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MISTÉRIO EM VENEZA
VENEZA, ITÁLIA 1947
Signore Poirot, os seus bolos.
Chegaram os ovos, signore.
- Poirot! - Poirot!
Monsieur Poirot, tem de me ajudar.
Os meus pais morreram misteriosamente no ano passado.
E o meu irmão pouco depois.
O nosso médico não sabe explicar.
Por favor, Monsieur. Temo pela vida.
Dizem que estamos amaldiçoados.
O que lhe disse?
Se volta a tocar-lhe, arranco-lhe a mão.
Com licença.
Signore Poirot, preciso urgentemente de lhe falar.
Monsieur Poirot...
está aqui uma senhora.
Diz que está em Veneza a tratar de assuntos urgentes
e que é sua amiga.
Não tenho amigos.
Ela disse que diria isso.
Portanto, devo dar-lhe isto.
A escritora.
Olá, jovem. A sua mãe está em casa?
Desculpe o meu guarda-costas. Segue instruções minhas.
Só o pasteleiro pode passar, duas vezes por dia.
Duas vezes por dia?
- Conhece-me, só como maçãs até ao jantar. - Sim.
Céus, gosto tanto disto.
O leite com chocolatinho.
Hercule Poirot está realmente silencioso.
Isolado e reformado.
Os casos agora são bolos.
Estou muito satisfeito.
Não.
Isto é felicidade, não satisfação.
Uma escritora sabe a diferença.
Até escolheu Veneza para se esconder.
Uma linda relíquia a afundar-se lentamente no mar,
tal como a sua mente sem um desafio.
Não subestime a minha escolha de palavras.
Sou a melhor escritora de policiais do mundo.
Ou era, pelo menos.
27 best-sellers em 30 livros.
Malditos críticos dos últimos três. Chamaram-lhes "menores".
Ariadne Oliver, que bom vê-la.
Vem comigo.
Está na hora de voltar a dar vida à sua vida.
Muito bem.
Não ouviu? É urgente.
Não é a primeira a vir seduzir-me com um caso irresistível.
Não é um caso. É muito mais catita do que isso.
Está mesmo isolado do mundo. Não sabe que dia é hoje?
O que significa "catita"?
Feliz Dia das Bruxas!
Nós, americanos, importámos música ruidosa e chocolate péssimo,
mas também trouxemos de volta o Dia das Bruxas.
Esta noite, há uma festa para as crianças.
Miúdos! A América diz: "Feliz Dia das Bruxas!"
Feliz Dia das Bruxas! Vamos!
Poirot, descobri uma coisa. Uma pessoa.
Não sei explicar.
Analisei-a de todos os ângulos e não percebo.
Anda a tramar algo, minha amiga.
"A Profana Menina Reynolds."
É uma espírita ou médium, segundo os jornais.
"Joyce Reynolds, recentemente libertada da prisão,
"segundo os registos foi a última mulher detida
"ao abrigo da Lei da Bruxaria de 1735."
Vi milhentos alegados médiuns, todos uns vigaristas manhosos.
E depois aparece-me aquela.
Espantosa.
Digo-lhe, fui a uma sessão desta Menina Reynolds
e aconteceram coisas.
Truques.
Sou a pessoa mais inteligente que conheço e não percebi.
Então, vim ter com a segunda.
Preciso que o Detetive Poirot estoire este balão
ou, Deus me livre, ainda acabo crente.
Veja a vigarice que me escapa.
Venha comigo à festa do Dia das Bruxas dos órfãos.
Depois, estamos convidados para uma sessão espírita.
- Há uma festa do Dia das Bruxas. - Vais sair com ela?
Divirtam-se, crianças. Não se assustem muito.
Ali está.
Palazzo Lacrime dei Giovani.
Em Veneza, dizemos:
"Todas as casas estão assombradas
"ou amaldiçoadas."
Estão prontos, meninos?
Sim!
Há muito tempo,
este palazzo era um orfanato.
Bons médicos e boas enfermeiras tratavam crianças boas.
Até à Peste Negra.
As pestes assustam as pessoas.
E por causa do medo as pessoas fazem coisas horríveis.
Não é assustador demais para as crianças?
As histórias assustadoras tornam a vida menos assustadora.
Depressa as crianças perceberam que não estavam sós.
Trancadas lá dentro para morrerem,
esfomeadas, a chamar, a arranhar.
Há quem diga que as crianças ainda se escondem neste palazzo
e que querem a companhia de mais crianças.
Por isso, tenham cuidado.
Porque elas querem vingar-se dos médicos e enfermeiras
que as abandonaram aqui à morte.
Estejam atentos à marca da Vendeta das Crianças.
Não está aqui nenhum médico, pois não?
Não.
Ou enfermeira?
- Não. - Não?
Então, acho que é seguro começar a festa!
Não! Parem de correr.
CONTOS DE MISTÉRIO E IMAGINAÇÃO
Leopold.
Leopold.
Há uma festa real a decorrer e estás a esconder-te num livro.
Podias brincar com outras crianças, para variar.
Os jogos são frívolos.
O Dia das Bruxas pede histórias de terror.
Não acha, Menina Olga?
Não queres, pelo menos, um pouco de bolo?
Isso é para os órfãos.
Vou ver como está o pai.
Não se dá bem com festas.
Alerta de freira.
Mna. Oliver, é um prazer tê-la cá. É a minha escritora preferida.
Os seus policiais dão-me esperança de que os malvados enfrentarão a justiça.
Infelizmente, a vida nem sempre é como os romances policiais.
Certo. Bonsoir.
Sente-se bem?
É tão alto.
Percebo. Está muito escuro aqui, não?
É a nossa anfitriã?
- É a minha casa. - A soprano Rowena Drake.
Uma vida esplendorosa de diva.
Mas vive aqui.
Para onde foi todo o dinheiro?
Todos os que aqui viveram foram vítimas de alguma tragédia.
Pelo menos, a lenda é essa.
A Vendeta das Crianças.
Alguém vê a sombra de uma criança na parede e depois chegam as trevas.
Como a filha dela, há um ano.
É quem nos falará esta noite.
A rapariga falecida do além.
Não acreditarei em tais coisas.
Veremos.
Querida, vais ficar bem.
Mna. Rowena, está outra vez a pingar.
Pai?
Sente-se bem, pai?
Precisa de um comprimido?
Não.
Quer ponche?
Podemos ir embora, se quiser.
Tudo bem.
Prometi à Rowena que ficava.
Ótimo.
Estava ansioso pela sessão espírita.
É muito bondosa com as crianças, madame.
E com os adultos também.
Quer apanhar uma maçã, Sr. Poirot? Parece divertido.
A diversão não é para mim.
Estou feliz.
Há demasiado tempo que não havia risos nesta casa.
É um palazzo estupendo.
Pode ficar com ele.
Não tenho dinheiro para arranjá-lo e já não suporto vê-lo.
E ninguém o compra, seja qual for o preço, após...
Por favor. Meu Deus, não!
Desculpe.
Esperava que ver todas estas caras atenuasse a dor.
Sra. Rowena?
Sim?
A sua convidada chegou.
Céus, estou realmente nervosa.
Acredita em médiuns?
Esta casa fez-me acreditar.
Contém vozes.
Sussurros.
Soluços.
A minha filha ficava acordada de noite a falar.
