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(Música de suspense)
Laura, já o temos praticamente terminado.
Qual é a seção? -104.
Ótimo, obrigada.
(Telefone)
(Telefone)
(Telefone)
(ADRIADNA-AR) Sim?
Sim, mas ele não está.
Sua neta.
Como?
Desculpe, não sei do que está falando, de que papeis?
Não, meu avô está numa casa de repouso,
não pode ir a nenhum lugar.
Sim, claro, eu digo, grata.
(Música emotiva)
(AR) Oi, vô,
Como está hoje?
(Falam em catalão)
(AR) Vovô, te ligaram de uma associação.
Dizem que faz tempo que você está procurando seu pai.
É verdade isso, papai?
(AR) Mamãe!
(AR) Vô, vamos a dar um passeio.
(Música emotiva)
(AR) Lembra-se de quando me ensinou a pescar?
Ari.
(Música de suspense)
Ariadna. (AR) Olá.
Oi, como está?
Como foi de viagem? (AR) Bem.
Quer comer algo? Descansar um pouco?
(AR) Não, obrigada.
Certo, então vamos a La Pedraja. (AR) Vamos.
Trata-se de seu bisavô, né? (ASSENTE)
Que tenhamos sorte.
Mas leve em consideração que nesta área ainda há muito o que fazer.
(Rádio ao fundo)
E o que você faz?
(AR) Estou de licença.
Já chegamos.
(Música de suspense)
(AR) O que essa gente toda faz aqui?
São dos povoados, dos arredores.
Alguns nos abriram as portas de suas casas
e nos convidaram a comer, até a dormir.
Outros nem nos olham na cara.
Laura. - Com licença, um minuto.
(Continua música de suspense)
(Conversas ao fundo)
(Celular toca)
(FALA EM CATALÃO)
- Mãe, o que quer?
Sim, cheguei bem.
Não posso falar agora Te ligo mais tarde, está bem?
Tá, tchau.
(EMILIO-E) Você é catalã?
(AR) Sim, de Barcelona.
(E)Eu sou de Bañuelos de Bureba, perto daqui.
Me chamo Emilio. (AR) Sou Ariadna.
(E) Muito prazer.
(E) Sabe que aí pode estar enterrado outro catalão?
Chamava-se Antonio.
Antonio Benaiges.
Foi...
meu professor.
(Música emotiva)
(ANTONIO-AT) Obrigado!
(SUSPIRO DE CANSAÇO)
(Sino ao fundo)
(Galinhas ao fundo)
"Olá?"
(AT) Olá!
Suba, estou aquí em cima suba, suba.
Sou Jaime, prefeito de Bañuelos. (AT) Antoni, Antonio Benaiges,
prazer. Bem-vindo a Bañuelos de Bureba.
(AT) Obrigado. Espero que tenha feito uma boa viagem.
(AT) Sim, longa.
O que acha? (AT) Bem, muito...
aconchegante.
Uma pequena limpeza e estará como novo, você verá.
(AT) E o que aconteceu com o professor anterior?
Digamos... que a República decidiu que já não precisava dele.
Era o Padre Primitivo, pároco do povoado.
Logo o conhecerá. (AT) Sim.
Bem, deixo que se instale. (AT) Certo.
Qualquer coisa que necessite, mande me chamar.
(AT) Obrbigado.
(Sinos)
Padre. -Grato.
(E) Bom dia, senhor professor.
(AT) Bom dia, como se chama? (E) Emilio, senhor.
Emilio Martínez.
(AT) Prazer, Emilio, eu me chamo Antoni,
mas pode me chamar de Antonio. Mas nada de "senhor".
(E) Sim, senhor, digo... sím, don Antonio.
(AT) Antonio sem o "don"?
(E) Só Antonio.
(E) Muito bem, já está pegando o jeito.
Quer entrar? (E) Sim.
(AT) Muito bem.
(AT) Sabem se mais alguém virá?
Bem, então vamos começar.
- Bom dia. - Bom dia.
(AT) Entre.
- Como se chama? - Josefina Zamero,
a filha do prefeito, e este é o meu lugar.
(AT) Bem, um momento, aquí nesta escola
ninguém vai ter o seu lugar.
Cada dia vocês poderão se sentar onde quiserem, combinado?
Está bem, me parece justo.
Eu sou Antonio Benaiges.
Vejamos...
Primeira pergunta.
O que acham que eu vim fazer neste povoado?
- Ora, veio nos ensinar. (AT) Exato, correto, muito bem.
Mas também vim aprender e tenho a vontade
de ajudá-los a descobrir que dentro de cada um de vocês
há uma pessoa cheia de saber e também muita vontade de aprender.
- Don Antonio. (AT) Sim?
O crucifixo caiu. (AT) Não, não caiu,
eu o tirei de lá.
Porque estamos numa escola, não estamos numa igreja.
Vejamos... segunda pergunta:
Quem pode me explicar o que é a meteorologia?
Sim, Emilio. (E) A... o quê?
(AT) Olhem, estão vendo isso aqui?
É um termômetro.
Vejam. E sabem para quê serve?
Para medir la temperatura. Vejam, peguem.
Cada día um de vocês vai ser o encarregado
deste termômetro e vai a registrar a temperatura.
E é desta maneira que vamos aprender,
experimentando, e todos juntos.
(Barulho de caída no chão)
(AT) O que é isso, Emilio?
(E) Pensei que ia me bater.
(AT) Toma.
Vamos ver, aqui, nesta escola
ninguém vai bater em ninguém.
- Mas meu pai disse que os preguiçosos só aprendem batendo.
(AT) Pois aqui vamos aprender com música.
- Com música? (AT) Sim, com música.
E se quiserem, um dia, ensino vocês a dançar.
