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Original subtitles

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Neste filme,

tentarei contar a história das filhas de Olfa.

Olfa tem quatro filhas.

As duas mais novas, Eya e Tayssir, ainda vivem com ela.

As duas mais velhas,

Rahma e Ghofrane,

foram devoradas por um lobo.

Onde está Olfa?

Ela está aqui?

Está a caminho.

Estou tão ansiosa!

Até parece meu primeiro filme. Não sei explicar.

Ela está ansiosa para me conhecer?

Ela te disse alguma coisa?

Ela quer ver as atrizes que interpretarão as mais velhas.

Mais do que a mim?

Isso é estranho.

Muito bem.

Então estou me preocupando mais do que ela.

Pra mim, sou como a personagem de Rose, em Titanic.

Ela conta a história dela

e os atores interpretam essa história.

Então eu sou a Rose!

Mas em As Quatro Filhas de Olfa.

Não é exatamente isso que vai acontecer.

Você, Eya e Tayssir atuarão no filme.

Mas também há uma atriz

que interpretará você nas cenas perturbadoras.

Você terá que sentir tudo o que senti,

tudo o que eu passei com minhas filhas mais velhas.

O sofrimento que suportei. A dor da separação.

A angústia de acordar e lembrar do desaparecimento.

E isso pode te deixar louca.

Nós, atores, aprendemos a manter uma certa distância.

Se envolver totalmente numa história,

mergulhar numa realidade desconhecida,

pode ser muito perturbador.

E isso pode machucar.

Então aprendi a me proteger.

E se não conseguir?

E se não conseguir tirar a personagem da sua cabeça?

E se isso estressar você, por ser muito real?

Kaouther não vai inventar nada nesta história.

É tudo verdade.

E isso pode perturbar você.

Sim, tenho que me proteger.

Eya e Tayssir...

Vocês também interpretarão a si mesmas.

Vou apresentar a vocês

as duas atrizes que interpretarão as suas irmãs mais velhas,

Rahma e Ghofrane.

- Olá. - Olá.

Reconheço a Ghofrane.

Ela é a Ghofrane. E essa é a Rahma.

- Certo? - Como adivinhou?

A Ghofrane... vou adivinhar.

A Ghofrane tem cabelos cacheados, e também é magra.

E exala feminilidade, como você.

E você se parece com Rahma. E comigo.

Para mim, como mãe delas, ninguém pode substituir Rahma e Ghofrane.

- Acha que vamos substituí-las? - Nunca!

- Ela se parece com a Ghofrane. - Sim. Em alguns aspectos.

Tem o mesmo sorriso.

A semelhança é impressionante àquela última foto dela.

Imagino que Kaouther tinha essa foto.

Ela escolheu bem.

Acima de tudo, é uma questão de caráter.

Muito feminina.

Ghofrane é mais calma, certo?

Ghofrane me pega nos braços, Rahma não.

Ghofrane senta ao meu lado, Rahma não!

Venha sentar ao lado da sua mãe!

É isso que será doloroso neste filme.

Vamos reviver tudo.

Vai reabrir as feridas.

Não é...

Nunca chorei pelo desaparecimento.

Nem disse mais os nomes delas.

Não consegui.

Dizer "Rahma" e "Ghofrane",

me lembra tragédia, sofrimento e dor extrema.

- Tudo certo? - Olá.

Kaouther me contou que Olfa achou difícil

ver "suas filhas".

Ela desabou. Nem conseguia falar.

Então, ficarei no lugar dela.

Sim.

- Sou a "Mamãe". - Prazer em conhecê-la.

Com quem devemos começar? Rahma ou Ghofrane?

- Essa é Rahma. Qual a idade? - Quinze.

Abra mais.

Está bom. Está preso.

- Costumava ajudar suas irmãs? - Costumava usar um também.

- Você usou o hijab? - Sim.

Usou a partir de que idade?

Quando eu tinha oito ou nove anos, talvez.

Para Ghofrane, é realmente um ótimo trabalho.

E Rahma, não está bom?

A sua personalidade é parecida.

O seu caráter é semelhante.

Vocês realmente lembram elas.

Elas experimentaram o hijab, gostaram e mantiveram.

Como eu disse,

minha mãe era uma mãe solteira, criando várias filhas.

Éramos presas fáceis.

Em um mundo sem misericórdia.

Minha mãe só teve filhas. Nosso pai nos deixou.

Muitas vezes, os homens tentavam entrar em nossa casa à força.

Tentavam arrombar a porta!

Eu era a única capaz de nos defender.

"Eu era a única capaz de nos defender."

Eu era jovem na época.

Tinha apenas 13 ou 14 anos.

Mas era corajosa.

Eu sabia que tínhamos que nos defender, sabe?

"Sabe?"

"Mas era corajosa.

Eu sabia que tínhamos que nos defender."

Comecei a fazer musculação.

Fiz musculação, cortei meu cabelo, como o de um menino,

Me vesti como um homem...

Me tornei um homem, para proteger minha mãe.

Batia em qualquer um que nos atacasse. Todos eles.

Dei uma surra em todos!

"Batia em qualquer um que nos atacasse. Dei uma surra em todos!"

Me comportava como um homem. Me transformei num homem.

Então, encontrei um homem, e ele me quebrou.

Na minha noite de núpcias...

Você conhece esse tipo de pessoa. Sabe o que esperam.

Certo.

Calma, Abderahmane, não vou fugir.

Vá com cuidado, por favor.

- Calma! - Vou te mostrar!

Não, eu não implorei a ele.

Fui firme. Dei ordens.

Agora me lembro. Minha irmã entrou.

Maldita seja!

Ela disse a ele: "Não se preocupe com a cama.

Jogue ela no chão e a encurrale no canto."

E depois disso, saiu do quarto.

- Mostre, como se você fosse sua irmã. - Certo.

Como está indo, Abderahmane? Terminou?

Essa cadela não quer se entregar a mim.

O que há com você, Olfa? Qual é o seu problema?

Vá em frente, entregue-se. Ou confesse, se tiver algum problema.

As pessoas estão esperando. Você quer causar problema?

- Sua irmã realmente disse isso? - Sim.

- E depois? - Ele me empurrou para a cama.

Ação!

Sai de cima de mim!

Cala a boca!

- Para com isso! - Cala a boca!

Juro que não vai me tocar.

Sai de cima de mim! Sai!

Estão esperando lá fora. Quer nos envergonhar?

Ouviu como ele arrota?

E daí? Você não sabia que ele era assim?

Não seja um problema. Rápido!

Ele nem olhou para mim.

Escuta. Minha irmã é um osso duro de roer.

Vá pro canto do quarto.

Encurrale-a lá e faça o que tem que fazer.

Você não tem vergonha.

As pessoas estão esperando, anda logo.

- Nada de drama esta noite. - Vai.

- Você não é virgem? - Sou!

- Se não for, diga. - Eu sou, não se preocupe.

Você não está aqui para se divertir.

- Ótimo! - É!

Vá, nos deixe a sós.

Mostre a ela que é homem.

Tudo bem. Saia daqui.

- Vai, levanta. - Estou levantando.

- Vá para o canto. - Estou indo.

Estou indo para o canto.

Se quer fazer isso no canto, vamos lá.

Vai, no canto.

Tira suas mãos de mim!

- Seu covarde! - Puta suja!

- Sua puta... - Vou te mostrar!

Quer ser um homem?

- Vou te ensinar! - Sai de cima de mim, sua vadia!

Vou te ensinar o que é ser homem!

Aí, está feliz?

Vai, se limpa!

Pode entrar.

Olha.

E ela levou o lençol.

- O lençol com o sangue dele? - Sim, era o sangue dele.

Eles começaram a festa lá fora, os gritos, os tiros de fuzil...

Estavam se divertindo, mas ele não tinha me tocado.

Depois que nos casamos,

minhas colegas falavam sobre seus maridos.

Conversavam sobre o que faziam juntos.

