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CASANOVA E A REVOLUÇÃO
Esta é a máquina do mundo novo.
Visto de várias perspectivas.
Por apenas um trocado por pessoa.
Senhoras e Senhores...
estamos chegando de Veneza...
num barco com músicos...
para lhes mostrar um maravilhoso espetáculo...
durante o qual poderão ver com seus olhos...
os grandes feitos históricos...
recentes e antigos!
Senhoras e Senhores...
tragam as crianças!
Vejam a grande máquina do olhar!
MUNDO NOVO
Venham, subam!
Olhem pelo buraco das maravilhas!
É o espelho da História!
Venha! Subam!
Um de cada vez.
Olhem o rei Luís XVI com a rainha...
que se juntam ao povo.
Observem principalmente o vestido da rainha!
Venham constatar um grande fato!
Talvez um dos presentes estivesse lá...
e hoje pode rever tudo nesta máquina!
Bom dia, senhora!
É um fato muito importante...
acontecido há dois anos, em 1789!
Venham, venham ver a queda da Bastilha!
Fortaleza de piratas...
prisão para homens e para reis!
Cem mil parisienses saem de suas casas...
deixando os filhos dormindo...
para construir um destino diferente para vocês!
83 mortos! 88 feridos, coitados!
Vejam lá dentro!
Olhem os quadros com atenção...
poderão ver a cabeça do governador da Bastilha!
É o sinal da queda do Antigo Regime.
É o sinal da vitória do Terceiro Estado!
5 de outubro de 1789!
10.000 mulheres esfomeadas...
e alguns homens vestidos de mulher...
vão pedir pão para filhos ao rei!
Aí estão as mulheres!
Seis horas de marcha sob chuva!
E no centro...
essa mulher linda!
Vestida a caráter...
é a fascinante senhorita Théroigne de Méricourt.
Grande amante da guerra e da revolução...
e dos homens!
Messalina e Joana d'Arc.
Valente na batalha do amor e da guerra!
E o rei, pai de todo o povo...
aparece na varanda e 10.000 mulheres gritam:
''O rei à Paris!''
''O rei à Paris!''
Maria Antonieta, por sua vez...
tem medo de aparecer na varanda...
porque a multidão grita...
" A puta sagrada na varanda!"
Mas eis Lafayette, que a leva à varanda...
e lhe beija a mão diante do povo.
O coitado tem bom caráter...
e logo se comove...
e grita.: "Viva a rainha!" "Viva a nossa rainha!"
E as mulheres trazem a Paris...
padeiros, padeiras e padeirinhos...
o que significa que os soberanos...
com sua presença em Paris, garantem pão a todos, claro!
É este o acontecimento que vou mostrar a vocês.
Esta é a máquina do mundo novo
Visto de várias perspectivas
Por apenas um trocado por pessoa.
Não basta apenas...
escrever os livros...
e imprimi-los. Depois precisam ser vendidos.
''O Meu Calendário''.
Cada dia do ano...
é dedicado a uma mulher que meu pai amou.
-365 mulheres? -Não! Muitas mais!
Muitas vezes no mesmo dia fala de duas mulheres...
e, às vezes, três.
8 de fevereiro. Irmã Pinon, das Irmãs Cinza de Bicêtre...
encarregada de me pentear.
Eu gostava de esconder o rosto no colo dela...
e ela dizia, empurrando minha cabeça entre as coxas:
''Sim, meu filho, se despenteie, assim''. E gozava.
27 de abril. Nanette Précy...
a primeira mulher que amei de forma completa.
Foi num estábulo. Eu tinha 9 anos e ela 1 6.
Era a primeira vez dos dois.
Choramos de alegria, abraçados.
1o de maio. Bathilde Boujard...
que conheci numa casa de prostituição.
Coitado de mim! Depois de ter atingido o ápice do prazer...
descobrimos que eu era pai dela e ela minha filha.
Eu sou a Agnês, não a Bathilde...
-somos em muitas irmãs. -É escandaloso! Inacreditável!
Estou louco!
Dá para ver.
São quase 4oo.
Leremos as outras na próxima apreensão.
Conte os livros e assinale o número em ata.
Ah! Eu sei quantos são...
133o exemplares.
Conheci seu pai há muitos anos...
quando, de noite, visitava todas as tabernas...
para ler às pessoas os contos que escrevia.
Certas noites íamos com ele até sua casa...
para continuarmos a ouvi-lo.
A malvada de minha mãe...
dizia que os que o acompanhavam...
eram, na sua maioria, vagabundos e ladrões.
Na sua maioria? Eu pertencia à minoria!
Thomas Paine, "Os Direitos do Homem"...
prefácio à edição francesa.
Imagino que seu pai deva ter tido o encargo...
de imprimir esta obra.
Do Sr. Paine em pessoa. Nunca ouviu falar do...
célebre escritor inglês da Revolução Americana?
Suponho que não a imprimirá de graça.
É claro que não.
Mas por ora, não recebeu um centavo de adiantamento.
Nem pelo papel, nem pela tinta.
Agora, este material está apreendido.
Espere! Não sei se tem esse direito!
Eu sei! É uma apreensão cautelar...
de toda a fonte de lucro, até que...
o devedor possa pagar o que deve.
Espera sem fim! Como pode o devedor pagar o que deve...
se o privam das fontes de lucro?
É a lei!
Por outro lado...
ter tido 4oo mulheres...
e pagar pensão alimentar a uma só...
é um bom negócio. Acredite.
Claro! É o tipo de negócio que nunca conseguirá fazer!
Caridade, faça caridade, a um irmão desgraçado.
Teria direito...
também, de lhe estender minha mão...
mas vou apertar a sua e vamos com Deus.
Meu nome é...
Nicolas Edmé Restif de la Bretonne. O seu?
-Caraffon. -Ah! Caraffon, muito honrado!
É amável, mas pão duro.
Mocho...
Mocho...
Mocho, é você?
Ah! A bela Faustine! Que alegria!
Reconheci-o pelo passo rápido.
Como vai sua vida?
- Continua igual. -Veio me ver?
É claro! Estava no café Manoury...
e aí pensei em você e aqui estou.
Sempre adorei...
sua extraordinária capacidade de mentir.
Você não pensou em mim.
Sim, é verdade, passei aqui por acaso...
mas quando me chamou...
estava quase pensando. Juro!
Então, suba!
-Posso lhe apresentar alguém. -Não, é tarde.
Esta noite tenho que trabalhar na impressão de um livro.
Deve ser um trabalho muito urgente...
para alguém como você...
deixar de ninar uma garota...
com os pezinhos calçados de seda verde...
com calcanhares cor de rosa.
Rosa?
Colírio para os olhos!
Êxtase da alma!
Prova inegável da existência de Deus!
Ter amado outras criaturas...
é como ter afundado mil vezes a própria espada na água.
Posso afagar estes pezinhos de colibri?
Roçar estes finos tornozelos de corça?
É um grande literato.
Nicolas Edmé Restif de la Bretonne.
Sim, madame...
mas devo fazer algo em especial?
Faça o que sempre fez.
O intelectual, na cama, é como o ferreiro...
só que demora mais tempo.
Acariciar...
Hubertine!
Noite de indizíveis visões! A senhorita também...
honra com sua graça este lugar de delícias?
Minha filha é empregada no palácio real...
responsável pelas sopas da rainha. Nada para fazer!
Por que tão tarde? Esperei-a em Florença.
la sair às onze quando ouvi fechar com chave...
a porta do quarto onde me troco.
Após meia-noite abriram a porta...
e saí para o corredor.
Um criado que limpa os assoalhos...
vira a rainha sair do quarto às onze e meia.
Deve ter ido ao quarto do marido!
Não, geralmente é o rei que procura a rainha...
e muito raramente.
Disse ter notado um grande movimento...
na galeria que dá para a Rua da Escada.
Mas o moço do castelo que dorme na porta...
dos aposentos do rei não viu ninguém.
Mas o que aconteceu no palácio...
entre as onze e meia noite?
É um velho amigo.
E é também o homem mais curioso de Paris.
-É um dever profissional. -Sim...
Sou escritor da verdade. Portanto, senhorita...
os rumores que circulam há meses em Paris...
-foram confirmados. -Que rumores?
Ouvi, sim, rumores e passos...
mas quando saí tudo estava calmo.
Madame, sem querer apressar...
mas aqui ainda estamos nos pezinhos.
Já que é preciso morrer
É aristocrata!
Se Lafayette ficou e não atravessou a fronteira...
como os Tatois, os Condé os Polignac, os Orléans...
é porque está de acordo com o rei!
Não viu uma carruagem sair do palácio há duas horas?
Uma carruagem do palácio? Não.
Nem do lado da Rua da Escada?
Que eu saiba não.
Então está tudo normal, não houve movimento.
Que tipo de movimento?
Bem, do tipo... noturno. Eu sei lá!
Nunca se sabe...
Feliz noite, cabo.
Eh! Psss.
Não eram dois? Está só?
Sim, por enquanto.
O outro pacote irá com seu criado.
Espere aqui! As senhoras estão saindo...
mas não as siga muito de perto.
Está bem.
Quem é você?
Um desconhecido que...
não quis se recusar a prestar um serviço...
a tão graciosa dama.
Mas como puderam encontrá-lo?
-Revistaram tudo! -Por que não impediu?
Quando quer, sabe muito bem tratar com homens.
Os oficiais de justiça querem algo para levar...
não para consumir no ato.
O único trabalho...
o único rentável que encomendaram em um ano!
Minha pobre filha!
Que pai desgraçado a sorte lhe reservou!
Paine não quer que se preocupe com o manuscrito.
-Não tem tanta urgência. -Mas eu tenho... que me pague!
Disse-lhe... quando?
Há três horas.
Passou para cumprimentá-lo porque vai para Metz...
onde ficará duas semanas.
