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UM FILME À DERIVA NO COSMOS
- É para ti. - Quem é?
É do escritório. Depois liga para a mãe, para ver se está tudo em ordem na clínica.
- Já te tinha dito que já fiz isso. - Ela percebeu-te mal, então.
Quando o Roland levar o teu pai da clínica para casa,
seria óptimo se os dois morressem num acidente.
UM FILME ENCONTRADO NUMA SUCATA
- Ele consertou os travões? - Não, eu consegui que ele se esquecesse.
Sete pessoas morreram no cruzamento da Evreux no último domingo.
Seria formidável.
Estás maluco?
Mas o que estás a pensar fazer?
Não vou voltar com eles. Vou dizer que estou com tosse.
Em que é que estás a pensar?
O Roland está a ficar desconfiado? Ele às vezes lança-me olhares estranhos.c
Não, eu deixei-o foder-me algumas vezes, por isso ele deve pensar que eu o amo.
Não voltes a ligar para aqui, é perigoso.
O barulho era de alguém a bater num gajo por lhe ter partido o farol.
Por momentos, pensei que ele estivesse morto.
Sim, teria sido muito bom se fosse ela.
Não, o dinheiro primeiro.
Ouça, eu sempre disse isso porque eu amo-te.
Tenho que ter cuidado, depois dos soníferos e do gás.
Ela é estúpida, mas vai acabar por perceber mais cedo ou mais tarde.
O importante é livrarmo-nos do velho.
Assim que a Corinne tiver o dinheiro, trataremos dela.
É claro que te amo.
Tu és a minha putinha, tu sabes.
Até segunda, então.
Quando foi isso, então?
Terça... Terça à noite, depois da piscina.
- Disseste que tinha sido há dois dias. - Estava enganada.
Eu sei que foi terça porque tomei o último comprimido na quarta.
De qualquer forma, eu não fiquei com medo.
Por que haverias de ficar? Não foi a primeira vez.
Bem, não foi como nas revistas Marie Claire ou nas novelas.
Eu não sei... os olhos dele eram violentos... a boca, as suas palavras.
Ele começou no Mercedes.
Eu disse-lhe que fui atrás dele. Eu queria mais que uma rapidinha.
Ficamos de nos encontrar noutro lugar; fazê-lo no carro é aborrecdio.
Eu disse-lhe para ele me levar para casa e que lhe ligava durante a tarde.
Eu queria foder, mas achei melhor esperar.
O que é que ele disse?
Ele falou do meu corpo e de como eu o deixava excitado...
e como isso era vulgar e desagradável.
- Pensaste em mim, também? - Claro que pensei.
Mas ele levou-te para casa
ANÁLISE
Mas paramos na Rua Molitor...
e beijámo-nos durante um bom bocado no estacionamento.
Ele tinha uma mão entre as minhas pernas, e a outra agarrava o meu pescoço.
Ele ficou assim, sem se mexer.
E tu?
Eu também não me mexi Estava com frio.
Ele adivinhou que eu queria outra bebida, portanto fomos para Saint Lazare.
Todos os cafés estavam fechados.
Ele mora na Rua Pasquier, perto de Saint Lazare.
Estava cansada e com frio.
Apercebo-me agora que não estava bêbeda.
Só queria que ele me fodesse - onde quer que fosse, até mesmo no elevador.
Mas eu não disse nada.
O ombro dele tocou num dos meus seios quando fechou a porta do elevador.
- Porque? - Porque sim.
A Monique veio abrir a porta.
Foi uma surpresa. Achei que ela tinha ido para Espanha com aquele designer, sabes?
Não, não sei.
Vimo-los uma vez naquela fila, no cinema.
Não sabia que ela era a mulher dele.
Estavam casados há apenas dois meses
Bom, e depois?
Bem, ela abriu a porta.
O Paul tirou o casaco e perguntou se havia alguma coisa quente para beber.
A Monique disse que só tinha whisky e um vinho tinto rasco.
Ela começou a rir.
De repente, o Paul começou a parecer ficar irritado.
Desatei a rir-me, também.
Ele olhou para nós, depois disse que ia mudar de roupa.
Fui com a Monique para o quarto dela. Nada mau. Havia uma lareira.
Tirei a minha gabardine.
A Monique olhou para mim.
Ela perguntou porque é que eu parecia estar a tremer...
...se eu tivesse frio, podia despir-me. Não havia razão para ter vergonha.
Então ela ajudou-me.
A fazer o quê?
A tirar a minha saia e a minha camisola.
Fiquei só de cuecas e sutiã.
Fui para a lareira. Fiquei de costas para ela mas sabia que ela me olhava.
Perguntei por que é que ela estava calada. Ela não respondeu, então virei-me.
Ela foi até à janela, de costas para mim.
Apercebeu-se do meu olhar. Ela tirou o vestido dela. Estava nua.
Perguntou-me se eu achava o rabo dela muito grande. Eu disse que não.
Ela virou-se, afastou as pernas e pediu-me para as descrever.
Disse que tinha coxas brancas, e que o seu grelo era uma mancha negra acima delas.
Ela chamou o Paul.
Ela veio para trás de mim.
Porquê?
Para despir o meu sutiã.
Depois entrou o Paul.
Estava de pijama, o peito nu. Tinha uma garrafa de whisky.
Ele obrigou-me a beber.
Depois disse para a Monique continuar.
- O que é que ela estava a fazer? - Estava a apalpar os meus seios.
E depois?
O Paul tirou a roupa, também, e mostrou-me o pénis.
Ele disse à Monique para tirar as minhas cuecas.
Ele fez-me ajoelhar e colocou a minha cabeça entre as pernas da Monique.
