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[música melancólica]
[passos ecoam]
[música melancólica continua]
- Tá tudo aqui, o que me pediu. - [mulher] Obrigada.
[trovões]
- [chuva] - [música melancólica aumenta]
[Berlim] Só duas coisas podem transformar um dia de cão num dia maravilhoso.
[motor liga]
A primeira é o amor.
E, de verdade, não era o caso.
[trovões]
A minha terceira mulher tinha acabado de me deixar.
- [sirene] - [pneu cantando]
A segunda é um golpe de mais de 10 milhões de euros.
Mas também não era o caso.
A gente ia roubar o passaporte pra um golpe muito maior.
O de hoje era simples.
Mas, se tá num dia ruim, pode acabar deixando um desgraçado de joelho
com uma arma apontada pra cabeça.
[rock animado toca]
Esse é meu grupo.
Um dos três com quem já roubei na vida.
Mas esse, pra mim, é especial, porque é o da minha época de ouro.
Quando ainda não tinha noção da doença.
E nem tava trancado que nem um rato
na Casa da Moeda com a vida por um fio.
[rock animado continua]
[Berlim] Essa é a Keila.
Engenheira eletrônica formada com louvor,
uma eminência da engenharia eletrônica.
Só tem uma coisa maior que o cérebro dela.
A timidez patológica.
Roi.
Tem um talento especial pra abrir fechaduras e ir pra cadeia.
Vai se foder, porra!
Odiava tanto a vida que tinha, que viu em mim um pai que nunca teve.
E eu vi nele a lealdade de um cachorro que você tira da rua.
Foi amor à primeira vista.
Damián.
Esse faz jornada dupla.
Professor universitário no horário comercial
e um gênio do crime no tempo livre.
Como todo gênio, bastante avoado.
Bruce.
É o nosso pau pra toda obra. Mexe com qualquer coisa.
Armas, guindastes que aguentam toneladas e lança térmica.
Você apostaria que não tem 10g de massa cinzenta no cérebro dele.
[grupo comemora]
Mas você perderia.
[rock continua]
- [burburinho] - [música encerra]
[homem] O que tá acontecendo? Que isso?
Muito obrigado.
Deixa eu ver aqui. Sr. Antonio Vals, por favor.
[música tensa]
[respira fundo] Sim, sou eu.
Eu tenho aqui uma ordem judicial, me acompanha, por favor.
[burburinho]
Eu sou acusado do que exatamente?
Expropriação de patrimônio histórico, contrabando de antiguidades,
apropriação de bens.
Seus crimes podem render ao senhor mais de nove anos de reclusão, Sr. Vals.
[burburinho]
[sussurra] Não são policiais.
[desdenha] Olha como se comportam.
Abre essa porta.
[bipes eletrônicos]
[porta abre]
[música instrumental suave]
[alarme da vitrine bipa]
Abre aquela vitrine.
Não me leva a mal.
É, você. Você não é policial, né?
[música tensa]
E você também não.
O que tá acontecendo?
Tá, vamos lá.
O que tá acontecendo aqui?
[fechadura desbloqueia]
Já se imaginou no chuveiro da prisão
falando com os internos sobre a arte etrusca?
Segurando o sabonetinho na mão?
[riso sarcástico]
Eu vou te dar uma boa notícia, eu não sou policial.
Mas, em troca de não denunciar o senhor, eu vou levar essa tacinha.
E vai ser o nosso segredo.
- Exijo falar com quem tá no comando. - Sente.
Não encosta em mim!
Mostra o distintivo e número da inscrição. Quem tá no comando?
Quem tá levantando a voz?
Eu.
- [suspira] - O que estão fazendo aqui?
Vocês não têm o direito de entrar aqui.
Eu conheço o Inspetor Morán e vou conversar com ele.
[Berlim] Claro.
Pegue seu telefone, por favor, e vamos falar com ele no viva-voz.
Claro.
Coloca ele em cima da mesa.
- [ri] Tá. - Eu desbloqueio.
[suspiros]
Nada.
Tá sem sinal nenhum.
Você queria ver meu distintivo, né?
[música tensa]
Tá aqui, ó: Beretta, nove milímetros.
E aqui tem outro distintivo: Parabellum, oito balas.
Quer que eu mostre mais algum distintivo?
Não. Não é necessário, senhor.
[música tensa aumenta]
- [música tensa diminui] - [Berlim suspira]
Os cemitérios estão cheios de imbecis que escolheram
um péssimo dia pra dar uma de valentões.
E se, por acaso, alguém tiver a tentação de denunciar essa excitante noitada,
por favor, peguem seus documentos pra sabermos onde moram.
Vamos logo.
Hum? E você aí vem com a gente.
