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Em Abril de 2008, o mundo foi abalado por revela��es
sobre um dos mais horr�veis casos de abuso alguma vez conhecido.
Vejo sempre a cara dele � minha frente.
Ele tratava-a como lixo. Como aut�ntico lixo.
� t�o simples quanto isso.
Na cidade de Amstetten, �ustria,
descobriu-se que Josef Fritzl, um homem de neg�cios respeitado,
pai e marido, manteve a sua filha presa numa cave durante 24 anos.
Nesse per�odo, violou-a repetidamente.
Ela deu-lhe sete filhos.
Tenho o direito de contar a verdade.
Porque n�o querem falar? Querem manter algum segredo?
O c�o rosnou um pouco, ladrou e levantou as orelhas.
Talvez por ter sentido algo debaixo da casa.
Ningu�m sabia o que se passava, nem a sua fam�lia.
Neste filme, apresentamos filmagens in�ditas e fotos de fam�lia,
e falamos com as pessoas mais chegadas a Josef.
Queres experimentar? Olha que tenho de te tirar a c�mara.
Muitos ainda n�o tinham falado.
Esta � a hist�ria de Josef Fritzl.
A hist�ria do que aconteceu a Elisabeth � dif�cil de compreender,
violada mais de 3 mil vezes pelo pr�prio pai.
Partos solit�rios na escurid�o de uma cave infestada de ratos.
Nunca me vou esquecer do cheiro da cave.
Ainda sinto o cheiro na boca.
Acorrentada � parede, com tetos incrivelmente baixos,
espancamentos, tortura, fome.
Um homem horr�vel.
N�o sei se � doente,
talvez a medicina venha a falar, durante este processo.
Mas � um homem horr�vel.
Quem � Josef Fritzl?
Cresci numa fam�lia pobre.
O meu pai era um patife sem emenda,
que sempre traiu a minha m�e,
e ela mandou-o sair de casa quando eu tinha quatro anos.
E com toda a raz�o.
Depois disso, �ramos s� n�s os dois.
Cresci na era nazi,
quando a rigidez e a disciplina eram muito importantes.
De uma forma subconsciente, devo ter absorvido parte disso,
o que � normal.
Nas �ltimas semanas da guerra, Josef entrou para a escola em Amstetten,
dois anos mais velho do que os colegas de turma.
Karl Dunkl tornou-se um dos seus amigos chegados, na escola.
Trat�vamo-lo por Pepperl.
Na �ustria � Josef, mas cham�vamos-lhe Pepperl.
Ele era ligeiramente superior a n�s, se me entende.
Era dois anos mais velho,
teria entrado tarde para a escola, por causa do caos da guerra.
Mas era um aluno discreto,
e diria at� que era um dos melhores que tivemos.
No seu depoimento, Josef conta como a m�e recusava ir para os abrigos,
enquanto as sirenes de ataque a�reo soavam,
deixando o seu aterrorizado filho nas m�os dos vizinhos.
Apesar da guerra, Josef era um rapaz inteligente
e um sucesso na escola.
A minha m�e era uma mulher forte.
Ensinou-me disciplina, ordem e dilig�ncia.
Ele era algo solit�rio.
O pai de um dos nossos amigos costumava dizer:
"Rapazes, tomem conta do Fritzl, � um pobre rapaz."
Friedrich Leimlehner tamb�m se lembra bem de Josef.
Sim, trouxe uma coisa para vos mostrar, caso queiram.
Esta � a minha �ltima foto com Josef "Pepperl" Fritzl.
Foi na reuni�o da nossa escola, em Outubro de 2007.
Conheci o Josef no primeiro ano da secund�ria.
N�o sab�amos de onde tinha vindo. De repente, ali estava ele.
N�o sab�amos o que tinha feito.
Era �bvio que j� tinha estado na escola,
mas n�o sab�amos onde.
Ele era muito agrad�vel.
Um amigo, um colega de escola.
Sem d�vida.
Ap�s o segundo ano, come�ou a pentear-se.
De s�bito, mostrou-se.
Punha brilhantina no cabelo.
Antes disso, n�o estudava muito.
E, de repente, passou a ser o melhor da escola.
A m�e dele era uma mulher muito modesta e pobre.
Vestia-se sempre com roupas escuras.
Acho que nunca gostou que n�s o f�ssemos visitar.