Agora estava de costas para o Paul.
Lembro-me que ele estava a descrever as minhas nádegas
e sem tirar os olhos de mim...
...aproximou-se e enfiou os dedos.
Derramou o resto da garrafa sobre as minhas costas.
Eu sentia o líquido a escorrer entre as minhas nádegas.
O Paul ajoelhou-se e começou a lamber o meu cu.
Não era desagradável. Foi maravilhoso.
Senti o sexo da Monique contra o meu pescoço
os cabelos dela a enrolarem-se com os meus.
Enquanto o marido dela acariciava as minhas nádegas...
...ela pôs as minhas mãos no cu dela e voltou a apalpar os meus seios.
Senti as nádegas dela abertas para levar com os meus dedos, e fechar-se sobre eles.
E tu?
Queriam que eu falasse sobre isso, para que as minhas sensações os excitasse.
Só tens Gitanes? Não há tabaco americano?
Está no meu casaco.
Acabou.
- Toma um Gitane. - Não gosto.
Já acabou?
Passado um bocado, Paul pediu à Monique para trocar de lugar comigo.
Ela beijou-me o sexo enquanto eu ajudava o Paul a fodê-la por trás.
E foi só isso?
Depois assistimos uns aos outros a masturbarmo-nos.
Depois o Paul gritou: "Para a cozinha, minhas meninas!"
- Para quê? - Já te digo.
No frigorífico tinha uma terrina de leite para o gato.
A Monique disse: "Queres apostar que eu me sento na terrina?"
"Aposto que não te atreverias", disse o Paul.
Ela subiu para a pia, para ficar ao nível do frigorífico, e sentou-se na terrina.
Sem tirar os olhos de nós, mandou-nos masturbar.
O Paul disse-me para parar logo quando estava para me vir.
Ele também subiu para a pia
e ajoelhou-se à frente da Monique.
Depois tirou um ovo do frigorífico.
Enquanto eu lambia o leite na cona da Monique, ele enfiou o ovo no meu rabo.
Quando me vim, o ovo partiu-se e escorreu pelas minha pernas.
- Isso é verdade ou é um pesadelo? - Não sei.
Eu adoro-te, Corinne. Anda excitar-me.
SÁBADO
10:00 H
Despacha-te senão vamos apanhar engarrafamento!
Tu já vais ver!
- Ei Senhor, de que marca é esta lata? - Põe-te mas é a andar!
Eu sei qual é, é uma porcaria de um Facel!
Uma porcaria como a sua mulher.
Uma porcaria de um 'Facel'!
Mamã, eles estragaram o Dauphine.
CENAS DA VIDA PARISIENSE
Mamã, eles estragaram o Dauphine.
- Preciso dos dados do seu seguro. - Eu dou-te os dados!
- Queres dinheiro? Então, cala-te. - Obrigado.
Ei, 8805!
- Viu o que fez com o meu carro? - Está tudo bem com o seu carro.
Amassou o pára-choques.
Os pára-choques são feitos para amassar.
Só porque o seu sogro é o senhorio do edifício...
Só porque você compra vestidos na Chez Dolores...
Dê-me os seus dados.
Dá-me a lata de tinta que está na mala.
Sua puta esbarrada!
- Já chega. - Pára.
Pára com isso, já chega!
Sacana! Monte de merda! Comunista!
SATURDAY 11:00H
13:40H
14:10H
O Internacional
Uniu a raça humana...d
Anda, vamos, liga para Oinville.
Se conduzisses mais rápido, não nos atrasávamos.
Eu conduzo como me apetece.
Temos que ir buscar o pai à clínica. A mãe não deve tê-lo feito.
Eles são uma autêntica chatice.
Eu sei, mas se o pai ditar um novo testamento no seu gravador...
Não seria válido.
Talvez não, mas não vamos correr o risco de perder as férias de Inverno no México.
Senão vai demorar uma eternidade.
Claro que não. Não te preocupes, vai correr tudo bem.
Por que é que achas que lhes envenenamos
a comida durante cinco anso, todos os Sábados?
Liga e diz que estamos no trânsito e que nos vamos atrasar.
Viste o que aconteceu com o Triumph? Se ao menos fosse com os pais.
Sua puta burguesa!
Seu camponês de merda!ale
Sua puta parisiense!
LUTA DE CLASSES
Você matou o homem que eu amo! Por que é que não ficou no estábulo?
Porque é que iam tão rápido? Isto aqui não é St. Tropez.
Você não suporta que tenhamos dinheiro quando você não tem, não é?aleij
Não suporta que fodemos no Riviera, e nos resorts de ski...
que gastemos dinheiro o ano todo, enquanto você não pode!
E na Primavera vamos para a Grécia, onde camponeses porcos como o senhor...
...são enfiados na prisão juntamente com os seus tratores de merda.
Não há necessidade de insultar o meu trator, Madame.
Aposto que nem é seu.
Dever ser de um sindicato corrupto ou de uma cooperativa miserável.
E o vosso carro estrangeiro?!
Roubado, até aposto!
O herdeiro das Empresas Robert deu-mo, porque eu fodi com ele.
Vocês são um bando de impotentes, nem capazes de foder são!
O governo devia foder-vos. A si, e ao seu trator de merda.
Sem mim e sem este trator, a França estaria faminta!
Quero lá saber O Paul está morto!
- Ele tinha prioridade. Agora está morto. - Prioridade? Você devia ter mais certeza.
Ele tinha prioridade.
Ele era bonito, jovem, rico.
Tinha prioridade sobre os gordos, os pobres, os velhos...
Não devia dizer isso.
Seu grande monte de merda miserável!
Sua puta asquerosa!
Seu trator em segunda mão!
