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O SACRIFÍCIO

Sincronização: FMGRM

Dá-me aqui uma ajuda, meu rapaz!

Era uma vez, há muito, muito tempo,

um velho monge que vivia num mosteiro ortodoxo.

Pamve era o seu nome.

Plantou uma árvore estéril numa ladeira, tal como esta.

Depois disse ao seu jovem pupilo, um monge chamado Ioann Kolov,

que a devia regar todos os dias até ela ganhar vida.

Dá-me aí umas pedras.

E todos os dias de manhã cedo,

Ioann pegava num balde de água e saía.

Subia à montanha e regava a árvore seca.

Ao fim do dia, ao cair da noite, regressava ao mosteiro.

Fê-lo durante três anos...

Um belo dia, subiu à montanha e viu que a árvore estava coberta de flor!

Digam o que disserem, mas um método, um sistema, tem as suas virtudes!

Sabes, por vezes,

digo para mim mesmo que se em cada dia

cada um de nós fizesse um mesmo acto simples,

como um ritual, inalterado, sistemático,

todos os dias exactamente à mesma hora, o mundo mudaria.

Sim, algo mudaria. Não poderia ser de outra forma.

Podíamos acordar de manhã, digamos às sete horas em ponto,

entrávamos na casa de banho, enchíamos um copo de água da torneira

e despejávamo-lo pela sanita abaixo. Só isso!

Não te livras de mim com tanta facilidade, Alexander.

Bonito, não é? Tal como no Japão, uma Ikebana.

Convidaram-me para ir esta noite a tua casa

celebrar o teu aniversário.

É uma honra para mim.

Aqui está a última. Os correios estão fechados.

Homenzinho!

Quem lá aparecer hoje terá de esperar para amanhã. Toma!

Não trouxe os óculos. Lê-mo, por favor.

"Feliz aniversário, caro amigo. Stop.

"O poderoso Richard saúda o bom príncipe Mischkin. Stop.

"Deus te dê alegria, saúde e paz. Stop.

Dos teus leais e afectuosos Richardianos e Idiotistas. Stop."

Que comevedor!

Uma piada!

Os amigos e as suas piadas!

"Idiotistas"... Não é mau de todo.

"Deus te dê alegria..." Como está a tua relação com Deus?

Lamento, mas não existe. O que queres dizer com isso?

Bem... Podia ser pior.

Aqui estás tu, um jornalista famoso,

um crítico literário e teatral que ensina estética na universidade...

O teu laço? Corre e vai buscá-lo!

E ensaios... Também escreves ensaios!

Mas és sempre tão melancólico!

O que queres dizer com "melancólico"?

Não te devias afligir tanto.

Não devias ansiar sempre por algo.

Não devias estar sempre assim à espera. Isso é que é importante.

Não devíamos esperar sempre por algo.

"Não devíamos estar sempre"? Quem disse que espero algo?

Estamos todos... à espera de algo.

Olha para mim, por exemplo.

Tenho deambulado toda a vida à espera de algo.

Na verdade, senti-me toda a vida

como se estivesse à espera numa estação de caminho-de-ferro.

Senti-me sempre como se...

...como se a vida que vivi até hoje não tivesse sido uma vida verdadeira

mas uma longa espera para chegar a ela...

Uma longa espera por algo verdadeiro, por algo importante!

E tu?

Bem, sim, se é isso que queres dizer.

Eu nunca pensei que te interessasses por esse tipo de problema.

Mas interesso!

Sem qualquer dúvida! Infelizmente...

Por vezes, tenho as ideias mais esquisitas.

Falo a sério... Vê o anão, por exemplo. Esse famoso anão!

Que anão? Já me baralhaste todo!

Tu sabes! O corcunda! Aquele de que falava Nietzsche.

Aquele que fez desmaiar o Zarathustra.

Desmaiar? De que estás a falar?

- Conheces Nietzsche? - Não pessoalmente.

Nunca o estudei tão atentamente.

No entanto, ele interessa-me, não o nego.

E então?

Às vezes meto ideias parvas na cabeça, coisas como a "rotação eterna", sabes?

Vivemos, temos os nossos altos e baixos, temos esperanças...

...esperamos por algo.

Temos esperança, perdemos a esperança, aproximamo-nos da morte.

Finalmente, morremos e nascemos de novo.

Mas não nos lembramos de nada.

E depois recomeça tudo de novo, a partir do zero.

Não literalmente, não igual a antes, mas um pouco diferente...

No entanto, é igualmente sem esperança e não sabemos porquê.

Sim... Quero dizer, não!

Na verdade, é o mesmo. Literalmente, o mesmo.

É só a representação seguinte, por assim dizer!

Se tivesse feito o mesmo percurso, teria feito tudo da mesma maneira.

É engraçado, não é?

Mas já ouvi tudo isso antes, não é nada de novo.

Não achas que foste tu que pensaste tudo sozinho, pois não?

Achas mesmo que a humanidade deveria criar uma construção,

uma construção universal? Um modelo, por assim dizer,

da Lei Absoluta, da Verdade Absoluta?

Seria como criar um novo universo!

Seria como tornar-nos o Criador do Universo!

E acreditas mesmo no teu anão? Na tua ridícula "rotação"?

Sim...

Às vezes acredito...

Vês? Se acredito honestamente, assim é.

"Acredita que te foi dado e ser-te-á dado."

Agora vou andando para casa.

Já é tarde, tenho de comprar um presente.

Não é preciso.

Mas é um dia muito importante! Vais afogar-te em telegramas!

Au revoir!

O que estás para aí a resmungar?

Sabes que "no princípio era o mundo..."

Mas tu és mudo, mudo como uma pedra...

