O nosso passeio � sagrado
e eu sou devoto.
Para mim, a passagem do tempo � um mist�rio.
N�s somos um casal.
As pessoas dizem:
"A Genevi�ve e o Sylvain amam-se.
S�o felizes."
Mas que quer dizer isso?
Seremos hoje o mesmo casal que aqui chegou h� dez meses?
Quando conheci o Sylvain, percebi logo que as nossas vidas se ligariam.
Eu pensava que era livre, trabalhava para um editor
e, um dia, vi-o num corredor.
Rom�ntico, brilhante e um pouco louco.
Conhecia a sua reputa��o.
T�nhamos publicado o seu primeiro livro cinco anos antes.
N�o sei quantos exemplares vendemos, mas teve sucesso.
Mas ele n�o tinha escrito mais nada desde ent�o.
Contentava-se a falar dos seus futuros livros aos amigos
sem se dar ao trabalho de os escrever.
Tamb�m se comportava assim com as mulheres.
Adorava impression�-las
e seduzi-las.
E conseguia faz�-lo sem grande esfor�o,
mas terminava com delas uns dias depois.
No in�cio, pensava que era apenas mais uma para a sua cole��o.
Se pensasse assim, n�o sofreria.
Mas, para surpresa minha, n�o foi o caso.
A nossa rela��o tornou-se s�ria bem depressa
e eu estava encantada.
N�o acredito em amor sem respeito.
Aquele modo de vida tornou-se insuport�vel para ele.
Pediu-me em casamento e que fugisse com ele
para longe de tudo, para uma esp�cie de retiro.
Ainda existem ilhas encantadas hoje em dia?
Eu conhe�o uma.
Uma r�stia de um sonho extravagante.
Um homem, utopista e arquiteto,
quis construir a cidade ideal durante o reinado de Lu�s XV,
tal como Le Corbusier, mas 200 anos antes.
O Rei deu-lhe o dinheiro e ele come�ou a empreitada,
entretanto, o Rei morreu e a obra foi interrompida.
No campo, ainda l� est� metade da f�brica que foi constru�da, como o P�rtenon,
in�til e desabitada.
A fachada permanece preservada como um generoso ato de loucura.
Chamava-se Claude-Nicolas Ledoux.
Ele acreditava na felicidade e em fazer os outros felizes.
Existem s�tios m�gicos e a Saline des Chaux � um deles.
Pod�amos viver aqui, alugar uma casa e torn�-la no nosso retiro.
Anda, vamos.
Eu trabalho. Tu amas-me e eu amo-te.
Seremos felizes.
Dez meses de solid�o. Dez meses de rotinas di�rias.
Ainda o amo
e ele ainda me ama,
mas, agora, passeamos em sil�ncio,
porque n�o temos nada a dizer um ao outro.
Temos um hor�rio.
Temos uma hora para passear, outra para ele trabalhar
e uma para fazer amor tamb�m.
Ele vive,
ele trabalha
e eu observo-o.
Mas n�o reconhe�o o rosto da felicidade.
N�o tinha imaginado nada disto.
Que tal vai isso?
Vai bem.
Mas n�o te vou mostrar ainda.
Odeio rascunhos, cheios de notas e alternativas.
Sabes que os cadernos do Henri Beyle
eram o segredo do g�nio do Stendhal?
Mudaste muito as personagens?
N�o, mas enriqueci-as.
Elas contradizem-se,
est�o a tornar-se amb�guas.
N�o h� her�is, nem traidores, nem jogos psicol�gicos...
S�o mosaicos de pequenos factos.
Mas n�o falemos disso.
J� te disse muitas vezes,
um livro � para ser escrito, n�o � para ser contado.
S�o 17h10, � hora de intervalo.
Lembras-te do escritor utopista,
que podia ser filho do Rousseau ou do Marqu�s de Sade?
Ele descrevia o funcionamento dos bord�is
com gr�ficos e hor�rios.
Eu nunca funcionarei como os caminhos de ferro.
�s 7h10 parte o r�pido para Cythera.
- Sylvain. - Sim?
J� n�o nos rimos.
J� n�o conversamos, porqu�?
Tu trabalhas e eu...
E tu...
Tu ajudas-me a trabalhar.
Sem ti, n�o escreveria nada.
�s a minha prova dos nove.
Amor e trabalho s�o as minhas regras de vida.
E sou feliz.
E tu? �s feliz?
Talvez eu seja um monstro ego�sta.
Sou um intelectual sem cora��o?
� isso que v�s no espelho?
O �nico espelho que me interessa � o que me olha agora.
Responde-me.
N�o � assim t�o simples.
� dif�cil viver sozinha,
mas, sozinha a dois...
Dez mil soldados gregos, perdidos na imensid�o da P�rsia,
fizeram 2000 km a p� em combate.
Cada um com um fiel companheiro, com os mais fortes a ajudarem os mais fracos.
Era o segredo deles.
Tu e eu...
... enfrentamos a vida juntos
e tu �s a minha companheira.
Sou pequena, sabes.
S� teria levado o teu capacete
e tu terias levado os nossos dois escudos.
N�o, tu �s a mais forte.
Voltei a trabalhar por tua causa.
Nunca conheci um homem t�o atraente quanto tu.
E eu uma mulher.
Ainda tremo sempre que olho para ti de manh�.
N�o se pode amar sem preocupa��o.
E eu estou preocupado.
Adoro que o estejas.
Vou dar uma voltinha antes do jantar.
Vens?
N�o posso. Vai tu divertir-te sozinho.
Claro,
os sentimentos envelhecem como as pessoas,
e sofrem o peso da rotina e do h�bito.
Se algu�m questiona, � prov�vel que tenha d�vidas.
Os crentes dizem: "Se n�o tens f�,
ajoelha-te em ora��o e ela vir�."
Acabei de me ajoelhar.
Acho que o amo e que ele me ama.
Mas, quando penso na nossa vida,
n�o consigo deixar de pensar no que se est� a tornar.
Ainda ser� igual?
- Ent�o, continua vazio? - � da altura do ano.
Mas o cube dos amantes de u�sque vai ganhar dois membros.
- O presidente e a mulher chegaram. - O presidente?
Sim, o Jacques Symphon. � o nosso grande homem.
Jacques Symphon...
Sim, claro, n�o � o primeiro-ministro mais novo do s�culo?
� Presidente do Conselho Geral,
e tamb�m � dono de f�bricas e de um jornal.
Interessante. Vi isso no sul.
Achei que era uma coisa local,
essas dinastias meio pol�ticas meio financeiras.
Senhores feudais.
Mas ele � muito am�vel e prest�vel.
Olhe, acho que � ele.
� meu cliente, tal como o senhor.
Mas em maior escala, sem ofensa.
- Ol�, Jean. - Ol�, minha senhora.
- � o costume. - J� est� tudo preparado.
J� n�o restava muito hoje, mas terei mais na segunda-feira.
Falamos amanh�, agora tenho de ir.
- Adeus, Jean. - Adeus, minha senhora.
