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A NETFLIX APRESENTA
O homem olhou para o condenando e perguntou ao oficial:
"O prisioneiro conhece a sua sentença?"
"Não", disse o oficial, "já vai senti-la no próprio corpo."
Franz Kafka. In der Strafkolonie.
O Uruguai está sob uma ditadura militar depois de várias décadas de democracia.
O movimento revolucionário Tupamaros foi derrotado.
Os seus sobreviventes estão presos.
A 7 de setembro, nove prisioneiros Tupamaros
são levados em segredo e ficam reféns do governo militar.
Esta é a história de três deles.
A NOITE DE 12 ANOS
Da cidade de La Paz, do departamento de...
Dois membros da guerrilha...
... estas viagens que...
... aproximamo-nos quando decidimos casar com alguém, mas também...
... problemas que surgem quando a mulher quer estar...
... é meia noite em Montevideu e continuamos com os pedidos...
Boa noite, como se chama?
Olá, boa noite. O meu nome é Maria.
Então, Maria, como está? Que canção quer ouvir?
Gostaria de ouvir "Siga el Baile"...
... em território uruguaio,
especialmente a sul do Rio Negro,
são previstas chuvas intensas e tempestades isoladas.
- A quem gostaria de a dedicar? - Ao meu amor, ao Dani.
- Tropas! - Avancem!
- Mexam-se! - Depressa!
Vamos lá!
Mexam-se!
Vamos lá, rápido!
Rápido!
Vamos, toca a andar!
Vamos lá! Sobe!
- Preciso de cagar. - Silêncio, seu merdas!
Pepe?
- Ñato. - Silêncio! Nada de conversas!
- Ruso, és tu? - Silêncio!
Cala essa boca, seu merdas!
Então, vou ter de cagar aqui.
- Desculpem, companheiros. - Silêncio!
Vamos, subam!
- Há merda por todos os lados. - Vamos, para o camião.
Vamos lá!
Rápido!
Vamos, toca a andar!
Com licença, tenente. Trouxe-lhe os prisioneiros.
José Mujica, Eleuterio Fernández Huidobro e Mauricio Rosencof.
Leve-os daqui.
Toca a andar, vamos.
Vamos, sempre a andar!
Lá para dentro!
Segura-o.
Encharca com gasolina.
Mais...
- Sufoca-o. - Não!
Não consigo respirar!
Vamos deitar-te fogo. Quieto.
Estamos a deitar-te fogo. Fica quieto.
Não!
Filho da puta!
Cala-te.
Quieto. Fica quieto aí.
De pé!
Encosta-te à parede.
Hirto e firme.
Firme, sem tocar na parede.
Não te mexas.
Fica quieto.
Quieto, não olhes para mim. Virado para a parede.
Não te mexas.
ABANDONA TODA A ESPERANÇA, TU QUE ENTRASTE AQUI.
Toma lá, idiota.
RESOLUÇÃO DO MINISTÉRIO DA DEFESA
NÃO PODEM FALAR. NEM ENTRE VOCÊS, NEM COM NINGUÉM.
OS SOLDADOS ESTÃO PROIBIDOS DE FALAR CONVOSCO.
Um, dois, três, quatro.
Um, dois, três,
quatro.
Um, dois, três,
quatro.
Um, dois, três, quatro.
Para.
Aqui.
Este pensa que é o quê, um ginasta?
Precisa de um pontapé nos rins.
Não é um ginásio!
Tens de ficar quieto. Percebes?
12 MESES DEPOIS
Soldados, sentido!
Estes tipos não podem falar com ninguém.
Ninguém pode falar com eles.
São rebeldes e subversivos.
Traidores da pátria.
São muito perigosos.
São muito persuasivos.
O contacto com eles tem de ser mínimo.
Nós somos o Exército Nacional.
Levou-nos anos a ganhar esta guerra.
E lembremo-nos de que a humanidade sempre foi salva,
no último minuto,
por um pelotão de fuzilamento.
Meu querido Ruso...
Estou aqui porque a tua família está a incomodar-nos.
Vou deixar-te vê-los, mas não me dificultes as coisas,
porque vais prejudicar-te e vai prejudicá-los.
E amas muito a tua família, não?
Sabes o que é isto?
É uma resolução do Comando Geral do Exército.
Se houver algum atentado, vamos ter de te matar.
E sabes que isso é fácil.
Vocês já não são prisioneiros.
São reféns.
Devíamos tê-los matado enquanto podíamos.
Agora, vamos enlouquecê-los.
Perderam a guerra, Pepe.
Estão condenados.
E vocês queriam mudar o mundo?
Olha só para ti.
Eu matar-me-ia.
Porque vocês não se matam?
Fica quieto.