Eu não tinha nada para contar. Fiquei com inveja.

Quando assistíamos a um filme com cenas românticas,

- eu dizia a ele: - "Olha, que bonito."

E ele insultava a atriz.

É uma vagabunda, essa atriz.

Hend Sabri, uma vagabunda?

- Uma puta. - Sério?

Eu te amo muito. Quero te morder.

Gostaria de ser vagabunda também.

Certo.

Vá em frente.

Sozinha não dá.

Temos que fazer juntos.

Desculpe.

Faz sentido!

- Ser vagabunda sozinha? - Eu sei...

É sempre assim. Nunca insultam os homens.

Arruma seu bigode.

Você, quando atua nesse tipo de cena,

ninguém te insulta.

- Eu, claro, sou uma vagabunda. - Sim.

É verdade!

A vida é como nos filmes.

- Exatamente. - Caramba!

O que você acha?

Às vezes eu dizia a ele:

"Vou te ensinar uma coisa. Diga: Eu te amo."

Diga: "Eu te amo".

Eu gostaria de ouvir isso. É uma palavra bonita.

Fazer amor também é uma questão de preliminares.

Coisas para fazer e dizer.

Vamos!

Mas isso era demais pra ele. No fim, o proibi de se aproximar.

Dormiam juntos uma vez por ano, para ter filho?

Sim, praticamente.

Vou te dizer quando dormíamos juntos.

Quando eu não tinha dinheiro.

Se eu visse que ele trabalhou, que fez algum dinheiro,

então me entregava a ele.

Dizia a mim mesma que ganhei aquele dinheiro.

Essa era talvez a única razão para dormirmos juntos.

Ghofrane!

Mãe, papai está aqui.

Volte a dormir. Não se mova.

Ghofrane!

Ghofrane?

Está dormindo, Ghofrane?

Você me ignora, como sua mãe?

Está dormindo sozinha?

- Ela não deixou ninguém entrar? - Pare, pai. Não tem vergonha?

Como ele pronunciou isso?

O sotaque?

Ele disse a ela: "Sua mãe dorme toda arrumada..."

- "Dorme" com qual sotaque? - "Dorme".

- Mostro pra ele, Tayssir? - Sim.

Ele dizia pra ela:

"Me explica então,

esta mulher, dormindo assim, seminua,

com todo o corpo oferecido, para quem é isso?

Porque não é para mim."

Um pai, para mim, é o homem que...

contribui para que nasçamos, através da relação sexual.

Ótimo, muito obrigada.

Teria sido melhor ele ter feito outra coisa,

em vez de me conceber.

Ele insultava a mamãe. Ele nos acordava.

Ele acordava a Ghofrane para bater nela.

- Por que ela especialmente? - Porque ela era a mais velha.

Ela nos protegia.

E ela era muito próxima da mamãe.

- Era para me machucar? - Exatamente.

"Aquela noite de merda..."

Aquela noite podre.

Mamãe estava xingando.

Não, chega! Estou farta dos palavrões!

Sou uma atriz. Posso inspirar os mesmos sentimentos sem xingar...

- Não. - Como assim não?

Na Tunísia, quando discutimos, xingamos.

Especialmente em casa. Está no nosso sangue.

Estou falando com você sobre o filme.

Mas tem que ser realista.

Como espectadora, estranharia se contássemos nossa história

sem um único palavrão.

As únicas palavras que ele disse e que marcaram minha infância

foram os xingamentos.

"Vocês são todas como sua mãe." "Um monte de... não sei o quê."

"Se eu te pegar... Você vai acabar mal."

Era isso que o pai delas dizia.

Certo.

Entende? E eu dizia a elas:

"Ouviu o que seu pai está dizendo?

Para ele, não há dúvida que acabarão como prostitutas.

Não deixem que ele esteja certo!

Diga a ele que são filhas de Olfa.

E que as filhas de Olfa são dignas de grandeza."

Aí está!

A foto é enganosa mesmo.

Então concorda!

- Sim, isso causa confusão. - Obrigada por confirmar.

Magnífico!

É uma bunda!

Tinha feito uma cirurgia na perna.

Tirei uma foto pensando que fosse uma aplicação de raio-X.

Eu era jovem. Não passava de uma foto.

Mais tarde, minha mãe encontrou

e pensou que fosse outra coisa.

- Ela viu uma bunda! - Exatamente.

Ela perguntou quem tinha tirado a foto.

Rahma e Ghofrane disseram que éramos eu e Eya,

brincando com o telefone.

Eu disse que não tinha tirado foto.

Mas Eya não sabe se defender,

então ela sempre fica em silêncio.

Todos pensaram que era ela.

Todas, exceto Eya, sabiam se defender.

Elas a acusaram, e ela não negou.

Lembro-me disso como se fosse ontem.

Dei a ela dois dinares, arrumei uma bolsa para ela

e a coloquei pra fora de casa, na chuva.

- Quantos anos você tinha? - Eu era nova. Oito anos.

Foi exatamente assim que aconteceu.

Eu estava chorando: "Mãe, eu juro, não fui eu!"

Ela me agarrou pelo suéter, me empurrou,

e jogou uma sacola vermelha em mim.

E me acertou bem na cabeça.

E então ela jogou dois dinares em mim.

Fiquei implorando: "Eu juro, não fui eu."

Você só tinha que dizer:

"Não é nada, mãe, é só uma perna."

- Eu tinha esquecido. - E quando ela te mostrou a foto?

Quando vi a foto pensei que fosse "isso" também.

- Você também esqueceu? - Ela não.

Não, eu me lembrava.

Mas temi que ela me batesse por ter tirado foto da perna.

Até dizer a verdade me assustava.

- Eu é que vou ter que atuar nesta cena? - Sim.

- Vou bater nas duas. - Especialmente em mim.

E, como atriz, meu trabalho reside na compreensão de sua motivação.

Preciso realmente entender o que fez você explodir.

Para você, tudo o que se relaciona

ao corpo feminino é vergonhoso e obsceno.

Temos que cobrir nossos corpos.

Aos meus olhos, minhas filhas tinham se aventurado

num território perigoso.

Que território? É o corpo delas!

Me deixe terminar.

Para mim, esta foto fez soar um alarme.

Suas mentes se tornaram impuras.

Hoje é só uma foto. Amanhã estarão se despindo,

e então será a relação sexual.

Tínhamos oito anos e você pensou tudo isso.

Sim, era disso que eu tinha medo.

- E elas tinham oito anos? - Sim.

Quando ela nos acusou, eu tinha oito e ela seis.

Ela estava com medo da gente fazer sexo. "Relação sexual!" Sinceramente...

Fiz essas perguntas a mim mesma e para as quatro.

Você é obcecada pelo pecado

e Deus lhe deu quatro filhas, para você, tão cheia de medo!

Pode imaginar o inferno?

É uma tragédia. Odeio garotas. Não queria ter filhas.

O que entendo é que para você, os corpos delas são perigosos.

Não há dúvida sobre isso.

O corpo é onde realmente estão os limites.

É propriedade privada de uma pessoa.

- Do marido. - Sim.

Mas por que você acha que os corpos delas

são propriedade de um cara que ainda nem conheceram?

Nem meu marido tem o direito de possuir meu corpo.

De onde vem essa atitude?

- Falando assim do seu corpo... - Meu corpo pertence a mim.

O aquecimento. Elas vão jogar futebol.

Elas são mutantes!

- Vamos, faz também. - Nem pensar!

Deus nos livre!

Agora vamos dar boas risadas.

- Deixar tudo sair... - Para que possamos nos concentrar.

- O que você quer comer? - Um belo frango picante.

Um belo frango picante?

- Deixa comigo. E você? - Canelone.

Canelone? É tão bom!

- E você? - Qualquer coisa.

Vamos, Ghofrane, jogue o jogo!

Mamma mia, é tão bom!

Sente o aroma de picante?

Elas jogavam esse jogo quando não tínhamos o que comer.

