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KAFKA
Lembra-se h� muitos anos atr�s,
o pai me chamou � parte e disse-me que eu me preocupava
com o insignificante.
Preocupava-me morbidamente, na sua opini�o.
H� alguns anos que tenho uma vida que at� ele acharia normal.
Exceto pelo fato de que nos meus momentos livres...
... escrevo.
Pode ser uma desilus�o para ele, mas ser� um crime?
Kafka?
O Chefe do Arquivo precisa do teu relat�rio
- sobre a queixa do Erlanger. - Entreguei a ele ontem.
- N�o entregou a mim. - Entreguei a ele.
Numa empresa, t�o eficiente como a nossa,
quando um documento, de vez em quando, se perde
pode nunca mais ser encontrado.
Pareceu-me mais f�cil, j� que ele passava por aqui.
Sim, mas eu sou o mensageiro.
Um erro como este arru�na a minha credibilidade.
Burgel, a sua credibilidade � inquestion�vel.
Quando eu entrego uma mensagem, o ato da entrega pode dizer-se
que � a aprova��o oficial.
Vou anotar isso.
Kafka, a sua posi��o na empresa n�o � inatac�vel.
Bom-dia, srta. Rossman. Ou ser� que devo dizer boa tarde?
- Diga o que quiser, ningu�m ouve. - S�rio?
Subestima a minha posi��o neste escrit�rio e valoriza demais a sua.
Burgel, agora n�o.
Aqui sou eu que aconselha e n�o voc�.
Ao dizer ao chefe que n�o � pontual,
n�o � a minha posi��o que est� comprometida,
se � isso que quer dizer.
S� est� fazendo o seu trabalho.
� para isso que me pagam.
Quer?
� pat�tico.
E voc� est� atrasada.
Escreva isso no seu bloco de notas.
Eu sei.
Sei que � amiga de Edward Raban.
Sou?
Ele disse que a conhecia e...
Um de voc�s deve estar enganado.
Desculpe, mas acho que j� os vi juntos.
Pessoas est�o vendo.
N�o me obrigue a envergonh�-lo.
Tem tinta no nariz.
Fico aguardando sua carta de demiss�o...
...de imediato.
Longe da sua se��o sem motivo.
Sabia que algum dia ia acontecer.
- Kafka? - Sim, senhor.
Ent�o � o Kafka...
Estou procurando o sr. Raban.
O sr. Raban, sabe onde ele est�?
N�o era preciso levantar-se da cama.
- Eu podia ter tirado a chave. - Aposto que sim.
Acha que deve ver isso?
� a minha casa, n�o �?
- Sim, mas... - Saia.
Ele n�o est� aqui, por isso, saia.
- Viu o Edward Raban? - N�o.
Algu�m viu o Edward?
Viu o Edward esta noite? Edward Raban?
A semana passada contou aquelas piadas que voc� adorou.
S�rio?
Ele n�o foi embora com aqueles atores?
- Voc� vem ao cabar�? - N�o, tenho de trabalhar.
Nunca dorme?
- Vai-se embora? - Procuro o Edward. Viu-o?
- Quem? - O Edward.
Espere aqui. Vamos s� buscar o Julius. Conhece a Anna, n�o �?
- H� quanto tempo est� aqui? - Acabei de chegar.
N�o. H� quanto tempo est� aqui?
H� uns dias. Fui � casa dos teus pais.
- Viu o meu pai? - N�o fui v�-lo.
Escrevi dizendo que eu tinha me mudado.
Escreveu dizendo que queria mudar. Vezes sem conta.
Moro na cidade por causa do meu trabalho. Pode poupar nos selos.
De qualquer forma, sabe onde me encontrar.
Ele vem a�.
Fui ao apartamento do Edward.
- Apartamento do Edward. - Ele n�o est�.
H� um dia ou dois que n�o � visto por l�.
Nem pela senhoria. Em qualquer circunst�ncia.
Obrigada.
Tento mais tarde.
- O que lhe contou? - Ele n�o sabe nada.
