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Original subtitles

[música dramática]

[pássaros]

É nesse momento que a gente vai tá preparado pra começar

o segundo ato desse maravilhoso número de ilusionismo.

Como abrir uma caixa-forte com paredes de aço de 25 centímetros.

E o mais importante, sem que se perceba.

E que a gente consiga entrar e sair como se fossem portas giratórias

de um hotel cinco estrelas.

Um trabalho digno do ilustríssimo David Copperfield. [gargalha]

Keila, o que acontece quando tiver o controle das câmeras?

Vou gravar imagens do cofre e da antessala vazios

pra rodar em looping, se a gente precisar.

[música dramática continua]

Epa! Uma puta garrafa de champanhe francês.

[silêncio constrangedor]

Desculpa aí, foi mal.

Você gosta de champanhe, Bruce?

Sim. Eu não bebo todo dia, mas óbvio que eu gosto.

Então, de boa. Abre essa garrafa e se serve.

Não. Melhor num outro momento.

Não, não, não.

A gente já interrompeu a Keila, então eu...

Faço questão que você aceite o meu convite e que não falemos mais nisso. Vai, abre.

[Bruce suspira]

[borbulhas de champanhe]

Não, não, você precisa saborear.

Você percebe as notas cítricas que estalam na sua boca?

Sim, é. Eu percebo as notas.

Claro, com certeza.

[expira]

Não, não, não.

Olha só, o champanhe é uma bebida espumante,

e, uma vez aberto, ele começa a perder sua essência.

Você vai terminar a garrafa, por favor.

[música de tensão]

- [expira] - [música aumenta]

[engolidas]

[música de tensão se intensifica]

[engole com dificuldade]

[suspira]

A gente pode continuar com o plano?

- Ou quer beber mais alguma coisinha? - Não, tô de boa.

[música de tensão diminui]

Psiu. Come, senão vai ficar enjoado.

Suponho que seja fácil confundir isso com uma classe no colégio, não é?

Onde alguém pode se levantar, jogar um giz e abrir uma geladeira.

Mas se isso parece uma classe, é porque a gente tá estudando um plano.

Mesmo que com uma diferença, um detalhe bastante importante.

Se alguém estragar tudo, se você estragar tudo,

não vão te deixar de castigo dando voltas no pátio.

Vão te jogar direto numa prisão, 16 anos, aqui na França.

E o puto que não souber do plano

tá colocando em perigo a vida de todos nós aqui.

[música de tensão encerra]

[música tema]

BERLIM

[música tema diminui e encerra]

[música dramática]

Como diz uma pessoa brilhante que me ajuda a conceber alguns golpes:

"Pra um roubo não tem um plano,

mas sim um plano de estudos."

[acordes de "Bella Ciao" tocando]

E por que essa pessoa não tá aqui com a gente?

Ele tá preparando seu próprio golpe.

Uma coisa primorosa.

Na verdade, metade da vida é pra prepará-lo.

Mas você tem razão.

Certamente devem se perguntar por que não recruto

ladrões com 20 anos de experiência pro lugar de vocês que estão aqui.

Por dois motivos.

O primeiro é porque ter um cérebro por golpe já é o suficiente, o do Damián.

E dois, porque

os ladrões profissionais têm mais ego que esperança. E nesse golpe o ego é meu.

[Berlim ri]

E a esperança é de vocês.

É tremendamente triste trabalhar com gente que não tem esperança.

No entanto, vocês ainda são maravilhosamente maleáveis.

E podem aprender o que eu quero que vocês sejam. Podem aprender o código.

Por exemplo, o Bruce,

nunca mais vai voltar a interromper uma aula, não é?

Não, senhor.

Mas, sobretudo, e esse seria o terceiro motivo,

porque quando a gente se rodeia de juventude e esperança,

rejuvenesce.

Não é verdade, Damián?

[ri]

O entusiasmo, o frescor,

a beleza.

Tudo o que faz valer a pena viver.

Por isso preparo os planos em uma suíte de um hotel cinco estrelas superior.

Não em um hangar, ou em um apartamento do subúrbio,

como ladrões que se escondem que nem ratos e se vestem de preto.

