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Original subtitles

O que um verdadeiro dramaturgo tem a fazer � dizer ao p�blico:

"Isto � o que voc� pensa

que est� vendo na vida todos os dias",

e depois virar e dizer: "Isto � o que realmente �".

Imagine se soub�ssemos a verdade.

� um pensamento muito bonito.

Isso seria �timo.

E �s vezes, na vida, um dramaturgo pode fazer isso.

O dramaturgo Arthur Miller recebeu v�rios pr�mios,

o que denota distin��o, criatividade e aclama��o.

Muita publicidade em torno de Arthur Miller.

Um gigante do teatro americano...

Arthur Miller.

Meu pai havia se tornado um �cone nacional do teatro

d�cadas antes de eu nascer.

Ele viveu tantas eras,

foram quase que vidas diferentes.

Sr. Miller?

Por que recusou o convite do presidente Johnson?

-Em que estar� trabalhando? -Escrever� para...

Pode dizer algo para...

E a Marilyn?

MARILYN E MILLER SE CASAM

� membro do Partido Comunista ou voc� j� chegou a ser?

ARTHUR MILLER CULPADO ENCARA PRIS�O E MULTA

Logo no in�cio, reconheci que sua figura p�blica

era bem diferente do homem que eu conhecia.

E senti que eu era a �nica cineasta

que ele deixaria se aproximar

para realmente ver como ele era.

Ent�o, comecei a fazer entrevistas com ele,

os irm�os dele, amigos...

a pegar filmes caseiros

e a reunir filmes e fotos antigas

durante um per�odo de cerca de 20 anos.

E essas cenas ficaram guardadas por um bom tempo,

at� que eu decidi que n�o devia mais confin�-las.

ESCRITOR

J� decidiu o que vestir?

� mais ou menos decidido por mim.

� o que usei a semana toda.

ESPOSA DE ARTHUR, MINHA M�E

Eu levantei, me sentei

e estou sem f�lego.

Pronto, pai.

Todos esses �ngulos me deixam louco.

Pai, voc� acha que h� alguma semelhan�a

entre construir m�veis e escrever pe�as?

Do meu ponto de vista,

h� for�as querendo se expandir e for�as querendo se contrair.

E se voc� tem um senso de forma,

pode fazer com que o proj�til no palco...

mova-se...

como algo...

vivo.

E mova as pessoas junto.

Se s� ficar l�...

im�vel,

significa que algumas das for�as dele

n�o foram captadas...

ou voc� n�o as evocou.

ORIGENS

Seu pai gostava de comer tanto quanto voc�?

Alguns restaurantes...

Eles o amavam, ent�o, nunca o deixavam pagar.

Em um restaurante, na �poca...

h� 25 anos...

Eu me sentei, almocei,

um gar�om se aproximou de mim...

inclinou-se sobre a mesa e disse:

"Seu pai se vestia melhor".

Meu pai chegou a Nova York sozinho,

vindo da Pol�nia antes de fazer sete anos.

Veio para c� sozinho...

com uma etiqueta nele...

IRM�O MAIS VELHO DE ARTHUR

e a fam�lia dele estava aqui.

Mas eu nunca entendi por qu�, como eles puderam fazer isso.

Devem ter pensado que havia algo errado com ele.

Ele dizia que sempre dormia com idiotas.

Isso...

E eu tenho a sensa��o de que ele devia estar em algum tipo...

-De institui��o? -de institui��o.

Acha que pensavam que ele tinha alguma coisa.

Sim.

Eu n�o consigo imagin�-los deixando-o aqui...

de outra forma.

-Voc� quer dizer na Pol�nia? -Sim. Acho que est� certo.

Ele chegou a Nova York.

Os pais estavam ocupados demais para busc�-lo em Castle Garden

e mandaram o irm�o, Abe, que faria dez anos,

para encontr�-lo, pass�-lo pela Imigra��o

e lev�-lo para a Rua Stanton, a um pr�dio

onde, em dois quartos, os oito moravam e trabalhavam,

costurando as capas de bot�es grandes e longas

que eram a moda na �poca.

Eles o mandaram para a escola por uns seis meses...

imaginando que era o suficiente.

Ele nunca aprendeu a soletrar ou a calcular.

Ent�o ele voltou direto para a oficina.

Aos 12 anos, ele pr�prio empregava dois outros garotos

para costurar mangas em casacos ao lado dele

em alguma oficina no por�o.

Ele pegou a estrada quando tinha 16 anos, eu acho.

-Sim. -Vendendo.

-Sim. -Em atacado.

Ele acabou sustentando toda a fam�lia

porque abriu um neg�cio em 1921 ou algo assim.

A Miltex Coat Company,

que virou uma das maiores fabricantes do pa�s.

Ele morava em Manhattan,

na Rua 110, de frente para o parque.

Era um lindo apartamento no sexto andar.

N�s t�nhamos um carro com motorista.

Era uma fam�lia abastada.

Eram os anos 1920,

e lembro que meus pais iam a shows todo fim de semana.

E aos domingos de manh�,

ela tocava a partitura dos musicais

e n�s brig�vamos para ver quem cantaria com ela.

-Ou quem n�o cantaria? -Isso mesmo.

Geralmente, ele n�o cantava.

Vou me sentar E escrever uma carta para mim

E fazer de conta Que voc� a mandou

-Ficou bom. -Ficou muito bom.

Pai, o que isso te lembra?

Isso me lembra de embrulhar um bolo para minha m�e.

S� que n�o t�nhamos freezer,

nem bolo.

Ela lia um romance numa tarde.

Era a leitora mais r�pida que eu j� conheci.

N�o s� isso, mas ela se lembrava dele pelo resto da vida.

Ela era uma mulher muito complicada.

Muito complexa.

Ela tinha a energia de um d�namo.

Ela sabia cantar, tocar piano...

Ela era bem extravagante.

Ela dan�ava na mesa no Ano-Novo.

Ela sabia desenhar.

Era uma �tima jogadora de bridge.

Ela era engra�ada.

Muito reclamona.

Ela era arrogante com muitas coisas.

Mas voc�s eram kosher?

Sim, at� ela come�ar a fazer bacon.

Ela adorava bacon.

Eu acho que ela tentava dominar e dividir as crian�as.

Eu sempre me considerei a favorita.

Quem era o favorito da sua m�e?

Acho que era eu.

Se eu n�o quisesse ir para a escola,

eu come�ava a mancar.

Minha m�e imediatamente percebia e dizia:

"Voc� n�o vai pra escola hoje. Est� mancando".

E n�s �amos para algum lugar comer ostras.

Mas sua m�e... Voc� disse que ela via agouro nas coisas.

Ela via sinais.

Ela via...

coisas misteriosas de vez em quando.

Ela pressentia coisas das pessoas.

Uma vez ela se sentou na cama no meio da noite

e, de repente, disse: "Minha m�e morreu".

E, de fato, naquele momento a m�e havia morrido.

Foi assustador.

Como voc� acha que isso passou para voc�?

Eu pensava que em uma pe�a...

n�o importava o di�logo, mas o que havia entre as falas,

que o mundo essencialmente n�o � o que chamamos de real.

E as artes tentam se aproximar...

desse mundo.

E tudo vem da minha m�e.

Sempre vem de algum lugar.

Ela era assim.

Ela idolatrava...

artistas, pianistas...

escritores.

Meu pai n�o entendia nada disso.

Foi um casamento arranjado.

Uma mulher com a capacidade dela

casar-se com um homem que n�o sabia ler nem escrever...

Acho que a Gussie o ensinou a ler...

e a assinar o nome.

Ela sabia que estava sendo desperdi�ada, eu acho.

Mas ela o respeitava muito

o que bastou por um tempo,

at� ele despencar economicamente.

Foi quando ela ficou com raiva.

As multid�es enormes que se aglomeram

diante da bolsa de valores se devem � maior queda

na hist�ria da Bolsa de Nova York.

Primeiro, o motorista foi dispensado

e a casa de veraneio foi descartada.

As �ltimas joias dela foram penhoradas ou vendidas.

Ent�o, houve outra queda, a mudan�a para o Brooklyn.

N�o afetou s� meu pai,

mas os pais de todos os meninos que eu conhecia,

com quem eu brincava...

Os pais de todos eles foram pegos de surpresa.

Para toda a fam�lia, tudo mudou.

Foi sofrido.

Eu n�o podia deixar de ver a raiva da minha m�e

com o decl�nio desse poder.

Certo desprezo desdenhoso por ele

transparecia na voz dela.