- O Edward diz que ele � escritor. - Isso pode ser �til.
Isso pode ser perigoso.
- Kafka! Vamos v�-lo no cabar�? - N�o v�o conseguir entrar.
Vou ter uma desculpa para ir para casa cedo.
Est� trabalhando em qu�?
Uma coisa sobre um homem que acorda
e se v� transformado num inseto gigante.
Como a maioria das coisas, o castelo pode ser majestoso,
mas apenas � dist�ncia.
- N�s nos conhecemos? - Bizzlebek.
O coveiro?
- Cortador de pedra, na verdade. - Desculpe.
Se tivesse liberdade na mat�ria seria escultor.
Mas s� deve ser artista aquele que � pago pela obra que cria
ou nem mesmo com essa condi��o.
O seu � um trabalho barulhento.
Bem, � um barulho externo.
J� o seu...
As repercuss�es s�o internas.
J� li as suas hist�rias. S�o fant�sticas.
- N�o sei o que voc� leu. - S� o que voc� publicou.
Ningu�m l� as revistas.
Deviam ser arquivadas no castelo com o resto do papel in�til.
De qualquer forma, alguns de n�s, interessam-se pelo seu trabalho.
Por exemplo, aquela hist�ria sobre a col�nia penal.
As agulhas a gravarem a senten�a na pele do condenado...
� novo.
Preciso de uma id�ia inteligente para fazer notar o meu trabalho.
Vou para o cabar�.
Depois de um dia no cemit�rio
tenho a necessidade de ver pessoas em movimento, antes de ir dormir.
Boa noite, Kafka.
Boa noite, sr. Bizzlebek.
A terr�vel confus�o da seguradora continua, como sempre.
Sou constantemente importunado por tiranos insignificantes
enquanto escrevo relat�rios sem import�ncia.
O meu amigo Edward desapareceu.
Nunca o conheceu porque nunca me atrevi a levar amigos para casa.
N�o com o pai a nos dominar a partir da sua poltrona.
J� sei que a Anna lhe fez uma visita.
S� espero que o pai n�o a assuste e a afaste ainda mais.
O seu filho... ...o seu filho querido...
O seu filho, ocasionalmente, querido...
O seu filho incapaz de amar...
O seu filho absolutamente entediado
com qualquer tipo de assunto familiar.
Conhece-o?
Sim.
Ele se chama Edward Raban?
Sim.
Inspetor Grubach.
Kafka.
Kafka.
Kafka � o seu nome verdadeiro?
Sim.
Por que, n�o devia ser?
Quando foi a �ltima vez que viu o sr. Raban?
Quarta-feira.
- No trabalho? - Sim.
Foram a algum lugar depois? Talvez, tomar uma bebida?
N�o.
Despedimo-nos � porta do escrit�rio e ele foi para casa.
- Trabalha numa... - Seguradora.
- Onde trabalha h� sete anos. - Oito.
E sete meses.
Voc� descreveria a sua rela��o como sendo pr�xima?
- N�o. - N�o?
Sim.
Sim, n�o, sim, n�o. Qual?
Trabalho no mesmo escrit�rio que ele h� tr�s anos.
Ele foi encontrado no rio. Ele sabia nadar?
Acha que?
Acha que se afogou sozinho?
Os homens adultos normalmente n�o caem ao rio, n�o �?
N�o.
Talvez tenha tomado umas bebidas, ao contr�rio do que voc� acha.
Posso saber como me encontrou?
Claro. A senhoria nos disse que voc� tinha ido l�...
e que demonstrou muito interesse pelas coisas dele.
Ele era um grande... N�o tinha mais am... N�o tinha fam�lia.
N�s sabemos.
S� isso?
N�o, Kafka. Tamb�m sabemos outras coisas.
Kafka?
N�o costumo envolver-me com pessoas dessa zona,
mas o rio faz parte da nossa jurisdi��o.
Gostaria que soubesse que, em mim n�o tem um amigo, claro,
porque somos estranhos, de classes sociais incompat�veis.
Mas de alguma forma,
uma interessada terceira parte.