Ghofrane era a mais difícil.

Ela não dizia sim para tudo, não gostava de nada.

Rahma, ela adorava tudo. Uma verdadeira camponesa!

Ela fazia essa dramatização com pratos vazios

ou com sobras que elas não queriam.

Sonhavam com refeições saborosas.

Isso as mantinha entretidas e se esqueciam.

Eu me juntava a elas. Nos divertíamos muito.

Não era um jogo, como elas acabaram de fazer.

Na verdade, era mais espontâneo, terminava com uma boa risada.

Dançávamos, cantávamos.

Está entre nossas lembranças mais felizes.

Meninas, vocês têm as mesmas lembranças?

Naquela época, jogar este jogo

nos permitia sentir,

ter acesso às coisas

das quais fomos privadas.

Todas essas coisas que só víamos na TV.

Rahma sempre estava por trás disso.

Esses momentos eram graças a ela.

Assim como os dramas.

As festas dela sempre se transformavam em drama.

Como no aniversário da mamãe.

- Como assim? - Ela havia preparado

pedacinhos de papel para jogar nela.

- Confete? - Isso.

Ela colocou em uma caixa de doces, em cima da porta.

Mamãe bateu nela. Tadinha, tinha preparado tudo.

Rahma não combina com o nome dela: "clemência"!

Eu a apelidei de "maldição", em vez de "clemência".

- Isso é tão cruel! - Viu?

- Quer saber como ela me chamava? - Quero!

Vou fazer uma lista, junto com uma melodia.

Era uma vez um...

"Sua desgraçada!"

"Queria que fosse uma bola chutada pelos meninos!"

"Sonho em ver seu sangue escorrendo pela calçada!"

"Quero ligar no jornal e descobrir que você morreu!"

"Uma vagabunda que só quer sair com rapazes!"

"Você sai e dá uns amassos! Acha que eu não sei?"

Aí vem um palavrão.

"Ainda tem merda na bunda e quer pegar homem?"

Doía, mas eu não demonstrava.

Respondia a ela assim...

Mas por dentro, ficava furiosa.

Se eu pudesse... Me desculpe, mas eu queria estrangulá-la.

Juro, essas frases me cortavam profundamente.

- Este filme me permite falar sobre isso. - Então quer me estrangular?

Depois do filme, ela vai me fazer sentir mal.

- Claro! - Ela vai voltar no assunto.

Não terminei.

Quero estrangulá-la e dizer: "Não sou assim!"

Vamos, tente!

Isso é tudo o que você ouviu? Sobre estrangular?

Não entendeu o quanto isso a machucava?

Você é egoísta, Olfa.

Isso a machucava? Entendo, mas é assim que é.

É o legado de várias gerações, uma herança.

Ponto final.

Elas foram majoretes por quanto tempo?

Cerca de quatro anos.

Ou três... Sim, foram alguns anos.

Finais de semana, férias...

Com que idade começaram?

Ainda na escola, acho que no ensino fundamental.

Eya e Tayssir não tinham...

ido para a escola ainda.

Tudo mudou depois que ele caiu.

- "Deus é um." - Exatamente.

"E Ben Ali é inigualável!"

Não me importo com Ben Ali. Estava falando daquela época.

Os tempos eram difíceis. Claro, estou falando por mim.

Mas pelo menos estávamos todas juntas.

- A revolução não roubou suas filhas. - Elas...

Elas eram filhas de Ben Ali. Boas meninas.

Filhas de Ben Ali?

Sim, filhas de Ben Ali. Eram boas meninas.

Veja o que aconteceu depois que ele caiu!

O problema são aqueles que governaram depois dele.

Sei disso. É o que estou dizendo.

- Olá! - Olá.

Você está deslumbrante.

Obrigada.

E aqui está a chefe.

Estamos vendo vídeos antigos. Eya era dessa altura.

Sim, eu lembro.

Eu era do tamanho dessa jaqueta.

Elas eram dessa altura. Eya e Tayssir.

Graças à segurança, os humanos se elevam

A segurança deixa as crianças felizes

Os jovens e os não tão jovens

A segurança deixa as crianças felizes

Os jovens e os não tão jovens

A felicidade das nossas mães

E nossa querida pátria

Em nome de Deus,

querido povo da Tunísia,

estou diante de vocês...

JANEIRO, 2011

...diante de todos vocês,

na Tunísia e no exterior...

Vença!

Liberdade!

Naquele dia eu estava faxinando a casa de uma senhora.

Eu estava sozinha, e pensava enquanto limpava.

Quando tomo uma decisão, falo sozinha.

"Não quero mais isso.

Os que lideram esta revolução não são melhores do que eu.

Posso revolucionar minha vida também."

Estava esperando que ficassem mais velhas.

Por quê? Para minhas filhas?

Elas ficarão melhor sem ele.

Elas nunca o veem de qualquer maneira.

Ele não lhes dá carinho ou dinheiro.

Ele nunca faz nada com elas. Nunca as leva para a escola.

"Ele roubou sua juventude. Por que o atura?"

"Você pode ter uma nova vida."

E assim, fomos ficar com minha irmã.

Ela estava surpresa. Eu disse a ela: "É isso.

A Tunísia teve a sua revolução. Agora estou tendo a minha."

Eu tinha acabado de chegar, naquele mesmo dia,

quando meu caso com Wissem começou.

Alô, Mohammed.

Não tem ninguém aqui com esse nome.

É mesmo?

Desculpe, número errado.

Naquela época, celulares eram uma novidade.

Nos divertíamos ligando para números aleatórios.

Você me deixou mal com a minha esposa. Quem é você?

Sua esposa?

Deixe eu pedir desculpas a ela.

Está tudo bem, não há esposa.

Mas quem é você?

Ele me enfeitiçou.

Ele desbloqueou a mulher, a adolescente dentro de mim.

Fiquei debochada, rebelde, adolescente.

Fiz de tudo.

Fiz tudo o que queria. Queria amar esse homem.

Queria viver o que ainda não tinha vivido.

Eu te amo.

Ele escapou da prisão durante a revolução.

Precisava de um lugar onde pudesse se esconder.

Os policiais não faziam ideia que eu existia.

Ninguém suspeitaria que eu abrigava um fugitivo.

Sabe por que ele tinha sido preso?

Sim, por um crime. Ele matou alguém.

Ele me contou tudo. Não escondeu nada.

Eu sabia de tudo.

Esse crime não te assustou?

De jeito nenhum. Para mim, ele era como um anjo.

Não encontrei nenhum defeito nele.

Para mim, era o mais bonito, o mais masculino,

o homem mais legal e adorável.

Se ele matasse alguém na minha frente, eu ajudaria a esconder o corpo.

Verdade.

Juntos, compartilhamos experiências incríveis,

que são indescritíveis.

E para mim foi normal.

Quando ele fugiu, um amigo disse: "Tem uma velha.

Ela é muito velha, mas é uma ninfomaníaca.

Vá lá, dê prazer a ela, e ela lhe dará uma grana."

Ele foi lá, e ela deu a ele 50 dinares.

Algum tempo depois, quando estávamos falidos,

ele me perguntou o que eu achava.

"A velha é nossa única solução."

Fui com ele para a casa dela!

Ela tinha acabado de morrer, o caixão dela estava na porta!

Ação!

Não falei nada sobre ele, pela mamãe.

Poderia ter me vingado dele tão facilmente.

Ele era um açougueiro, então havia muitas facas em casa.

O que ele tomava?

De tudo.

O quê? Comprimidos?

Sim, comprimidos de todos os tipos.

Ele ficava estranho.

As pessoas usam drogas para se divertir, certo?

Ele não.

Ele não conseguia nem controlar o corpo...

Ele não conseguia nem falar?

Não conseguia falar, ele ficava assim...

Todo trêmulo, com um olhar desagradável.

Agindo de forma desagradável. As palavras também.

O primeiro ano com Wissem foi bom.

