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Original subtitles

ManiacS

Haters Gonna Hate!

vikyor1 Darrow crolzinha alineana

EBennet LauraA KarineX LiuMacedo

Colorada Vin�cius Vit�ria

Come�a Love Sick de Bob Dylan,

faixa um, Time Out of Mind.

Que beleza.

CAP�TULO UM O HER�I

NARRADO POR SAMUEL L. JACKSON

Abrimos com um close em um homem.

Calma a�, deixe eu reformular a frase.

Abrimos no nosso her�i.

Aproximamos na cara dele.

Filho da m�e, eu disse para aproximar!

Vinte e poucos anos, bonit�o, gay...

Um gay descolado.

Gay tipo Billy on the Street.

Gay tipo "� quem eu sou, n�o tudo o que sou, amor."

�, este � um gay descolado.

Mas, agora, ele n�o est� nada descolado.

Ele est� em crise.

Acho que me sinto envergonhado.

Sei que isso n�o me d� muito cr�dito,

mas est� acabando comigo...

Desabafe, irm�o, como um babaca orgulhoso.

Desabafe.

� que...

Ele e eu ficamos juntos por tanto tempo...

Sei que parece clich�, mas...

Gosto de saber que ele est� no meu time, sabe?

Eu sei, irm�o. Eu te ou�o, irm�o!

Desabafe.

- Apareceu um novo cara... - Prossiga.

Ele � novo, interessante

e muito mais jovem.

N�o h� vergonha nisso, irm�o.

N�o posso ficar com algu�m s� por lealdade.

E voc� sabe disso!

Tudo bem, farei isso.

Botarei Sterling de recebedor, tirarei Larry Fitzgerald

e talvez eu pegue os dispensados do Dolphins.

Como � que �?

Henry...

J� falamos sobre como ser obcecado com futebol imagin�rio

n�o pode substituir ficar obcecado com comida.

Tudo bem, foi mal.

Aquele merda n�o � o nosso her�i.

Olhe s� essa linda terapeuta.

Acalmando este anor�xico amante de futebol imagin�rio.

Aproxime nela rapidinho.

Eu disse para aproximar, cara! Anda!

Isso a�.

Agora estou vendo.

Isto � um her�i!

Sorriso incr�vel, cabelo lindo e sedoso...

Deixe eu te olhar, garota!

� disso que estou falando!

Agora estamos progredindo, senhoras e senhores!

Agora temos um her�i!

E, como todo bom her�i, o nosso n�o era perfeito.

Para come�ar, ela fumava, o que n�o mostram nos filmes,

apesar de todos fumarem de vez em quando.

Voc� sabe que fuma de vez em quando.

Voc� e a esposa saem, cada um bebe dois mart�nis.

Est�o meio loucos, ent�o compram um ma�o,

e cada um fuma um no estacionamento do 7-Eleven.

Ela te faz jogar o ma�o fora,

mas, em vez disso, voc� esconde em uma planta.

E, em certas noites, voc� sai de fininho e fuma.

Mas ela sente a porra do cheiro

como se fosse uma detetive de nicotina.

Ela sente a porra do cheiro

como se fosse Mariska Hargitay em Law & Order: SVU,

Marg Helgenberger, em CSI...

Sou um grande f�!

Angie Harmon...

Mas que porra foi essa?

Meu Deus!

Puta merda! Puta merda!

Ela foi atropelada por um �nibus do nada!

Senhora?

Ela ficar� bem, pessoal.

Talvez um pouco abalada, mas ficar� bem.

Ela � nosso her�i, ela ficar�... Porra!

Senhora? Senhora, consegue me ouvir?

Foda-se, estou fora.

Will Dempsey tinha 35 anos quando desistiu do roteiro

com Sam Jackson como narrador n�o confi�vel.

Will n�o estava bem,

mas voc� n�o precisa que eu diga isso.

- Bom dia, senhor! - Minha nossa.

O que vai querer?

- Expresso duplo, grande. - � para j�.

- E qual � o seu nome? - Will.

Com um ou dois L?

- Com dois. - W-I-L-L.

A luz neste lugar � t�o ruim

Obrigado, vadia.

Faz minha cabe�a doer

E tanta risada s� est� me deixando triste

As estrelas se tornaram vermelho-cereja

- Will? - Eu!

Expresso duplo, grande.

Delicioso! Obrigado.

S� vou adicionar um pouco disso.

Esse tamb�m.

- Obrigado. Quer um? - N�o, obrigado.

- � Alprazolam. - Continuo n�o querendo.

- Estraga-prazer. - � "estraga-prazeres".

� o que ela disse.

N�o tenho mais para onde ir

N�o tenho mais nada para queimar

� do Dylan! Standing in the Doorway.

Terceira faixa de Time Out of Mind.

� o �lbum que o traz de volta! Parece um poema de John Keats.

- Senhor? - Ir�o amar. Deem uma chance.

- Vai me expulsar? - Vou.

Estraga-prazeres!

Estou tocando a minha guitarra gay

Fumando um cigarro barato

J� pode ir. Muito obrigado.

Sob a lua da meia-noite

- Senhor! N�o! - Deem uma chance!

Deem uma chance! V�o acabar gostando! V�o amar!

Will nem sempre esteve mal.

S� ficou assim quando sua mulher o deixou.

Sabe de uma coisa? J� falaremos sobre isso.

Por agora, vamos v�-los juntos.

D� uma chance, vai acabar gostando.

Parece que ele est� sofrendo.

- Mas ele est� sofrendo... - De infec��o na garganta.

Todo bom artista est� sofrendo.

Acho que � sinusite.

Ningu�m canta t�o bem com sinusite quanto Bob Dylan.

- Tudo bem, pode ser. - S�... D� uma chance a ele.

Ele n�o � o �nico sofrendo. Vem c�, Bostinha.

Oi, amig�o. O que foi?

- Est� exclu�do? Vem, Bostinha. - O Bostinha entende.

Will amava sua mulher, Abby, como se fosse obcecado por ela.

Ela era tudo o que um homem esperava de uma esposa.

Ela era afetiva, linda e comia qualquer sushi servido,

at� o de uni.

Sim, Will tinha certeza:

Abby Dempsey era completamente perfeita.

Naquela �poca, ela era.

Escute a m�sica por 30 segundos

e ent�o diga se ele n�o � um poeta.

- Vamos ouvir Hoobastank agora. - N�o, s� mais 30 segundos.

30 Seconds To Mars?

- Tudo bem, ponha 30STM. - S� 30 segundos.

Amor, estamos o ouvindo gargarejar h� um m�s.

Eu sei! Estou em uma fase!

N�o consigo mais ouvir esses barulhos de Chewbacca.

S� quero que voc� sinta a m�sica comigo, est� bem?

Pode ser?

Este �lbum � importante.

� o �lbum que o traz de volta!

Achavam que ele j� era, o esqueceram.

Disseram que ele n�o voltaria,

e ent�o... 1997, Time Out of Mind.

Ganhou tr�s Grammys, incluindo �lbum do Ano.

Ele ganhou de Radiohead e de Paul McCartney.

Foi intenso, inesperado e genial.

Era pesado e sombrio...

Ele disse: "Eu sou o Bob Dylan. Voc�s, n�o.

V�o chupar um pau."

- Disse para chuparem um pau? - Metaforicamente, sim.

Aqui, escute.

Pronto. S� escute.

Escute s�. O cara � um g�nio.

Ele est� se inspirando nos poemas de Keats.

Ele est�...

Pare com isso.

Pare.

Isto � importante para mim.

Est� bem?

Obrigada.

Vem c�, Bostinha. Venha apreciar comigo.

Pare.

Pare.