Eu achava que era com as bonecas.
A minha filha...
Ouvir a voz dela outra vez.
Uma palavra.
Daria à Mna. Reynolds tudo o que tenho.
Esta será muito triste.
Mna. Reynolds.
Está tudo preparado para si no salão.
Como a sua assistente indicou.
A sua casa é tão ruidosa.
As crianças sairão antes de começarmos.
Tantas...
em todo o lado.
Memórias horríveis.
O quarto da sua filha fica no terceiro andar.
Como é que...?
Podemos fazer lá a sessão?
Claro.
Ariadne Oliver.
A minha némesis.
Voltamos a encontrar-nos. A profana Mna. Joyce Reynolds.
Foi a imprensa que inventou isso.
Não sei se gosto.
Bonsoir, madame, devo dizer que esperava uma pessoa mais...
Dramática? Ridícula?
Uma carcaça velha?
Sim, é a expressão perfeita.
A carcaça velha.
Não pedi para ser o que sou.
Por isso gosto do termo "médium", uma espécie de meio-termo.
Não sou grande nem pequena. Não sou nada interessante.
Mas consigo falar com os mortos.
E o senhor?
Sou Hercule Poirot.
Era Hercule Poirot.
O detetive.
É tudo menos mediano. É muito famoso.
Sou o seu próximo caso famoso?
Reformei-me dos casos.
Mas está aqui para me desacreditar.
Não foi por isso que a grande escritora o trouxe?
Vim fazer um favor à Mna. Oliver,
que está ansiosa por adivinhar o seu método de adivinhação.
Devo dizer-lhe
que nunca me deixei encantar pela sua laia.
A minha laia?
Oportunistas que se aproveitam dos vulneráveis, não?
Não acredita na continuação da vida após a morte?
Perdi a fé.
Que triste para si.
Sim, muito triste. A verdade é triste.
Por favor, compreenda,
receberia de braços abertos
qualquer sinal genuíno de diabo, demónio ou fantasma.
Pois, se há um fantasma, há uma alma.
Se há uma alma, há um Deus que a criou
e, se temos Deus, temos tudo.
Sentido, ordem, justiça.
Mas vi demasiado do mundo.
Inúmeros crimes, duas guerras,
o mal amargo da indiferença humana, e concluo que não.
Não há Deus nem fantasmas.
Com o devido respeito, nem médiuns que falem com eles.
Estava a dizer?
Como se não tivesse que chegue para limpar.
Não devia aqui estar depois de anoitecer.
Acho que não vão incomodar-nos.
Quem?
O que acontece depois de anoitecer?
Ainda é uma charlatã?
Um teto danificado por infiltrações, não habituado a passos joviais.
Não valoriza o sentido de oportunidade dramático.
O quarto da Mna. Alicia fica aqui em cima.
Posso saber como morreu a rapariga?
A varanda. O canal.
- Afogamento. - Suicídio.
A culpa não foi dela. Eles forçaram-na a isso.
Sra. Seminoff, por favor.
O que foi, Doutor?
Tratou dela. Viu.
Espere, por favor.
Quem entrou aqui esta noite?
A Mna. Reynolds, a assistente dela?
Ninguém. Tenho a única chave.
Só eu entrei aqui desde a morte da Mna. Alicia.
Para limpar o pó e ver o Harry.
Quem é o Harry?
O amigo dela.
Ela contou-lhe tudo.
Costumava falar, antes de ela morrer.
Agora só chora.
Está tudo como ela deixou.
A Mna. Rowena não me deixava mexer em nada.
Ela e a Alicia eram inseparáveis.
- Não me apanhas! - Apanho!
Este palazzo era o oásis delas.
Só uma semana de cada vez, entre as viagens com a ópera.
Mas a Alicia tinha a companhia dos fantasmas das crianças.
Tornou-se tão bonita.
Depois conheceu o chef dela, o Maxime.
Ficaram noivos tão depressa.
Tão apaixonados.
Depois, ela e o noivo discutiram.
Ela voltou aqui para o palazzo.
Foi quando começou a ver as crianças.
Queriam-na para elas.
Sofreu naquela cama nas últimas semanas,
a ver coisas.
Sombras.
Dizia que as crianças a chamavam.
"Querem-te aqui com elas."
Levaram-na à loucura.
A Mna. Rowena não deixou a sua cabeceira,
implorando aos espíritos que a deixassem em paz.
Não deixaram.
Deixaram a marca
da Vendeta das Crianças.
A polícia disse que os cortes eram da queda.
A polícia...
A escutar.
Agora, esta mulher quer perturbar a alma da Alicia.
A escutar.
E digo-lhe, monsieur, isto não está certo.
É contra a natureza e o Senhor.
Alguém terá de pagar.
A escutar.
Há tanta dor aqui.
Baba.
Sim.
Baba, o Coelho.
Maxime, não.
"Maxime, está no palácio às 22:00. Notícias importantes sobre Alicia Drake."
- Fui convidado. - Não por mim.
Está sempre a tentar expulsar-me, Rowena.
Nunca resultou.
Se há algo para ouvir, ouvirei.
Diga isso à sua noiva mais recente.
Esperou seis meses inteiros depois da morte da Alicia...
Soube que ela é riquíssima.
Rica com terras outorgadas pelo Rei Jorge.
Comprou-me um bistrot na Madison Avenue.
Vou ser um nova-iorquino rico,
que é a única maneira de o ser.
Devia visitar-me. Pago-lhe um cachorro-quente.
Ponho-o na rua?
Tente.
Dê-me um pretexto.
Faça o que quiser, Maxime. Faz sempre.
Também perdi, Rowena.
Quantos somos? Nove ou dez?
Não sei. Levem 12 cadeiras, acho.
Casa cheia.
Uma sessão espírita? Credo! É disso que se trata?
Uma máquina de escrever.
Não há tabuleiro de Ouija? Bola de cristal?
Considero-me, acima de tudo, uma secretária.
As vozes falam...
e eu escrevo o que ditam.
Leopold, talvez seja melhor ires ler para a biblioteca.
Quero ver a Alicia.
Também era minha amiga.
Não tens medo de fantasmas?
Aqui, estou sempre a falar com fantasmas.
Estás?
Eles dizem que é uma impostora.
Ninguém me toque até o transe ter terminado.
Alicia Drake,
acredito que foste tu que me chamaste.
Demasiados espíritos.
Esta casa está a transbordar de mortos.
Há almas que não conseguem libertar-se.
Paramos, Mna. Reynolds?
Não.
Se alguém quer ser ouvido, estamos aqui.
A escutar.
Espíritos, gritam e berram e ninguém ouve.
Agora ouvimos.
Alicia Drake,
encontra a tua voz.
Ficou frio. Mais alguém sente o fresco?
Está aí alguém?
"Y."
Sim.
Ela não tocou na tecla, juro.
Teve de tocar. Não podem ser todos tão tolos.
Isto é errado. É muito errado.
Quem está aí? Alicia Drake.
A escutar.
Estamos aqui.
A escutar.
É a maré santificada.
Estamos perto.
O teu espírito está perto.
A tua voz fala alto.
Alicia.
"A." Alicia.
Alicia, sinto que estás a sofrer.
Dói-lhe? Por favor, diga-me.
Alguém te magoou?
- Sim. - Não!
Poirot, deixe-a acabar!