Porque, se nos metralham nas portas dessa casa de leilões,

nós vamos deixar cinco lindos cadáveres.

E o do Damián.

Obrigado pela parte que me toca.

E agora, se ninguém mais quiser interromper...

Keila, continua, por favor.

O que acontece quando tiver o controle das câmeras da casa de leilões?

Como eu tava dizendo.

Vou gravar imagens do cofre e da antessala vazios

pra rodar em looping se precisar.

Gravando.

Assim vou botar as imagens com os lugares vazios nos monitores dos guardas.

Se o Polignac

entra no cofre pra guardar as joias do leilão, o que a gente faz?

Deixa que as câmeras mostrem isso em tempo real.

E se no lugar do monsieur, entrarmos nós pra roubar?

Coloco as gravações, e os guardas vão ver o cofre sem ninguém.

Rodando em looping.

PRÉ-GRAVADO

- [ruídos da estação de limpeza] - [música de ação]

[Berlim] Programa gravado ou programa ao vivo?

Você acha que tá vendo a realidade,

mas não é o correto.

Porque ali tem meia dúzia de canalhas detonando o concreto.

[rindo] Eu sou um poeta.

Uma vez dentro da antessala,

cortaremos a parede de trás da caixa-forte pelas juntas que tão unindo o metal.

Um corte limpo, que vai descolar uma fatia de sete toneladas de aço.

- Como a gente vai cortar esse bloco? - Com o sistema mais preciso que existe.

Lanças térmicas deixariam um rastro de pegadas.

Mas imaginem: um fio que corte com a precisão de um diamante.

E um motor de tração dupla.

[música de ação]

[ruídos metálicos]

[Damián] Um corte com uma velocidade de 40m por segundo.

Esse vai ser o nosso sistema.

[música inquietante]

Já podem conectar o aço na grua.

Então, a gente vai soldar uns engates, para que uma grua levante tudo 50cm.

Onde a grua vai tá?

Exatamente em cima da caixa-forte.

A estrutura de ferro vai camuflar as duas roldanas que a gente vai colocar.

A grua vai levantar a fatia de aço como se fosse a porta de uma garagem.

Com um comando à distância, deixando o espaço perfeito

pra poder entrar.

[Keila] Looping do cofre ativado.

[ruídos metálicos]

[música de ação]

[música de ação se intensifica]

[animada] Isso!

Legal!

Keila, fala pro Berlim que a gente tá dentro.

[Keila] Berlim, o Damián pediu pra dizer que a gente tá dentro do cofre.

A gente conseguiu.

- [comemora] - [música triunfante]

A gente tá na porra do cofre, caralho.

[riem e comemoram]

Seguinte: fala pro Damián que ele é um gênio.

Que nesse ano ele leva o Oscar de melhor ladrão.

[ri]

Damián, o Berlim pediu pra dizer que você é um gênio

e que esse ano leva o Oscar de melhor ladrão.

[ri]

E vocês vão levar o de melhor grupo criminoso do ano.

E a gente vai levar o de melhor grupo criminoso.

E eu não me esqueci de você, craninha.

Você é uma gênia.

[ri sem jeito]

Como tá esse cofre, gente?

Vazio, como era de se esperar.

Quando chegar a última joia, a gente tem que tá pronto pro tapete vermelho.

[ri]

[Camille, no monitor] Patinha? Isso, meu amor!

Muito bem, muito bem. Você é lindo.

Mas isso só vai acontecer daqui a uns dias.

Até lá, vamos aproveitar Paris.

[música triunfante encerra]

Como foi seu dia, mon amour?

Me conta, vai. Você pensou em mim?

Na verdade, sim.

Eu pensei que eu gostaria de fazer uma coisa que eu não fiz nunca.

Sei lá, uma loucura.

Como o quê?

[jazz tocando ao fundo]

[sussurra] Fazer amor no banheiro de um três estrelas Michelin.

Aposto que ninguém nunca fez uma coisa dessas aqui.

Seria tipo um legado.

Sermos os primeiros em alguma coisa pelo resto das nossas vidas.

O que você acha?