Custou muito a quem trabalha com as mãos.
E o meu Triumph? Não se aproveita nada! E você nem quer saber, não é?
E agora ele está morto.
Você acha que não lhe vai acontecer nada, não é? Pois eu digo-lhe que vai!
Testemunhas! Tínhamos prioridade, não tínhamos?
Desculpe, mas estamos com pressa.
Não se podem ir embora assim. Somos todos irmão, como Marx disse.
Seus sacanas!
Sacanas!
Judeus! Malditos judeus! Até metem nojo!
FALSA IMAGEM
Os teus atalhos só fazem desperdiçar tempo, e tempo significa dinheiro.
Não me chateies.
Quando é que a civilização começou?
Agora estás preocupada com isso?
Não, é a paisagem.
Mesmo assim, não entendo.
Não ouviste o que ele disse? "Somos todos irmãos, como Marx disse".
Não foi o Marx. Foi outro comunista que disse isso. Foi Jesus.
De qualquer forma, eu concordo contigo.
Não quero saber, mesmo sendo verdade. Já não estamos na Idade Média.
Que horas são?
SÁBADO 15:00 H
SÁBADO 16:00 H
Se eu incomodasse a sua esposa e a aleijasse, também chamaria a isso de arranhão?
Passa por cima!
Será que vai chover?
De certeza que vai.
Não, está a vir sol.
Eu disse que vai chover.
SÁBADO 17:00 H
Podem dar-me uma boleia?
- Entre. - Joseph!
- Para Mantes la Jolie? - É para o outro lado.
- Entao faça inversão de marcha. - Você é maluco.
Vamos!
Eu disse para mudar de direção! Entra, Maria Madalena.
Rápido!
Toca a mexer!
Pára!
Mais devagar!
- Sai! Despacha-te! - Você é maluco!
Entra, rápido!
Cuidado!
O ANJO EXTERMINADOR
Socorro!
Silêncio! Até Deus tem a Sua polícia.
Se não tens nada a perder, prova-o.
Prova-o!
Silêncio. Já disse! Vais-te calar?
Provar como?
Somos casados, fodemos legalmente. Aposto que não podem dizer o mesmo.
É exatamente isso!
Diga-me o seu nome, Madame.
Eu? Sou a Corinne Durand.
Durand é o nome do seu marido. Como é que a senhora se chama?
O meu nome de solteira? Corinne Dupont.
Dupont é o nome do seu pai. Qual é o seu?
Está a ver? Você nem sabe quem é.
O Cristianismo é a recusa do auto- conhecimento. É a morte da linguagem.
São capazes de calar essas matracas?
- E você, qual o é seu nome? - Joseph Balsamo.
Nunca ouvi falar dele.
- Socorro! - Vão-se calar ou quê?
Ouçam.
Não estou surpreendido com a vossa aparência. Essa de "Reader's Digest".
Silêncio, por favor.
Vocês fazem-me lembrar aqueles que não queriam transportar
o Andre Berton quando ele estava morto.
Muito bem, passo a explicar.
Joseph Balsamo é o filho de Deus e Alexandre Dumas.
Deus é um velho excêntrico, tal como toda a gente sabe,
Ele fodeu com Dumas e eu sou o resultado. Portanto: eu sou Deus.
Sim, sou Deus porque sou preguiçoso.
Isso não é verdade, amor.
- Socorro! - Querem...
Querem fazer o favor de se calar?
Tu também Maria Madalena.
Ela é simpática mas não é lá muito iluminada.
Preguiçosa, Meu Deus!
Ouçam, calem-se. Fechem o bico, pode ser?
Já chega.
Ela é boa pessoa. Ela sabe o que é ter preguiça.
Ela também compreende Deus porque me obedece.
O que é que vocês pretendem fazer, exatamente?
Estou aqui para informar que estes Tempos Modernos Da Era Gramatical acabaram
...e que se inicia a Era da Extravagância, especialmente no cinema.
Estou farto disto. Vou parar.
Vou fazer-vos uma proposta. Levem-me a Londres e realizarei os vossos desejos.
Sim, claro! Falhado!
A sério. Veja o que está no porta-luvas. Veja bem.
Merda, um milagre!
Um coelho!
Tudo o que quiserem, se me levarem para Londres.
Um grande Mercedes desportivo?
Um vestido de gala Yves St. Laurent?
Um hotel em Miami Beach?
Quero ser loira. Loira natural.
Uma frota de Mirage IV como a que os brancos utilizaram para espancar os pretos.
Um fim de semana com o James Bond.
Eu também quero isso.
É tudo o que querem?
Otários! Não vos vou dar nada!
Quero um milagre já, seu vigarista.
O quê? Para cara de cus como vós?!
- Já chega! Ponham-se a andar! - Rua!
Saiam!
Fora, sua puta! Vou por-te a andar!
Sacana!
Maldito judeu! Eu mato-te!
Silêncio!
Vade retro! Vade retro! Vão para casa!
Olha, o sol está a despontar.
Passa por cima!
Viva Anquetil! Viva Poulidor!
A minha carteira Hermès!
DA REVOLUÇÃO FRANCESA PARA OS FINS DE SEMANA GAULESES
Liberdade é violência.
Como um crime,
parece ser a virtude do vício
A faca está debaixo da almofada?
que combate desesperadamente a escravidão.
Não, no armário.
A liberdade matar-se-á a si na longa luta.
Pode a inconsistência da humanidade ser concebida?
E o machado?
Alguém ainda acredita que o homem organizou a sociedade
para ser feliz e razoável?
Que também, cansado da sabedoria
da sabedoria da natureza...
No armário, também.
...ele desejou ser infeliz e miserável?