Não! Primeiro, vamos conhecer um aliado secreto
na chaminé.
Nicholas, magoaste-te?
Estou bem.
Nicholas. O segundo assistente.
Muito prazer.
Pela semelhança dos olhos verdes penetrantes,
presumo que sejas meio-irmão da primeira assistente.
Um interruptor magnético.
Et voilà, a máquina de escrever falante.
Falsa?
Sra. Seminoff, a sua dedicação à lida da casa podia melhorar.
Só a senhora entrou neste quarto.
Porém, o meu novo amigo deixou uma pegada na lareira.
O arranhão brilhante na fechadura indica que foi forçada recentemente.
Mna. Oliver, tem de encontrar um novo tema para o seu livro.
Mna. Drake, lamento a sua perda,
mas este oráculo é falso.
Não!
Onde está o Baba?
Alicia.
Alguém o levou? Levou-o?
Não toquei em nada.
Alicia.
Mamã.
Mamã?
Sede.
Tanta sede.
Alicia?
Dói.
Porque me deixaste?
Não.
Não quero...
Não quero morrer.
O que se passa?
A Alicia
mostra-me.
Vejo-a
na varanda.
Não está só.
Ela não saltou.
Assassino!
Mataste-me.
Quem?
Mostra-me. Quem?
Mataste-me! Mataste-me!
- Mataste-me! - Quem te fez mal?
Mataste-me!
- Mataste-me! - Mostra-me!
Mataste-me!
Quem te fez mal?
O que aconteceu?
Assassínio!
Satânica.
Ela é mesmo profana.
Era a voz da Alicia.
Alguém deve tê-la matado.
Não podemos provar que nada disto foi real.
- Então, o que foi? - Representação.
Teatro. Apanhar-nos em histeria coletiva.
Não foi A Guerra dos Mundos na rádio.
As malditas portas abriram-se. Não sei explicar.
Eu sei.
Foi a minha filha.
Não.
Não se atreva a sair sem o dizer.
Viu o que eu vi e o que viu era...
Era falso.
Verdadeiro. Aquela mulher é a prova. A prova viva.
Aí está um título.
É certinho, ela será o meu próximo livro, um êxito.
Um grande livro.
Céus, tenho de começar já a escrever.
A mulher que baralhou Hercule Poirot.
Admito não conseguir desvendar todos os métodos dela agora, mas conseguirei.
Não conseguirá.
Vá lá, devia estar aliviado.
É incrível crer, saber, que o mundo tem mistério.
Um Deus que se preocupa o suficiente para criar almas perenes.
- Depois da morte, vem... - Nada.
Algo.
Se existisse um Deus, não quebraria a Sua regra por ela.
Está tudo bem.
Espero que volte amanhã.
Rowena fez-me prometer que organizaria outra sessão para ela.
E a Mna. Oliver diz que devo preparar-me para ser muito famosa.
- Dottore, vou arranjar-nos um barco. - Grazie.
Estes espíritos eram especialmente selváticos.
As sessões têm sempre um preço.
E a senhora também, decerto.
É uma impostora muito dotada.
Quem me dera ser uma impostora.
Seria menos doloroso.
Acho que sabe como é, monsieur.
Alguém morre e consolamos os enlutados
com segredos óbvios para nós.
Somos ambos criaturas que falam pelos mortos,
que conhecem demasiado bem os mortos, acho.
Imagine uma enfermeira de guerra que ouve fantasmas...
rodeada de gritos.
Na sua enfermaria,
na sua mente.
Vaga após vaga de moribundos e mortos.
E a única coisa que parava a dor
era contar aos enlutados o que ouvia.
Aliviar o sofrimento deles como só eu consigo.
Leva-me a mal por isso?
Fez uma mãe acreditar que a alma da filha está em tormento.
Isso não é generoso.
Não é amável nem humilde.
Senti dor.
Vi um assassínio...
Viu quem matou Alicia Drake?
Não foi revelado. Talvez amanhã.
Uma conveniência lucrativa.
- Porque...? - Horrores para crianças.
Podia aprender com elas.
As crianças podem sofrer
tanto como aqueles órfãos
e continuar a rir, a brincar e a fazer o jogo da maçã.
Estão vivas.
Mas o senhor...
Morte aonde quer que fosse.
Toda a sua vida.
Soldados...
amigos...
Katherine.
Não voltaremos a ver-nos.
Insiste que é genuína.
Se não for, quem se magoa?
A magia só aparece se a chamarmos.
A menos que tudo seja mesmo verdade.
Descontraia-se, amigo.
Talvez se divirta.
Dir-lhe-ia para se lembrar de mim...
mas vai lembrar-se.
"Descontraia-se"...
Monsieur Poirot!
Monsieur Poirot!
Monsieur Poirot, ouve-me?
Quem fez isto?
Deixei a Mna. Reynolds...
Parei junto às maçãs. Que tolice.
Levantei a máscara.
A máscara era dela.
Onde está a Mna. Reynolds?
O que foi isto?
- O que se passa? - O que foi?
- Foi ela? - O que se passa?
O quê?
Vou ligar para a minha antiga esquadra.
Devo conhecer o polícia de serviço.
Pensava que tinha os armários vazios.
Não. Desencantei chá que sobrou da festa.
Encontrei o seu mel no roupeiro.
Merci.
Vitale Portfoglio.
O que fazemos?
Ela era o nosso bilhete.
Havemos de lá chegar sem ela.
Prometo.
Não viram ninguém nas escadas?
Há coisas impossíveis de ver.
Ela pode ter saltado.
Parecia ser desse género.
A Mna. Reynolds não. Nunca.
Ela falou de um assassínio.
Podia saber algo.
Ainda acha que ela era genuína?
Por favor. Inventou o assassínio para impressionar uma escritora famosa
e fisgar uma nova fonte de rendimento.
- Então, porque morreu? - A gravidade.
Ela falou com a voz da Alicia.
Não olhe para mim. Estava a ser interrogado pela sua escritora.
Pergunte-lhe. E depois pergunte ao médico onde estava.
O sacana doentio já matou aqui uma vez.
Não foi nenhum deles. Sabem o que foi.
Vivem coisas odiosas nesta casa.
Aquela mulher chamou-as e responderam.
Na guerra, antes de organizar sessões.
A Mna. Reynolds esteve no Exército britânico.
Serviu nos campos, em Malta.
- Era enfermeira. - Enfermeira.
A Vendeta das Crianças.
Os canais não são seguros.
Não podemos chamar um barco antes de passar a tempestade.
Quando será?
Está fora do controlo da polícia, signora.
Não vou ficar aqui à espera.
Nunca passei uma noite nesta casa e não o farei agora.
O que se passa?
- Não pode fazer isto. - Não pode trancar-nos aqui.
Que está a fazer?
Não pode prender-nos aqui.
Uma médium gaba-se de ter uma visão de um homicídio, agora está morta.
Um de vocês sentiu os olhos dela em cima.
Matou-a e tentou matar-me.
Ninguém sairá daqui até eu descobrir quem foi.
Commissario, fique aqui e não deixe que abram estes portões.
Monsieur Gerard, fique aqui e vigie o commissario.
Suspeita de mim? Fui polícia.
Mais uma razão para suspeitar de si.
Eles já mataram esta noite.
Todos terão ocasião para falar.