(E) Na escola? - Mas... e as contas e essas coisas?
(AT) Aprenderemos matemática
solucionando problemas da vida diária.
E a ler e a escrever...
Sabem de uma coisa? O ler e escrever
eu deixo pra amanhã. Sabem o que eu quero?
Que vocês digam a seus amigos e seus irmãos
e a seus primos que... digam que amanhã venham todos,
porque vai ser um dia muito especial,
porque amanhã...
Amanhã vamos fazer mágica.
(Porta)
(AT) Oi?
(CHARO-C) Boa tarde. (AT) Boa tarde.
(C) Vim faxinar. (ASSENTE)
(C) O prefeito me mandou.
(AT) Muito bem, entre.
Meu nome é Antonio. (C) Ah, aqui já se sabe antes.
(AT) Ah, tá, imagino. E você?
(C) Charo, me chamo Charo. (AT) Prazer, Charo.
(C) Começarei lá embaixo e assim te deixo tranquilo com suas coisas.
(AT) Que tudo corra bem.
(Sinos)
(AT) Alfonso?
- Antonio. (AT) Como você está, homem?
- Aqui todos me chamam de Rodríguez. Vamos sentar?
(AT) Sim. Venha.
E aí? Como Bañuelos tem te tratado? (AT) Bañuelos, bem, por enquanto, bem.
E você com o novo governo, como está?
- Pois tem que terminar. Esses artigos, como os seus,
são mais necessários do que nunca, Antonio.
(AT) Está tratando com aquele do jornal?
- Sim, o diretor é meu amigo
e me disse que quer muito te conhecer,
não há problema algum. (AT) Muito bom.
- O que querem pedir? - Dois vinhos, por favor, obrigado.
(AT) E qual era aquele assunto delicado
sobre o qual queria falar? Sim.
Tenho que te pedir um favor, Antonio,
tenho um bom amigo, o Bernardo, que é agricultor e
está preso desde que a direita ganhou.
E, bem, ele tem um filho de oito anos
que ajudava no campo e agora está passando de uma casa pra outra
e não faz nada além de se meter em problemas.
Coisas de sua idade... acontece que a última
foi um pouco mais grave... (AT) O que ele fez?
Ele jogou umas pedras contra um quartel
da Guarda Civil e... Sim, imagine...
(AT) Obrigado. Muito obrigado.
Seria bom ele se exilar durante um tempo no seu povoado.
O menino não tem mãe, e está passando por tudo isso,
e eu havia pensado que, bem... se ele poderia ficar contigo
e viver aí, na escola.
Antonio, o menino é esperto. (AT) Tá.
E sei que com você ele não irá se meter em mais problemas.
Estou te colocando num compromisso... mas Bernardo é um ótimo amigo
e eu queria ajudá-lo com o garoto.
(AT) Como ele se chama?
Carlos.
Bom dia! (AR) Bom dia.
(Música de suspense)
(AR) Desculpe-me, tem certeza de que me entregou
todos os documentos? - Sim, sim, sim.
(AR) É que não há nada que certifique
as entradas e saídas da prisão.
Devería haver un registro. - O cárcere de Briviesca
se incendiou faz muito tempo.
Isso é tudo o que temos.
Sinto muito.
(AR) Obrigada.
A partir de Briviesca, têm que tomar este caminho
que passa pelo abrigo de Espinosilla
e que cruza as Salinas de Bureba, e o mesmo caminho
os leva ao santuário. É muito bonito.
- Obrigada.
(AR) Conhece um homem que se chama Emilio, no vilarejo, um senhor?
- Sim, sim, há um Emilio no povoado, o da queijaria.
(AR) Sabe onde vive? - Sim, eu te indico.
(Celular)
- Ariadna? - Mãe, a pequena está bem, não?
- Sim, mas... - Então pare de me ligar, por favor.
- Ari... (Som de fim de chamada)
(E) Olá.
Olá, catalã.
(AR) Olá.
Emilio,
No outro día me falou de seu professor,
um tal de Benaiges.
(E) Antonio Benaiges. (AR) Isso.
Bem, meu bisavô
dividiu cela com ele.
(E) Como se chamava? (AR) Bernardo Ramírez.
(E) Bernardo...
Poderia ser o pai de Carlos, de Carlos Ramírez.
(Música emotiva)
(AR) Carlos é meu avô.
(E) Entre.
Se quiser algum, posso emprestar.
Trabalhei na biblioteca de Briviesca
quase toda a minha vida.
Veja, veja...
Este era Antonio, aqui estou eu.
E esse é Carlos, seu avô.
(Música emotiva)
(E) Carlos Ramírez.
Era um figura, tínhamos inveja dele porque vivía com o professor.
(AR) O quê? Vivía com o professor?
(E) É uma longa historia, sente-se...
Quer um café?
(AR) "Escola Nacional Mista de Bañuelos de Bureba,
1936".
Ainda existe a escola?
(E) Sim, quer vê-la?
Ficamos poucos por aqui...
Faz muitos anos que as pessoas começaram a desaparecer, pouco a pouco.
Esta era a escola.
Faz tempo que está fechada.
(AR) Não entendo porque meu avô nunca me disse nada disso tudo.
(E) A verdade é que nenhum de nós
voltou a falar do professor em todos esses anos.
(AT) Bem, obrigado por sua ajuda, hein?
Assim, não é nenhum palácio, mas ficaremos bem, você verá.
E você é bom com isso?
- Quer que eu te mostre?
(AT) Eita, que bom!
Carlos, Carlos, essa é a minha cama!