Voc� viu seu pai mudar quando ele perdeu o dinheiro?

Eu sentia uma pena terr�vel por ele.

Muito da autoridade dele vinha do fato

de ele ser um comerciante bem-sucedido,

de sempre saber o que estava fazendo.

E de repente...

nada.

Ele n�o sabia onde estava.

Claro que n�o foi culpa dele.

Foi a grande crise de 1929, 1930 e 1931.

Com isso, acho que eu...

entendi...

que n�s est�vamos profundamente imersos

na vida pol�tica e econ�mica do pa�s e do mundo,

e como essas for�as refletem no quarto...

e na estrutura entre pai e filho

ou entre pai e filha.

Em "A Morte de um Caixeiro-Viajante",

o que me interessava era...

o que o mundo e a vida...

tinham deixado para ele,

o que fizeram com ele.

Um homem que n�o pode ganhar a vida perde a dignidade.

Perde a for�a masculina.

Ent�o eu tentava compensar isso

dizendo a ele que estava tudo bem,

ou ent�o teria de virar as costas a ele e ir embora.

TODOS ERAM MEUS FILHOS

Tudo isso ajuda a criar jogadas integradas.

� mortal.

Voc� come�a a olhar...

� uma personalidade...

Mas que parte est� sendo desempenhada

por for�as impessoais?

Terminei o ensino m�dio,

mas eu tinha um hist�rico escolar t�o ruim

que n�o consegui entrar em uma universidade decente.

Ent�o, fui trabalhar em tempo integral.

Voc� n�o era gar�om em Catskills?

Tenho certeza que sim.

Eu era o pior gar�om.

Era o hotel mais elegante de Catskills.

E o benef�cio era ganhar a comida que havia apodrecido.

Ent�o, roub�vamos comida no caminho da cozinha

para a sala de jantar.

Algu�m pedia duas costeletas de cordeiro,

e �amos at� a cozinha e ped�amos tr�s.

Mand�vamos ver.

Finalmente, consegui um �timo emprego

em um dep�sito de pe�as automotivas.

Eu levava uma hora e meia no metr� todas as manh�s,

ent�o, comecei a ler o que cham�vamos de "livros grossos".

Eu me lembro de ler Dostoi�vski

e ficar olhando para o espa�o por semanas,

pensando que uma pessoa tinha escrito aquilo.

Eu economizei US$500 e, depois de muito implorar,

a Universidade de Michigan

decidiu me matricular por seis meses.

UNIVERSIDADE DE MICHIGAN

Voc� foi para a faculdade, mas o Kermit n�o.

Ele era o filho mais velho,

e, em uma fam�lia judia, ou em outras fam�lias,

� ele quem tem a responsabilidade.

Ningu�m presta muita aten��o no filho mais novo.

Ele segue o fluxo.

O Kermit tinha essa responsabilidade

e ele a levou muito a s�rio.

Ent�o...

com o passar do tempo,

ele ficou com o peso da responsabilidade

pelos neg�cios da fam�lia.

Eu escapei, gra�as a Deus.

UNIVERSIDADE DE MICHIGAN

Eu queria o Pr�mio Hopwood,

que, na Universidade de Michigan,

era o equivalente estudantil do Nobel.

"TIMEBENDS": UMA AUTOBIOGRAFIA

Mas eu tinha dois empregos, muitas atividades escolares,

lavava lou�a tr�s vezes ao dia

e alimentava tr�s andares de ratos

num laborat�rio de gen�tica na periferia da cidade,

ent�o, eu ca�a na cama exausto, toda noite.

Decidi ficar em Ann Arbor em vez de ir para casa

nas f�rias de primavera

e usar a semana para escrever minha pe�a.

Por que tinha de ser uma pe�a,

em vez de uma hist�ria ou um romance, eu nunca soube.

Mas era como a diferen�a para um artista

entre uma escultura e um desenho.

Parecia mais tang�vel.

Que o teatro tenha uma miss�o maior,

como teve por 2 mil ou 3 mil anos

um impacto civilizador sobre o homem

e que ainda permanece como eu disse...

a tribuna...

onde um cidad�o como eu

pode se dirigir com clareza, simplicidade,

at� n�o ter f�lego, por assim dizer,

a seus concidad�os.

Trabalhando dia e noite com algumas horas de sono exausto

divididas pela semana,

terminei a pe�a em cinco dias.

Era sobre um conflito industrial

e um pai e seus dois filhos,

a obra dram�tica mais autobiogr�fica que eu escrevi.

A verdade � que eu nunca discuti com meu pai.

Isso era parte do problema:

nunca cheg�vamos a um conflito frut�fero.

Precisei da minha obra para fazer isso.

Desde o in�cio, a ideia de escrever uma pe�a

era uma esp�cie de licen�a para dizer o indiz�vel.

PR�MIO EM DRAMA

Eu ganhei o Hopwood,

US$250 por uma semana de trabalho.

Eu ainda pensava como um trabalhador.

Tinha levado dois anos para economizar os US$500

para ir � Michigan.

MILLER VENCE SEGUNDO HOPWOOD

Desde o in�cio, escrever representava liberdade,

um abrir de asas.

Eu nunca tinha vivenciado tal alegria.

Era como se eu tivesse levitado e deixado o mundo abaixo.

Quando ele voltou da faculdade, estava mudado?

Ele estava come�ando a ser ele mesmo.

Estava come�ando a ser Arthur Miller

e n�o apenas um dos Miller.

Ap�s o ataque n�o provocado de ontem

dos japoneses no Hava�, os EUA entram em guerra.

JAP�O BOMBARDEIA HAVA�

As for�as mecanizadas de Adolf Hitler se dirigem a Paris

enquanto a resist�ncia francesa desmorona.

Ele entrou para o ex�rcito e disse: "Mate-me".

O que aconteceu com voc� na guerra?

Eu fui convocado,

ent�o viram meu joelho quebrado e disseram:

"N�o queremos voc�. V� fazer cirurgia".

E eu disse: "Por que voc�s n�o operam?"

E disseram: "N�o fazemos essa opera��o".

E eu: "Por qu�?" "� perigoso demais."

Na �poca, eu estava trabalhando como escritor,

escrevendo roteiros para o r�dio.

E eu era casado.

ARTHUR MILLER E MARY SLATTERY

Como era a Mary?

Era uma mulher cat�lica criada no Centro Oeste

que se rebelou contra tudo isso.

Eram todos republicanos, ela era democrata.

Era uma rebelde. Ela n�o gostava de ir � igreja.

Parou assim que p�de. Eles eram todos devotos.

Ela se mudou para Nova York com um judeu.

Sair de Michigan ou Nova York era um sonho que se realizava.

Ela era liter�ria.

Ela lia tudo.

Ela trabalhou em editoras.

E eles iam muito ao teatro.

Iam ao teatro o tempo todo.

Voc� tinha a sensa��o de que o papai tinha o ponto fraco

de ser adorado?

NASCIDO EM 1947

Sim, tinha.

E a mam�e n�o era algu�m que fazia isso gratuitamente.

Ela n�o demonstrava muito afeto.

E podemos ver nas cartas para Mary

que ele era bem submisso a ela.

Ele queria a aprova��o dela, queria agrad�-la.

QUERIDA, EU NUNCA PERCEBI O QUANTO PRECISO DE VOC�.

�S VEZES SOFRO COM SAUDADE DE VOC�

E JURO V�RIAS VEZES QUE NUNCA MAIS A FAREI INFELIZ.

COM AMOR, ART.

Eu conhecia voc�, � claro, e conheci a Mary em Ann Arbor.

Voc� e a Mary eram um casal...

incomum.

Isso � parte do que atra�a a n�s dois.

�ramos um mist�rio um para o outro.

Ela queria um judeu intelectual, artista.

E eu queria...

a Am�rica.

Nos teatros esta semana "O Homem de Sorte",

a estreia na Broadway de Arthur Miller.

A pergunta por tr�s da pe�a � quanto de nossas vidas

n�s fazemos e quanto � feito pelas circunst�ncias.

Era sobre um jovem que estava

em uma cidade pequena do Centro Oeste.

Ele n�o consegue fazer nada de errado

e gradualmente come�a a temer

que o destino esteja preparando

uma nuvem de tempestade, que vai atingi-lo.

E ele fica paranoico.

Acho que eu presumi que n�o seria atacado,

destru�do...

ou comido vivo.

"O HOMEM DE SORTE" CARECE DE TOQUE FINAL

OU DE SORTE PARA SER UMA BOA PE�A.

A ESTREIA NA BROADWAY DO JOVEM DRAMATURGO � UM FRACASSO.