-Vai procurá-lo na volta. -Duas semanas...
Deixou algum dinheiro?
Bem, algum...
-Mas para mim! -Para você, sua devas...!
Disse... para Metz?
Pai!
Além de pagar a apreensão...
temos o açougueiro, o padeiro e o papeleiro.
E daí? Que esperem para enriquecer!
Eu estou esperando há 6o anos!
Abram caminho
Abram caminho!
Água para a viagem! Quem quer água para a viagem?
Passageiros para Sens, Auxerre, Mâcon, a bordo!
Chapéus à venda!
134 libras!
Vendel e Paine, dois lugares para Metz.
É a terceira carruagem à esquerda; partindo.
-Sr. Paine? -Não, é o meu amigo.
-Sr. Paine... -Sim!
um senhor veio procurá-lo.
Pediu que o avisasse quando chegasse. Está esperando.
Obrigado.
Boa viagem! O próximo!
Sr. Du Plantier. Bilhete para Montélimar.
Sr. Restif! O que faz aqui?
Sr. Paine!
Minha filha falou sobre a lamentável apreensão?
Infelizmente, ''as artes não dão lucro''.
Sim, sei. Mas nunca levo muito dinheiro.
Ao viajar, não é prudente. Tenho só alguns ducados.
Aqui estão...
pegue.
Mas não se preocupe, quando eu voltar...
vamos resolver tudo. Fique tranqüilo.
Venha. Este é o Sr. Vendel.
O Sr. Vendel tem ferrarias na Baixa Alsácia.
Por lá, madame.
Venha, depressa!
Uma ponte de 100 metros sem pilastras.
-Tem tirado meu sono. -Meu Deus, quanta gente!
-Então... -Tchau.
boa viagem.
-Até logo. -Sr. Vendel...
Desculpe.
-Tenha cuidado. -Sim, senhor.
Muita atenção, há outro pacote!
São muito delicados.
Desculpe, eu também tenho que partir.
Tive um imprevisto...
e não consegui fazer reserva.
Não sei o que fazer. Está tudo lotado.
No lugar do cocheiro...
-dá para viajar três. -Só com bilhete.
Posso comprá-lo agora.
Estamos atrasados! Vamos ou não?
-E aqui não cabem três. -Para onde vai?
Para Verdun ou Metz, mas talvez desça antes, depende...
Fale com o empregado, se lhe vender um bilhete...
Obrigado, jovem. Obrigado. Vou num instante e volto.
Viajaremos juntos.
Para onde vai?
Não tenho o prazer de conhecê-lo.
No entanto...
talvez esteja enganado, mas...
tenho a impressão que o conheço.
Não acho possível.
Mesmo a senhora que acompanha...
tenho certeza de tê-la encontrado...
-em qualquer lugar. -Isso é ainda mais improvável.
A madame convive com outro tipo de pessoas.
Um viajante alemão escreveu que...
ficou admirado com a gentileza dos franceses.
Evidentemente, não encontrou você.
Comprem bilhetes da loteria!
-Não tenho. -Não sabe quem eu sou!
Uma passagem para Metz. Desculpe, estou atrasado.
Então, vai subir ou não?
Não é muito cômodo viajar aqui em cima...
mas eu estou acostumado.
O que está fazendo? Estamos atrasados!
-Já estou chegando! -Desculpe, me empurraram.
Estudo em Paris. Sou Emile Delage, e você?
Maria Madalena.
Estamos aqui há uma hora!
Vá! Vai perdê-la!
Esperem!
Esperem por mim!
Malvado! Foi ele!
Um cavalo!
Um cavalo...
tenho que alcançar aquela diligência.
Preciso de um cavalo!
-Vou ver o que posso fazer. -Vou alugá-lo, quanto custa?
Tem certeza que os ducados daquele senhor eram falsos?
É claro que tenho certeza.
Mas os meus são verdadeiros. Pegue.
Aliás, conheço bem...
esse tipo de gente.
Suspeita, trapaceira. Viajantes sem bagagem.
Percebeu a frieza com a qual lhe tratei?
Sim, mas espero que não reclame!
Reclamar de quê?
Nós estamos lotados, ele não tinha bilhete...
não tem o que reclamar.
Eu detesto flores.
Imaginava o Restif muito diferente.
O autor de ''O Camponês Pervertido''...
veio se despedir do Sr. Paine. É uma pessoa amável.
Como o imaginava?
Um fauno libertino e obsceno?
Como tantos franceses...
dele só conhece ''O Camponês Pervertido''.
Quando muito, ''A Camponesa Pervertida''.
Mas escreveu romances, novelas, ensaios...
-Obrigado, senhora. -Por quê?
...comédias, tratados de Filosofia, de Física.
E escreve, dia-a-dia, ''As Noites de Paris''.
Eu acho que a abundância...
nem sempre é garantia de qualidade.
O mesmo vale tanto para os produtos da natureza...
como para as obras do homem.
É verdade, senhora.
Mas o estilo dele...
levou muitos a acreditar...
que Restif de la Bretonne fosse um pseudônimo...
de Beaumarchais ou de Diderot.
Pode ser. Eu não li...
mas sei que as obras desse senhor...
estão tão repletas de cenas e detalhes escabrosos...
que merecem ser queimadas em praça pública.
Juntamente com o autor?
E não faça essa cara, meu bem.
E a senhora leu?
Eu? Os livros daquele senhor? Eu não, só faltava essa...
-Pois eu li... -Oh!
e com o maior prazer.
Neles, encontrei idéias muito raras...
no estudo do amor entre homens e mulheres...
do nosso bom povo.
Consola-me constatar que hoje na França...
nem todos os aristocratas...
vêem o povo com desprezo.
Ninguém, entre nós, caro senhor, despreza o povo...
mas o considera protagonista de obras literárias!
Todavia, nós também vamos ler esse Restif...
não é Sr. Baldi?
Deve ser muito instrutivo ainda que...
nesse campo já tenhamos muita prática.
Há três ou quatro anos, li alguma coisa...
escrita por Restif, num jornal...
que me surpreendeu muito.
Previa...
subversões, eventos estranhos, desordens...
que acabaram acontecendo exatamente como falou.
Ricos...
não sejam mais duros, nem insolentes.
Fiquem em guarda, magistrados.
Está vindo aí uma revolução...
uma revolução terrível.
A nobreza não entendeu o povo.
O clero não soube dialogar com ele.
Este povo abalará os obstáculos da desigualdade...
e cada homem...
se tornará consciente da própria importância.
Escutem a voz de um plebeu...
que vive com o povo.
Muitas vezes, o artista intui o que está no ar.
Percebe... as causas...
as responsabilidades do que está para acontecer...
muito antes dos outros.
Eu colocaria seus artistas...
entre os primeiros responsáveis.
Todos esses... filósofos, enciclopedistas e escritores...
que desacreditaram o Regime com a dúvida e a ironia.
Beaumarchais, por exemplo...
com " As Bodas de Figaro"...
que é mais prejudicial que mil armas...
apontadas para a nobreza e no entanto...
é aplaudido pela corte...
por afetação e por ignorância.
Eu também o aplaudi.
A verdadeira ignorância...
é não aceitar as críticas que nos são dirigidas.
Palavras sábias, condessa...
desde que se esteja disposto a aceitar o pior...
quando chega.
Mas o pior já chegou, me parece.
Pare! Pare!
Vamos, pare!
Ajude aqui!
Depressa.
Ficou machucado?
Procure se levantar, segure minha mão.
Apoie-se em mim.
Não quebrou nada?
Não quebrei nada, obrigado.
Não é um grande cavaleiro, senhor.
Já fui quando jovem...
mas passaram uns anos, ah! como pode constatar.
Bem, passaram para mim também.
Tive que recorrer àquele cavalo...
se assim se pode chamar...
por culpa de um indivíduo cruel...
que me deixou a pé. Mas tenho que alcançá-los...
ele e sua condessa.
Sua fuga confirma minhas suspeitas.
Está bem? Tem certeza?
Fique tranqüilo! Bati embaixo da cabeça.
Peço-lhe que me ajude a alcançar a diligência.
Não irei conseguir com esse cavalo.
Fica no caminho, que lhe indicarei.
Com boa vontade, mas, como vê é quase uma ''désobligeante''.
"Désobligeante"...
uma pequena carruagem de um lugar...
assim chamada porque desobrigava o viajante.
Não o obrigava mandar o amigo subir...
que continuava a pé.
Desculpe-me por insistir.
Não posso lhe oferecer dinheiro, mas...
meu reconhecimento...
-e talvez o dos próximos. -Puxa!
Não acha que está prometendo demais?
Dedicarei esta aventura...
a uma de minhas noites revolucionárias...
e falarei de você, se me permitir, mas...
ainda nem me apresentei.
Nicolas Edmé Restif de la Bretonne.
O autor de ''O Pé de Fanchette''...
de ''A Filha Natural'', de ''Ménage Parisiense''...
de ''O Novo Abelardo'', de ''Os Contemporâneos''!
Para o servir...
e estou muito grato...
por não ter mencionado ''O Camponês Pervertido''.
Li e apreciei esse também...
mas imagino que entre suas obras...
essa não seja a que mais ame.
Como um pai que nem sempre...
prefere os filhos mais afortunados.
E eu, com quem tenho a honra?
Cavalheiro de Seingalt.
E assim...
quando vi a condessa se sentar na diligência...
com dois pacotes saídos das Tuileries...
deduzi que seguia alguém importante.
Minhas suspeitas, na casa de Madame Faustine...
tinham fundamento.
Está me dizendo que neste momento...
Luís XVI não está em Paris?
E talvez... esteja viajando nesta mesma estrada, mas...
para onde?
É difícil de acreditar! É tão preguiçoso...
que se desloca só para ir caçar.