Ent�o? Onde �amos n�s? Acho que � a minha vez.
Era a primeira-dama.
Costuma vir com frequ�ncia?
Quase todos os dias a esta hora.
Por �cio, ou curiosidade, n�o sei,
eu estava, como dizem os italianos, "livre".
Como sabia que ela voltaria, ganhei o h�bito de l� ir,
certo que, mais cedo ou mais tarde, a encontraria.
Quando conhecemos uma mulher em determinado s�tio,
� prov�vel que a voltaremos a encontrar l�.
� uma quest�o de paci�ncia e organiza��o.
Que prazer v�-lo, meu senhor.
O prazer � meu, Jean.
- Um Black Label, claro. - Claro.
Ora, mas que dissimulado,
devia saber que eu tamb�m gosto de Black Label.
A lealdade para comigo tamb�m garante a sua, n�o �?
Obrigado, meu senhor.
Jacques Symphon, do jornal local.
Muito prazer, Sylvain Bollinger.
Mal fal�mos, soube logo que eu e o Jacques ser�amos bons amigos.
O seu humor ligeiramente pregui�oso e a autocr�tica que adiantava sempre
anularam imediatamente os preconceitos que tinha contra os pol�ticos.
Encontr�vamo-nos todos os dias e cada dia mais tempo.
Como se nos conhec�ssemos desde sempre.
Lidava comigo como se eu fosse um dos seus mais velhos amigos.
N�o porque o fosse,
mas simplesmente porque n�o tinha ningu�m com quem pudesse falar � vontade.
N�o imaginas a solid�o que adv�m de ser uma figura p�blica.
Deixamos de ouvir o que dizem sobre n�s, mas queremos saber porque o dizem.
Saint-Simon.
Sim, mas acho o seu pessimismo um pouco suspeito.
Ele queixa-se de n�o ter sido eleito primeiro-ministro, na verdade.
Sim, devemos desconfiar sempre das raz�es
que s�o convenientes para quem as est� a apresentar.
Tal como um escritor que ridiculariza o sucesso
sem nunca o ter tido.
� isso que o Sagan tem de bonito.
Quando lhe perguntam sobre o seu sucesso, ele n�o diz que o mereceu,
diz sempre que teve sorte.
� inteligente e corajoso.
Estava a pensar que nunca foste l� a casa.
Gostaria de conhecer a tua mulher.
Venham l� jantar um dia destes, quando quiserem.
Tamb�m gostaria de conhecer a tua mulher.
Caramba, hoje est�s carrancuda.
Se n�o queres ir ao jantar, podemos cancelar.
N�o podemos porque tu n�o queres.
Mas cancelo se insistires.
Eu n�o me importo de ir, mas n�o entendo o interesse.
Qual interesse?
Vamos aperaltar-nos e esfor�ar-nos para pessoas que nem conhecemos.
De repente, j� te interessam as trivialidades mundanas?
Essa � nova.
Viemos para aqui para trabalhares. Para eu te ver trabalhar.
Para nos amarmos.
Lembras-te?
S� penso nisso.
Mas que tem isso que ver?
Eles s�o pessoas agrad�veis, inteligentes e meio isoladas como n�s.
Que estranha solid�o.
� maior do que imaginas. N�o t�m amigos, s� clientes.
Est� bem.
Al�m disso, podemos dizer que a psicologia � uma grade fraude, uma esp�cie de...
O Bordeaux � nos copos pequenos.
- Eu sei. - N�o sei se sabes.
O Jacques diz que o Hemingway � o �nico psic�logo sens�vel.
Mas h� uma diferen�a.
Os her�is do Hemingway e do Dos Passos n�o t�m cabe�a para pensar.
Essa � que � essa.
Quando um homem escreve sobre uma mulher que n�o � uma escrava,
mete-a sempre a agir como um homem.
Dialeticamente, ainda temos de fortalecer o matriarcado.
Mulheres no poder... ainda demora.
N�o sei se alguma vez ter�o raz�o para se queixar.
O Jacques tem um n�mero �timo sobre o futuro da massa cinzenta.
E � certo que as mulheres s�o mais resistentes do que os homens.
As tuas teorias lembram-me algo.
N�o sei se gosto das piadas, mas, enfim...
Um jovem ator, que estava a interpretar Hamlet, apaixona-se pelo seu papel.
Portanto, pensa, investiga, reflete
e fica obcecado com o sentido da vida.
Naturalmente, torna-se um santo a s�rio, canonizado pela igreja.
N�o faz milagres, mas quase.
Um dia, morre.
Claro que, como todos os santos, foi diretamente para o C�u
onde conhece S. Pedro.
A primeira pergunta que lhe fez foi: "Ent�o e Deus?"
"Que tem Deus?" "� como dizem?"
"� um senhor de idade, elegante, com uma grande barba."
"Estou a ver."
"E fala?"
"Sim, fala muito. Diz sempre a mesma coisa.
Mas o senhor j� vai ver, tem esse direito."
E seguem por um grande corredor
que tinha, ao fundo, uma grande porta.
Ele baixa-se e espreita discretamente pelo buraco da fechadura
De facto, l� estava um senhor com uma barba branca perdido nos seus pensamentos.
"Acha que ele vai falar?" Pergunta o ator.
"Sim." Responde S. Pedro, mas tenha paci�ncia.
Eles ficam � espera
e, de repente, Ele sai dos seus pensamentos e diz:
"Ser ou n�o ser, eis a quest�o."
Maravilhoso!
Adoro humor metaf�sico.
Quando um m�gico tira um coelho da cartola,
toda a gente com dois dedos de testa j� sabe que ele o tinha escondido algures.
A tua teoria sobre a liberdade das mulheres � bonita,
mas pergunto-me o que esconde a tua realidade.
Referes-te � minha experi�ncia?
N�o, nem me atreveria.
Mas devias.
Teria gra�a se falasses pior do que escreves.
N�o escrevo muito.
Eu li o teu �poca dos Tios.
A hist�ria das tr�s mulheres que partilham homens
como os homens partilham mulheres. N�o � nada cred�vel.
N�o me digas que acreditas na fidelidade?
Acredito que podemos ser fieis a algo que algu�m nos d�
e que s� nos d� a n�s.
Nem que seja apenas em determinada �rea.
Dizes isso, mas l� no fundo �s uma amazona.
Est�s a dizer que tens medo de mim?
- Sylvain... - Tu sabes que aguento um litro.
As pessoas n�o vivem as suas hist�rias de amor em pleno.
Apenas tentam encaixar-se nas conven��es sociais.
Se quisessem, podiam amar de formas completamente diferentes.
Ent�o, achas que a vontade faz parte do amor?
Tens frio? Arrefece muito aqui � noite.
N�o, a vossa lareira � maravilhosa.
Claro que � melhor conhecer pessoas do que nunca as conhecer.
Tenho uma sobrinha ador�vel.
Devias ouvi-la falar do seu novo amor.
R�pido, em sil�ncio e no escuro.