Eu disse para ficares quieto.
Olha, isto é uma barbaridade.
Um pelotão de fuzilamento seria mais humano.
Rosencof, arranje-se.
Pai.
Olá!
Como estás, meu amor?
Tens uns olhos lindos.
E a escola?
Que tal a escola?
- Trouxemos-te comida. - Obrigado, mãe.
- E cadernos e livros... - Obrigado, mãe.
- Como estás, querida? - Bem.
Estás tão grande!
Que bela surpresa.
O que fazes aqui todos os dias?
Passeamos.
Tens um recreio?
Sim, claro.
Trouxemos os óculos novos da Alejandrita para te mostrar.
Põe-nos. Espera. Diz-lhe para fechar os olhos.
Fecha os olhos.
Sim, eu fecho.
Fecho-os.
- Posso abri-los? - Sim.
Ficam-te muito bem.
Papá, estes óculos fazem-me chorar.
Não, querida. Não os uses, se te fazem chorar.
Fazem-na chorar, como?
As lentes fazem-na chorar.
Isaac...
Pai. Estás bem?
O que se passa?
- Quem é este? - O Mauricio.
- Vim ver o meu filho. - Isaac, por favor.
Papá, sou eu.
- Onde está o meu filho? - Acalma-te.
- Isaac, senta-te. - Onde está o meu filho?
- Vim ver o meu filho. - Senta-te.
- Pai, sou eu. - Não, por favor, senta-te.
Senta-te.
Não!
Isaac!
Papá, estás bem?
- Pai! - Quieto!
Papá!
- Isaac, não! - Papá!
Larguem-no! Papá!
Sou eu, pai!
Sou eu, pai!
Vamos!
Vamos lá!
Cuidado!
Quieto, idiota.
Sai daí! Sai!
Feliz Natal!
A, b, c...
A, b, c, d, e, f, g, h, i,...
H, i...
D, e, f, g...
Feliz Natal, Ruso.
Feliz Natal para ti também, Ñato.
Estamos em Solis?
Não sei.
Na 5ª Cavalaria.
Como sabes?
Pelas botas deles.
Onde está o Pepe?
Não faço ideia.
Xeque-mate.
Xeque-mate, como?
Com a rainha em D4.
Estás a lixar-me.
RD4, ganhei.
Discutir contigo...
... é como falar para uma parede.
Despacha-te. Caga depressa.
Assim não posso.
Não posso abaixar-me, não posso cagar.
O que queres que faça?
Tire-me isto por um tempo.
Não temos autorização.
Então, vou ter de cagar isto tudo.
Cabo, há um problema.
Ele não chega à sanita. Não pode defecar.
Deixa ver.
Não me posso abaixar.
- Gutiérrez, datilografa. - Meu sargento.
O prisioneiro está algemado...
Rápido!
No bairro...
- Meu sargento. - O que foi?
- Sargento! - Atenção!
- Meu alferes! - O que se passa?
Uma situação complicada.
Vê, meu alferes? Esta é a situação que temos.
Chamas-me para isto? Não sabes resolver isto sozinho?
Capitão, temos um problema na casa de banho.
Está entupida?
Tens mesmo vontade de cagar?
Com licença, comandante.
Atenção!
São todos atrasados mentais?
Pode vir aqui alguém?
Guarda!
Televisões, 1200.
Que roubo!
O Pompidou morreu.
Os Abba ganharam a Eurovisão.
Abba o quê?
Um grupo de música sueco.
Perder a consciência...
Conseguir ser exato...
É um assunto cultural... Sim!
Para de pensar! Não te atrevas a...
Tem calma! Cala-te!
Para de pensar! É impossível parar de pensar!
Para.
Cala-te! Fecha essa boca.
Filho.
Filho.
Mamã.
VENCER OU MORRER
- Boa tarde. - Boas.
Vim ver o meu filho.
- Quem? - José Mujica.
No tribunal disseram-me que ele podia estar aqui.
A sua identificação.
Assine isto e espere aqui.
Trouxe-te erva-mate e doce de leite.
A camisa de que gostas.
E como está o bairro?
O bairro está na mesma, bem.
E o avô?
O avô sente a tua falta.
Senhora!
Estão a verificar os documentos!
Porque não espera lá dentro?
Não, estou bem aqui.
Mamã.
Não venhas mais.
Enquanto for viva, virei. Mesmo que tenha de me arrastar.
Senhora!
Desculpe, mas o seu filho não está disponível.
Ele não está aqui?
Não tenho essa informação.
Onde está ele?
Não tenho essa informação.
Que informação tem?
A informação que lhe dei.
Mas que informação me deu?
Não tenho essa informação.
Mamã, anda cá!