Parece que ele tem um pinto na garganta.

Voc� � um babaca.

Voc� � um babaca.

N�o, n�o, n�o.

Bostinha! Ele est� sendo sufocado!

- Cuidado! - Desculpe, Bostinha.

- N�o. - Ele est� bem.

- Vamos levantar e tomar banho. - Por qu�?

- Vamos ver seus pais. - Mas voc�...

- Vamos atrasar. - �amos ouvir Smash Mouth.

- N�o, n�o �amos. - Sim, n�s �amos.

Voc� est� gr�vida?

- O que est� havendo aqui? - Surpresa!

Vai me chamar para sair, Will?

Estou esperando pelo momento certo.

Bom saber.

Certo.

Vejo voc� por a�.

Abby, estou esperando, porque quando eu chamar,

n�o vai ter como eu voltar atr�s.

N�o sairei com mais ningu�m em toda minha vida,

n�o amarei mais ningu�m em toda minha vida,

n�o me importarei com mais nada pelo resto da minha vida.

Estou esperando pelo momento certo, Abby,

porque quando eu chamar, ser� o momento mais importante.

E quero ter certeza que farei direito.

Ent�o, como est� hoje, Will?

Will.

- Desculpe, voc� disse algo? - Sim, perguntei como voc� est�.

Voc� sabe, do mesmo jeito.

Certo.

Tentei me masturbar outro dia.

Tentei pensar na Abby, mas n�o deu certo, ent�o eu...

Tentei pensar em voc�,

mas, voc� sabe,

se pensasse na minha terapeuta, deveria ser internado.

- Voc� foi internado. - Touch�.

- Faz 6 meses que ela se foi. - Isso mesmo.

E voc� esteve internado por quase metade desse tempo,

e, agora, preciso questionar...

Will, voc� est� me ouvindo?

Certo.

Queria saber como voc� est� agora que voltou ao mundo.

Voc� sabe, do mesmo jeito.

Fiz o exerc�cio de escrita que voc� me passou.

S�rio? Estou surpresa.

Esteve resistente em escrever os sentimentos.

N�o fiz isso, eu escrevi um filme.

Escrevi umas 5 p�ginas de um filme.

Ficou muito ruim.

Abby e eu fal�vamos sobre escrevermos um roteiro.

Um casal Tarantino.

Voc� n�o teria gostado do meu roteiro.

Voc� meio que estava nele.

Abby n�o estava, o que vai contra o objetivo.

Conheci um cara quando estava internado.

Um cara muito bacana.

Com uma vida horr�vel.

Ele s� conseguia falar sobre futebol sem chorar,

ent�o ele falava muito sobre isso.

Eu gostava daquele cara, tinha um rosto �timo.

O rosto de um astro de cinema.

O filho da m�e parecia ser o �nico l� pior do que eu.

Jant�vamos toda noite juntos, at� que ele n�o foi uma noite,

o que foi ruim para ele, porque era pizza.

Acontece que ele...

Como voc� se sentiu com isso?

Fiquei feliz por ele.

Ou ao menos aliviado. Ele era muito miser�vel.

N�o sou m�dico, mas acho que n�o ia melhorar.

Certo, isso me leva de volta � pergunta inicial.

Como est� se sentindo?

- Voc� sabe, do mesmo jeito. - Voc� continua dizendo isso.

Continua sendo verdade.

Falou com ela, Will, desde que saiu?

Abby, por favor, pode voltar para mim?

- Sinto muito. - Que droga, cara.

- � uma droga. - Tenho que ir, sinto muito.

Por favor.

N�o.

Foi visitar seus pais, como discutimos?

Eu n�o quero.

Will, parte do motivo de ter sido liberado

- e colocado sobre meus... - Eu n�o quero!

Desculpe-me, isso foi estranho.

Disse ontem que se sentia sem rumo.

Geralmente, tenho um �timo senso de dire��o.

- Obrigado, amigo. - N�o sou seu amigo, palha�o.

- Isso � para voc�, Peggy Sue. - Caramba.

Obrigada, Daddy-O.

Vamos cham�-lo de Bostinha.

- Sente, Bostinha. - Bom menino.

Case-se comigo.

� s�rio, vamos nos casar.

- Namoramos a menos de um ano. - Sim, eu sei.

Controlei-me bastante para esperar tanto tempo.

- Aceite. Voc� quer aceitar. - N�o quero.

- Quer tanto que at� d�i. - Voc� � convencido.

Eu tenho raz�o.

Aceite.

Juro por Deus que se n�o aceitar,

atirarei nesse babaca. � quest�o de princ�pio.

Pare com isso.

Diga "Casarei com voc�" ou vou atirar.

- Pare! Will! - Aceite!

Pare!

Desculpe-me, isso foi estranho.

Eu te amo.

Voc� � o amor da minha vida, tenho certeza.

Mas �s vezes a intensidade do seu sentimento me assusta.

Sabe?

N�o � algo que pensei que me assustaria, mas...

N�o sei se estou preparada para ser t�o amada assim.

Vou encontrar outra forma.

- N�o. - Vou encontrar outra forma.

Eu vou.

Vou te amar da maneira que estiver preparada.

Vou te amar nos dias �mpares da semana.

Querida, passarei minha vida tornando a sua melhor.

Quero dan�ar.

Quero ganhar. Quero aquele trof�u.

- S�rio? - Vamos.

Um! Todo mundo.

Dois!

Tr�s!

Ter�amos que ter um cachorro.

Certo.

Eu quero ter filhos, mas n�o agora.

Certo.

Primeiro um cachorro. Pequeno.

Certo.

Meus pais morreram jovens, isso me deixa triste �s vezes.

Eu sei.

Eu provavelmente serei uma p�ssima m�e.

Eu discordo, mas tudo bem.

Mas o principal � o cachorro. Um cachorro pequeno.

Adoro a ideia de ter um cachorro.

Certo, eu caso com voc�.

- Certo. - Certo.

Voc� quer conhecer meus pais?

Claro.

Legal.

Obrigada.

- Como est�o? - Meu Deus, Abby!

- Olhe para voc�! - Voc� est� linda!

- Est�o bem? - Estamos �timos.

- Oi, filho. - Olhe para voc�!

- Meu Deus, voc� est�... - Repugnante.

- N�o! Pare! - E com gases.

- Est� enorme. - Est� com gases.

- Ent�o ser� um menino. - S�rio?

Eu usava m�scara de g�s na gravidez de sua m�e.

- Pare! � verdade. - Ent�o � um menino!

Quase faz tudo valer a pena.

Linda, preciso perguntar. Voc� fez...

O bolo de carne est� no forno.

Nunca desejei tanto uma coisa. Leve-me at� ele.

- Eu odeio bolo de carne. - Quero ouvir falsos elogios.

Estou feliz que ela n�o queimou a cozinha.

Como fez para tirar o p� do...

- Voc� empurra. - N�o gosto quando o rosto...

- Pratos de cachorro. - empurra a barriga,

- como um alien�gena. - Como sabe que � o rosto?

- Acho que �. - Pare, � estranho.

- Est� tentando sair? - Isso �... M�e.

Sabe que o beb� n�o vai morar aqui, n�o �?

- Eu exagerei. Me processem. - Esse � fofo.

N�o � fofo? Melhor comer, antes que ela coma tudo.

Roupinhas de beb�, balan�o...

Diga-me, para que serve um balan�o de beb�?

Por que um beb� precisa de balan�o?

S� sei que passei o dia abrindo caixas da Amazon.

Fique quieto. Coma um pouco mais, querido.

Ele est� bem. Estou comendo por dois.

N�o acredito que serei av�!

- Ainda n�o acredito. - Acalme-se.