Nós éramos jovens.

Não estávamos acostumadas com alguém sendo legal conosco.

E ele era legal. Ou pelo menos parecia.

Mas não agiu da mesma forma com todas nós.

Ele era legal com uma e desagradável com outra.

E tudo isso em segredo.

Como assim "em segredo"?

Por exemplo, ele era gentil comigo.

Era ele quem comprava comida. Não tínhamos dinheiro.

Mas ele era namorado da mãe e das filhas, digamos assim.

Quando ele se cansou da mãe, passou para as filhas.

À noite com a mãe e de dia com as filhas.

Você está em paz consigo mesmo? Com a consciência tranquila?

Eu nunca te amei.

O que eu amava era a felicidade nos olhos da minha mãe.

Nada mais.

Pensei que seria o pai que nunca tive.

Mas você me fez odiar a ideia de um pai.

O que Rahma e Ghofrane fizeram com você?

O que Tayssir fez com você?

"Ela é minha filha, a favorita." Foi o que disse, mentiroso.

Nenhum pai deveria fazer isso.

Por que você fez isso?

Eu te odeio.

Nunca te perdoarei por isso.

Te odeio.

Podemos cortar?

O que foi?

Tem algo me incomodando.

Pode explicar?

Não. Não é algo com as câmeras.

Será uma discussão entre você e eu, lá fora.

Está bem.

Vamos cortar, Kaouther?

Podemos começar a trabalhar?

Vamos!

Não, ele não quer.

Diga a ele que precisamos dessa cena.

Preciso que o público veja isso.

Para que as pessoas saibam quem esse homem é.

Quero que ele me ajude. Ele deveria me apoiar.

Eu já revivi essa cena com um psiquiatra.

Superei já. Não é nada novo. Não é a primeira vez.

Fiz esse exercício no hospital, cercada de psiquiatras.

Foi muito pior.

- Isto é um filme. - Eu sei.

Filme ou não, já superei isso.

Não deixe isso te incomodar.

Não precisa ter medo. Sei o que estou fazendo.

É só um diálogo. Ele é ator, sabe disso.

É só pensar que estou atuando.

Diga a ele que são linhas de diálogo que decorei.

Já disse tudo isso.

Entendeu, Kaouther?

Diga a ele para não ter medo de mim.

E você, Tayssir?

Não, tudo bem.

Tudo certo. É só que...

Não consegui...

Não consigo odiá-lo.

Apesar do que ele fez, simplesmente não consigo.

Sim, estou com raiva. Quero que ele pague por isso.

Mas não consigo odiá-lo. É estranho.

Talvez porque... Também não odeio meu pai.

E, para mim, Wissem foi mais que um pai.

Quando eu era uma garotinha, pensava nele como um pai.

Nunca imaginei que ele faria essas coisas.

E, apesar de tudo, sou incapaz de odiá-lo.

Ele mentia para minha mãe. Inventava histórias para ela.

É isso que queremos provar para ela também.

Por muito tempo, ela nos disse que Wissem

foi nossa vítima.

Ela disse que perdeu ele por nossa causa.

Nós que ficamos perdidas por causa dele.

Nós é que estamos perdidas.

Essa é a verdade.

Meu amor se renovou

Meu amor se multiplica

Meu amor se renovou

Meu amor se multiplica

Eu te amo há muito tempo

Desde quando era criança

Te amei de todo o coração

Te amei com todo meu sangue

Te amei de todo o coração

Te amei com todo meu sangue

Você era a chama e eu a borboleta

Você era a terra e eu o fazendeiro

Você era o mar e eu o marinheiro afogado

Eu sempre volto para você...

Pare, não aguento!

Você fica aí nos mostrando sua borboleta!

E você se atreve a reclamar!

Não tinha percebido que elas tinham crescido,

até que me divorciei e fui morar em Sousse.

Elas estavam diferentes!

Elas tinham mudado. Tinham crescido.

Quando eu era pequena e meus seios começaram a crescer...

Eu tinha vergonha!

O meu ainda não cresceu!

Não queria dormir de bruços. Tinha medo que afundassem.

Que eles entrariam e ficariam dois buracos.

Rahma e uma prima colocaram dois copos nos meus seios.

E eles não cresceram mais!

Eu tinha 11 anos.

Minhas irmãs zombaram de mim, em vez de serem solidárias.

- Elas zombaram de mim. - Por causa da menstruação?

Sim, coloquei o absorvente com o lado adesivo para cima!

E o algodão para baixo.

Quando eu tirei...

- Nem te conto! - Deve ter doído.

Eu não sabia! Puxei. Meus pelos fizeram assim...

Eya, tem um homem aqui!

E daí? Ele está trabalhando!

De qualquer forma, está filmando você.

Kaouther, tenho que te contar sobre quando descobri o...

Olfa, não! Nada de bater!

Sai de cima de mim!

Minha pobre borboleta.

Sou sexy, já me disseram...

Certo, mãe?

Que bando de piranhas!

- Sua putinha! - Sai!

Não fizemos nada! Nada mesmo, eu juro!

Sai de cima dele, mãe!

Espera só. Você vai ver!

Ela tinha um diário e escreveu tudo nele.

Tayssir veio me mostrar. Ela era muito próxima de Rahma.

Li e descobri que falava de um menino, Onssi.

"Sua pele macia, seus olhos tão azuis quanto o céu.

Você foi o primeiro a me beijar.

Seu beijo despertou coisas dentro de mim..."

A palavra "beijo" me deixou louca!

- Onde está o mal nisso? - Ela disse que ele a beijou!

Todas as garotas fazem isso!

Não me importa. Não quero.

Você nunca fez isso?

Não. E mesmo quando casada, o idiota não me beijava.

Não teria me casado novamente, se ele tivesse me beijado.

Me disseram assim na escola dela: "Rahma está matando aula.

Enviamos uma notificação pra você."

Como assim matando aula?

Foi quando os supervisores me explicaram

que ela tinha se tornado uma gótica.

Que ela entrava usando maquiagem preta

e ficava batendo nos outros alunos.

Que estava fazendo coisas,

rituais estranhos, coisas que eram chocantes.

Nem quero dizer o que eram.

Mas disseram que era uma adoradora de Satanás.

Uma satanista. Não gosto dessa palavra.

Desculpa...

Você trouxe Satanás pra minha casa!

O diabo!

- Na minha casa! - Já está cheia de demônios.

Em nome de Deus!

O que há com ela, mãe?

Em nome de Deus!

Deus nos proteja!

Quando mamãe foi trabalhar na Líbia, Ghofrane se aproveitou.

Ela namorou um cara com uma motocicleta.

Mas não conseguia subir com as pernas cabeludas.

Então foi depilar as pernas.

Depois disso, ela nos renegou.

Dizia que era filha única, que a mãe trabalhava em Dubai,

que tinha uma mansão em algum lugar, com piscina...

Basicamente, ela tinha tudo.

A vizinha que cuidava da gente contava tudo para a mamãe.

- A supervisora. - A supervisora, sim.

Ela dizia que era empregada.

Que raiva!

Um dia, ela ligou pra mamãe.

"Volte, sua filha está fora de controle."

Ela pegou o primeiro ônibus.

Não achávamos que estávamos fazendo algo errado.

Achávamos que o cabelo dela estava bonito.

Queríamos pintar também.

Meninas, a mamãe está aqui.

Mãe.

Saiam. Você fica.

Você fica.

Ghofrane...

Minha filha.

Seu cabelo...

É novo?

Espere aí... Você se depilou?

- Você se depilou, Ghofrane? - Desculpa, mãe.

- Você se depilou? - Desculpa, mãe.

Depilou as pernas, Ghofrane?

O que mais você depilou?

- Mãe... - Responda.

Você virou mulher?

Enquanto trabalho na Líbia, você está relaxando?

Acha que é uma mulher agora?

Me desculpa, mamãe.

Mostre. Mostre o que você depilou.