Volta, mamã!
Mãe...
VENCER OU MORRER
É isto.
PROIBIDO PASSAR
Eu conhecia-a porque era a ex-namorada do Ñango.
E sempre gostei dela.
Começámos a dançar e aproximei-me dela.
Ela cheirava a sabonete.
Tão limpa.
Já não estava perto de uma coisa assim há muito tempo.
- Morena? - Sim.
Dançamos duas ou três músicas e ela disse-me: "Volta amanhã."
Pus o meu perfume, uma camisa bonita
e quando cheguei, ela não estava lá. Deixou-me lá plantado.
Ela devia ter respondido.
Deixei-lhe flores, bombons...
- Que flores? - As flores eram...
Aquelas que são amarelas no meio.
- Margaridas. - Sim, margaridas.
Conheço as mulheres, são todas iguais. Isso já me aconteceu.
- Elas deixam-nos pendurados. - O que fizeste?
Nada, nunca mais a vi.
Acho que estavam a gozar comigo.
Havia algo. Sabes quando sentes algo?
Olhámo-nos nos olhos.
À terceira canção, estávamos mais juntos.
E ela deu-me um beijo aqui, na cara.
E eu disse: "Não..."
Basta!
Silêncio!
Chega, Barriola, por favor.
- Barriola? - Chega.
Como é que sabes o meu nome?
Estou sempre a ouvir-te! A rapariga, o ex-namorado, o baile, o beijo.
Tens de fazer algo. Ela está interessada, mas faz alguma coisa.
Cala essa boca!
Deixa-me pensar. Ouve-me.
E se o namorado está na cidade e por causa disso ela te está a ignorar?
Como sabes? Cala a boca ou dou cabo de ti.
Ouve uma coisa.
Traz-me uma caneta e um papel e eu ajudo-te.
- Quero ajudar-te, a sério. - Cala-te!
Tens de surpreender a rapariga, Barriola.
Traz-me uma caneta e um papel...
Enfio-te a caneta pelo cu acima!
Por favor, Barriola, vamos resolver isto. Não te posso ouvir mais.
Não me trates pelo nome.
Idiota.
- Para que querias lápis e papel? - Para lhe escreveres uma carta.
Para quê?
Porque disseste que ela era boa e supus que quisesses algo com ela.
Tu ditas, imbecil, e eu escrevo.
Mas já te aviso, se perceber que me estás a lixar, dou cabo de ti.
"E aqui, na infinita solidão da guarda...
... refém da tua ausência..."
Devagar.
"Refém da tua ausência...
Sinto que os meus olhos se enchem
de lágrimas."
E agora?
- Que queres dizer? - O que faço?
Envia-la por correio, soldado.
De pé, vamos.
Tupamaro de merda.
Quando o sargento chegar, já vais ver.
Tire-lhe o capuz, soldado.
Todos lá para fora.
Saiam todos!
Mexam-se!
Então, és o escritor.
Olha, tenho um problema.
Gosto de uma rapariga.
Disseram-me que me podes ajudar.
Quem é ela?
Como é ela?
Ela é...
... morena, linda.
Conheci-a na semana passada. Estivemos na conversa.
Convidei-a para sair, mas ela não quer.
Como se chama?
Nelly.
- Morena, não é? - Sim, morena.
Trabalha com a mãe numa padaria.
E faz pão quente pela manhã?
Sim, faz pan con grasa.
Apenas...
... assine com o seu nome para que fique melhor.
Obrigado.
Posso ficar com o caderno?
Por favor.
Obrigado.
Soldados!
Levem-no.
Trouxe-te pão quente.
Obrigado.
Saímos ontem à noite.
Mas a rapariga está muito confusa, tem muitas dúvidas.
Se me permite, que dúvidas?
Eu...
... casei-me muito novo.
Estava ainda na milícia e conheci outra rapariga.
Quando voltei a casa era outro homem.
Tinha mudado muito.
Tenho uma filha... desse casamento.
Ela já é adulta.
Não fala para mim.
Isso magoa.
E agora que quero refazer a minha vida,
é como uma pedra no sapato.
Sargento...
... todos cometemos erros.
A bola vai para o outro lado.
Avança o número dez do Peñarol.
Avança com a bola e passa...
A bola vai na sua direção.
Ele aproveita a oportunidade e chuta...
Golo!
Golo!
Golo!
Ajuda-me.
O que lhe respondo?
O que procura nela?
Não sei, agora estou mais velho,
não quero acabar a minha vida sozinho. Quero ficar com ela.
Devo escrever isso?
Tu é que és o escritor.
O que dirias?
Eu não lho diria já.
Primeiro, temos de a fazer apaixonar-se.
Sim.
De ti.
De mim.