(a little smelt!) Um cheiro?

Perdemo-nos, meu rapaz.

A humanidade também está no caminho errado, num caminho perigoso.

Vamos lá!

Estás tão pesado!

A primeira sensação que o Homem teve...

Como tem passado ele? Bem?

Sim. O que queres dizer? Ele trabalha muito.

Não gosto dos monólogos dele.

Alexander!

Doutor! Espere, eu vou aí!

Não está vestido para um passeio em África!

É um lugar e tanto, acredite!

- Olá! - Olá! Bem-vindo!

- Parabéns! - Obrigado! Obrigado!

E tu, meu jovem, como estás?

É difícil viver no silêncio?

Posso imaginar. Mas é bom para ti!

A sociabilidade, meu jovem amigo, é um fardo fastidioso.

Nem todos aguentam.

Meu bravo rapaz!

"Meu", porquê? Afinal de contas, ele é "nosso".

Ele "gargareja" quando deve e vai sozinho para a cama.

Gargareja? Isso não é nada!

Pensa como ele se portou bem durante a operação!

Lembra-te disso!

Já parece um homem a sério!

Agora abre mais!

Está bom. Continua assim e daqui a uma semanajá estás a falar.

A propósito, sabes que havia um dia na semana

em que o Ghandi não falava com ninguém? Isso durante vários anos...

- Era a maneira dele. - Porquê?

Acho que estava farto das pessoas.

Viktor, vamos para aqui. Largaste os teus doentes?

Que elegância!

Num dia como este, temos de estar à altura das expectativas!

O teu presente está no porta-bagagens. Dou-to ao jantar!

Mais presentes!

- Está na hora de voltarmos a casa. - Sim, todos nós.

Fazemos assim: tu levas o carro e eu e o rapaz vamos a pé.

Temos de acabar a nossa conversa, não é, meu rapaz?

Por favor, não te atrases...

Está bem, meu homenzinho?

Está tudo quase pronto em casa.

Já te contei como eu e a tua mãe descobrimos este lugar, não já?

Viemos aqui uma vez numa passeio.

Nessa altura, ainda nem sequer estavas projectado.

Foi a primeira vez que cá viemos.

Não tínhamos mapa, esquecemo-nos de trazer um.

Além disso, tínhamos ficado sem gasolina.

Parámos algures aqui perto e continuámos a pé.

Na verdade, estávamos perdidos.

Depois começou a chover, uma chuva fria, miudinha...

Chegámos àquela curva ali, ao pé daquele pinheiro seco

e nessa altura o sol apareceu.

Parou de chover! Depois vimos a casa...

De repente, tive pena de não...

Quero dizer, que eu e a tua mãe não vivêssemos naquela casa

por baixo dos pinheiros, tão perto do mar.

Que bela era!

Veio-me à ideia que se vivesse ali, seria feliz até na morte.

O que se passa? Não tenhas medo. A morte não existe.

Não, existe o medo da morte e é um medo horrível.

Por vezes até leva as pessoas a fazer coisas que não deviam fazer.

Mas quão diferente seria se parássemos de ter medo da morte!

O quê? Sim, estava a falar de outra coisa...

Pois... Como estava a dizer, eu e a tua mãe ficámos encantados

quando nos apercebemos da sua beleza.

Não nos conseguíamos afastar... A paz, a quietude...

Ficou claro que a casa tinha sido feita para nós.

Afinal, até estava à venda. Que milagre!

Tu nasceste nessa casa.

Gostas? Gostas da nossa casa?

O homem sempre se defendeu...

De outros homens, da Natureza da qual ele faz parte.

Ele violou constantemente a Natureza.

O resultado é uma civilização baseada na força,

no poder, no medo e na dependência.

Tudo o que o nosso chamado "progresso técnico" nos deu,

é um tipo de conforto, uma espécie de padrão

e instrumentos de violência para mantermos o poder.

Somos uns selvagens!

Usamos o microscópio como se fosse um bastão!

Não, é errado...

Os selvagens são mais espirituais que nós!

De cada vez que fazemos uma descoberta científica,

pomo-la logo ao serviço do mal.

E quanto ao princípio, alguns homens sábios disseram uma vez

que o pecado é que é desnecessário.

Se assim é, então toda a nossa civilização

está baseada no pecado do princípio ao fim.

Conquistámos uma desarmonia terrível,

um desequilíbrio, se quiseres,

entre o nosso desenvolvimento material e espiritual.

Há algo de errado com a nossa cultura,

ou seja, com a nossa civilização. Algo basicamente errado, meu rapaz!

Talvez queiras dizer que devemos estudarjuntos o problema

e procurar uma solução.

Talvez sim, se não fosse tão tarde. Demasiado tarde.

Mas meu Deus, que cansado estou desta conversa!

"Palavras, palavras, palavras!"

Só agora percebi o que Hamlet queria dizer.

Estava simplesmente rodeado de pessoas sem interesse.

Também eu.

Mas por que falo assim?

Se alguém parasse de falar e fizesse finalmente algo para variar!

Ou pelo menos, tentasse.

Homenzinho!

Homenzinho!

Meu Deus, o que se passa comigo?

Fantástico!

Que requinte fantástico!

Tanta sabedoria e espiritualidade!

E também que pureza e que inocência infantil!

Ao mesmo tempo profundo, embora virginal.

é incrível!

Como uma oração.

Mas até isso se perdeu. Já nem rezar podemos!

Hoje tive um dia péssimo.

Ou melhor, perdi o controlo sobre ele.

Obrigado, Viktor, é um livro esplêndido.

Obrigado pelo vinho, também. Vamos bebê-lo ao jantar.

Mas acima de tudo, obrigado por teres vindo!

Tu já...