Não vejo nada além de Constituições
impregnadas de ouro, orgulho e sangue.
E em lugar algum, vejo a doce humanidade,
ou a equação moderada
que deveriam ser a base do Contrato Social.
DOMINGO
Eu choro no vazio.
HISTÓRIA DE SEGUNDA-FEIRA
O Contrato Social.
DOMINGO
Eu choro no vazio.
HISTÓRIA DE SEGUNDA-FEIRA
Eu choro no vazio. Clamo por ti no meio da noite.
Despacha-te.
Estou, estás a ouvir-me? Tens bom tempo aí?
Até aqui, à chuva, eu respiro o teu ar outra vez.
Aqui na cabine telefónica, cercado por todos os lados
Imagino-te num bar com o olhar perdido no mar.
Estou, estás a ouvir-me? Como estão o Laurent, Jean-Luc e Joelle?
Eles ainda pescam nas ilhas, naqueles sítios que conhecemos tão bem?
Lá se vão as fichas outra vez Elas contam cada palavra
Só sou eu que falo Conta-me as novidades que ouviste...
Conta-me com quem tens dançado. O que está por trás das tuas palavras?
Estou, estás a ouvir-me? Responde. Os teus lábios estão cansados?
Não podes falar mais alto? Vais estar aí se eu voltar a ligar?
Tenho que desligar. Tem aqui pessoas à espera.
Por mais que eu tenha falado, mal disse uma palavra
Estou, estás a ouvir-me? Eles estão a ficar impacientes ali fora.
Neste mundo onde cães comem cães, quem se importa com um amor que morreu?
- O que está a fazer? - A testar os travões.
É uma caixa de velocidades Porsche?
Pode levar-nos à oficina mais próxima daqui?
Só há lugar para a sua mulher. Para si, não!
- Posso sentar-me lá atrás. - Não, vai estragar a capota.
Você vai parti-la.
Saia daí, senão parto-lhe a cara.
Você é maluco!
Vamos, desapareçam!
- Ele é maluco! - É louco!
Desapareçam!
Mas você disse que eu poderia ir consigo.
Se quiser sim... mas ele não.
Roland!
Rápido!
- Deixe-me entrar! - Espere.
- Dê a volta. - Deixe-me...
Segura-o enquanto ligo o carro.
Socorro!
- Polícia! - Socorro!
Sabe se há alguma oficina aqui perto?
Oinville é por aqui?
Estes idiotas estão todos mortos.
Está aqui alguém.
Você vem destas bandas?
É daqui?
- Vocês são surdos? - Vocês são cegos, ou quê?
Roubado em Los Angeles, onde se trocam sonhos
eu escondi o roubo, cometido por um imigrante como eu,
um leitor dos meus poemas,
enquanto eu temia que o feito pudesse ser observado por... animais, digamos.
- Obrigado, Srª. Brontë. - De nada, querido.
- Senhora... - Sim, que foi?
Desculpe-me, mas...
Pode dizer-nos para que lado fica Oinville?
Informação poética ou informação física?
Apenas queremos saber para que lado fica Oinville.
A física ainda não existe, apenas as ciências físicas individuais, talvez.
Que filme horrível! Só encontramos gente louca.
A culpa é tua.
Talvez o destino saiba tudo e apenas aparente não saber lidar com as coisas.
Sem querer, dá sete anos de felicidade, depois tira dois.
- Obrigado, Emily. - De nada, querido.
Senhora, por favor!
- O que é isto? - Uma pedrinha.
O CAMINHO DE LEWIS CARROLL
Pobre pedrinha.
Ignorada pela arquitetura, escultura, pelo mosaico e pela joalheria.
Data do início do planeta, talvez até de outro astro.
Deformada pelo torção do espaço, como o estigma da sua terrível queda.
É mais antiga que o homem. E o homem não a incorporou na arte ou indústria.
Ele não a manufacturou, e, portanto, decidiu o lugar dela.
A pedrinha perpetua nada mais que a sua própria memória.
Obviamente, os minerais não são nem independentes nem sensíveis.
É por isso que é muito difícil mexer neles.
O calor de um maçarico, por exemplo, ou de um arco voltaico
terremotos, vulcões ou éons do tempo.
Para que lado fica Oinville?
E eu pergunto-vos o que é isto.
Erva.
Não. Poa nemoralis.
Então, onde é que fica Oinville?
E o que é isso?
Um castanheiro.
Não. Castanea sativa.
O começo de um novo dia, no cinzento alvorecer
abutres irão voar para margens distantes
voando silenciosamente em nome da ordem.
- Obrigado, Srª. - De nada, querido.
Tivemos um acidente, há pessoas à nossa espera.
E eu também vos imploro que me ajudem a resolver este problema.
O que foi agora?
Um. "Um gatinho que gosta de peixe é um bom aluno".
Dois. "Nenhum gatinho sem rabo está apto a brincar com um gorila".
Três. "Gatinhos com bigodes adoram sempre peixe".
Quatro. "Nenhum gatinho que gosta de estudar tem olhos verdes".
Cinco. "Nenhum gatinho com bigodes tem um rabo".
- Conclusão? - Não faço ideia.
E este:
Um. "Nenhum tubarão duvida que é bem armado".
Dois. "Um peixe que não pode dançar o minueto é digno de desprezo".
Três. "Nenhum peixe está bem equipado com menos de três fileiras de dentes".
Quatro. "Todos os peixes, exceto tubarões, gostam de crianças".
Cinco. "Nenhum peixe corpulento pode dançar o minueto".
Seis. "Um peixe com três fileiras de dentes não é digno de desprezo".
- Conclusão? - Não faço ideia.
Srª. Emily, pare de punir os crimes menores e os crimes maiores morrerão.