[piano suave ao fundo]

[respira fundo]

[ri sem jeito]

- [tecido corta] - Ops. [ri]

[suspira]

[piano continua]

[suspira]

Agora pode me olhar nos olhos sabendo que eu tô sem nada.

Confesso que conseguiu me derrubar.

Te espero no banheiro das mulheres, então?

Não demora, hein?

[suspira]

- [música de tensão] - Uma mesa, por favor.

Meu marido.

Ele acabou de entrar.

O que eu faço?

Levanta agora e vai cumprimentá-lo.

Fala que tá com um chato, um marchand de arte,

que não aguenta mais e quer que ele te acompanhe.

Fala que sou inconveniente, esnobe, insuportável,

eu vou fazer esse papel. Não pensa, vai!

[música de tensão continua]

Monsieur Martínez.

Te apresento meu marido, monsieur Polignac.

Que coincidência a gente se encontrar no mesmo restaurante, né?

- Encantado. - Ele é o marchand de arte espanhol.

Lembra que comentei que hoje eu tinha marcado de almoçar com ele?

Uhum, uhum.

Se importa se ele sentar com a gente?

[música de tensão]

[música aumenta]

Tem algum problema? Eu te pareço insuportável?

Não gosta da minha conversa? Ou talvez seja muito pior.

Talvez seja tão egocêntrica que, já que sou amável e educado,

pense que tô aqui te cortejando.

Desculpa, não entendo o seu tom nem o que tá dizendo.

É simples, minha senhora.

Não precisa chamar ninguém pra te salvar. Eu me retiro sozinho.

Sou um renomado marchand de arte, esperava fazer negócios.

Não que abrisse a minha braguilha.

Abaixa o esse tom, toureiro.

Você tá passando dos limites.

Você tá num lugar público e com elegância a gente resolve tudo.

Ela é uma senhora respeitável.

[música de tensão aumenta]

Estamos entendidos?

[música diminui]

[suspira]

- Ok? - Sim, claro.

Aproveitem a sobremesa.

[música de tensão encerra]

- [música animada] - [Berlim e Camille rindo]

- O que é que eu fiz? - [Berlim ri]

O que é que foi aquilo?

Ai, eu juro que eu tava supernervosa.

Sei lá, minha bochecha tava tremendo,

a minha mandíbula tava supertensa.

E toda hora eu pensava: "Não, não,

certeza que a calcinha vai sair voando."

Não.

- Eu tô ficando louca. - Não!

Me sinto superculpada por tá enganando o François.

Mas é que a situação é muito excitante.

Vamos sair de Paris.

É. Pra um castelo, um balneário, pra onde for.

No fim de semana.

Hein? Só nós dois.

Como se o resto do mundo acabasse de desaparecer.

Assim? Sem roupa, sem nada?

Amor, estamos em Paris. Aqui é o ápice do prêt-à-porter.

Fora que vai precisar de umas peças de roupa de baixo.

- Dá isso aqui. - [risos]

E o que digo pro meu marido?

A gente combinou de passar uns dias

na casa de campo que a gente tem em Chantilly.

[suspira]

Fala que acabou de saber de uma viagem de trabalho relâmpago,

e que não vai dar tempo nem de passar em casa.

- [música suave] - [ri e suspira]

Você lembra que eu te disse

que eu não dormia porque

tinha pena de perder alguma coisa maravilhosa nesse tempo?

Eu não tenho mais essa sensação.

Agora eu sinto que...

Tudo que eu sempre quis viver eu tô vivendo.

E que é com você.

Porque no meio de oito bilhões de pessoas,

estamos aqui, você e eu.

[música suave continua]

[Keila] Tim, tim!

[risos]

Eu vim aqui pela primeira vez há muitos anos, com a minha mulher.

Em um Dyane 6. E desde então somos uns "afrancesados".

É baguette todos os dias.

- O croissant no café da manhã. - Merci.

E quando podemos, uma garrafinha de borgonha.

Nossa, tá bonito, hein? Posso provar?

- [Cameron] Ah, le petit pois! - [Roi] Oui monsieur!

