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Abram!
Abram a porta!
Estamos � procura de uma pessoa.
H� coisas de que n�o conseguimos falar.
Coisas que aconteceram no passado. H� muito tempo.
Mas n�o conseguirmos falar delas,
n�o significa que as consigamos esquecer.
Na realidade, h� coisas...
... que nunca ser�o esquecidas.
O VALE ESCURO
Como aquele forasteiro encontrou o seu caminho at� n�s, ningu�m sabe.
Porque aqui viv�amos... t�o perto do c�u,
l� em baixo, �ramos considerados uma lenda meio esquecida.
Mas para as pessoas daqui, o que estava acima tamb�m o era.
Quem �s?
Greider.
O que procuras na nossa aldeia?
Abrigo.
� melhor voltares para donde vieste.
N�o ouviste?
Quanto tempo pretendes ficar?
Durante o Inverno.
Um saco n�o ser� suficiente.
O que vens fazer aqui?
O forasteiro disse que queria ficar na nossa aldeia,
e nenhum dos filhos de Brenner se op�s.
E disso ningu�m estava � espera.
Nem sequer o Sr. Brenner, de in�cio, objectou.
Porque o forasteiro trazia com ele um espelho...
"Um espelho dotado de mem�ria".
Era assim que o Sr. Brenner lhe chamava.
E ent�o eles levaram o forasteiro a nossa casa.
Durante o Inverno?
Vamos ver.
Onde est� a tua filha?
L� dentro.
Chama-a!
Deixa-a vir conhec�-lo.
Luzi!
- O que foi? - Vem conhecer o vosso h�spede.
Esta � a Luzi.
E este � o teu novo inquilino. O seu nome � Greider.
Quero que cuides dele.
Mas n�o demasiado.
At� logo.
- Pode faz�-lo sozinho. - Luzi!
N�o, assim est� bem.
- N�o, eu fa�o isso. - Por favor.
Se quiser comer alguma coisa, venha agora.
Voc� tira fotografias?
Com essa caixa?
E o que quer fotografar?
O nosso vale?
E veio mesmo da Am�rica?
Sim.
� verdade que existem �ndios?
Sim.
J� viu algum?
A s�rio?
Sim.
E como sabe falar alem�o?
- A minha m�e ensinou-me. - E onde � que ela aprendeu?
Luzi, j� chega. P�ra de fazer perguntas.
Aqueles homens...
Quem s�o eles?
Os filhos...
... do Sr. Brenner.
Os seis?
O Sr. Brenner controla toda a aldeia.
Mas tamb�m toma conta de n�s.
Lukas, seu parvo! Por que me assustaste?
Lukas... N�o podemos faz�-lo...
Por favor, Luzi...
S� depois de nos casarmos.
Lukas...
Nem quero pensar nisso.
Mas devo...
Sempre.
Gostava de fazer algo...
Para ajudar.
N�o, n�o � necess�rio.
- Voc� � nosso h�spede. - Ele pode cortar a lenha.
Sempre... Se o souber fazer.
Nem toda a gente sabe.
As fotografias que tira... Como s�o elas?
Posso v�-las?
Sim, claro.
- O que � isto? - O Texas.
� voc�?
E a sua m�e?
E o seu pai?
Tem uma fotografia do seu pai?
N�o. Ele morreu h� muito tempo.
O meu pai tamb�m morreu.
Faleceu na montanha. Com o meu irm�o.
Por causa de uma tempestade...
N�o o faz muito mal.
Pode empilh�-la aqui deste lado.
Mais logo vou � aldeia. Se quiser, voc� pode vir comigo.
- Ol�. - Ol�.
Do que precisas?
Um saco de farinha, um de aveia,
toucinho fumado e fio branco.
- Ol�. - Ol�.
E tamb�m quero a��car.
- Quanto? - Dois quilos.
E voc�? O que quer?
Caf�.
Vai demorar um pouco.
E pregos.
Temos um ferreiro.
Se precisar de colocar uma ferradura num cavalo...
As mulheres n�o te est�o a tratar bem?
O Hans disse...
... que irias cuidar do h�spede.
E o que o Hans diz...
... � para ser feito.
Entendeste?
Est� tudo bem.
Algu�m te perguntou alguma coisa?
Traz-me um copo.
Enche um para ele tamb�m.
Eu n�o bebo.
Ele s� sabe olhar.
Se eu te convido para beber, tu bebes!
Sim...
J� chega!
Deixa-o!
Vejam s�.
Agora j� est�s preocupada com o teu h�spede.
Mete na minha conta.
� muito longo aqui, o Inverno.
Este lugar n�o � para si.
Quando a neve chegar, ser� tarde demais.