[música tensa aumenta]
- [Berlim] Agora começa a vertigem, né? - [homem] Não, não!
Tá sentindo? Tá sentindo ou não o nó no estômago?
A boca seca?
Sim.
Pensasse nisso antes de me tratar que nem um merda lá dentro pra se fazer de herói
na frente da sua mulher?
- [chorando] Não! - [Berlim] Não? Da...
Da namorada?
Não queria levantar a voz, eu fiquei nervoso lá dentro.
- Te juro. - Se conhecem há quanto tempo?
Só dois meses.
Você tem noção do que acabou de fazer?
Não.
Essa é a grandeza do amor.
Ele tira o melhor da gente.
Até de um idiota como você, suplicando aí de joelhos,
e, há dois segundos, um herói gritando na minha cara.
[suspira]
Mas o amor,
ele acaba, imbecil.
[música dramática]
O amor acaba.
E não vale a pena perder a vida por ele.
[homem chorando]
- [porta fecha] - [chora]
[música encerra]
[música tema]
BERLIM
[música tema diminui e encerra]
[rock animado toca]
POR FAVOR, NÃO PERTURBE
[música clássica ao fundo]
Tem uma mulher nova no grupo.
Falou que iam ser só cinco. Desculpa, o que você faz?
[Berlim] Nada. Ela veio olhar e ficar quietinha.
Como uma estagiária de ladra.
Ela é...
Desculpa, que nome você escolheu?
- Cameron. - [Berlim] Cameron.
Dirige no limite, vive no limite e é pura adrenalina.
Mas não é por nenhuma dessas habilidades que ela tá com a gente.
É por uma coisa muito mais dolorosa.
Você pode sentar com seus novos companheiros, por favor?
Devem tá se perguntando o que a gente faz nesse maravilhoso hotel de Paris.
[fala abafada] O que vamos aprontar nesse lugar deslumbrante?
NÃO OLHE PRA MIM
[música clássica aumenta]
[música diminui]
[suspira]
Pois bem, a gente está aqui pra estudar um golpe que vai chocar a Europa inteira.
Tudo começou há dez dias em Madrid.
Com o roubo deste objeto: Um cálice do século 4o.
Um tesouro da arte sacra francesa.
Do jeito que ele está, vale 40 mil euros.
Mas agora, vamos fazer com que valha 44 milhões.
Damián?
- [Damián grunhe] - [estalidos metálicos]
Ele é só o passaporte pra gente roubar esses 44 milhões em joias.
Esse vai ser nosso grande número de ilusionismo.
Como transformar esse cálice em 63 joias das famílias reais europeias
espalhadas agora mesmo por 34 cidades?
Zurique, Viena, Milão, São Petersburgo.
Mas a gente vai levar um tempinho pra roubar em 34 cidades.
Concretamente, uma única tarde.
[Damián] Mas, antes, a gente vai envelhecer essa relíquia de bronze
com cloreto de amônio.
[líquido borbulha]
[música triunfante]
[música encerra]
Padre Toureaux. Eu sou o Dr. Santana,
da Universidade Politécnica de Salamanca.
O Prof. Vázquez, expert em arte sacra.
E eles são os técnicos de georradar e escavação.
É um prazer conhecer vocês.
- O senhor fala minha língua! - Aprendi com minha mãe.
- Que maravilha. - Sei quem vocês são.
Eu pesquisei na internet. [ri]
Ele vai pesquisar
as mais de 650 referências que coloquei na internet
sobre o nosso "trabalho arqueológico".
Escavações, livros esgotados, publicações em revistas científicas,
descobertas e prêmios.
- Acompanhem-me, por favor. - Tá. Com prazer.
Bom dia, rapazes. Como estão? Ótimo trabalho.
Mas podem nos deixar sozinhos, por favor?
Ajudamos na reintegração de ex-condenados. Esses estão no regime semiaberto.
Aqui, a gente oferece um trabalho
pra essa segunda oportunidade que eles terão de viver em sociedade.
- Que trabalho maravilhoso. - Com certeza. Muito nobre, padre.
Encontramos no arquivo da Catedral de Santiago as referências documentais
atribuídas a uma antiga igreja situada nesse mesmo local.
E essa referência descrita por peregrinos se repete em um códice dos beneditinos.
Entre papéis e latinices, perturbaremos tanto ele
que ele não terá tempo de pensar.
E o códice da igreja colegial de Saint-Martin-des-Champs.
Aqui, onde está: "Agnus Dei, qui tollis peccata mundi."
[música orquestral]
Mas eu não entendo.
Esse códice é do século 5o,
e a minha igreja foi fundada em 1240.