Já alguma vez sentiste que a tua vida foi um fracasso?

Não, por que o sentiria?

Houve uma vez que me senti assim...

Mas desde que o Homenzinho chegou, tudo mudou.

Não foi tudo de repente, claro.

Um pouco de cada vez, à medida que ele crescia.

Estou muito ligado a ele, talvez demasiado.

No entanto, há algo em tudo isto que me deixa um certo ressentimento.

Preparei-me para uma vida... mais elevada, por assim dizer.

Estudei filosofia, história da religião, estética.

Acabei por me acorrentar de livre vontade.

Mas ao mesmo tempo, sou feliz.

Hoje, por exemplo...

O que aconteceu hoje?

Recebi um telegrama dos meus amigos.

Por piada, eles assinaram: "Ricardianos e Idiotistas".

Amigos antigos do teatro.

Representámos Shakespeare e Dostoyevskyjuntos.

- Eu lembro-me. - Não!

- O que é? De que te lembras? - Lembro-me dessas representações...

- Ora... - É verdade!

Lembro-me de como fizeste o vaso cair da bandeja e se partiu.

Choraste o tempo todo. Lembro-me muito bem.

Do vaso, também.

Era branco com flores azuis.

É verdade! Ela lembra-se!

Mas essas lágrimas não eram nada de génio.

Só tinha qualquer coisa no olho.

Magoou-me tanto que julguei que não conseguia acabar a representação.

Estavas soberbo no papel do Príncipe Mischkin.

Foi o papel da tua vida!

Depois, desististe de tudo. Do teatro, de tudo!

Depois de teres feito Ricardo III e o Idiota... Nunca percebi.

O que queres dizer com "de tudo"?

Disseste que eu desisti de tudo. O que queres dizer com "de tudo"?

Do teatro. De tudo!

Querias dizer, do "sucesso".

Acontece que o teatro está muito longe de ser "tudo"!

Eu não aguentava mais. Percebes?

O que queres dizer com isso?

Não sei por que razão, mas comecei a sentir-me atrapalhado no palco.

Sentia vergonha de representar o papel de outra pessoa,

de personificar as emoções de outros.

Mas pior de tudo, sentia vergonha de ser honesto no palco.

Na verdade, foi um crítico que deu primeiro por isso.

Não foi tudo de repente, claro. Não foram todos de repente.

Estás a querer dizer que um actor

pode não conseguir manter o seu ego intacto?

Que deve abandonar a sua identidade?

Não é bem assim.

O que quero dizer é que o ego de um actor

se dissolve nos seus papéis.

Eu não queria que o meu ego se dissolvesse.

Havia algo nele que me afectava como pecador,

algo neste desenlace que era feminino e com falta de vontade.

Feminino! Então é aí que está o pecado!

Eu gostava de ti como actor. E tu desististe. É isso!

- Não sei, pode ser isso. - Não, foi isso!

Eu disse que pode ter sido.

Tens de ter sempre a última palavra!

Ela vai ser a morte dele!

Meus queridos! Hoje não! É o aniversário do Alexander!

Obrigado por me defender, Viktor.

Por outras palavras, primeiro seduziu-me com a sua representação,

depois atraiu-me de Londres e abandonou-me!

Eu gostava de ser a mulher de um grande actor e não via nada...

Desculpa, não via nada de errado nisso.

Quem é agora?

A propósito, Alexander, partirei em breve.

Partir?

Sim, partir daqui...

Aconteceu alguma coisa?

Ofereceram-me um lugar numa clínica na Austrália.

A sério?

Tens de me contar mais tarde.

É o Otto, o carteiro. Traz qualquer coisa!

Júlia! Uma chamada do teu namorado?

Boa noite!

Muitos parabéns!

Cá estou e este é o meu presente para ti.

Muito obrigado. O que é?

Acho que não consigo sozinho.

É um mapa da Europa do fim dos anos 1600.

É verdadeiro?

Como poderia ser? Deve ser uma cópia, uma reprodução.

Nada disso! É genuíno, é um original.

- E para que alguém quereria... - É possível?

Que bonito! Vamos levá-lo para dentro.

Vamos!

É demasiado para um presente. Não sei se eu...

Por amor de Deus, não digas isso!

Mas é de mais! De mais, Otto!

Eu sei que não é nenhum sacrifício, mas...

E por que não seria? Claro que é um sacrifício!

Qualquer presente envolve um sacrifício.

Se não fosse assim, que espécie de presente seria?

Desculpe...

Otto. Chamo-me Otto.

Desculpe, Otto.

Como foi que veio aqui parar?

Ouvi dizer quer não vive aqui há muito tempo. Um cigarro?

Uma vez fui à morgue e vi um corpo autopsiado

de um homem que fumara toda a vida. Vi de perto os pulmões dele.

A partir daí, nunca mais fumei.

Ouviste, Alexander?

Sim, tem toda a razão. Só vivo aqui há dois meses.

Antes de vir para cá era professor de história no liceu.

Quando me reformei, mudei-me para aqui.

Hoje tenho menos despesas

e mais tempo livre para os meus passatempos.

A minha irmã também vivia aqui. Já morreu.

Ouvi dizer que trabalha nos Correios.

Sim, sou carteiro.

Mas não a tempo inteiro, só nos meus tempos livres.

Olá, Maria!

Deixei tudo em ordem, Sra. Adelaide. Já posso ir?

Sim, Maria, obrigado.

Espere, pode só aquecer os pratos?

A Júlia pode fazer o resto. Não podes?

Sim, Sra. Adelaide.

Ponho já os pratos a aquecer.

Eu faço-o. Depois posso ir? Mais alguma coisa?

Não, não! Podes ir. A Júlia ainda está cá.