A primeira vez � sempre uma desilus�o.
A segunda � melhor que a primeira.
E a cent�sima � melhor do que a segunda.
V�o desculpar-nos, mas torn�mo-nos bastante provincianos.
Vou buscar o teu casaco.
O qu�? J�?
Estou muito cansada.
- Mas podes ficar, se quiseres. - Sabes bem que n�o.
Est� bem, vamos l�.
Mais um para o caminho.
Boa noite e obrigada.
Boa noite, at� � pr�xima.
N�o te vens deitar?
N�o, tenho de escrever um discurso.
Estiveste muito calado no jantar, nem parece teu.
O fala-barato mais genial da sua gera��o.
Contudo, a muda era bem bonita.
O teu falador tamb�m n�o era nada mau.
Sylvain!
Todos me acham um intelectual sem cora��o.
N�o sejas presumido.
Na verdade, sou um poeta.
Um poeta em segredo, reprimido.
Um escravo do lirismo n�o se exprime por par�bolas.
E eu s� acredito em par�bolas.
- Um escravo de quem? Meu? - Teu, claro.
S� penso em ti.
A todas as horas do dia.
- Duvido muito. - A todas as horas da noite.
N�o sei n�o.
- Pod�amos ser felizes. - E somos.
Sylvain, sinto que te estou a perder.
Genevi�ve...
O que se passa?
Genevi�ve, responde-me.
Recome�aste a trabalhar por minha causa?
� a maior mentira do mundo.
�s vezes, n�o se pode fazer nada.
Ningu�m pode.
N�o, Sylvain, n�o � assim t�o simples.
J� n�o me amas?
N�o sei. J� n�o sei.
N�o te perdoo. N�o te quero perdoar.
Rolande, tenho tempo,
tomo o pequeno-almo�o l� em baixo. - Certo, meu senhor.
Ele vai j� descer, Mna. Mich�le. Vai comer enquanto trabalha.
Obrigada, Mna. Rolande.
- Bom dia, Mich�le. - Bom dia, meu senhor. Vou j�.
Esteja � vontade.
Ent�o, Solange,
como v�o essas declina��es?
Perfeitas, mas continuo a achar o mesmo,
nove anos � cedo para aprender latim.
Sim. Mas o Montaigne falava grego com cinco anos.
Falava.
- Por onde come�amos? - Pelo correio, por favor.
Tem duas cartas que n�o abri.
Sabe que as podia ter aberto.
- Sou um livro aberto. - Eu � que n�o as quis ler.
Ainda tem pudor, isso � ador�vel.
E o resto?
Contas,
pedidos para honrar,
pedidos para considerar,
pedidos para negar...
E quem est� � espera?
Assuntos oficiais, o Sr. Chantavoine. Assuntos privados, o gerente, o couteiro,
e o caseiro, o pai da sua querida Sandra.
O Sr. Hubert queria dar-lhe uma palavrinha antes e depois.
Muito bem.
Chame-os e traga-os a todos.
Sim, meu senhor.
Escrevi uma declara��o geral e um plano de investimento.
Sim.
Devia dar uma vista de olhos antes de falar com o Chantavoine.
Meus senhores, por favor, vamos come�ar pelos problemas simples.
Resumindo, corte a madeira e pode vend�-la.
A sua �gua est� um pouco cara, mas se a Sandra gosta...
Quanto aos fais�es, vou esperar.
Meus senhores...
- Est� animado hoje. - N�o fiz nada por isso.
- N�o? - Juro.
- Dormiste bem? - Por favor...
N�o, problemas rom�nticos sem consola��o?
Vai haver drama no teu para�so.
Cala-te, por favor.
Ele concorda. Quer rever os detalhes?
N�o, decida voc�.
- Que detalhes? - Nada.
A serra��o abaixo da barragem.
- Chamas a isso detalhes? - Escuta, Fran�oise,
o Chantavoine vai tratar disso e eu disse-lhe para falar contigo,
depois tu e o Hubert decidem.
E tu �s um diletante. Charmoso.
S� menos agressiva, por favor.
E tu n�o me escondas nada.
Olha quem fala.
Pelo menos, n�o fa�o nada nas tuas costas.
Fran�oise, sabes que podes fazer o que quiseres, menos esc�ndalos.
Podes dizer-me o que quiseres, mas n�o � frente dos empregados.
Que simp�tico para o Hubert.
Eu imponho-me a mesma disciplina.
Est� bem.
Fala-me do jovem casal que trouxeste ontem.
- O que foi? - Nada, meu senhor. Est� bonito.
E isso tem gra�a?
Na primavera, os galos tornam-se nos p�ssaros mais bonitos.
- � a �poca de... - Cuidado, Mich�le.
Estamos sozinhos.
E isso j� n�o � muito frequente.
Restam-nos as mem�rias...
Nada de chantagem.
Nem pensar, teria tantos problemas como o senhor.
Estarei cega?
Depois de dez anos juntos,
a escolha j� n�o se limita � cegueira do conforto ou ao cinismo,
talvez haja outra coisa, uma cumplicidade quase fraternal.
Estou ciente das aventuras do Jacques.
Por exemplo, ele gasta fortunas
com a Sandra, a filha do nosso caseiro.
A sua loucura garante-me a sua sanidade,
a felicidade que a Sandra lhe proporciona n�o afeta de maneira nenhuma a minha.
N�o imaginas como estou feliz!
- Estou a ver. - Ela � maravilhosa.
Arthur, um cavalo para o Sr. Jacques!
Traz o Fedor, ele ainda n�o saiu hoje.
- Vamos? - Sim, claro.
Com ela vou passar as eliminat�rias, no m�nimo!
Pergunto-me o que te motiva a correr, minha pequena esfinge.
O mesmo que faz o fogo arder, e que torna o �pio calmante.
E a qualidade... espera, eu sei, a qualidade sopor�fera do �pio...
E eis porque a tua filha � como �.
Que � feito da tua virtude, pequena esfinge?
N�o sejas insolente, nem ingrato.
O que queres tu da vida?
A companhia de um homem gentil como tu.
Sabes, eu odeio o rancor.
No fundo, s� gosto de me rir.
Isso n�o � vida.
Ent�o, talvez seja uma m�mia.
� um mist�rio o que se passa nessa cabecinha.
N�o te queixes.
Tu n�o me amas.
Alguma vez me pediste isso?
N�o, claro que n�o.
Mas sabes que, �s vezes,
arrependo-me.
Eu n�o.
Sou livre.
Escolho os meus cavalos
e os meus homens.
Ensinaste-me bem.
N�o nos devemos arrepender de nada.
Diane...
Um bot�nico aprecia a diversidade das plantas.
O Jacques comporta-se como um bot�nico com as mulheres.
H� uma criatura espantosa na sua vida,
que � sempre dif�cil de identificar gra�as �s suas apar�ncias diferentes.
A bem dizer, a Anne-Marie
�, provavelmente, mais animal que vegetal.
H� pessoas que gostam de seguir,
mas a Anne-Marie gosta de tomar as r�deas.