(AT) Bem, estou muito contente por ver tantas caras novas por aqui...
e antes de tudo, quero lhes apresentar
um novo companheiro no povoado que se chama Carlos,
e espero que cuidem bem dele, e que, entre todos,
lhe ajudemos a se adaptar. Combinado?
E agora sim, vou lhe apresentar aquela que será a nossa
principal ferramenta para as aulas.
Chama-se "prensa", com elas vamos publicar
nossos próprios cadernos.
E eles tratarão de todas as coisas, aquelas coisas que interessem a vocês.
Dos seus sonhos,
de seus desejos também de seus medos...
Eles vão convertê-los em escritores, em cronistas e
em poetas!
Vai ser como... um pequeno jornal,
nosso próprio jornal.
Têm vontade de ter seu própio jornal?
- Essa era a mágica? (AT) Josefina, deixe-se surpreender,
Venha, venham todos.
Venham, sem medo!
Para aprender juntos, primeiro temos que errar juntos.
Vem, levantem-se de seus bancos,
levantem os traseiros, venham aqui.
Vêem essas pequenas peças aqui? - Sim.
(AT) Elas se chamam "tipos" e são as letras
com as quais vamos escrever.
Podemos começar pelo nome do nosso vilarejo, por exemplo,
que se chama...? - Bañuelos de Bureba.
(AT) Muito bem. Pegamos o componedor
e colocamos a primeira letra. Qual letra?
- B. (AT) O "B", e, agora
podem me ajudar buscando as letras.
Muito bem, exato, muito bem.
e, já estaria... muito bem. E agora, com cuidado,
colocamos aqui.
E agora é a hora da tinta.
Querem me ajudar com a tinta?
Vejam, pegamos a tinta.
Espalhamos um pouquinho, muito bem, por todas as partes,
Ai está.
Quem quer cuidar do papel? Você?
Pegue com cuidado.
Muito bom! Parece que fazem isso faz tempo!
Muito bem!
Fechamos e prensamos.
A pressão também tem que ser justa,
nem muita, nem pouca.
Abrimos e, agora sim, que vem o momento
que todos estavam esperando:
o momento da magia.
(Música expectante)
(AT) Quem quer testar agora, quem quer ser feliz?
(TODOS) Eu! Eu! (AT) Todos querem?
(Porta)
Bom dia.
- Bom dia.
(AT) Bem, creio que não nos apresentaram,
eu sou Antonio Benaiges, o novo professor.
- Padre Primitivo. (AT) Prazer.
O que deseja?
- Que direito pensa que tem para retirar o Nosso Senhor?
(AT) Veja, como estou certo de que o senhor já deve saber,
na Espanha, desde que ganhou a República, a educação é laica
e não há lei alguma, nem nenhuma norma que me obrigue
a ter qualquer crucifixo fixado nestas paredes.
- Ah.
E o senhor é um ateu? Não posso fazer nada contra isso,
mas neste povoado há bons católicos
e o senhor deveria respeitar a sua fé.
(AT) Não, não, eu respeito a fé deles, o que acontece é
a fé e a religião pertencem ao campo da família e da igreja,
não ao campo da escola.
Sou um ateu, mas lhe asseguro que meu único objetivo neste povoado
é que estas crianças aprendam a ser boas pessoas, e aí está!
E o senhor pensa que isso é respeito?
Que aprendam como selvagens, correndo por toda a escola?
(AT) Pra mim o que não é respeito
é o que o senhor está fazendo hoje, aquí.
- Eu vou te dizer... (AT) Não, EU vou lhe dizer que
acontece que esta, agora, é a minha escola, não sua escola.
e as coisas, a partir de agora, se fazem da minha maneira,
e agora, se nos dá licença, temos muito trabalho
e é certeza que o senhor deve ter coisas muito melhores a fazer
do que interromper as aulas. Bom dia.
(Música emotiva)
(AT) Minha família, na praia. (C) Sente falta deles?
(AT) Sim, a verdade é que sim.
(C) Meu marido também nasceu na Catalunha.
(AT) Como ainda não me havia dito que seu marido
também é catalão?
(C) Era. (AT) Sinto muito, Charo.
(C) Já vi esse caderno que você fez com os pequenos.
(AT) Ah, sério? E você gostou?
Se quiser, posso ler pra você alguma redação
elas são preciosas, hein? (C) Eu sei ler.
(AT) Bem, nesse caso, veja.
Leve um, por favor.
(C) Não...
(AT) Te digo de verdade, leva um pra casa, é sério.
(C) Está bem.
Obrigada, bem, já terminei. Tenho que ir...
(AT) Charo... por que não fica e a come comigo?
(C) Grata, mas não. (AT) Por favor, insisto,
veja, há muito tempo venho jantando sozinho,
e a verdade é que não me apetece mais.
Além disso, Carlos já está dormindo. E veja o que eu preparei.
Veja que delícia.
Temos: torradas, tomate ralado, azeite e sal,
mais comunmente conhecido como... (C) "Pa amb tomaca".
(AT) Sim. (C) Faz anos que não via.
(AT) Pois então, venha, por favor.
Fique.
(C) Tá, tá bom. (AT) Posso te fazer uma pergunta?
(C) Sim. (AT) Tem filhos?
Não?
E viveu aqui em Bañuelos toda a vida?
(C) Sim.
(AT) Como conheceu seu marido?
(C) Era caixeiro-viajante, vendía tecidos. (AT) Tá.
E nunca pensou em sair de Bañuelos?
(C) E para onde eu iria? (AT) Sei lá,
para a terra do seu marido, por exemplo.
(C) Não.
E você, como chegou aqui de tão longe?
(AT) Eu, veja bem... esse lugar me tocou...
me tocou e eu o aceitei.
Não sei, creio que aqui há muito trabalho a fazer.
(C) Tá, mas a que você se refere?