Abby? N�o me entenda mal.

- L� vem... - �.

Mas, sendo ego�sta, fico feliz que seus pais tenham morrido.

- E... l� vem bomba! - Pare.

Abby entendeu.

- Ela entendeu? Voc� entendeu? - Ela vai explicar.

O que eu quis dizer � que tudo que eu sempre quis

foi que Will casasse com uma �rf�,

para que eu n�o tivesse que dividir os netos.

E minhas preces foram ouvidas.

Meu Deus, m�e!

Est� tudo bem, ela entendeu.

- Abby, leu o livro que mandei? - N�o.

� sobre pr�-escola e ansiedade de separa��o.

� realmente uma prioridade no momento.

Porque quando voc�...

Desculpe, foi engra�ado. Desculpe.

Fale dos pais dela de novo, m�e.

Obrigado.

� sobre ansiedade de separa��o.

Quando voc� os deixa na escola, eles ficam loucos, desesperados.

- Viva sua vida. N�o se meta... - Cale a boca.

Quando voc� os deixa na escola, se eles ficarem hist�ricos...

Os pais de Abby morreram em um acidente de carro.

Abby estava no carro, tinha sete anos.

Certo.

"Certo" � uma resposta estranha para o que eu falei.

Voc� me pegou de surpresa. N�o fala muito sobre Abby.

Voc� n�o pergunta muito sobre ela.

Will, eu sempre pergunto sobre ela.

- Pergunta mesmo? - Pergunto.

- Vamos Acabar Com Isso. - As sess�es s�o obrigat�rias.

- N�o, a m�sica... - Eu...

- N�o entendi. - Meu Deus.

Que ritmo temos aqui, n�o �?

Talvez por isso n�o goze pensando em voc�.

Desculpe, isso foi muito inapropriado.

Eu fui internado.

Conte-me mais sobre Abby.

Como ela era? Eu quero saber mais.

Quer que eu te conte sobre Abby?

Veio ao lugar certo,

porque sou especialista no assunto.

Ou eu era.

N�o, ainda sou.

N�o tem como algu�m saber mais do que eu em 6 meses.

Ou talvez tenha. Eu estou preso aqui.

E s� Deus sabe o que ela tem feito.

- Will? - Certo.

Quer saber sobre Abby. Vou te contar.

Voc� consegue, s� mais um!

Abby Lesher nasceu no dia 30 de junho de 1985.

Segundo a lenda, quando ela nasceu,

n�o deu nenhum pio.

Por cinco minutos, Abby ficou ali

apreciando o mundo � sua volta,

- sem derramar uma l�grima. - Oi.

Ao longo dos anos, seus pais diriam:

"N�o havia nada de errado com Abby.

Ela s� n�o tinha nada a dizer ainda."

Lembre-se de que isso foi o que eu ouvi.

N�o conheci ningu�m aqui, a n�o ser Abby.

Os pais dela morreram cedo.

- Bem antes de eu aparecer. - Eu sei.

N�o � como se eu conhecesse o m�dico e as enfermeiras.

- Por favor, continue, Will. - Certo.

A inf�ncia de Abby foi feliz.

Fam�lia, estamos aqui hoje,

pois preciso falar sobre algo s�rio, n�o riam.

Voc�s devem ter percebido

que desenvolvi um problema com bebidas.

Os pais dela, Jack e Elizabeth,

eram bondosos, sinceros e tudo de bom.

Eram professores do prim�rio. Foi como se conheceram.

Posso sentar?

Se a m�e de Abby soubesse

que ia conhecer o marido naquele momento,

acha que teria mordido um peda�o t�o grande do sandu�che?

Quer um pouco de �gua?

Nossa, voc� p�s metade do sandu�che na boca.

� t�o estranho pensar sobre isso.

Como um momento aleat�rio envolvendo um sandu�che,

algo que aconteceu antes de eu nascer,

iria moldar minha vida inteira.

Voc� gosta que ele tenha acontecido?

Bem, dr� Morris, essa � a grande quest�o, n�o �?

Porque, se n�o tivesse acontecido,

os pais de Abby n�o se conheceriam,

n�o se casariam,

n�o teriam ido para Aruba, onde Abby foi concebida.

N�o teriam visto ela vir ao mundo sem dar um pio.

N�o veriam seu cabelo loiro virar castanho ao crescer.

N�o veriam ela ficar obcecada por dan�ar,

por futebol, por cavalos, e, claro, pelo Natal.

Sempre pelo Natal.

As luzes, os presentes, e, acima de tudo, as Rockettes.

Abby era t�o obcecada pelas Rockettes que todo ano

os pais viajavam com ela para assistirem �s Rockettes.

Todo santo ano. S� que naquele ano...

Os pais de Abby morreram na hora.

Abby ficou presa no banco de tr�s

por mais de uma hora at� a tirarem de l�.

O pai dela...

O pai dela foi decapitado pela coluna de dire��o.

Horr�vel, n�o �?

Esse detalhe sempre choca.

A hist�ria em si j� � tr�gica,

mas quando voc� pensa nessa imagem,

na imagem de uma menina de sete anos

presa no banco de tr�s do carro com seu pai decapitado,

isso pesa, n�o �?

Bem, voc� queria saber sobre Abby, ent�o...

Continuarei, mas esteja avisada,

a pr�xima d�cada n�o � t�o boa.

Os pais de Abby n�o planejaram morrer juntos,

ent�o n�o havia testamento ou plano para Abby.

E, como seus av�s j� haviam morrido,

o tio Joe ficou com a cust�dia de Abby.

Tio Joe n�o era uma boa pessoa.

N�o digo isso porque ele n�o abra�ava Abby.

Ele deu um cachorro a ela e o matou quando roeu o sof�.

Ele passou seis anos abusando-a.

At� que, com 15 anos,

Abby emprestou uma arma de um garoto da escola,

apontou para a cabe�a do tio Joe

e disse com convic��o:

Eu te matarei se puser as m�os em mim de novo.

Ent�o atirou no joelho dele, para ele n�o duvidar.

Filha da m�e!

Parece um filme, n�o �?

Sempre imaginei a Natalie Portman no papel.

N�o sei quem � essa.

N�o sabe quem � Natalie Portman?

- N�o. - Doutora, precisa sair mais.

- �, tem raz�o. - Vou lhe propor algo.

Qualquer noite faremos uma maratona de Portman jovem.

Brincando de Seduzir, O Profissional. Voc� entender�.

- Certo? - Certo.

Tudo bem. Certo, bem...

Depois disso, as coisas melhoraram.

O estrago j� tinha sido feito.

Pai decapitado, tio abusivo, voc� n�o...

se recupera f�cil de tudo isso, mas...

Abby era inteligente, determinada, sonhadora, leitora.

Ela batalhou, entrou na universidade,

come�ou a ver um terapeuta que realmente mudou a vida dela.

Fez at� um grande amigo.

Voc� far� com que eu seja expulsa.

- Pode parar, por favor? - Desculpe.

Meu Deus, doutora, olhe. Meu Deus.

Olhe.

Olhe para mim. Esse era eu na universidade.

Ainda tenho que ler 491 p�ginas.

Meu Deus, eu parecia t�o jovem.

Acho que n�o mudou nada.

Acho que sou uma pessoa totalmente diferente.

Certo, cada um v� o que quer.

Doutora, olhe para n�s.

- Nem tudo est� perdido. - Pois �.

Enfim, Abby realmente se encontrou na universidade.

Minha pontaria.

Ela se abriu para o mundo, se tornou muito popular,

e at� se apaixonou.

Sem querer me gabar, mas j� me gabando...

Ela se formou em Literatura como a melhor da turma.