Ele tentava sempre manter os amigos longe de casa.
Ela era a melhor mulher do mundo
e eu, de certa forma, era o seu marido.
Era o �nico homem da casa
e ela estava acima de tudo.
Se tinha fantasias com a minha m�e?
Talvez.
Mas eu era forte
e, como tal, consegui reprimir os meus impulsos.
Josef Fritzl deixou a escola para se tornar engenheiro.
Mais tarde, com a idade, comecei a sair.
Tive v�rios casos amorosos.
E, ent�o, encontrei a Rosemarie.
N�o tinha nada em comum com a minha m�e.
Mesmo assim, contudo, havia algumas semelhan�as.
Ela era muito mais t�mida e fraca do que a minha m�e.
Conheci a m�e dele.
Era uma mulher muito dura.
Batia-lhe muito, isso � verdade.
A minha irm� sempre foi sossegada,
uma pessoa muito sossegada.
Silenciosa e sossegada.
N�o se destacava, como as outras adolescentes.
Era uma rapariga reservada.
Eles conheceram-se num caf�.
E, uma semana mais tarde, ela apresentou-o aos nossos pais.
Ela nunca tinha tido um namorado.
Ele era o primeiro.
As primeiras impress�es foram boas. Ele era amig�vel, simp�tico e jovem.
Causou uma boa impress�o.
Mas isso mudou com o passar dos anos,
ele tornou-se um d�spota.
S� a palavra dele contava.
Ele dizia: "N�o comas mais, j� est�s muito gorda."
Disse-o �s duas.
Mudei de atitude com ele,
esse � o tipo de coisa que nunca se deve dizer.
Menos de um ano ap�s conhecer Rosemarie, os dois casaram-se.
Ela tinha 17 anos.
Josef trabalhava numa fundi��o de a�o local, em Linz,
e mudou-se para a casa dos pais de Rosemarie, onde tamb�m vivia Christine.
O primeiro de sete filhos nasceu pouco depois, em 1957.
Dorm�amos ali quando �ramos novas.
E depois o Fritzl tamb�m come�ou a dormir l�.
Como trabalhava na f�brica, era mais f�cil viver connosco.
Ele costumava trabalhar at� tarde,
mas a verdade era que andava de bicicleta, a espreitar �s janelas.
Eventualmente, viemos a saber disso.
A 6 de Outubro de 1967, ocorreu um evento perturbador,
quando Josef Fritzl violou uma mulher local.
Foi preso e condenado pelo crime,
cumprindo um ano de uma pena de 18 meses.
Ach�vamos que ele era capaz de ser um voyeur.
Todos o somos, de certa forma.
Mas quando violou uma mulher na sua casa, foi um choque para n�s.
Mas esse foi um pequeno choque, comparado com o que aconteceu depois.
A hist�ria ia repetir-se.
Maria Neubauer tamb�m foi atacada por Josef Fritzl,
quando voltava do trabalho na f�brica local.
Esta � a primeira vez que ela fala da tentativa de viola��o.
Estava a tirar as chaves da mala,
para destrancar a porta.
Foi quando ele me agarrou o pulso.
Resisti, mas nem consegui gritar com o choque.
Ele estava preparado para sexo, totalmente preparado.
Mas n�o conseguiu deitar-me ao ch�o.
Largou-me e, antes de se ir embora, disse:
"Um dia, apanho-te."
Foi tudo, n�o disse mais.
Depois levantou-se
e foi-se embora na bicicleta.
Estava sempre com a bicicleta.
E foi-se embora, r�pido como um rel�mpago.
Foi ali.
Na esquina.
Debati-me com ele.
Foi aqui.
No ch�o.
Foi aqui.
Tenho pesadelos desde ent�o.
Desde o ataque que sou assombrada por eles.
Aquando da sa�da da pris�o, em 1968,
Rosemarie perdoou o marido.
A minha irm� estava cega com o amor.
Ele era o �nico homem
e como estava loucamente apaixonada, perdoou-o.
A minha irm� � fraca.
Deixou-o domin�-la.
� primeira vista, a fam�lia Fritzl, com Josef, Rosemarie e os sete filhos,
era uma unidade coesa e de sucesso.
Paul H�ra foi o melhor amigo de Josef durante 30 anos.