Vou ter isso em mente.
Se se lembrar de alguma coisa que possa ser relevante...
Queria ver-me?
Kafka, sente-se.
Est� aqui h� quase nove anos.
Tem trabalhado bem.
N�o h� queixas a esse respeito.
Mas h� mais coisas que v�o al�m de trabalhar bem.
H� outras pessoas a ter em conta.
E Kafka, francamente, as suas atividades sociais,
deixam muito a desejar.
As minhas atividades sociais?
Voc� � um solit�rio. � muito reservado.
E isso me impressiona.
E se impressiona a mim, imagine a impress�o que causa
nos outros empregados.
Mas sobra-me pouco tempo depois de fazer o meu trabalho.
Voc� deve arranjar tempo.
Nunca pensou, porque outros empregados foram promovidos
e voc�, que j� est� aqui h� mais tempo, n�o foi?
N�o, senhor.
N�o interessa se voc� faz um bom trabalho.
V� o seu trabalho como uma coisa que deve fazer depressa
e n�o como algo em que pode interessar-se.
Sei que era amigo daquele pobrezinho... Como se chamava?
Edward Raban?
Sim, Raban.
Mas ele era como voc�.
Talvez at� mais que voc�.
De qualquer forma, n�o me pergunte
porque vai receber a promo��o que era para ele.
Vai ter dois assistentes
e um enorme aumento.
� s�.
Obrigado.
Kafka, ouvi dizer que se diverte escrevendo.
De certa forma.
Devia arranjar um passatempo mais atl�tico.
Dar uma cor �s suas bochechas.
Presumo que sejam os meus assistentes.
Sou o Kafka.
Ludwig.
Oscar.
S�o irm�os?
- Somos g�meos. - De fato.
- J� trabalha aqui h� muito tempo? - Por qu�?
- N�o. - Sim.
- De fato. - H� muito tempo.
Bem, vamos come�ar a mudar as coisas.
Est� livre para almo�ar?
Edward. �...
Um assunto muito dificil.
Ele n�o seria capaz de suicidar-se.
Estava obcecado com essa id�ia.
Fiquei surpreso com...
surpreso com a altura, mas n�o pela atitude.
Talvez tivesse duas caras. Uma para voc� e uma para mim.
- Ele n�o era assim. - Tem certeza?
Eu o conhecia bem.
Ent�o sabia que t�nhamos um caso?
Sim, claro.
O Edward e eu t�nhamos vidas diferentes fora do escrit�rio.
Sab�amos que podiam haver consequ�ncias.
Que tipo de consequ�ncias?
- Olha para o que aconteceu. - N�o sabemos o que aconteceu.
Sabemos que n�o foi assaltado. Ele foi identificado pela carteira.
E acredita no que te dizem?
N�o tenho raz�es para duvidar.
S�o autoridades. � raz�o suficiente.
Pode ter sido morto pela pol�cia.
Por que fariam isso?
Encontra-se comigo esta noite?
Esta noite?
Onde?
No Musil District.
Certo.
Isso quer dizer que vai?
Sim. Esta noite.
N�o esteve para casar recentemente?
Sim.
O ano passado estive noivo. Duas vezes... a mesma mulher.
N�o sou...
Eu terminei.
O Edward queria casar.
E voc�?
Suspeito dos homens que querem casar.
A que horas?
Onde no Musil District?
Vai para o Esplanade. Nove horas.
Depois te encontro.
Bom proveito.
� outra bomba!
Kafka, por favor, sente-se.
Duvido que o Edward tenha lhe falado nas nossas... atividades.
Por que envolver-me nisso?
Essa � a minha pergunta.
J� viu a nossa literatura?
N�o posso dizer que sim.
O nosso atual distribuidor n�o � eficaz.
Neste momento, o problema � a qualidade.
Pensamos que talvez pudesse ajudar-nos.
Eu escrevo sobre mim... ...e para mim.
Est�o vendo?
Este trabalho pode mudar as coisas.
N�o � trabalho que eu possa fazer,
mesmo que simpatizasse com a causa.