Mais uma coisa!

Pões as velas na mesa?

Depois podes ir. Já abriste o vinho?

Então abre-o, depois não preciso mais de ti.

Os pratos, as velas, o vinho.

Ela e eu somos vizinhos.

Somos conhecidos.

Mesmo? Parabéns!

Veio da Islândia há poucos anos.

A sério? Sabias disso, Alexander?

Ela é muito esquisita.

- Quem? - A Maria.

- Sim, a Maria. - Às vezes, ela assusta-me.

Devia ser maravilhoso quando o Homem acreditava que o mundo era assim.

Esta Europa parece-se mais com Marte.

Ou seja, não tem nada a ver com a verdade.

Não!

Mas as pessoas viviam! E não viviam mal.

Espera, qual é a data...

...de hoje?

1392...

É melhor tirarmos o mapa daqui.

Otto, ajudas-me?

Também sinto que os nossos mapas não têm nada a ver com a verdade.

Que verdade?

Estás sempre a falar da verdade.

- Verdade? O que é a verdade? - Isso não existe.

Olhamos, mas não vemos nada! Eis uma barata...

Uma barata?

É um exemplo, senhora! Desculpe!

Eis uma barata a correr à volta do prato.

Julga que vai em frente com um objectivo definido.

Como sabe o que pensa uma barata quando corre à volta de um prato?

Pode muito bem ser um ritual qualquer.

- Claro! - Um ritual muito dela.

"Pode ser".

- Tudo pode ser. - "Pode ser".

Caso contrário, só nos sobra esta "verdade", "verdade".

- Posso ajudar? - Não é preciso.

Pomo-lo aqui, Otto.

É um mapa fantástico!

Ainda bem que gostas. É um mapa de primeira.

Onde está o Homenzinho? Onde está o rapaz?

Não sei, ainda agora estava aqui.

- Vou procurá-lo? - Ele pareceu-me um pouco triste.

- Algum problema? - Eu volto já.

O jantar está pronto.

Disse que tinha mais tempo para os seus passatempos...

O que queria dizer com isso?

O quê?

Tenha calma.

Pareceu-me vê-lo ainda agora.

- Sou uma espécie de coleccionador. - É?

O que quer dizer com "espécie de"?

Como hei-de dizer? Colecciono incidentes.

Coisas que são inexplicáveis mas que são verdade.

Contudo, preciso de muito tempo

para recolher provas de que são verdadeiras.

Também preciso de viajar e de dinheiro para isso.

É por isso que também sou carteiro.

O que quer dizer com "inexplicáveis"?

O rapaz já aqui devia estar. Ele adora histórias destas.

Adora?

A sério?

Mesmo assim...

Não entendo.

Bem, por exemplo...

Não, esta não. E que tal esta?

Aconteceu antes da guerra.

Em Konigsberg, uma viuva vivia com o seu filho.

Quando a guerra começou, o rapaz foi recrutado. Tinha 18 anos.

Decidiram ir a um fotógrafo tirar uma fotografia para ficar de recordação.

A mãe e o filho tiraram a fotografiajuntos.

Depois, o rapaz...

...o rapaz foi mandado para a frente.

Poucos dias depois, foi morto.

Meu Deus!

Imersa na comoção e na calamidade,

a viuva esqueceu-se, claro, da fotografia que tinha encomendado.

"Claro"? Como pôde ela esquecer-se de tal coisa?

Isso não é importante.

Não, a razão para isso não é muito importante.

O facto é que esta mulher nunca foi buscar a fotografia.

A guerra acabou e ela mudou-se para outra cidade,

para longe das suas recordações.

Mas ela nem sequer tentou encontrar o fotógrafo?

Era a última fotografia do filho!

Não o estás a deixar contar!

Desculpe.

Eu calo-me. Desculpe, Otto.

Não faz mal.

Anos mais tarde... Acho que foi em 1960,

a mulher foi a um fotógrafo para tirar uma fotografia dela.

Queria dá-la a um amigo como recordação.

Tirou a fotografia e quando a foi buscar

viu não só o retrato dela, mas também o do seu filho morto.

Ele tinha 18 anos na fotografia

e ela tinha a idade que tinha quando tirou a última fotografia.

Isso aconteceu mesmo assim?

Tal como nos contou?

Sim.

Foi assim que aconteceu.

E como confirmou isso tudo?

Falei com a mulher.

Tenho a fotografia que a mostra em 1960

com o filho com o uniforme de 1940.

Meu Deus!

Além disso, tenho uma cópia da certidão de nascimento dele

e uma cópia autenticada da certidão de óbito do filho.

Não está a brincar connosco, pois não?

Não.

De forma alguma.

Recolhi cerca de 300 acontecimentos semelhantes.

284, para ser mais preciso.

Somos simplesmente cegos, não vemos nada.

O que foi isto agora? O que acha?

Está doente?

Não,

não foi nada.

Foi só um anjo mau que me tocou.

Acha-se no direito de brincar connosco, Sr. Carteiro?

Há brincadeiras e brincadeiras, doutor.

Aqui não há brincadeira alguma.

"Quem foi que fez isto?"

"Os Senhores. "

Maria!

- Quem fez isto? - O Homenzinho.

O Homenzinho, sinceramente!

Já agora, onde está ele?

Está lá em cima. Acho que está no quarto dele.

Está bem.

O que é isto?

Ele fê-lo para si. É o presente de aniversário dele para si.

Ele e o Otto fizeram-no juntos.

Não lhe diga que lhe contei, Sr. Alexander.

Ele queria ser ele a mostrar-lho.

Agora vou andando.

Parabéns!

Vá para casa! Está muita humidade.