Essa foi minha primeira apresenta��o ao show business.

Ap�s o fracasso de "O Homem de Sorte",

decidi que n�o escreveria outra pe�a.

Eu n�o queria ter 30 anos e fingir ser dramaturgo.

Havia tantas outras coisas que eu poderia fazer.

Era ela quem pagava o aluguel quando "O Homem de Sorte"

fechou ap�s seis apresenta��es e o papai foi escrever "Foco",

porque pensou: "N�o sou dramaturgo.

Tenho de pagar o aluguel de outra forma".

Ela convenceu a editora onde trabalhava a publicar,

depois de ele tentar vender em outros lugares.

Ent�o, eu decidi que escreveria uma pe�a mais uma vez.

Dessa vez, eu levei mais de dois anos para escrever.

Voc� sabe que tipo de papel ela teve

no desenvolvimento da escrita dele?

Sim, ela teve um grande papel.

Acho que ela lia as coisas dele.

Ele mostrava tudo a ela, e ela era durona.

Sei que ela falava o que pensava...

que era sincera.

E acho que provavelmente o ajudou.

TODOS ERAM MEUS FILHOS

� uma pe�a que estreou logo ap�s a guerra

e n�o havia nada mais culturalmente significativo

que uma grande pe�a.

Foi logo depois da guerra.

Um boom estava surgindo.

E l� estava eu, escrevendo sobre...

esse grande esfor�o de guerra que t�nhamos acabado de fazer,

em que todos celebravam tudo.

E o que a pe�a fazia era dizer: "Escutem."

Houve muita desonestidade nessa guerra.

Muita gente ego�sta que n�o dava a m�nima

se ganhar�amos ou perder�amos.

� tudo que sua mente pode ver, o neg�cio?

O que �? O mundo? O neg�cio?

Voc� n�o tem um pa�s?

N�o mora no mundo?

A m�e da Mary, sem saber,

inspirou "Todos Eram Meus Filhos"

quando fofocou sobre uma jovem em algum lugar no centro de Ohio

que tinha entregado o pai para o FBI,

por fabricar pe�as defeituosas de aeronaves durante a guerra.

PE�AS DEFEITUOSAS PARA AVI�ES

Ent�o voc� sabia que eles cairiam!

-Eles me disseram isso. -Achava que cairiam.

-Eu estava com medo, talvez. -Voc� estava com medo, talvez...

Esse tipo de quintal americano

n�o era normalmente associado, pelo menos em 1947,

a homic�dio e suic�dio.

Era sobre um filho que descobre...

uma falha no pai,

e acaba julgando aquele homem,

o que � muito duro.

Sei que n�o � pior do que a maioria dos homens,

mas pensei que fosse melhor.

Nunca vi o senhor como homem.

Eu via o senhor como meu pai.

Vi um homem alto e digno em p� na multid�o do sagu�o,

com os olhos vermelhos de tanto chorar.

Ao companheiro que perguntara o que ele achava da pe�a,

ele murmurou atrav�s de l�bios finos, quase m�veis:

"Eu gostei".

Assim que vislumbrei que outros poderiam ficar tocados

com o que eu escrevia,

surgiu em mim a no��o de que algum tipo de dever p�blico

estava surgindo dentro de mim.

Seu maior trabalho n�o � complicar as coisas simples,

mas tornar as coisas complicadas compreens�veis.

Ou seja, eu sou o cara que anda por a� e diz:

"O que realmente est� acontecendo aqui?"

MELHOR PE�A DO ANO

"Todos Eram Meus Filhos" j� havia mostrado seu impacto,

mas o diretor Elia Kazan

continuava ensaiando todos os dias,

dirigindo-o a cl�max cada vez mais intensos,

trabalhando como uma m�sica

que tinha de ser sustentada aqui e silenciada ali.

�ramos muito pr�ximos. Ele era um diretor maravilhoso.

Acho que ele foi o melhor diretor realista que j� tivemos.

Ele adorava o Kazan.

O Kazan era um pouco mais velho, ent�o, acho que ele o admirava.

Eles eram como irm�os.

E eu acho...

que meu pai nunca mais teve um amigo assim...

desse jeito.

T�nhamos a mesma atitude em rela��o ao teatro,

que era um meio de expressar uma vis�o de mundo

de um tipo ou de outro.

UM BONDE CHAMADO DESEJO

Com "Um Bonde Chamado Desejo",

Tennessee Williams imprimira uma licen�a para falar a plena voz,

e isso ajudou a me fortalecer

enquanto me voltava para Willy Loman.

Quando voc� come�a uma pe�a, come�a com um personagem?

Acha?

Uma pessoa, um ser humano...

� com isso que come�o? O qu�?

N�o � uma hist�ria nem um tema, mas uma s� pessoa.

� uma mistura.

� uma combina��o.

Geralmente � um personagem,

porque n�o consigo pensar muito em termos abstratos.

Eu gosto de levar as pessoas ao palco.

A MORTE DE UM CAIXEIRO-VIAJANTE

Em quem Willy era baseado? Willy Loman?

Ele originalmente era baseado...

em um tio meu.

Ele era um vendedor completamente louco.

E ele nos arrebatava com essas situa��es imagin�rias.

Ele se sentava na garagem...

e pendurada, bem acima da cabe�a dele, havia uma p�.

Eu disse...

"Posso pegar a p� por uma hora ou duas?"

Ele respondeu: "Eu n�o tenho p�".

E eu n�o me atrevia a dizer: "H� uma acima da sua cabe�a".

Mas era mais que isso.

Ele tinha um aspecto tr�gico, para mim.

Sob todos os exageros dele,

havia esfor�o para fazer algo maravilhoso.

Algo extraordin�rio,

como se houvesse um artista l� dentro.

Na realidade, tudo que eu tinha eram as duas primeiras falas.

-Willy? -"Willy?"

Est� tudo bem. Eu voltei.

"Est� tudo bem. Eu voltei."

Al�m disso, eu n�o me atrevia, n�o me arriscava,

at� que pudesse me sentar em um est�dio completo,

com quatro paredes, duas janelas, um piso,

um telhado e uma porta.

E h� lendas sobre a cabana que ele construiu para escrever.

Fale sobre isso. Ele construiu uma casa especial.

Sim, ele tinha tudo na cabe�a dele,

e j� escrevia o primeiro ato enquanto constru�a a casa.

Quando fechei o telhado, foi um milagre.

Era como se eu tivesse dominado a chuva e esfriado o sol.

E o tempo todo eu temia que nunca conseguisse

passar al�m das duas primeiras falas.

Depois que a construiu, ele se sentou e escreveu.

-O primeiro ato em uma noite. -Sim.

Eu comecei a escrever numa manh�.

Algum dia, terei meu pr�prio neg�cio

e nunca mais terei de sair de casa.

E escrevi at� uma dada hora na escurid�o

entre meia-noite e quatro.

No mundo dos neg�cios,

o homem que cria um interesse pessoal

� o homem que progride.

Quando me deitei para dormir, percebi que estava chorando.

Meus olhos ainda ardiam e minha garganta do�a

por falar tudo,

gritar e rir.

Na manh� seguinte, fiz a primeira metade.

Levaria mais seis semanas para concluir o segundo ato.

FIM

A MORTE DE UM CAIXEIRO-VIAJANTE CERTAS CONVERSAS PRIVADAS

Eu n�o me afastei do telefone por dois dias

depois de enviar o roteiro para Elia Kazan.

No final do segundo dia de sil�ncio,

eu teria aceitado a liga��o dele para me dizer

que eram restos impenetr�veis, imposs�veis de encenar.

E seu tom, quando ele finalmente ligou,

era assustadoramente sombrio.

"Eu li sua pe�a".

Ele parecia perdido, sem saber como me dar as m�s not�cias.

"Meu Deus, � t�o triste!

� uma �tima pe�a, Arty.

Eu quero faz�-la no outono ou inverno".

N�o digo que ele seja um grande homem.

Willy Loman nunca ganhou muito dinheiro.

O nome dele nunca apareceu no jornal.

Ele n�o tem o melhor car�ter deste mundo.

Mas � um ser humano

e uma coisa terr�vel est� acontecendo com ele.

Ent�o, temos de dar aten��o.

N�o podemos deixar que ele seja enterrado

feito um cachorro velho.

Aten��o!

Aten��o � o que uma pessoa dessas merece no final!

Vi "A Morte de um Caixeiro-Viajante"

porque a m�e da minha namorada nos dava ingressos de teatro.