Que Deus me perdoe.

Não dei a ela uma chance.

Não deixei ela se defender.

Ela tinha cortado o cabelo...

Arranquei uma mecha de cabelo assim...

Na minha mão.

Eu a destruí completamente.

Quando ela bate, não são apenas alguns tapas.

Ela gosta. Ela pega a mangueira do gás,

dobra ao meio

e bate e bate.

Ouvimos um assobio da força do movimento.

Ela chorava, implorava. O vizinho tentou defendê-la.

Bati nele também e o expulsei.

Depois da mangueira, peguei uma vassoura. Acabou em pedaços!

Quando ela parou de se mexer,

achei que estava morta. E parei.

Minhas irmãs, sei que entre vocês

há quem não use o hijab

e não ore.

MAIO, 2013

Algumas se arrependem, mas não se atrevem a vir.

Entregaremos o hijab em suas casas!

Aos nossos olhos, você é uma mãe maravilhosa,

uma mãe virtuosa,

um seio tenro,

um vasto mar, o auto-sacrifício.

Também é a esposa preciosa a quem protegemos...

Foi uma manhã comum. Soubemos que haveria um evento.

Fomos para a praça, onde encontramos pregadores.

Eles disseram que estavam distribuindo hijabs.

As mulheres do bairro queriam pegá-los

e vendê-los para ganhar algum dinheiro.

Uma das meninas da vizinhança, chamada Nessrine,

disse a Ghofrane para ir.

Então ela foi pegar um hijab.

Quando ela chegou à praça, um xeque colocou o hijab nela,

e começou a gritar: "Ela é a lua!", porque minha irmã é linda.

Quando ela voltou para casa, nós zombamos dela.

Dissemos a ela para vendê-lo antes de usar,

caso contrário, as pessoas não comprariam.

Mas ela não queria tirá-lo.

Quando Ghofrane começou a usar o véu,

a gente pegou muito no pé dela.

Como assim?

Rahma a chamou de morcego.

"Batman! Você está ridícula!"

Exatamente.

"Seu cabelo, sua beleza... Está desperdiçando isso.

Como os meninos da rua vão paquerar?"

Olha só, um sabonete preto ambulante!

Vou ter que olhar para isso todos os dias?

- Mãe! - Chega!

Mãe, fale com ela.

Deixe sua irmã em paz.

Que vergonha! Você gosta disso?

Sim, gosto. E você deveria fazer o mesmo.

Mãe, respeito é uma mentalidade. É uma maneira de se comportar.

Você está bem?

É compreensível.

Não consigo nem olhar para ela.

Quantos anos tinha quando Ghofrane começou a usar o niqab?

Eu tinha oito anos.

E, quando ela foi embora, eu tinha onze.

E como você era quando tinha oito anos?

Eu era horrível!

Como assim?

Era muito feia!

Muito feia!

Estou bem.

- Podemos continuar, Kaouther. - Ótimo, vamos lá.

Começou a se espalhar em todo o bairro.

Havia muitas mulheres usando véu.

Duas semanas depois, Rahma saiu para fazer compras.

Ela estava vestindo uma camiseta com uma imagem do anticristo.

Ela costumava usar aquela camiseta.

Naquele dia, ela voltou para casa aos prantos

e pediu a Ghofrane para comprar um hijab para ela.

Insistimos que nos contasse o que tinha acontecido.

Um certo Sr. Mustapha, junto com alguns outros homens,

a pararam na rua e falaram sobre o anticristo.

E eles mencionaram os castigos da sepultura.

Isso foi o que mais a assustou: Os castigos da sepultura.

Então ela começou a usar o hijab também,

mas se tornou mais radical que Ghofrane.

- Você me acha sexy? - Demais!

Muito sexy.

Cadê os olhos dela?

Abaixe um pouco.

Ali estão!

- Aí! - Aí! Agora sim!

Sabe o que me choca?

Não houve nada disso antes da revolução.

Nem niqab, nem hijab. Nada.

Quem quisesse usar o hijab, usava em casa.

Se não, a polícia levaria embora.

E batiam em você se usasse batom.

Com Ben Ali, antes da revolução,

não era permitido nem usar lenço na cabeça.

Aquelas que usaram foram presas.

Queriam impor um ideal de mulher tunisiana.

Como ela deveria ser,

o que podia fazer ou não.

Tanto que, naquela época, usar um lenço na cabeça

era um ato de resistência,

uma forma de se opor à ordem estabelecida.

Porque o hijab, que foi proibido antes da revolução,

tornou-se uma espécie de símbolo de rebelião.

Somos sempre atraídos pelo proibido, na verdade.

"Como assim sem hijab?

Vou me rebelar e usá-lo então."

E, durante a revolução, minha mãe, minha família,

e até eu, ainda uma menina, dissemos:

"Vamos votar em quem ama a Deus e usar o hijab novamente.

Estão mais perto de Deus. Resolverão nossos problemas."

Querem moldar as mulheres para serem o que eles querem.

Mapear nossas vidas

e moldar as mulheres da maneira como eles as veem.

Nem mais nem menos.

Não nos deixam fazer o que queremos.

Como bonecas que eles podem manipular.

E que vão vestir o que eles querem.

Sem direitos.

Por exemplo, uma garota com olhos lindos como você,

pode usar de lado e isso se torna atraente.

Isso não é pecaminoso?

Sim, mas estou falando das que usam por estética.

E então Rahma... escute.

Ela puxa também.

- Puxa para baixo assim. - Sério? Virou um borrão preto.

Para que não vejam o contorno dos ombros.

É um bloco sólido. Nada se destaca.

Não deveria ser capaz de distinguir alguma forma?

Nada. Nem uma mão, nem um pé. Nada.

E quando anda, tem que marchar. Assim.

Sério? Tenho que marchar também?

Assim, de cabeça baixa, dando passos largos.

A Ghofrane, ela anda assim.

Nem se ouvem os passos dela.

E a Ghofrane faz isso com os olhos.

Viu?

Mostre esses olhos, Ghofrane.

Mas então, por que usar o niqab?

- Por quê? - Por uma questão de aparência.

Era a moda naquela época.

Agora, são jeans rasgados. Na época, era o niqab.

Moda!

E quando estiver com as irmãs, hora de levantar o niqab!

Olhamos uma para a outra, assim.

Está tudo bem.

Ghofrane, levante o seu.

Vai.

Meu Deus!

A reação deles. "Meu Deus! Tão linda!"

- Irmã, você é tão linda! - Deus é bom!

Tão linda que, no fim, puxam seu niqab para baixo.

Por quê?

As irmãs estavam com medo que seus maridos a vissem.

- E que quisessem casar com ela? - Eles podem ter quatro esposas.

Eles fazem todo um ritual para uma garota que usa o niqab.

- Principalmente se for ímpia. - Em que sentido?

Uma prostituta.

Não, não iria tão longe.

Do jeito que me viu agora há pouco.

- Uma mulher... - Uma mulher que não reza,

que não segue os mandamentos religiosos.

Damos uma festinha para ela.

- Como assim? - Como uma formatura.

Nós a vestimos e cantamos para ela.

- Como? - Vou cantar para você.

Cante junto comigo.

Minha irmã Não deixe Satanás corromper você

O hijab é um comando divino

Minha irmã, suas palavras foram tolas

Eles disseram que estávamos Tão escuras quanto a noite

Riram do hijab...

Eu adorava a Rahma.

Ela era meu modelo. Tentava copiar tudo o que ela fazia.

Estava sempre perto dela e realmente a admirava.

Quando ela começou a usar o hijab, também usei.

Eya não quis, no início.

Quando Eya apareceu e Rahma e eu estávamos almoçando,

nós a afastávamos e a chamávamos de infiel.

Ela começava a chorar.

Era a mesma coisa quando ela queria brincar conosco.

Nós a afastávamos, porque não estava com hijab,

e toda vez ela chorava.

Conseguimos o que queríamos no final.