De resto, até Dante falou...
quando encontrou Hugo Capet no purgatório.
''Eu fui raiz da planta ruim que seca em terra cristã...
tanto que o bom fruto raramente cai dela''.
Eu conheci esse Luís quando era criança.
Eu era íntimo do pai dele até...
Que ano era?
Mil e setecentos...
Mil e...
Abra caminho!
-A diligência! Lá está! -Quem?
Depressa! Aperte o cinto!
-O cinto? -Sim, está aí! Dê para mim!
Agora vou lhe mostrar.
-Segure-me com força. -Sim.
Eh, você!
Ultrapasse a diligência!
Alcance-a! Alcance-a!
Rápido! Mexa-se sua lesma!
Vá!
O que estão fazendo?
Não têm o direito de nos ultrapassar!
Vá agora! Força, força!
Vá, vá sua lesma!
-Mais depressa, depressa! -Por que está acelerando?
Pare! Pare! Vamos morrer! Deixe-os passar!
-Não senhor! -Deixem-me descer!
-Socorro! Socorro! -Para trás! Para trás!
-Chega, patifes! Vou desmaiar! Virginie, meu bem!
Para trás!
Devagar, terão que parar para trocar os cavalos!
-Talvez possamos deixá-los ir! -O quê? Nunca!
O Cavalheiro de Seingalt não come poeira de ninguém!
Nem mesmo a do rei...
Ainda mais de uma diligência desconhecida.
Somos o Cavalheiro de Seingalt e o Sr. de la Bretonne!
Homens de gênio!
Foi muito divertido.
Parado! Parado!
-Dê uma ajuda. -Dê-nos alguma coisa.
Não preciso de ninguém.
-Dê-nos alguma coisa. -Não tenho nada.
-Traga meu ''necessáire'' -Obrigado.
-Senhor, dê-nos alguma coisa! -Meu ''necéssaire''!
-Eh! Onde posso descansar? -Venha, cavaleiro, por aqui.
Diga-me, amigo...
esta manhã viu passar...
uma carruagem vinda de Paris?
Ah! Entendi. Espere.
Pegue!
Sim, esta manhã às 6 horas.
Fizeram uma troca de 11 cavalos...
3 de sela para três cavaleiros...
2 para um ''cabriolet''...
e 6 para uma diligência enorme!
Nunca vi uma carruagem assim!
Como conseguirá passar pela ponte?
Quem estava dentro?
As cortinas estavam fechadas...
mas parece que era...
uma rica dama russa retornando ao seu país.
Uma viagem e tanto! Mas cubra-se, por favor.
Para estarem aqui às 6 horas...
devem ter partido de Paris à meia-noite.
Hora estranha para seguir viagem.
É mesmo. Parece até uma viagem incógnita.
Meaux! Estação de Meaux!
O Sr. Baldi vai fazer xixi!
-Seu inconseqüente? -O que deseja?
-Isso é modo de ultrapassar? -Do que está falando?
Com licença!
Tanta pressa esta manhã e chegam só agora.
Já lhe disse que não tive a honra de conhecê-lo.
Madame! Viu só que viagem...?
Sr. Paine!
Sr. Paine, me permite?
Sr. Restif...
deixei-o em Paris e encontro-o em Meaux!
Sim. Quero lhe explicar a minha presença aqui...
e a ausência de alguém de Paris.
Esta noite houve uma partida misteriosa.
Acredito saber de quem se trata.
E aí?
Se partiram à meia-noite...
devem estar em Montmirail.
Depois Chaintrix, Châlons...
Sainte-Menehould, Clermont...
Cuidado!
Verdun, Metz.
É isso!
Querem chegar à fronteira oriental...
para conseguir a proteção da tropas da Alsácia, Lorena...
Franche-Comté e Champagne.
9o batalhões e 4oo esquadrões...
em grande parte mercenários suíços e alemães.
A não ser que...
em Clermont...
desviem...
para Montmédy...
a uma milha da fronteira com Luxemburgo...
onde estão as tropas do cunhado dele.
12, 1 4 mil austríacos prontos para partir.
Sr. Paine...
se o plano de que fala fosse verdade...
significaria que iríamos voltar ao Antigo Regime...
mas o povo francês nunca permitiria isso.
Eu também acho que não estaria disposto...
a renunciar às conquistas dos últimos dois anos.
Seria uma guerra civil.
-Maria Madalena? -Sim, madame.
Venha me tirar este véu!
Não consegue tirar sozinha?
Aqui estou, madame.
-A vida toma-se a cada dia... -Pegue!
E os mercadores só querem títulos...
nem confiam no papel moeda da revolução deles.
-Vai partir, cavalheiro? -Sim. É ela a dama dos pacotes?
No meu tempo, a seguiria mesmo sem pacotes.
Se encontrar o Luís, lhe direi que o espere...
se quiser que um grande escritor...
-testemunhe a fuga dele. -Obrigado, cavaleiro.
No entanto, quem como nós produz...
e cria a riqueza do país...
só recebeu impostos...
-e desprezo. -É verdade.
Detesto crianças.
Meu pobre marido dizia sempre...
que três quartos de nossos vinhedos iam nos impostos.
Mas levantaram a cabeça...
comprando por baixo preço as terras dos conventos...
e os bens confiscados do clero.
Abram estrada!
Que tipo estranho!
Pareceu-me, mas agora tenho certeza, é ele...
o homem mais alto que encontrei na vida.
Na coroação do rei, há 1 7 anos.
Ah, sim! É Giacomo Casanova!
Também me pareceu. Tem razão, madame.
Conheci-o há muitos anos...
na corte do Cardeal de Rouen em Estrasburgo.
Tinha uma sólida reputação de... grande amante.
Por que não me apresentaram?
-Virginie! -Senhores!
A diligência está pronta. Vamos partir!
Eu vou com o cocheiro.
Não, Sr. Restif, por favor!
-Insisto. -Muito gentil.
Um cavalheiro medroso!
Com aquela idade, ainda não aprendeu a viajar?
Dedicou-se a outras coisas.
Sim, Giacomo Casanova em pessoa...
um cavalheiro veneziano.
-Nunca ouvi o nome dele antes. -Nem eu.
É oportuno esclarecer que, na época, meu nome...
não suscitava grande emoção na França...
só entre as mulheres que tinha conhecido diretamente.
Efetivamente, ainda que a minha ''A Fuga dos Plomos''...
já tivesse sido publicada...
a fama para mim chegaria muito mais tarde...
quando as memórias de minha vida...
escritas em francês...
foram publicadas com muito sucesso...
após a minha morte...
que aconteceu, como sabem, em 1 798.
É isso.
-Nunca ouvi falar. -Sim, veneziano!
O que estamos esperando? Vamos?
Depressa! Despachem-se!
Em Estrasburgo era também famoso como jogador...
como organizador de loterias...
criador de intrigas...
empresário de comediantes...
-seguidor do budismo... -E até adivinho.
Mas principalmente como grande colecionador...
-de aventuras de alcova. -Quando cheguei a Paris...
diziam que até Madame de Pompadour...
estava apaixonada por ele.
Parece que nenhuma mulher jamais conseguiu resistir...
-a esse seu compatriota. -Obrigada, senhora.
Sr. Restif, também viajou com ele?
Sim, com ele mesmo! Mas asseguro que resisti a ele.
Eu só o vi de relance, mas deve ter sido um belo homem!
-Que idade terá? 6o anos? -Talvez 7o, mas o que importa?
Em Bolonha, dizemos...
O que quer dizer, madame?
Bem, quer dizer...
''Os jovens pela aparência, e os velhos pela... cama''.
Julgando pela nossa viagem...
é comum nesta velha Europa...
encontrar escritores que à sedução pelo que escrevem...
juntam as de um enorme fascínio pessoal.
Eu não discuto as qualidades literárias do Sr. Casanova...
mas quanto às aventuras amorosas dele...
permito-me fazer algumas ressalvas.
Sim. É muito alto. Aliás, eu já lhe disse.
Os melhores amantes...
são sempre de pequena estatura.
-Está provado. -Provado por quem?
A irrigação de sangue...
que dá ao membro viril a potência...
é mais forte e impetuosa...
quanto menor é a superfície corpórea a irrigar.
Sua linguagem seria intolerável num quartel.
Diante de senhoras chega a ser revoltante.
Não por acaso, é o autor de ''O Pornógrafo''.
Que o aconselho a não ler. Nele não encontraria nada...
do que espera, senhor magistrado.
Desculpe!
-Desculpe... -O que está fazendo?
-gostaria de dormir um pouco. -Mude de lugar!
Mas que modos! Que tipos!
Não se enxerga!
Deveria ficar calado!
-Um porco como você! -Virginie
8, 9, 10... 11 cavalos.
Devem ser animais trocados...
em Ferté-sous-Jouarre ou em Viels-Maisons...
e que voltam à Estação de Meaux.
E podem ser de uma só diligência.
É normal encontrar cavalos no campo.
Eu acho. Não é?
Uma carruagem puxada por 6 ou 8 cavalos...
corre muito mais que nós.
Nem sempre. Depende do peso da carruagem.
E não é tão fácil...
encontrar tantos cavalos saudáveis em cada estação.
Especialmente neste período de colheita do feno.
Mas vocês sempre encontram, não é?
Sim, senhor. O nosso serviço é de Estado.
Animais garantidos na hora prevista.
Vão falar durante toda a viagem...
de cavalos e de troca de cavalos?
-Espero que não. -Obrigado...
é muito gentil.
Eh! Olhem lá em cima da carruagem!
O que estão olhando?
Pare, François!
Precisa de ajuda?
Não, obrigado. O cocheiro já partiu a cavalo...
em busca de alguém que conserte carruagens.
Sr. Casanova!
Quem lhe disse meu nome? Estou viajando incógnito.