N�o fomos ao banheiro, n�o fizemos nada...

ficamos sentados atordoados,

porque parecia...

que era outro mundo.

N�o era como ir ver uma pe�a, era outra coisa.

A TRAG�DIA DE UM HOMEM COMUM

Acima de qualquer outra coisa,

o Willy sacrificou a vida

para dar um futuro ao filho,

que se torna, como a m�e diz, um vagabundo, um perdido...

um largado.

No caso do Willy, ele sabe, em algum n�vel,

que a infidelidade e as mentiras destru�ram

a f� de Biff em Willy

e � revelado um mundo que � como um jogo...

podre e fraudulento.

Mas � uma pe�a muito expressionista,

o que as pessoas esquecem,

porque a veem como uma pe�a realista.

E n�o �.

� exatamente o oposto.

Eu sabia o tempo todo que essa pe�a

n�o poderia ser englobada pelo realismo convencional

e por uma raz�o integral.

Em Willy, o passado estava t�o vivo

quanto o que acontecia no momento.

�s vezes, o invadia

at� que dominava totalmente a mente dele.

Voc� se lembra do t�tulo original da pe�a?

O t�tulo original era "O Interior da Cabe�a Dele".

Algo acontece na cabe�a do Willy...

um desvio na mem�ria,

uma mem�ria danificada,

porque ele n�o sabe onde est� em dado momento.

O que � ilus�o se torna real

e o que � real se torna ilus�o.

Eu tenho esses pensamentos.

Pensamentos t�o estranhos.

Willy, querido, fale com eles novamente.

Parte da estrutura, em que Kazan

ajudou o Arthur a mergulhar fundo,

era a descri��o do cen�rio como uma estrutura de filme,

em que as coisas sangram de uma coisa para outra,

elas se dissolvem.

Mas essa esp�cie de estrutura

de mem�ria danificada e sonhadora da pe�a

luta com as habilidades narrativas

e as habilidades estruturais dram�ticas

do maior dramaturgo realista narrativo

desde Henrik Ibsen.

Eu pensei que podia fazer duas coisas ao mesmo tempo.

O que isso significa?

-Uma realidade psicol�gica... -E?

E uma realidade social ao mesmo tempo.

E um esquema tr�gico.

A porta da sua vida est� bem aberta.

Pai!

Eu sou s� mais um, como voc�!

Eu n�o sou s� mais um!

Sou Willy Loman e voc� � Biff Loman!

Eu ganho um d�lar por hora.

Eu encarava a trag�dia, e acho que ainda encaro,

como um movimento para frente por parte de um personagem.

Ele est� em busca...

de um valor...

com o qual est� comprometido.

-Sim. -A ponto de custar-lhe a vida.

Voc� disse que achava a trag�dia mais otimista do que a com�dia.

Significa um confronto final com a realidade,

quando � realmente bem-feita.

E isso significa que...

o indiv�duo e o p�blico...

compreendem melhor o que realmente acontece...

em sua sociedade, em dado momento.

E isso deve...

fortalec�-los...

para confrontar suas vidas.

PLATEIA FASCINADA COM PE�A DE 1949

N�o houve aplausos na �ltima cortina

da primeira apresenta��o.

Coisas estranhas come�aram a acontecer na plateia.

Com a cortina fechada,

alguns se levantaram, vestiram o casaco

e voltaram a se sentar.

Alguns, sobretudo os homens,

inclinavam-se para frente, cobrindo os rostos,

e outros choravam abertamente.

As pessoas cruzavam o teatro para conversar baixinho

umas com as outras.

Pareceu levar uma eternidade at� algu�m se lembrar de aplaudir.

E depois n�o paravam mais.

"A MORTE DE UM CAIXEIRO-VIAJANTE"

UMA TRAG�DIA PODEROSA

Havia hist�rias de pais

que tiveram de ser atendidos por m�dicos

na noite em que viram a pe�a porque choraram a noite toda.

Eu ouvi isso v�rias vezes.

Por que, voc� acha?

Acho que eles se sentiram flagrados.

Acho que pensaram:

"Meu Deus... sou eu".

N�o tenho certeza se entendi tudo,

porque o efeito dessa pe�a

�s vezes est� al�m da minha compreens�o,

francamente.

Tudo que posso fazer � expressar uma vis�o

de como...

tocar as pessoas, como comov�-las, alcan��-las.

Ele sentiu que havia esgotado essa quest�o

quando escreveu isso?

Quem escreveu essa pe�a

deve ter esgotado o tema, porque acertou t�o em cheio.

� t�o...

vivo.

Com um sucesso como esse, voc� se sente...

onipotente.

Um pouquinho, sabe? Acha que pode fazer qualquer coisa.

Voc� inevitavelmente come�a a sentir

uma esp�cie de...

impacto do poder,

que � sexual, � financeiro,

� tudo.

E voc� come�a a mudar se n�o for cuidadoso,

e eu n�o era.

As pessoas me falavam de modo diferente.

Mulheres, homens.

Olhavam para mim como a um �cone de algum tipo.

E eu senti que, com minha esposa,

que aquilo...

n�o era o suficiente para mim, de repente.

Eu achava que tinha a sensa��o de que n�o �ramos pr�ximos,

de que n�o �ramos um.

EM TODO SENTIMENTO POR MARY,

RARAMENTE VEJO O ROSTO DELA,

RARAMENTE A SINTO.

AGORA, TEMO IR PARA CASA.

ANOTA��O NO DI�RIO JANEIRO DE 1951

Ele veio ao set do filme "Sempre Jovem".

Como ele descreve...

eu estava chorando quando ele me conheceu.

Ele disse que achou que eu deveria atuar no palco

e as pessoas que estavam pr�ximas e o ouviram dizer isso

riram.

Ela era espirituosa.

Ela zombava da situa��o enquanto a vivia.

Essa era a diferen�a.

As pessoas pensavam que podiam imit�-la,

fazendo gra�a.

Mas ela fazia gra�a e zombava disso

ao mesmo tempo.

Ent�o, elas estavam...

Acham...

fora de sua dimens�o, o que � muito dif�cil de fazer.

Imagino que tenha resistido a se envolver com a Marilyn.

Por uns quatro ou cinco anos, com certeza.

Por qu�?

Eu era casado e n�o queria romper meu casamento.

Certamente n�o.

Como eu era casado

e a Marilyn mal podia olhar pela porta do quarto de hotel

sem ser fotografada,

pass�vamos muito tempo a s�s.

Um v�nculo de sil�ncios compartilhados

t�o misteriosos quanto a sexualidade,

dif�cil de romper tamb�m come�ou a se formar.

Depois de um desses sil�ncios, eu disse:

"Voc� � a garota mais triste que eu j� conheci".

Um sorriso tocou seus l�bios

quando ela descobriu o elogio que eu pretendia.

"Voc� � o �nico que j� me disse isso".

TOCANDO A CHAMA

Eu acredito que o Partido Comunista

deveria ser proibido. Se fosse por mim,

todos seriam mandados de volta para a R�ssia.

Papai foi radicalizado pelo marxismo na adolesc�ncia.

Mas logo sentiu que n�o havia espa�o

para o indiv�duo no marxismo

e se tornou...

um liberal

e dedicou grande parte de sua vida a causas liberais.

Mas, nos anos 1950,

era perigoso ser liberal e artista.

Um tipo de fascismo popular se desenvolvia nos EUA,

com seriedade.

Como sabemos agora,

a situa��o com o FBI era bem pior

do que imagin�vamos na �poca.

Havia espi�es por toda parte.

Descobri apenas 25 anos depois,

quando recebi meus registros do FBI,

que eles haviam seguido pessoas da minha casa,

no Brooklyn.

Tinham seguido as pessoas em um jantar.

A grande mudan�a foi a reviravolta vis-�-vis

da Uni�o Sovi�tica, que era nossa aliada

e de repente, a inimiga.

E isso deixou um setor inteiro da popula��o abandonado,

porque essas pessoas tinham sido pr�-sovi�ticas

ou pelo menos eram pr�-trabalhadores,

tudo isso, eram liberais.

E de repente essas pessoas eram consideradas traidoras.

AUDI�NCIA SOBRE COMUNISMO EM HOLLYWOOD

O Comit� de Atividades Antiamericanas

investiga a infiltra��o comunista

na ind�stria cinematogr�fica.

A vit�ria ser� garantida

quando os comunistas forem identificados e expostos.

LISTA NEGRA DE HOLLYWOOD

Atores, diretores, todos.

Suas carreiras foram destru�das

porque n�o cooperavam...

com algum republicano de Indiana que os perseguisse.