Todos os anos, as fam�lias de ambos passavam f�rias no Lago de Mondsee,
no qual Josef, j� um homem de neg�cios com sucesso,
comprou a casa de h�spedes Seestern, em 1973.
Este era o local onde pass�vamos as f�rias.
Era aqui.
Aquela mesa, ali,
era onde o Sepp e eu nos junt�vamos.
Pass�vamos o tempo na brincadeira.
Rosemarie trabalhava nas cozinhas.
A Rosemarie estava sempre alegre.
Cozinhava, fazia tudo. Geria o local.
Tratava dos quartos e as filhas ajudavam-na.
At� as minhas filhas ajudavam, de vez em quando.
O Fritzl dava-lhe pouca coisa.
Controlava-a muito. Deu-lhe a cozinha, a sala de estar,
mas n�o lhe deu nada em termos financeiros.
Ela tinha de trabalhar para isso.
Ao menor problema, amea�ava tranc�-la na casa.
Ela vivia num medo constante,
por ela e pelas crian�as.
Acho que isso explica muito.
Tratava-a como lixo. Como aut�ntico lixo.
� t�o simples quanto isso.
Sempre quis ser um bom marido e pai.
Admito que sempre valorizei a dec�ncia e um bom comportamento.
A quarta das sete crian�as de Rosemarie e Josef foi Elisabeth,
que nasceu em 1966.
A Elisabeth? Era muito sossegada.
Era t�mida.
N�o procurava contacto.
Creio que era demasiado t�mida.
Quando ia ao nosso acampamento, em Mondsee,
fazia-o de uma forma hesitante,
como se estivesse com medo.
Ele era uma pessoa impiedosa.
N�o consigo dizer mais, era uma pessoa impiedosa.
A Rosemarie contou-me
que a Elisabeth era espancada com frequ�ncia.
Disse-me que o Josef n�o gostava da Elisabeth.
Perguntei-lhe porqu�
e ela disse que ele, simplesmente, n�o gostava dela.
A minha irm� ficava feliz quando ele a deixava em paz.
Queria um lar pac�fico.
Em 1982, houve um inc�ndio na casa de h�spedes.
Crendo que fora fogo posto, a pol�cia prendeu Josef,
mas cedo o libertou por falta de provas.
Olhei para ele e disse: "Incendi�rio, chega aqui!"
E ele disse: "Est�s doido?"
Ao que eu respondi: "Desculpa, acalma-te!"
Tanto quanto sei, esteve preso durante 14 dias.
Mas n�o conseguiram provar nada.
Por isso, foram obrigados a libert�-lo
e o valor do seguro foi pago.
Mas, seja como for, toda a gente acha que ele foi o autor.
S� que n�o foi provado.
Depois disso,
por volta de 1981 ou 1982,
comecei a fazer uma cela, a partir de um quarto na cave.
A aten��o de Josef virou-se para a sua filha adolescente, Elisabeth.
Ap�s a sua liberta��o, em 2008,
ela alegou que Josef come�ou a abusar dela quando tinha 11 anos.
As g�meas Christa e Jutta eram as melhores amigas de Elisabeth na escola.
Eu e a minha irm� costum�vamos estar com a Elisabeth nesta paragem.
Fal�vamos dos assuntos comuns entre adolescentes.
Tamb�m fum�vamos aqui, �s escondidas.
Fic�vamos atentas a professores que pudessem passar
e escond�amos os cigarros atr�s das costas.
Pass�mos �timos momentos aqui, com a Elisabeth.
Nesta fotografia da escola, vemos Christa atr�s de Elisabeth.
�ramos muito discretas.
T�o discretas, que duvido que o pai dela soubesse de alguma coisa.
A Elisabeth era mais o meu tipo de pessoa.
Era assertiva
e ele n�o gostava nada disso.
Elisabeth Fritzl, agora com 16 anos,
j� era vista pelo pai como uma crian�a problem�tica.
Em 1983, fugiu de casa com outra rapariga.
O amigo, Josef Leitner, sabia que Elisabeth tinha planeado a fuga.
Fugiram as duas para Viena.
Estavam na esta��o ferrovi�ria.
E andaram por l� at� encontrarem algu�m com quem viver.
Depois, apareceu a pol�cia e encontrou as raparigas.
No dia seguinte, foram entregues a Fritzl,
que as foi buscar a Viena.
E foi a �ltima vez que as duas raparigas se viram.