- [música inquietante] - [risos ao fundo]

A gente podia pedir um adiantamento do golpe?

- E pra quê? - Pra esses quatro dias.

Tem um festival de música eletrônica em Nova Orleans très cool.

- Eu ia ama curtir isso. - "Em Nova Orleans"?

Sabe onde fica Nova Orleans?

Tanto faz ficar uma hora dentro de um ônibus ou 20 num avião,

se for por uma boa causa.

E qual é sua "boa causa"?

Se divertir, ué.

Aventuras absurdas que não sabe como vão acabar.

Vem você comigo.

Paris-Nova Orleans. Você vai ficar surtado.

[música inquietante aumenta]

Não, eu meio que prefiro as aventuras que sei como vão acabar.

Você é chato pra caralho.

[zombam]

Dá na mesma, se não vai pra Nova Orleans, a gente fica aqui comemorando.

- Se é pra comemorar. Champanhe, né? - Isso, champanhe.

Pra mim, não. Acho que não gosto tanto assim de champanhe.

[risos]

[suspira]

Que merda. Isso foi foda.

[música inquietante aumenta]

Tá supergostoso.

- [celular tocando] - Opa! É a minha mulher.

Todo mundo é estudante da Sorbonne. E ninguém fala a nossa língua.

- Oi, meu amor. Como você tá? - [esposa] Oi, Damián.

Olha só, você me pegou tomando uns drinques

com os alunos em um terraço em Paris. Que boêmio, hein?

- Ó, meus alunos aqui. - Salut!

- Oi, bonjour. - [Damián fala em francês]

[falando em francês]

Que moral, hein?

Ela falou que é um prazer assistir às minhas aulas.

Como manja de francês?

Morei uns meses aqui quando pequena, com a minha família.

Que foda.

Não imagina como Paris tá linda.

Super-romântica, como sempre.

Viu, o que você acha de, quando acabar a pós-graduação,

a gente se encontrar ali?

Como há 20 anos, hein?

A gente se beijou no último andar da Torre Eiffel.

É, eu lembro da tontura que te deu.

Bom. Valeu a pena, né?

- Eu tava aqui pensando. - Uhum?

Não foi fácil tomar essa decisão, mas eu acho que...

Vai ser melhor se a gente se separar, Damián.

["Et Maintenant" de Gilbert Bécaud tocando]

Damián, você tá me escutando? Tá tudo bem?

Sim, sim, sim, sim. É.

Eu, eu entendo você pensar isso.

Eu também penso, às vezes,

que seria melhor a gente se dar um espaço maior.

Ter novas perspectivas. E voltar mais forte.

Com esperança, né?

Como um novo começo.

A gente já tá há um tempão dando espaço um pro outro.

Com suas aulas pelo mundo, seminários. As obras de caridade em ONGs.

Tô falando de um final definitivo.

[música melancólica francesa continua]

Desculpa, não tô conseguindo processar a notícia,

você sempre me disse que eu sou o amor da sua vida.

E você é o meu. E a gente falou disso faz quatro ou cinco meses, não?

Você pode até ser o amor da minha vida.

Mas não significa que a gente tem que ficar junto pra sempre.

[suspira]

[música continua]

Mas...

Mas ser o amor da sua vida e se separar é até ridículo, vida. Não...

- [ri de nervoso] - Não me chama de "vida", por favor.

Tá, tá bom, Carmen, me desculpa, é o costume.

Acho que é melhor não me ligar por um tempo, tá?

[ligação encerra]

[música se intensifica]

- [música diminui] - [Damián suspira]

É, Paris nos traz muitas lembranças.

A gente vai pra balada. E aí, você vem ou não?

O que vocês querem? Que eu encha a cara de shots

e dance com umas universitárias no bar Coyote?

Não, não, obrigado. Eu fico vigiando os monitores.

Eu também fico. Aí eu te faço companhia na vigilância.

[ambos] É sério?

Sim.

- Keila? - Sim.

- [Bruce] "Sim" o quê? - [Keila] Que sim. Vamos, sim.

[Bruce] Vamos pra balada, cara!

[música encerra]

[celular tocando]

[Keila] É. Depois de uma semana.