(AT) Veja, sabe que dizem que a escola nos ajuda
a nos tornarmos adultos? (CONCORDA)
(AT) Pois é da minha opinião que meus alunos
têm que primeiro aprender a ser crianças.
Ao que me refiro é que, a nós mesmos,
não nos deixaram ser crianças, queriam que fôssemos homens,
para deixar de ser um fardo, certo?
(CONCORDA) Meu trabalho como professor
em Bañuelos ou em qualquer lugar do mundo
é precisamente impedir isso.
Porque as crianças...
as crianças têm que ser aquilo que quiserem,
mas, sobretudo, têm que ser crianças.
(C) É o professor mais estranho que já pisou nesse povoado.
(RISOS)
- Aqui puseram muita tinta. (CONCORDA)
(AT) Quer tentar de novo? Sim? Muito bem.
Algum de vocês sabe por que faz uns dias que Emilio
não vem à aula? - Deve estar com o pai dele...
(AT) Vamos ler um pouco? "Platero y yo",
todos em volta do aquecedor? (TODOS) Sim. Sim!
(AT) Eu me sento aqui?
"Capítulo 1: Platero".
Quem quer ler?
- Que o Carlos leia. (AT) Josefina, por favor.
- Me deixa em paz! - O que foi? Não sabe ler?
(AT) Ei, tá, calma... - Sim, eu sei.
- Ah, é? Então vem, leia.
(AT) Ei, ei. Não vou tolerar esse comportamento na sala,
hein, Carlos? Isso não pode voltar a acontecer.
E você, Josefina, respeite seus companheiros, por favor.
Carlos, Carlos, vem aqui.
Carlos, Carlos, venha aqui, vai?
Carlos, volte, por favor, Carlos.
Leandro, o que acha de ler? - Sim.
(AT) Sim? Muito bem.
"Platero é pequeno, peludo, suave,
tão macio por fora, que parecia todo de algodão".
(AT) Camilo.
Desculpe.
Veja, quería falar com o senhor porque...
bem, o Emilio... faz dias que não vai à escola
e queria saber o que se passava.
Há muito trabalho com as vacas.
(AT) Ah, o senhor sabe que Emilio é a criança que melhor lê
lá na escuela?
- O que o meu filho tem que fazer é trabalhar de verdade,
caso contrário, será um inútil por toda a vida.
(AT) Veja, eu entendo que o senhor pense desta maneira,
mas tenho certeza de que se trata do contrário,
quanto mais ele aprender agora, na escola,
mais opções terá para seu futuro.
- O senhor não vai me dizer o que é melhor para o meu filho.
Certo?
(AT) Carlos.
Podemos falar sobre o que aconteceu hoje, na sala,
com Josefina?
- To nem aí pro que aquela idiota pensa!
Meu pai não pôde me ensinar a ler e escrever.
(AT) E você sente falta dele, né?
Tenho uma ideia.
E se eu te ensinar a ler e a escrever?
Não. (AT) Não? Por que não?
- Porque você não é meu pai.
(Música triste)
- Carlos,
vamos, que é hora da janta.
- Boa noite, amorzinho.
- Boa noite, mamãe.
- Nos veremos logo.
- E te mostro o pijama novo.
- Isso. Agora me passa pra vovó.
- Vovó!
- Ari, quando voltará?
- Não sei ainda, mamãe.
- O que está fazendo pelo vovô é muito bom, mas...
já leva uma semana fora.
- Não entende. Não faço apenas pelo vovô.
Por que não perguntou pra ele nada sobre seu pai?
- Ele não queria falar sobre essa época,
nem de seu pai, nem de quando era pequeno.
O vovô não falava muito, você já sabe...
Todo o país está repleto de valas, em todas as partes
se levaram a cabo as execuções.
As marcas vermelhas são valas que já estão exumadas.
e as verdes, as que estão por exumar.
Lourdes, alguma novidade?
- Sim, veja, encontramos este relógio
no bolso da calça.
- Não me diga! Que boa notícia!
Muito bem. Obrigada, Lourdes.
(AR) Laura, e essas valas? Como vocês as encontraram?
Algumas nós encontramos por algum documento que nos ajuda,
e outras são as próprias pessoas do lugar que nos contam.
Pense que muita gente dos povoados se viu obrigada
a cavar estas fossas
e logo a tornar a fechá-las.
- Laura? - Pois não?
(AR) E quando vão tornar a abri-las?
Pois isso ninguém sabe.
Agora, pelo menos, há alguma vontade política.
Mas, veja... tivemos de esperar mais de 70 anos
para começar a trabalhar.
E como pode ver, ainda há muito por fazer.
Com licença, um momento.
- Isso é tudo o que encontrei sobre Antonio Benaiges.
(AR) Muito grata.
(E) "Expediente de depuração". (AR) Exato.
- Veja, de 39.
Mas claro, sua morte não era oficial.
Foi assim que, ao ouvirem as pessoas do vilarejo,
se inventaram argumentos para poder destitui-lo.
(E) O prefeito, o padre, pároco e vizinhos
dizem que a conduta deste professor
era antipatriótica, antissocial e mal vista por todo o mundo.
Não se conformaram apenas com sujar sua memória...
(Música emotiva)
- Antonio? (AT) Sim?
- Até onde leva esse rio (AT) O Pecesorios?
Ele se junta com o rio Tirón e depois com um rio maior,
que se chama Ebro e, ao final, com toda esta água,
chega ao mar.
(E) É bonito? (AT) O quê?
(E) O mar. (AT) O mar? Se é bonito?
O mar é o que há de mais bonito, Emilio.
Nenhum de vocês já viu o mar?
(TODOS) Não!
- Me disseram que deve ser muito grande
- E muito fundo.