Ainda pode ir-se embora.
Nos dias seguintes, ele percorreu todo o vale...
O Sr. Greider,
com o seu aparelho.
Mas do que aconteceu na estalagem, ele n�o voltou a falar.
Quando quiser comer alguma coisa, s� tem de me dizer.
Obrigado.
Quando � o casamento?
Em breve.
Antes da Imaculada Concei��o.
Quero perguntar-lhe uma coisa.
Poderia tirar-me uma foto? A mim e ao Lukas?
Sim.
Mas ter� de ser antes do casamento.
Greider manteve a sua promessa.
Foi quando a primeira neve caiu.
Antes da escurid�o chegar...
... ao nosso vale.
Ainda vai cair mais neve.
L� vai �rvore!
Com o primeiro nev�o, eles come�aram a extrair madeira da floresta.
Era mais f�cil.
Mas � um trabalho perigoso,
no qual todos os homens da aldeia participam.
Tronco parado!
Incluindo os filhos do Sr. Brenner.
A� vai tronco!
Tronco parado!
A� vai tronco!
Tronco parado!
A� vai tronco!
Eu vou l�.
Tronco parado!
Tronco parado!
O sino funer�rio...
Levem-no para casa.
Tir�mos uma fotografia. A Luzi foi busc�-la.
Fui falar com o p�roco
acerca das prepara��es.
Disse-me que o casamento se far� na mesma.
Ele j� falou com o Sr. Brenner.
E se nos f�ssemos embora?
Para sempre.
E as nossas fam�lias?
Eu s� preciso de ti...
Achas que eu n�o quero?
Eu amo-te.
Ent�o faz alguma coisa.
No dia seguinte, o Rudolf Brenner foi ca�ar,
como todos os anos, depois do primeiro nev�o.
Era quando as presas esfomeadas desciam ao vale.
Aparece!
Na aldeia dizia-se que o Sr. Brenner estava preocupado.
Porque... o Rudolf nunca tinha estado tanto tempo fora.
Ao terceiro dia,
os filhos do Sr. Brenner foram � procura do seu irm�o.
Prepare-me comida para levar.
No vale apenas os Brenner podem usar armas.
N�o sabe disso?
Trouxe-a da Am�rica?
Por que precisa dela?
Eles vir�o � minha procura.
Onde est� ele?
N�o sei.
Nevou.
Durante toda a noite.
E a neve cobriu quaisquer rastos.
Todos sabiam que ele nunca conseguiria sair do vale.
E, apesar disso, o Sr. Brenner insistiu em realizar o casamento.
O nosso Santo Pai...
... n�o deve ser esquecido, nem por um dia ou sequer uma hora.
Voc�s sabem-no.
Mas hoje vamos recordar-nos de um pai
que n�o era t�o poderoso.
Vamos recordar-nos...
... do bom Jos�.
O que acham que ele pensou...
... quando a sua Maria ficou gr�vida
e ele nunca tinha dormido com ela?
Deve ter ficado furioso!
E com um sentimento de impot�ncia.
Se tivesse abandonado a Maria, teria sido compreens�vel.
Mas ele era um homem devoto...
E n�o queria ser alvo da vergonha.
Por causa disso, ele aceitou.
Porque sabia que o seu filho viria de algu�m melhor do que ele.
Foi ent�o que Jos� compreendeu
que aquilo que o Senhor lhe deu n�o era um sacrif�cio,
mas sim uma d�diva do C�u.
E o que disse a Virgem Maria?
"Porque Ele precisa de mim...
"... e do meu ventre,
"eu n�o irei rebelar-me.
"Porque existe algu�m
"que sabe melhor do que eu...
"o que � bom...
... e o que � justo."
- Am�m! - Am�m!
Quero confessar-me.
Confessar?
Agora?
Em nome do Pai, do Filho
e do Esp�rito Santo.
Am�m.
"Que Deus, que ilumina os nossos cora��es,
te d� o verdadeiro conhecimento dos teus pecados e Sua miseric�rdia."
Am�m.
N�o cumpri o quinto mandamento.
Eu matei.
Um, na floresta...
... o outro, enquanto ca�ava.
Quem �s tu?
Voc� conhecia a minha m�e.
O que tinha acontecido antes, h� mais de 20 anos,
as pessoas ainda hoje se lembram.
Como ele lutou at� ao �ltimo momento,
e n�o abdicou da sua esposa.
Como tentou impedir que o Sr. Brenner se deitasse com ela.
N�o apenas na noite de n�pcias,
mas tamb�m quando ela engravidou.
O mesmo fazia aos outros.
Os seus pais passavam fome quando chegaram ao vale.