Se nossas investigações estiverem certas,
a igreja mais antiga de Paris não seria a abadia de Saint-Germain-des-Prés.
Mas a que o senhor tem aqui embaixo.
E o que acontece com um sacerdote, apaixonado pela sua igreja,
quando dizem que ele pode ter um tesouro de valor incalculável embaixo dos pés?
Ele fica no cio que nem uma cachorra. [ri]
[música triunfante]
E por que não descemos na cripta com o georradar, já que vocês o trouxeram?
Não acham boa ideia?
[Roi] Beleza.
- [música diminui] - [georradar bipa]
[bipes aceleram]
[Keila] Espera.
[bipes acelerados]
O georradar acabou de detectar uma fundação.
A vantagem de usar um georradar é que, por mais que alguém olhe,
ninguém entende patavinas do está indicado na tela.
A uns cinco metros de profundidade.
Daí o padre Toureaux
vai olhar pra gente, buscando pistas pra entender o que está acontecendo.
E vai ver nossos olhinhos brilhantes. A emoção contida.
E vai compreender que está diante de um momento histórico.
Acho que são silhares.
E isso pode ser um arco em semicírculo.
E assim que tiver o doce na boca...
- [imita explosão] - [música para]
A gente estoura a bexiga.
Não tá claro.
Como assim, o que "não tá claro"?
O georradar ter detectado escombros
não significa que aí embaixo tenha uma fundação.
Precisamos de mais evidências pra montar uma escavação.
[Berlim] A gente tem que fazer com que ele tenha uma fé inabalável.
Não é só com a fé que faremos ele engolir uma escavação arqueológica falsa.
Para isso, falta uma coisa palpável.
E por que a gente quer fazer uma escavação arqueológica falsa numa cripta?
Porque essa cripta tem um acesso oculto.
Para as catacumbas de Paris.
Uns 300km de túneis, 20m abaixo da terra,
que levam a gente pra qualquer canto da cidade.
E onde nós queremos chegar é exatamente...
aqui.
A 45 metros da cripta.
Pra onde todas essas famílias aristocráticas europeias
terão mandado suas joias
para que o tio Berlim leve tudo pra casa.
E o que tem aí? O cofre de um banco?
- Não. - Um museu?
[Berlim] Não.
A casa de leilões mais importante de toda a Paris.
E só tem um problema.
[hesita] Um problema?
As joias não vão chegar todas de uma vez.
Elas vão chegando pouco a pouco, vindas dessas 34 cidades.
Tá, mas, peraí. Então como a gente vai roubar tudo na mesma tarde?
Ué, averiguando quando chega o último envio.
Por isso nós estamos aqui. Nesse hotel.
Aí em frente mora o monsieur Polignac, o diretor da casa de leilões.
Só ele sabe a data e a hora com precisão.
- Por que não experimenta outra coisa? - Gosto assim.
- [Cameron] Tem certeza? - [Keila] Tenho. [tosse]
A gente tem que se vestir como se fosse num casamento?
Keila.
Muitos ladrões têm o hábito estúpido de se vestir como ladrões,
ou com uma "roupa confortável".
Que nem essa gente que coloca moletom pra viajar de avião.
Mas, sim, se você vai abrir a fechadura de uma porta
num bairro nobre de Paris, é melhor estarem vestidos de gala.
Não acham?
E, com esse bolo, quem vai pensar que vocês são ladrões?
[assobia]
[suspira] É, Roi.
Vai se surpreender com o que vou dizer, mas até o amor tem suas zonas proibidas.
É que eu te vi, assim, com os olhinhos brilhando pra Cameron.
Não. Não, imagina.
Foi ela que olhou pra mim. E eu só me afastei.
Isso, se ela te olha, você se afasta. Que bom que entendeu perfeitamente.
[pigarreia]
Olha só. Essa menina carrega nas costas um caminhão de problemas,
que não é hora de falar.
Um deles é uma internação em uma clínica psiquiátrica.
[hesita] Como eu não fico bem no papel de pai,
é você quem vai fazer.
Quero que cuide dela.
Mas sem olhadelas nas tatuagens e a uma distância segura, de respeito.
Você entende o que eu quero dizer?
Sim, senhor.
Muito bem.
[música de ação]
[Damián] Atenção.
Eles estão saindo de casa. Se apressem.
[Damián] Bruce, segue pra ver se eles voltam.
[música de ação continua]
[Damián] Estão muito duros.
São um casal que tá indo pra festa na casa de um amigo, não pra um funeral.
Você tá muito em cima. Minha mão não alcança.
Tô te cobrindo. Estão vindo duas pessoas.
Assim não vai dar.
Tô tentando enfiar uma chave num buraco de 11 milímetros.