Estrangeira, rica, livre,
ela trata a nossa cidade como um forte a ser conquistado.
Ela captura homens como quem captura as filhas dos lordes derrotados.
� uma predadora que me causa inveja, mas que, sobretudo, me diverte.
E sei bem a variedade de divers�es que ela proporciona ao Jacques.
O que se passa contigo? Leste demasiados policiais?
N�o quero que nos vejam juntos.
Preocupa-te a tua reputa��o ou com a minha?
- Minha querida... - Se for a minha, n�o te preocupes.
� para o lado que durmo melhor. Quanto � tua...
Sou uma figura p�blica.
Para as raparigas famosas � o oposto!
Anne-Marie, n�o vamos discutir. Anda.
H� mais de uma semana que n�o me dizias nada.
Obrigaste-me a explorar a floresta como uma escoteira
e ainda tens a pretens�o... - N�o tenho pretens�o nenhuma.
- Jacques... - Anne-Marie...
- �s louco. - Por que raio?
Gostas disto? Da natureza, da floresta, disto tudo?
O amor faz-se na cama.
Com espa�o e tempo...
- Percebes? - Percebo.
Perdemo-nos da incerteza do vocabul�rio.
Estou mesmo a ser enganada? Acho que n�o.
Durante dez anos, o Jacques, o meu parceiro,
deu-me a mais preciosa das lealdades
e � prov�vel que toda a gente se ria se eu a disser.
Ainda a trabalhar?
� a serra��o que te preocupa?
Pelo menos h� algu�m na fam�lia que se preocupa.
Fran�oise, n�o o farias se n�o quisesses.
- Nunca disse que fui obrigada. - Mas que s�ria...
Jacques, queria falar contigo.
N�o acredito em explica��es, pioram tudo.
Uma desculpa para o incomunic�vel. Que surpresa, vinda de ti.
J� dissemos tudo. Umas mil vezes.
Achas?
- Somos amigos. - Os melhores do mundo.
- Vamos continuar assim. - Claro.
Sabes que n�o queria entrar em acusa��es.
Mas...
Acho que est�s cada vez menos empenhado.
As elei��es de setembro, por exemplo...
- O Chantavoine est� a tratar disso. - Por favor!
Enfim,
faz o que achares melhor.
Mas tem cuidado.
- Adeus, querido. - Adeus.
- Levo o Mercedes? - Preferia que n�o, posso querer sair.
Est� bem.
Perfei��o inalter�vel, atividade incans�vel, compreens�o inimagin�vel.
� maravilhoso, mas n�o temos mais nada para dizer um ao outro.
Pergunto-me se existe o segredo da sabedoria, ou melhor, da felicidade.
No fundo, n�o acredito que haja.
Talvez seja o equil�brio e a liberdade que mais a fazem sofrer.
- Achei que estava em casa do Chantavoine. - Queria falar consigo.
Sobre as prim�rias?
Pomos o Boudu no topo do boletim.
E o Dr. Fauque em segundo. Est� no papo.
- De acordo, mas... - H� mais alguma coisa?
N�o propriamente.
Ent�o?
- Eu... - H� um tempo para tudo, querido Hubert.
Nada de amuar.
- Mas eu... - Est� tudo perfeito.
Tenha ju�zo.
Ent�o, Antonio, como est� a produtividade?
Aqui tem, minha senhora. Escrevi tudo.
- Como est� a sua filha? - Muito bem, obrigado, minha senhora.
V�, at� fiz um gr�fico.
Estou a ver.
Tem de me explicar os detalhes.
V� ter comigo ao castelo amanh�,
da parte da tarde.
Irrepreens�vel.
O c�mulo da discri��o.
A esposa de um grande senhor feudal que geria o ducado impecavelmente,
sem, se calhar, o admitir para si pr�pria, talvez fosse isso.
Achas mesmo que nas finais...
Sim, � a sua melhor hip�tese.
Est� ali uma visita, � para si?
Espero que sim.
Que surpresa maravilhosa. Nunca nos vemos.
O Sylvain vai-me dando not�cias vossas.
J� lhe pedi centenas de vezes que te trouxesse.
Quase nunca saio.
J� viste os meus est�bulos?
S�o uma loucura.
- Eu gosto deles. - Gostas de montar?
- Sim. - Boa.
- Melchior, prepara o Sult�o, sim? - Com certeza.
- Vens? - Sim.
- Gostas? - � linda.
Sei muito pouco sobre ti, mal nos conhecemos.
- Eu sei muito sobre ti. - Est� bem ent�o.
N�o h� nada que me desagrade.
Deves ter muitas ideias erradas.
Sabes que as mulheres da minha gera��o se interessam por pol�tica.
Regra geral, n�o tenho respeito nenhum pelas institui��es de poder.
Faz-me confus�o passear
com algu�m que � basicamente o chefe da Pol�cia.
N�o exageres. Est�s a deixar-me de consci�ncia pesada.
Acho que vivemos numa esp�cie de feudalismo,
mas com dinastias de governos locais.
Aqui, �s uma esp�cie de duque.
Para mim, a pol�tica s� se justifica com convic��es,
sen�o � apenas uma treta.
- Mas eu tenho convic��es. - Quais s�o?
Se tivesse de escolher entre o cinismo e a cegueira,
escolheria um pouco dos dois.
Eu tenho um certo poder
e aprecio-o.
Mas creio que o exer�o com modera��o
e muitas vezes para o bem de terceiros.
Acredito na toler�ncia, no deixa andar e n�o acredito em preconceitos.
Mais um pouco e vou considerar-te anarquista.
Iludes-te com a ideia de que n�o �s um tirano
e isso satisfaz-te.
Mas tens mais desprezo pelos teus concidad�os
do que por aqueles que metes na cadeia.
Que paix�o.
N�o acredito na pol�tica sem paix�o.
N�o misturemos assuntos, o amor j� � complicado por si s�.
Porque n�o v�m l� jantar hoje?
Mando o Bastien levar um bilhete � La Saline para avisar o teu marido
e n�s vamos diretos dos est�bulos para o castelo.
- Aceitas? - Como posso recusar?
Ol�.
N�o sei o que aconteceu.
O Jacques encontrou a tua mulher e decidiu organizar um jantar.
Ele acabou de ligar. Chegam daqui a uma hora.
- Aceitas uma bebida? - Sim, claro.
Que lindo quadro, � da escola flamenga?
N�o, � de um pintor local do s�c. XVIII. Comprei num antiqu�rio em Besan�on.
Ouvi dizer que h� antiqu�rios fabulosos em Besan�on.
Maravilhosos.
- Mandei preparar frango, minha senhora. - Perfeito.
- U�sque? - Sim.
Bem...
Bolas, j� n�o temos.
- N�o faz mal. - Faz, sim.
Espere, tive uma ideia. O Auberge Anglaise,
� aqui perto e o barman salva-me sempre. Vens comigo?
N�o acredito em ti.
Ainda vives na Idade M�dia.