Do ar.
Da sombra do antes. Do depois.
De quem conhece o amor.
Devolve-me a Palavra.
Pedala, que vou soltar-te.
Muito bem, querida!
Continua!
Muito bem! Vais sozinha!
Olha para mim, papá!
Vamos lá!
Levante-me o capuz.
Só por um segundo, por favor.
Vamos, rápido!
Mexam-se, vamos.
Onde estamos, raios?
Por favor, onde estamos?
Onde estamos?
Abram!
Deixem-nos sair!
Não te faças de parvo, Mujica.
Fala-me sobre...
... os teus contactos.
Eu não vou pensar, não vou.
Tens de ter contactos...
Eu não vou pensar!
Não vais sacar-me merda nenhuma!
- Não vou pensar! - Quais os teus próximos movimentos?
O que estás a dizer?
Diz claramente! O que estás a dizer? Fala claramente!
Diz-me o que queres! Estás à minha direita ou à minha esquerda?
Que merda é esta?
O que estás a dizer?
O quê? Fala comigo, fala!
Fala!
Diz!
Não vou pensar!
Não vais conseguir nada de mim!
Não vou pensar!
Deixem-no sair!
Tirem-nos daqui!
Deixem-no sair!
Pepe!
Tirem-nos daqui!
Se és homem, anda cá! Anda!
Olá, Ñato.
Ñato.
Quero que conheças uma pessoa.
Ela nasceu no quartel e quer conhecer-te, Ñato.
Ela quer conhecer-te.
Gabrielita.
A Gabrielita quer conhecer-te,
mas não é fácil.
Estão constantemente a deslocar-te.
Agora estás em Melo e eu estou em Punta de Rieles.
Não quero que ela me veja assim.
Vai pensar que o seu pai é um morto-vivo.
Ñato...
Vai pensar que não tem pai.
Ñato...
Isto vai acabar em breve...
O que fazemos?
É uma tarefa muito fácil.
Quem não sabe fazer as coisas, pergunta.
Não, senhor.
Diz-me, Mujica.
Quem são os teus contactos aqui?
O que sabes sobre o Ortega?
Estás a ouvir...
O que propões?
Fala-me sobre
a Revolução Sandinista.
Os comunistas são todos iguais, quando lhes convém, não sabem de nada.
Só quando lhes convém.
Estás de acordo, sim ou não?
Outra rodada?
E as ferramentas, como vamos consegui-las?
Temos de testá-las.
E ao ruído.
Temos de experimentá-las e testar o barulho.
Ela disse que está tudo bem.
E a cave?
- A cave é perfeita. - Ouve-se do lado de fora?
Não se ouve nada. É enorme.
Obrigado.
Adiciona duas pessoas à coluna do meio.
- Estão a chegar pessoas. - Há que testá-los.
Como vamos fazer?
O casino está aberto
das oito às cinco. Só no Carnaval.
- Quantos vão participar? - Quinze.
- Quinze? - No máximo quinze.
São muitos.
Os Tupamaros conseguiram fazer o que consideram ser o roubo do século
contra a empresa de tabaco multimilionária, Mailhos.
Graças aos documentos revelados pelos Tupamaros,
o juiz ordenou uma sentença de prisão para Narciso Eduardo Mailhos,
por fraude fiscal e contrabando.
Estás bem?
Sim.
Outra rodada?
Sabe que está sob escuta?
Sabe?
Alguém quer mais alguma coisa?
Pepe.
Estás sob escuta.
Tens uma antena.
- A cave? - A cave é perfeita.
Ouve-se do lado de fora?
Não se ouve nada. É enorme.
- Como vamos fazer? - Só no Carnaval.
Parem!
Calem-se!
Calem-se!
Outra rodada?
... quão alto eles marchavam
Desculpe.
Enganei-me na letra.
Mamã?
Os seus documentos.
Senta-te. Raios, senta-te aí!
Parem!
Para, Pepe!
Numa operação bem-sucedida realizada pela Polícia de Montevideu,
ficou gravemente ferido um rebelde, de um conhecido grupo de conspiradores.
O desconhecido, que possuía uma identificação falsa,
revelou-se ser José Alberto Mujica.
Procurado há algum tempo, como membro da organização.
Mujica encontra-se internado no hospital militar
em estado crítico.
Rapaz, que idade tens?
Nem sequer tinhas nascido, quando nos colocaram aqui.
Esqueceram-se de nós.
Esqueceram-se de nós.
E se este fosse
o meu último poema,
rebelde e triste,
Esgotado, mas inteiro,
escreveria apenas uma palavra:
companheiro.
Uma visita, amanhã. A primeira vez que verei a Gabrielita.
Tenho medo, Ruso.