- Posso entrar? - Entra.

És tu! Entra!

Está quase tudo pronto lá em baixo.

- Que raio é aquilo? - O quê?

Aquele quadro ali.

Na parede. O que é?

Não vejo bem. Tem um vidro à frente. E está tão escuro.

É a "Adoração dos Reis Magos" de Leonardo.

É uma reprodução, claro.

Meu Deus, como é sinistro!

O Leonardo sempre me aterrorizou!

"... estão agora a ser organizados por todo o país.

"Este é o dever de todos os oficiais do exército.

"Todos os cidadãos responsáveis

"se devem comportar com coragem,

"manter a cabeça fria

"e dar assistência às forças armadas

"no seu esforço de restabelecer a paz,

"a ordem e a disciplina.

"O único inimigo perigoso entre nós é o pânico.

"É contagioso

"e não é influenciado pelo senso comum.

"Ordem e organização,

"nada menos, bons cidadãos!

"Só ordem...

"Ordem contra o caos.

"Peço-vos, apelo humildemente à vossa coragem...

"... e apesar de tudo...

...ao vosso senso comum. "

Vamos comer? O rapaz está a dormir. Acham que devo acordá-lo?

"Infelizmente, também temos no nosso país

"uma base dessas, com quatro mísseis

"e é muito provável que essas ogivas,

de uma forma trágica, sejam usadas contra nós. "

O que é isto?

"As comunicações poderão ser cortadas a qualquer momento,

"mas consegui dizer-vos o que é mais importante,

"caros cidadãos.

"Cada um deve ficar onde está,

"pois lugar algum na Europa

"é mais seguro

"do que o lugar onde estamos agora.

"Considerando isso,

"estamos todos forçados à mesma situação.

"Todos os distritos ficarão sob o controlo

"de unidades militares especiais

de forma a que... "

Mas isto não pode ser...

Não devíamos fazer qualquer coisa?

Toda a minha vida esperei por isto!

Toda a minha vida foi uma longa espera, para isto!

Não me toques! Faz qualquer coisa!

Vocês, homens, por que não fazem alguma coisa?

Não devíamos fazer alguma coisa?

Mãe, acalma-te, por favor.

Meu Deus! Meu Deus!

Viktor!

Ao menos podias fazer algo! Por favor!

Silêncio, o rapaz está dormir. Não deve ser acordado.

A culpa é toda minha.

É a minha punição!

- Homenzinho! - O rapaz está a dormir.

Não vale a pena acordá-lo.

Homenzinho!

Homenzinho!

Júlia, vai buscar o Homenzinho!

Não percebes, Alexander?

Júlia, vai buscar a mala preta. Está em cima do piano.

- Talvez mais tarde. - Meu Deus!

Júlia, também precisas?

Não, não quero. Não é preciso.

como queiras.

Mas é absolutamente necessário.

É totalmente inofensivo.

É mais fácil para todos se tomares.

Não, não quero! Não quero!

Alexander, queres?

Não, não. Prefiro uma bebida.

Não bebas de mais. Só torna as coisas piores.

- Otto? - Não, não se preocupe.

Obrigado, mas não preciso.

Júlia!

Temos de ir ver o rapaz. Não o devemos acordar.

Eu vou contigo.

A Júlia pode ficar aqui com a mãe.

Dorme, agora dorme. Voltamos já.

Está desligado. O telefone está desligado.

Meu Deus...

Por que fazemos sempre o contrário daquilo que queremos?

Sempre!

Amei sempre um homem

e casei-me com outro.

Porquê?

Quer beber alguma coisa?

Não, não!

Nada, obrigada, Otto.

Não...

Agora acho que sei.

Simplesmente não queremos depender de outrem.

Quando duas pessoas se amam,

não amam da mesma maneira.

Há um que é forte

e outro que é fraco.

O fraco é sempre aquele

que ama desmesuradamente, sem reservas.

Sinto agora como se tivesse acordado

de uma espécie de sonho,

após outra espécie de vida.

Por alguma razão, ofereci sempre resistência...

Lutei contra algo.

Defendi-me exactamente como se tivesse alguém dentro de mim

a dizer:

Não desistas

e não vás com quem quer que seja

ou morrerás!

Deus meu, como estamos enganados!

Ainda bem que compreendeste finalmente!

Como te sentes?

- Estás melhor? - Estou.

Já entendi, apesar de ser um pouco tarde.

O que podemos fazer agora?

O telefone não funciona, claro.

Podemos pegar no carro e rumar a norte,

onde é mais calmo, mas não vale a pena.

Não, é igual por todo o lado.

Ninguém sabe onde está pior.

Não, não, ficamos aqui!

Pronto, pronto...

Calma, calma...

Não vamos a lado algum!

Esperamos aqui.

Viktor!

Agora vamos jantar.

Desculpem-me, mas agora tenho de ir. Tenho algo para pôr em ordem.

Júlia, vai acordar o Homenzinho!

Hoje é um dia muito especial.

- Hoje temos de estarjuntos. - Pára com isso, por favor.

- Ouviste o que eu disse? - É melhor não o acordar.

Júlia!

Não tenciono acordá-lo. De forma alguma!

E não tenciono deixar que alguém o faça.

Ele está a dormir. Não devemos acordá-lo ou assustá-lo.

Muita coisa pode acontecer enquanto ele está a dormir.

Se Deus quiser, ele nunca saberá o que aconteceu.

Não o assuste! Peço-lhe!

Se tem de atormentar alguém, escolha o Sr. Alexander!

Ou pior ainda, escolha-me a mim!

Escolha quem quiser, porque não pode fazer de outra forma,

mas eu não permitirei que atormente a criança!

Minha menina...

Minha querida menina!