Que porra é essa?
Vamos ver se não alcança.
SEM SINAL
Porta aberta.
Keila, é a sua vez.
Oi! Espera por mim, gente!
[Cameron] Chérie!
- Bonjour. - [Keila] Bonjour.
Roi, sobe pela escada.
[música de ação continua]
[Roi] São três fechaduras.
[bipe agudo]
[furadeira liga]
Cuidado, que tem um vizinho entrando.
[ruído elevador]
Rápido.
[Keila] Aqui!
[furadeira]
- Feito. - [fechadura abre]
Primeira.
[música de tensão]
[bipes eletrônicos]
[bipes continuam]
- [fechadura abre] - Segunda.
Cameron.
[bipes contínuos]
É 6578.
Aberta.
[bipes de alarme]
[alarme desativa]
[música tensa diminui]
[rosnado]
[música de tensão]
- [latido] - [Keila assusta]
[furadeira ao fundo]
E aí, chegou o sinal?
[Damián] Chegou.
Tá. Tá me vendo?
Tô, sim.
Ok.
[furadeira continua]
[latido]
[bipe monitor]
[bipe monitor]
[furadeira]
[aspirador]
[grunhido]
[latidos]
[bipe monitor]
As 12 estão ativas. Todo mundo pra fora.
Vamos indo.
- [ruído de chaves] - [música tensa]
[clique ecoa]
[sussurra] Se esconde.
Fodeu. Tá vindo alguém.
[sussurra] Vem.
O alarme, Keila.
[suspira]
- [alarme liga] - [porta destrava]
[música tensa aumenta]
- [latidos] - [bipes do alarme]
[rapaz] Quentin!
[alarme desativa]
[rapaz] Pronto. Vem, Milo.
Vamos achar o Quentin. Quentin?
Quentin? Vem cá!
Quentin!
- Quentin? Quentin. - [pede silêncio]
Quentin!
Psiu!
- Quentin! - [cachorro fareja]
- [Quentin rosna] - [Cameron] Au.
[resmunga baixo]
[rosna]
Quietinho.
[tecido rasgando]
- Xiu. - [Quentin late]
Ah, você apareceu. Quer brincar?
Vamos, vamos.
Vem, garoto, vamos passear. Milo?
[rosnado baixinho]
- [Roi] Vaza, vaza! - Vem cá. Vamos, vem aqui.
Vamos, vem cá. Vem, vamos!
Vem, Milo. Vem aqui.
Vamos sair, isso, vem. Vamos indo, vamos.
[música tensa]
[respiração ofegante]
[Damián] Pronto. Saiu.
[bipes contínuos]
[alarme desativa]
[suspira]
Aonde vai com essa bota, mosqueteira?
[música divertida]
Ok. O rapaz tá na rua, podem sair.
A gente pode conversar?
- Claro, entra. - Não, prefiro ficar aqui.
Sou toda ouvidos.
Ia falar antes, mas a gente tava microfonado.
Quando eu tava forçando a fechadura da casa
e você apertou a minha bunda,
pareceu que passou dos limites.
E não tô falando porque tenho problema com você, tá? Não é isso.
Eu só prefiro que a gente tenha uma relação profissional.
Era profissional. Pra te ajudar a abrir uma fechadura.
Mas não se preocupa, mensagem entendida. Au revoir.
E também consegui ver, pelo espelho, você me olhando enquanto eu me trocava.
Uma coisa bizarra. Né?
Tava tentando registrar alguma imagem excitante.
Às vezes eu tenho insônia, e aí, é bom
uma siririca.
Você sabe, pra dar um soninho.
Existe remédio pra isso.
Ah, é?
Pra insônia, eu tô dizendo.
Tá ótimo, então. Anotado.
Mais alguma coisinha?
Que não tenha nenhum tipo de confusão.
"Confusão", tipo o quê?
Tipo uma relação,
ou uma tentativa de relação,
ou uma suposição sobre uma possível relação.
Claro.
Sabe qual foi minha última relação?
A primeira.
E, desde então, a única coisa que vejo num cara quando transo com ele
é o prazo de validade.
Aqui, ó, na testa.
25 de outubro.
Então fica tranquilo que não vai ter nenhum tipo de "confusão".
- Estamos entendidos. - Tudo entendido.
Por que não desce no lobby e toma um leitinho?
Tá tão elegante com esses oculinhos de Harry Potter.
Não tem nada de grau.
Eu uso porque eu fico bem. Eu ganhei do Berlim.
Ai, o Berlim.
É, a gente é amigo há muito tempo. E sou tipo o braço direito dele.
E você faz tudo o que ele manda?
Porque foi ele que te disse pra deixar "tudo entendido".