� membro do Partido Comunista ou voc� j� chegou a ser?

� lament�vel e tr�gico que eu tenha de ensinar a esta comiss�o

os princ�pios b�sicos do americanismo.

Essa n�o � a quest�o.

John Howard Lawson recusou-se a responder � pergunta:

"Voc� � um membro do Partido Comunista?"

Portanto, � a opini�o un�nime deste subcomit�

que John Howard Lawson desacata o Congresso.

79 S�O CONSIDERADOS SUBVERSIVOS EM HOLLYWOOD

DIZ RELATOR DA COMISS�O

Ent�o, sent�amos mais uma vez

que n�o havia valor em lugar nenhum.

N�s todos �ramos

sujeitados...

ao grande poder.

Uma conex�o viva entre Washington

e o fen�meno das bruxas de Salem

surgiu em minha mente.

O ponto principal das audi�ncias,

precisamente como na Salem do s�culo XVII,

era que os acusados se confessassem publicamente.

Voc� j� foi um membro do Partido Comunista?

Sim ou n�o?

N�o acredito que tenha o direito de fazer essa pergunta.

Eu senti que logo seria tarde demais

para fazer qualquer coisa,

N�o poder�amos mais atuar nem dizer coisa alguma.

Eu estava realmente desesperado.

Ent�o, enquanto o teatro estivesse liberado,

achei que devia dizer alguma coisa.

Eu estava a caminho de Salem

para fazer uma pesquisa para "As Bruxas de Salem".

No dia anterior � minha partida,

Kazan telefonou e pediu para me ver.

Eu parei na casa dele a caminho do norte,

e foi quando ele me disse que ia contar

sobre as outras pessoas que ele conhecia no partido.

Deixaram claro para ele que...

se n�o fizesse isso, ele nunca mais trabalharia no cinema.

Quando voc� o viu, como ele disse:

"Eu vou fazer isso"? Voc� tentou dissuadi-lo?

Eu disse a ele que achava que era um erro terr�vel,

que aquilo n�o duraria...

a febre do comit�.

Que se isso acontecesse, n�o importaria,

porque ter�amos o fascismo neste pa�s.

Ele poderia trabalhar no teatro, onde n�o havia lista negra.

E ele disse: "Bem, eu quero fazer cinema".

Ele achou que tinha de fazer aquilo.

O verdadeiro vil�o aqui n�o era ele...

nem as pessoas como ele.

Era o Comit� de Atividades Antiamericanas da C�mara

e Joe McCarthy.

Todos os perderam de vista.

Eles desapareceram sem deixar rastro,

e continuaram culpando essas pessoas

que essencialmente eram...

v�timas.

Sa� de Salem no final da tarde

e o notici�rio das 18h come�ava no r�dio

com a noite escura,

como um manto jogado sobre o para-brisa.

Boa noite. Hoje, em Washington...

O locutor da C�mara leu um boletim

sobre o testemunho de Elia Kazan

perante o Comit� de Atividades Antiamericanas

e mencionou as pessoas que ele havia entregado:

Clifford Odets, J. Edward Bromberg.

Eu fiquei paralisado.

Phoebe Brand, James Proctor,

Lewis Leverett e Loris Karnofsky.

Era triste,

puramente mortificante,

embotador.

Enquanto eu ia em dire��o � ponte do Brooklyn,

encontrei-me do lado lento do veloc�metro,

como se quisesse proteger a verdade que havia em mim

de cair no esquecimento.

Que eu me arriscasse com essa pe�a

n�o era mais uma quest�o para mim.

Eu tinha tomado a decis�o sem pensar

em algum lugar entre Salem e esta cidade.

AS BRUXAS DE SALEM

Trata-se de um dilema...

que toda sociedade...

enfrenta, em um ponto ou outro,

que � quando os poderosos fazem uma alian�a com os loucos.

Todos est�o cientes dos boatos

desse esp�rito

vindo at� n�s do inferno.

� fascinante para mim que uma cidade desse tipo

pudesse explodir de repente com esse tipo de histeria.

Toda a postura dos anos 1950 come�ou a se desenvolver

em um n�vel diferente,

com focos diferentes e assim por diante,

essencialmente o mesmo fen�meno estava ocorrendo.

Sr. Hawthorne, eu certamente n�o sou bruxa.

N�o sei o que � uma bruxa.

Se n�o sabe o que � uma bruxa, como sabe que n�o � uma?

A culpa da v�tima era muito interessante para mim.

Podem n�o se sentir culpados pelo que o acusam,

mas isso n�o importa.

Voc� � acusado, ent�o se sente culpado por outra coisa.

A imagem central era a de um homem cheio de culpa,

John Proctor,

que, ap�s dormir com a criada adolescente,

assiste com horror quando ela se torna

a l�der do grupo de ca�a �s bruxas

e aponta o dedo acusador para a esposa que ele pr�prio traiu.

O n� est� pronto.

N�o haver� n�.

A Abigail me quer morta, John.

Voc� sabe.

Isso refletia o que eu passava no meu casamento.

-Culpa da sua parte? -Da minha parte.

E raiva de quem?

-Da minha parte. -Tamb�m da sua parte.

E da parte da minha esposa na �poca.

Que voc� procure por alguma bondade em mim.

E n�o me julgue.

O magistrado que o julga est� no seu cora��o.

Eu nunca pensei que n�o fosse um homem bom, John.

S� um pouco desnorteado.

Ah, Elizabeth,

sua justi�a congelaria a cerveja.

E, na pe�a,

h� uma bela reconcilia��o entre a esposa e o marido,

que na vida real n�o houve.

N�o, n�o houve. Mas eu n�o fui enforcado.

Essa � a melhor forma de reconciliar as pessoas.

Voc� enforca uma delas.

Ou se necess�rio, ambas.

A Jane foi at� o est�dio dele, no �ltimo andar da casa.

E ela desceu.

Ela e a m�e estavam no quarto da Jane,

que fica bem no final da escada,

e elas estavam chorando.

Ent�o eu subi e ele disse que ia embora por um tempo.

Eu me lembro de ficar perplexo com a coisa toda.

Ele e a mam�e se despediram,

e a Jane e eu rimos quando o abra�amos e o beijamos,

porque �ramos pequenos.

Ent�o me lembro dessa �ltima vez em que houve abra�o e beijo,

e comecei a perceber que talvez fosse a �ltima vez.

ARTHUR MILLER SE DIVORCIA

E voc� tem um sentimento de culpa por isso?

Terr�vel.

Isso � devastador.

Durante nossos ensaios de "O Panorama Visto da Ponte",

na Rua 42,

eu passava por uma imagem dela em tamanho natural

todos os dias no sagu�o.

A famosa foto do riso de "O Pecado Mora ao Lado",

em um vestido branco com a saia voando

sobre uma grade de metr�,

onde eu me sentava por seis horas,

enquanto Van Heflin, Eddie Carbone,

lutava com uma compuls�o que ele n�o podia conter ou destruir.

O PANORAMA VISTO DA PONTE

A melhor obra que algu�m pode escrever

� aquela que est� prestes a constrang�-lo.

Sempre.

� inevit�vel.

A forma como ele se exp�e,

�s vezes bem secretamente.

�s vezes simbolicamente.

Quando li "O Panorama Visto da Ponte", na faculdade,

o modo como lida diretamente com a sexualidade e o desejo

parecia uma despedida, de certo modo,

cheia de dilemas morais,

mas tamb�m era sobre um desejo insaci�vel

e um apetite implac�vel.

O PANORAMA VISTO DA PONTE NOITE DE ESTREIA, 1955

SEJA ENT�O MEU AMOR, COMO VOC� CERTAMENTE �.

ACHO QUE SEREI MENOS FURIOSAMENTE CIUMENTO

QUANDO TIVERMOS FEITO NOSSA VIDA JUNTOS.

� QUE ACREDITO QUE MORREREI SE ALGUM DIA A PERDER.

� COMO SE NASC�SSEMOS NA MESMA MANH�,

QUANDO NENHUMA OUTRA VIDA EXISTIA NESTA TERRA.

COM AMOR, ART.

Acho que todos os artistas t�m a tend�ncia

de se jogar no mundo,

para ver se ele flutua.

Quando ela apareceu, o futuro desvaneceu.

Ela parecia sem expectativas, e isso era como a liberdade.

Ent�o eu pensei que era uma honestidade total.

Foi isso que me conquistou.

Ela parecia totalmente sem mal�cia,

completamente honesta sobre si mesma

e sobre qualquer coisa que olhasse.