ALUGUEL FRANÇA

Tão me ligando o dia inteiro, do aluguel da moto.

Não vão dizer onde caralho estacionaram?

Na boa, mano, esquece a moto, falou?

Essa gente fica ligando o dia todo, entende?

Se eu não devolver a moto, vão entregar meu passaporte na delegacia.

Bruce. Você tá prestes a roubar 44 milhões em joias.

- E tá preocupado com um passaporte falso? - Mas com a foto dele.

[música de tensão]

Se rastrearem os traços faciais pelos escâneres da polícia,

podem detectar que ele é fichado.

Agora vai me falar onde caralho tá a porra da moto.

Viu o que aconteceu com o champanhe?

O que o Berlim vai fazer quando sacar

que tão procurando minha cara com os escâneres da polícia?

É uma puta ponta solta, porra.

Então a gente tá fodido.

Ela tá com os ex-presidiários do padre.

Como é que é?

[música de tensão encerra]

["Heaven Can Wait" de Charlotte Gainsbourg tocando]

[música encerra]

[porta bate]

Trouxe pizza.

Sem anchova. E um borgonha que sei que você gosta.

Beleza.

Tá sem fome desde que falou com a sua mulher.

- Você discutiu com ela? - Foi tipo isso.

Mas o fato é que ela me deixou.

[música melancólica]

Bem-vindo ao clube.

[Damián ri]

Não pensa muito nisso, se puder.

[suspira]

No final, todas as relações acabam.

Uma relação é como um punhado de bons momentos

dentro de um grande fracasso.

Tipo o Titanic.

Como assim?

O Titanic. Isso é o amor.

Você começa dançando de alegria nos banquetes.

E com o tempo, tá na Fossa das Marianas.

Só tem uma tábua pra se salvar.

Um fica agarrado nela, passando muito frio,

mas o outro vai direto pro fundo do mar.

O jantar, todo o romantismo,

a trepada no carro.

O vapor, a mãozinha no vidro embaçado,

são os momentos bons dentro de um grande fracasso.

Fala como se tivesse 50 anos, três divórcios e duas hérnias.

[ambos riem]

Aquele cara te machucou tanto assim?

[música melancólica continua]

Um pouquinho.

Acho que foi isso que ganhei.

Dor por sabedoria.

E sabe que, se sobreviveu ao Titanic, você não tem que voltar.

Não, não. Isso não é sabedoria. Isso aí é a pessoa se render.

Não vou me render.

Vou voltar pra Espanha

e lembrá-la por que sou o amor da vida dela.

Tá bom. Mas só um conselho:

Tenha certeza que ela tá sozinha quando aparecer na porta.

Tá querendo me dizer alguma coisa?

A verdade, Damián.

É que, por mais linda que tenha sido a história de vocês, ela se gastou.

E sua mulher começou outra.

Queria se livrar da culpa pra poder aproveitar o novo amor.

Por isso que ela terminou por telefone.

Tomara que eu esteja errada.

Mas, se não, já disse: bem-vindo ao clube.

[hesita]

Fica aí vigiando. E come sua pizza. Eu preciso pensar.

[música melancólica continua]

[porta abre, fecha]

[Polignac] Olha aí, até que enfim chegou.

Eu tava esperando.

A gente precisa que todos os papéis do seguro estejam prontos.

Tudo bem? Você tem que fazer isso.

[homem] Sim. Eles estão aqui.

[música melancólica aumenta]

[respira fundo]

[música encerra]

[Camille] Eu adoro esse lugar.

Ele me passa tanta paz.

[suspira]

Tem tantos lugares em Paris que eu queria te mostrar.

Uns jardins japoneses,

onde você pode se perder e esquecer do mundo todo.

[riso suave] O mercado de Barbès,

onde os camponeses têm uns vinhos muito bons.

E o queijo artesanal. Gosta de queijo?

Eu morro por queijo.

[ri e suspira]

Às vezes eles levam até as ovelhas. [ri]

Ah, e tem um café, um café antigo.

Juro que nesse lugar o café é dos deuses.

É muito bonito lá.