Reflete sobre aquela noite negra, neste vale de lágrimas e horror
mas extermina hoje os grandes ladrões
pois é deles que vêm o calafrio e a noite.
Deles vem este mundo de horror.
Chega!
Seja ele preto ou branco, eu exijo a morte do crocodilo, assassino.
Isto não é um Romance, é um filme. Um filme é a vida.
Cobre as flores em chamas, afaga os teus cabelos, ensina-os a ler.
É podre da nossa parte, não é? Não temos o direito de queimar um filósofo, sequer.
Não vês que são apenas personagens imaginárias?
- Então porque é que ela está a chorar? - Não faço ideia. Vamos.
E nós? Somos pouco mais do que nós próprios.
Eu disse a mim mesmo: Para quê falar com eles?
Se eles adquirem conhecimento, é apenas para revendê-lo.
Eles querem conhecimento para vendê-lo com margem de lucro.
Não querem nada que pudesse ficar no caminho deles rumo à vitória.
Eles não querem ser oprimidos, eles querem oprimir.
Eles não querem progredir, querem ser os primeiros.
Eles submetem-se a qualquer um que lhes prometa deixá-los fazer as leis.
Eu ponderei no que lhes dizer. E então decidi dizer o que lhes disse.
UMA TERÇA-FEIRA NA GUERRA DOS 100 ANOS
- Não sabemos nada. - Sim.
Somos completamente ignorantes sobre a nossa própria natureza.
Somos completamente ignorantes sobre o que é esta minhoca.
Ambos somos enigmas.
Qualquer um que diga o contrário é o mais ignorante de todos.
Qualquer um que diga o contrário é o mais ignorante de todos.
Olha, calças de Chez Eddy.
- Quantos dias se passaram até hoje? - Hoje é quinta-feira.
O teu velho já deve ter morrido. Segunda-feira, o mais tardar.
A tua mãe vai ficar furiosa connosco.
Que pena, não me serve.
Aposto que a bruxa velha alterou o testamento. Já não vai partilhar nada.
Uma boa sessão de tortura mudará a opinião dela.
Eu lembro-me de alguns truques, quando era tenente na Argélia.
Aquilo não é um camião que vem para aqui?
Rápido, tira essas calças e deita-te no meio da estrada!
Levanta os joelhos! Abre-os bem, sua imbecil!
Vai para Oinville?
Então?
Sim, mas temos que ajudá-lo num concerto. O assistente dele desapareceu com uma miúda.
ACÇÃO MUSICAL
Existem 2 tipos de músicas: A que tu ouves e a música que não ouves.
Mozart é o que tu ouves.
Imagina o dinheiro de direitos autorais...
que o pobre homem receberia hoje em dia...
A música que tu não ouves é a chamada música moderna, dita "séria".
Ninguém vai aos concertos. A verdadeira música moderna, paradoxalmente,
é baseada nas harmonias de Mozart. Tu ouves pedaços de Mozart...
...em Dario Moreno, nos Beatles, nos Rolling Stones ou o que quer que seja.
Fundamentalmente são sempre as harmonias de Mozart.
A música moderna "séria" procurou outros caminhos,
resultando, provavelmente, no maior desastre da história da arte.
Vou continuar com a sonata, pois tudo isto te entedia.
Não, é melhor começar de novo.
Nada mal.
Graça extraordinária, não? Pensa só, quando o pobre homem morreu...
ele foi despejado na cova de indigentes, como um cão.
Que triste, quando se pensa em tamanha ternura melódica.
Lembrem-se que a Viena inteira compareceu ao funeral dele, felizmente.
Foram dispersados por uma tempestade. Eram uma matilha de cães. Insensíveis.
Desculpa
Onde é que eu ia, minha querida? Não, não era aí. Devias saber.
É isso.
Nada mau.
Não pensem que toco bem; eu não toco nada.
Se vocês tivessem ouvido Schnabel. Ele foi o meu mestre. Já está morto.
Ele era um pianista a sério, eu sou uma merda.
Devem-me desculpar por estar a tocar como um porco.
Se vocês pudessem apenas tê-lo ouvido, o seu tom extraordinário...
Ele raramente tocava Mozart, pois costumava dizer:
Mozart é muito fácil para iniciantes e crianças, mas muito difícil para virtuosos.
Merda! É este maldito cigarro que me está a fazer tocar as notas erradas.
Ora!
A SEMANA DE 4 QUINTAS-FEIRAS
Sigam em frente.
Adeus. Obrigado.
É a tua vez.
UMA SEXTA-FEIRA LONGE DE
O que é que eles estão a fazer?
São os atores italianos da co-produção.
UMA SEXTA-FEIRA LONGE DE ROBINSON E MANTES, A BONITA
Estou cansado.
Anda.
Vens?
Estou farta.
Mas estás num filme ou na realidade?
- Num filme. - Num filme? Tu mentes demasiado.
Cabrão!
Anda, vamos. Vamos acabar por encontrar o caminho.
Estou farta disto. Tenho que dormir senão vou morrer.
Morre, então.
- Tens lume? - Não!
- Está ali uma miúda. - E então?
É a sua miúda?
Ajuda-me!
Você vai para Oinville?
Você preferia ser fodido pelo Mao ou pelo Johnson?
Johnson, claro.
Segue, Jean. Ele é um fascista.
Puta de merda!
Vão para Oinville?
- Quem atacou primeiro: Israel ou o Egito? - Os malditos egípcios.
Pobre ignorante.
Vamos.
É a tua vez.
- Vão para Oinville? - Sim, subam aí.
- Merda! - Cuidado! Tira isso do caminho.
Dá-me uma bucha.
Só mais um bocado.