Enquanto a sociedade de onde eu vinha

era muito cautelosa,

cr�tica,

julgava todas as pessoas.

Ela aceitava que todos fossem quem eram e o que eram.

Essa apar�ncia de ser absolutamente livre

era s� um disfarce.

Ela era, de certo modo,

a pessoa mais reprimida que se possa imaginar.

Apanhou quando crian�a. Sofreu abuso quando crian�a.

Ela foi desertada, abandonada.

Ela era um ser humano muito corajoso.

Como a amava, eu tinha essa postura em rela��o a ela.

O melhor dela, ela pensava, estava nos meus olhos.

Portanto, a esperan�a que ela tinha estava comigo.

Qual foi o primeiro sinal de que teria problemas

com o Comit� de Atividades Antiamericanas?

Eles nunca me incomodaram at� eu me casar com a Marilyn.

Eles j� estavam em queda.

As pessoas estavam se cansando deles.

Eles viram uma oportunidade de ter muita publicidade boa.

Eu quero dizer

que estou totalmente confiante de que, no final,

meu marido vencer� este caso.

N�s �ramos um pa�s de artistas. Voc� tem de ser divertido.

At� os fascistas precisam ser divertidos.

Seu testemunho � a verdade e nada mais que a verdade?

Eles repetiam "As Bruxas de Salem".

Voc� � membro do Partido Comunista?

Eu disse que assisti a reuni�es de escritores comunistas,

ent�o eles perguntaram: "Fulano estava l�,

e fulano, e fulano, e fulano?"

E eu tive de dizer: "N�o vou falar de mais ningu�m".

MILLER SE NEGA A DAR NOME DE VERMELHOS

Eu n�o acredito, e nunca acreditei,

que um homem tem de se tornar informante

para praticar sua profiss�o livremente nos EUA.

Agora, ao que importa, Sr. Miller, onde est� Marilyn?

Est� me esperando em casa.

Quando chegamos a Washington,

o chefe do comit� sugeriu cancelar a audi�ncia

se a Marilyn tirasse uma foto com ele.

Meu Deus!

E eu disse que era melhor fazerem a audi��o.

Alguns meses depois,

fomos a um julgamento em um tribunal federal

e eu fui considerado culpado de desacato,

e fui multado em US$500

e condenado a um ano de pris�o, que foi suspenso.

A coisa toda foi simplesmente indescrit�vel.

O que acha de tudo isso,

Srta. Monroe?

Foi horr�vel. N�o pod�amos sair para comprar um jornal.

N�o pod�amos descer e tomar um sorvete.

Ele n�o podia fazer as coisas mais triviais.

Se voc� est� com algu�m que � t�o famoso mundialmente,

isso distorce a realidade.

Isso era uma dificuldade a ser superada.

E eu nunca consegui, admito.

Podem nos dar umas declara��es?

Vamos, Marilyn!

Aqui, Arthur.

-Vai escrever para a Marilyn? -Sim, certamente.

Em que estar� trabalhando?

Voc� produziu muito pouco durante os anos com ela.

Est� certo.

Por qu�?

Acho que, francamente, eu estava cuidando dela.

Se eu me sinto feliz?

Se sou geralmente alguma coisa,

acho que sou geralmente infeliz.

O que a aterrorizava

era que fosse descoberta como uma fals�ria,

que, de repente, algu�m se levantasse

e fizesse acusa��es contra ela.

Ela era agrad�vel, divertida, alegre...

mas ela tamb�m sofria muito,

e v�amos isso nela, de certa forma.

E voc� sempre tentava encoraj�-la?

Sim.

Tentava faz�-la ver o lado positivo das coisas.

O que � triste.

� o trabalho mais ingrato que se possa imaginar.

Ele n�o costumava fazer coisas s� para agradar outra pessoa.

Acho que ele realmente fez o que p�de

para tentar faz�-la enfrentar esses dem�nios.

O papai estava sob o feiti�o dela?

Eu acho que sim.

Ou sob o pr�prio feiti�o dele,

de ser o her�i, o salvador,

aquele que poderia mud�-la.

E "Os Desajustados" � um �timo exemplo disso.

Voc� � a garota mais triste que eu j� conheci.

Voc� � o primeiro homem que me diz isso.

Geralmente me dizem como sou feliz.

Eu pensei que seria um presente fant�stico,

porque ela nunca teve um papel

em que ela deveria ser levada a s�rio

e ela queria fazer isso.

Eu tinha escrito uma hist�ria baseada originalmente

na �poca em que eu morava em Nevada,

durante o div�rcio.

Eu conheci tr�s caub�is enquanto estava l�,

e eles ca�avam Mustangues.

Eles lutavam com aquelas feras.

E, quando eles venceram, eles se sentiram bem,

e se sentiram confirmados em sua masculinidade.

Assassino!

Voc� s� fica feliz quando v� algo morrer!

Por que n�o se mata e fica feliz?

Voc� e seu pa�s de Deus! Liberdade...

No meu filme...

Tenho pena de voc�!

Gable os liberta no fim.

O que est� fazendo?

Mas isso n�o acontecia.

S-u_b_r-i_p P_i-x_

Naturalmente,

o que "Os Desajustados" pretendia era

mostrar essa tentativa das pessoas

de encontrarem alguma forma de estar em casa,

em casa no mundo.

E o mundo � t�o duro

e t�o rejeitador

que n�o conseguimos encontrar um nicho para chamar de lar.

Esse filme levou um tempo enorme

porque ela estava doente o tempo todo.

O que ela tinha?

Ela n�o conseguia...

reunir a confian�a que precisava ter para fazer isso.

Ela se sentia extremamente ansiosa

por temer n�o ser boa o suficiente para isso,

embora n�o fosse assim que ela expressasse isso.

Ela culpava as pessoas por n�o a tratarem bem.

No �ltimo minuto,

ela encontrava coisas imperfeitas em si mesma,

que ela tinha errado.

Era inseguran�a, claro, se quiser uma palavra.

Mas...

ela continuava se atrasando,

perdia o dia de trabalho.

Assim todos ficavam esperando o dia todo,

era como se todo o resto...

n�o existisse mais.

V�rias centenas de pessoas envolvidas

que dependiam daquela criatura fr�gil.

� uma baita press�o.

Venha, querida. Vamos tomar umas bebidas.

A solu��o eram v�rios tipos de comprimidos...

�lcool...

e barbit�ricos gigantescos.

Eles tiveram de parar as filmagens por dez dias,

enquanto ela voltou para Los Angeles

para se recuperar.

N�o h� como explicar uma pessoa assim.

Terr�vel.

Bem...

Acho que voc� tem um dom para a vida, Roslyn.

O resto de n�s s� procura um lugar para se esconder

e ver tudo passar.

Am�m.

� sua vida, Roslyn. Espero que continue para sempre.

N�s finalmente terminamos o filme, e era um �timo filme.

N�o era o que eu esperava.

N�s ficamos separados durante a filmagem...

e ela voltou para a Calif�rnia

e eles come�aram a fazer outro filme,

para a Fox, que ela n�o conseguiu concluir.

Sim.

E depois voc� voltou para c�? Voc� se mudou?

Eu comecei a viver muito aqui.

Quando eu estava chegando ao final de "Depois da Queda",

chegou a not�cia horr�vel de que a Marilyn tinha morrido,

aparentemente de overdose de calmantes.

Quando um rep�rter ligou,

perguntando se eu iria ao enterro dela na Calif�rnia,

atordoado como eu estava, respondi sem pensar:

"Ela n�o estar� l�".

Voc� costuma fugir de conflitos, naturalmente,

mas nas suas pe�as h� um cont�nuo retorno do conflito.

Suponho que seja porque eu conseguia viver isso

na literatura, na escrita,

enquanto na vida era muito doloroso.

Ent�o a dor entrou na escrita.

Era dif�cil sustent�-la na vida real.

Acho que isso � parte do que aconteceu.

Por que acha isso?

Eu n�o sei. Eu simplesmente n�o suportava a ideia...

de pessoas...

tentando destruir umas �s outras.

Eu senti muito cedo

que todas as discuss�es reais s�o assassinas.

Havia um instinto assassino l�

que eu temia.

Ent�o, eu o coloquei...

no teatro.

DEPOIS DA QUEDA

"Depois da Queda", ato um.

O RETORNO DE ARTHUR MILLER

A a��o ocorre na mente, no pensamento

e na mem�ria de Quentin.

Foi em parte

sa�do de um livro que nunca � mencionado,

um livro de Camus,

em que um homem observa uma jovem

que se joga em um rio caudaloso.