Tens uma filha. O que faço?
Conta-lhe uma história.
Não sei nenhuma.
Conta-lhe esta:
Então, a menina recebe uma prenda,
uma máquina que torna os seus sonhos em realidade.
Um dia, a menina estava com a mãe e a mãe disse-lhe:
"Vai dar de comer aos pintainhos azuis."
"Mas não existem pintainhos azuis, mamã."
"Vai na mesma."
E quando ela foi dar-lhes de comer,
começou a ouvir pintainhos a piar por toda a parte.
- Piu-piu! - Sim.
- Piu-piu! - Isso.
Nessa noite, quando foi dormir, deitou-se
e começou a sonhar com elefantes.
No dia seguinte, ao acordar,
ela vê elefantes a caminhar para a sua casa
e diz: "Mamã, olha os elefantes!"
Trinta segundos.
Gabi, na próxima vez que vieres, eu acabo a história, sim?
Papá, porque não tens mãos?
Não, eu tenho mãos. É que as mãos também se transformam.
Transformam-se em animais. Olha.
Olha.
Uma borboleta.
Como fazem as borboletas?
É isso.
Um macaco.
Um cão.
A visita acabou.
Adeus, Gabi. Amo-te muito, sim?
... aquele que não interfere
na gestão complicada da causa pública...
O coração de Francisco Franco deixou de bater.
Um caudilho de Espanha...
Uma das mais difíceis fraudes da história.
... depois da intervenção do exército...
"Voando Sobre um Ninho de Cucos" ganhou o Óscar
de Melhor Filme, e os seus atores,
Jack Nicholson e Louise Fletcher os de Melhor Ator e Melhor Atriz.
Para a assinatura do Acordo de Paz de Camp David,
com a presença do ex-presidente dos Estados Unidos,
Jimmy Carter...
Pode acontecer nos próximos dias em algumas áreas do Uruguai...
Eles têm o básico, uma cama,
uma cortina, luz, estamos sempre atentos
às solicitações para a higiene geral,
rações ou qualquer outra coisa que eles possam precisar,
eles são atendidos...
Diz qualquer coisa estúpida e arrancamos-te a cabeça.
Percebeste?
Como se chama?
Diga-nos o seu nome.
Eleuterio Fernández Huidobro.
Você está bem?
O prisioneiro está bem.
Gostaria de ouvi-lo.
COMITÉ INTERNACIONAL DA CRUZ VERMELHA
Eles mal nos alimentam.
Estamos proibidos de falar uns com os outros.
Não temos nada. Não estivemos diante de nenhum juiz.
Não temos nada! Eles não nos alimentam.
Nem sequer nos deixam ir à casa de banho!
A Cruz Vermelha determina que os presos devem ser bem tratados.
- Quer ir à casa de banho? - Claro que quero.
Levem-no imediatamente à casa de banho!
- Como se chama? - Diga o seu nome.
Eleuterio Fernández Huidobro.
Saia.
Ele disse para sair.
Diga o seu nome.
Mauricio Rosencof.
Saia.
Como se chama?
José Alberto Mujica.
Saia.
Atenção! Sentido!
Tire-lhe o capuz e saia.
Que merda é essa?
Fizeram-me vir de Montevideu por causa dessa merda, fala.
Estás a querer voltar às ações armadas?
Que estupidez é esta? Contactos com o exterior?
Para quê, e para quem?
Qual a origem e o destino disto tudo?
Ainda sei como fazer-te falar.
Estou a ser simpático, não me trates como um idiota.
Fizeste isto?
Dá-me o código.
A mensagem, puta que te pariu! Dá-me já a mensagem!
Não é uma mensagem, é um martingale.
É um cálculo de probabilidades para jogar na roleta.
Estás a lixar-me?
Posso?
A é a aposta inicial.
B é a possibilidade de perder.
E N é o número de tentativas entre a aposta máxima e a aposta mínima.
Vamos supor que a sua aposta máxima é de 1000
e a mínima é de 10. Deve jogar sempre
com duas fichas e no vermelho e no preto.
Dessa forma, a hipótese de ganhar é maior. É de 50,5%.
Então A é igual a sete, B é igual a cinco
e N é igual a 0,53.
Isso dá-lhe a hipótese de ganhar 20, 40
60, 80, 120, 360,
460...
Vocês nunca mudam.
Vocês pensam mesmo que vão ganhar a todo um sistema?
Foi uma pena não te ter matado quando tive a oportunidade de o fazer.
Nenhum de nós se esquecerá desse dia.
14 DE ABRIL DE 1972
- Olá, como estão? - Olá.
Adeus, querida.
Mãe, esqueci-me do estojo dos lápis.
Minha querida.