�s o verdadeiro tirano dom�stico.
Claro que as mulheres se acham livres.
Livres para fazer escolhas, para viverem como querem...
- Mas n�o � verdade. - Como sabes?
Por experi�ncia.
As mulheres s�o criaturas precavidas.
- N�o me provoques. - N�o estou a provocar. S� a constatar.
Tu agradas-me.
E eu a ti.
Mas, a menos que tomes a iniciativa,
nunca faremos nada.
Nem com os teus sentimentos, nem com os teus pensamentos.
Tens uma ideia muito estranha das mulheres.
Pois, mas quando toca a dar provas, nunca fazem nada.
Disseste "provas"?
Vou dar-te uma.
E, quando a tiveres, �s tu que vais ter medo.
Olha bem � tua volta.
Toda gente me conhece e sabe quem tu �s.
Vais ver do que sou capaz,
os riscos que estou disposta a correr
quando quero mesmo uma coisa.
Quero um quarto, por favor.
Duplo, para duas pessoas.
Com certeza.
Sylvain...
... vens?
Est� pronto.
Minha senhora?
Aqui tem a chave.
Vamos.
� isto que me aborrece no adult�rio,
acontece sempre nas salas de espera de primeira classe das esta��es da prov�ncia.
Eu tenho sentimentos, sabes?
Anda c�.
Perdoa-me.
Eu sou s� garganta...
Preciso de me divertir.
�s infeliz?
Sempre foste?
Sempre.
Sou um ouri�o marinho com os picos virados para dentro.
Pobrezinho.
Adoraria poder trocar de corpo.
Devia haver lojas de corpos e poder�amos ir l� alugar outro.
Porque haverias de mudar?
Tem gra�a...
� como a timidez,
temos tanta coisa a dizer e depois...
... ficamos calados.
Sinto-me extremamente atra�do por ti.
Mas n�o o posso mostrar.
Deves ressentir-me imenso.
Falho sempre nas primeiras vezes. Preocupo-me demasiado.
Acredito no h�bito.
O cora��o � estranho.
N�o acredito em pessoas demasiado confiantes.
O Stendhal tinha raz�o.
Impotente.
Ele tamb�m era impotente.
Im... po... ten... te.
Mas valia morrer.
N�o se trata de morrer, meu querido.
Relaxa.
Esse estado de angustia � desumano.
A vaidade masculina � insond�vel.
N�o estamos num est�dio.
N�o � uma competi��o.
N�o pretendo que batas o teu recorde.
S� te quero a ti. S� isso.
Percebes?
Isto � apenas o princ�pio.
- Sabes... - Escuta, Sylvain.
J� chega de discuss�es.
N�o tens de inventar desculpas.
O que tens para me dizer n�o me interessa
e, provavelmente, eu at� j� o sei.
Bebi demasiado.
Creio que estava muito b�bedo.
Outra vez a Sandra. A perseveran�a dela � admir�vel.
Talvez n�o devesses ser tu a pedir-me explica��es.
N�o te queixes, n�o � como se tivesses jantado sozinho.
D�s um eremita engra�ado.
Foste tu que n�o apareceste. N�o invertas os papeis.
Desculpa l�, tenho de trabalhar.
Sempre na lufa-lufa.
Coitadinho.
Isto n�o � sorte. � um milagre.
Est�s a exagerar.
Nada disso, nunca venho para esta parte da floresta.
Vim hoje por causa de um problema com a madeira.
N�o percebo nada do que fazes.
Mesmo depois do que fal�mos ontem?
Sabia que falo demasiado, mas n�o assim tanto.
Pareces exausta. Eu levo-te a casa.
N�o, mas gostaria de passear contigo.
Porque n�o me levas a ver a tua madeira?
- N�o me digas que isso te interessa. - Nada.
- Mas quero saber quem �s. - Se ao menos eu soubesse...
- Bom dia, meu senhor. - Bom dia.
- Estava de passagem... - Eu estava a meditar.
Uma medita��o triste?
Depende.
Bem, estou aqui...
N�o acredito nos meus olhos.
N�o entendo bem o que me est� a acontecer.
A vida j� me deu quase tudo,
gl�ria, poder...
Mas, hoje, sinto uma esp�cie de...
... lassid�o,
como se tudo se tivesse tornado mais pesado.
Foi por tua causa que cheguei a essa conclus�o.
Oxal� isso n�o fosse verdade.
N�o sei quem verdadeiramente �s,
ou do que gostas...
... mas quase que tenho medo...
Coisa que n�o me acontece h� anos.
Tamb�m eu.
Estou sempre a pensar em ti,
tento imaginar a tua vida em La Saline.
�s feliz?
� estranho. Eu amo-o.
E ele ama-me, sem d�vida.
Mas falamos cada vez menos.
J� foste a Deauville no pico do inverno?
No amor tamb�m existe a morte de uma esta��o.
Vem depois da loucura do ver�o.
� a altura em que nos sentimos sufocados pelo peso dos pequenos h�bitos.
Se a ultrapassamos, ent�o, safamo-nos.
E... ultrapassaste-a com a Fran�oise?
Creio que sim, espero que sim.
Isso n�o foi muito encorajador.
Parece que entre voc�s s� resta uma fachada social.
Creio que nos resta outra coisa.
Uma esp�cie de companheirismo.
Eis a continua��o da transmiss�o do Festival de M�sica de C�mara de Cabrol.
Em terceiro lugar do programa, a "Cantata do Matrim�nio" de Wolfgang B.
Quando a m�o do Senhor
Caiu sobre a Terra
Para castigar os humanos Por s�culos de pecado
A sua benevol�ncia...
Queres ouvir isto ou um disco?
Tu preferes ouvir isto na r�dio.
Sim, se n�o te importares.
Est� bem.
Como preferes dormir no escrit�rio, tira uns len��is do arm�rio grande.
O tigre e a tigresa
O cervo, o le�o
E a lebre
Viviam com medo
Submissos a ouvir a voz da sabedoria
Do Senhor
Que doa a cada um a sua metade
�, grande fidelidade
Que alegria
Amor sem pecado, vamos agradecer ao Senhor
Fidelidade, frivolidade
Fidelidade, frivolidade
O Senhor � bom
Sylvain?
Nunca mais nos vimos.
Tenho andado ocupado.
Introduzi umas personagens novas na minha hist�ria e...
J� nem saio.
Nem sempre � com a caneta na m�o que trabalhamos melhor.
Tenho para mim que os rituais s�o como v�cios, n�o achas?
Sim, temos de ter os n�meros na cabe�a antes
e um pouco de ilus�o.
Nunca fui capaz de escrever uma linha,
mas sempre pensei que tinha romances incr�veis dentro da minha cabe�a.
Est�s a assustar-me.
Sabes...
... j� n�o consigo escrever.
J� desconfiava.
- Vais voltar a conseguir. - Deus te ou�a.
Quando nos voltamos a ver?
Quando quiseres.
Por volta das 19h00, podes?
Adeus.