N�o foi a �ltima vez que Elisabeth foi arrastada pelo seu pai,
para a casa da fam�lia, em Amstetten.
Fui visitar a Elisabeth e toquei � campainha.
A m�e dela abriu a porta e deixou-me entrar,
mas logo a seguir apareceu o pai dela, a dizer:
"Vai-te embora, n�o foste para aqui chamada."
Sa� de imediato e a porta foi fechada.
N�o deixava ningu�m entrar.
Ningu�m podia entrar, era o que se passava.
Foi a primeira e a �ltima vez que tentei v�-la.
Quando ela entrou na puberdade, deixou de obedecer �s regras.
Passava noites inteiras em bares suspeitos,
a beber �lcool e a fumar.
Apenas tentei tir�-la daquela mis�ria.
Arranjei-lhe trabalho de empregada de mesa,
mas ela passava dias sem aparecer ao trabalho.
Chegou a fugir duas vezes
e meteu-se com pessoas m�s durante esse per�odo.
N�o eram uma boa companhia para ela.
Leva-a sempre para casa,
mas ela voltava a tentar fugir.
E foi por isso que tive de agir.
Tinha de criar um lugar onde pudesse ter a Elisabeth,
� for�a, se necess�rio, longe do mundo exterior.
Josef Fritzl pediu uma autoriza��o de constru��o,
para fazer uma cave na casa da fam�lia, em Amstetten.
Finalmente foi aprovada em 1983.
Walter Lang, que fora o marido da irm� de Rosemarie, Christine,
foi contactado por Josef para fazer as obras.
Esta � a primeira vez que fala do seu envolvimento.
Fiz tudo, do ch�o ao teto.
N�o esteve l� mais ningu�m, quem construiu tudo fui eu.
O Josef decidiu a altura do teto,
qual era o espa�o para cima.
Fez todas as plantas.
Ele � que escolheu tudo.
Ningu�m sabia que havia aqui um calabou�o.
Foi bom trabalhar com ele.
Divertimo-nos durante o trabalho.
Mas o que ele fez...
...s� posso dizer que foi triste.
N�o se pode dizer mais nada.
A 20 de Agosto de 1984, Elisabeth desapareceu.
Fritzl drogou-a com �ter e fechou-a na sua nova cave convertida.
Eu sabia que a Elisabeth n�o queria as coisas que lhe fiz.
Sabia que estava a mago�-la.
Mas o impulso de provar, finalmente, o fruto proibido, era demasiado forte.
Era como um v�cio.
Acorrentada � parede, ele s� a libertava para a violar.
Nos meses que se seguiram ao desaparecimento,
Josef Fritzl come�ou a falar de uma seita que lhe levara a filha.
A hist�ria foi apoiada por uma carta que apareceu pouco depois,
supostamente escrita por Elisabeth.
"Querida Mam� e Pap�,
"decidi sair de casa para me tornar independente.
"Estou com pessoas que gostam de mim, e em seguran�a.
"N�o se preocupem comigo, nem venham � minha procura.
"Esta � a minha decis�o, a minha vida.
Por favor, digam � nossa fam�lia que os amo."
Josef Leitner viveu na casa entre 1990 e 1994.
O seu quarto ficava por cima da cave onde Elisabeth agora vivia.
Dizia-se que estava com uma seita ou que era prostituta na Holanda.
Contavam-se hist�rias desse tipo.
Naqueles dias, n�o �amos a lugar algum depois das aulas
e n�o acreditei que a Elisabeth se envolvesse com seitas ou drogas.
N�o acreditei, nem por um segundo.
Alfred Dubanovsky, outro colega de escola de Elisabeth,
tamb�m alugou um quarto na casa da fam�lia quando Elisabeth desapareceu.
Perguntei por que raz�o a Elisabeth sa�ra, e o Josef disse:
"Eles sonham com uma f� diferente.
"Sonham com outra f� e entram para uma comunidade,
onde passam a pensar de outra forma."
Simples.
E eu disse: "Est� bem, cada um sabe de si."
Os inquilinos da casa de Amstetten n�o se podiam aproximar da cave,
ou da �rea do jardim sob a qual se prolongava.
Na casa, ningu�m sabia do que se passava,
viv�amos de forma normal.
N�o pod�amos entrar na cave, no quintal e no jardim
e n�o pod�amos tirar fotos.
Essa era a regra principal dele.