Esta parte da sandes representa exatamente a fração do orçamento
que o Congo recebe do governo americano.
Roland, ajuda-me.
Sr., estou cheia de fome.
Beije-me.
Beije-me!
Deixe-me em paz!
Estou a aplicar a mesma lei que as companhias de óleo aplicam na Argélia.
Qual lei?
A lei do beijo e do pontapé no cu.
TERCEIRO MUNDO
Não precisa de ser indecente.
O meu irmão preto vai dizer-vos o que penso.
O otimismo que reina hoje na África
não é inspirado no optimismo das forças da natureza que beneficiam os africanos.
Esse optimismo não é maior pela constatação do antigo opressor ser
menos desumana ou mais benevolente.
O otimismo, na África, é o resultado direto de uma ação revolucionária
política ou militar, levada a cabo pelas massas africanas.
Recentemente, uma grande secção da humanidade
foi abalada profundamente pela eclosão de uma ideologia -
o Nazismo, trazendo o ressurgimento dos métodos de tortura e do genocídio
de um passado distante.
Os países imediatamente mais ameaçados pela manifestação do Nazismo formaram
uma aliança, não para jurar libertar os territórios ocupados,
mas para quebrar a literalmente coluna do Nazismo:
destruir o mal na sua própria fonte
e liquidar tais regimes que o suscitou.
Os africanos devem se lembrar que também sofreram um tipo de Nazismo.
Exploração e extermínio, liquidação física e espiritual,
deliberadamente executados.
Eles devem ver as suas manifestações inglesas, francesas, sul-africanas,
e prepararem-se para enfrentar isso em toda a África.
Nós, africanos, declaramos que por mais de um século
as vidas de 200 milhões de africanos foram desprezadas,
negadas e perpetuamente cercadas pela morte.
Não devemos confiar na boa vontade dos imperialistas,
mas temos de nos armar com resolução e poderio militar.
O desenvolvimento dos recursos materiais não irá libertar a África.
Será o cérebro e as mãos africanas que colocarão em movimento
a dialética da libertação do continente.
Dadas tais condições, podemos nos permitir ser otimistas.
O meu irmão árabe irá falar por mim.
Agora que a nossa libertação está próxima, vocês chegam ao fundo do poço
na esperança de encontrarem homens não violentos, pacíficos.
Homens endurecidos pelo sofrimento, mas dispostos a perdoar o ultraje.
Não é isso que eu procuro.
Eu pretendo que a liberdade negra seja tão valiosa quanto a liberdade branca.
Pretendo que para conquistar a liberdade, o negro tem o direito de fazer
tudo o que os outros homens fizeram para alcançar a liberdade.
Pretendo que tu e eu não conquistemos a nossa liberdade
pelo pacifismo, pela paciência nem pelo amor.
Não a conquistaremos até que consigamos fazer com que todos entendam
que é nosso, o direito de seguir o exemplo,
de todos aqueles que, para obterem a sua liberdade, sacrificaram
as suas vidas tomando a dos outros. Estamos prontos a seguir o seu exemplo.
Nós, negros, estamos em guerra com a América e os seus amigos.
Mas, em boa verdade, não podemos lutar contra eles
porque não temos braços suficientes ou conhecimento para usá-los.
Além do mais, estamos em desvantagem numérica.
Nós escolhemos a tática de guerrilha como a solução que nos impuseram.
É uma tática mais vantajosa e fácil de ser conduzida.
Trabalhamos em pontos estratégicos: fábricas, quintas, a casa dos brancos.
É fácil para nós sabotar e destruir
muitas vezes sem disparar um tiro.
Podemos destruir linhas telefónicas, caminhos de ferro, aeroportos
instalações elétricas e eletrónicas.
A vida da comunidade ocidental depende
de sistemas eletrónicos. Sem eles, tudo fica paralisado.
De cidade em cidade, iremos colocar o Ocidente ajoelhado,
conduzindo-os à ruína económica.
Também iremos levar a cabo atos sangrentos de sabotagem.
Não é por acaso que a guerra de guerrilha vietcongue nos impressiona.
Os nossos irmãos negros a lutar no Vietnam pela América branca
estão a obter lições impagáveis sobre técnicas de guerrilha moderna.
Eles serão úteis quando voltarem para o nosso meio.
Não só como soldados destemidos, mas como mestres de guerrilha.
Claro, as armas são essenciais para atos sanguináros de sabotagem.
A grande questão é: onde estão as armas?
Mas todos os negros possuem, em casa, uma espingarda ou uma pistola,
e coquetéis Molotov são fáceis de fabricar.
De qualquer forma, temos condições para adquirir armas.
Eu digo-vos isso, mas não darei mais detalhes.
O OCIDENTE
Civilização significa pertencer a uma sociedade de classes.
Numa realidade de contradições,
o desenvolvimento da produção está ligado à exploração
do homem pelo homem.
Escravidão, servidão, trabalho assalariado,
são todas grandes formas de servidão que caracterizam a época da civilização.
Para Engels, a forma típica de passagem à sociedade de classes
e à evolução das relações de interclasses
que caracterizam a História Ocidental começaram com os gregos
e terminam com o capitalismo industrial.
Quando os três elementos: a Propriedade Privada, a Monogamia e Estado
se combinaram, a sociedade passou da barbárie para a civilização
e de uma sociedade sem classes para uma sociedade de classes.
Para ser mais preciso: para Lewis Henry Morgan, a quem Engles recorreu,
a humanidade passou do estado superior de selvajaria ao estado inferior da bárbarie
quando o clã se converteu em tribo.
A Humanidade avança da barbárie primitiva
quando as tribos individuais formam uma confederação de tribos.