A fama corre mais veloz que o senhor...
e lhe asseguro que não é coisa fácil.
Sim, é verdade. Íamos um pouco alegres...
e uma das rodas quebrou.
Acomode-se aqui dentro até a próxima estação.
Madame, recusar...
Obrigado!
Recusar um convite como o seu...
é outro sinal de minha decadência...
mas receio deixar minha bagagem sem guarda.
São os únicos bens que possuo.
Poderíamos deixar alguém de vigia.
Bem, nesse caso...
O seu cabeleiro, madame, talvez pudesse...
-Sr. Jacob? -Sim, madame.
Vigie o ''cabriolet'' do Sr. Casanova.
Nos alcançará na próxima estação ou na seguinte.
Madame!
-Madame, penso que... -Até a chegada do cocheiro.
Mas eu pensava, esperava... Não seria o caso de...
Obrigado pela colaboração, jovem amigo.
Obrigado por querer ficar.
Meu cocheiro não tardará em chegar.
Confio-lhe todas as minhas riquezas. Tome conta delas.
Claro.
-Por favor, cavalheiro. -Não! Eu vou ao ar livre!
Ah, não! Ganharia a inimizade de todas estas belas damas.
Por favor.
E eu não gostaria de privá-las da sua companhia.
Vamos meu bem, a situação é delicada.
Temos aqui dois cavalheiros que trocam tantas cortesias!
Um é estrangeiro, mais velho que você...
-Sim! Está certo! -Não acha meu amor?
Vá, benzinho. Assim vai ver meus cachorrinhos.
Um pouco de ar me fará bem.
-Não, não... -Sr. Casanova?
É também seu aquele ''necessaire''...
caído no meio da estrada?
Não caiu. Eu o coloquei ali por prudência.
Agora você pode ir para lá...
para prevenir eventuais acidentes.
Por favor.
Maria Madalena!
Vamos, não demore!
Sabe que...
quando nos ultrapassou, há pouco, eu desmaiei?
Em frente! Vamos partir.
De la Borde... De la Borde!
Sim, conheci um De la Borde.
Era feitor geral de Luís XV...
e primeiro criado. Agora me lembro.
Sim, era o pai de meu marido.
Ah! Agora entendo...
porque era um velho tão taciturno e triste.
Claro...
na época não sabia...
que iria ter uma nora como você.
Freqüentou a corte da França?
Todas as cortes da Europa...
disputavam entre si o Sr. Casanova.
Nunca achei que fosse um privilégio.
As cortes não são os jardins de flores raras...
como se pensa.
Tantas condessas e princesas enrugadas e murchas.
Mas estou falando de meu tempo, claro.
Hoje, pelo que vejo...
as rainhas sabem escolher as damas de companhia.
Quem lhe disse que sou dama de companhia...
de Sua Majestade?
É mesmo. Quem me disse...?
Quem me disse que é...
Ah! Não acredita...
nas capacidades divinatórias do Sr. Casanova, madame...
que são só um dos segredos dos sucessos dele.
O Sr. Casanova disse que no tempo de Luís XV...
o velho Conde de la Borde ainda não a conhecia.
Você casou, portanto, com o jovem conde...
depois das bodas de Luís XVI com Maria Antonieta.
Depois, o Sr. Casanova...
graças ao seu sotaque gracioso...
percebeu que é austríaca, como Maria Antonieta.
E por sua beleza fascinante, o Sr. Casanova intuiu...
que tem a mesma idade de Maria Antonieta...
portanto deduziu que teriam brincado na Áustria...
e que, uma vez rainha, Maria Antonieta...
a tenha chamado
para a Corte, em Paris... como...
dama de companhia. Por que não?
E de mim?
O que intui sobre mim, Sr. Casanova?
Que é italiana. Bolonhesa para ser preciso.
Que tem forte temperamento e que seu marido...
Tenho um marido? Mas eu sou artista!
Um marido não tem nada a ver com arte!
Mas não, é que...
ele tem uma mulher que parece um peixe cozido...
e hoje inventou um processo em Metz...
para me acompanhar a um concerto.
-É música. -Cantora lírica.
E odeia o tenor Baldi, meu amigo.
Não é verdade?
Meu Deus, mas como sabe disso?
O cachorro tem o mesmo nome.
Se estimasse o tenor Baldi...
não teria dado o nome dele ao cachorro dela.
Mas é um diabo, adivinha tudo!
Sr. Baldi, ouviu isso? Sabe tudo de nós.
Lê os pensamentos das pessoas...
como as páginas de um livro aberto.
O Sr. Casanova adivinha o que lhe interessa.
De mim, não adivinha nada.
Respeitava o seu luto, madame.
Uma viúva inconsolável é ciumenta da própria dor.
Se é consolável...
esconde em público a própria disponibilidade.
Se já está consolada, não quer que ninguém saiba.
De qualquer modo, prefere não ser descoberta.
Produzo vinho em Champagne.
Trabalho confortante.
Senhores Casanova e Bretonne...
eu lhes agradeço. É um privilégio para mim...
que sempre tive pouca sorte com as mulheres...
assistir a suas lições de sedução.
De como se portar com as senhoras.
Como interessá-las...
como intrigá-las.
Desculpem, vou colocar o chapéu.
Mas faço isso só para tirá-lo diante de vocês.
Tenho impressão que este senhor...
está se divertindo à nossa custa.
Sendo um dos homens mais ricos da França...
pode fazer isso.
Não estou de acordo.
Um dia bati o banqueiro Salomão de Rothschild...
e talvez por isso, me encontro hoje...
na mais total miséria.
E eu, então?
É como se tivesse batido...
em todos os banqueiros da Europa.
Mas não, senhores! Estão enganados, acreditem.
Acreditem na minha sinceridade.
Ambos tem um passado tão rico...
que nem reparam no presente.
Talvez por isso não viram os olhares...
que as três damas aqui presentes lhes lançam.
Não notaram com que olhos os admiram...
e não se dão conta que poderiam, talvez, colher...
aqui numa carruagem, entre uma parada e outra...
a milésima conquista, Sr. Bretonne...
-ou você, Sr. Casanova. -Que chato!
Por que não satisfazer o Sr. Vendel?
Reconheço que a situação não é favorável...
sendo 6 numa carruagem, portanto 4 pessoas a mais.
Mas os dois já se encontraram...
em aventuras tão desesperadoras.
E mesmo assim tiveram sucesso.
Por exemplo, Sr. Restif, entre seus feitos...
recordo ter lido sobre alguns imprudentes.
Como aquela vez na cama do marido...
que dormia tranqüilo.
-Não! -Sim, e tantas outras vezes...
em condições mais precárias.
Num confessionário, num convento de clausura...
no ramo de uma árvore...
com uma garota que segurava uma moeda...
para a velha mãe cega. E agora, Sr. Restif...
não ficará certamente desencorajado...
-por uma simples carruagem. -Já que leu tanto...
sabe que sempre me dediquei a um tipo de mulher...
que não viaja de carruagem.
E você, o que faria...
para instruir o Sr. Vendel?
Não acho que seja um jogo divertido.
Amar uma mulher numa carruagem...
e talvez o tenhamos feito...
ou na mais secreta alcova, é a mesma coisa.
O importante é que...
É que no amor tenha...
tenha...
Tenha o quê?
O mistério.
Lá está a diligência.
Agora vai parar por causa da subida.
Querem ver que vão pedir nossa ajuda?
Vamos, força, levem a lenha!
Senhores, aqui a estrada é muito íngreme.
Temos que pedir que façam um trecho a pé.
Eh, Gilbert! Os senhores estão aí!
Mostre-lhes como trabalha!
-Carrega carvão até dormindo! -E você, canta que óperas?
Bem, o programa prevê a"Dido Abandonada" e...
o "Don Giovanni".
O "Don Giovanni"? De verdade?
Assisti à estréia dessa ópera, em Praga, há 4 anos.
Mozart era o regente.
Alguns dias antes da estréia, Da Ponte teve que partir...
e me encarregou de substituí-lo nos ensaios.
E assim, com o Mozart, que fala bem italiano...
adaptamos alguns versos do "Catálogo"...
que deve conhecer.
Madamina
Este é o catálogo
Das belas que amou meu patrão
Um catálogo que eu fiz
Observe e leia comigo
Observe e leia comigo.
Entre essas camponesas
Há criadas e cidadãs
Condessas e baronesas
Marquesas e princesas
Damas de todos os graus, todas as formas e todas idades
De todas as formas
De todas as idades
Na Itália...
Quantos mais altos fornos acender...
mais máquinas terá em movimento...
e mais estará à mercê dos operários.
Sim, e daqueles que as utilizam.
O clube dos ''cordeliers''...
está se aproveitando da escassez de títulos...
para sublevar os operários.
Antes, os ferradores e os chapeleiros...
depois os tipógrafos e os carpinteiros...
e agora os ferreiros.
Em Paris, já se reuniram para discutir...
na Place de Grêve.
Isso, em vez de trabalhar...
ficam na praça.
Se quer saber, eu já vi...
um trabalhador que pára...
que de repente interrompe o trabalho.
É o mais medonho de todos os gestos.
Medonho.
De toda a forma De toda idade
De toda forma e de toda idade
Bravo! Bravo!
Perdoe a um amador que interferiu na sua arte.
Imagine! Ainda por cima sou contralto...
e o Leporello é barítono cômico!
O Leporello é grande como Sancho Pança.
Tem todos os defeitos e as raivas do trabalhador...
que inveja o patrão e o detesta também.
Em certo momento, canta até...
''Quero ser cavalheiro e não quero mais servir''.
É o sonho impossível...
de todos os servos de todos os tempos.
Tenho que acreditar que...
o que aconteceu na França após 1 789...
não é do seu agrado?
Lamento contrariar algum dos presentes...
mas minha resposta é não.