Você é obediente, né?
Sou. E ele me pediu mais uma coisa. A partir de hoje eu sou sua babá.
Porque parece que você é um pouquinho desequilibrada.
[ri]
Então, na boa? Se comporta direito, tá?
Senão quem fica sem leitinho é você.
[música suave provocante]
Boa noite, senhor braço direito.
- [música continua] - [sino elevador]
[suspira]
[música encerra]
[ruído eletrônico]
[porta abre]
Alguma novidade?
Estão dormindo. Por que você tá acordado?
Sei lá. Eu não consigo dormir.
Tem notícias dela?
O endereço do advogado e o número da conta.
[ambos riem]
Bom. O terceiro divórcio é mais difícil que o primeiro,
mas tem que pensar positivo:
talvez tivesse que acabar porque não era uma história boa.
Olha. Eu tô há 24 anos com a minha mulher.
Mas, antes de encontrá-la, tive duas histórias de merda.
- O amor da sua vida vai aparecer. - Não, não.
Por favor, eu te peço. Não vai por aí.
"O amor da sua vida" é uma puta mentira!
Me perdoa por dizer isso, tá?
[suspira] Mas o amor se gasta.
A única coisa que faz sentido é o início.
Isso é o maravilhoso.
Quando todas as músicas te falam dela.
Quando você não consegue parar de contar tudo enquanto tá jantando,
sem deixar, sem deixar de sorrir.
Não, não, não. O amor é exatamente o que vem depois disso.
Quando acaba o feitiço.
E então pode ficar em silêncio em um jantar. Por quê?
Porque está em paz.
E basta um olhar pra saber o que estão pensando.
Como é que vai amar alguém se você não conhece?
Parece que eu não conhecia muito minha terceira mulher.
[Berlim ri]
Damián, meu terceiro casamento era um inferno,
não tô arrasado por isso.
Óbvio, a gente veio pra Paris aproveitar a paz de estar solteiro, mas...
Mas, na verdade, é uma tristeza estar aqui,
dormindo sozinho numa cama tão grande.
Sem fazer planos
nem ter alguém.
Em quem poder pensar.
Obsessivamente.
[música melancólica suave]
A energia do amor.
[ri]
É disso que eu sinto falta.
Vai dormir, vai. Eu fico aqui.
Só vou deitar um pouco na sua cama.
- Quem disse que vai deitar na minha cama? - Por que não?
Porque o ser humano não para de excretar toxinas, Damián.
Cera do ouvido, pele, cheiro, suor e pelos.
- Porra, não sabia que era tão nojentinho. - Queria o quê?
Cama compartilhada num hotel 5 estrelas? Olha...
Ah. Foda-se. Eu vou dormir umas duas horas e volto.
[porta fecha]
[bipe monitor]
[tango sensual toca]
[tango continua]
[mulher, em francês] Boa noite.
[tango encerra]
[banda de jazz tocando "Demons"]
- [música termina] - [palmas e assobios do público]
Bom, e agora, eu queria que vocês ouvissem uma amiga minha cantando.
Camille.
[fala inaudível]
[ri] Passa o violão pra ela.
[canta "L'amour" de Carla Bruni]
[Quentin choraminga]
[em francês] É o meu cachorro.
- [música termina] - [Camille ri]
[público aplaude e comemora]
- Tchau, Camille. - Tchau, boa noite.
[risos]
- [Camille] Vou chegar mais rápido. - [mulher] Quer apostar corrida?
[música otimista]
[mulher] Me dá um tempo!
[inaudível]
[música continua]
[suspira fundo]
[Berlim] E, nesse momento,
depois de muitas noites de insônia,
eu dormi.
[música tensa]
Vamos dar uma prensada.
Belê. Me dá o martelo de borracha, por favor.
[música sensual]
O que você fez?
Nada.
[suspira]
Eu te vi.
E o que foi? Não gosta que olhem pra sua bunda?
Não. Na verdade, chega até a dar nojo.
Eu gosto que me olhem. Quando tiro a roupa na praia, por exemplo.
Gostar não dá nojo, né?
Sabe o que dá nojo?
Quando você tira a camisa e despenca a pança cheia de pelo por cima do cinto.
[ambos riem]
E outra, vou te contar um segredinho.
Eu, cada vez que saio de casa, passo óleo no corpo todo.
Aí quando tiro a roupa na praia, tô com esse corpinho todo brilhando.
Uau. Assim você vai longe, certeza.
O que é que pega? Você não gosta de trepar também?
Quê?
E você pergunta como se fosse um hobby, por acaso?
Tipo pesca ou tênis?
É que, assim, são coisas que você gosta ou não gosta.
Eu, por exemplo, adoro trepar.