Perdoa-me!

Pai Nosso que...

Pai Nosso que estais no céu,

santificado seja o Vosso nome,

venha a mim o Vosso reino,

seja feita a Vossa vontade...

O pão nosso de cada dia nos dai hoje

e livrai-nos do mal.

Teu é o reino dos céus,

o poder e a glória.

Ámen.

Senhor!

Livra-nos destes tempos terríveis.

Não deixes que a minha criança morra,

nem os meus amigos,

nem a minha mulher,

o Viktor,

todos os que Te amam e acreditam em Ti,

todos os que não acreditam em Ti porque são cegos

e porque nunca pensaram em Ti

porque ainda nunca tiveram uma verdadeira tristeza.

Todos os que nesta hora perderam a esperança, o futuro,

a vida,

e a oportunidade de se renderem à Tua vontade.

Todos os que estão apavorados

e que sentem o Fim a aproximar-se.

Todos os que sentem medo, não por eles, mas pelos que amam.

Todos aqueles a quem

ninguém,

excepto Tu, pode dar protecção.

Esta guerra é a guerra derradeira,

uma guerra horrível...

Depois dela, não haverá vencedores nem vencidos,

cidades ou vilas, erva ou árvores,

água nos poços

ou pássaros no céu.

Dou-Te tudo o que tenho.

Renuncio à minha família que tanto amo.

Destruirei a minha casa

e renunciarei ao Homenzinho.

Tornar-me-ei mudo, não mais falarei a ninguém.

Abandonarei tudo o que me liga à vida,

se ao menos Tu restaurasses tudo como estava antes,

como estava esta manhã, como estava ontem.

Deixa-me livrar deste medo mortal, doentio, animal.

Sim, tudo!

Senhor!

Ajuda-me...

Farei tudo o que Te prometi!

Vem cá, Viktor!

Ajuda-me!

Meu rapaz!

O que é?

Desculpa se te acordei. Estavas a dormir?

O que é? O que aconteceu?

Ainda há uma última oportunidade.

Uma oportunidade? Que tipo de oportunidade?

Uma oportunidade! Uma última esperança!

Que tipo de esperança? O que se passa contigo?

Não se passa nada, mas a Maria pode fazê-lo! A Maria!

A Maria?

Que Maria? O que pode ela fazer?

Tens de ir ter com ela e convencê-la. Percebes?

Ir onde? Quem devo convencer?

Vem, precisas de um conhaque. Eu bebi um e sinto-me melhor.

Já não há luz.

Quanto tempo estive a dormir?

Não se devia beber assim, aos copos cheios.

É um conhaque muito bom.

Onde estão os outros? Estão a dormir?

Estão lá em baixo, sentados à volta da mesa.

Gostam muito de ti.

Sentados à volta de que mesa?

- Tens de irjá ter com a Maria. - Que Maria?

Não podes ser um pouco mais claro?

A Maria, tu conhece-la! É uma das criadas da tua casa.

Sim, sim... Explico mais tarde.

Não me deves apressar!

Quem te está a apressar, por amor de Deus?

Por que tens de estar sempre com rodeios com tudo?

Ela vive numa quinta do outro lado do lago.

Por detrás da igreja, a que está fechada.

- Quem? - "Quem"?

Não estou a falar de "quem", falo da igreja que está fechada.

Sim, mas eu estou a perguntar-te quem vive lá,

não falo da igreja. O que tem a igreja a ver com isso?

Quem vive lá? A Maria!

A tua criada. É o que estou a tentar explicar-te há meia-hora!

Por que não prestas atenção?

É muito importante, percebes?

Que tipo de atenção? Eu...

Eu sei onde ela vive, a minha mulher disse-me.

Eu acho que eu... Eu...

Sim, sim, é perdoável,

é perdoável, prometo-te.

Vou sentar-me aqui ao teu lado.

O que foi que disseste sobre a criada?

Sim, sim, a tua criada.

- Ouviste isto? - Ouvi o quê?

O que foi?

Não sei. Não sei.

Parecia-me música.

Em todo o caso, tens de ir ter com a Maria.

Porquê?

Não queres acabar com isto?

Acabar com o quê? O que queres dizer?

Com isto tudo!

Com isto tudo! Com tudo mesmo!

Meu Deus, Otto!

- Isto vai acabar! - Otto!

Sim, tens de ir ter com a Maria e deitar-te com ela.

O que estás a dizer?

Estou a dizer que tens de te ir deitar com a Maria.

Deitar-me com a Maria, como?

É muito simples. Ela vive só.

Se tu só tens um único desejo, que tudo isto acabe, tudo acabará.

Não haverá mais!

Isso é uma loucura, Otto!

Meu Deus, Otto!

Tu não percebes nada!

É verdade!

É uma verdade sagrada.

Acontece que ela tem qualidades muito especiais.

Eu reuni provas. Ela é uma bruxa.

Em que sentido?

No bom sentido.

Estás a gozar comigo?

Continuas com as partidas do Nietzsche?

Há alguma outra saída?

Não há alternativa.

Nenhuma.

Que alternativa, Otto? Que alternativa?

De que estás a falar?

É melhor ir-me embora.

Deixei a bicicleta para ti, ao pé do alpendre.

Não leves o carro, eles podiam ouvir-te.

Deixei uma escada encostada à varanda.

Vai ter com a Maria.

Mas tem cuidado...

A roda da frente tem dois raios partidos.

Uma vez, a perna da calça ficou lá presa.

Quase caí na água.

- Que perna da calça? - A direita.

Tem cuidado!

Percebeste finalmente o que eu disse?

Ouves o que estou a dizer?

Sim, porquê?

Não... Nunca!