E volte a ligar à polícia.
Diga-lhes que Hercule Poirot está a tratar do caso.
Foi aqui que ela...?
O atentado contra a minha vida deu-se
aproximadamente dois minutos após o bater da meia-noite.
Foi a primeira a encontrar o corpo...?
Não se atreva a olhar-me como uma suspeita de homicídio.
Somos velhos amigos.
Todos os assassinos são velhos amigos de alguém.
Mas escreveu tantos policiais complexos, não cairia aos pés da primeira vítima.
E, para já, o chef dá-lhe um álibi viável para essa hora
e por isso vou pedir-lhe para me ajudar na investigação.
Quando começamos?
Quando me for buscar a nossa anfitriã.
Sabia que estava algures aí dentro.
Bastou um cadáver e aí está.
Hercule Poirot de volta.
Baba, o Coelho?
Poirot!
Como raio...?
Baba, o Coelho?
Tem a certeza?
Debaixo desse monte de quadros?
Onde estava quando a Mna. Reynolds...?
Estávamos na sala de música.
Quando foi isso?
Meia-noite, pouco antes.
E depois apareceu a correr?
Se me é permitido, o que há por cima desta varanda?
O jardim era o nosso esconderijo secreto.
Era o sítio favorito da minha filha.
Deixei morrer tudo.
As nossas abelhas.
Fazíamos mel.
A minha filha costumava provocar-me.
"Tanto esforço por uma colher de chá de mel silvestre
"que podemos comprar por seis liras."
Tinha esperança de que sobrevivessem, mas...
Coitadinhas.
Como decidiu convidar a Mna. Reynolds para sua casa?
Não podemos sair da chuva?
Mais non, desfrutemos deste jardim secreto.
Li sobre ela numa revista.
Não liguei muito.
Então, um dia, sem mais nem menos, ela escreveu-me.
Uma carta de uma estranha.
Mas ela conhecia-a da ópera, não?
Mas foi o nome que ela usou.
Disse que ouviu uma mensagem de Aspásia.
Era uma alcunha que ela usava para mim.
Aspásia, o grande amor do rei de Ponto,
de Mitridate.
A primeira ópera de Mozart.
Foi o meu primeiro papel principal.
A Alicia nasceu dois meses antes e...
encontrei a minha voz por causa dela.
E desde então...
não consigo cantar sabendo que ela não me espera no meu camarim.
Continuo a não conseguir.
Não voltará a cantar?
Sem ela, não há música.
Recusei pedidos de casamento sem pensar duas vezes.
Ele aceitou o primeiro.
Do encantador chef Maxime Gerard.
É um cretino presunçoso que procura casar com a mulher mais rica que encontrar.
Quando ficaram noivos...
arranquei todas as flores do jardim
e apanhei um barco para Istambul.
Mas ele deve ter descoberto que não era tão rica como ele pensava.
Um dos dias mais felizes da minha vida foi quando ele disse que conhecera outra
e que cancelara o casamento.
Mas foi então que começaram os piores dias.
A doença dela.
A mente dela fervilhava.
Era outra vez como uma menina.
Obrigado, Mna. Drake.
Mna. Oliver.
Sou uma péssima governanta.
Ela não arranjou melhor.
É uma cidade supersticiosa.
Mas também é supersticiosa.
Acredita que este palazzo está assombrado, sim?
Pode pertencer à Mna. Rowena, mas os espíritos possuem-no.
Onde estava, Madame Seminoff,
quando esses fantasmas assassinos transformaram Joyce Reynolds num deles?
Troce, vá.
Porque faz tantas perguntas?
Não fiz nada de mal.
É o que ele faz. Ou fazia.
Estou a ajudá-lo. Voltou ao ativo, de momento.
Está a correr bem.
O que faz?
O que faço?
Quando foi cometido um crime,
consigo, aplicando a ordem e o método
e com a lenta extinção da minha própria alma,
encontrar, sem falha ou dúvida, o culpado.
Como nos seus livros
o detetive pateta da Finlândia,
ele está a fazer listas.
Inspira-se nos livros dela?
Importa-se de nos dizer onde estava à meia-noite?
Para as listas.
Na sala de música com a Mna. Rowena.
E ela foi lá ter consigo à meia-noite.
Tem a certeza absoluta disso?
Estava a olhar para o relógio e fiquei grata por ela ter lá ido.
Mas não aprovou a vidente.
Creio que lhe chamou "satânica".
Talvez a sua mente tenha vagueado até Êxodo,
22:18?
"Não deixarás viver a feiticeira."
A Bíblia avisa contra isso com razão.
Uma bruxa no seu sabá?
Para ser afogada, queimada
ou atirada de uma varanda alta?
Não. Não sou uma justiceira.
Mas conhece bem a Bíblia.
E logo a Vulgata em latim rigoroso.
Não o produto de uma escola paroquial...
mas talvez de um convento.
Descobri a vocação para freira antes de saber ler.
Usei o hábito durante nove anos no Ospedale della Pietà.
E depois conheci o Sr. Seminoff.
Foi consertar o telhado.
Deus coloca-nos desafios.
Apaixonou-se e esqueceu-se de Deus.
Não é tão simples.
Uma última pergunta.
Para as listas, claro.
Pardon, pareceu-me ter ouvido algo.
Teme as artes ocultas, então,
porque assistiu a uma sessão?
Um ato abominado, aqui, de noite, se não queria ficar?
Só a um ente devo respostas.
E não é a si.
Poirot.
Sra. Olga Seminoff, enquanto freira, qual era o nome da sua santa?
Maria.
Não irá longe com uma perna partida.
Uma arma irregular. Não muito afiada.
Unhas, talvez.
E não tem outras marcas.
Além das óbvias.
O estado dela não tem mais nada de invulgar?
Empalada em arte clássica deve bastar.
Então e o pulso esquerdo?
Ignora um ferimento,
assim como a hora exata da morte.
Escapou-me.
Está a olhar fixamente para mim.
Pare!
Acha que sou maluquinho?
Não sou!
Pai.
Sente-se bem?
Sim.
Estou aqui em cima, se precisar.
Preferia que não me tivesse pedido.
As cicatrizes de guerra nem sempre estão no corpo.
Foi soldado?
15 de abril de 1945.
Já tudo devia ter acabado.
Atravessámos o Reno
a leste, na investida contra Berlim.
Demos com os portões do campo de Bergen-Belsen.
Meu Deus.
"Libertar."
Ajudar esqueletos a voltar à vida.
Matámos dois no primeiro dia, com leite. Não sabíamos.
Depois, o tifo.
Só tínhamos aspirina e ópio.
Queimámos as cabanas.
Escrevi uma carta ao Leo.
Depois, dei um tiro no peito.
Disseram-me para parar de exercer quando voltasse a casa.
Com exceção de uma doente, no ano passado.
Alicia Drake.
Um favor a Rowena.
Mais ninguém aceitava tratá-la.
Não aqui.
Era médico da família há tanto tempo, devia ter recusado.
Mas tinha uma desvantagem.
O facto de estar apaixonado por Rowena Drake.
É uma sorte estar sequer na vida dela.
Sei que tem sido...
Sei que tem sido difícil, mas na sua opinião
Alicia Drake pode ter sido assassinada?
A Alicia contou-me o que viu.
Disse que as crianças estavam a provocá-la.