Com aquelas cadeirinhas antigas

e o balcão de níquel.

Eu amo esses lugares.

Sempre que eu vou pra Madrid, eu volto ao mesmo lugar.

O Café Buenos Aires.

Grão brasileiro tostado por nós mesmos.

[ambos riem]

Simón?

Você acha que pode ficar mais uns dias aqui?

[música suave instrumental]

Eu posso não ir embora.

Posso deixar tudo.

Minha casa, meu trabalho, meus amigos.

O que é tudo isso perto de ter uma vida em Paris com você?

Tá falando sério?

Claro.

Eu ia amar.

[música suave continua]

[celular vibrando]

[música encerra]

FRANÇOIS

É o François.

Você se importa se eu atender?

Não, não, claro.

François?

Camille, você tá sozinha nessa viagem?

[música instrumental inquietante]

É que você deixou seu e-mail aberto no computador.

E eu passei o dia todo com um estresse enorme

recebendo os lotes de joias do leilão e... [suspira]

Uma hora eu vim pra casa pra trocar de roupa

e eu achei o seu computador ligado.

Eu li as suas cartas de amor.

Que ele te faz sentir coisas que você não sentia há anos.

E as músicas que você manda pra ele,

que são as que você e eu escutamos.

Pelo que eu vi, vocês passearam pelos mesmos lugares que nós passeamos.

E, de cara, eu li o nome dele. Sr. Martínez, o marchand de arte.

Aquele mesmo espanhol do restaurante.

François,

eu gostaria de conversar com mais calma, tá?

[ligação desliga]

[suspira]

Ele leu as nossas mensagens.

Ele viu tudo.

Preciso falar com ele.

Se importa de me deixar sozinha um tempo?

Não, não. Claro.

Me avisa quando você quiser que eu volte.

[música melancólica]

- [música melancólica encerra] - [música triunfante]

Toureiro.

Toma essa estocada, toureiro!

Vamos ver quem tá passando dos limites agora.

[música atinge ápice e encerra]

[música clássica tocando]

[música continua]

- Bonjour! - Bonjour!

O senhor joga? Nós precisamos de mais um.

Eu adoraria ficar jogando com vocês, senhoritas.

Mas eu estou totalmente tomado de amor.

- [mulher assente] - Agora só quero correr.

Então é isso.

- Corre, jovem, corre. - [Berlim] Au revoir!

Que rapaz simpático, não é?

[música clássica se intensifica]

[comemora]

- [música encerra] - [pássaros cantam]

[sino do elevador]

[música suave ao fundo]

[expira]

Entra. É um quarto de não fumantes e voltei a fumar.

Você tinha razão.

Minha mulher tá tendo um caso.

Eu não tinha reparado em alguns detalhes.

Na Semana Santa ela foi pra Sevilha.

E disse que ia com uma amiga pra ver as procissões.

Mas olha isso aqui.

Tá maquiada como se fosse na ópera.

Até diria com dois tons mais loiros no cabelo.

E essa foto com a amiga? Isso não é uma selfie. Quer dizer o quê?

Que tinha uma terceira pessoa com elas.

No verão, ela foi ver a mãe na casa da praia.

A Carmen sempre usou maiô, sempre.

Faz cinco anos, quatro, três.

E nesse verão, que eu não tô, ela vai de biquíni.

Uma canga e até uma bosta de uma flor na orelha direita.

Quem se fantasia de havaiana pra jogar damas com a própria mãe?

[suspira]

E essa semana ela esqueceu dois dias de mandar uma mensagem de boa noite.

Sei que vai dizer que isso é cafona, mas a gente sempre fez isso.

Já faz 20 anos.

E, fora isso, faz um ano que ela posta tudo o que ela faz no Facebook.

Onde um tal de "chacal70" sempre dá likes, em todas as publicações.

Like, like, like, like.

E um dia, em uma foto, colocou um foguinho!

O usuário "chacal70" manda um foguinho pra ela.

E olha isso. Nós temos um plano familiar de telefone.

Mas faz uns 10 meses que um número novo fica aparecendo na fatura.

Podia ser de alguém da família, a mãe, sei lá.