N�o � algo que se pague.
Podem come�ar a persegui-lo.
Que tipo de persegui��es?
Persegui��es em que a ivestiga��o � o julgamento.
Edward descobriu o que isso era.
No dia em que morreu, o Edward foi chamado ao castelo. Sabia disso?
O que � que tem?
Foi chamado para corrigir uma discrep�ncia
nos registros m�dicos.
E nunca mais foi visto com vida.
O que � que isso prova?
- Que foi assassinado? - Ele foi assassinado!
Uma olhada no castelo � algo que n�o pod�amos ignorar.
Ele saiu nessa noite, com uma maleta armada com uma bomba.
Com uma mensagem para o castelo.
A id�ia do Edward levar uma bomba, te surpreende?
Tem de aceitar que tudo � verdade.
Tem de aceitar como algo necess�rio.
A bomba n�o explodiu, por isso, deve ter sido apanhado e executado.
J� aconteceu antes.
"Deve ter sido..."? Algum de voc�s...
Os funcion�rios do castelo v�o negar tudo.
N�o h� d�vida que foi entregue � pol�cia discretamente.
Ainda n�o sofremos repercuss�es.
O Edward n�o deve ter falado. Voc� foi o �nico que eles contactaram.
Ent�o os inimigos... ...s�o a pol�cia
e os empregados do arquivo.
Diga-se antes, a lei e a ordem.
Acha que o que fazemos est� errado?
Ent�o o que sugere?
Algum de voc�s foi com o Edward ao castelo? Foi?
Voc�s sentam-se e manipulam os fatos de acordo com as suas...
...teorias doentias.
De acordo com a minha experi�ncia, a verdade n�o �...
...assim t�o conveniente.
V�em? S� pensa nele.
Foi por isso que veio aqui esta noite.
� verdade.
E tamb�m � por isso que vou embora.
Eu n�o sei nadar!
Bom dia.
Como passou a noite?
- �tima. - Terr�vel.
O que aconteceu?
- Sempre que vamos a um clube... - Eu quero ir a outro.
Sim, sim.
Est� com ar muito cansado.
- Srta. Rossman veio a sua procura. - Gabriela.
Conhece-a?
E voc�s?
Uma vez, a vimos nua.
S� pensa em mulheres!
Foi para o telhado tomar banhos de sol.
E a vimos mudar de roupa.
Trabalh�vamos no armaz�m, carreg�vamos caixas.
Caixas de medicamentos.
- Deixav�mos cair as caixas. - E a vimos mudar de roupa.
Mas n�o � mau trabalhar aqui.
Nunca sentiram que h� uma horr�vel vida dupla
onde provavelmente n�o h� maneira de fugir � insanidade?
- Sim. - N�o.
- N�o. - N�o.
Eu os invejo.
- Devia desprezar-nos. - Isso mesmo.
- Est� a procura da Gabriela Rossman? - Sim.
Isto j� foi aberto.
Quer que volte a fechar?
N�o vale a pena.
Recebi o teu bilhete. O Burgel me entregou.
N�o o deixei com o Burget.
O que est� fazendo?
Arrumando as coisas do Edward, para que mais ningu�m o fa�a.
Coisas de valor ou coisas que os relacionem?
Ambas.
Pensei que quisesse fazer o mesmo.
� teu?
N�o vale a pena guardar.
Algumas dessas cartas talvez sejam minhas.
Bolas!
Est� bem?
Por que foi despedida?
Eles j� n�o precisam de motivos para despedir-me, para matar o Edward...
"Eles"? Quem s�o "eles"?
Elas! As autoridades, a pol�cia!
O castelo, Burgel!
Burgel? N�o o vejo como "eles", Vejo-o mais como "aquilo".
� com os pequenos que temos de ter cuidado.
Homens pequenos com id�ias pequenas.
N�o abra isso.
Por que n�o?
- Por que n�o? - Abrir e fechar, ativa isso.
Disse que o Edward tinha morrido quando tinha uma bomba.
Se esta � a bomba...
quantas bombas h�?