Se a quebr�ssemos, �ramos despejados.
T�nhamos que aceitar.
O Fritzl era uma pessoa que t�nhamos de respeitar,
sem fazer perguntas.
Uma vez, vi a porta aberta
e passou-me pela cabe�a entrar.
Mas decidi ficar onde estava, porque ele tinha uma presen�a forte.
E eu sempre fui cauteloso.
Apenas lhes expliquei que n�o deviam mexer na porta da cave,
porque podiam morrer com um choque el�trico.
A cave da minha casa era minha e s� minha.
Era o meu reino, ao qual apenas eu tinha acesso.
E ningu�m se atrevia a entrar no meu reino,
ou at� a perguntar-me o que eu fazia l� dentro.
Em 1993, Lisa, com nove meses de idade,
foi descoberta � porta da casa com uma carta, supostamente de Elisabeth,
alegando que n�o conseguia tratar da crian�a.
Foi a primeira de tr�s crian�as de Elisabeth criada por Rosemarie,
na casa da fam�lia, acima do solo.
"Queridos pais, entrego-vos a minha pequena filha, Lisa.
"Tratem bem dela.
"Provavelmente questionam-se por que raz�o s� dou not�cias agora
"e mais ainda porque esta carta � acompanhada de uma grande surpresa.
"Tenho-a amamentado h� seis meses e meio.
"Agora, ela s� bebe leite do biber�o.
"Quanto ao resto, come com uma colher.
"N�o consigo sustent�-la.
Espero que n�o vos cause muitos problemas."
A primeira crian�a, Lisa,
veio com uma carta.
Dizia: "Estou bem, n�o me procurem."
O que � isso?
O mais horr�vel era que as crian�as iam sendo deixadas � porta.
Uma crian�a foi deixada enquanto eu vivi l�.
Naturalmente, era horr�vel.
E toda a gente culpava a Elisabeth.
"Que tipo de pessoa � ela? Como pode uma m�e fazer isto?"
Em 1994, outra crian�a, Monika, foi deixada � porta de casa.
Os melhores amigos de Josef, Paul H�ra e a sua namorada, Andrea Schmitt,
receberam um telefonema de um Josef zangado, em 1996,
quando um terceiro beb�, Alexander, tamb�m fora deixado � porta.
O Josef disse: "Pauli, deixaram-me outra crian�a � porta!"
E eu disse: "Isso � imposs�vel."
"N�o, � verdade, deixaram-me outra crian�a!"
Desta vez, era um rapaz.
Sim, era um rapaz.
E eu disse: "Sepp, isto tem de parar, n�o tarda ainda abres uma creche."
Para os inquilinos que alugavam quartos na casa da fam�lia Fritzl,
a vida continuava de forma normal.
Havia muitas festas na minha casa.
Recebia amigos e vizinhos.
Um vizinho nosso visitava-me muitas vezes,
e divert�amo-nos sempre.
Estas s�o imagens in�ditas de uma festa na casa de Leitner,
diretamente por cima da cave.
Hoje em dia, penso muito no que se passava por baixo.
Se eu soubesse que, enquanto nos divert�amos,
havia algu�m fechado h� muito tempo, por baixo de n�s...
Pensar nisso � muito frustrante.
S�o coisas que, ainda hoje, me deixam deprimido.
O c�o de Leitner, Sam, ladrava e arranhava o ch�o da casa,
quando estava sozinho com o seu dono.
O Sam era um c�o bom e bem comportado.
Por que rosnava ao ch�o enquanto eu via TV?
�s vezes, �s duas ou tr�s da manh�.
Ningu�m estava a ir para casa e n�o havia ningu�m no jardim.
Ele ficava deitado, no ch�o,
a rosnar e � escuta.
Estava sempre a fitar o ch�o
e agora sei porqu�.
Alguns dos inquilinos come�avam a ficar desconfiados,
de que algo n�o batia certo na casa dos Fritzl.
Perguntei ao Fritzl: "Que barulho de batidas � este?
� que est� a perturbar-me."
E ele respondeu: "� do aquecimento a g�s.
"Instal�mos uma caldeira nova, que est� a fazer esse ru�do.
� tudo."
Claro que n�o acreditei.
Porque n�o acredito em tudo.
Nesta casa, onde ocorreu o crime,
viveram cerca de 100 pessoas ao longo de 24 anos.