(AT) E os demais, como imaginam o mar?
(E) É onde pegam toda a merluza. - E o bacalhau.
- E os tubarões. (RIEM)
- É sim, meu pai me disse!
(AT) E que mais vocêm sabem? - A água é muito quente.
- Mas o que tá dizendo? É muito fria, mais que o rio.
(AT) Escutem-me um momento... Que tal
escriver tudo o que sabem sobre o mar?
(TODOS) Sim!
(AT) Voltaremos à escola e faremos um caderno especial,
un caderno sobre o mar? (TODOS) Sim!
(AT) Então vamos!
(Sinos)
- Don Antonio, meu pai comprou pra mim
um vestido novo para ir à missa. (AT) É?
Virá para ve-lo? (AT) Receio que não.
É que meu pai disse que os que não vão à missa
acabam no inferno.
(AT) E você, no que acredita?
Que se o senhor não for à missa não poderá ver meu vestido novo.
(AT) Quando vai deixar de de me chamar de "senhor"?
(AT) Não sabe?
- Alguma hora...
(AT) Que bonito!
Não deixe de desenhar nunca, Josefina,
tem um dom com o desenho. - Antonio?
(AT) Sim?
Este caderno vai entrar pra história dos cadernos.
Vocês os deixaram fantástico, meus parabéns a todos!
De verdade, bravo!
Pegue, querem finalizar mais cadernos?
(TODOS) Sim. (AT) Sím?
(Música emotiva)
(AT) Gostariam de ver o mar?
(TODOS) Sim, sim!
(AT) Então quero que mostrem este caderno em casa,
e que seus pais o leiam, e que lhes digam uma coisa
muito importante.
Que lhes digam que neste verão o professor os levará
pra ver o mar.
- É sério?
(AT) O que foi, Josefina, não gostou da ideia?
- Vai nos levar a Bilbao? (AT) Não, os levarei à minha terra,
a Tarragona, ao meu povoado, a Mont-roig del Camp.
(E) Iremos de burro? (AT) Não de burro, não,
não chegaríamos nunca, Emilio.
Iremos numa coisa melhor iremos de trem,
mas têm que me ajudar a convencer a seus pais.
Vão me ajudar? (TODOS) Sim, sim!
(AT) Sim? (TODOS) Sim!
(AT) Então, vamos, ponhamo-nos a trabalhar,
que vamos precisar de muitos cadernos.
"Até logo, querido filho, receba um abraço forte,
do seu pai, que não te esquece nunca.
Bernardo".
Carlos, veja.
Eu sei que você não quer, está bem?
mas se me deixar te ensinar, poderá ler
e responder às cartas de seu pai.
Porque estar encarcerado, sem ver ninguém,
sem ver você,
deve ser muito difícil... mas se você lhe explicar
o que faz,
e lhe contar que está bem,
tenho certeza de que ele vai se animar muito.
- Mas é que é muito difícil.
(AT) Sim. É muito difícil.
Mas você tem na sua frente
um dos melhores professores do mundo
que quer muito te ensinar.
O que me diz?
(Música de valsa)
(AT) Isso que está tocando é uma valsa. E se dança assim.
Um, dois, três. Um, dois, três.
Um, dois, três. Um, dois, três. E se dança em casais.
Assim, formem um par cada um!
E vamos dançar!
Um, dois, três. Contem. Um, dois, três.
Um, dois, três. Um, dois, três.
Um, dois, três. Um, dois, três. (RISOS)
(AT) "Que arrepio que causam milhares de seres humanos
sem o elementar para viver,
isso acontece porque os que nada produzem e disfrutam de tudo
acumulam tanto riqueza como inferioridade moral.
Humanamente é incompreensível,
socialmente intolerável.
Economicamente suicida e estúpido.
Tanto conhecem os números e não puderam vislumbrar
o desequilíbrio econômico de seu sistema capitalista.
Viver deveria ser uma harmonia superior, estar em todo momento
em acordo conosco mesmos, e aspirar sermos melhores.
Abrir os olhos não é nada fácil nem nada cômodo.
Supõe um esforço e, às vezes, uma dor.
São poucos os que empreendem essa viagem.
Até dizermos uma palavra:
Luz".
- São muito pequenas essas crianças...
se quiserem ver o mar, podemos levá-los
a Santander qualquer día. (AT) Claro,
Josefina pode ir a Santander... E Emilio?
E os demais? Podem ir a Santander ver o mar?
Compreendo sua preocupação, está bem?
E também compreendo, e é verdade, que as crianças nunca viajaram,
mas lhes garanto que será uma viagem segura.
E o único gasto consiste num bilhete de trem,
porque vou me incumbir de todo o resto.
- Deixe-me ver se entendi... o senhor crê
que alguém deixaria seus filhos em suas mãos?
(AT) Deveriam ser os pais que exponham
as suas preocupações, e não o senhor.
- Antonio, nesses meses aconteceram muitas coisas:
a falta de respeito a nossa religião,
essa forma tão esquisita de ensinar aos alunos,
seus artigos esquerdistas que comprometem a todos daqui
e, agora, essa ocorrência de levá-los ao mar.
(AT) Jaime, as crianças estão entusiasmadas, de verdade!
- Josefina não fará essa viagem. Nunca dormiu fora de casa.
- Então, assunto encerrado.
Don Antonio, te recomendo que foque no temário pedagógico.
Boa tarde.
(AT) Oi, Charo.
(C) Antonio, o que foi?
(AT) É que não entendo as pessoas deste vilarejo, Charo,
é isso.
De verdade, não entendo tanto medo.
Na realidade, EU tenho um problema: prometi uma coisa
a essas crianças sem saber se poderia cumprir.