� f�cil acreditar que foi suic�dio.
Menos problemas para a pol�cia. Menos confus�o para ti.
- S� preciso saber. - Ent�o abre.
N�o pense que n�o est�o vendo.
Para eles, estamos todos envolvidos. O grupo, Edward, eu, voc�...
Gabriela?
Se estivesse esperando que voc� percebesse, seria tarde demais.
Olhei para a rua. Ela n�o estava l�.
Desapareceu ao sair da sala e a caminho da rua.
- Foi at� a casa dela? - Fui o qu�?
Se foi at� a casa dela?
N�o, n�o fui.
Estou vendo.
Por que algu�m quereria raptar esta mulher?
O nome dela era... Roseman?
Rossman.
Rossman... Exato.
Por qu�?
Disse-me para contar-lhe tudo o que fosse relevante.
Srta. Rossman � relevante.
Quando falamos antes, n�o sabia que ela era amiga do sr. Raban.
Ela era amiga de muita gente.
Ela era sua amiga.
Isso foi constatado.
Mas onde nos leva?
A n�o ser...
...que haja mais alguma coisa.
Ela desapareceu!
- N�o � suficiente para voc�? - Sim, � suficiente.
Ela perdeu o emprego hoje.
Se eu tivesse sido despedido talvez fosse embebedar-me. Isto � seu?
Sim.
Talvez ela tivesse raz�o naquilo que disse.
O que � que ela disse?
Que talvez a pol�cia
tenha interesse em algo que n�o seja a verdade.
Ela nunca acreditou que a morte do Edward fosse suic�dio.
E para que conste, nem eu acredito.
Isto n�o rima.
N�o pode usar essa palavra assim.
Kafka, venha sentar-se conosco.
N�o, estou a procura de umas pessoas.
Pessoas em forma de inseto.
- Talvez tenha descoberto algo, Kafka. - O qu�?
Encontrar-se com mulheres. A maneira de ir e vir.
Entra dramaticamente, exagerando no sofrimento por perder um amigo.
Isso apela � sua natureza carinhosa.
Se as coisas correrem mal, voc� vai embora e diz
que precisa ir a outro lugar. � perfeito.
Sim, seria perfeito...
Que outra inten��o pode haver?
- A Gabriela desapareceu. - N�s sabemos.
Por que chamou a pol�cia?
- O que lhes disse? - Que estava preocupado com ela.
� um pouco tarde para isso. Preocupe-se conosco.
- E ela? - A seguir podemos ser n�s.
- A seguir pode ser voc�. - Eu n�o.
- Vamos ficar juntos. - Bem pr�ximos.
- Eles o encontram sozinho e atacam. - N�o quer estar sozinho, n�o �?
Escutem. N�s encontramos a bomba.
A Gabriela a encontrou no apartamento do Edward. Inativa.
Obviamente.
Se tivesse sido aberta, n�o tinha durado muito, n�o �?
- Entregou-a para a pol�cia? - N�o, est� em minha casa.
Edward, Gabriela, Kafka. Todos do mesmo escrit�rio.
- Pode ser um disfarce. - De propor��es incr�veis.
- Pode ser um desfalque. - Tem sempre a ver com dinheiro.
A teoria n�o nos leva a lugar nenhum. Precisamos de fatos.
Precisamos saber mais
sobre a ida do Edward ao castelo.
- Sei que voc� tem a ficha do Edward. - Tenho.
Posso dar uma olhada para procurar o endere�o da fam�lia?
Queria escrever-lhes.
N�o h� nada sobre a fam�lia.
Mais alguma coisa?
N�o. Apenas acho que � minha obriga��o.
Ele era um grande amigo.
Se de alguma forma puder ajudar a resolver as coisas dele...
H� apenas um relat�rio para acabar. Eu o fa�o
e envio ao castelo amanh�.
Estou vendo.
Bem, obrigado.
Kafka, voc� � muito sens�vel.
Sim, senhor.
Deixe o coitado descansar em paz.
Se queria a ficha do cliente porque pediu a dos funcion�rios?