Não te preocupes, vais para dentro, eu vou a casa e trago-to.
Fica bem.
- Adeus. - Adeus.
Hoje, 14 de abril de 1972, deixamos para trás o dia mais sangrento do Uruguai,
no século XX.
Os Tupamaros empreenderam uma ação
contra supostos membros do Esquadrão da Morte.
Em poucas horas, mataram o subsecretário do Ministério do Interior,
Armando Acosta y Lara,
e o subcomissário Delega, o agente Leites,
o capitão da Armada...
É uma declaração de guerra.
... o subcomissário Reyes. Às dez da manhã...
- Desliga isso. - O quê?
Desliga o rádio.
Não se ouve nada.
Por isso mesmo.
Há algo de errado.
Avancem!
Atende.
Caíram, também.
Retirem-se.
Qual é o teu nome?
Como te chamas?
Luis Martirena.
Luis Martirena.
Então, estás vivo.
Às 14 horas, na Rua Amazonas...
O que fazemos?
... no bairro Malvin, há um tiroteio entre as autoridades
e membros do movimento de guerrilheiros Tupamaros.
Acabaram por morrer dois guerrilheiros. As autoridades continuam as buscas...
Ouviram isto?
Eles eram quatro.
Só há dois mortos.
... diferentes confrontos e a cidade de Montevideu...
Eles estão vivos. Chamem o Marcos e o Cabrera.
Temos de preparar uma operação de resgate.
Grita que somos dois.
Grito o caraças.
Só me tiram daqui morto.
O que se passa? Baixe a arma.
Somos dois!
Rendemo-nos!
Rendemo-nos!
O mundo está cheio de idealistas.
O inferno está cheio de boas intenções.
Este é o teu inferno.
Assumo a responsabilidade pelos meus erros e pelas consequências.
Não, tu não assumes a responsabilidade por nenhum deles.
Nós obrigamos-te a assumir a responsabilidade.
A tua derrota é que te obriga a assumi-la.
Fi-lo porque acreditava no que fazia.
Sou responsável e aceito o meu castigo.
Nem você, nem ninguém,
vai-me levar a dar-me por vencido.
Então, não estás derrotado?
Não importa os anos que passaram, o que importa são os anos que te restam.
E nunca vais sair daqui.
Até posso morrer aqui...
... mas quando tal acontecer...
Eu sei o peso do fardo que carrego.
Mas você,
sabe o peso do seu?
Eu pertencia a este mundo.
Agora, tudo é estranho para mim. O nascer do sol,
o som dos pássaros...
Você é estranho para mim.
- Olá filho, como estás? - Bem, mãe.
O avô mandou-te beijos.
Sempre a lembrar-me para te trazer coisas.
Ele diz: "Não te esqueças de levar doce de leite
e dois quilos de erva-mate."
Sei que vão tirar-te algumas coisas,
mas alguma coisa há de ficar.
- Está bem assim? - Mamã.
Tens de deixar de vir.
O quê?
Porquê?
É muito complicado para explicar, mãe.
Estão a perseguir-nos, é como um ataque,
com sons, ultrassons, não sei.
Sinto a orelha quente. Mãe, ouve-me.
Puseram uma voz ou uma antena dentro de mim.
Não consigo parar de pensar.
Quando paro de pensar, eles atacam-me para que volte a pensar.
Houve um tempo em que não entraram nos meus pensamentos...
Para.
O que importa é que tenho tudo sob controlo.
- Mas tens de deixar de vir, por um tempo. - Filho...
O que pensas que eles são?
- Freiras numa instituição de caridade? - Cala-te!
Cala-te!
Ouve-me!
É a mim que deves ouvir. Eu sou tua mãe.
Eles querem enlouquecer-te. Não o podes permitir.
Entendes?
Mamã.
Mamã, uma merda!
Ouve-me bem.
Ouve o que tenho de dizer. Tens de resistir.
Resistir,
de qualquer modo, não importa o que aconteça.
Resiste e não deixes que te matem.
Não sei como fazê-lo.
Sim, sabes.
Os únicos derrotados são os que desistem.
Tu vais sair disto e seguir em frente.
E ninguém...
Ninguém vai tirar o que tens dentro de ti.
Aquece a água, pelo menos.
Há cento e sessenta e oito anos,
pelas mãos do nosso líder,
do nosso magnífico comandante, único na nossa terra,
quando as pessoas se reuniam
para buscar a sua liberdade...
Quero a minha erva-mate e o meu penico!
Que tenho de cagar!
Quero a erva-mate e o meu penico!
Puta que os pariu!
Roubaram-me o meu penico!
Recordando o processo histórico...
Devolvam-me o penico!
E a erva-mate!