Ele n�o vai salv�-la.

Minha pergunta era: "E se ele a salvasse?"

Eu acho que todos os suicidas s�o assassinados.

S�o v�timas da agress�o,

ou �s vezes v�timas da verdade.

Maggie, voc� quer morrer e eu n�o sei como evitar isso.

Em "Depois da Queda", um dos parceiros deste casamento

n�o pode manter a ilus�o que o outro tem.

Ent�o, ela morre sozinha ou ambos morrem,

ou quem puder se salvar, se salva.

Em "Depois da Queda",

Quentin essencialmente se julga

pelo fato de que ele poderia ter matado Maggie.

Nesse sentido, reflete a rela��o com a Marilyn?

Sim, claro.

Vai me internar em algum lugar, � isso?

N�o, o m�dico vai...

Voc� n�o vai me internar em qualquer lugar, senhor.

Maggie, voc� tem de ser supervisionada.

E reconciliando-se com o fato de que voc� n�o a salvou,

mas que em certo sentido n�o pode salvar ningu�m.

-Isso mesmo. -Em algum n�vel.

As pessoas s�o muito mais dif�ceis...

de mudar...

do que eu me permitia acreditar.

Conte-me o que aconteceu.

Maggie, n�s usamos um ao outro.

N�o!

Foi uma produ��o muito boa.

Foi muito bem feita, fez muito sucesso com o p�blico.

Sofreu muitas...

cr�ticas...

estridentes, feias...

e alguns ataques...

extraordinariamente cru�is.

A CATARSE FRACASSADA DE ARTHUR MILLER

SERIA MAIS APRECIADO SOB O T�TULO "DORMI COM MARILYN"

E eu consegui me iludir,

de que n�o era a Marilyn,

e n�o era realmente,

mas era bem pr�xima.

O mais maravilhoso na pe�a

� que ela � t�o profundamente quebrada.

� implac�vel e corajosa.

E eu amo o fato de que ele n�o p�de torn�-la coesa,

porque ele estava lidando com algo

que nunca poderia entender completamente.

Era como colocar o dedo na tomada el�trica.

Em "Depois da Queda", ele ficou com muita raiva dela.

Ele ficou muito...

arrasado com o que esse suic�dio...

significava para ele, como um rep�dio a si mesmo,

como um ferimento narcisista.

Ou seja,

ele estava com muito medo dela e n�o conseguia...

Bem, ele se saiu bem melhor com a Inge.

LAR

Incr�vel.

Foi um bom ano. Voc� j� pensou em...

Eu n�o quero pensar nisso.

-Por qu�? -Bom demais.

Vou cortar este frango aqui.

Isso est� cortando como um sonho.

Que bom. Est� cortando direito?

N�s nos conhecemos... Eu estava na piscina.

N�o, n�s nos conhecemos quando eu fui

fotografar com a Katia "Os Desajustados".

�:E a primeira vez que o ouvi, voc� estava na piscina.

Mas n�s n�o... Eu quase n�o a vi.

N�o. N�s est�vamos trabalhando muito, n�s dois.

Ocupados, fotografando todo mundo.

Ent�o nos reencontramos um ano depois?

Talvez. Eu fui para a Argentina.

Primeiro, fui � Fran�a fotografar "Aimez Vouz Brahms?"

e depois fui para a Argentina fotografar um filme maluco

com Yul Brynner chamado "Taras Bulba".

Ent�o voltei e o reencontrei, talvez meio ano depois,

no escrit�rio da Magnum.

Voc� procurava fotos que eu havia tirado,

pois estavam fazendo um livro sobre "Os Desajustados".

Certo?

N�o me lembro, mas sei que aconteceu.

Minha m�e sofreu muito durante e depois da guerra.

Ela teve de trabalhar...

em uma f�brica de muni��es em Berlim.

Ela foi...

interrogada por oficiais nazistas

porque n�o se juntou � Juventude Hitlerista,

apesar de o pai ser membro do Partido Nazista.

Eu estava em Berlim, em uma f�brica.

Era fortemente bombardeada, constantemente.

E, quando Berlim caiu, para onde voc� foi?

Eu andei de Berlim a Salzburgo...

porque n�o havia transporte.

Todo mundo estava andando, fugindo. Eram refugiados.

Eles tinham cavalos.

Muita gente do leste com seus beb�s...

Era horr�vel.

Ent�o...

voc� meio que perde a cabe�a um pouco.

Por mais que ela fosse traumatizada por isso,

ela tamb�m era uma mulher en�rgica e muito positiva.

Foi a primeira fot�grafa a ser membro da Magnum Photos.

E construiu para si uma vida espetacular,

cheia de trabalho e casos amorosos,

um belo apartamento e roupas maravilhosas...

Ela conheceu Arthur

e ele era uma pessoa muito ferida naquele momento.

INGE QUERIDA, SINTO SUA FALTA.

ESTOU DESENCORAJADO COMIGO MESMO,

COM MINHA FALTA DE RA�ZES. E ENVERGONHADO TAMB�M.

H� TANTAS COISAS QUE S� POSSO CONVERSAR COM VOC�.

EU ME SINTO PERSEGUIDO �S VEZES PELA PERGUNTA

DE SE ALGO, ALGUM SENTIMENTO, � ETERNO.

ESTOU MAL HOJE, MAS QUERO ESTENDER MINHA M�O A VOC�.

INGE, VOLTE.

Ela acreditava nele, enormemente.

Acreditava no talento dele e tamb�m nele como pessoa.

E acho que ele chegou a um ponto

em que ele se sentia mal consigo mesmo.

E acho que ela... o rejuvenesceu.

Seu pai era um homem muito solit�rio,

muito solit�rio, porque quando eu cheguei,

ele tinha um ou dois amigos. Ningu�m.

Ningu�m vinha. Eu trazia...

todas essas pessoas e amigos,

acho que porque ele n�o sabe como se aproximar.

Voc� via muito a fam�lia dele?

Sim, eu os via muito,

e eles gostavam de mim porque eu fazia algo.

Ser fot�grafa era divertido para eles, e eles vinham comigo.

Eu sempre tive um relacionamento muito bom

com o Bobby e a Jane.

Aquela casa n�o era realmente um lar at� ela aparecer, sabe?

A Inge colocava flores na mesa e cortinas nas janelas,

e a casa come�ava a parecer habitada.

Ele parecia estar...

restaurado, renovado

e revigorado com isso.

Durante tr�s dias, sa�mos e subimos a encosta,

plantando centenas de mudas.

Minha esposa Inge, que estava gr�vida,

depositava cuidadosamente as ra�zes

nas fendas que eu abria com uma p� chata.

Voc� achou que sempre ficaria casada com o Arthur?

N�o.

N�o por causa do Arthur, mas eu n�o achava que ningu�m...

N�o sei.

Tudo era uma ideia tempor�ria.

N�s est�vamos prontos para tentar.

Quando eu nasci, meu pai era quem entendia mais de beb�s.

NASCIDA EM 1962

Minha m�e escolheu um carrinho de beb� para mim,

que na verdade era um carrinho de boneca.

Meu pai teve de dizer a ela que eu precisava de algo maior.

Eu tenho pensado sobre a paternidade

e sobre o que voc� acha

que torna um bom pai.

Bem,

acho que n�s criamos...

principalmente as crian�as criam essas defini��es,

porque elas precisam, porque est�o desamparadas.

Ent�o criam a defini��o...

dessa grande for�a

que pode...

varrer ou confort�-los.

E �s vezes tem muito pouco a ver

com o que a grande for�a est� sentindo.

Eu gostava de ser pai.

E tamb�m gostava de escapar de ser pai.

Sabe...

grande parte do nosso relacionamento,

ao longo dos anos,

era tentar encontr�-lo quando ele tinha tempo

para passar um tempo comigo.

O que ele fazia?

O que sempre fez, estava escrevendo.

-Era o que ele fazia. -Certo.

Quando ele estava no est�dio, n�s and�vamos na ponta dos p�s.

Se ouv�amos as teclas estalando,

sab�amos que n�o pod�amos entrar.

Eu acho que �s vezes ele se interessava

apenas pelo que era do interesse dele.

Algumas vezes s� se interessava em algo porque poderia us�-lo.

Eu sempre entrava e sa�a do meu papel...

porque...

eu simplesmente n�o podia ser pai 24 horas por dia

e ainda fazer o que eu pensava que tinha de fazer.

Minha mente seguia alguma dire��o qualquer,

e ent�o eu dizia: "Meu Deus. Esqueci de pegar meu filho

que est� esperando em uma esquina".