Orlac � um cliente?
� uma f�brica nas montanhas. Um �timo cliente.
Sem um pedido formal, n�o posso deix�-lo ver isso.
Mas vou abrir uma exce��o
nesta ocasi�o.
Ao menos a informa��o � recente, mesmo que o empregado n�o seja.
� um lugar com tantos acidentes,
que ainda bem que os camponeses de l�, n�o t�m problemas para procriar.
Estes todos o ano passado?
Acontecem acidentes terr�veis l� em cima.
Principalmente desmoronamentos. Nem conseguem recuperar os corpos.
Uma maneira horr�vel de morrer.
Podia n�o ser t�o mau, mas at� o m�dico local morreu.
A fotografia dele desapareceu. Devo reportar isso.
- Era o Dr. Murnau? - Sim.
Dr. Murnau era um homem corajoso. Um vision�rio.
Passou a vida em lugares pouco desenvolvidos,
sem pensar em ganhos pessoais. � uma grande perda.
Esta � a lista dos empregados que trabalharam nas reclama��es?
- Sim. - O nome do teu amigo est� aqui?
- N�o. - Ent�o s� trabalhou num caso.
O nome dele vai aparecer quando o teu chefe mandar o relat�rio final.
Depois de um arquivo ser mandado para o castelo
pode ser requisitado outra vez?
Claro que n�o. Apenas pelo diretor da empresa.
Por que raz�o deixariam entrar qualquer um?
Mas para que guardar registros se n�o podem ser consultados?
Temos estas leis h� s�culos. Como podemos duvidar delas?
Talvez devesse apelar aos nossos diretores.
Voc� n�o manda cham�-los. Eles � que te chamam.
E isso nunca acontece.
Para onde v�o os arquivos, quando v�o para o castelo?
Somos uma seguradora de s�ude. V�o para os registros m�dicos.
Talvez deva falar com a pessoa respons�vel pelos registros m�dicos.
Acontece, meu caro senhor, que o chefe dos registos m�dicos do castelo
� um dos diretores desta empresa.
Por favor!
- Estou tentando trabalhar. - J� come�ou a fazer alguma coisa?
N�o fez nada o dia todo. Est� com medo que o fa�a parecer inferior.
Assistentes...
Mais valia ter duas pessoas que ca�ssem do c�u.
A culpa n�o � nossa. Estamos nervosos.
- E chateados. - O que foi agora?
- Ele discorda de tudo o que digo. - Tudo.
Estamos juntos h� tanto tempo
que as nossas personalidades extravasam de um para o outro.
- E vice-versa. - � horr�vel.
- Imagina isso acontecendo contigo!. - Horr�vel.
Por que n�o v�o almo�ar?
V�, v�o l�.
O chefe quer isto pronto amanh�.
Diga que s� demora mais uma hora... ou duas.
Vamos, n�o h� ningu�m aqui em cima.
Vamos embora.
� isso. Est� tudo bem.
Saiu-se muito bem.
N�o se preocupe com eles. V�o ser assistidos.
Cuidado com os degraus.
Excelente trabalho.
Este n�o vai passar despercebido.
E tenho certeza que vai ser muito bem recompensado.
Estamos quase chegando.
Uma �ltima tarefa. Vai gostar deste cavalheiro.
De volta a sua toca?
N�o interessa a profundidade que se cave...
deixa sempre um rasto... que podemos seguir.
Vamos lev�-lo ao castelo.
Ent�o foram voc�s...
Pensei que tinha sido o Burgel.
Nunca o deixariam chegar perto do castelo.
Deve encarar isto como um grande favor.
- Recebemos ordens de cima. - Muito de cima.
Lidamos com a pessoa respons�vel.
Quem �?
- N�o sabemos. - N�o podemos dizer.
Vamos?
Pela sua incompet�ncia, pensei que eram leais a mim. S�o bons atores.
- Sim. - Obrigado.
Vai estragar a impress�o favor�vel.
Seus porcos nojentos!
N�o nos criou de outra forma.
Porque te deu ao trabalho de perseguir isto?