Não é do meu agrado porque tudo ficou pior...
porque servos, cocheiros, garçons...
se sentem autorizados a ser atrevidos e insolentes.
Não é do meu agrado...
porque lembro da França de antigamente...
em que tudo era luminoso, harmonioso...
em que era doce viver mesmo para o estrangeiro...
onde a dignidade era honrada.
A dignidade, o primeiro bem que se perde.
Estão para ter como soberano o povo...
que é o mais brutal e o mais tirânico dos soberanos.
Proíbo que se exprima assim!
Sim, é mesmo com você, Sr. Casanova.
Senhor, ou madame?
Pois bem, tenho que lhe agradecer.
Acabou de me demonstrar como tenho razão.
Na velha França...
ninguém...
teria me proibido de falar...
com tal insolência.
Ouça, amigo...
tem que proibir somente as ações nocivas à sociedade.
Até as palavras podem ser nocivas.
Pode ser...
mas proibi-las é sempre um passo para a tirania.
É bonitinho, mas tem caráter!
Em Bolonha, os chamamos de ''amoladores''.
A moça também é bonitinha...
talvez um tanto escura.
Se Deus os fez negros, deve ter uma razão.
Abram caminho!
Abram caminho!
-Que susto! -Mas quanta pressa!
Estas estradas estão cada vez mais perigosas.
A natureza tem suas exigências.
Sim, é uma boa idéia.
Maldita bexiga!
Chegar a esta idade para mijar toda hora...
-e com tanta dificuldade. -Caro Restif...
sempre somos castigados onde mais pecamos.
É verdade.
E se fosse só lá! Os olhos, as mãos, os pés...
-tudo fica mais fraco. -Eu não tenho gota...
sofro de rins.
Sorte sua! Eu de gota e rins.
E não sei se reparou mas sou também um pouco surdo.
Como?
Eh, vocês! Ajudem aqui!
Escorem as rodas com umas pedras!
Coloquem as pedras! Depressa!
Força!
Empurrem agora! Força!
Sr. Baldi! Sr. Baldi, cheguei...
De Florange! Cuide de meus outros animais na cesta!
Coitado do Sr. Baldi, está tremendo.
Teve medo? O que fez?
Ficou com medo? Ficou com medo?
Um desjejum sobre a grama...
consumido há pouco tempo...
e não por pessoas quaisquer.
Essa garrafa vem das caves reais.
Ah, sim.
-É verdade, é adivinho. -Não!
Talvez um pouco observador...
mesmo vendo menos do que antigamente.
Algumas vezes...
bebi esse vinho na mesa do rei.
Sabe...
eu o vi quando tinha 1 5 anos.
De verdade?
Posso lhe confessar um segredo?
Claro.
Você foi o primeiro amor da minha vida.
Você me conheceu muito cedo...
e eu muito tarde.
É isso.
Nossos companheiros de viagem nos esperam.
Vendo-me afastada com um homem como você...
podem pensar que nossa conversa seja de amor.
Na verdade, para mim foi, madame.
Força, vamos!
Os inimigos da Revolução raptaram o rei.
Os bons cidadãos devem arrancá-lo das mãos deles...
e reconduzi-lo à Assembléia Nacional.
Assinado...
Lafayette.
Lafayette.
Ordena-se ainda que...
detenham a carruagem verde de 6 cavalos...
na qual viaja o rei com a família real.
...de 6 cavalos...
Na qual viaja o rei com a família real.
Eu, comandante Bayon...
do 7º batalhão da 2a Divisão da Guarda Nacional...
destacado para a perseguição desde Paris...
na primeira parada...
após 6 horas de sela...
envio o cidadão...
Gabriel Vallet, Excelência.
Gabriel Vallet...
ao município de Châlons...
com ordem de executar...
o acima escrito...
e de avisar os outros municípios...
até as fronteiras.
Se demorar mais de uma hora responderá por alta traição.
Parta imediatamente.
Ouviram? Ordem para prender o rei e sua família.
Calma, ninguém pode prender o rei!
A esta hora, o rei já está na frente de mil hussardos.
Você sabia? Estava a par da situação?
Eu confesso, condessa, que não sabia...
mas pensei nisso ontem à noite.
O rei em fuga, no nosso caminho?
O rei fugiu. Vocês poderiam detê-lo.
-O que pensa disso Sr. Paine? -Não sei o que acontecerá...
mas sei que um rei em fuga...
a cada minuto é um pouco menos rei.
-O patrão é você? -Pronto para servi-lo.
Num trono ou em fuga...
nenhum rei mandou eu pular qualquer refeição.
Lá, perto do fogo.
Eu também o vi, mas não era o rei.
-Como não era? -Não tinha o manto vermelho.
Sim, era ele!
Olhe! Olhe! Está aqui! É igual!
O que tem para comer?
Supremo de trufas, perdizes ao vinho...
patê de fígado de ganso, carpas com espinafres...
-e queijo, vinho, doces. -Traga tudo.
Aquele capitão...
Parece que tinha 6 pessoas na carruagem grande.
Uma senhora de idade...
duas jovens, das quais uma lindíssima...
duas crianças e um mordomo.
Sim, Madame de Tourzel...
governanta das crianças da França...
Madame Elisabeth, irmã do rei.
A dama lindíssima é Maria Antonieta.
O delfim, que está vestido de mocinha...
como madame Royale, a irmã.
E... o mordomo...
de sobrecasaca e chapéu redondo...
O rei?
De sobrecasaca?
Por quê?
Um rei não foge com a coroa na cabeça...
e o manto de arminho. Ficaria muito claro, não acha?
Sua Majestade não está fugindo...
está indo encontrar seus aliados.
Para o bem da França.
É o orgulho dos chefes...
que lança a humanidade no caos.
Se a França está caótica...
a culpa é de quem quis um novo governo.
O governo da desordem.
-Adoro a desordem! -Virginie!
Virginie, por favor.
Nenhum governo é bom.
O pior de todos...
é o da monarquia e da aristocracia...
as duas fraudes mais tirânicas...
que prejudicam a humanidade.
Por exemplo...
vejam sua besta real da Grã-Bretanha...
o amado Jorge III.
Precisava de súditos, para espremer como limões...
até além-mar, para manter a corte no luxo.
E em Paris...
o que acontece em Paris?
O tumulto.
Como descobriu...
que haviam seguido pela estrada de Metz?
Porque queriam alcançar o marquês de Bouillé...
na fronteira?
Lógico.
-As perdizes ao vinho. -O aspecto é bom.
-Come tanto assim sempre? -Sim, madame...
mesmo quando tinha outros prazeres...
além dos da mesa.
Na França, diria que é um pouco pior.
Têm 4.000 famílias de favoritos...
todos príncipes de sangue, ou de espada, ou de igreja...
todos hostis entre si...
que vegetam na Corte entre vícios e abusos de todo tipo.
Fico contente, senhor...
parece ter muita experiência sobre o que acontece na Corte.
Mas talvez não saiba que aquelas 4.000 famílias...
participam das despesas do palácio...
e contribuem para as obras de beneficência.
É isso, madame.
O povo não quer beneficência...
quer os seus direitos.
Direitos... aos quais devem corresponder deveres iguais...
e sobretudo o de respeitar o próprio rei, que é rei...
por direito divino.
Parece-me que os seus iguais...
foram os primeiros a não praticar este dever.
Fugiram quase todos para o exterior...
-esquecendo o seu rei. -Não concordo com você!
Não se excite, benzinho.
Quanto ao famoso direito divino...
os reis o ganharam?
Estipularam com Deus um acordo especial...
que é negado ao povo?
Ou é só uma bela idéia...
para passar o cargo de pai para filho?
Podendo, no trono, um leão ser sucedido por um burro!
Bom apetite, cavalheiro, neste dia cheio de mistério.
É isso, madame?
O senhor não come nada?
Oh, não! Tenho o costume de jejuar.
Eu, pessoalmente, nada tenho contra as revoluções...
podem ser boas...
mas nem sempre são bons os que as fazem.
Temo que para você...
bons, sejam só os que não fazem as revoluções.
-Para nós, juízes, a nobreza... -Vocês, juízes...
São bons mesmo!
Nunca julgam os nobres.
Marat tinha razão quando acusava Lafayette...
de ser da corja do rei e da grande prostituta!
Sou eu, agora que o proíbo de falar assim!
Quem é você para me impedir?
Ele não pode impedir nada, mas você sim...
pode se impedir de ser tão intolerante.
-Ouça. Acalme-se. -Nadine, recolha tudo.
Estou triste, juiz. O seu queijo.
Que ousadia a dele!
Que viagem!
Obrigado, querido.
Detesto os pobres.
Sr. Casanova, trouxe todos os seus bens.
Está tudo em ordem.
Obrigado, meu bem.
Quer mais, madame?
-Não, obrigada. -Melhor.
Princesa, me daria um beijo?
O que custa um beijo?
Gosto de você.
Dê-me um beijo.
Isso...
aqui não nos vêem.
Por que não princesa? Seu rei fugiu, eu vi.
Foi ele que disse: ''Pegue aquela vadia!''
Que pele branca! Que pescoço!
Um belo pescoço para meu cunhado...
que é carrasco em Paris.
Posso saber o que quer?
Está com ciúmes?
Também quer um beijo?
Deixe-me! Deixe-me! Foi ela que começou!
Condessa, está bem?
Tenha calma.
Você me ofendeu mais do que aquele desgraçado!
O que aconteceu, madame?
Toda despenteada! O que esse selvagem lhe fez?
Maria Madalena, depressa!
Madame!
-O que aconteceu? -Nada que interesse!
Sempre por perto, esse... Maria Madalena, depressa!
Traga a maleta!
Aqui!
Entre! Sem falatório!
Os ânimos estão perturbados.
Hoje...
tudo é possível.