Sabemos disso, viveram por cima da cave.
Ningu�m viu ou ouviu o que quer que fosse.
A 28 de Abril de 1996,
Elisabeth deu dois g�meos � luz, Alexander e Michael.
Michael morreu tr�s dias depois.
Elisabeth alega que Josef incinerou o corpo do beb� na caldeira da casa
e que espalhou as cinzas no jardim.
Em 1998, Paul H�ra e Josef Fritzl passaram quatro semanas na Tail�ndia.
Elisabeth j� tinha passado 15 anos debaixo do solo,
tendo dado sete vezes � luz, sozinha, na cave.
Foram umas �timas f�rias � beira-mar.
Fomos a todo o lado.
�s ilhas, a Banguecoque, fizemos tudo.
N�o, n�o.
Queres experimentar? Olha que tenho de te tirar a c�mara.
Basta pensar que ele recebe uma massagem, a rir-se,
enquanto as crian�as est�o trancadas na cave...
� inacredit�vel.
Uma piada sem gra�a.
Imagino o que ele estava a pensar.
"Enquanto est�o trancados, vou de f�rias receber uma massagem."
Vejam, at� se est� a rir, n�o consigo compreender.
Eu pensaria de outra forma.
Este � um t�pico Fritzl.
A forma que ele d� � boca, aquela express�o particular.
Sempre teve um sorriso algo c�nico,
como quem diz que a situa��o n�o tem solu��o, mas que n�o � grave.
Fomos passear pelo mercado.
E eu disse ao Sepp: "Compra uma prenda para as crian�as."
Para as crian�as que ele estava a criar.
E ele disse que n�o precisava de nada, n�o foi?
Tamb�m disseste para comprar algo � Rosemarie.
"Para a tua mulher."
E ele disse: "Porqu�? Tem tudo o que precisa."
Pois foi, e depois aproximou-se de um vestido, quando eu estava a filmar.
Nestas imagens in�ditas das f�rias, Paul filma Josef,
enquanto este compra um vestido demasiado pequeno para Rosemarie.
Havia de tudo naquele mercado,
camisolas, roupa interior, vestidos.
E ele pede que lhe mostrem um vestido...
Para a "namorada".
- N�o era para a Rosemarie. - N�o lhe servia.
Depois, ele viu-me e disse: "Desliga a c�mara!"
"Ningu�m precisa de ver isto."
E eu disse: "Est� bem, vou apagar, s� estou a filmar as coisas."
Ele disse: "N�o � para a Rosemarie, � para a minha namorada."
E eu pensei: "Ele � que sabe. Tem uma namorada, e depois?"
Acontece em muitas fam�lias.
Na �ltima vez que o visit�mos,
quando est�vamos no andar de cima da casa,
o pequeno, Alex, veio ter connosco.
Olhei para ele e disse:
"Sepp, este mi�do � a tua cara!"
Ele riu-se e disse: "Sim, � verdade!"
"S�o os genes Fritzl."
Em Fevereiro de 2008, a �ustria celebrava o seu carnaval anual.
Enquanto a festa continuava nas ruas de Amstetten,
sob o ch�o, a primeira filha de Elisabeth e Josef, Kirsten,
agora com 19 anos,
ficava cada vez mais doente.
Perdia os sentidos e sofria de ataques de paralisia.
Elisabeth implorou ao pai para deixar Kirsten subir � superf�cie
e receber tratamento.
A psiquiatra forense, Dra. Adelheid Kastner,
foi incumbida de compilar um relat�rio m�dico sobre o estado mental de Fritzl,
ao longo de seis sess�es de conversa ap�s a deten��o.
N�o vejo nenhuma das pessoas com quem lido como um monstro.
Vejo sempre a pessoa
e o meu interesse � descobrir como ele ou ela funciona.
As pessoas podem surpreender.
Podem ser muito diferentes do que se espera.
N�o sou um homem que moleste crian�as.
S� come�ou mais tarde, muito mais tarde,
quando ela j� estava na cave.
O incesto pode vir de...
...de se achar que se tem o direito a faz�-lo,
porque a fam�lia lhe pertence,
e porque todos existem para o seu bem.
Sei que a Elisabeth n�o queria as coisas que lhe fiz.
Depois, a pessoa pode convencer-se,
num processo lento que costuma dar resultado,
de que n�o causou mal � crian�a.