Pobre Sylvain,
est� a passar uma grande crise.
O equil�brio fr�gil da sua vida com a Genevi�ve foi quebrado.
Tem de voltar a desfrutar dos prazeres da sedu��o.
Tem de ligar a todas as minhas namoradas
e eu contento-me em sorrir.
A aventura dele com a Fran�oise n�o me incomoda.
Sei que est� destinada ao fracasso, mais cedo ou mais tarde.
Ela vai recuperar, mas...
... o Sylvain...
Quero fazer algo por ele, dada a situa��o, mas...
... n�o sei o qu�.
Foste tu que ligaste?
Sim.
Entra.
Est�s a pensar mal de mim.
Antes pelo contr�rio.
Aqui, as pessoas t�m medo de mim.
Sou tida como uma Barba Azul feminina.
Se existem mais mulheres assim,
adoraria encontr�-las.
Mas eu existo.
Pergunto-me se...
Nada de perguntas in�teis.
Em suma, o que vou fazer,
com uma narrativa objetiva, mostrar o que penso das personagens.
O velho exerc�cio da introspe��o.
Nada disso. N�o estou a dizer que � verdade.
Estou a dizer que � o elas pensam.
Afinal, elas pensam, n�o pensam?
Fascinante.
� engra�ado que me contes isso tudo.
N�o sou exatamente uma intelectual.
N�o sei o que �s, mas interessa-me a tua opini�o.
Quando algu�m me diz que sou bonita,
pergunto-me o que querer� de mim.
E, depois, tenta beijar-me.
�s linda.
E pronto.
Ent�o?
Ent�o?
Pergunto-me...
N�o, nada de perguntas in�teis.
Estamos a explorar as ru�nas de um sonho.
S�o extraordin�rias, n�o s�o?
S�o sinistras.
Acho deprimentes. N�o gosto de del�rios.
Eu sei, odeias falhan�os, n�o �?
Eu c� n�o.
H� dois tipos de homens.
Os de sucesso e os apaixonados.
Eu s� gosto dos apaixonados!
Que se dane!
O facto de te recusares a apreciar este s�tio incr�vel
� um sinal do que se passa entre n�s.
N�o sejas infantil, Sylvain.
O Ledoux � meu irm�o, meu pai e meu anjo da guarda.
E ele disse:
"A gl�ria que os homens dispensam
n�o � proporcionalmente igual ao trabalho que a origina.
� como uma sombra,
sempre mais pequena ou maior do que o objeto."
Claude Nicolas...
... bebo em mem�ria da tua pequena alma atormentada.
Sylvain, porque bebes tanto?
Bebo porque gosto de beber.
E gosto porque gosto de companhia,
gosto de companhia porque gosto de falar e gosto de falar porque sim, est� bem?
N�o.
N�o est�s bem comigo?
N�o. Pronto, j� disse!
Eu sei o que fazes. Gostas de ca�ar.
Matas mais um e juntas � cole��o.
N�o quero isso! N�o quero ser embalsamado!
Queres que fa�a parte do teu har�m?
Queres? Abaixo o matriarcado!
Pergunto-me de onde v�m esses teus instintos.
Um gajo est� a viver a sua vidinha, sem fazer mal a uma mosca...
Bem, quase...
E vem uma tipa com a sua espingarda e...
L� se foi o macho!
Passa a ser um capacho.
Sou horr�vel, n�o sou?
Horr�vel.
Est�s zangada comigo?
Sim, estou.
Sylvain...
Podes ficar aqui at� �s cinco da manh�?
Como se n�o soubesses com quem estive.
Ent�o, devias estar feliz.
"Feliz"? Que quer isso dizer?
Como poderei ser feliz?
Eu amo-te!
Desisti de esperar por ti. Fui passear sozinho.
Ainda queres montar?
N�o, obrigada, estou cansada. Mas queria falar contigo.
Levas-me a casa?
Podemos fazer uma paragem pelo caminho, se quiseres.
Falta-nos coragem.
N�o sei se ser� poss�vel, mas...
... gostaria que pud�ssemos viver
sem hipocrisia.
Vi logo que eras um c�nico.
N�o sou.
Assim que te vi,
perguntei-me logo quando te poderia voltar a ver.
Estou aqui.
E voltarei sempre que quiseres.
Estou a ficar embara�ado, e n�o � costume.
Eu sei.
Contigo, fico diferente.
Quero ser o homem que imaginas, mas acho que n�o consigo.
Os homens de 40 anos t�m dificuldade em esquecer as suas experi�ncias.
N�s atra�mos a nossa alma.
N�o estou a tentar atra�-la,
mas nunca conheci uma mulher que me desse tudo o que me d�s...
... um sobressalto no cora��o.
As palavras estragam tudo.
Para mim, um gesto pode substituir uma frase.
Uma m�o diz tudo sobre a pessoa.
Amo a tua m�o.
Amo-te.
Eu n�o acreditava na felicidade.
Era um homem de prazeres.
Contigo, sou feliz.
N�o digas nada.
� tudo t�o fr�gil.
Ent�o,
vais endireitar-te ou � s� a fingir?
Digamos que vou mudar de vida.
Vamos ver-nos menos vezes.
Est�s a cometer um erro.
As mulheres n�o apreciam sacrif�cios espont�neos.
Gostam de batalhas longas.
Adeus.
Enfim...
Boa sorte.
Sabes,
envolver-me com um homem como tu vai contra todos os meus princ�pios.
N�o me surpreende.
N�o gosto de casos.
Sou uma rapariga s�ria.
N�o, s�ria n�o.
R�gida.
Nunca conheci uma mulher como tu.
A Mna. Sandra ligou para si.
J� lhe disse para dizer que n�o estou.
Com certeza, meu senhor.
N�o te pedi nada, sabes disso.
Eu sei.
N�o sou ciumenta e n�o tenho inten��o de vir a ser.
Veremos.
N�o entendo.
N�o me surpreende.
Deixa-me explicar-te.
Eu amo-te e parece-me que n�o me amas.
Duvido dessas palavras.
A tua rela��o com o Sylvain era baseada numa ilus�o.
N�o tenho ilus�es sobre o meu prazer.
Espera.
Voc�s tentaram viver fora do tempo,
afastados do mundo, numa esp�cie de abstra��o,
numa falsa ilha deserta.
Tu deixaste as tuas ocupa��es e ele deixou os seus pretextos.
Nunca podia ter resultado.
N�o sou o tipo de pessoa que faz sacrif�cios.
Nem tos pedi.
L� vem o escritor.
Ele n�o � um escritor a s�rio.
�, sim.
Um escritor escreve.
Tive um cliente que era escritor.
O Almirante Boudet.
Ele escrevia sobre batalhas navais.
Ofereceu-me os seus livros.
Ele est� em baixo. Agora, est� sempre assim.
V�, queixa-te l�.
Isso causa cegueira.
Ainda bem, n�o gosto do que vejo.
Obrigadinha.
N�o me refiro a ti, sabes que somos como irm�os.