Pensei que isto estava me perseguindo.
� sempre tudo sobre voc�, n�o �, Kafka?
Sempre que vejo estes dois com algu�m,
quando volto a ver essa pessoa � no meu cemit�rio.
N�o � uma coincid�ncia?
Quero ir ao castelo,
mas acho que � melhor ir sozinho.
H� diferentes maneiras de entrar no castelo.
N�o prefere as vias normais?
N�o me levam a lado nenhum. Andam em c�rculos.
Sinto-me lisonjeado por partilhar a sua intimidade,
mesmo sem saber todos os pormenores.
E tenho a certeza que s�o muito interessantes.
- Alguma vez j� foi ao Castelo? - N�o.
Outro dia estava aqui restaurando umas pedras, quando encontrei isto.
Segure aqui.
Um t�mulo vazio?
Os port�es do castelo estiveram fechados durante a peste bub�nica.
� um caminho alternativo.
N�o se deixe apanhar.
Boa sorte.
O que foi?
- Disse que admira o meu trabalho. - Sim.
Faz-me um favor?
Outro?
Se eu n�o...
...voltar a v�-lo, v� a minha casa, procure o meu bloco de notas
e destrua-o. Todos os meus manuscritos...
Nenhum est� terminado. Queime-os, est� bem?
Que pedido extraordin�rio.
Um verdadeiro amigo fa-lo-ia.
N�o necessariamente.
Mas uma esposa sim.
Est� perdido?
Estou a procura dos registos m�dicos.
- � no corredor amarelo. - Claro.
J� o vi por aqui antes?
N�o.
Sou novo aqui.
Peguem-no!
Tire-lhe os pap�is.
Estou falando com voc�! Os pap�is.
- Mais quantos destes? - Tr�s, acho eu.
- Temos estado a espera. - Traz�-lo n�o foi f�cil.
Ajudem-nos a prepar�-lo.
� um pouco demais, n�o acha?
Sim, claro.
� o barulho que me incomoda.
- E o cheiro. - Sim. Bastante.
Voc� n�o � daqui, n�o �?
Na verdade, n�o. Ia a caminho da divis�o de registros m�dicos.
Eu tamb�m vou para l�.
Seu porco! Largue-me!
Srta. Rossman, quero falar com voc�.
Srta. Rossman?
Fa�a alguma coisa!
Srta. Rossman, como se sente?
Quando tudo acontecer...
...voc� vai ser o primeiro a morrer.
E voc�.
Hoje n�o estamos fazendo grandes progressos.
Vai ser enforcado.
- Seu incompetente. - Deixe-me experimentar isto.
- O que est� fazendo? - Algo n�o est� bem.
O que estavam fazendo a� dentro?
S� entre n�s, sou empregado como os outros...
Est�o tentando criar... Como posso dizer?
Uma pessoa mais eficiente.
N�o estou entendendo...
O que faz as pessoas reagir com f�ria, felicidade ou �s cores?
� certo que equil�brio dos qu�micos pode ser alterado,
J� vi algumas das suas impurezas.
E n�o vimos todos? Fazem o que lhes mandam.
Isso torna-os eficientes?
Primeiro a fisiologia, depois a ideologia.
Tem certeza que este � o caminho certo?
Tenho de falar com o chefe dos registos m�dicos.
- Ent�o ele o chamou? - Sim.
Interessante.
Houve outro funcion�rio da seguradora, algu�m como voc�,
que foi chamado na segunda-feira, mas nunca chegou.
N�o? Por qu�?
Mataram-no.
Por qu�?
Aparentemente, pelo que ouvi dizer,
foi por causa da contabilidade.
- Contabilidade? - Sim.
Enviaram-lhe o papel errado.
Papel?
Como pode isso ser importante?
Autorizava o pagamento do seguro
de uma morte que ainda n�o tinha ocorrido.
Orlac!
Sim, Kafka.
Os trabalhadores t�m mulheres e filhos.
Infelizmente � a �nica maneira de assegurar futuros trabalhadores.