Ainda mais nas primeiras vezes, que é quando você
descobre isso e aquilo, essas coisinhas.
E o que é exatamente "isso" e "aquilo"?
Bom. Quando você conhece uma mulher, você imagina coisas, é meio inevitável.
E, nesses momentos, você descobre qual a cor da unha dos pés,
o tipo de roupa de baixo, se ela depila geral.
Sabe que caras que nem você estão em vias de extinção, né?
Não sacou que ninguém mais faz piadinha e passa cantada tosca?
Que isso de "esse cuzinho lisinho pra eu entrar" não se fala mais?
Tá, tá legal. Eu não falo mais nada, hein? Me calo.
[música cômica suave]
Pronto.
Já pensou como é a minha? Só me fala isso.
Já te falei que quando você conhece uma mulher, você imagina coisas.
E, e o que você tá imaginando de mim?
Roupa de baixo branca, de algodão, um pouco esportiva. E sem depilar.
Tá bom, chega. Já deu.
Peraí, o que aconteceu? Falei alguma coisa errada?
O que é que tem ser "mata fechada"? Gosto assim também.
Não, é que você sempre fala essas coisas sexuais, pelos e lingeries.
Assim a gente não vai se entender. É superficial. Põe o capacete.
- Já enterraram? - [Keila] Já.
[Damián] Que bom.
Roi, Cameron, bora delimitar essa outra área como se a gente já tivesse escavado.
[música animada]
Bom dia a todos. Damián, Damián.
Já passou do meio-dia. Onde você se meteu?
Então, é que eu dormi que nem pedra.
Ontem à noite, eu conheci uma mulher.
- [assente] - Ontem à noite, num bar cheio de fumaça.
E de gente que não quer voltar pra casa. Ela subiu pra cantar. Com um cachorro.
Eu só queria viver ali com essas pessoas e ser esse cachorro. Te juro.
Tenho que te pedir um favor. Você vai ter que me acompanhar.
- Te acompanhar? - Sim, claro. Pra falar com ela.
Sabe, Damián, esse momento em que você tá fascinado por alguém
e quer saber tudo dela? Quem é, como fala.
- Como ela ri. - Sei.
Você tinha que ter visto aquele sorriso.
Que luz! [ri]
Ontem eu voltei pro quarto, mas você não estava.
E a Sra. Polignac não estava em casa, em nenhuma das 12 câmeras.
Eu estava aqui pensando. É claro que é um completo absurdo,
mas não seria essa mulher fascinante a esposa do Polignac, por acaso?
Ela mesma. Mas o que tem a ver uma coisa com a outra, Damián?
A gente armou um circo do caralho,
a porra de uma escavação arqueológica.
Vamos enfiar nesse lugar vigas de contenção,
martelos hidráulicos, escavadeiras.
E tá me pedindo pra ir com você tomar um cafezinho
com a mulher do cara que a gente vai roubar?
[hesita]
Tem razão. Eu tô tão ansioso pra conhecer alguém,
que eu coloquei em perigo o plano
e coloquei em risco todo mundo.
Andrés. Tem uns quatro bilhões de mulheres no mundo.
Não precisa complicar as coisas
com a mulher do cara que a gente vai roubar.
Psiu. O padre tá vindo.
[música tensa]
Doutor, tem coisa aqui.
O sinal parece bastante forte.
Parece um objeto de bronze.
[Toureaux] Cuidado.
[música grandiosa]
É um cálice!
Parece de estilo bizantino, não é?
A gente precisa de mais tempo pra escavação, padre.
Pelo menos, três semanas. E trazer o maquinário.
Eu vou reservar uma vaga pra vocês estacionarem os furgões.
[música otimista]
[música encerra]
A gente tá esperando o quê, exatamente?
Você já viu, alguma vez, uma mulher no metrô ou no trem
e ficou com vontade de saber mais sobre ela?
Sim, claro.
Foi isso que me aconteceu ontem à noite, exatamente nesse bar.
Quero esperar ela voltar e estabelecer uma conversa.
Dois minutos, tá? Dois minutos e pronto.
Não, dois minutos, não.
Melhor uma horinha, um café e se conhecer.
Exatamente, esse é o segredo. Dois minutos.
Quando tá fascinado por alguém, você fica obcecado,
e quando fica obcecado, tá fodido.
Você fica vulnerável.
Você passa a ser só mais um no meio desse mar de babões e mentecaptos
que ficam rondando em volta dela pra fazer ela rir
e mendigar um encontro. Tem que fazer o contrário.
E como é "fazer o contrário"?
Seguir uma estratégia militar: você avança, ataca e foge.
Fica perto dela, tem uma conversa rápida e logo bate em retirada.