Não a escutei.
Quando ela estava a enlouquecer, culpei o desgosto amoroso.
Ela precisava de ajuda.
Dei-lhe sedativos...
como dei leite aos famintos.
Não existem fenómenos paranormais.
Existe dor psíquica.
Um maluquinho como eu devia ter percebido.
Já acabámos?
Merci, Dr. Ferrier.
Calculo que não esteja na sua lista.
De pessoas a interrogar.
Vou esperar.
O aterrador Edgar Allan Poe.
Para um rapaz da sua idade, não é melhor,
talvez, Charles Dickens?
Ele é um pouco tolo. Não acha?
O meu pai é nervoso, como o senhor.
Chama-se neurose de guerra. Fadiga de batalha.
Acho isso injusto.
Ele não está cansado.
Está destroçado.
Estava comigo à meia-noite, se quer saber.
Queria saber, admito.
Consigo à meia-noite, sim?
Na cozinha, à espera da Mna. Rowena.
Queria desejar-lhe boa noite.
Claro.
Os assistentes dela entraram logo depois. Por isso, ainda estão na sua lista.
Estão todos na minha lista.
Deixou as torneiras abertas.
Infelizmente, hoje nem me reconheço.
Sente coisas.
Vozes.
É a véspera do Dia de Todos os Santos.
Os mortos não podiam estar mais perto.
O senhor também esteve morto.
Mesmo que só por um instante.
Eles veem-no com um dos seus.
Alguém com algo para dizer faria bem em recorrer a si.
Fala como a Mna. Reynolds.
Ela só fingia saber.
Não admira que se tenham zangado com ela.
É muito solidário com os mortos.
Alguns deles são meus amigos.
Com licença.
Merci, Monsieur Leopold.
De nada.
Hércules.
Nervoso.
O Nicholas e a Desdemona estão prontos.
Podemos esperar pela polícia.
Sou Hercule Poirot, não?
- Não. Sim. - Sim.
Se a polícia tiver êxito onde eu não tenho,
serei o próximo a atirar-me da varanda para o canal.
De volta ao normal.
O que acha, até agora?
Aposto na governanta.
Tem bom gosto para livros, mas o fogo dos fanáticos é intenso.
E Rowena Drake precisava da vítima viva.
Mas aquele rapazinho
tem tanto encanto como mastigar papel de alumínio.
Talvez.
Cada teoria aspira a ser facto antes de reunida a informação.
Ordem e método.
- E listas. - E listas.
Continuamos com quem melhor a conhecia, os assistentes.
Acha mesmo que os criados tinham um motivo?
Têm sempre um motivo.
Primeiro, por terem de suportar o termo "criados".
Outra vez ele.
Aqueles dois criminosos não são de fiar.
Criminosos? Aquelas crianças? Podia tê-lo mencionado.
Estou a dizer-vos agora.
Não podia fazer isto com a minha irmã?
Ela espera-o confortavelmente.
O meu irmão?
Espera-a confortavelmente.
Desdemona e Nicholas Holland.
Os nossos passaportes são falsos.
Sim. E não muito bons.
Horvát Nipkin e Dorenia, antes.
Nascidos na Hungria.
Numa aldeia destruída pelo fogo.
De toda a nossa família,
sobrevivemos nós, de alguma forma.
Cuidámos um do outro.
À meia-noite, levámos uma bebida à socapa para a cozinha.
O miúdo assustador estava lá.
Ele diz que entraram logo após a meia-noite.
Está enganado.
E quanto tempo trabalhou para a Mna. Reynolds?
- Pouco mais de um ano. - Tem a certeza?
O melhor ano que tivemos.
Não passamos fome desde que começámos a ajudá-la.
Não sei o que faremos sem ela.
- Safávamo-nos, antes. - Sim, roubavam.
Éramos ladrões, não assassinos.
Fizemos o necessário para sobreviver à guerra.
Ela sabia coisas.
E se diz que Alicia Drake foi assassinada...
Vigarice pura.
Ela era mágica.
Então, todas as sessões em que participou...
Eram falsas.
- As reuniões com espíritos? - Tudo falso.
- Todas as sessões? - Era só espetáculo.
Só espetáculo, falso. Estranho.
E isto também é magia?
O comando da vossa máquina falante?
Preparávamos alguns truques.
Só para acentuar a realidade das visões dela.
Dava-me ordens como uma duquesa
e namoriscava o Nicholas para mantê-lo na linha.
Já aguentámos pior.
"Havemos de lá chegar sem ela."
Iam fugir para onde?
- Vamos para o Missouri. - Missouri.
Missouri?
Escondemo-nos na Floresta de Murrhardt.
Vivíamos de ervas e ratos.
Os camiões americanos passaram por Heilbronn
e quando nos apanharam pensei que estávamos mortos.
Ensinaram-nos o Lindy Hop.
Nunca tínhamos visto nada como eles.
Aquela mistura de homens, as suas cores e vozes.
Um deles pendurou um lençol.
Tinham um projetor de cinema, mas só meio filme.
Vimos metade de Não Há Como a Nossa Casa
todas as noites, num lençol do Exército, durante um mês.
Vimo-lo vezes sem conta.
Ainda não sei como acaba.
Tem um final feliz.
"St. Louis, Missouri."
Bastava dizer essas palavras para a minha irmã adormecer.
Era a cor.
Eram as pessoas lindas.
E ninguém adoecia.
Ninguém passava fome nem morria.
Kensington Avenue, 5135.
Foi onde decidimos viver.
É o sonho dela, por isso é meu também.
Só tínhamos de aturar a duquesa até termos o suficiente para viajar.
E recomeçar.
Foi estúpido ter um sonho.
Mas, impacientes com o sonho, atreveram-se a roubar dos lucros dela.
"Tlintlim, fazia o elétrico."
O quê? Não roubámos.
O seu irmão já confessou que sim.
Idiota.
A sua irmã já confessou.
Não à Mna. Reynolds. Não o faríamos.
Talvez tenha descoberto o roubo e vos tenha ameaçado.
Talvez estivessem fartos
da crueldade da polícia com miúdos de rua ciganos apátridas
e, para evitar a deportação ou pior, a tenham matado.
Vocês, os criados de confiança.
Nicholas!
Onde estás?
Se fico aqui presa, tu também.
Não significa que a tenha matado.
Correu como se o tivesse feito.
Motivo óbvio, ambos em local desconhecido na altura da morte.
Vou mudar de palpite.
É possível, certamente. Sim.
Como de costume, está a fingir que sabe mais do que toda a gente.
Ainda nada sei. A verdade não aparece sem custos ou esforço.
Despertou o urso. Não pode chorar se ele dança o tango.
Essa expressão não existe em nenhuma língua.
Continuamos.
Ouvem isto?
À nossa volta.
Não ouvi nada.
O seu investigador fritou a mioleira.
Poirot. Uma pancada na cabeça deve ser o seu limite por hoje.
Há mais alguém nesta casa.
Ouviu?
Sim.
Nós os dois, então.
A escutar.
Espere.
Continua morto.
Está tudo bem. Já podes sair.
Não estás metida em sarilhos.
Não há nada a temer.
Vieste com as outras crianças, sim?
E estiveste aqui escondida este tempo todo.
Ouviste a mulher a cair?
Viste?
Alguém a empurrou?
Está a falar com quem?