Tal como todos os que aqui vinham.
Teriam sido imediatamente expulsos da aldeia,
mas para isso, antes precisavam da permiss�o do Sr. Brenner.
O Sr. Brenner queria sangue fresco
e ele gostou do que viu.
No dia em que o Brenner disse aos pais o que se fazia no vale...
... com as raparigas...
e que era ele a decidir quem ficava e quem se ia embora,
eles conversaram e pensaram,
mas a fome prevaleceu.
Eles deram a sua palavra ao Sr. Brenner.
E ficaram.
Ent�o chegou o dia
em que o Brenner quis reclamar aquela promessa.
Ela n�o acreditava
quando ouviu chamar pela janela.
Era o seu amado, que tinha vindo para a levar.
Acreditaram que, ao pagar-lhes, os estalajadeiros os esconderiam,
mas o Sr. Brenner pagou mais.
A estalajadeira era gananciosa.
E desprez�vel.
Ent�o foram ambos castigados.
De tal forma que todos ficariam a saber o que acontecia
a quem n�o cumpria o seu dever.
Mas ent�o, nosso Senhor teve piedade...
outros dizem que, s� por um momento, o diabo fechou os olhos.
Ningu�m voltou a ver aquela mulher.
Ela deixou o vale
para sempre.
O castigo do Brenner dirigiu-se para outros.
Os pais da esposa.
N�o se adaptaram.
Quanto ao noivo, penduraram-no,
at� nada restar dele.
Ela...
Ent�o? N�o se toca nada?
Vamos l�!
Dancem!
Dancem!
Se n�o, dan�o eu com ela.
� a minha vez!
- � a minha vez! - N�o, eu ainda n�o terminei!
Ainda n�o terminei!
Larguem-na!
N�o! Por favor!
N�o! Por favor! P�ra!
Por favor! P�ra! Deixa-o!
O que foi? O que queres?!
Vamos. Ainda temos tempo.
Lukas, n�o.
N�o vale a pena...
Vamos!
A mulher!
Luzi, pega na espingarda.
E voc�s, atirem-nas para o ch�o.
Des�am dos cavalos! Todos! Tu tamb�m!
Afastem-se dos cavalos!
Luzi, monta!
Soltem os cavalos!
Vai-te embora, Luzi...
Vai! Vai-te embora.
Vai!
Tu...
Vou matar-te.
Juro.
Na vossa fazenda.
Amanh� de manh�.
Ao nascer do sol.
D�-me a arma.
A espingarda!
Por que o est�s a fazer?
Porqu�?
Vamos.
Este � o primeiro s�tio onde eles ir�o procurar.
Quero-o vivo.
Por que n�o deixaste a Luzi ir com eles?
M�e!
Meu Deus!
Eles vir�o aqui.
N�o.
Eu vou ter com eles.
Obrigada.
Mulher! Vem c� abaixo imediatamente!
Vem c� abaixo!
O que quer de n�s?
Quer dinheiro?
Eu n�o quero o vosso dinheiro.
Tenho uma coisa para ti.
Gostas muito de falar disso.
De dinheiro.
Apanha-o.
Apanha-o!
Come-o.
Eu disse-te para o comeres!
Vamos!
Vamos!
N�o! Por favor! J� chega!
Que Deus nos acuda...
Come!
- Por favor! N�o! - Come!
Come!
Engole!
Fujam!
Ajudem-me!
Ajudem-me, por favor!
Ajudem-me!
Ajudem-me, seus cobardes!
J� chega!
Seu cabr�o!
Filho da m�e!
Vamos!
J� chega! Levanta-te!
Temos para dois.
Duas vezes seguidas. S�o quatro vezes.
Fica aqui.
Ela era...
... uma bela mulher.
A tua m�e.
Vem c�.
Ent�o... tu �s...
... o filho dela.
E...
... os meus filhos?
Mortos.
Todos eles.
Os teus...
... meios-irm�os.
Por favor...
Que seja r�pido.
Ele esteve � beira da morte...
... por causa da febre.
Esteve de cama tr�s semanas.
Ningu�m disse nada.
Mas todos sabiam que muita gente queria expuls�-lo...
... ou fazer alguma coisa pior.
O Sr. Brenner tinha deixado a sua semente em todas as fam�lias.
E a liberdade... � uma d�diva...
... que nem todos tinham.
A Primavera chegou mais cedo do que esperado.
Em Mar�o.
Por volta do meio-dia, o Greider foi-se embora.
Olhou uma �ltima vez...
Nunca mais o voltei a ver.
Naquele dia disse ao Lukas que estava gr�vida.
Ele sentiu-se feliz. E orgulhoso.
Porque era assim que devia ser.
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