�s a luz da minha escurid�o.
�s um falinhas mansas!
Somos parecidos, eu e tu.
Est� bem, cala-te.
Jamais seria mau para ti.
Eu sei.
Um voo de longo curso.
Pronto, descol�mos.
J� n�o vejo a Terra.
Perguntava-me onde passavas as noites.
Mas n�o demora assim tanto explorar as baiucas locais.
Conheces a Ursula?
A minha companheira na jangada da Medusa.
- Muito prazer. - Ol�.
O que se bebe?
Nada de misturas. No que toca a bebidas, sou contra misturas.
Muito s�bia!
Sou uma especialista
em para�sos artificiais de todos os tipos.
Estou ao seu dispor.
Quando quiser.
Sylvain, est�s a beber muito.
Ent�o? N�o �s o Ex�rcito da Salva��o.
Bem, tu � que pediste.
Minha senhora?
Tr�s Ricards.
Como lhe posso agradecer?
N�o � preciso. � um bom amigo.
N�o sei se devo, n�o a quero ofender.
N�o me ofende,
nunca misturo trabalho com sentimentos.
Tenho consci�ncia profissional, entende?
N�o s� entendo, como aprecio.
Bom,
est� na hora de ir.
Onde est� a Estrela Polar?
Quando ele acordar, manda-o para c�.
Jacques,
temos de fazer alguma coisa, eu j� n�o aguento mais.
Tamb�m eu.
Adeus.
Adeus.
Waterloo, na manh� a seguir � batalha.
Mas n�o combatemos.
N�o penses que me esqueci do que dissemos.
Fal�mos sobre Corneille,
a nobreza, a incompreens�o...
Fart�mo-nos de falar.
Mas quando come�aste a falar sobre a nova l�gica...
- Fiz-te o truque do vocabul�rio novo? - Fizeste os truques todos.
"O mapa n�o � o territ�rio.
A palavra n�o � o objeto que nomeia..."
Devo ter bebido muito.
Dizia eu...
Quando come�aste com a nova l�gica, perdeste-me.
Entrei em piloto autom�tico.
Talvez deva avisar a Genevi�ve.
Ela sabe, ela ligou.
- Ai sim? - Sim.
Sabes...
... n�o sei bem o que fiz.
Estou com uma branca total.
Como se tivesse atravessado o rio Styx
e deixasse de ter contacto com os vivos.
A experi�ncia de ningu�m n�o ajuda ningu�m.
N�o te vou dar conselhos.
Sabes, tive uma ideia.
No estado que est�s, nunca ir�s terminar o teu livro.
Come��-lo, queres tu dizer.
Devias fazer algo completamente diferente.
- Trabalhar, talvez. - N�o sei.
O que faria?
Podias trabalhar comigo.
Se quiseres.
A fazer o qu�?
Tudo, nos nossos neg�cios, nas elei��es...
Podes at� transformar o jornal local no que quiseres.
N�o podes estar a falar a s�rio!
Mas estou.
Escuta, Jacques,
aprecio e tua proposta e a tua boa-vontade,
mas est� completamente fora de quest�o.
E porqu�?
N�o h� raz�o para que uma coisa que odeias, e que at� te repugna,
de repente, me v� satisfazer.
Especialmente no estado em que estou.
Terias de experimentar.
Mas tenho a certeza.
Muito bem, velho amigo, vou indo.
- Vemo-nos logo? - Claro.
- Sylvain? - Sim?
N�o acho que me repugne.
Pensa bem.
- Adeus. - Adeus.
Ainda n�o est�s pronto? O Conselho vai deliberar �s 11 horas.
E temos de falar com o Dupont-Turier antes da sess�o.
O voto dele pode mudar tudo.
Est�s a ouvir?
Quero l� saber do Dupont-Turier.
- Est�s louco? - N�o, n�o estou.
S� estou a ver as coisas de um prima que nunca tinha visto.
Quero l� saber do Dupont-Turier e da sua adjudica��o.
As estradas, da madeira, dos vinhos, do rel�gio, do jornal,
ou de quem quer que esteja na assembleia deste triste pa�s.
Quero que se fodam, na verdade.
O que me interessava antes era
a Ilha de P�scoa, os templos nepaleses
e coisas assim.
Nunca devia ter deixado a etnografia e a arqueologia, nunca!
Valha-me Deus.
- Mas temos responsabilidades. - N�o te preocupes.
Eu re�no-me com o teu Dupont-Turier.
Claro que vou falar com ele e assegurar-lhe discretamente
que vai receber a sua parte do bolo.
Claro que o vou fazer.
Mas, finalmente, vejo as coisas como elas s�o.
Desculpa dizer-te isto, mas quero que tudo de foda...
... copiosamente!
Querias ver-me?
Quero ver-te sempre.
Penso em ti a toda a hora, mas...
... vim ver o Sylvain.
Para dar o grande salto?
N�o exatamente, n�o �...
Isto � novo, ainda estamos a processar. S� quero falar com ele.
Ele est� no terra�o.
�s bom para ele,
�s o �nico que ele ainda suporta.
Ent�o, n�o est� muito calor?
N�o, nada disso.
As mulheres gostam quando estou bronzeado.
Queria falar contigo.
Ai sim? Assunto s�rio?
Bastante, sim.
S� falo com o Ministro das Distra��es P�blicas.
� uma organiza��o das festas saturnais, sabes?
Sim, o sonho.
Fora de brincadeiras, temos de falar.
Parece ser importante para ti.
Fala l�, ent�o.
� sobre a Genevi�ve?
Claro que � sobre a Genevi�ve.
Troc�mos Corneille por Racine?
Quem se ter� sa�do melhor?
Gostaria de saber o que achas.
N�o sei se quero ser honesto.
Nem comigo mesmo,
nem contigo.
Dizer que n�o queres ser honesto j� � uma forma de honestidade.
Bom,
tu ama-la,
n�o sabes se ela te ama, mas achas que ela n�o me ama.
S� h� uma solu��o.
Parte com ela.
Claro, est�s apreensivo por causa de mim,
mas n�o vale a pena.
Como estamos...
... n�o sei se quero continuar a viver com ela
ou se a deixe.
Tenho a certeza de que ainda a amas.
Mas ela � que conta, n�o �?
Sim, tens raz�o.
Por acaso, tenho uma ideia...
... diab�lica.
Podes partir com ela com uma condi��o.
E tenho quase a certeza que n�o a poder�s cumprir.
E n�o te direi o que desejei.
Diz l�.
Tens de desistir dessas tretas da pol�tica.
E tu nunca conseguir�s faz�-lo.
- Creio que conseguirei. - Creio que n�o.
Tens 39 anos, estamos casados h� dez.
Temos dois filhos.
�s o ministro mais novo do pa�s.
Ainda tens uma carreira pela frente.
Enfim...
Suponho que sabes o que est�s a fazer.
Sim, sei.
N�o sou um homem impulsivo.
� muito simples.
Quando me demitir, haver� elei��es prim�rias.