- A tese dela foi sobre... - O narrador n�o confi�vel!

O narrador n�o confi�vel!

- O que � isso? - Minha tese. E a�, pessoal?

Esses narradores s�o um artif�cio.

N�o � uma pergunta. S�o.

E eles n�o s�o analisados porque s�o uma pegadinha.

Os Contos de Cantu�ria merece destaque por ser bom,

mas tipicamente s�o usados em contos de crime e terror,

como Agatha Christie, Os Suspeitos.

Mas eu vou argumentar que todo narrador,

por defini��o, n�o � confi�vel.

Pois ao se contar algo, h� sempre uma dist�ncia

entre a hist�ria em si e a forma como � contada, certo?

Portanto toda hist�ria que j� foi contada

tem um narrador n�o confi�vel.

O �nico narrador confi�vel

seria algu�m contando a hist�ria enquanto ela acontece,

o que � imposs�vel. Sabe o que isso significa?

Significa que o �nico narrador confi�vel � a vida em si.

Mas a vida em si tamb�m � um narrador n�o confi�vel

porque est� sempre mudando e nos levando em uma jornada

em que � imposs�vel prever os pr�ximos passos.

E essa � minha tese!

A vida como o maior narrador n�o confi�vel.

- O que acha? - �timo.

Far� mais sentido no papel. Eu te amo.

Tchau, pessoal.

Eu te amo.

- � o pr�ximo. - Eu a amo, Chuck.

- Vamos l�. Sua vez. - Caralho.

Eu te amo, Abby!

Quando lhe chamei para ver os filmes de Natalie Portman,

sabe que era brincadeira, certo?

- Sim, eu sei. - Certo.

Porque ainda sou casado. Pelo menos acho que sou.

Ainda n�o assinei nenhum papel,

ent�o n�o sei qual � minha situa��o.

Will, est� tudo bem. Respire fundo.

Agora voc� pode me falar sobre seu casamento.

Quer que eu fale sobre meu casamento?

Quero.

Ent�o n�o ouviu nada que falei at� agora, porque...

n�o importa o que eu diga, voc� n�o...

- Por que n�o pode tentar... - Percebe isso?

N�o importa o que eu fale. Posso contar tudo sobre n�s,

tudo sobre o dia em que ela me deixou...

Mas o que garante que minha mem�ria est� correta?

Estou em uma fase! S� quero que voc�...

Talvez eu estivesse sufocando-a h� anos.

Sufocando-a com meu amor, sonhos e um beb� que ela n�o queria.

- Ele est� sendo sufocado! - Talvez eu fosse s� um cara

na vida dela que, em vez de salv�-la,

estava arruinando tudo.

Talvez ela estivesse infeliz

e a garota perfeita na minha mente

fosse apenas uma pegadinha no enredo.

Estamos falando sobre besteira filos�fica.

Estamos mesmo.

Will...

Estamos nos vendo h� um tempo.

E hoje foi a primeira vez que falou tanto sobre Abby.

E isso � bom.

� muito bom.

Ent�o me conte sobre aquele dia.

Teve uma boa manh� com Abby...

- N�o... - falando sobre Bob Dylan.

Eu n�o disse isso. Disse que pode n�o ter sido boa.

Falei que pode ter sido sufocante e ruim.

Certo, pode ter sido sufocante e ruim.

Falaram sobre Bob Dylan,

foram almo�ar na casa de seus pais,

e o que aconteceu depois?

Ela simplesmente me deixou.

Simplesmente me deixou.

- Will, ela n�o te deixou. - Sim, ela me deixou.

J� viu Abby desde que foi liberado, Will?

Volte para mim, Abby.

Por favor, volte para mim. Fa�o o que quiser.

- Will? Will? - D�-me uma chance.

Estou falando com minha esposa!

Mas sua esposa n�o estava l�, estava?

N�o sei. O que estamos fazendo?

Will...

voc� ainda n�o est� bem.

Certo? Est� misturando rem�dios. N�o est� sendo voc� mesmo.

Conte-me sobre aquele dia.

N�s falamos sobre Bob Dylan.

Certo.

N�s demos risadas.

Certo.

V� em frente.

Quase sufocamos o cachorro.

Certo.

Fomos � casa de meus pais.

Certo.

Comemos bolo de carne.

- Meu Deus, minha m�e � louca. - � mesmo.

Nunca mais faremos isso.

- Como est� se sentindo, amor? - Comi demais.

- Voc� acha? - S� um pouquinho.

Voc� acabou de comer um bolo de carne nojento.

Vamos ter um bolo de carne em vez de um beb�.

- Vamos ter um bolo de carne? - �, teremos um bolo de carne.

- T�xi? Caminhada? - N�o. Sim, por favor.

Certo, vamos caminhando.

- � uma menina, Will. - O qu�?

Sei que ia ser surpresa,

mas a enfermeira falou e eu n�o queria esconder.

Em umas tr�s semanas, voc� ter� uma filha.

Diga algo.

O qu�?

Sei como quer cham�-la.

- Sabe? - Sei.

- �, acho que sei. - Sei que n�o gosta dele, mas...

Eu amo. Sou um grande f�.

Acho fofo. Acho...

Estava sufocando-a.

Por isso ela me deixou.

Will, escute, voc� sofreu um trauma.

Foi horr�vel.

- Ajuda! - Horr�vel.

Ajudem-me, por favor!

Voc� pensou em se matar.

Voc�... voc� ficou...

em tratamento por meses para ficar seguro.

E agora construiu uma hist�ria que torna isso suport�vel.

Will... voc� tem um beb�.

Certo? Seu beb� sobreviveu.

Seja qual for o motivo, por um milagre, ela est� viva.

Will, Abby n�o ia querer que voc� cuidasse dessa crian�a?

Por que n�o foi ver seus pais? Will, olhe para mim.

Por que ainda n�o viu o beb�?

- Acho que ajudaria voc�. - Certo.

Foi liberado e est� aqui para poder v�-la.

- Acho que voc� est� pronto. - Certo.

Eu vou embora.

N�o, espere, Will. Espere.

- N�o quero que v� ainda. - Essa hist�ria n�o est� certa.

- N�o sou o her�i. - O trauma � vicioso, Will.

Desculpe-me, voc� � gentil. Voc� � muito gentil.

- N�o quero mais ficar aqui. - Sente-se, n�s podemos...

- Deixe-me conversar com voc�. - Adeus.

CAP�TULO 2 DYLAN DEMPSEY

Dizer que a inf�ncia de Dylan se resumiu � morte e trag�dia

seria o maior dos eufemismos e at� um pouco ofensivo.

Ela nasceu de morte e trag�dia, literalmente.

Quando ela tinha 6 meses, seu pai entrou para o padr�o.

E isso foi s� o come�o.

Dylan perdeu a av� quando tinha 6 anos.

E perdeu seu melhor amigo quando tinha 7 anos.

Diga a eles que sou legal.

Pode entrar.

Como est� se sentindo, querida?

Sinto que minha vida se resumir� � morte e trag�dia.

Ela n�o disse isso, � claro.

Mas se conseguisse se expressar aos 8 anos, teria dito.

Eu quero ter uma vida feliz, vov�.

Meu desejo por estabilidade e felicidade � desesperador.

Como gordos desejam chocolate e pessoas perdidas buscam ajuda.

Quero ter uma vida longa e fant�stica.

Mas me preocupo que a trag�dia que parece me assombrar,

a trag�dia que me deu � luz, v� impedir que isso aconte�a.

E n�o sei se consigo suportar outro golpe como esse.

Mas o que ela disse foi:

Como est� se sentindo, querida?

Voc� vai morrer, vov�?

Sim, eu vou.

Antes do que voc� gostaria, querida.