Nós a derrotamos. Ela acabou usando um hijab

apenas para morar conosco.

Nós pegamos muito no pé dela.

Quando finalmente usou o hijab, viramos todas mulheres de véu.

Como um pequeno ramo do Daesh em casa.

Saudamos o Estado Islâmico, nosso estado

Nosso Estado triunfará

E pelos mais poderosos

A Lei Sharia triunfará

- Que música é essa? - É "Pela Lei Sharia".

Saudamos Baghdadi

Melhor parar.

A polícia vai aparecer.

Olfa, onde aprendeu essas músicas?

- Com as meninas. - Você cantava com elas?

Claro. Fazia tudo com elas.

Eu fiquei muito feliz de vê-las usando o hijab.

Isso não me incomodou no começo.

Mas depois elas ficaram com vergonha de mim.

Por vestir calças enquanto elas estavam de véu.

Você não tem vergonha?

A vida chega ao fim.

Todas vamos morrer. O que dirá diante de Deus?

Não estou nua! Uso um lenço na cabeça.

O lenço não é suficiente. Deus disse para cobrir o rosto.

E como posso trabalhar vestida assim?

Está trabalhando por hoje ou pela eternidade?

Você quer queimar no Inferno?

Você nem trabalha!

Passa seus dias indo de uma mesquita para outra.

Pelo menos estou ajudando as pessoas.

Comece ajudando suas irmãs e a sua mãe.

Não. Meu coração é mais puro que o seu.

- O que sabe sobre meu coração? - Posso ver em seu rosto.

- Que língua cruel! - Rahma atacou!

Estou tentando avisar para que Deus te poupe,

para que não queime no Inferno no juízo final.

Sei onde vou acabar.

No jardim do Éden, lá em cima.

Se eu usar essa roupa, quem vai te alimentar?

Não se preocupe com isso.

- Não posso trabalhar assim! - Está arrumando desculpas, Olfa.

O problema é seu! Veremos o que Deus dirá.

Use, se quiser, mas não me incomode com isso.

As pessoas vão rir de você.

Dirão: "As meninas usam, mas olhe para a mãe delas!"

Vão te chamar de mulher perdida.

Olha a cara de pau dessa vadia!

Imagine, você sai e um carro atropela você.

Te acerta e você morre, certo?

Não desejo isso para você, mas o que Deus fará?

Você me assusta.

Não dê ouvidos a ela.

Vai acabar nas profundezas do inferno.

Minha filha, você me assusta.

- Vou usá-lo. - Ela entrou no personagem!

Você respondeu assim?

- Ela está falando sério. - Sim.

Ela é uma ótima atriz.

Você me assustou. Me deu calafrios.

Foi assim que aconteceu. Ela me convenceu pelo medo.

Usei por muito tempo.

Encontraram o único caminho para dominar você.

Com religião, com Deus.

Elas inverteram o equilíbrio de poder.

E também, foi você quem começou com as proibições.

- Então elas... - Me deixe responder.

Isso mesmo. Eu as ensinei a mirar e elas atiraram em mim.

Eu as ensinei a serem fortes, e elas me derrotaram.

Elas foram capazes de me influenciar.

Eu não gosto dessa roupa.

Só estou usando para reconstituir esta cena.

Nem quero me ver no espelho.

Mas quando elas se vestem assim, isso me deixa orgulhosa.

Não gosto de como Eya está vestida.

Eu ficaria muito feliz se Eya o usasse.

Você nem quer olhar para si mesma no espelho,

e gostaria que eu usasse para te fazer feliz?

Temo por vocês.

Se elas quisessem sair menos cobertas

ou se tivessem ficado na mania gótica,

além de sair com rapazes, você as teria deixado?

Nunca!

Então, para elas, a única maneira de serem livres,

era seguir esse caminho.

Eu te amo.

Você me ama? Certo? Você receberá o que merece.

Somos amigas. Sou sua querida irmã.

O amor não entra nisso.

Você já me bateu duas vezes.

Duas vezes.

Mostre suas costas.

Mostre suas costas!

- Caramba! - Está brincando com Deus?

Que Deus? Deus perdoa, você não.

Cale a boca, Tayssir.

Deus é misericordioso, caramba.

- Quatro, cinco, seis... - Rahma, merda!

Quando esquecíamos ou nos atrasávamos para orar,

Rahma nos chicoteava.

De acordo com a gravidade do pecado.

Esqueci as regras, mas podia chegar a 50 chicotadas.

Ela levava a sério. Batia com força.

E quando Rahma cometia um pecado,

ela se autoflagelava assim.

Quatro, cinco, seis, sete...

Eu lembro, uma das amigas da mamãe engravidou,

mas fora do casamento.

Rahma esperou ela parir e depois aplicou a lei Sharia.

A punição? Apedrejamento.

Como planejou fazer isso?

A mulher teria revidado, certo?

Não fizemos isso. Era o plano imaginário de Rahma.

Em um lugar público. Ela queria amarrá-la.

- Então ela imaginou tudo. - Claro.

Ela dizia: "Depois de parir, será apedrejada."

Ela não poderia fazer isso. Ela inventou tudo.

Existem leis neste país. Ela teria sido presa.

Acima de tudo, foi para nos avisar o quanto seria ruim

se vivêssemos num Estado regido pela lei Sharia.

A mulher seria apedrejada.

Se não existissem essas leis, seria uma loucura.

Seria o fim.

Rahma daria ordens em você com tapas.

Não estaríamos filmando!

Graças a Deus!

- Eya é minha versão jovem. - Elas se parecem.

Ela se parece com você na foto.

Sim, Eya lembra minha juventude. Ela é minha cópia exata.

- Nossa! - Minha boca!

Tem alguma coisa nela.

- Eu vi, mãe. - O quê?

Você tirou o lenço.

- Você viu? O lenço estava lá... - Calma!

- Ela está fingindo. - Juro, escorregou sozinho.

Está tudo bem. Deixe assim.

Uma foto sem lenço, por favor.

- Coloque-o sobre os ombros. - Certo.

Isso é o que você queria!

Fico bem assim!

Escute.

Está usando microfone. Vai ter problema no som.

Não pode tocar.

Deixe o lenço assim.

Como um lenço Chanel.

Digamos que eu seja sua mãe verdadeira.

Você me aceitaria como sua mãe?

- Como Ghofrane? - Não, sua mãe, sua.

Ela seria obrigada a isso.

Ficaria satisfeita comigo como sua mãe, do jeito que sou?

Você escolheu sua mãe?

Alguma de nós escolheu a mãe? Se você tivesse escolha...

Não escolhemos, mas escolheria a mesma mãe e pai?

Não.

Aí está...

Com Rahma,

muitas vezes assistíamos a vídeos juntas.

Um dia, ela encontrou um vídeo no YouTube.

Era um homem que queria passar uma noite enterrado.

Ele foi enterrado com um tanque de oxigênio.

Ele queria passar a noite dentro do túmulo.

Quando saiu no dia seguinte, estava aos prantos.

Ele tinha medo de Deus.

Ele chorava, e Rahma chorava ainda mais.

E fiquei tipo: "Espere aí, eu devia chorar com isso?"

Ela queria tentar também.

Ela adorou a ideia, pesquisou.

Ficou obcecada por isso. Queria fazer, mesmo que fosse morrer.

Algumas pessoas sonham em ir para as Maldivas.

Minha irmã sonhava em passar uma noite em um túmulo.

Bum, bum, bum. A verdade será revelada.

Ela está no hospício e Deus perdoa tudo.

Sou a mártir.

Sou a coveira. Sortuda.

Sou o Anjo da Tortura.

Sou o Anjo do Tormento.

Bum!

Vamos enterrá-la.

- Se divertiu jogando esse jogo? - Nós nos divertimos.

Foi como ir à Disneylândia.

Do que você gostou?

De tudo! É divertido. Ela morreu e nós a enterramos!