Uma criança.
Deve ter ouvido.
Ouvi isto.
Solte-nos!
Desamarre-nos, porco!
Não pode deixar-nos aqui!
- Ouviram aquilo. Todos... - Devem ser os canos.
Canos? Parecia o Blitz.
Em tantos anos aqui, nunca tinha ouvido aquilo.
Eu já. Quando eles estão zangados.
Perturbámo-los.
Como os acalmamos?
Ouçam.
Vem da cave.
Esta casa não tem cave.
"Dottore." Doutor. A Vendeta das Crianças.
Quer entrar ali?
Pai?
Trancaram mesmo as crianças aqui para morrerem.
Deixe-o. Está com um ataque de nervos.
Raios, Ferrier. Agora não!
Controle-se.
Pense no seu filho.
- Parem! - Pai!
Parem!
Ondas da tempestade. Não fantasmas.
- Por favor, parem! - Parem!
Pai!
Parem.
Pai, pare!
Estás bem?
- Por favor, pare! - Parem!
Por favor, pare!
Pai.
Pai. Sou eu.
Sou eu.
Estou aqui.
Está aqui comigo.
Vê-me?
Vê-me?
É uma coisa dele.
Eu sei.
Chiu, pai.
Está tudo bem. Pai.
Só precisa de descansar.
Não é, pai?
Devia ser eu a cuidar de ti.
E cuida.
Descanse, monsieur.
Eu devia ter escutado.
Vi.
Demónios, o mal,
estão por todo o lado nesta casa.
Nós os dois somos iguais.
Aonde quer que vamos...
a morte segue-nos.
Tem de haver uma explicação racional para tudo isto.
Na cave, há abelhas.
Lá em cima, há um assassino vulgar.
Não.
Escute.
Acredite.
Ele pode descansar na minha sala de música.
É quase à prova de som.
Devíamos fechá-la à chave, para segurança dele.
Mas, por favor, guarde a chave. Pela nossa.
Merci.
Vamos, Leopold.
É hora de mais bolo, não?
Comi demasiado.
Eu não.
Claro que ela diria isso.
Na perspetiva dela, é verdade, matei a Alicia.
A Rowena acredita no que quer.
Uma médium viu a Alicia a ser morta, chame-me assassino.
Não acredita na Mna. Reynolds,
na máquina de escrever com a mensagem da falecida, a sua inicial:
"M" de Maxime.
Uma casa assombrada?
Os humanos anseiam por moldar o caos com histórias certinhas.
Numa aflição, ainda mais.
Não é uma pincelada com um trilião de estrelas, é a velha Cassiopeia.
Aquele clarão na foto de família? Deve ser o fantasma do avô.
A Alicia era doente mental.
Isso matou-a.
Não era inevitável.
Um médico a sério tê-la-ia tratado a sério. Não aquele tique ambulante.
Merda!
Mel. Faz bem aos cortes. É um antissético antigo.
Não é silvestre.
Não consigo identificá-lo.
Alicia Drake.
Que felicidade radiante.
Rasgada ao meio.
A Alicia rasgou a foto no quarto na noite em que acabei tudo.
Foi a última vez que falámos.
Então, rompeu o seu noivado.
Já sabe. Ela não era rica que chegue para mim.
Anda com a fotografia dela no bolso. Veio quando convocado, esta noite.
Acredito que amava mais a Alicia Drake do que o dinheiro.
Contudo, foi-se embora.
Com certas mulheres, casamos com elas e com as mães.
Então, a mãe não o aprovava.
Ela nem o Papa aprovaria.
A Rowena não sabia existir sozinha.
Destruiu o jardim com rancor, partiu para o estrangeiro.
A Alicia ficou desvairada de culpa, quis persegui-la pelo mundo fora.
E eu percebi finalmente que nunca seria a coisa mais importante da sua vida.
Então, rompeu a relação e partiu-lhe o coração.
Só porque uma mulher o fez sentir-se pequeno.
Voltei a Veneza
para lhe implorar que voltasse para mim.
Quando soube que ela estava doente...
a Rowena não permitiu que a visse.
Nem lhe mostrou as minhas cartas.
Só voltei a ver a Alicia num caixão.
Talvez tenha sido minha culpa.
Se me permite, o seu convite, por favor.
Mna. Oliver.
- Um bilhete simples. - Sem linguagem distintiva.
O papel é simples. Está datilografado com clareza.
ESTÁ NO PALÁCIO ÀS 22:00 NOTÍCIAS IMPORTANTES SOBRE ALICIA DRAKE
Profissionalmente anónimo.
M A Ç Ã
Chega. Está despachado. Vamos.
Não acabámos de o interrogar.
Ia revelar alguma mentira que ele contou
e provavelmente acusá-lo de apoiar secretamente Vichy.
Depois ele ameaçaria esmurrá-lo. Poupa-se o esforço.
Ele está bem?
Cão de guarda, seja útil, traga-lhe uma cadeira.
Uma cadeira, sim.
É bom ter aqui uma amiga.
Há quanto tempo nos conhecemos?
O Homicídio dos Banhos Municipais de Canning Road.
Impus a minha presença para observá-lo como pesquisa para um livro.
Descrevi Poirot mal disfarçado.
O público percebeu e ficou famoso.
Infame.
Com licença. Obrigado.
Obrigado. Não é para mim, é para si.
Quer interrogar-me?
Deixe-o estar.
Ainda não aqueceu o motor, levou umas pancadas na cabeça.
Deixe-se estar. Espere pela manhã.
Quase morri.
Aqui.
Este palazzo
prega-me partidas.
Põe-me coisas à frente vezes sem conta.
Maçãs.
Uma partida da mente.
E depois a minha mente quer dizer-me algo.
Como se tornou polícia?
Gostava que esquecesse isto.
Tudo bem. Eu respondo.
O meu pai era polícia.
É o ramo familiar, basicamente.
Não conheci mais nada.
Mas reformou-se antecipadamente. Ainda no ano passado.
Sim.
O ramo da família já não era para mim.
Talvez nunca tenha sido.
Tinha força, mas não feitio.
Bebia quando não conseguia dormir e nunca dormia.
Foi polícia, em tempos.
Compreende.
Acabamos por trabalhar num caso
e sabemos que não aguentaremos outro sem perder a alma.
Para si, qual foi o caso?
Porque mentiu dizendo nunca ter vindo aqui, quando é óbvio que veio?
Sabia exatamente onde encontrar o telefone escondido.
O caso foi um triste espetáculo.
A família merecia privacidade.
Mas era o polícia de serviço
quando Alicia Drake foi encontrada morta.
Sim.
Tirei-a da água.
Reformei-me no dia seguinte.
Para em breve se tornar no meu excelente guarda-costas, no dragão dos meus portões,
que nunca permitiu que uma única alma passasse.
Porém, esta manhã, interrompeu-me
para perguntar se eu conhecia a mulher das maçãs.
Em tantos meses, o meu sossego foi imperturbável,
protegeu-me resolutamente da curiosidade ou da companhia,
atirando homens adultos ao canal.
Ariadne Oliver
passa sem dificuldade.
Porquê?
Porque estavam combinados.
A escritora e o guarda-costas
juntos na tramoia com a médium.
A simular desdém,
conspirando para me trazer a esta sessão e fazer-me de tolo.