Se quer a verdade.

Vou lutar com todas as for�as para viver o m�ximo poss�vel.

Para evitar que mais uma morte se aproxime de voc�.

Come�arei a andar naquela maldita esteira.

Vou cortar a carne vermelha. Farei o melhor que puder.

Para que passe pela adolesc�ncia sem perder mais nada.

Farei isso por sua m�e e por seu pai.

Farei por sua av�.

Mas, principalmente, farei isso por voc�, minha neta.

Arrancarei mais uns 10 anos desse corpo velho.

Por voc�, minha menina.

Meu anjo.

Novamente, Irwin resumiu tudo isso em:

N�o, chega de mortes, querida.

- Est� bem? - Est� bem.

Os anos de transforma��o de Dylan Dempsey.

Os anos trouxeram a puberdade.

Puberdade trouxe a sexualidade.

Sexualidade trouxe raiva, medo e confus�o.

E, quando a poeira baixou, no lugar daquela doce menininha,

restou apenas uma mulher que assustava a todos.

Pode entrar.

Oi.

Oi, estou de sa�da.

- Com quem? - Alguns amigos.

Cigarros.

Vov� dizia que era um p�ssimo h�bito

acender pequenos inc�ndios embaixo do nariz.

Legal.

N�o vai nem tentar escond�-los de mim?

- Somos melhores que isso. - Somos?

Soube que s�o proibidos em Vermont.

Lembre-me de nunca ir a Vermont.

- Posso pegar um? S� um. - N�o.

N�o, cigarros fazem mal.

Queria conversar sobre a faculdade.

J� conversamos ontem � noite.

- N�o fomos muito longe. - Fomos, sim.

S� n�o chegamos onde voc� queria.

Tenho 21 anos, Irwin. Desista desse sonho.

J� economizei quase o suficiente para deix�-lo em paz, prometo.

Prometa que estar� em casa �s 23h?

Prefiro n�o mentir para voc�.

- Minta, por favor. - Voltarei �s 23h.

Dylan.

Feliz anivers�rio, querida.

D�-me carinho.

Paz!

Oi, galera. Somos PB&J.

Essa primeira m�sica � um pouco pessoal.

- Minha m�e morreu h� 21 anos... - Tira tudo!

Contam-me que ela ouvia Bob Dylan.

Mostre os peitos!

Foda-se.

Quando a chuva est� soprando em seu rosto

E o mundo inteiro est� na sua mala

Eu poderia lhe oferecer um abra�o quente

Para fazer voc� sentir meu amor

Quando as sombras da noite e as estrelas aparecem

E n�o h� ningu�m para secar suas l�grimas

Eu poderia abra�ar voc� por um milh�o de anos

Para fazer voc� sentir meu amor

Sei que voc� ainda n�o se decidiu

Mas eu nunca te faria mal

Sei disso desde o momento em que nos conhecemos

N�o h� d�vida em minha mente de onde � o seu lugar

Eu passaria fome, ficaria triste e deprimida

Rastejaria avenida abaixo

N�o, n�o h� nada que eu n�o faria

Para fazer voc� sentir meu amor

- Merda. - Merda.

Mas que porra?

Voc� me deve um celular novo, vadia.

�, tem raz�o, eu sinto muito...

N�o devia ter feito aquilo.

Tem sido um dia esquisito para mim.

Deixe-me ver o que tenho. Pode segurar um segundo?

Eu sinto muito.

Acha que � engra�ado me filmar?

- Dylan! - Estou bem!

� uma menina, Will.

O qu�?

Sei que ia ser surpresa,

mas a enfermeira falou e eu n�o queria esconder.

Em umas tr�s semanas, voc� ter� uma filha.

O papai explodir� os miolos antes de me conhecer...

Diga algo.

Sei como quer cham�-la.

- Sei que n�o gosta dele, mas... - Olhe � direita.

- Eu amo. Sou um grande f�. - M�e.

- Acho fofo. Acho... - Acho que ser�...

M�e, cuidado!

Voc� est� bem?

De que importa?

Se Rodrigo Gonz�lez realmente estivesse ali naquela noite,

poderia ter dito � jovem chapada que importava para ele

que Dylan Dempsey estivesse bem.

CAP�TULO 3 A FAM�LIA GONZ�LEZ

Chegou!

- Bom dia, senhores! - Bom dia!

Bom dia! �timo!

- Homem! Como vai, Salvador? - Bem.

Fico muito feliz.

Estarei com voc� em um segundo, sente-se.

Sente-se.

Javier, eu me dei conta que n�s dois...

nunca nos falamos.

Faz 5 anos que sou dono destas terras,

e n�o me lembro de termos trocado mais do que...

poucas palavras.

Quer beber alguma coisa?

- N�o, senhor. - N�o? Tudo bem.

Cresci na It�lia. Sabia que sou meio italiano?

Pare�o com voc�, mas me chamo Saccione

e vivi a maior parte da minha vida na It�lia.

Meu pai era italiano, veio � Andaluzia quando jovem,

e aqui conheceu minha m�e. Sabia disso?

Sabia que minha m�e era desta regi�o?

N�o, senhor.

Meu pai era um verdadeiro...

filho da puta.

Conheceu minha m�e jovem e a conquistou.

E a separou de todos que ela conhecia e amava.

Meu pai era possessivo, controlador, agressivo.

E ainda por cima era rico.

O que transforma um verdadeiro filho da puta como ele

em algu�m bastante perigoso.

Perigoso.

Certeza que n�o quer tomar nada? Vinho tinto? Vinho branco?

Beberei um vinho branco.

- Tudo bem, um vinho branco. - Claro que sim, homem.

Pois l� estava minha m�e,

uma jovem espanhola,

andaluza de sangue puro,

arrancada de sua fam�lia,

vivendo no meio do campo italiano,

e, para completar,

sem falar uma �nica palavra em italiano.

Pegue.

Pronto, sa�de. Sa�de.

Meu pai decidiu, ent�o, que queria...

uma esposa italiana

e uma fam�lia italiana.

Proibiu que falassem espanhol na casa dele,

cortou o contato com a fam�lia dela,

e deixou minha m�e sem o que ela mais queria...

sem quem amar.

Ela ficou gr�vida. Gr�vida de mim.

Nos anos seguintes,

sempre que meu pai viajava a trabalho,

em segredo, ela pedia que levassem

comida espanhola, vinho...

Nosso favorito era...

azeite de oliva espanhol.

Pode acreditar.

Est�vamos no campo italiano,

lar do azeite de oliva mais famoso do mundo,

e n�s us�vamos azeite de oliva espanhol

com a mesma paix�o que n�s dois tomamos esse vinho.

�ramos um bom par.

Minha m�e e eu.

Um bom par.

Minha m�e morreu quando eu tinha 16 anos.

Logo em seguida, meu pai me mandou embora.

Ele a via em mim.

Ele a considerava uma espanhola suja que arruinou sua vida.

Por sorte...

Meu pai n�o era apenas um cretino intolerante.

Era tamb�m um narcisista.

Nunca achou que morreria, nem quando envelheceu e adoeceu.

Portanto, n�o possu�a um testamento.

Quando, enfim, deixou esse mundo,

tornei-me um homem extremamente rico.

E a primeira coisa que fiz foi comprar estas terras,

onde cultivo centenas de acres do mesmo azeite de oliva

que minha m�e e eu desfrut�vamos.

Mesmo que tenha que viajar para resolver outras obriga��es

na maior parte do tempo.

Esta terra � a �nica coisa que me importa.

Esta terra � minha hist�ria.

E a hist�ria de minha m�e.

E � por isso...

que a azeitona...

significa tanto para mim.