Em todo o caso, prefiro Piero della Francesca!

Pelo que percebi, o Alexander queria dizer que era estranho

que uma pessoa, de sua livre vontade, se transforme numa obra de arte.

O resultado de todo o esforço poético

cai de forma tão grande em cima do seu criador

que somos levados a acreditar que a obra de arte é feita pelo homem.

Mas no que diz respeito ao actor, é exactamente o contrário.

É o próprio criador que é a sua própria obra de arte.

- Desculpem-me, eu volto já. - Não demores muito, por favor.

Ainda sobra muito gás? Quanto tempo vai durar?

Não sei, tenho de verificar.

Trouxeram tanques cheios há uma semana.

Lembras-te?

Júlia, vem cá!

Quem é?

Sou eu.

Sr. Alexander?

Aconteceu alguma coisa?

Que fazemos aqui parados? Entre!

Foi sorte tê-lo ouvido bater.

A querosene acabou e levantei-me para encher a candeia.

Aconteceu alguma coisa?

Por que não diz nada?

O que é? Aconteceu algo em casa?

Claro que algo aconteceu de novo na sua casa.

Não é verdade?

- Não tens televisão? - Sim, uma pequena.

A imagem desapareceu às 11 horas e não voltou mais.

O que lhe aconteceu às mãos?

Caí da bicicleta.

Veio de bicicleta?

Sim, vim e caí.

Venha!

Não pode andar por aí de mãos sujas.

Obrigado!

De nada.

Já conheço este prelúdio desde criança.

A minha mãe adorava-o.

Quando ainda não estava casado,

visitava com frequência a minha mãe lá no interior.

Enquanto ela ainda estava viva.

A casa dela era um pequeno chalé no meio de umjardim.

O pequeno jardim,

terrivelmente negligenciado e coberto de vegetação,

não era cuidado por ninguém há muitos anos.

Nem sequer acredito que alguém lá tenha ido uma vez sequer.

Nessa altura, a minha mãe já estava muito doente.

Ela mal saía de casa.

Ainda assim, no meio do jardim em ruínas

havia algo que, de alguma forma, era muito belo.

Agora sei o que era.

Quando o tempo estava bom, ela sentava-se com frequência à janela

e olhava para o jardim. Até tinha uma poltrona lá encostada.

Um dia decidi pôr tudo em ordem...

No jardim, claro.

Quis cortar a relva, queimar as ervas daninhas, podar as árvores...

No fundo,

fazer algo a meu gosto com as minhas próprias mãos.

Só para agradar à minha mãe.

Nas duas semanas seguintes, caminhei para lá com podões e uma gadanha.

Cavei, cortei, serrei...

Arranquei as ervas daninhas.

Sempre com o nariz no chão, literalmente.

Sofri muito para ter tudo pronto o mais depressa possível.

A minha mãe estava cada vez pior

e não saiu da cama o tempo todo.

Mas eu queria que ela conseguisse

sentar-se na poltrona

e visse...

...visse o seu novo jardim.

Em resumo,

quando acabei e já estava tudo feito,

tomei um banho,

vesti roupa lavada, um casaco novo, até mesmo uma gravata.

Depois sentei-me no cadeirão da minha mãe

para ver tudo com os olhos dela, como devia ser.

Sim,

sentei-me lá

e olhei pelajanela.

Preparei-me para usufruir da vista.

Então olhei pelajanela e vi...

Sim, o que vi eu?

Para onde tinha ido tanta beleza?

Tanta autenticidade?

Estava repugnante,

toda aquela evidência de violência.

Lembro-me uma vez quando a minha irmã era pequena,

ela foi ao cabeleireiro e mandou cortar o cabelo todo.

Era a moda na altura.

Ela tinha um cabelo lindíssimo,

cor de ouro como a Lady Godiva.

Chegou a casa felicíssima.

Depois, o meu pai viu-a. Começou a chorar.

Acho que foi mais ou menos o que se passou com o jardim.

E a sua mãe?

São três horas!

Não temos tempo...

E a sua mãe? Chegou a vê-lo?

Maria...

Deve ser muito desagradável para ti ter-me aqui contigo.

Não podes dormir.

O que quer dizer?

O que quer dizer?

Poderias...

Poderias amar-me, Maria?

O que está a dizer?

Ama-me, peço-te! Salva-me.

Salva-nos a todos!

Sei quem tu és. Ele... Ele disse-me.

Por favor, por favor...

Salva-nos, imploro-te!

O que está a dizer?

Vá!

Vá para casa!

Quer que eu vá consigo?

Também tenho uma bicicleta.

Não nos mates!

Salva-nos, Maria!

Porquê?

Pobre, pobre homem!

Porquê? Não, assim não!

Pobre homem. Não tenha medo.

O que se passa?

Quem o assustou tanto? Calma, calma.

Eu compreendo. Eu compreendo que se passa algo em casa.

Eu conheço-a, ela é cruel.

Eu conheço-a. Elas feriram-no, assustaram-no.

Não tenha medo, não tenha medo de nada.

Está tudo bem, tudo bem.

Calma.

Não tenha medo. Não tenha medo de nada.

Está tudo bem, tudo bem.

Pobre homem, pobre homem!

Pronto, pronto...

Não há nada de que ter medo.

Não tenha medo, aqui não lhe acontece aqui.

Não chore, não chore.

- Vai ficar tudo bem. Ame-me. - Sim.

Pobre querido, o que lhe fizeram?

Não...

Calma!

Não posso. Não posso.

- Bebe isto. - Não.

Vai já acabar.

Quem te assustou tanto?

Mamã!

Estou?

Estou? É o Martin?

É. Quem fala? És tu, Alexander?

Sim, claro que sou eu!