Achamos melhor, quando uma seguradora como a sua
lhes d� um pequeno pagamento em dinheiro, quando perdem os maridos.
As pessoas querem ind�stria, progresso. N�s lhes damos isso.
Isso � roubar vidas e n�o progresso.
Acho que lhe chamam o neg�cio da ressurrei��o.
At� ressuscitei a mim mesmo, n�o foi?
Dr. Murnau.
O her�ico m�rtir da Orlac.
Tivemos de nos mudar da�. Encontrar pessoas noutro lugar.
Pessoas que n�o estivessem em posi��o de fazer obje��es.
Como a Gabriela Rossman?
Ou pessoas que j� sejam culpadas de alguma coisa.
Por que se envolveu com revolucion�rios e anarquistas?
Preferia ter visto um dos seus manuscritos.
S�rio.
O que vi do seu trabalho tem sido uma inspira��o para mim.
Por que n�o publica mais vezes?
Tem uma certa pregui�a no que diz respeito a composi��o,
ou � um daqueles escritores, como posso dizer...
que n�o quer ter p�blico?
Obrigado.
Voc� menospreza algu�m como eu, porque menospreza a modernidade.
Mas voc� est� na linha da frente da modernidade.
Voc� escreve sobre isso. Documenta isso.
Ao contr�rio de voc�,
temos de admitir que, pelo meno isso, temos em comum.
N�s n�o temos nada em comum.
Eu tentei escrever pesadelos e voc�...
criou um.
Voc� tem as suas loucuras e eu tenho as minhas.
Mas somos ambos homens de vis�o.
� isso que nos diferencia das pessoas sem rosto.
Sem rosto? Ali est� um rosto!
O que dir� quando as pessoas sem rosto vierem visit�-lo
por vontade pr�pria?
O que lhes dir�?
� mais f�cil controlar uma multid�o que um ind�viduo.
Uma multid�o tem um objetivo comum.
O objetivo de um ind�viduo...
� sempre uma inc�gnita.
Era isso que voc� estava tentando eliminar, n�o era?
O que torna os seres humanos diferentes uns dos outros.
Mas nunca vai conseguir ver a alma de um homem
atrav�s de uma lente.
Isso depende do microsc�pio que estivermos usando.
Agarrem-no!
Rapazes!
Segurem-me os p�s, depressa!
Segurem-me os p�s! Segurem-me os p�s!
Os meus p�s!
Seus idiotas!
Subam e parem com isto.
Onde voc� estava?
- Atr�s de ti. Acertou-lhe? - N�o, mas vou acertar.
Escapou.
Kafka...
Tinha-nos dito que a srta. Rossman tinha desaparecido.
Bem, j� foi encontrada.
Estamos recomendando como conclus�o para o relat�rio
uma tentativa de suic�dio.
Qual � a sua opini�o?
Suic�dio.
Tenho de concordar.
Talvez tivesse ficado abatida com a morte do seu amado, sr. Raban.
Sim.
Isso justificaria a sua atitude.
Voc� �...
Voc� � muito prest�vel, Kafka.
Est� adiantado, pela primeira vez. O chefe quer v�-lo.
Queria falar comigo?
A primeira, chamando-o ao castelo
e a segunda, cancelando a primeira.
Eles disseram o porqu�?
Os meus superiores
n�o t�m obriga��o de explicar-me as suas diretrizes
e muito menos a voc�.
Compreendo. Apenas pensei
que hoje pudesse ser diferente.
Por que raz�o devia, hoje, ser diferente?
Querido pai,
sempre acreditei
que � prefer�vel saber a verdade
do que viver na ignor�ncia.
Agora descobri que estava certo.
N�o posso continuar a negar
que fa�o parte do mundo que me rodeia.
Nem posso negar,
que apesar das nossas diferen�as,
eu continuo a ser teu filho.
E espero que estas tardias
e talvez insignificantes conclus�es
nos aproximem um pouco
e tornem as nossas vidas
e as nossas mortes
mais f�ceis.
Adapta��o do pt-pt ao pt-br: Volzen
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