Madame, quer ter a gentileza...
de cumprimentar por mim...
nossos conturbados companheiros?
Sr. Casanova...
não estou consolada. A minha vida é um deserto.
Mal respiro desde que o vi.
Na carruagem, conseguiu sua milésima conquista.
Não me rejeite, por favor.
Hoje tudo é possível, como você disse.
Torne possível minha felicidade também.
Faça uma loucura!
Leve-me com você!
Vamos para minha mansão, em Champagne...
ou onde quiser.
Peço-lhe, Giacomo.
Cara madame, o que chama de loucura...
teria sido...
pura sabedoria, até pouco tempo atrás...
mas com 66 anos...
se adquire outro tipo de sabedoria...
que não traz felicidade...
mas que pelo menos evita as tensões.
Eu dizia? Ah, sim.
Sim, agradeço-lhe...
a dupla oferta.
Creia...
entre nós dois, a maior mágoa será minha.
Não foi este velho que lhe tirou a respiração...
mas o nome dele...
a reputação dele.
O passado dele.
Todas coisas que hoje...
não existem mais.
Todavia, cara madame...
obrigado novamente.
Estou feliz por ter encontrado o grande Restif.
Conservarei uma preciosa recordação...
do Cavalheiro de Seingalt.
Comandante, seu cavalo morreu...
o coração não resistiu.
Se quiser, posso mandar selar outro.
Eh! Você! Aí!
Castiguei a bunda sobre a sela por 4o léguas...
à velocidade de 6 léguas por hora.
Tem um lugar vago, sigo viagem com você.
Como está pedindo com tanta delicadeza...
Aí estão, os companheiros de viagem...
que a nova sabedoria me obriga a preferir.
Obrigado pela colaboração, jovem amigo. Foi preciosa.
-Eu lembrarei de ti. -Eu também, Sr. Casanova.
Que pena! Se nos tivéssemos conhecido ainda jovens...
Quem sabe?
Por que não?
Nunca excluo nada por princípio.
Eu me ocupo dele.
Ah! A minha gota!
Não! É tão ágil!
Cumprimente...
-sua bela patroa por mim. -Será feito.
Cavalheiro, a quem devo me dirigir?
Tem o supremo de trufas, as perdizes ao vinho...
os doces, os vinhos. Quem paga?
Eu! Se gritar ''Viva a dignidade!''
-Viva a dignidade! -Bravo!
Pegue, bom homem.
Uma carta de crédito...
assinada pelo conde de Waldstein...
descendente dos grandes Waldstein.
''Com a presente reconheço...
a obrigação de honrar, daqui a seis meses...
o pagamento de minha dívida, garantido por sua excelência...
o conde de Waldstein...
da importância de...
Colocar o valor devido no espaço em branco.
...a favor do senhor...
Indicar o nome do credor."
" Assinado e aprovado pelo Cavalheiro de Seingalt."
Jean-Louis Romeuf, ajudante de campo do Gen. Lafayette.
Já passou um capitão da Guarda Nacional?
Vinha de Paris.
Partiu agora mesmo de carruagem, mas...
havia chegado há mais de uma hora.
Tenho que partir já. Um cavalo!
Se estiver na carruagem, claro!
Beba, madame. Seu chocolate...
A multidão invadiu a praça e as ruas em volta das Tuileries...
e entrou no palácio.
Mas só para olhar. Ninguém tocava nada.
No quarto do rei...
uma mulher do mercado...
sentada em frente a grande cama de cerimônia...
vende cerejas a 6 trocador por quilo.
Não estão caras.
Cachos humanos em todos os lugares...
pendurados em monumentos, nos campanários.
O general sai...
ignorando ameaças e imprecações.
Enfrenta a multidão e pergunta...
''Pensam que a prisão do rei...
é necessária para o bem estar geral?''
Todos respondem sim. O general responde...
''Assumo pessoalmente toda a responsabilidade''.
Senhores, quando quiserem. A diligência está pronta.
Então, a ordem do cap. Bayon de capturar o rei em fuga...
foi dada pelo meu amigo Lafayette.
Na ordem do general...
não se fala de captura nem de fuga. Fala apenas...
''Os inimigos da Revolução raptaram o rei''.
Eu mesmo escrevi, ditado por ele.
Mas esse capitão...
com que direito pôde mudar a ordem do general?
Foi Lafayette que mandou ambos partirem?
A mim, sim.
Ao capitão...
à Assembléia Nacional.
Tem que reconhecer que a idéia do rapto...
é genial para salvar a coroa.
É mesmo. Por que a pôs em prática?
É uma invenção...
que pode ser fonte de perigosas divergências...
entre as várias correntes da Assembléia.
Madame, veja quem chegou.
Senhor de Romeuf!
Quantos oficiais seguem o rei hoje!
Condessa de la Borde.
Força, venha!
Sempre a última!
Eu eu, agora, onde vou?
Aí está a nossa diligência! Que tortura!
Quero, com certeza...
ir ao lado do cocheiro.
Virginie, se controle. Não é lugar para senhoras.
Uma senhora é sempre uma senhora...
não importa onde se sente!
-Posso subir? -Por favor, madame.
Ah! Aqui só se fala de revolução, revolução!
Também quero fazer uma!
Vou me sentar ao lado do cidadão cocheiro.
Não, oficial. Estou bem aqui.
-Eh! Cidadão, viu o rei? -Quem o viu?
Deve se ter passado por ajudante de cozinha!
Ah! Mande-o ficar sentado! É insuportável!
E você, já tem casa?
Senão pode ir às Tuileries, eles estão alugando...
A quem encontrar o rei...
pede-se que o leve ao estábulo.
E agora, o que pensa fazer, ten. Romeuf?
Tem um plano?
Assim que chegarmos a Châlons...
pedirei informações sobre os raptores do rei.
Ou seja, onde o Capitão Bayon...
que partiu com Casanova...
foi pedir notícias do rei em fuga.
Raptado ou em fuga...
fez bem em se libertar da tutela jacobina...
que o mantinha prisioneiro nas Tuileries.
Sempre humilhado pela Assembléia...
não era mais que o fantasma de um monarca.
Mas o povo está com ele.
Os humildes o chamam de ''bom papai''.
Um papai que está no coração deles...
e fará uma grande festa quando voltar.
Talvez tenha razão, mas...
as pessoas mudaram.
Os humildes da cidade e os do campo...
descobriram que são pobres.
Mas é claro! É natural! Com toda a propaganda...
revolucionária dos vários clubes...
Quanto ao além, começaram a duvidar...
que depois de mortos...
os últimos serão mesmo os primeiros.
Então, na incerteza...
começaram a pensar no presente.
Não, Sr. Restif.
Eu mesma poderia citar...
centenas de episódios de amor do povo pelo rei...
como na ocasião da viagem de Sua Majestade a Cherbourg.
21 de junho de 1 786.
Inauguração do porto de guerra de Cherbourg.
Na presença do rei foi rebocada...
a última das 8 gigantescas torres cônicas...
que, ancoradas no fundo do mar...
delimitarão a baía de Cherbourg.
Eu mesma tive a honra e a sorte de assistir a isso.
Como disse o Ministro da Guerra em Cherbourg...
''Foi um mergulho na multidão''.
Os gritos de 2o mil cidadãos...
cobriam as salvas de 6oo canhões.
É mesmo.
Sim, sei que não concorda com uma das minhas palavras...
mas se o tivesse visto, em Cherbourg...
com o manto vermelho...
Era o meu rei. A minha religião.
O meu ideal.
Eu também posso ver, condessa?
Obrigado.
Seus documentos de viagem, senhores.
-Vamos a Metz. -Obrigado, senhor.
-Dou um concerto em Metz. -Obrigado, madame.
-Eu também vou a Metz. -Sim, obrigado.
-Nancy. -Bem.
-Eu cheguei. -Eu sei, madame Gagnon.
-Fez boa viagem, madame? -Sim, obrigada.
Gaspar, pegue a bagagem de madame!
Madame, está tudo muito estranho!
Passaram por aqui há duas horas, não há 5...
e sem escolta!
Dizem que o duque de Choiseul partiu com seus hussardos...
15 minutos antes da chegada da carruagem.
Não esperou?
Depois de Châlons a viagem devia ser mais segura!
Em cada parada se juntariam mais soldados! O que aconteceu?
Não se sabe nada, madame!
Vou em busca de mais notícias.
O que terá acontecido?
Chegaram. Eu estava na frente do Albergue do Sol.
-Eu cheguei a falar com eles. -Quem sabe se eram eles?
É claro! A mesma cara impressa nos títulos!
Está aqui! Olhem!
Eu cumprimentei e uma bela senhora respondeu...
Por isso, esta manhã chegaram todos aqueles soldados!
Disseram que vinham aqui...
esperar um tesouro de Paris, para escoltá-lo.
Em que horário estava prevista...
-a passagem do tesouro? -Às 5hoo.
Às 6hoo chegou um ''cabriolet'' com um tipo estranho.
Com trancinhas, caracóis e cheio de...
fitinhas e lacinhos.
Bem, estava vestido de amarelo.
Leonard?
O que aquele velho senil fazia aqui?
Deu um bilhete do duque de Choiseul ao nosso capitão...
onde estava escrito: ''O tesouro não passará hoje''.
Sim, mas depois o tesouro...
ou algo de muito precioso, passou.
Claro. Passou sim! Às 7h45 chegou uma carruagem.
Nunca se viu uma tão grande! E um cabriolet.
Mas os arreios dos cavalos estavam sendo trocados...
e tinham nos dispensado.
Quando o Drouet chegou do campo...
-onde estava colhendo feno... -Quem é este Drouet?
Drouet? É o nosso chefe de estação!
Ao ver a grande diligência, recomendou aos cocheiros...
que não cansassem os cavalos na subida.