Mas tem um detalhe que me deixou com a orelha em pé.

Ela liga pra esse número quando tô fora.

Por exemplo, de janeiro a março,

de julho a setembro, não ligou, porque eu tava com ela.

Mas no dia 13 de outubro, às 20h16,

ela fez uma ligação de 47 minutos pra esse número.

Não seria uma coisa estranha

se não fosse por eu ter embarcado pra Paris às 20h.

E ela me acompanhou até o aeroporto.

É isso, ela me deixou que nem um cachorro e foi ligar pra essa porra desse número.

E agora, a prova conclusiva.

Nessa mesma noite, eu recebi uma mensagem

de um pagamento com cartão de 178 euros.

Eu pesquisei na internet.

E é de um restaurante.

Flor de Chacal. "Chacal", de novo.

Sabe o que significa "chacal", no México?

"Homem rude e de grande ímpeto sexual".

Quem gasta 178 euros em um mexicano?

Aí teve tequila. E um "chacalaço"!

Já deu.

[resmunga]

Por que você tá aqui?

- Chegaram todas as joias. - O quê? Que dia é hoje?

Segunda. Mas tem uma coisa muito mais importante que isso.

Amanhã eles tiram as joias pra avaliação e perícia.

Na quarta, tem uma apresentação pra imprensa.

A gente não contava com isso. E no dia seguinte é o leilão.

Tem que roubar hoje. Hoje à noite.

Onde é que tá o Berlim?

[celular tocando]

Roi? Roi!

[ri] Roi, eu tenho notícias maravilhosas.

Ela quer que eu fique em Paris.

E o marido acabou de descobrir tudo.

Ela ainda tava com o gosto do nosso amor quando ele ligou.

Tá falando de quem? Do Sr. Polignac, da casa de leilões?

Por favor. Esquece o leilão agora.

Tô te falando do plano pessoal.

Esquece por um momento do profissional!

Esse cara, ele acaba de ler as nossas cartas de amor.

Agora eu só preciso abrir os braços e esperar que ele jogue ela pra mim.

Talvez eu estique um pouco a escapada do final de semana.

Acho que não vai dar.

Por isso liguei. A gente tem que roubar as joias hoje.

- Por que hoje? - Chegou a última joia do lote.

A tiara de diamantes da Elena de Saboia.

Amanhã vão tirar todas as peças pra avaliação.

E depois vai ter uma sessão de fotos da coleção pra imprensa.

O roubo vai ter que ser hoje à noite.

Agora tenho que desligar, mas estarei aí.

[ligação encerra]

[música melancólica]

[suspira]

Me desculpa, meu amor.

Não, não. Por favor, eu que me desculpo. Como você tá?

Eu tô muito triste por ele.

Eu me coloco no lugar dele.

- Pobre homem, né? - Ele ficou em choque.

Foi muito doloroso pra nós dois.

E eu posso te perguntar o quê...

O que você contou pra ele?

Tudo.

[música melancólica continua]

Que a gente passeou nas margens do Sena.

Que a gente andou pelas ruas de Vespa,

se beijando em cada semáforo.

E que você prepara as melhores margaritas de toda a Paris.

[Berlim suspira]

Que a gente não dormiu,

que passou a noite fazendo amor.

E o que ele te respondeu?

Que com ele também aconteceu isso.

Que quando o amor chega como um vendaval,

não se pode fazer nada.

[música tensa]

E que, se é isso que eu tô sentindo, que eu viva.

E isso quer dizer o quê?

Não sei, eu acho que,

que ele quis dizer que ele não vai ser um obstáculo.

Ele é uma pessoa muito boa.

[música tensa aumenta]

Ele disse que quer te conhecer.

Como assim, "quer me conhecer"? O François?

[celular tocando]

[Camille] É. O François.

[desliga ligação]

Agora que ele sabe que você é o cara do restaurante,

ficou com vergonha de ter te chamado de "toureiro".

E quer se desculpar.

Uau. [suspira]

E não é que ele tem, é, empatia, esse François, né?

É que não é todo mundo que encararia assim

que sua mulher tá te deixando por outro homem.