Deixa ela espantada por ser o primeiro homem, seguramente, em anos,
que não tá pensando unicamente em fazer amor com ela.
- Inteligente essa tática. - [ambos riem]
[suspirando] Ali. Ai, ela está ali.
Roi. Entra e me dá "oi" como se eu fosse um amigo que não vê há anos.
Dois minutos no relógio, Roi, nem um a mais. O livro, o livro, vai.
[Camille] Obrigada, Bastian.
[Bastian] Você quer um croissant com suco de laranja?
Quero, sim. Por favor.
- Eu já trago. - Obrigada.
- Bom dia. - [Berlim] Bom dia.
- O que gostaria? - Um café com leite, por favor.
- Um minuto. - Obrigado.
Desculpa. É, você é a Camille?
Sou. Você me conhece?
Não, não. Não, é, não.
- Obrigada. - Eu tô passando as férias em Paris.
Eu me chamo Simón.
Tive o prazer de te ouvir cantando aqui ontem à noite. Uma diva.
Da canção francesa.
[ambos riem]
Mas não sou daqui.
- [surpreso] - Na verdade, eu sou mexicana.
Camila.
Bom, aqui eles me chamam de Camille. Já faz oito anos que eu tô em Paris.
E sobre a música, obrigada, mas eu não sou cantora nem nada.
[ambos riem]
Gosta de Dupond?
Não me diga que também gosta.
- Obrigado. - Eu acho um pouco difícil. [ri]
- Um tédio! - [ambos riem]
- É. - E não é?
Na verdade, ando com ele pra ver se acabo logo.
Ou melhor, pra ver se eu perco.
Podia ter me cumprimentado ontem.
Não, não. Eu não queria incomodar.
Mas, sério, enquanto você cantava, fiquei maquinando,
não podia parar de pensar: qual será a playlist dessa mulher?
Me ocorreram pelo menos 20 ou 30 canções que você podia ter.
Eu não tenho Spotify, mas, sei lá, tenho alguns discos.
Você pode tentar ver se acerta algum.
Não vou dizer um, vou dizer dois.
E, se eu acertar, você me leva pra algum lugar que ache extraordinário.
Vamos de V.
Vanessa Paradis.
E Vinícius de Moraes.
- Olha! Acertou os dois! - [ambos riem]
E agora eu vou te dar uma boa notícia.
Não tem que me convidar pra nenhum lugar, porque marquei com um amigo,
ah, olha ele ali, ó.
[ri, suspira]
[ri]
[Berlim] Quanto tempo.
- Como você está? - Quanto tempo!
- Como você está? - É. Eu tô bem.
[hesita, ri]
Vamos ver se volto outro dia e tenho a oportunidade
de te escutar cantando outra vez.
Tá. Muito prazer.
- Enchanté. - Aproveitem Paris.
- Ah, obrigado. Eu adoro Paris. - [Camille assente]
[se despedem em francês]
Com calma, por aqui, por aqui. Muito bem. E agora a gente vai se sentar aqui, tá?
Pertinho da porta. E vamos ver se semeamos bem a semente do interesse, hã?
[ambos riem]
E como a gente vai saber?
É muito simples. Se quando ela sair pela porta, olhar pra gente, ou sorrir,
fizemos bem o nosso trabalho.
- [ri] - Cara! Ou, não fica olhando.
[hesita] Me fala alguma coisa, Roi. Como está a sua avó?
A "minha avó"?
É, fala da sua avó. Fala logo, vai, vai!
Bom, ela tá em casa agora.
Como sempre tá. Em casa. E quando a gente visita, ela sempre fica...
[sino da porta]
Ai, merda.
O que aconteceu?
Ela nem olhou pra gente.
É, bom, certeza que ela te notou,
mas essa mulher é esposa do Sr. Polignac.
Talvez seja só isso. Ela é casada.
Não, não.
É porque eu não fiquei lá com ela, né?
Como eu não caí de amores por ela como todos os homens.
Talvez seja tão egocêntrica que pensou que somos um casal homossexual.
Fora que ela te viu todo espalhafatoso, quando entrou pela porta, merda.
Parecia que tinha visto a Madonna.
Disse que éramos amigos que não se viam fazia tempo...
Posso saber de onde tirou isso de três beijinhos?
- É como se cumprimenta na França. - É francês, por acaso? Eu sou francês?
É até esquisito, dois espanhóis de bicotinha, porra!
Tá.
A gente semeou plutônio.
Acabou de destruir essa relação.
Senhor, o senhor esqueceu o seu livro no balcão.
[Berlim assente]
E eu lá tenho cara de quem gosta de Dupond?