E agora...

devo te perguntar...

por que significa tanto para voc�?

N�o estou entendendo, senhor.

Os outros homens usam varas e telas,

mas voc� colhe com a m�o.

O que s� te permite colher a metade.

- Por isso trabalho o dobro. - N�o, eu sei.

N�o � uma cr�tica. � s� uma pergunta.

Por que trabalha mais duro que o resto dos homens?

Porque acho que � o jeito certo de fazer, senhor.

Contei...

Contei minha hist�ria.

Contei a hist�ria do filho da puta do meu pai,

de minha pobre m�e que era maltratada,

e quando pe�o que fa�a o mesmo, pe�o que me diga...

Diz que � porque � o certo?

Vamos, homem, beba o vinho e conte sua hist�ria.

Sou um homem simples, senhor. N�o tenho nenhuma hist�ria.

Meu pai n�o era um filho da puta.

Meu pai era um homem divertido e assoviava enquanto trabalhava.

E estou feliz de ter um trabalho em que assovio enquanto o fa�o.

A vara e o rastelo machucam a azeitona.

Por isso colho com as m�os.

� o jeito certo.

Meus trabalhadores gostam muito de voc�,

vi voc� contar hist�rias a eles e os fazer rir.

Gosto de falar.

Mas comigo � muito reservado.

Porque � meu chefe, senhor.

Mas quero ser seu amigo.

N�o.

Eu te decepcionaria como amigo.

N�o, acho que n�o.

J� dei uma resposta, senhor.

Curioso.

Os outros homens me admiram.

E s� me conhecem.

Acabou de escutar minha hist�ria e nada mudou.

N�o sentiu...

uma admira��o por mim?

N�o acontecer� nada,

pode dizer o que quiser e ser completamente honesto.

N�o me fez admir�-lo mais, senhor.

Posso perguntar o motivo?

Eu n�o teria ficado com o dinheiro.

Bom.

Gostaria de morar aqui?

Ser encarregado de supervisionar os outros homens como capataz?

De gra�a?

Sim, de gra�a.

E tamb�m teria um aumento.

N�o, tendo a moradia j� � mais que suficiente,

mas tenho uma condi��o.

Cuidarei de suas terras.

Ajudarei a prosperarem como se fossem minhas.

Mas meu assovio � para mim.

E minhas hist�rias s�o para os homens.

N�o me pe�a nada, senhor.

E, em troca, nunca pedirei nada a voc�.

Neste exato momento, a 6,4 mil km de dist�ncia,

Abby Dempsey, na �poca Abby Lesher,

tinha acabado de terminar o primeiro rascunho de sua tese.

Mas a vida em si prova ser um narrador n�o confi�vel,

colocando-nos em uma jornada em que n�o sabemos o que vir�.

- A vida em... Essa parte... - Leia.

- Acho que... Est� bem! - Leia!

A vida em si nos engana.

� cheia de pegadinhas.

Mostra um homem como her�i quando ele pode ser um vil�o.

Her�i ou vil�o?

Vil�o ou her�i?

Talvez nenhum. A vida pode n�o ser confi�vel.

Talvez os que parecem her�is e vil�es nas hist�rias

sejam personagens comuns de uma hist�ria maior.

Talvez sejam s� figurantes,

preenchendo quadros para que os her�is

possam se arrumar nos bastidores.

- Isso se repete... - Voc�...

� muito mais inteligente que eu.

Sou mesmo, n�o sou?

A tese de Abby foi um desastre total.

Seu professor favorito disse, como ela temia,

que ela fugiu de criticismo liter�rio

para uma mistura desajeitada de escrita criativa

e filosofia francesa do s�culo 17.

Ent�o o professor favorito de Abby tentou transar com ela.

O que provou a tese de Abby, diga-se de passagem.

No outro continente, Javier n�o sabia nada disso.

Javier Gonz�lez n�o filosofava

e nunca se perguntava o que a vida guardava para ele.

Javier Gonz�lez sabia para onde ia.

Ele sempre soube.

Isabel Diaz aprendeu desde cedo a esperar uma vida normal.

Ela era uma de seis irm�s, considerada a quarta mais bela.

Juan, vou deixar o avental aqui fora, est� bem?

Muito bem.

Trouxe-lhe...

Porque temos que comemorar que fui promovido

- Mentira. � s�rio? - � s�rio.

Como est� t�o calmo?

Parab�ns!

Parab�ns!

Agora pode ser que nossa vida fique boa.

Bela...

Sei que n�o serei um homem rico,

mas tamb�m sei...

que serei um homem bom.

E tamb�m sei que meu cora��o...

� seu desde a primeira vez que te vi.

N�o ria! Gostaria de oficializar.

- Sim! Eu aceito. - O qu�?

- Mas n�o chore. - N�o estou chorando.

- Voc� me segura? - Seguro.

- Um... - Dois...

- E... - E tr�s!

� sua?

- � nossa! - � nossa?

O que achou?

- Sinto-me um senhorio. - � sua mesmo?

� nossa! De verdade!

Nossa, nossa!

Nossa!

Aqui � onde estamos.

Andaluzia.

Se cruzar por aqui...

Chegamos aqui.

Nesse peda�o de terra que se chama

Am�rica.

- Nova Iorque? - Nova Iorque! Lembra-se!

Lembra-se da hist�ria que contei...

Isabel n�o sabia quando Saccione come�ou a visitar Rodrigo.

Ela s� sabia que as visitas tornaram-se mais constantes,

geralmente no meio do dia,

sempre quando Javier estava nos campos.

Pe�o-lhe desculpas.

- Eu j� fiquei demais. - N�o tem problema.

- Sim, sim. - N�o, n�o.

Fiquei muito.

Vivi muitas coisas incr�veis, sr� Gonz�lez,

mas...

minha educa��o pouco comum

deixou algumas cicatrizes que n�o me permitiram encontrar

a coisa mais importante de todas.

E n�o � justo que agora queira preencher esse vazio...

aqui.

N�o seja bobo. N�o tem problema. Rigo de te adora.

Voc� � muito am�vel.

- N�o, � verdade. - Sim, seu filho � especial.

� muito inteligente, n�o �?

Gostaria de ensinar-lhe ingl�s, literatura e...

- Seria �timo. Oi, amor. - Seria.

Javier. Que bom, vim falar com voc� sobre...

a amplia��o do moinho.

E trouxe um presente para seu filho.

- Que generoso da sua parte. - N�o � nada de mais.

Al�m disso, Rigo j� tem muitas coisas.

Da pr�xima vez que quiser falar comigo,

me avise e encontrarei voc� para te poupar a viagem.

N�o!

Muito obrigado.

Quer falar sobre o moinho agora?

Eu quero ir para Nova Iorque com ele.

Javier Gonz�lez era um homem simples,

- mas n�o era burro. - Tudo bem?

Ent�o, ele come�ou a fazer algo

que nunca tinha feito antes: planejar f�rias em fam�lia.

Para um lugar que ele tinha descoberto

que seu filho queria visitar com outra pessoa.

- Quero ir na frente. - N�o, filho. � perigoso.

Quer ir na frente?

- Pois n�s vamos juntos. - Ol�.

- Ol�. - Ol�.

- Ol�. - Ol�.

Olhe, garotinho.

Onde foi parar? Olhe.

Aqui est�.

- De onde voc�s s�o? - Somos da Espanha. Espanh�is.

- S�o de que cidade? - Ela � de Madri, eu sou do sul.

Que legal.

N�o pode distra�-lo. Ele est� dirigindo.

Uma mulher gr�vida atropelada por um �nibus.

Um homem crescido chorando desesperadamente.

Espectadores gritando.