Há algo de errado com a tua voz. Mal se ouve.

É verdade. Agorajá me ouves melhor?

Sim, está melhor.

Só queria perguntar-te se o editor está ou...

Claro, Alexander, mas acho que ele não te pode ver hoje.

Não imaginas como as coisas estão por aqui. Espera...

Tens uma reunião com ele na próxima semana.

Sim, não era nada importante. Só pensei...

Era só umas coisas sem importância. Não faz mal, eu...

Eu telefono amanhã.

Está bem, até amanhã. Parabéns!

De quê? Sim, claro!

Mãe, sabias que o nosso Viktor vai para a Austrália?

O que disseste?

Sim e não vai voltar.

Ofereceram-lhe um lugar numa clínica lá. Ouvi isso ontem.

Não é verdade, Viktor?

- De que te estás a rir? - Não me estou a rir.

E quando decidiste isso?

Da Austrália?

Deves estar completamente louco!

Não sei por que calhou ser a Austrália.

Não sei.

Não tem importância.

Estou simplesmente cansado.

Está bem! Mas o que vai ser de nós?

E do Alexander?

Mas é exactamente de vocês que eu estou mais cansado,

mais do que tudo no mundo.

Cansado de ser vossa ama-seca.

Ama-seca e responsável por vocês.

Cansado de vos apaparicar.

- O que estás a dizer? - Desculpa!

- Posso fumar? - Estás louco!

Marta, sai daqui!

Vai!

Mãe, já não sou nenhuma criança.

Diz ao teu pai para descer para o pequeno-almoço. Já deve estar acordado.

- Sim, mas... - Meu Deus, é pedir demasiado?

Está bem, eu vou.

Ela é assim. Tão calculista...

Não te deixo saíres daqui, Viktor!

Não sei o que a mãe sente, mas eu não te deixo partir!

Há algo de errado em tudo isto. Estou cansado disto.

Sim, sim.

Podes esquecer-te de mim,

da Marta e do rapaz!

Mas o Alexander é teu amigo!

- E sempre será. - Mas ele precisa de ti!

Ele tem uma mulher que pode muito bem tomar conta dele.

É o que ela devia, pelo menos.

Ele tem uma família, uma casa fabulosa, um filho que adora.

Pois muito bem!

Júlia!

Vai buscar o casaco da tua senhora, ela está com frio.

Tão atencioso!

Homenzinho! Onde está o Homenzinho?

Ele trancou-se lá dentro e deixou este bilhete!

Deixou mesmo?

"Meus queridos, dormi mal durante a noite, não me acordem.

"Vão passear. O Homenzinho mostra-vos a árvore "japonesa" dele

"que eu e ele plantámos ontem. Ou foi hoje?

"Não me lembro, mas não tem importância.

"Beijo-vos a todos. Tomei os meus comprimidos.

"Perdoem-me, mesmo agora.

19 de Junho de 1985. 10:07 horas. Papa A."

Não devíamos dar um passeio antes do tempo piorar?

"Perdoem-me, mesmo agora"... O que quer ele dizer com isso?

"Perdoem-me, mesmo agora. "

E porquê dar a hora exacta?

Mãe, tu sabes como ele é.

"Como ele é... "

Devo pensar que a bondade "dele" seria o suficiente para todos nós,

mesmo até ao amargo fim.

Ele andará por aqui mais tempo que isso. "Como ele é... "

O que disse agora de errado?

Tens bondade suficiente por "ele"?

Está bem, Viktor, mas por que tem ele de ser tão criança?

Talvez eu também queira ser criança!

Todos queremos muitas coisas neste mundo!

Eu, por exemplo, quero ir para a Austrália.

Agora quero que reunas as cinzas,

as ponhas num copo, enchas com vinho e bebas.

- Porquê? - Não sei.

Alguém disse isso.

Então, lembrar-te-ás disso o resto da tua vida.

Vamos.

Júlia, vem connosco! Traz o rapaz e vamos!

Tive um sonho na outra noite.

Andava pelas ruas, a mendigar.

Depois acordei e chorei, chorei...

O rapaz não está em casa!

Ele foi à frente. Acho que sei onde está.

Que espécie de árvore japonesa?

Ele e o rapaz estão doidos com o Japão deles.

Que história é esta do Japão?

Primeiro a Austrália e agora o Japão!

Meu Deus, acho que não aguento mais!

Ouviste-o esta manhã?

Levei-lhe café esta manhã e pus música,

mas ele não quis ouvir a sua preciosa japonesa. Ele desligou-a.

Ele disse que ele e o rapaz foram japoneses numa vida anterior.

Eu gostava que alguém lhe dissesse o que fazer nesta vida!

Provavelmente é uma necessidade interior profunda.

Talvez seja mais fácil para ele viver assim...

Por que não penso em algo que torne a vida mais fácil?

Não pensas?

Tenho a sensação que estás sempre a pensar em esquemas para esse fim.

Seja com for, nunca descobri nada tão rebuscado como a Austrália.

Meu Deus, o que é isto? É absurdo!

Não entendo.

O que lhes fiz eu? Onde estão eles?

Alexander!

O que aconteceu?

Sou eu que estou farto! Não te preocupes. Ouve-me, Viktor.

Quero dizer-te algo muito impor...

Não, silêncio!

Não digas nada! Não perguntes nada!

Vem, Alexander. Não podes ficar aqui!

Deixe-o. O que lhe está a fazer?

Não lhe toques!

Alexander, peço-te...

Deixe-o!

Até à vista, Alexander.

No Princípio, era o Verbo...

O que é isso, papá?

"Este filme é dedicado ao meu filho Andriosha"

"Com fé e confiança" Andrei Tarkovsky

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