Vocês vão sentir o cheiro do que vai sair do meu rabo.
As vossas roupas de festa vão tresandar!
Quero o meu penico!
Tenho de cagar!
Sacana de merda!
Quero o meu penico!
Puta que os pariu!
Silêncio. Que raio...
Anda cá, Sapito!
Anda cá!
Anda cá Sapito!
Traz a baioneta, só tu e eu.
Anda, só tu e eu.
Como sabes que sou o Sapito?
Queres que conte como traíste a tua mulher com aquela puta?
O Sapito traiu a mulher! Ouviram?
O Sapito tem uma amante.
Cala-te, filho da puta!
Contaste-lhe como contraíste sífilis?
- Porque a comias... - Onde ouviste isso?
- O Sapito tem sífilis! - Cala-te, porra!
Que raio de merda queres?
O meu penico e a erva-mate
que a minha mãe me trouxe.
E tragam água quente para o mate.
Eu não gosto dele morno.
- Talvez tenha um periscópio. - De certeza que tem um periscópio.
Sabes o que é um periscópio?
O que estás a dizer, idiota?
Temos de vigiar aquele filho da puta.
Vamos ter de avisar os nossos superiores.
Então, diga-me.
Tem um aparelho, uma antena.
E quem a colocou?
Como posso saber, doutora?
Creio que foi o Exército,
a CIA, não sei. - O que lhe diz?
É uma voz aqui.
Insulta-me.
Quer controlar os meus pensamentos, obter informações.
Manda-me impulsos elétricos,
manda-me calor para esta orelha. Sinto aqui um fogo... que me queima.
Teve algum tipo de...
... episódio de ansiedade, angústia,
medo?
Passou por alguma situação de stress?
Dorme bem? Descansa?
Sim, ele descansa.
Alimenta-se bem? Come?
- Mais ou menos. - Come tudo o que lhe damos.
Soldado, tenho de trabalhar sossegada.
Por isso, traga-me água, por favor.
Vá buscar água.
Mujica, todos os sintomas que apresenta apontam para...
... uma psicose delirante.
No entanto, não sabemos se é crónica ou aguda.
Teremos de avaliar com mais tempo.
Mas é isso que o faz sentir-se...
... confuso e o faz perder a capacidade de raciocinar.
Parte do seu transtorno tem que ver com a incapacidade de descansar.
Neste momento, o que mais o pode ajudar é dormir durante a noite.
Tem de tomar uns comprimidos e dormir.
É isso que lhe vou receitar.
- Vai ajudá-lo. - Não preciso de dormir, doutora.
- Não precisa de dormir. Precisa de quê? - Parar de pensar.
O que pensa que o pode ajudar
a parar de pensar?
Usar as mãos,
para organizar a minha cabeça.
Escrever...
... ler...
Ler e escrever.
Vou fazer-lhe chegar algo para ler e papel
e lápis para escrever.
Há sete anos que não leio.
Tem de se agarrar ao que puder, neste momento, Mujica.
Tem de se agarrar ao que tiver à mão.
É crente? Acredita em Deus?
Que Deus faria isto?
O único que temos, infelizmente.
Diga-me, se o Deus em que acredita está em silêncio,
e a doutora diz que estou louco...
... ao que me agarro?
Sabe que é a primeira mulher que vejo, desde há muitos anos?
Há anos que não vejo as estrelas. Há anos que não vejo a luz.
E fala-me sobre a razão, que razão?
Ouça, vou contar-lhe uma história.
Quando eu tinha 15 anos, vi a minha mãe morrer com cancro.
E nesse momento, decidi que ia ser médica.
Estudei e licenciei-me.
Vi centenas, milhares de pacientes nestes 20 anos.
Mas um dia, levantei-me e não queria ir trabalhar.
Não podia sair de casa, sair da cama. Não queria falar com ninguém.
E pensei sem parar.
Como você.
Até que percebi...
... que fizesse o que fizesse,
a minha mãe...
... continuaria morta.
Então, levantei-me e fui trabalhar.
E aqui estou, a fazer o que posso,
a pedir-lhe que faça o que puder.
Que se agarre ao que puder.
Com licença.
Já está? Já posso levá-lo?
Sim.
Soldado.
Preciso que ele assine o diagnóstico.
Está bem.
Vou arranjar-lhe algo para ler e para escrever.
Aguente. Sobreviva.
Falta pouco.
Vamos, Mujica.
Sim, pelo meu país
Sim, pelo Uruguai
Sim, pelo progresso
E sim, pela paz
Sim ao futuro
Vamos votar
Sim, pela grandeza
Sim, pelo Uruguai
Estão encerradas as urnas,
com 20 por cento dos votos contados.