[estalidos metálicos]
[música tensa]
CATACUMBAS
Cameron, vai sinalizando os túneis.
Tem gente que nunca saiu daqui.
[bipes eletrônicos]
OSSADAS DO CEMITÉRIO DOS SANTOS INOCENTES DEPOSITADAS EM ABRIL DE 1786
[música tensa aumenta]
[Damián] Por ali.
Por ali?
[Damián] Não.
Por aqui.
[música tensa continua]
É aqui. Exatamente.
A gente vai abrir um túnel de 14m com uma inclinação de 27 graus
pra ter acesso direto ao muro de contenção do porão da Casa de Leilões.
[rock animado]
A gente precisa cavar sempre na direção do laser.
[ruídos do maquinário]
[música encerra]
PALESTRA NA SORBONNE
- [telefone tocando] - [homem] Alô.
[Camille] Amor, eu tô atrasada.
Pode pegar uma roupa pra mim e descer, por favor?
A gente tá atrasado pro concerto.
[Polignac] Concerto?
[Camille] O concerto no Opéra. Te disse há uns três dias.
[Polignac] Desculpa, eu esqueci.
Marcaram um jantar na embaixada italiana em 30 minutos.
Eu disse que era importante. Que os meus amigos vão tocar.
Senhor. Briga na casa dos franceses.
Ele esqueceu que iam à ópera. Ela tá putaça.
Foi a única vez que eu pedi.
E vou em tudo que você pede.
Ah, Camille, eu não posso mudar o protocolo a essa altura, sabe disso.
Tinha que ter me lembrado de manhã.
Agora tenho que te lembrar dos compromissos que tem comigo?
Deixa pra lá. Eu vou sozinha ao concerto.
Ele quer que ela lembre dos compromissos dele? Que machistinha!
[Roi ri]
O smoking. Preciso de um smoking.
- Mas aonde você tá indo? - Vou à ópera.
Lustra meu sapato na máquina do corredor. Vai lá!
[música animada]
[Toureaux] Prof. Vázquez?
Pode falar, padre.
Eu trouxe umas bebidinhas pra vocês e umas coisinhas pra comer.
Não precisava se incomodar.
Bom, e eu também queria te pedir um favor.
Você poderia me dar o cálice?
[Damián] O cálice?
Para quê?
Bom, eu tô indo viajar pra Espanha e pensei em ir à sua universidade e,
claro, mostrar ao reitor.
Não podemos dar notícias das escavações
até que os trabalhos estejam bem adiantados.
Por muitos motivos, mas, fundamentalmente, por segurança.
Mas o reitor precisa saber, não?
Ele tem direito. Como ele não pode saber que temos aqui
um cálice do século 4o e, possivelmente, a igreja mais antiga de Paris?
Não me parece oportuno, padre.
[música tensa]
Entendo que queiram dar essa notícia,
mas essa igreja é minha e quem vai contar sou eu.
Onde está o cálice? Ah!
[ex-condenado] E por que ele não pode levar o cálice?
A igreja é dele.
O cálice é dele.
E ele vai levar.
CUIDADO COM O CÃO
[Toureaux] Obrigado, professor.
E agora eu vou fazer a mala, que o avião sai às 8h30.
Adeus.
[celular tocando]
- Damián? - O padre levou o cálice.
Vai levar pra passear nas aduanas da Europa.
Ele quer mostrar pro reitor da universidade.
Em 12 horas, vão ter descoberto a farsa, e a polícia vai tá aqui!
[música tensa aumenta]
[Berlim] O golpe de mestre que criamos, durante meses de insônia e euforia,
tava evaporando pela vaidade de um sacerdote.
Eu que deveria lembrá-lo que a soberba é um pecado capital,
e que o preço desse esquecimento é o inferno?
Mas ela tava do outro lado da rua, sem saber que me esperava.
Que, juntos, nós poderíamos construir o maior romance da história.
Os planetas tinham se alinhado pra nos dar a oportunidade
de que fosse eu quem a acompanharia à ópera.
E esse era o xis da questão.
Escolher entre as duas coisas que movem o mundo.
O dinheiro ou o amor.
[rock enérgico]
Me escuta direito, Roi.
A gente precisa interceptar esse cálice, entendeu?
Faz o que tiver que fazer pra recuperá-lo.
Mesmo que tenha que pendurar o padre pela porra do pescoço
no banheiro do aeroporto, mas não volta sem ele.
[Berlim] Quem se importa se o amor acaba ou se gasta?
- [sino do elevador] - Se ele é a única razão pra viver?
["Je t'aime moi non plus" de Serge Gainsbourg tocando]
Camille!
Camille!
[música continua]
["Je t'aime moi non plus" encerra]
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