Disse ter tido a impressão de ver o rei e a rainha...
porque quando era dragão...
os encontrou em Versalhes.
Imaginem! O rei se encontrando com o Drouet em Versalhes!
Ouçam, quando chegou um mensageiro de Châlons...
com uma ordem de Paris...
O que o Capitão Bayon transmitiu?
Não sei. Dizia para impedir a fuga do rei.
Nós da guarda desarmamos os dragões sem um tiro.
Bêbados como estavam! O Drouet foi à prefeitura...
e o prefeito mandou que partisse logo...
para perseguir a carruagem.
E assim, o Drouet partiu para Verdun...
-com o amigo Guillaume. -Conhecido como javali!
Não! O dispositivo de segurança...
do barão de Goguelat não funcionou.
Como? Traição?
Não! Graças a oficiais incapazes, tropas fracas...
municípios favoráveis à nova constituição.
E o povo, o nosso bom povo...
quando reconheceu o rei e a rainha...
-por que não os protegeu? -Não sei, madame. Não sei.
Não entendo. Vendo-os de perto...
são tão diferentes!
Esta noite parecem tão distantes, fechados, hostis!
-Que ingratos! -Embarque!
Condessa, foi uma honra. Desejo-lhe boa viagem.
Sainte-Menehould...
passando por Châlons, Montmirail, Meaux!
-Pronto, madame. -Espere um momento!
ALBERGUE DO SOL
-É bom! -Gosta?
Madame!
Quando quiser, podemos ir.
E quando o rei e a rainha...
passaram por aqui com os filhos...
disse para comigo...
será um grande dia para a minha pousada.
Mas me enganei.
Quando o vi chegar...
percebi que... era um grande dia...
-porque era você que ia passar. -Com cuidado.
Pode-me servir algo, depressa?
Nicolas.
Nicolas!
-Nicolas! -Nanette!
Giacomo...
-é Nicolas Restif. -Já tive o prazer.
O marido...
-de minha pobre Zéphire. -Mamãe!
Meu filho!
É o marido de nossa Zéphire.
Quem? Você casou com a nossa Zéphire?
A de vocês?
A dele? A sua!
A nossa Zéphire, de nós dois.
Nicolas...
o Giacomo foi meu primeiro amor.
-Então, você é meu sogro! -E você, meu genro!
-Sente-se. -Sim, perto de você.
Que dia!
Nanette.
Por favor, Nanette.
-Vá embora! -Não falta ninguém!
Oh! Sr. Casanova!
Sr. Restif, a madame Sophie de la Borde...
espera-o para partir.
Pode ir. O Sr. Restif vai comigo.
-Sim, logo os alcançaremos. -Como queira.
Pés de porco à Sainte-Menehould.
Depois de um ano, infelizmente...
a Zéphire me deixou.
Deixou-me por um mundo melhor...
pelo menos esperemos que assim seja.
Sim, uma pneumonia...
a levou em três semanas.
Ninguém me avisou. Justo eu, o pai dela!
Ouça, posso lhe dizer uma coisa?
Sua Zéphire...
não acho que era minha filha.
Também a mim...
devem ter atribuído algumas filhas a mais.
Não creio, aliás nego ter tido alguma relação...
com essa madame Nanette.
Procuro na memória, mas... Não, não!
Mas então, porque confirmou o que disse minha sogra?
Eu sei lá! Amor pela intriga...
mania de galante, sentido teatral.
Quando abraçou o meu pescoço...
assim que me viu entrar na pousada dela...
eu tinha certeza de nunca tê-la visto.
Por que negar?
Para quê desiludir uma senhora...
não mais tão nova diante dos conterrâneos?
Então, já não sou seu genro.
Dado que não sou mais seu sogro.
É mesmo...
nem eu estou tão certo que...
a minha Zéphire fosse filha da Nanette.
Foi numa viagem, muitos anos atrás.
Viúvo há pouco tempo, acabei naquela pousada.
A dona tinha acabado de perder, em Paris...
uma filha que tinha o mesmo nome, Zéphire.
Que coincidência!
Ainda que alguns detalhes não coincidissem mesmo...
mas, para quê ficar perguntando?
A dor de Nanette era tão sincera...
e estava tão feliz...
por encontrar o marido de sua pobre filha!
E depois...
naquela época...
a Nanette era ainda de uma beleza estonteante...
e assim misturamos as nossas lágrimas...
durante três dias na cama dela.
Nas Tuileries, uma rainha perversa...
convence um rei fraco...
a preparar uma noite de São Bartolomeu...
para os patriotas.
"O ouro e as armas da França são enviadas para o exterior...
para que os tiranos amontoados nas fronteiras...
encontrem o povo francês esfomeado e desarmado."
Façam caridade.
Senhores, caridade.
-Não! Nada! -Dêem-nos alguma coisa!
Há mais de 6 anos vivo...
na Boêmia, no castelo de Dux.
Sou bibliotecário do conde de Waldstein.
Na verdade, sou uma espécie de bobo da corte...
alvo do escárnio dos criados, que me desacatam e insultam.
Por isso fugi.
Dirigi-me ao duque de Weimar, à duquesa da Saxônia.
Só pedia um lugar...
adequado ao meu nome, à minha dignidade.
Deram-me quartos humilhantes.
-Vamos sentar ali? -Sim.
Dois emissários do conde de Waldstein...
me alcançaram em Paris...
para me dizer que o conde está arrependido, se desculpa...
e que me quer no castelo. Pagou até... Obrigado.
algumas cartas de crédito...
que eu assinara em nome dele...
para uns judeus de Berlim.
Mas a verdade...
é que me quer no castelo porque se chateia.
Quer que suavize os saraus dos hóspedes.
Ouça, vou lhe contar.
Nobres damas e cavalheiros.
Esta noite quero lhes contar...
da vez em que fingi cair do cavalo...
justo na frente da casa...
das duas mais virtuosas irmãs de Dresden.
Marika e Birgitt.
Logo me socorrem, me acolhem, me deitam na cama.
Eu peço que vão pegar no alforje do cavalo...
um frasquinho com um precioso ungüento...
que, na verdade, era só vinho de Borgonha.
Depois peço às irmãs...
que o espalhem sobre a parte ferida...
e massageiem com leves toques lá onde...
Na Itália
64o
Na Alemanha
231
1oo na França, na Turquia 9 1
Aqui!
Estou muito cansado, talvez seja melhor voltar.
Mas quero voltar com as minhas pernas!
Não ser levado por dois gendarmes.
Foi por isso que os semeei em Paris.
-Um cavalo bom! Depressa! -É para já, Dr. Mangin!
Dr. Mangin, o que foi?
Onde vai, correndo, a esta hora?
Para Paris.
Fui encarregado pelo prefeito de Varennes...
para levar uma mensagem à Assembléia Nacional.
O rei e a família real foram detidos!
Estão presos na casa do Sr. Sauce...
Vice-Procurador do município.
Foram presos há duas horas em Varennes...
por um bando de patriotas avisados pelo Sr. Drouet...
chefe da estação de Sainte-Menehould.
Toda a população vigia, armada, em volta da loja.
Uma loja de quê, desculpe?
Bem, o Sr. Sauce fabrica velas...
e vende especiarias e artigos coloniais.
-Onde fica Varennes? -A cerca de 6 léguas daqui.
Na estrada de Montmédy.
Foi uma sorte...
o Drouet ter encontrado os cocheiros...
que voltavam com os cavalos.
Noite de vigília.
O espetáculo muda, o público sobe ao palco.
Naturalmente, pensa ir a Varennes!
Parti de Paris...
para alcançar o rei e assistir ao que acontecerá.
O que escreverá dos Bourbons presos na loja de um comerciante?
Nem Shakespeare...
teria conseguido fazer disso uma tragédia!
Eu não escrevo tragédias.
Transmito o que vejo.
Lá está a minha diligência.
Eu sigo para Verdun.
Não me alegra muito assistir ao funeral do rei.
O povo francês não quer que ele morra.
Meu caro Restif...
quando um rei é preso não por outro rei...
mas por um chefe de estação é como se estivesse morto.
Dê a volta.
Sr. Casanova, o conde de Waldstein...
-pede que me acompanhe. -Está bem.
Encontraram-me.
Mas não está dita a última palavra.
Quando jovem, fugi de carcereiros bem piores.
Quando jovem.
Mas a juventude é um defeito...
do qual nos corrigimos depressa.
Aqui está.
Ah! Restif...
um pedido. Quando for a Paris...
vá visitar Goldoni.
Está velho, doente, quase cego.
A nova França lhe tirou a reforma...
que recebia como artista ilustre.
Pouco a pouco, vendeu toda a biblioteca.
Mora numa mansarda na rua Dauphine.
Prometido. Conte com isso.
Adeus.
Abram caminho! Cuidado!
Deixem passar!
Estava disfarçado de criado!
Criado de Maria Antonieta!
-Vocês de onde vêem? -De Châlons!
-Nós de Montmirail. -Vamos juntos até Varennes!
-E vocês, de onde vêm? -De Sainte-Menehould!
Esta diligência vai a Varennes.
Mas capitão, este é um serviço público.
-Esperam-nos em Metz. -Esperam-nos em Varennes.
-Sim, a Varennes. -A Varennes?
Mas eu vou para Metz! Tenho negócios lá!
-Nossos negócios, Sr. Paine. -Nós também!
Tem outra diligência para Metz?
Vou providenciar, mas preciso de tempo.
Estarei na Baixa Alsácia daqui a 1 ou 2 dias.
Quando quiser, minhas fundições ainda estarão lá.
A bagagem!
Vão a Varennes!
Nossas bagagens!
-Vão a Varennes. -Calma, acalme-se!
Entendo sua preocupação. Você aqui...
sua esposa sozinha em Paris, em dias como estes.
Por que não volta para ela?