Estou muito preocupada consigo.
Os pormenores sobre a vida e morte de Alicia Drake
fornecidos pelo polícia presente na sua morte.
Pormenores sobre mim obtidos não por adivinhação,
mas por uma carta sua.
E na sessão, com todos os olhos na médium,
ficou de mãos livres. A cúmplice secreta
para me fazer crer no impossível.
Médiuns e magia.
Fantasmas e deuses.
Fama para a médium,
uma percentagem para si,
o seu estatuto literário restaurado.
"A mulher que baralhou Hercule Poirot."
Não Joyce Reynolds, mas Ariadne Oliver.
Não me perdoa?
Aparentemente, só Deus pode perdoar.
É um sarilho, então.
Vamos descobrir como o fez.
- O Baba? - Um bom pormenor.
O convite pessoal ao noivo?
Esse era drama garantido. Com três fracassos, precisava dum triunfo.
Éramos amigos.
Não tem amigos, tem admiradores.
E só os tem por minha causa.
Descrevi-o como um génio,
porque não havia de o usar para vender livros?
Génio... É um tolo. Um ego.
Uma nuvem negra que atrai a morte.
E sabe-o. Por isso se reformou.
Foi por isso que matou Joyce Reynolds?
Não. Não a matei.
O seu livro, uma lenda instantânea.
Por favor, está a inventar.
A conspirar...
Não o fizemos.
...para ocultar o homicídio!
A chave, venha depressa!
Está mais alguém lá dentro!
Despache-se!
Poirot!
O que foi? O que se passa com ele?
Não sei.
Porque é que ele tinha de estar sozinho?
É a única entrada.
Tinha a única chave.
Não é possível.
Não.
Não, eu estava mesmo à sua frente!
Ele estava a gritar com alguém.
Odiava-o, mas não o queria morto.
Tem um filho, por amor de Deus.
Além disso, eu estava lá fora
a tentar entrar com eles.
É verdade.
O doutor estava aqui sozinho.
Sozinho, não.
Não nesta casa.
Um médico.
Uma enfermeira e um médico. A Vendeta das Crianças.
Não há outra entrada.
Não percebo.
Se esta sala não era segura, nenhum sítio é seguro.
Nenhum de nós está seguro.
Nada humano podia ter feito isto.
"Cabe-nos provar que estas aparentes 'impossibilidades'
"na realidade não o são."
Vamos, deixem-no.
Deixem o detetive detetar. Ela já sabe.
Em breve chegará lá.
Vamos.
Por uma vez na vida, admita que enfrenta algo superior a si!
Perguntou.
Perguntou porque fiquei enquanto eles chamavam espíritos.
A Alicia estava a definhar enquanto enlouquecia.
A Mna. Rowena ficou junto a ela
dia e noite.
Um dia, implorei-lhe que dormisse.
Prometi ficar de vigia.
Ela dormiu até depois de anoitecer.
Chegou a meia-noite.
Ouvi vozes
e passos.
A Alicia dormia tão profundamente.
Deve ter acordado depois de eu sair.
E foi à varanda.
E pedia perdão ao fantasma dela.
Adorava aquela rapariga.
Ela morreu...
porque fui estúpida e assustei-me.
Porque não tem a resposta?
Tem sempre a resposta.
- Nunca devia ter vindo. - Espere.
Devemos sair todos daqui e jamais olhar para trás.
Não vou esperar para ser o próximo.
Esta noite...
todos temos medo.
Houve dois homicídios impossíveis.
Cada homicídio aparenta só poder ter sido cometido por um fantasma,
como se os vivos tivessem sido assassinados pelos mortos.
"Aparenta"? Sabe alguma coisa.
Sabe quem matou o meu pai?
Devo considerar os assistentes da Mna. Reynolds.
Sobreviventes, desesperados e ameaçados.
O ex-commissario de polícia, que já esteve nesta casa,
havendo sempre mortes.
A escritora. Determinada, capaz, mortiferamente esperta.
O nosso anjo vingador, Olga Seminoff,
tão empenhada na sua forma de justiça.
O antigo amor, cheio de raiva pelo médico,
com apenas o fragmento de uma fotografia
para recordar tal felicidade.
Mas...
Houve uma terceira morte que explica as outras duas.
O assassínio de Alicia Drake
cometido por...
a mãe dela.
A assassina.
Uma mãe que matou a filha e matou mais duas vezes para ocultar o terrível pecado.
Como se atreve?
Depois de tudo o que sofri, acusa-me de fazer mal à minha menina!
A sua menina tinha crescido.
Não concebia perdê-la para outra pessoa.
Num acesso de fúria, destruiu o seu jardim e o arco-íris de flores.
Flores? Passou dos limites.
Mas voltou a plantar o jardim. Não com um arco-íris, mas com uma só cor.
A única cor que lhe devolveria aquilo sem o qual não podia viver.
Passo a noite a ouvir e a ver coisas que não estão lá.
Começo a crer na presença impossível de fantasmas.
Quando na verdade fui narcotizado, drogado...
com um veneno alucinogénio.
Pensava que tinha os armários vazios.
Encontrei o seu mel no roupeiro.
Há um veneno na flor da espécie Rhododendron Ponticum.
A sua concentração é maior no néctar,
que se concentra ainda mais quando transformado pelas abelhas em mel.
Tanto esforço por uma colher de chá de mel silvestre
que podíamos comprar por seis liras.
Não é silvestre.
Não consigo identificá-lo.
Chamam-lhe "deli bal" na Turquia, onde cresce na natureza.
Para onde Rowena Drake viajou sozinha, zangada.
"Mel louco." Uma mera colher de chá deste veneno
causa fraqueza, febre, alucinações.
Voltou a plantá-lo com a flor tóxica que produziria mel envenenado.
Não podia fazer isso. Não fiz.
A sua filha não foi possuída.
Foi envenenada
por uma mãe que não a deixava ir.
Que lhe dava amorosamente à boca doses controladas
de mel com veneno no chá.
Mantendo-a suficientemente doente
para impedir que voltasse para o amado arrependido.
Fraca, outra vez indefesa como uma criança.
Outra vez sua.
Até acontecer um erro.
A Sra. Seminoff vigiava Alicia, enquanto a Rowena por fim dormia.
Caiu a noite e Olga assustou-se quando, inevitavelmente, Alicia acordou
outra vez transtornada, decerto.
Mas o que fazer?
E desconhecendo a verdade,
Olga Seminoff fez o que achou que a Rowena faria
e serviu a Alicia Drake chá tranquilizante adoçado com mel.
Doce demais.
Eu não sabia.
Não sabia.
Alicia Drake não correu para a varanda para se suicidar.
Tomou uma dose excessiva do seu veneno.
E o coração parou enquanto dormia.
Voltou do seu descanso
e encontrou-a morta.
E depois...
tomou a sua monstruosa decisão.
Fez a marca da Vendeta das Crianças.
Cortou-a, atirou-a ao canal, simulou um suicídio.
Uma vítima de lendas. De fantasmas.
O seu médico incapaz e cego pelo amor
não encontrou nada que levantasse suspeitas no inquérito.
A polícia, predisposta à superstição, satisfez-se facilmente.
O frasco com veneno foi deixado no roupeiro pela governanta descuidada.
Matara impunemente a sua própria filha,
até a Mna. Oliver me chamar a atenção para algo.