Rahma inventou isso para vermos que a vida não vale nada.

Quando morremos, só levamos uma mortalha.

Somente nossas ações contam.

Um pouco de algodão em ambas as narinas.

E nos ouvidos.

- E nos buracos embaixo, certo? - Sim.

Fechamos todos os buracos.

Espere...

Não sabe se fingir de morta?

É a primeira vez que morro.

Que Deus lhe conceda Sua infinita misericórdia.

Perdoe-me se ofendi você.

Descanse em paz.

Pode beijar sua irmã.

Muitas garotas usam o hijab,

porque temem ser torturadas na sepultura.

É o mais assustador e uma coisa horrível,

então é o argumento mais persuasivo.

Por exemplo, uma mulher adúltera,

a vagina dela pega fogo na sepultura.

Queima!

Ela é cozida, ela queima, tudo o que imaginar.

Faça-a usar um vestido de fogo!

Faça-a usar sapatos de fogo!

Deus, tenha piedade de mim!

Gostaria de ser uma pedra, não humana.

Deus, tenha piedade! Não sabia que o dia do juízo chegaria.

Perdoe-me, eu não sabia.

Tarde demais para isso.

Isso aconteceu quando mamãe estava na Líbia.

Estávamos na casa da minha tia.

O filho do vizinho recitou o Alcorão. Tinha uma voz linda.

Fomos vê-los durante o Ramadã.

O filho começou a recitar o Alcorão

e vi Ghofrane na porta do quarto.

Ela estava na ponta dos pés, como se estivesse sendo estrangulada.

Ela chegou perto de mim e desmaiou.

Senhor, proteja-nos do mal.

Me solte!

Rahma foi à mesquita perguntar sobre exorcismos.

E para evitar que o véu saísse na frente de um exorcista,

encontramos uma mulher exorcista.

Me solte! Me solte!

Saia deste corpo! Que seja amaldiçoado por Deus!

Quem é você? Saia! Saia, inimigo de Deus!

O nome do Senhor te protege.

Isso tudo é verdade, Ghofrane?

Homens não são suficientes, precisa de Djinns também?

Diga!

Não seja rude, ele pode ficar violento.

Cale a boca.

Quando você foi para a Líbia, tudo desandou.

Estou trabalhando muito lá e você me traz um Djinn.

Voltarei para a Líbia.

Voltarei para lá.

E vou levar as meninas comigo. Todas trabalharemos lá.

Nós vamos ganhar algum dinheiro e então voltaremos.

Não há vergonha em ser faxineira.

Você tem que ganhar a vida honestamente.

Sim, transformei minhas meninas em faxineiras.

Sem qualificação, é o que poderiam fazer.

Era o único trabalho disponível na Líbia.

Além disso, passei meu tempo correndo para ajudá-las

onde estavam trabalhando, com Eya.

Nunca deixei que trabalhassem demais.

Não acho que fui injusta com elas.

Um dia, Ghofrane veio me ver

e disse: "Não se preocupe em me ajudar amanhã.

Não terei muita faxina."

Falei: "Tudo bem." Ela me deu uns beijos. Perguntei a ela:

"Para que tantos beijos?"

Ela costumava ser muito afetuosa, mas era demais.

Eu disse a ela: "Pare, não vou morrer."

Ela respondeu: "Eu te amo, mãe."

E foi embora.

- Onde está sua irmã? - Não sei.

- Onde está sua irmã? - No meu bolso. Não está vendo?

Está rindo de mim? Está se achando espertinha?

- Para onde sua irmã foi? - Ela está em Sabratha.

- Por quê? - Ela se juntou aos irmãos.

Que irmãos?

Traga-a de volta, vamos voltar para a Tunísia.

Ela não vai voltar e vou me juntar a ela.

Traga-a de volta, vamos voltar para casa.

- Pare. - Não vou bater em você de novo.

Implorei, arranquei meu cabelo, tentei de tudo, em vão.

Ela tinha um pedaço de papel com um número para contato,

mas ela engoliu.

Era a única maneira de encontrá-la.

Se ela tivesse me dado esse número, eu poderia ter convencido Ghofrane.

Eu a teria convencido facilmente.

Era muito obstinada, não imagina o quanto. Era a encarnação do mal.

Não derramou uma lágrima. Estava feliz, na verdade.

Estava orgulhosa por sua irmã ter ido embora.

Ela era...

Ela não ia ceder.

É difícil descrever.

Ela tinha levado minha filhinha.

Tudo ficou escuro, depois que Ghofrane se foi.

Odiei Rahma naquele dia.

Quando ela se foi também, não senti falta.

Ghofrane não viu como fiquei...

mas Rahma viu minha angústia.

Chega.

Por favor, prenda essa menina. Ela quer fugir com a irmã.

Tenho todas as informações.

Ela planejou tudo com um contrabandista de pessoas.

Ele vai dar dinheiro a ela e levá-la.

Quer levar as irmãzinhas, que têm oito e dez anos, com ela.

- Quantos anos você tem? - Quinze anos.

Se acha uma jihadista?

E você?

Nunca afirmei ser um. Trabalho para o Estado tunisiano.

- Tem orgulho? Que Estado? - Tenho!

- Nós somos o Estado. - De que Estado está falando?

Ela jurou lealdade ao Estado do Daesh. Seu chamado Estado.

- O Estado Islâmico, por favor! - O Estado Islâmico!

Esse é meu Estado. É o Estado para todos nós.

Você devia estudar e pensar no seu futuro.

- Penso no futuro de todos. - No futuro de todos?

No futuro de cortar as mãos das pessoas?

Sim, corte mãos, cabeças, pés. Contanto que apliquemos a lei de Deus.

- Que ambição! Acorde, ovelha perdida. - Se eu fosse você, tiraria esse uniforme.

Um uniforme contaminado.

Devo usar o niqab como você?

- Você é mulher? Mulherzinha... - Vou te mostrar.

- Vou esmagar você. - Abaixe sua mão.

Abaixar minha mão?

- Não pode me tocar. - É mesmo?

- Tire a mão. - Cala a boca.

Cale a boca e olhe para o chão. Entendido?

- Tire sua mão! - Olhe para o chão! Cale a boca!

- Está feliz agora? - Te jogo na solitária.

Merda. Sente-se!

Sente-se.

Vou te mostrar o quanto sou homem.

- Sai enquanto falo com sua mãe. - Sai!

Falei para sair!

Você quer a verdade? Não há nada que eu possa fazer.

- Como assim? - Não posso fazer nada.

Isso é uma piada!

- O que eu vou fazer? - Aplicar a lei.

Estou aplicando a lei. Tenho que seguir o procedimento.

Chamo o promotor e ele decide se a deteremos.

Se ela voltar para explodir esta delegacia, o que faremos?

Mesmo que ela volte, não há nada que eu possa fazer.

Informou ao promotor o que ela está dizendo?

Claro, ele sabe de tudo.

Estão por toda parte. Pregam em alto-falantes.

O promotor sabe.

Deixem incendiar o país então. Nada pode ser feito.

Em 10 de setembro de 2015 o Ministério do Interior publicou

as fotos de terroristas procurados,

duas das quais são irmãs, Rahma e Ghofrane Chikhaoui.

Rahma deixou a Tunísia com passaporte falso e foi para a Líbia.

Quando chegou lá, se casou com o emir do Daesh em Sabratha.

Noureddine Chouchane é o homem

por trás dos ataques recentes à Tunísia.

Eles são os responsáveis, lançaram as bases.

Tivemos apenas problemas desde esta maldita revolução!

O ex-Ministro do Interior, permitiu que isso acontecesse.

Permitiu que os ímãs doutrinassem minhas filhas,

porque estavam fazendo isso em espaços públicos!

Esta mãe teme que suas filhas, Eya e Tayssir,

se juntem às irmãs entre as fileiras do Daesh.

Nos disseram que não é bom uma educação secular.

Ela me mostrou no Facebook como eles treinavam as crianças.