E agora vou decepcionar a todos.
Não voltarão a confiar em mim, Charo.
(C) Não diga bobabens... Como não vão confiar em você?
(AT) Não deveria dar às crianças
essas ideias absurdas.
(C) Mas não está dando ideias absurdas,
está abrindo a mente deles, dando-lhes sonhos.
(AT) Esse é o problema, justamente esse é o problema.
(C) Antonio.
Você quer levar essas crianças ao mar?
(AT) Sim, claro que quero.
(C) Então só tem que convencer uma só pessoa.
(Música folclórica)
(Risos)
(AT) Que divertido!
- Ei, Antonio, para um catalão, você não é ruim nisso.
- É que ele teve uma boa professora. - E com um bom vinho se dança melhor.
(RISOS) - Sempre.
(Música de fundo)
(Conversas ao fundo)
(AT) Agora retorno.
- Querem? -Não, obrigada.
(AT) Olá, Jaime. - Rapaz, Antonio, boa tarde!
(AT) Me vê umas amêndoas confeitadas, por favor?
- Sim. (AT) Sim?
Vi você dançando. (AT) Sim, e o que achou?
Danço bem? - Melhor do que escreve.
(AT) Ah! - Aqui está.
(AT) Obrigado. Quanto é? - Dois reais.
(AT) Que deliciosas!
- Justamente hoje li uma notícia muito interessante,
segundo a qual os professores que quiserem, podem solicitar
a transferência para outra escola.
Não quer trabalhar mais perto da sua casa?
(AT) Como você imagina a Josefina dentro de, sei lá,
de 20 ou 30 anos? - Não sei.
(AT) Veja, quando eu estou na escola,
e vejo todos os meus alunos,
Não posso evitar de imaginar o que serão quando adultos.
Por exemplo, Emilio, o filho de Camilo,
é um menino que ama ler.
Sempre penso que vai acabar se dedicando
a algo relacionado como a literatura ou afim.
De outra parte, com Carlos, com Carlos não é tão claro...
Diria que algo mais manual, mais físico, um oficio.
E Josefina, o que acha que vai fazer?
- Diga-me você.
(AT) O que ela mais gosta de fazer é desenhar.
Mas sua filha tem uma personalidade tão forte
que poderá conseguir qualquer coisa que se proponha na vida.
É uma menina fantástica.
O que me preocupa, Jaime, é que esses pequenos
não possam imaginar uma vida fora daqui,
se quiserem.
É sério que não quer que saiam deste povoado
e vejam quão grande o mundo é?
- Antonio, tenho que ir.
E quanto a seus artigos,
você não é nem um pouco bobo Antonio.
E não é um bom momento para sê-lo.
(AT) A proporão áurea não se encontra apenas
nas figuras geométricas, mas também se encontra
na natureza, como nas flores.
(Porta)
(AT) Entre.
- Don Antonio Benaiges? (AT) Sim?
- Meu nome é Juan Llarena e sou inspetor chefe de educação.
(AT) Prazer. - Vim com atenção
porque parece que seu trabalho aqui não está sendo satisfactorio.
(AT) Sinto ouvir isso, senhor inspetor.
Tenho certeza de que nesta escola as crianças aprendem
e gostam muito disso.
- É o que quero comprovar.
Você, leia isto aqui.
(E) "Conheça sua misericórdia diante de todas as coisas
que me chamam de Lázaro de Tormes, filho de Tomé González
e de Antonia Pérez, naturais de Tejares, aldeia de Salamanca".
- É suficiente, suficiente.
Você, vá até o quadro.
Divida 48 por 4.
Muito bem, obrigado.
Vejamos...
Você, vá ao quadro para escrever...
Escreva: "O cavalo é selvagem".
Muito bem.
O que é isto? (AT) É uma prensa,
é com ela que fazemos nossos cadernos.
Permita-me que lhe mostre? - Sim, claro, sim.
(AT) Veja, os alunos escolhem os temas
e compõem as redações e ao final eu só lhes ajudo
a corrigi-las e, depois, colocamo-nas em votação.
E entre todos nós, escolhemos as redações que
acabarão formando o caderno definitivo.
-E isso são as crianças que fazem? (AT) Sim, sim, claro, tudo,
inclusive se organizam para realizar as impressões.
Vê? Estes desenhos eles fazem com os formões,
diagramam as páginas, e aí ficam muito boas, veja.
Estes são os cadernos que compartilhamos
com outras escolas Freinetistas. - Como?
- Outras escolas que compartilham a mesma metodología que nós,
por exemplo, esta é de Huesca... - Sim.
- ...Vilafranca del Panadés.
Este é do México. - México?
(AT) Sim, do México. E este é da França.
Também temos Escócia, Argentina, há muitas...
Assim os alunos aprendem culturas de outros países, de outras pessoas,
de outras maneiras de fazer, enfim.
Fique com aqueles que quiser, de verdade.
Para nós será uma honra.
(E) São os cadernos que fazíamos na sala, com o professor.
Pensava que nunca mais voltaría a vê-los.
(AR) Como os encontrou? (E) Me pus em contato
com a família de Antonio. O professor lhes enviou
alguns exemplares e por isso se salvaram.
(AR) Há mais alunos de Antonio com que eu possa falar?
- Mamãe?
Uma moça veio te ver.
Disse que é a neta de um amigo seu.
(AR) Olá, Josefina, sou a neta de Carlos Ramírez.
Veja.
Veja, vê? Este é meu avô, Carlos,
em Bañuelos de Bureba e esta é a senhora, certo?
- Pra quê vem com isso? O que quer?
(AR) Estou pesquisando sobre meu bisavô, Bernardo Ramírez.
O seu pai era prefeito, então pensei que pudesse me ajudar.