Foram cerca de 20 segundos,

mas se repetiram por anos na cabe�a de Rodrigo Gonz�lez.

Mam�e!

Meu amor.

Volte a dormir, certo?

Vamos fechar um olhinho.

Agora o outro olhinho.

N�o h� sonhos ruins, s� bons.

N�o, n�o.

Ele est� acordado. Escuta que ele est� acordado?

S� eu escuto que ele est� acordado?

Se gritar, ele n�o vai dormir.

Pode faz�-lo dormir.

Rigo, pare.

- Rigo! - Vai me obrigar a comer?

- Um pouco. - Estou sem fome!

Mam�e!

- N�o! - Rigo! Acalme-se.

Sinto seu cheiro daqui.

Estou falando com voc�.

Porra!

Ele n�o melhorou, Javier.

Ele ficar� bem. Voc� vai ver.

- S� precisa de mais tempo. - Precisamos de ajuda.

- Fomos a v�rios m�dicos. - Um especialista.

- Em Madri. Um m�dico de ricos. - N�s n�o somos ricos.

� nosso filho.

� nosso filhinho e est� sofrendo.

Est� certo.

Est� certo.

- Eu posso perguntar. - N�o, n�o.

Eu resolvo, tudo bem?

Tudo bem.

Desculpe, senhor.

Teria um momento?

Seu tio me chamou.

Porque me disse que voc� estava um pouco triste.

Para mim, o diagn�stico � claro depois dessas duas sess�es.

Ele tem um trauma de inf�ncia, como j� sabem.

Causado pelo epis�dio angustiante que viveu.

O acidente.

Rodrigo est� respondendo muito bem

a todas minhas sugest�es para expressar-se pelos desenhos

e os jogos, � muito importante.

Vai levar tempo.

Levar� tempo, mas a boa not�cia,

� que � trat�vel e cur�vel.

- Isso � importante de dizer. - E a quest�o econ�mica?

- N�o se preocupe com isso. - Mas tenho que saber.

Meses se passaram.

As visitas do sr. Saccione n�o eram mais restritas.

Os presentes dele n�o eram mais retidos.

- Ol�, Oli. - Agora, em ingl�s.

Meu nome �...

Rodrigo...

- Gonz�lez. - Muito bem. Est� escrito certo.

Mas gosto de ser chamado de Rod.

- Ou Rigo? - Isso.

Eu sou da Espanha.

Continue.

Eu fiquei triste

por um bom tempo.

Mas meu tio me deu um passarinho,

o que ajuda.

Voc� a ama?

Amo.

- E ama Rodrigo? - Amo.

Sinto muito, Javier.

Creio que a solid�o ataca os homens fracos.

N�o estou orgulhoso de mim.

Acredito que seu pai estaria orgulhoso.

Voc� � um digno filho de seu pai, senhor.

Javier, tem minha palavra de que ficarei longe deles.

Seu filho est� se curando e n�o precisa mais de mim.

Eles s�o sua fam�lia, Javier. N�o a minha.

N�o.

O que est� fazendo?

Vou embora, Bela.

E vai para onde?

- Vai para onde? - Vejo como se olham.

Nossa senhora, voc� est� b�bado.

Est� b�bado e com ci�mes.

Vejo o que ele tem feito por Rodrigo.

Ajudou a cur�-lo.

Eu nunca poderia fazer o que ele fez.

Por isso, pedimos ajuda a ele.

E quando ele nos ajudou, voc� desapareceu.

Sim ou n�o?

N�o sei por que busca solu��o nas garrafas.

Tenho um trabalho em Madri. Mec�nico.

- Paga bem. - O qu�? O que voc� falou?

Iria mandar dinheiro, mas acho que n�o far� falta.

Sinto muito.

Voc� merece mais.

N�o diga o que mere�o, Javi.

N�o se atreva a dizer o que eu mere�o,

porque eu sei o que mere�o.

Acha que est� me fazendo algum favor?

Acha que me salvou de algo?

Que me encontrou em uma vida de merda e me tirou dela?

Acredita nisso?

Eu que te escolhi, Javier.

Ol�.

Eu te escolhi, porque sabia que eu merecia algu�m especial.

- Ol�. - Algu�m bom.

Que me olhasse com esses olhos.

Olhe nos meus olhos.

Olhe nos meus olhos e diga

que teria uma vida melhor comigo do que com ele.

Eu teria uma vida melhor com voc� do que com ele.

Rodrigo, � tudo que tenho.

E n�o quero que sofra mais.

N�o quero que sofra nem mais um minuto.

N�o importa o que ele fa�a da vida,

s� quero que encontre seu caminho e seja feliz.

Voc� vai me ajudar a fazer com que encontre.

Certo?

Ajudarei Rodrigo a encontrar o caminho dele.

Nunca amarei voc� como o amo.

Eu sei.

Se aprendemos algo at� agora, foi a n�o torcer pelos her�is.

Eles costumam nos decepcionar.

Mas Rodrigo Gonz�lez parecia um verdadeiro her�i.

CAP�TULO 4 RODRIGO GONZ�LEZ

Mam�e?

Entrei na Universidade de Nova Iorque.

Eu entrei!

O que foi?

Ela est� doente, Rodrigo.

N�o irei agora.

Tudo que est� passando...

� uma decis�o minha, n�o sua.

Ela sempre me deu tudo, me deu toda sua vida.

Devo isso a ela.

- Rodrigo... - J� disse que ficarei.

Resolveremos isso.

Salvaremos minha m�e como fizeram comigo.

Olhe para mim.

Temos que fazer isso por ela.

Fique calma.

Vai doer um pouco. Fique calma.

Rodrigo.

Sua m�e est� te chamando.

J� vou.

Ol�.

Rodrigo, j� passou muito tempo e eu n�o melhorei.

E seu tio j� gastou muito tentando me curar...

Mas Rigo...

S� estamos adiando.

Meu amor. J� chega.

- N�o, m�e... - J� chega! Rodrigo, j� chega.

Rodrigo entrou na faculdade como calouro visitante.

Ele prosperou da mesma forma que vinha fazendo toda sua vida.

Ele se inscreveu em dois esportes.

Proporcional � raz�o...

Suas notas eram as melhores da sala.

At� come�ou a namorar uma garota de uns 20 anos

de Long Island, chamada Shari Dickstein.

Ela o fazia rir, n�o intencionalmente.

Meu Deus. Voc� nunca foi ao Whole Foods?

- N�o. O que � isso? - Eu te levarei. � um sonho...

Ela n�o era seu grande amor, mas era companhia.

E um grande amor n�o era a prioridade dele.

- Comer limpo, o sonho vegano. - O que � vegano?

Meu Deus, voc� � ador�vel. Amo que n�o saiba das coisas.

Ele guardou cada d�lar, cobi�ava as f�rias.

Rodrigo Gonz�lez tinha uma b�ssola interna,

que sempre apontava na mesma dire��o.

� de uma ilha chamada Long Island.

- Em Nova Iorque? - Sim.

Olhe aqui.

- Bonita. - O nome dela � Shari Dickstein.

- Shari. - Shari com S.

- Shari? - Shari.

- Shari Distin. - Shari Dickstein.

Como ela �?

Bem, ela �...

Ela � bastante barulhenta, na verdade.

- N�o. - Sim, sim.

O ano voou, como outros importantes em nossas vidas.

Mas, na verdade, aquele ano foi um teste,

uma pr�via para o maior dia da vida de Rodrigo Gonz�lez.

Onde voc� est� indo?

Saindo para correr.

- Minha alma. - O qu�?

Quando come�amos a namorar, me chamava de "minha alma".

Voc� dizia:

"Saindo para correr, minha alma."

Sempre fez eu me sentir como Kelly Ripa.