E a nossa lista passar�.
N�o te metas em primeiro lugar no boletim, mete-te em segundo.
N�o corres riscos e poder�s satisfazer a vaidade masculina.
Em rela��o � propriedade, o not�rio vai tratar de tudo.
Bem como da divis�o das a��es.
E, pronto, o Sr. Chantavoine vai tratar da papelada.
E...
... tu �s t�o competente quanto eu.
Com certeza.
Nem pensei nisso.
N�o se vive dez anos com uma pessoa
e se ousa pensar que a conhecemos.
Nunca te imaginei capaz de tomar este tipo de decis�o.
N�o me digas que te agrada?
De certa forma,
sim.
Reconheci-te.
Sabes, l� no fundo,
nunca gostei muito desta profiss�o.
Isso s� se sabe depois.
Ainda h� umas semanas,
gostavas da tua vida.
Acho que n�o.
Viv�amos numa esp�cie de...
... rede de h�bitos.
Raramente nos v�amos.
S� restava uma fachada.
N�o era assim t�o mau.
S�o sempre as raparigas iludidas que sofrem de desgosto.
Quem escreve no jornal n�o pode sofrer disso.
N�o despreze o povo, camarada.
N�o fales do povo
nem dos imbecis.
N�o sejas demagogo.
Sobretudo, n�o agora.
S� funciona quando est�s no poder.
Ser� uma separa��o exemplar.
� estranho que ainda percebamos as insinua��es um do outro.
Descobriste isso tarde demais.
Foste muito importante para mim.
Tu tamb�m.
Vamos ser amigos?
Gostaria muito.
Mas acho que estou ressentida contigo.
Sou possessiva.
Tu � que tens o poder.
N�o estou a falar disso.
Ainda assim, � importante para ti.
Lamentamos sempre aquilo que n�o conseguimos ter.
Ponha as malas no outro carro.
� mesmo isto que queres?
Sem d�vida.
Ent�o, vamos.
Est�s a pensar no Sylvain.
Seria um monstro se n�o o fizesse.
Um monstro.
N�o tens ci�mes?
Nunca.
De certeza que � apenas um impulso, mas ainda me custa a crer.
Eu sei, eu hesitei muito.
Foi dif�cil com a Fran�oise?
Nem por isso.
Ela, agora, tem tudo, e o que ela sempre quis foi o poder.
Sim, mas poder para ela era ter-te a ti e ao Sylvain.
- Talvez. - Ela vai habituar-se.
As pessoas v�o achar que est� feliz mesmo que n�o esteja.
Mas o que � a felicidade...
... mesmo?
Genevi�ve?
Sim?
Achas que isto � poss�vel?
J� n�o sei.
Eu sei.
N�o �, tu ainda o amas.
E nunca me amaste.
Achas?
Sim.
Voc�s deviam voltar para Paris.
Ningu�m consegue viver fora do mundo real.
Talvez.
Devias trabalhar.
E deix�-lo andar por a�.
O que te interessa se ele fica na rua
ou se volta para casa?
Ele ama-te, portanto...
E tu?
Eu...
Eu c� me arranjarei.
Devo partir na mesma.
Nos dias que correm, n�o consigo tomar decis�es.
Vou a p�.
Levas-me as malas � esta��o?
Est�s a ser um santo.
Mas laico.
E o Jacques?
Eu amo-o.
E est�s aqui?
N�o sei mentir.
Nem trair.
Portanto, est�s perdida,
como eu.
Perdida, n�o.
Mas acho que h� v�rias formas de amar.
Est�s a tentar dizer
que ainda me amas?
Ainda, n�o.
Sempre.
Curiosamente, invejo-o.
Gostas dele,
mas sentes-te atra�da por mim.
Se calhar, pode amar-se duas pessoas ao mesmo tempo.
De formas bem diferentes.
Porque as coisas n�o podem ser simples?
"�, barril das danaides,
o que podemos fazer para sermos felizes como uma crian�a inocente?"
Sylvain, n�o comeces!
Chega de brincadeiras.
S� quero uma vida calma e simples.
Chega de jogos.
Tens raz�o, eu gosto de jogos.
Sou infantil.
Vamos ser adultos.
J� chega de brincadeiras.
Temos de viver.
Vamos voltar para casa.
Tens raz�o.
Mas...
... em rela��o ao Jacques, tens a certeza?
Sim.
Sabes que sim.
Fa�o as malas?
Venham.
Hubert, pe�a ao Chantavoine que espere e que leia o contrato.
- Sim, minha senhora. - Mich�le, chame o caseiro.
Depois de falar com o Melchior, tratarei do assunto da madeira.
Com certeza, minha senhora.
Sr. Melchior, ela vai receb�-lo agora.
Ent�o?
Parab�ns, vai tratar do patrim�nio?
N�o, Deus me livre. Est� um caos!
Porque acha que me vou livrar dos cavalos?
- Bem, pensei que... - N�o tem nada de pensar.
Apresente-me uma proposta de expans�o.
Aqui tem o seu or�amento.
Mas, minha senhora...
E assegure os treinos da sua filha.
Gostaria que ela vencesse a competi��o sob a minha lideran�a.
Ela sabe fazer as coisas com eleg�ncia e efic�cia.
Foi sempre ela que fez tudo.
Surpreende-me que n�o esteja ressentida.
Mich�le, ainda falta algu�m?
N�o, minha senhora.
Quero falar consigo.
Serei concisa.
Fa�a as malas
e parta imediatamente.
Aqui tem um ano de sal�rios
pelos seus leais servi�os.
Mas, minha senhora...
... se n�o tem quem me substitua,
ainda posso ficar uns dias.
Eu tenho uma pessoa.
O seu comboio parte �s 10h30, tem muito tempo.
Sim?
- � a casa da Sra. Symphon? - Sim.
- Quem devo anunciar? - Sou o novo secret�rio.
Muito bem.
Est�s a pensar no Jacques?
Seria um monstro se n�o o fizesse.
Um monstro.
Tu tamb�m est�s a pensar nele.
Claro.
N�o devia ser permitido sacrificar outras pessoas.
Eu levo-lhe as malas.
Ele vai partir na mesma?
Sim.
Sabes, � preciso muita coragem para mudar de vida.
Acho que � isso que ele vai fazer.
E gostaria de acreditar que tive m�rito nisso.
A Fran�oise vai tomar conta do ducado?
Bem, vou indo.
Escuta, Genevi�ve...
... ontem perguntaste porque as coisas n�o podiam ser mais simples.
E se tent�ssemos?
Sejamos simples.
V�...
... vamos lev�-lo connosco.
Esperava que propusesses isso.
O cego e o paral�tico.
Qual � que anda e qual � que v�?
- Isto n�o nos levar� a lado nenhum. - E onde � que estamos mesmo?
- N�o queres vir? - N�o disse isso.
Ent�o, n�o o tentes dizer de outra forma.
Vamos l�.
E agora...
... o que fazemos?
FIM
Legendas: Marta Morgado
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