- Quero que se vá. (AR) Meu avô está muito doente,
só quero encontrar o pai dele antes que seja tarde. Só isso.
- Saia.
(AR) Apenas quero falar um pouco.
(AR) Um momento, apenas. - Seria melhor que você saísse.
- Está bem, mamãe? - Sim, sim, estou bem.
(Música de suspense)
(AT) Olá. - Boa tarde.
- Boa tarde, isso é para o senhor
(AT) O que é? - Uma surpresa.
(AT) Uma surpresa!
Muito obrigado. - De nada.
(C) E essa cara?
(Lê para si)
Bem, agora, com a permissão do pai de Josefina,
em alguns dias terá a autorização de todas as crianças.
(AT) E você? Vai me acompanhar?
Ah, Charo, seria muito bom ter outro adulto
para controlar as crianças. (C) Anda, dá licença,
que tenho muitas coisas pra fazer.
(AT) Se não vir o mar, não sabe o que está perdendo, Charo.
O que foi?
(C) Antonio.
Acho que deveria deixar a cidade.
(AT) O que é isso. agora?
(C) Isso é o que é: uma guerra
Você pode ter problemas.
(AT) Mas que guerra, que guerra, Charo?
Eu estou te falando do mar.
(C) Você não está sabendo dos rumores que correm por Briviesca?
Você é uma pessoa que todos conhecem.
Você está marcado, todo o mundo sabe o que pensa,
o que escreve.
(AT) Ninguém sabe o que vai acontecer. Está bem?
E agora, mais do que nunca, é um momento de viver o presente.
(Música triste)
(AT) "O professor tem um gramofone.
O professor quer nos levar para ver o mar,
que nenhuma criança havia visto antes.
Estou bem, pai.
Mas tenho muita vontade de te ver.
Seu filho, Carlos".
É uma carta preciosa, Carlos, de verdade.
O seu pai vai se encantar!
Quanto demora pra chegar? (AT) Não muito, alguns días,
eu me encarrego de tudo, combinado?
E agora, vá dormir, venha.
(Música emotiva)
- Boa noite, Antonio.
(AT) Boa noite, Carlos.
- Camilo.
(AT) Bom dia, Camilo. - Bom dia.
- Sente-se.
- Um vinho? (AT) Sim, por favor.
- Bem, diga lá.
(AT) Tenho as autorizações de todos os alunos,
exceto a de Emilio.
- Já lhe disse tudo o que tinha pra dizer.
(AT) Sim, vejam, eu vim aqui para trazer-lhes esta redação
que o Emilio fez na escola. E estou certo de
que vocês vão gostar.
- Eu não sei ler.
(AT) Neste caso, se me permitirem que eu leia...
"Meu pai se chama Camilo, e é muito forte.
Trabalha duro.
Sempre diz que os homens têm que trabalhar duro
e ser fortes.
Às vezes ficam muito bravos comigo. Algumas vezes, eu mereço,
outras não.
Mas sei que faz isso porque quer que eu seja como ele.
Quando eu crescer, gostaria de ser como meu pai.
Gostaria de ser forte.
E trabalhador".
(AT) Sim, Lalia? - Doce se escreve com "C".
(AT) Doce vai con "C", muito bem visto.
Alguém mais? Dionisia. "Há" com "H".
"Ha" con "H".
Casimiro, diga-me.
O "i" de "podía", leva acento. (AT) O "i" de "podía", leva acento.
Muito bem.
Isso é o que imagino que seja?
Crianças, finalmente conseguimos a autorização do Emilio!
E isso significa que em breve nós vamos, todos juntos,
ver o mar. (TODOS) Eba!!!
- Bom dia. (AT) Bom dia.
Sou de Briviesca, vim ver se gostaria de tirar uma fotografia
das crianças da escola. (AT) Sim,
já faz muito tempo que quero muito uma
fotografía com meus alunos. - Perfeito.
(AT) Muito bem.
- Crianças, vão pra casa, se arrumem,
e voltem aqui, que este senhor nos fará uma fotografia.
- Venha.
(AT) Carlos, vem, vaidoso, desça!
Muito bem, vamos, posicionem-se como nos disse o fotógrafo.
- Vamos lá, crianças, olhem aqui.
(AT) Olhar aí, na câmera, né? - Prontos?
Já!
Feito.
- Pronto? (AT) Pronto.
- O onde está a fotografía? (AT) Logo ele nos mostrará.
- Antonio. (AT) Sim?
- O que é uma fotografia?
(AT) Uma fotografía é a captura de um instante...
agora você vai entender.
- Posso jogar? -Sim, claro.
- Antonio. Sabe de uma coisa? (AT) O quê?
- Meus pais vão me levar a Burgos, de férias, neste verão.
(AT) Ah, sim? Que sorte! E vai sentir falta da gente?
- Não.
(AT) Não? - Nada de nada.
(AT) E vai me fazer um desenho da catedral?
- Quem sabe?
- Aqui está. (AT) Aqui está, vejam.
Vejam.
- Ha-la! - Que bonito!
- Eu sou esse. -E eu aqui.
- Que bonita!
(AT) Vejam que bonita e veja, só tem um que saiu
com cara de bobo.
- Desculpe, quanto de devo? - Uma peseta.
(AT) Uma peseta, aqui.
- Perfeito, obrigado. (AT) Obrigado ao senhor.
- Prazer.
(AT) Crianças?
Falta pouco para a nossa excursão,
mas antes queria dizer-lhes que tem sido um verdadeiro prazer
compartilhar este curso com todos vocês
e gostaria de agradecê-los porque realmente
eu tenho estado longe da minha casa, e tenho passado por momentos
em que me senti só...
e vocês me acolheram tão bem.