- Shari... - Estou gr�vida.

Eu sei! Temos muito a discutir.

Voc� me levaria para comer? Tem um lugar que quero ir.

� vietnamita, acho que parece dim sum.

Podemos conversar l�, no lugar vietnamita.

Quero muito experimentar.

Comecei a passar mal h� algumas semanas.

Achei que era uma menstrua��o ruim.

Quando cortei anticoncepcionais, minhas menstrua��es pioraram.

Mas n�o estava parando, ent�o fui ao ginecologista,

que perguntou se eu era sexualmente ativa.

Contei a ele sobre voc�, ele fez um teste e pronto!

Eu nem pensei em fazer o teste em casa.

Por alguma raz�o, nem pensei nisso.

Sei que n�o estamos juntos h� muito tempo,

e claramente isso � uma situa��o fodida.

N�o sei qual � sua religi�o,

mas estou pensando que devo fazer um aborto.

Voc� � muito contra isso? Aborto?

Sei que aborto � algo importante para os crist�os.

Deveria haver uma p�lula ou algo assim

para gravidez n�o planejada.

Porque se voc� � crist�o, eu...

N�o temos que decidir agora,

mas queria resolver logo, antes que a cabe�a desenvolva.

N�s chegamos!

Na minha opini�o, temos tr�s op��es.

Op��o um: ter o beb�. Um beb� com mistura de ra�as

e com nossas caracter�sticas seria maravilhoso.

Minha fam�lia tem dinheiro para bancar bab�s.

N�o sei, provavelmente � uma ideia ruim.

Op��o dois: abortar.

Queria decidir isso antes que seja tarde.

Ou op��o tr�s:

concordar que isso � uma �tima pegadinha

de primeiro de Abril!

- O qu�? - Primeiro de Abril, cara!

O que � isso?

- S�rio? Voc� n�o sabe? - N�o sei mesmo.

Eu n�o sabia disso.

- Ent�o n�o est� gr�vida? - Cara! Claro que n�o.

Fala s�rio!

Voc� tem que admitir que foi muito engra�ado.

Shari...

Merda.

Voc� vai terminar comigo, n�o vai?

- Ele ia. - Vou. Sinto muito...

Obviamente, nada at� aqui indicou

que seria o dia mais importante na vida de Rodrigo.

Nada.

�s vezes, o dia mais importante de nossas vidas come�a

e nem estamos l� para ver.

Temos que chamar Rodrigo.

Isabel.

J� nos despedimos.

- Isabel. - N�o direi adeus de novo.

Vincent...

Voc� � um bom homem.

Estou falando s�rio.

Ol�, Bela.

O sr. Saccione era um escritor de cartas.

Ele sempre foi.

Acreditava no poder da palavra escrita � m�o,

a for�a de sentar e escrever para algu�m com as m�os.

Javier, tem minha palavra de que ficarei longe deles.

Seu filho est� se curando e n�o precisa mais de mim.

Eles s�o sua fam�lia, Javier. N�o a minha.

N�o.

N�o voltarei.

Por isso, tenho que pedir um favor.

Assim, as cartas do sr. Saccione acharam um novo destinat�rio.

Um homem que queria manter-se atualizado

sobre a vida dos que abandonou, mas que ainda amava.

QUERIDO JAVIER

ELA EST� MORRENDO, JAVIER. VOLTE PARA CASA.

Ol�, Bela.

Ol�.

Ol�.

Ol�, tio!

Como voc� est�?

Estou bem, tive uma tarde movimentada.

Com a barulhenta.

Quando cr�ticos analisaram o �lbum favorito de Abby,

o lan�amento de Bob Dylan em 97, Time Out of Mind,

a m�sica Make You Feel My Love foi alvo de muita cr�tica.

Cada faixa do �lbum

transbordava com melancolia e tristeza implac�veis.

Mas ali, bem no meio de tudo,

estava uma m�sica de sucesso abertamente populista.

Uma m�sica de amor.

Uma m�sica que seria cantada por Garth Brooks.

Alegavam que colocar uma m�sica de amor t�o �bvia

no meio de um �lbum sobre desespero e trag�dia

foi o �nico deslize de Dylan.

Outros alegavam que essa era a ideia dele.

Voc� est� bem?

Oi?

Meu pai, Rodrigo Gonz�lez,

conheceu oficialmente minha m�e, Dylan Dempsey, naquele dia,

o dia mais importante da vida dele.

Oi.

Eles n�o passariam uma �nica noite separados

pelos pr�ximos 42 anos.

Eles tiveram quatro filhos

e sete netos.

Uma hist�ria de amor para a eternidade.

Minha av�, Abby Dempsey,

argumentou em sua tese reprovada

que a vida em si � um narrador n�o confi�vel.

Ela argumentou que ningu�m sabe para onde a hist�ria est� indo,

nem quem ser�o os her�is nela.

CAP�TULO 5 ELENA DEMPSEY-GONZ�LEZ

E embora seja verdade que a vida muitas vezes tornou dif�cil

identificar os her�is da hist�ria de minha fam�lia,

meus pais sempre deixaram muito claro para mim.

Eles acharam a m�sica de amor populista

no �lbum melanc�lico de nossa fam�lia.

Diferentemente de minha av�, Abby,

minha av� Isabel n�o era nem escritora,

nem fil�sofa.

Mas, �s vezes, me pergunto se ela n�o entendeu exatamente

o que Bob Dylan queria.

Rodrigo, j� passou muito tempo e eu n�o melhorei.

O espanhol nem sempre tem uma tradu��o perfeita,

mas o que Isabel disse a meu pai,

no dia em que o mandou embora,

n�o exigia tradu��o.

- M�e... - Chega.

J� chega.

Escute.

Rigo, voc� teve muitos altos e baixos na vida.

At� demais.

E voc� ter� mais.

Essa � a vida.

E � isso o que ela faz.

A vida te deixa de joelhos.

Ela te derruba tanto que voc� nem acredita.

Mas se voc� se levantar...

e seguir em frente...

Se voc� for um pouco mais longe...

voc� sempre encontrar� amor.

Eu encontrei amor em voc�.

E a minha vida, a minha hist�ria,

continuar� quando eu me for.

Pois voc� � minha hist�ria.

Voc� � a hist�ria de seu pai.

A hist�ria de seu tio.

Rigo,

meu corpo j� n�o me serve mais.

Mas voc� sou eu.

Ent�o, v�.

V� me dar uma linda vida.

A vida mais linda de todas.

Est� bem?

E se a vida nos deixar de joelhos,

nos levante.

Levante...

e v� mais longe.

E nos ache amor.

Pode fazer isso?

Um olhinho.

Lembra-se disso?

Outro olhinho.

N�o sei bem de quem � a hist�ria que estive contando.

N�o sei se � a minha,

ou se � a de algum personagem que ainda n�o conheci.

N�o tenho certeza de nada.

Tudo o que sei � que,

a qualquer momento,

a vida me surpreender�.

Ela me deixar� de joelhos.

E quando isso acontecer,

eu me lembrarei...

Eu me lembrarei...

de que eu sou o meu pai.

E de que sou o pai do meu pai.

De que eu sou a minha m�e.

E de que eu sou a m�e da minha m�e.

E embora seja f�cil afundar nas trag�dias de nossas vidas,

e embora seja natural nos concentrar

nos momentos indescrit�veis que nos deixam de joelhos,

temos que nos lembrar que, se levantarmos,

se levarmos a hist�ria s� um pouco mais adiante...

Se formos mais longe...

h� amor.

Se formos longe o suficiente...

encontraremos amor.

Minha nossa.

Legende conosco! www.maniacs.cf

A VIDA EM SI

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