[suspira]

Vem cá.

[expira]

Meu amor. Não se trata de escolher.

Me desculpa se eu te confundi, mas...

Eu não tava pensando em deixar o François.

Estamos juntos há oito anos. Ele é meu companheiro nessa viagem.

[suspira decepcionado]

É. Eu acho que você me confundiu, sim.

Isso me coloca em qual lugar, Camille? Eu não tô entendendo.

Você é a fascinação.

É o apaixonamento.

Os fogos de artifício que a gente sente no começo.

Com ele eu também senti.

E depois se transformou num amor sólido.

Que não sei se sou capaz de deixar.

[música tensa continua]

Sabe o que ele me disse?

Que, há três semanas, ele tá com uma ideia na cabeça, de ter um filho.

Que coincidência.

E justo agora tem que chegar esse amor tão brutal que sinto por você.

Em um momento assim das nossas vidas.

Faz anos que eu tô pedindo isso.

E nunca era o momento.

E agora que ele se decidiu,

eu me apaixono por você.

[ri de nervoso]

Não, tá tudo bem.

Mas isso, tudo isso, me abalou um pouco.

Eu preciso digerir, descansar.

A gente passou muitas noites sem pregar os olhos.

Eu acho que, eu acho que vai me fazer bem ficar sozinho, né? E...

Tudo bem se eu pegar outro quarto pra hoje à noite?

[voz abatida] Claro. Sim.

[suspira]

[música melancólica]

Pera aí.

Café da manhã amanhã?

É. claro.

[suspira]

[música encerra]

[música de ação]

[celular tocando]

Oi, Roi.

Tô a caminho. O que aconteceu?

Ok, Ok. É...

O Damián tá um pouco nervoso.

Ele me disse que te ligou e você não atendeu.

Mas se você já tá vindo, tá tudo certo.

E aí, você tá bem?

Na verdade, não, Roi. Não.

Eu não tô bem.

Eu sou o segundo prato.

Ela disse que tá apaixonada por mim...

Mas que vai ficar com o marido. Você entende, Roi?

- É, eu entendo, sim. - Ela disse pra mim...

Disse que eu sou a fascinação, né? Os fogos de artifício...

Mas o maridão é o "companheiro de viagem".

Então ele leve as malas, se quiser!

Antes eu era o segundo prato clandestino, né?

Com toda a beleza do subterfúgio,

de ser absolutamente distinto do seu marido. E agora eu sou...

Um fantoche.

"O consentido". Deus!

Não deve existir expressão mais asquerosa...

O sujeito me deu um passe livre pra continuar copulando com a mulher dele.

Tô cagando pra esses asquerosos casamentos abertos e amor livre francês!

Tá, é.

[suspira] Escuta.

Você sempre diz que tem que separar o pessoal do profissional.

E agora tá tudo misturado. Então...

Talvez devesse tentar esquecê-la.

Esquecê-la?

Tarde demais, Roi.

Eu a conheço há 15 dias, e essa mulher devastou tudo.

Bom, eu...

Eu não disse o pior: Agora ela falou que quer ter um bebê.

Engravidou ela?

Não, não, meu Deus, não, Roi!

Faz anos que ela quer.

Mas, óbvio, o maridão, nunca encontrava o momento.

Bom. Pois agora esse filho de uma puta...

quer fazer um filho nela para hipotecá-la e mantê-la ao lado dele.

Maldito farsante do caralho!

Tem que ser muito cretino pra negociar um bebê.

Ele se faz de compreensivo

enquanto pega uma quadra de embriões e bota em cima da mesa.

Mas vou te dizer uma coisa: Não vou deixá-la com esse ser medíocre!

Me escuta bem, Roi.

Vai buscar acetona e cândida pura. A gente vai fazer o clorofórmio.

Esse mequetrefe desse Polignac não tem ideia com quem ele tá lidando!

Ele acha que tá brincando de pinhata, né?

Só que ele vai tomar na cara uma bomba de 300 megatons!

[ligação desliga]

[música tensa continua]

Fodeu.

[música tensa encerra]

[música clássica tocando]

[música encerra]

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