Os resultados são os seguintes:
trinta e nove por cento para o "não" e 61 por cento para o "sim".
Em Maldonado...
Nós somos "sim" ou "não"?
Não sei.
Toma, seu merdas!
É uma desgraça, é uma derrota vergonhosa.
- O que vai acontecer? - Sei lá.
Contra todas as previsões, com 80 por cento dos votos contados,
confirma-se a surpreendente derrota do "sim"
O povo uruguaio disse um categórico "não"
ao projeto constitucional proposto pelo governo,
que deverá agora encaminhar-se para um período de negociação
para uma possível abertura democrática.
Olá escuridão
Olá escuridão
Minha velha amiga
Olá escuridão
Minha velha amiga
Vim conversar contigo outra vez
Porque uma visão que rasteja lentamente Deixou as suas sementes enquanto eu dormia
E a visão que foi plantada
No meu cérebro
Ainda permanece
Dentro do som do silêncio
E à luz despida eu vi
Dez mil pessoas, talvez mais
Pessoas a conversar sem falar
Pessoas a ouvir sem escutar
Pessoas a escrever canções
Que as vozes nunca partilham
E ninguém se atreveu
A perturbar o som
Do silêncio
Tolos, disse eu, vocês não sabem
O silêncio cresce como um cancro
Ouçam as minhas palavras Que talvez eu possa ensinar-vos
Tomem os meus braços Que talvez eu possa alcançá-los...
Mas as minhas palavras, Como silenciosas gotas de chuva, caíram
E ecoaram E ecoaram
Nos poços do silêncio
Doutor, quero um relatório detalhado
sobre o estado do tipo que recebemos.
Fora. Saiam todos!
Rosencof.
Outra vez por aqui?
Sargento.
E a sua namorada?
- Parabéns. - Obrigado.
Mas ela critica-me.
Diz-me: "Quando namorávamos escrevias-me,
mas agora não."
Diga-me o que mais posso fazer por si.
E as pessoas curvaram-se e rezaram
Ao deus de néon que criaram
E o sinal piscou o seu aviso
Nas palavras que estava a formar
E o sinal disse: As palavras dos profetas
São escritas nas paredes do metro
E nas entradas dos prédios
E sussurrou
No som do silêncio
Pepe.
Ruso.
Estamos sós.
Estamos sós.
Vês alguma coisa?
Estamos a ir para sul.
O que vês?
E sussurrou nos sons do silêncio
E sussurrou
Nos sons do silêncio
E sussurrou...
Nos sons do silêncio
É o Ñato!
Vamos, Ñato!
Vamos, Ñato!
Vamos, Ñato!
- Quem está aqui, Tato? - Para quê, Ñato?
Está aqui o Berreta?
Sim. Está no quarto andar.
E o Arriosa?
Não, Ñato. O Arriosa não está.
E o Sanzo? O Sanzo está aqui?
Não, Ñato. O Sanzo também se foi abaixo. Não soubemos de mais nada.
E o Varela?
Não sei, desapareceu. Um dia, levaram-no. Não faço ideia.
E o Medina? O Medina está aqui?
E o Lucho?
O Lucho está aqui?
Mujica, arranje-se.
Assine aqui.
Admita que recebeu um tratamento correto.
Isto não acaba aqui. Não tenhas ilusões.
Quando saíres, vamos encontrar-te e ninguém te vai salvar.
Ouviste-me? Lá fora não há responsabilidades políticas.
Desejo-te o melhor.
Ñato!
Estamos a sair.
Anda, Ñato, vamos sair!
O que estás a fazer? Porque continuas a lavar?
Para os próximos.
No teu lugar, despachava-me.
NÃO VOS ESQUECEMOS
- Aqui vamos! - Sim!
VIVAM OS QUE LUTAM!
Pai!
Família de Jorge Benitez!
- Avô! - Pai!
NÃO VOS ESQUECEMOS
Família de Carlos González!
Família de Roberto Hipólito!
Família de Washington González!
Família de Marcelo Jiménez!
- É o papá? - Não sei, temos de ver.
Papá!
Graciela!
Graciela!
Ñato!
José Mujica Cordano.
Família de José Mujica Cordano!
Após 12 anos de detenção em isolamento, com o regresso da democracia,
os prisioneiros foram libertados.
O povo unido jamais será vencido!
Eleuterio Fernández Huidobro foi senador e Ministro da Defesa.
Morreu no dia 5 de agosto de 2016.
Mauricio Rosencof vive em Montevideu. É romancista, poeta e dramaturgo.
Foi Diretor Cultural do município de Montevideu.
José Mujica foi deputado e senador.
Em 2010, aos 75 anos, foi eleito Presidente do Uruguai.
Legendas: Geny Pereira
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