Para onde foi todo o dinheiro?
Não tenho dinheiro para repará-lo.
Costuma haver uma única resposta.
Chantagem.
Sei do VENENO Pague OU O MUNDO SABERÁ
Suspeito que alguém descobriu.
Então, pagou pelo seu silêncio.
Uma e outra vez, pagou.
Mas agora, sem fortuna e com esta casa invendável,
estava desesperada para fugir ao controlo do chantagista.
Mas quem seria?
O seu suspeito óbvio era o Dr. Ferrier.
Talvez não fosse uma testemunha tão ingénua.
Talvez tenha finalmente reconhecido os sintomas do veneno.
E depois recebeu a carta da profana Mna. Reynolds
a afirmar que recebia mensagens da sua falecida filha.
Sabia demasiados pormenores íntimos.
Insinuava conhecer o seu crime, oferecia serviços a custo elevado.
Era certamente a sua chantagista.
Havia que pará-la, pelo seguro.
A Mna. Reynolds e o Dr. Ferrier tinham de ser parados. Mas como?
A sessão espírita numa casa assombrada no Dia das Bruxas.
A ocasião ideal para esconder o homicídio dos seus suspeitos de chantagem.
Escondendo-se atrás da superstição, da lenda, do medo.
O relógio bateu.
E a senhora também.
Mas, com a pressa, confundiu o portador da máscara.
Ao livrar-se de mim, encontrou o seu alvo.
Eu estava com a Sra. Seminoff à meia-noite.
Estava.
Estávamos juntas. Vi as horas.
Viu as horas no relógio da sala de música,
onde ela lhe pedira para esperar.
Uma sala quase à prova de som,
que ela própria fechara
e na qual tinha previamente mudado a hora
e onde não se ouvia o verdadeiro toque da meia-noite.
Mostrava meia-noite quando já era...
Após a morte de Joyce Reynolds.
As provas incriminatórias descartadas com um passe de magia.
E o Ferrier?
Ela não estava perto dele.
Na verdade, fez alarde da porta trancada dando-me a única chave.
Mas não mataria o Dr. Ferrier com uma faca.
A sua arma do crime seria um telefone.
A linha exterior estava morta, claro, por causa da tempestade,
mas a linha interna continuava intacta.
Não chegaria nenhum telefonema de fora da casa.
Só de dentro.
Ela, na sala de jantar.
Ele, fechado na sala de música.
Sei que me tem chantageado.
Confessou-lhe tudo. Que era a assassina de Joyce Reynolds.
Que encenara o suicídio da sua filha.
Não é possível.
E depois fez a sua ameaça.
Faça exatamente o que lhe digo.
Ameaçou matar o filho dele...
Não! Deixe-o ir embora. Deixe-o.
...a sua única razão de viver...
se não fizesse o que lhe mandava.
E o que lhe mandou fazer...
foi pegar na faca.
Ela matou o meu pai?
E a Mna. Reynolds.
- E a Alicia. - Não.
Nunca lhe faria mal.
Foi um acidente.
Ela era a minha vida.
- Envenenou-a. - Para protegê-la.
- Para controlá-la! - Para mantê-la a salvo de si.
Não podia deixá-la ir.
Era minha.
Ela era o que eu tinha de melhor.
E se as almas existem, deu paz à dela.
Merci.
Dottore.
Vão considerar que a Mna. Drake se suicidou.
A menos que queira fazer uma declaração em contrário.
Posso ao menos acompanhá-lo em segurança a casa
antes que me denuncie por fraude?
À luz do dia,
nenhuma das duas coisas parece necessária.
No fim, acaba por me proteger, Dottore.
Vá lá, Leopold.
Deixa-me apertar o botão de cima.
Está bom, Mna. Olga.
Muito elegante.
- Não preciso de casaco. - Vais ter frio.
Estou bem.
Sei que está sol, mas está frio na mesma.
- Estás muito melhor assim. - Estou bem.
- Muito bem-parecido. - Obrigado.
Madame.
Ele vai viver comigo e com o Sr. Seminoff. E com o Harry.
Vamos criá-lo como se fosse nosso.
Talvez insista num pouco mais de sol.
És um rapaz precoce
que talvez tenha vergonha de gostar tanto de atenções.
Faço ideia do que isso é.
Não deves culpar-te por nada do que aconteceu nesta casa.
Porque o faria?
Mas a culpa é toda minha.
Não querias o dinheiro para ti.
Querias ajudar o teu pai.
O pai não conseguia trabalhar.
Só usei o dinheiro para pagar as nossas contas.
Nem sabia o que fazer ao resto.
Rowena Drake presumiu que o chantagista era a falsa médium ou o médico da família,
quando não era nenhum deles.
Só o filho do médico viu a verdade.
Era óbvio, a partir das notas do pai.
Envenenamento com mel louco,
tal como Mitrídates na ópera dela.
O Rei do Veneno.
Li tudo sobre ele num dos livros dela, na biblioteca.
Então, pus a teoria à prova.
Enviaste uma carta de chantagem.
E mais uma.
Talvez esse dinheiro no teu colchão tenha utilidade.
Para compensar os remorsos.
Sobrevivemos antes da Mna. Reynolds. Faremos melhor do que sobreviver.
Prometo que chegaremos à América. Chegaremos.
Venham os dois connosco.
À esquadra?
Nós, para casa. Vocês, para a América. Missouri, creio.
Uma passagem para dois. Podemos ajudar. Acho.
Obrigada.
Muito obrigado.
Deixem espaço para o Leopold, por favor.
Resolveu o caso.
Mas teve ajuda,
não teve?
Escutou-a.
Bonne chance, meu amigo.
Não se preocupe,
as pessoas que morrem nesta casa voltam sempre.
Vou voltar a vê-las.
Até breve, pai.
Não vou pedir desculpa. Estragou o meu livro.
Nem vivos nem provas. Tenho de rescrever tudo.
Desde que não inclua o meu nome.
Não quero voltar a ouvir o seu nome.
Agora é só uma casa. Tudo desmistificado.
Mas está com ar de crente.
Sim. Viu algo.
Estava drogado.
O meu subconsciente reuniu os factos antes da parte racional.
Viu.
Sabe.
Só sei que não podemos esconder-nos dos nossos fantasmas.
Sejam ou não reais...
devemos fazer as pazes com eles.
E viver a vida.
De alguma maneira.
E como vai viver a sua vida?
Monsieur Poirot?
Monsieur Poirot?
Os seus pais morreram pouco depois um do outro.
Depois, o seu irmão.
O seu médico de confiança é um amigo querido da família.
O seu irmão era solteiro, como o senhor. Não tem outros parentes.
A sua família não está amaldiçoada.
Tenho fortes suspeitas de que o seu irmão adicionou um codicilo ao testamento
nomeando o vosso médico como beneficiário
caso todos os membros da vossa pequena família morram.
Tenho fortes suspeitas de que depois ele também os assassinou
invocando causas naturais no leito de morte.
E é o próximo a correr perigo de vida. Talvez queira sentar-se.
Faça favor.
Corrija-me se me enganar, monsieur, o seu médico era amigo da família?
Brincavam em crianças. Isso é claro.
Mas a sua mãe era mais chegada a si, certo? Sim.
Tradução NOS Audiovisuais por Gonçalo Sousa
FIM
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