E nada, que...
... e vou sentir muita falta das nossas aulas.
- Ei, que bom, que bom!
(AR) Laura? Já vão? - Acabamos.
(AR) Não me avisou. - Eu te liguei,
mas não me atendeu.
Agora tem que esperar uns meses
até que analisemos o DNA de todos os ossos
e que os confrontemos com as amostras.
Ariadna, está bem?
Quer tomar algo e papear um pouco?
(AR) Não.
- Sei que é fácil dizer
mas não perca a esperança.
(R) Esperança tenho, o que não tenho é tempo.
- Estaremos em contato, Ariadna.
- Ariadna?
minha mãe me pediu que te entregasse estes papeis.
São documentos do pai dela, o prefeito de Bañuelos.
Ela estava com medo de trair sua memória, mas depois me pediu
que os entregasse a você.
Espero que te ajudem a encontrar o seu bisavô.
(AR) Encarna,
agradeça à Josefina, por favor.
- Há anotações de sua colaboração com os militares.
(E) Jaime era o prefeito.
Virou a casaca, certo de que não lhe restava
opção senão colaborar.
Que estranho, nenhuma palavra sobre Antonio.
Veja isso.
(AR) Aqui está meu bisavô.
Levaram-no pra Burgos.
(E) Claro, por isso você não o encontrava.
O que foi?
São boas notícias. Temos uma pista nova.
(AR) Estou perdendo tempo.
(E) Ajudar o seu avô não é perder tempo.
(AR) Não estou ajudando.
Não vou encontrá-lo.
(E) Ariadna.
Esses anos foram terríveis.
Morreu muita gente.
E aos vivos,
nos impuseram o silêncio.
Não deixe de buscar.
(C) Carlos, Carlos.
Onde está Antonio? - Não sei.
(C) Ele não passou a noite aqui?
- O que está acontecendo?
(C) Anda, vem comigo, filho.
- Será que o Antonio está bem? (C) Espero que sim.
- A partir deste momento,
o exército toma o controle deste povoado
e de toda a província!
Colaborem e não terão problemas.
Porque isso é o que acontece com os traidores da pátria.
(ANTONIO TOSSE)
Este homem é um vermelho, um ateu e um inimigo da Espanha.
Vejam-no.
Vejam bem.
Que lhes sirva de exemplo!
Prefeito, o senhor conhece esse catalão,
Antonio Não-Sei-Que-Diabos?
- É o professor da escola. - E o senhor pode confirmar
que é um vermelho e um inimigo da pátria?
- É sim.
- Esse aí é seu professor?
- Sim.
- E o que ele ensinava na escola?
Me falaram que faziam uns cadernos.
Quero que todos vão pra suas casas
e tragam qualquer livro ou caderno de merda
que tenha a ver com esse professor comunista. Andando!
- A caixa.
Vamos.
- Venha, que não temos o dia todo.
(Música triste)
- Veja a merda da sua prensa.
Este é o preço que pagam aqueles que querem perverter a Espanha.
Estamos?
Avante, España. - Avante!
Pare, pare aí.
Antonio.
Antonio, sou o Rodríguez. (TOSSE)
Pronto, calma.
Veja, um pouco de água, tá bem? - Devagar, devagar.
- Devagar.
Antonio, veja.
Ele é Bernardo, o pai de Carlos.
Obrigado por cuidar do meu filho.
(RSEPIRA COM DIFICULDADE)
(Abertura de porta)
Não, não, por favor. Não, não não!
Ele não tem força! Não pode se mover!
Por favor.
(Celular)
- Agora, o que está acontecendo?
- Ari...
O vovô teve outro derrame.
- Está bem?
- Agora, um pouco melhor.
Mas já não reage a quase nada.
- Ari, por que não deixa tudo e não volta pra casa?
Precisamos de você aqui, conos...
(Som de fim de chamada)
(CHORA)
(DISPARA)
- Mamãe.
- Estava com saudade!
- Eu também, muita.
- E do que está brincando?
- De amarelinha.
- Então venha.
(AR) Vovô?
- Papai.
Papai, a Ari voltou.
(AR) Veja, vovô.
Este é você.
Vovô, vou ler pra você uma coisa.
"O mar.
Visão de crianças que não o viram nunca.
O mar é muito largo e muito grande,
mas, sobretudo, fundo.
(VOZ DE JOSEFINA) Por ele passam os barcos,
na orla deve haver areia,
e pessoas que se põem a nadar.
Ao lado haverá uma casinha para se secarem
quando saem da água.
(AR) Josefina Zamero".
"O mar é muito grande.
(VOZ DE EMILIO) E para ir a outro povoado
tem que passar de barco
e imagino que às vezes deve levar mais de uma hora.
O mar deve ser muito claro, porque se não,
seria bobagem querer se banhar nele.
(AR) Emilio Martínez".
"No mar deve haver mais água que toda a terra que
eu já vi.
(VOZ DE CARLOS) A água deve ser mais quente que a dos rios,
e deve ser muito salgada.
No mar pescam a merluza,
o bacalhau, e todo tipo de pescados.
Eu nunca vi o mar.
(AR) O professor disse
que nos levará para vê-lo".
(Música emotiva)
- Nas valas comuns de La Pedraja se encontraram os restos de 135 corpos.
Nenhum deles correspondia ao de Antoni Benaiges, que segue desaparecido.
Em 2015 o povo de Bañuelos de Bureba fundou a associação "Escola Benaiges"
para difundir sua memória e seu legado.
Até hoje, exumaram-se na Espanha os restos de 12 mil pessoas.
Estima-se que ainda faltam milhares a serem encontrados.
Seus familiares continuam procurando.
(Música de créditos)
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