O Homem alcança o estágio superior da barbárie
quando passa de uma confederação tribal para uma democracia militar.
A humanidade, na sua idade "heróica",
no limiar da civilização, de uma sociedade de classes,
encontrou-se organizada numa democracia militar.
Tanto na Grécia dos heróis, como na Roma dos "Reis",
existia uma democracia militar, a qual se desenvolveu por
gens, fratrias e tribos.
Embora a nobreza patrícia tenha ganhado terreno e
mesmo se os administradores estivessem a ganhar privilégios lentamente,
o caráter fundamental da constituição não mudou.
Os Gregos passaram da tribo para a confederação. E desta para a democracia militar.
Para entender esta evolução, devemos compreender a sua origem:
a comunidade gentílica.
Engels, depois de Morgan,
assumiu que a forma americana dos "gens" era a original,
e a forma Greco-Romana era uma derivação.
Ele assumiu que o "gens" dos Iroqueses, e particularmente o "gens" de Seneca,
eram a forma clássica deste "gens" primitivo.
No Séc. XIX, os Iroqueses formaram uma confederação tribal.
Assim, a análise dos Iroqueses clarifica a história inicial do Ocidente.
No entanto, de acordo com Morgan e Engels, não foram os Iroqueses
que representaram a organização mais desenvolvida de Índios americanos.
Por fim, as grandes Civilizações pré-Colombianas:
Inca, Maia, Azteca,
terminaram a sua história independente,
seguindo os passos gregos no final da sua era heróica,
estando prestes a transformar-se em sociedades de classes.
Merda, pára!
Despacha-te.
- Oinville! Agora, banho! - Primas!
Não tivemos culpa em não estar aqui quando o teu pai morreu.
- O que foi que ela disse, em concreto? - Ela não vai dividir ao meio.
Tanto trabalho para nada.
- Que livro é este? - Emprestaram-me.
"O hipopótamo vivia na terra, mas ele foi para o Senhor dos Animais
e pediu permissão para viver na água."
Ela não se vai safar assim.
"O Senhor recusou o pedido e o hipopótamo perguntou porquê.
"Porque tu és uma criatura monstruosa", disse o Senhor."
Ela vai ver como é!
"Tu comerias todos os peixes."
"Juro que não como um peixe", respondeu o hipopótamo.
"Quem acreditaria nisso, vindo de tal monstro?", respondeu o senhor."
Não adianta, Roland.
O hipopótamo disse então:
"Proponho-lhe um acordo. Deixe-me viver na água. Sempre que eu defecar...
abano o rabo tipo ventilador para mostrar que não há espinhas de peixe."
O Senhor considerou o acordo justo.
E ao hipopótamo foi permitido passar os seus dias na água.
A VIDA DE
O hipopótamo é bem diferente de dia.
A noite encobre a sua fealdade, os olhos caídos, a boca enorme,
o corpo mal formado, as pernas pequenas e o rabo ridículo.
Talvez seja o ápice da beleza para um hipopótamo...
CENA DE UMA VIDA PROVINCIANA
‘‘O hipopótamo não só não é a criatura mais feia da história,
como também um modelo de estupidez.
Eu não teria abordado tanto o assunto se não fosse o facto
de revelar quão abjeta é a sua aceitação da vida coletiva.
- Roland, temos que fazer alguma coisa. - É só: "temos, temos, temos"!
- Onde é que vai? - Apanhar um coelho do Sr. Flaubert.
- 60-40 - Fora de questão.
- 70-30 - Fora de questão.ç
- 80-20 - Fora de questão.
Sê razoável! 90-10.
Impossível! Só ficávamos com quatro milhões.
Certo, é isso!
Despacha-te!
- O que fazemos? - Há o método do Doutor Petiot.
Não, os vizinhos iriam ver o fumo.
O método do Doutor Tar e do Professor Feather.
Coloca-a na mala do carro.
Vamos encontrar um acidente pelo caminho
e fazemos com que o carro pareça estar envolvido.
E pegamos fogo aos carros.
Brilhante.
- O crime perfeito. - Felizes para sempre.
Com todos os milhões.
- Eu amo-te. - Eu também te amo.
Já o reguei com gasolina.
Pega-lhe fogo.
Espera por mim, seu imbecil!
É esta a estrada para Versailles?
O que se passa?
Silêncio!
Levanta-te!
Yves, o carro! Claude, a comida!
Cale-se, avô!
Deitem-se ali!
Baixem-se!
O gordo que se deite, a miúda também.
O jeitosinho e vocês as duas, para ali! Deite-se, avô!
- Caluda! - Silêncio!
Não há nada que possam fazer.
Caluda!
- Fiquem quietos. - Você tem coragem!
Calem-se todos!
Menina...
Despacha-te, Yves!
- Ela vai pegar fogo ao carro! - Deite-se.
Deite-se!
- O meu carro! - Deite-se!
Deitem-se!
Avô, deite-se!
- O que é que querem? - Está a arder!
Mexam-se!
Qual é a pressa?
Mexam-se, já disse!
Despachem-se!
- Linda brincadeira. - Silêncio!
- Nós temos dinheiro. - Cale-se.
Está a ouvir?
És maluco?! Temos cinquenta milhões no banco.
Venha connosco e damos-lhe metade.
Encontraste-o?!
- Louis! - O que estás aí a fazer, Gérald?
Cala-te!
Valérie!
- Quem é esse? - Um amigo.
Lutamos na Etiópia juntos.
- O que temos aqui? - Dois de meia idade, uma rapariga.
Deixa-me ver.
Experimeta.
Essa é para o Ernest.
Os outros sentem-se.
Podes fodê-la antes de a comeres, se quiseres.