E ela nos fez ouvir

músicas sobre a Jihad.

Na época, depois que minhas irmãs partiram,

minha mãe apareceu na televisão e houve muita atenção da mídia.

O Conselho Tutelar ligou para minha mãe

para dizer a ela que Eya e eu estávamos em perigo.

Nossas irmãs nos sequestrariam e tínhamos que ser protegidas.

Ele nos colocou em um albergue juvenil.

Chegamos ao centro de carro.

Era noite e não conseguimos ver nada.

Passamos por um grande portão

e vi um homem barbudo vestindo um qamis

e uma mulher de véu usando um hijab.

Pensei que o motorista tinha nos sequestrado

para nos entregar ao Daesh, com Rahma e Ghofrane.

Estava morrendo de medo.

Agarrei a mão de Tayssir para fugir quando a porta abrisse.

Por que acha que eu teria ido com você?

Naquela época, queria me juntar a Rahma e Ghofrane.

Eu teria ficado feliz em estar com elas.

Era tudo o que eu queria na época.

Na primeira noite foi difícil.

Sim, foi difícil

dormir longe de casa,

cercada por estranhos, em um lugar desconhecido.

E você nem sabe por que está ali.

Tive um sonho naquela noite.

Minha mãe era muito velha e as pessoas batiam nela.

Eya me acordou porque eu estava chorando.

No dia seguinte, depois do almoço, ainda estava chorando.

Me levaram para ver o psicólogo e eu ainda chorava.

Passei metade do dia chorando, sem parar.

Imagine em que estado esse pesadelo me colocou.

Foi quando vi minha mãe assim no sonho,

que comecei a mudar um pouco.

Porque, no meu sonho,

ela acabou velha e abandonada por causa de Rahma e Ghofrane.

Só de pensar nisso de novo, me dá arrepios.

Eu a vejo sendo pisoteada por todos. Aquela noite foi horrível.

E foi naquela noite que comecei a mudar, depois de ver minha mãe assim.

Lá no centro, tínhamos uma professora muito bonita.

Deus, ela era tão linda!

Assim que ela se mudou,

Tayssir disse a ela: "Deus não gosta disso."

Ela explodiu:

"Chega do seu Deus, me deixe trabalhar!"

Tayssir ficou dando sermão: "Deus disse..."

Pensava que era a escolhida de Deus.

A pequena protegida de Deus.

Deus não aceita desrespeito.

"Deus não aceita..." Ela está começando de novo!

É verdade. Naquela época,

eu usava Deus como pretexto para me defender.

E quando "abandonei Deus", como eles diziam...

encontrei outro pretexto.

Virou a Lei. Fomos de Deus para a Lei.

E Eya me apoiou nisso.

Nós nos esforçamos e tomamos conta do lugar.

Tornou-se nosso centro.

Foi bom, na verdade, apesar dos problemas.

Para mim, o centro foi uma das melhores experiências.

Por quê?

Porque antes de ir para o centro, estava seguindo outro caminho.

Eles mudaram a minha vida.

Se eu não tivesse ido para o centro,

este filme seria sobre o desaparecimento de todas nós.

FEVEREIRO, 2016

Boa tarde.

Quero começar falando sobre o ataque aéreo à Líbia.

Realizamos um ataque noturno à Líbia

atingindo um campo de treinamento do EI perto de Sabratha.

Noureddine Chouchane, um tunisiano que trabalhava para o EI na Líbia,

estava naquele campo de treinamento.

As duas irmãs estavam no Daesh e queriam ir para a Síria.

O ataque americano a Sabratha pôs fim ao plano delas.

Rahma mandou uma mensagem para a mãe

para informá-la da situação em Sabratha.

É PROVÁVEL QUE EU MORRA. ORE POR MIM. RAHMA

Nossa câmera foi a primeira a encontrar Rahma e Ghofrane

na prisão de Mitiga, em Trípoli.

Entramos em contato com a unidade

que prendeu Rahma e Ghofrane

após o ataque de Sabratha.

Minha filha tem cinco meses e ainda está em Sabratha.

Eles não a trouxeram para mim.

O nome dela é Fatma.

- Qual a idade dela? - Cinco meses.

Já se passaram dois dias desde a última vez que a vi.

Por favor!

Mostre-me fotos. Como ela está?

Ela é tão pequena.

- Você reconheceria sua filha? - Sim!

Meu bebê!

Não chore, minha menina.

Ela teme por seus bebês.

Sabe, Kaouther, sou como ela.

Dizem que uma gata... Não, não me arranhe.

...tem tanto medo pelos bebês que os come.

Temia tanto por elas que não fui capaz de protegê-las.

Eu não as comi, mas as perdi.

Contei toda a história neste filme,

para deixar o passado para trás.

Porque é um passado muito doloroso.

Um passado que moldou minha vida e a das minhas filhas.

Mas estou com mais medo do futuro.

- Por quê? - Me assusta mais que o passado.

Não está farta de ter medo?

Com toda a honestidade, o que me assusta

é que repeti tudo o que minha mãe fez comigo.

Quase ao pé da letra.

- Por que acha isso? - É uma maldição.

É assim que explico para as minhas filhas.

Como ela disse para você, ela nos fez passar

tudo o que ela passou.

Não é por ela ser má, é assim que as coisas são.

Ela nos fez passar pela mesma coisa.

Sempre repassamos a educação que recebemos de nossas mães

para nossas filhas, e assim por diante.

Até que uma geração chega...

- ... e quebra a corrente. - Isso!

Tem que entender que elas são essa geração.

A única que pode sair dessa, é Tayssir. Eya também, em parte.

Mas para Ghofrane e Rahma, é muito tarde.

A filha de Ghofrane irá responsabilizá-la. Ela nunca a deixará em paz.

A filha dela não conhece a liberdade, não conhece o sol.

A maldição continuará.

PRISÃO JDAIDA, LÍBIA DEZEMBRO DE 2021

São tantas coisas que quero dizer a elas.

Rahma...

Não consigo me ver amando ninguém

com um amor tão forte quanto aquele que sentia por Rahma.

Ela não era apenas minha irmã, era meu mundo inteiro.

Talvez até a amasse mais do que a meus pais.

Eu a amava de verdade.

Eu sei que eu era nova quando ela me deixou.

Mas, apesar do que passei,

o período mais lindo da minha vida

é aquele que passei com Rahma.

Eu gostaria de dizer a ela: "Eu te amo muito. Nunca te esquecerei."

Não consigo dizer o nome delas, é muito doloroso.

Choro em silêncio,

em vez de dizer, "Minhas irmãs, estou com saudade."

Às vezes, fico tão brava com elas.

Um dia, ligaram da prisão e Tayssir chorou.

Isso me irritou: "Por que está chorando?

Foram elas que partiram, é problema delas.

Você quer que elas voltem e arruínem nossas vidas?"

Me arrependi muito dessas palavras.

Não posso descrever como me senti naquela noite.

Você não imagina como eu estava brava comigo mesma.

Era como se estivesse louca.

Passei a noite arrancando os cabelos.

Pela manhã,

me escondi para jogar fora o cabelo que arranquei.

Eu arranquei um punhado assim,

que joguei no lixo sem ninguém ver.

Porque eu disse coisas ruins sobre elas.

Fui egoísta em dizer que não deveriam voltar.

Sei que Ghofrane tem uma filha.

Não sei como ela é.

Só quero dizer a elas:

"Esta família que destruiu você, não vou deixar que me destrua."

FATMA CRESCEU EM UMA PRISÃO NA LÍBIA.

ELA AGORA TEM OITO ANOS DE IDADE.

EM JANEIRO DE 2023, RAHMA E GHOFRANE FORAM CONDENADAS PELA LÍBIA

A 16 ANOS DE PRISÃO.

OLFA, EYA E TAYSSIR AINDA TÊM ESPERANÇA

DE QUE A TUNÍSIA AS REPATRIE.

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