Pegue a primeira diligência para Paris...
-e pela manhã estará em casa. -Como? Vim até aqui!
-Então? -E você?
Eu tenho que continuar, você sabe.
Tenho o concerto, não se preocupe comigo.
Como? Vai ficar aqui sozinha?
Eu?
Estou sempre sozinha.
Sempre estive sozinha.
Maria Madelena...
Venha.
Mas não conseguiram Nós não vamos ceder
Dancemos a carmanhola Viva o som, viva o som
Dancemos a carmanhola Viva o som do canhão
Antonieta decidiu Antonieta decidiu
Quebrar nossas pernas Quebrar nossas pernas
Mas não conseguiu Quebrou o próprio nariz
Dancemos a carmanhola Viva o som, viva o som
Dancemos a carmanhola Viva o som do canhão
Sr. Paine...
vai me desculpar por hoje?
Nunca tive tanto medo.
Mas...
não só pelo maluco que me agrediu.
Medo dos discursos, das pessoas...
medo de você e de tudo...
o que não conheço, do que estou para perder.
A Corte é um ninho quente.
Como aquele manto vermelho...
a Cherbourg, era a segurança.
Os ideais não contam.
Para mim...
se outros ideais me dessem a mesma segurança...
seriam bons.
E além disso...
meu pai era cervejeiro, imagine que ideais!
Então, vai me desculpar?
Era só medo.
E amanhã não terá mais?
A ingratidão do rei é proverbial.
A dos reis em desgraça é feroz.
Quer mesmo me encorajar esta noite.
Não. Temos que conseguir por nós.
Todos temos medo. A fé, os ideais...
são tentativas para não ter medo.
Mas temos que encontrar...
os justos para nós.
É isso, condessa.
Se percebemos que não servem mais...
temos que ter coragem para mudá-los.
São mesmo as mudanças que me dão medo.
Quando gatos e bobos deixam a casa do patrão...
são destratados por todos.
Entre os direitos do homem, na constituição americana...
substituímos a palavra ''propriedade''...
por ''busca da felicidade''.
Era feliz antes Sr. Jacob?
Não. Sempre tive muito medo...
de perder o que tinha.
E eu detesto a felicidade!
VELAS E PRODUTOS COLONIAIS
Entretanto meu marido...
saiu para ir interrogar os viajantes.
-Eles diziam ser russos. -Mas todos falavam francês.
Depressa, depressa, um médico!
Uma dama do séquito está numa crise de cólica!
De cólica?
Só faltava culparem a comida que lhes dei!
Vá procurar médico!
Ande! Corra! O médico! Vá!
São todas desculpas para atrasar a partida!
À Paris!
As crianças estão dormindo! As crianças estão dormindo!
Ah! Estes sinos!
Dois enviados com ordens da Assembléia Nacional...
e do General Lafayette.
Esse é o homem que prendeu o rei. O prefeito Sauce!
Vice-prefeito. O prefeito não está.
Não. Eu não prendi ninguém.
A emoção do momento...
as trevas da noite...
a segurança dos viajantes...
não permitiam que continuassem.
Então os convidei para entrar para descansarem. Foi só.
Quando voltamos à carruagem...
gritei para Sauce...
''Se deixá-los passar... será culpado de alta traição!''
É verdade. Foi o que gritou.
É o Sr. Drouet...
chefe da estação de Sainte-Menehould.
Quando Sauce quis examinar os passaportes...
um homem vestido de criado olhou pela janela...
e ordenou aos cocheiros que partissem.
Então eu gritei: ''Se derem um passo atiramos!''
Gritou isso mesmo.
Depois ordenei aos jovens de Varennes...
-que apontassem as armas! -Que estavam descarregadas.
Bem, eu não sabia...
e os viajantes também não.
Tanto que saíram e seguiram Sauce.
Sim, imaginem a minha agitação!
Em plena noite, com a casa cheia de reis...
coloque a mesa, e prepare o jantar...
Mas quando sua majestade abraçou meu marido...
me comovi até as lágrimas.
Éramos como uma família que reencontrara o pai...
após ter tido medo de perdê-lo.
O rei me disse: ''Em Paris, vivia circundado de punhais...
quis... me refugiar...
no meio dos meus fiéis súditos do campo...
para gozar da paz e da liberdade que perdera.''
A liberdade!
A liberdade de fugir do país, é claro!
Drouet! Um monstro vomitado pelo inferno!
A mim disse que queria ir somente a...
a Montmédy, a poucas léguas daqui.
Sim, onde Bouillé, o carniceiro...
espera para levá-lo para a Áustria...
ou Luxemburgo!
Não! Irá para Paris! E já! Preparem a diligência!
Estão descansando lá em cima!
Estão descansando lá em cima!
Ah! Estes sinos!
Estão vendo? Estão vendo que confusão?
Ainda bem que chegaram.
Venham. Subam. Vão ver Sua Majestade.
Deixem passar os representantes da nação!
Estão vindo da capital.
Esperemos que este lamentável episódio...
traga vantagens à nossa pequena vila.
O rei me prometeu a sua benevolência.
Contamos sobretudo com a da Assembléia.
Mandei imediatamente o Dr. Mangin a Paris...
para avisar que o rei era meu hóspede.
E também mandei colocar...
na saída da vila...
alguns velhos canhões. São de madeira, mas...
Deixem passar os representantes da nação.
Deixem-nos passar!
Desencoste-se.
Já está aqui há duas horas!
Os outros também têm direito!
Majestade, há dois enviados da Assembléia Nacional.
Majestade...
em Paris se esganam.
Nossos filhos, nossas esposas, nossas mães...
podem ser massacrados!
E eu, senhor, não sou mãe também?
A rainha.
Trouxemos um decreto da Assembléia.
Onde está esse decreto?
Nas mãos do ten. Romeuf...
ajudante de campo do general.
O senhor, Ten. Romeuf? Não posso acreditar!
Esperava não chegar aqui.
Foi a má sorte que assim quis...
mas estou aqui para servi-la.
-Não há mais rei na França. -Santo Deus!
Leve-me embora.
Leve-me embora.
Não quero que suje a cama de meus filhos!
-Sua Majestade tem razão! -Bem, do ponto de vista dela.
O seu chapéu!
Entre! Vou procurar a bagagem!
Um exemplar do ''Amigo do Povo''!
Ouçam! Ouçam!
De Paris...
chegou um exemplar do ''Amigo do Povo''!
Ouçam Marat!
''É um ofício cruel ter razão seis meses antes.''
"Não havia por acaso previsto a fuga de Luís?"
"Não a tinha anunciado há tanto tempo?"
"Ontem, Luís XVI foi para a cama...
após ter recebido de seus financistas...
o ouro que ele, Luís, aprecia todas as virtudes."
" As únicas que ele conhece."
"O pai dos franceses, portanto, deixou o posto...
com a esperança de nos mandar...
em troca de sua pessoa real, uma guerra estrangeira...
e outra interna, que durarão muitos anos."
Que parta, esse vil monarca, para nunca mais voltar!"
''Este é o momento de fazer rolar...
as cabeças de Bailly, de Lafayette...
e de todos os desgraçados do Estado Maior...
de todos os traidores da Assembléia!''
Precisam de um tribunal...
de um tribunal militar, ou estarão perdidos!''
À Paris! À Paris!
À Paris! À Paris!
Mais gente deve fazer parte do complô.
Há pouco, na estrada...
olhava para os rostos desses camponeses.
Não eram rostos comovidos.
Não pareciam os rostos...
de filhos felizes por terem reencontrado o pai...
como diz madame Sauce.
Naqueles rostos...
liam-se histórias de fome, de miséria, de humilhações.
E o medo que ainda não seja este...
o dia que porá fim às injustiças.
Para isso, temo que terão que esperar...
pela próxima ocasião.
...do povo enquanto ficar unido...
para combater as acusações que nos são feitas."
" A conduta do povo...
em momentos difíceis como este...
tem que provar que ele não compactua com seus chefes...
e que pode passar sem eles.
"Homens da Guarda Nacional...
nestes momentos de alarme...
foram abandonados por todos os oficiais...
Senhores, me esqueci de lhes agradecer.
A viagem foi longa e acabou mal...
mas sua companhia fará dela uma recordação...
menos penosa.
Condessa, pode satisfazer uma curiosidade?
O que contêm esses pacotes misteriosos...
que a ajudei a tirar do palácio ontem à noite?
Então... era você!
Por isso...
desde o primeiro momento desconfiei de você.
É justo nutrir desconfianças, por nós...
homens de letras, cronistas, escritores.
Somos uma espécie de espiões.
Nós não participamos, não intervimos.
Na verdade, descrevemos e julgamos...
e algumas vezes confundimos.
Eis porque, desculpe condessa...
somos uma raça de gente muito... curiosa.
Sr. Jacob.
É o traje que Sua Majestade usava...
na inauguração do porto de Cherbourg.
Amanhã é Corpus Domini.
Sua Majestade iria usá-lo no campo de Montmédy...
diante de suas tropas em armas.
Deve ser muito penoso ser rei.
Quem grande quer parecer, penas tem que padecer.
Se Luís tivesse viajado assim vestido...
talvez não tivessem tido o peito de detê-lo. Quem sabe?
Majestade.
Aqui estamos, senhoras e senhores.
O rei sobe ao patíbulo...
acompanhado pelo confessor.
Exatamente no dia 21 de janeiro de 1 793.
Aqui, na máquina de espreitar...
no Mundo Novo!
Caros, senhores e senhoras, tragam as crianças...
para que vejam com os próprios olhos...
os grandes feitos da História!
E a realidade parece fantasia...
e a fantasia parece realidade.
Nesta caixa mágica se encontra o Mundo Novo!
Um de cada vez!
Senhoras e senhores...
venham ver os feitos da história...
com as imagens em movimento.
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