E que, como um pai carinhoso, apresentou � crian�a um mundo,
que ele ou ela vir� a conhecer, mais cedo ou mais tarde.
E convencem-se de que s�o as melhores pessoas para o fazer,
porque conhecem melhor a crian�a.
E que s�o quem o deve fazer.
Pensei muito se devia deix�-la sair ou n�o.
Mas n�o consegui tomar essa decis�o.
Embora, ou at� por causa disso,
eu sabia que, com cada dia que passava,
o que eu tinha feito seria mais severamente julgado.
Mas com Kirsten a perder os sentidos,
a decis�o foi feita por ele.
Josef fez Elisabeth escrever mais uma carta,
desta vez para o hospital,
ao qual Josef decidiu levar a sua filha gravemente malnutrida.
"Por favor, ajudem-na.
"A Kirsten tem medo das outras pessoas, nunca esteve num hospital.
"Se houver problemas, pe�am ajuda ao meu pai.
"� a �nica pessoa que conhece.
"Kirsten, por favor, mant�m-te forte at� nos voltarmos a ver.
Em breve, iremos ter contigo."
Os m�dicos perguntaram quem era Kirsten.
Ela n�o tinha registos m�dicos,
documentos ou identidade.
Finalmente, as mentiras de Fritzl tinham-no cercado.
O pesadelo acabara.
A 19 de Abril de 2008,
as portas da cave abriram-se.
A liberta��o de Kirsten fora o fim do pesadelo de Elisabeth.
8516 dias ap�s ter entrado,
Elisabeth e os seus dois outros filhos da cave, Stefan e Felix,
dirigiram-se � porta do calabou�o.
Estava escrito no fundo...
- "Josef..." - "J.F."
"Josef F."
Ou "Josef F."
Dizia "Josef F."
De s�bito, apareceu o nome completo.
E mesmo assim n�o acreditei.
Dissemos: "Deve ser um engano, n�o pode ser."
E depois, apareceu a foto dele.
Sa� da casa a correr.
Pensava: "N�o pode ser."
O que pode uma pessoa fazer?
N�o o achava capaz daquilo.
Bater nos filhos e na esposa, sim, mas n�o aquilo.
N�o conseguia acreditar.
Sentimo-nos devastados.
Foi um grande choque.
Ainda hoje n�o consigo acreditar.
Ainda hoje.
A imprensa acorreu de forma fren�tica � not�cia.
Questionava quem investigara o desaparecimento de Elisabeth.
Os servi�os sociais foram a casa de Fritzl 21 vezes desde 1984,
sem nunca terem suspeitado de problemas.
A pol�cia e o meu departamento fizeram tudo para encontrar Elisabeth.
Fizemos inqu�ritos por toda a Europa, em v�rios gabinetes,
e institui��es.
Ningu�m sabia onde ela tinha estado.
S� um homem sabia dela, o pr�prio pai.
Vizinhos.
Amigos.
Conhecidos.
Amstetten estava em choque.
A 16 de Mar�o de 2009,
Josef Fritzl teve o seu dia em tribunal.
As acusa��es contra ele inclu�am viola��o, incesto,
aprisionamento falso, escravid�o,
coa��o, priva��o de liberdade,
e o homic�dio do beb� Michael.
Como explica o que fez?
Sr. Fritzl, o mundo pergunta-se porqu�.
Consegue dar uma explica��o?
Os efeitos dos seus atos ainda s�o sentidos.
Rosemarie vive aqui, sozinha e sem um tost�o.
N�o acreditamos que ela n�o soubesse de nada.
Pode ser, mas n�o sei.
N�o sei.
N�o imagino que ela n�o soubesse de alguma coisa.
Algo devia ser estranho para ela.
� o que eu penso.
Elisabeth e as crian�as ainda s�o uma hist�ria para a imprensa.
As suas novas identidades e resid�ncia foram descobertas por um tabloide.
A hist�ria � um grande neg�cio.
Paul ainda tenta compreender quem era o seu melhor amigo.
J� n�o � meu amigo. Para mim, � um criminoso.
Conheci-o como uma pessoa boa e decente.
Mas o que ele fez � indescrit�vel.
NA QUARTA-FEIRA, 18 DE MAR�O DE 2009,
FRITZL DECLAROU-SE CULPADO DAS ACUSA��ES.
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