FRENTE DE LIBERTAÇÃO SEINE-ET-OISE
"Couraçado Potemkin" a chamar "A Desaparecida".
Câmbio.
Responde-me "A Desaparecida"!
Daqui fala "A Desaparecida". Estou a ouvir, "Couraçado Potemkin".
Foi sob a Ponte de Trocadero, em 1964.
Estava terrivelmente frio, lembras-te?
O famoso inverno de 1964.
As mãos de Alphonsine estavam tão frias...
que ela agarrou o meu pau para as aquecer enquanto me masturbava.
Estava tão frio, que tudo estava congelado.
Alphonsine disse: "Que pau enorme que tu tens!"
"Sua burra, estou a cagar", disse eu.
TOTEM E TABOO
A camisola.
A saia.
Despacha-te!
Ajoelha-te.
O sutiã.
As cuecas.
Já está.
Deita-te.
Força.
O peixe.
LUZ DE AGOSTO
Estão a ir.
Dentro de trinta segundos vai
Ernest?
- Rápido! - Vamos.
- Porque é que o esventraram? - É melhor assim.
É horrível.
O horror da burguesia só será derrotado com mais horror.
MASSACRE DE SETEMBRO
Despacha-te!
O meu dinheiro!
- Tudo bem, Srª Gide? - Está tudo bem.
Um bocadinho de preto também ficava bem bonito.
Um bocadinho de laranja.
"Johnny Guitar" chama por "A Lenda de Gösta Berling".
Aqui é a "Saga de Gösta Berling". Estou a ouvir, "Johnny Guitar". Câmbio.
LINGUAGEM DE OUTUBRO
Eu pretendo...
...declamar numa voz sem emoção...
...as seguintes linhas, frias e solenes.
Escutem-nas com atenção,
preparem-se para o efeito doloroso que elas poderão ter
nas vossas imaginações perturbadas.
Não acreditem que eu estou à beira da morte
...pois a idade ainda não está marcada na minha testa
Rejeitem qualquer comparação com o cisne moribundo
quando o seu espírito foge
e vejam-me como um monstro cuja face felizmente não veem
embora seja menos horrível que as vossas almas.
No entanto, não sou um criminoso. Tenho dito.
Antigo oceano! À primeira vista diante de si, um profundo suspiro de tristeza
como os seus doces zéfiros
que irrita a alma perturbada, deixando traços indeléveis.
Os vossos admiradores lembram-se, às vezes sem querer...
do despertar cruel do homem para a dor, que então nunca mais o deixou.
Eu te saúdo, antigo oceano!
Suponho que o homem só acredita na sua beleza, apenas porque é vaidoso
e suspeita que, na verdade, ele não é belo.
Caso contrário, por que olha ele o rosto do seu semelhante com desprezo?
Eu te saúdo, antigo oceano!
Oceano, muitas vezes me pergunto o que é mais fácil de conhecer:
as profundezas do oceando ou as profundezas do coração humano?
Devo dizer que, a despeito da profundidade do oceano,
ela não se pode comparar
às profundezas do coração humano.
A psicologia tem muito que aprender. Eu te saúdo, antigo oceano!
Das suas profundezas misteriosas, você pulsa suas ondas...
Oceano antigo!
Das tuas profundezas escuras e misteriosas, tu pulsas as tuas ondas
com toda a frieza do teu eterno poder.
A tua grandeza moral, uma reflexão do infinito,
é tão imensa quanto as reflexões filosóficas, como o amor das mulheres,
como a beleza divina de um pássaro.
Diga-me, antigo oceano, tu serás meu irmão?
Ignorante do teu destino secreto, tudo sobre ti, me interessa.
És a residência do Príncipe das Trevas?
Diz-me, oceano. Tu tens de me dizer...
pois me regozijaria em saber que o inferno é tão próximo dos homens.
Portanto, mais uma vez desejo saudar-te, e conceder-te o meu adeus.
Antigo oceano, falta-me o poder para continuar, sinto que chegou
o momento de regressar à brutal terra dos homens.
Façamos um esforço supremo,
e, conscientes do nosso dever, realizemos os nossos destinos nesta terra.
Eu te saúdo, antigo oceano.
Está tudo bem?
- Por favor... - Cala-te!
- Deixa-me ficar contigo. - Tarde demais.
Isabelle!
Não esperes por mim. Adeus, Valérie
Adeus, Isabelle.
Eu seria tão feliz se tu soubesses,
tu, a quem deixo esta noite.
Que, embora tudo pareça terminado,
para os outros parece que está tudo bem.
Um sorriso, muito embora o coração possa estar dilacerado,
Indiferente a todo o sofrimento.
Escreve a última palavra, tão desamparado.
Apenas um romance com um final infeliz.
FALSO CORTE
VINDEMIÁRIO
Quando o teu pé escorrega num sapo, tu ficas com uma sensação de nojo.
Mas se acariciares levemente um corpo humano, os teus dedos fragmentam-se
como partículas de silício sob pancadas de martelo.
A sério?
E tal como o coração de um tubarão bate durante uma hora após a morte,
as nossas entranhas ainda palpitam depois de fazermos amor.
Porquê? Eu não entendo.
Por causa do imenso horror que o homem tem aos seus semelhantes.
Talvez eu esteja errado. Talvez eu esteja certo.
Deve haver um mal mais terrível
que a tumefação dos olhos depois de contemplar a natureza humana.
Mas eu continuo à procura.
E então, Ernest?
Nada mal.
Uma mistura de porco com os restos dos turistas ingleses.
- Aqueles do Rolls-Royce? - Sim.
Também deve ter um pouco do teu marido.
Depois vou comer mais um bocado, Ernest.
FIM
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