Acho que ele nunca entendeu...

Ele nunca sentiu que me conhecia

a ponto de achar que seria de grande ajuda.

Quando poder�amos ter uma rela��o construtiva

de pai e filho,

foi a mesma �poca em que as gera��es

estavam se distanciando cada vez mais.

Claro que eu ia seguir a energia certa para mim,

que era a da contracultura,

e ele n�o podia fazer isso.

E, de certa forma, isso se manifestou no relacionamento.

Ele meio que ficou consternado com tudo isso.

Quando eu era crian�a, ele continuou a escrever,

mas a vida dele se tornou bem menos p�blica,

muito mais privada.

Acho que ele talvez estivesse se abrigando com a fam�lia.

Acha que era mais dif�cil ser...

Em termos de filhas ou filhos, acha que isso faz diferen�a?

Minha opini�o � que � mais dif�cil ser um filho,

porque h� certa competi��o acontecendo l�.

� inevit�vel.

Se voc� observar o reino animal,

a mais perigosa...

pessoa ou animal...

para um jovem macho � o pai.

Ele se confidenciava comigo.

Ele falava comigo sobre suas preocupa��es,

sobre ser capaz de escrever.

Nem sei se eu respondia a maior parte do tempo.

Acho que era como se eu fosse parte dele.

Mas o pai que eu conhecia na maior parte

era muito engra�ado, carinhoso, brincalh�o.

N�s r�amos tanto.

-Precisa pregar, pai. -Eu preciso pregar.

-Agora... -Eu tenho de pregar.

Fique parado e tente manter a cabe�a

em um n�vel que goste de ficar bastante.

O objetivo � cortar tudo igual.

-Certo. -Para eu n�o ficar estranho.

Isso d�i.

N�s os cobrir�amos com mito.

O pai � sempre uma figura mitol�gica.

� a base de toda a mitologia, afinal.

O que � Zeus?

Ele diz...

Ele � o pai.

� o cara que lan�a os raios.

Ele o mata ou o eleva

para a gl�ria.

Voc� se lembra de quando o Danny nasceu?

O papai ligou

e disse que era um beb� com S�ndrome de Down.

Que era um menino

e que ele e a Inge estavam tentando decidir o que fazer.

Eu devo ter dito: "Como assim"?

E ele disse: "Bem...

talvez decidamos

que ele ficar� melhor em uma institui��o".

Como ele falou foi como se os m�dicos dissessem:

"Isso � provavelmente o que devemos fazer".

Na �poca, diziam para n�o levar as crian�as para casa

e deixar que elas crescessem em outro ambiente.

ENQUANTO A ENFERMEIRA VESTIA O DANIEL NO HOSPITAL,

PREPARANDO-O PARA A VIAGEM AT� A INSTITUI��O,

EU ME VIREI PARA EXAMIN�-LO, COM CERTA DIFICULDADE.

EM ALGUNS SEGUNDOS, EU ME PEGUEI

N�O DUVIDANDO DAS CONCLUS�ES DO M�DICO,

MAS SENTINDO BROTAR UM AMOR POR ELE.

N�O ME ATREVI A TOC�-LO,

TEMENDO QUE ACABASSE LEVANDO-O PARA CASA,

E EU CHOREI.

ANOTA��O NO DI�RIO 1968

N�o mostro meu irm�o neste filme

para proteger a privacidade dele.

Mas ele tem uma vida muito feliz agora

e uma vida independente.

E n�s nos tornamos muito pr�ximos.

Minha m�e visitou meu irm�o toda a vida dela,

mas ela estava um pouco isolada nisso.

Com o passar dos anos, meu pai o visitava cada vez mais

e desenvolveu um relacionamento com ele.

Mas, publicamente, ele nunca o mencionou

e ele n�o estava na autobiografia.

N�o era f�cil para meus pais falar sobre ele.

Tive a oportunidade de terminar este filme nos anos 1990,

mas n�o sabia como terminar o filme

sem falar do meu irm�o.

Eu realmente n�o sabia como fazer isso.

Eu disse isso ao meu pai

e ele se ofereceu para fazer uma entrevista sobre isso.

E eu protelei...

Protelei por um bom tempo.

Eu tive filhos,

e comecei a fazer outros filmes...

e ele morreu.

E agora nunca saberemos como seria a entrevista.

DESLOCADO

Hoje, enviei ao Vietn� 125 mil homens.

Isso � realmente uma guerra.

A GUERRA EST� DESTRUINDO O VIETN� E OS EUA

Eu era mais rebelde que um revolucion�rio nessa situa��o.

Eu queria protestar,

mas n�o queria estabelecer uma nova regra de viol�ncia.

E alguns o fizeram.

Mas muitos eram pessoas bem corajosas.

Sr. Miller, por que recusou o convite do presidente Johnson

de vir a Washington para testemunhar

a assinatura deste projeto de lei?

Eu acredito fortemente que estamos em uma crise

e que o presidente deve agir de forma que ele n�o est� agindo.

Parece uma guerra sem fim.

Acho que ele apoiou a pol�tica do que estava acontecendo

e, � medida que se tornou menos pol�tico

e tinha a ver com fumar maconha e assim por diante,

ele ficou bastante confuso.

E os anos 1960 foram uma reviravolta total,

n�o s� para mim, mas em geral.

E eu n�o consegui expressar satisfatoriamente

minha no��o...

de tempo.

O teatro perdera o prest�gio.

Os jovens olhavam em uma dire��o totalmente diferente

para suas ideias e sentimentos.

Eu tinha uma pe�a de muito sucesso na �poca, "O Pre�o".

O PRE�O

Era a primeira vez que ele anunciava algo i�diche,

n�o era uma manobra, mas uma express�o.

Ele tinha um ouvido fenomenal para isso.

Voc� me ligou e eu vim. O que vou fazer? Deitar e morrer?

Em "A Morte de um Caixeiro-Viajante",

a fam�lia poderia ser protestante.

Em "O Panorama Visto da Ponte" s�o americanos italianos.

Em "As Bruxas de Salem", ele trabalhou para encontrar

um discurso dos primeiros americanos para essas pessoas.

Ent�o voc� finalmente sente

quando um judeu aparece no s�t�o.

Voc� vai estar l�, Sr. Soloman?

Nunca se sabe. Pode ser curto.

Pode ser longo. Pode ser m�dio.

Ent�o voc� sente...

a� est�.

-Quanto voc� � judeu? -Totalmente judeu.

Mas eu herdei, acho que do meu pai,

o temperamento do americano

mais do que do judeu.

SEM D�VIDA, UMA DAS DUAS OU TR�S MELHORES PE�AS DE MILLER

Mesmo que minha pe�a fizesse sucesso,

eu tive pessoas maravilhosas nela.

Foi muito bem feita.

Mas eu sentia que isso n�o importava mais.

O jogo n�o valia a pena.

Fazia as pessoas sentirem isso ou aquilo,

rirem ou chorarem, qual � a diferen�a?

Qual � o sentido?

ARTHUR MILLER REFLETE SOBRE "O PRE�O"

"AS BRUXAS DE SALEM" J� TEM 15 ANOS.

PARA UMA GERA��O QUE N�O PRECISA

ACENAR RESPEITOSAMENTE AO NOME DE ARTHUR MILLER,

UMA PE�A SOBRE RESPONSABILIDADE HUMANA

SOA, SE N�O ABSOLUTAMENTE INCOMPREENS�VEL,

PELO MENOS ANTIQUADA.

Eu n�o senti que havia algu�m que estivesse interessado.

Parecia que eu gritava em um barril.

Por exemplo, toda essa hist�ria de Caim e Abel.

Foi para reverter o processo usual.

O processo usual � Deus, Ele cria as pessoas.

Na minha pe�a, as pessoas est�o l� primeiro

e criam Deus,

a quem obedecem e adornam com todos os tipos de poderes.

Foi uma tentativa de mostrar por que tinha de haver

algum tipo de sistema moral...

ou seria o fim do mundo.

O MUNDO, A CARNE E O SR. MILLER

Achei interessante, mas ningu�m entendeu.

N�o muito, n�o muito mesmo.

Minha percep��o, quando eu era crian�a,

nos anos 1970,

era que voc� tinha muitas

decep��es no teatro nessa �poca.

Na maior parte, eu diria.

Sim.

Eu concordo.

ARTHUR MILLER: ELE FALA COM O PRESENTE?

Foi horr�vel.

A forma como o Arthur foi tratado pela cr�tica foi...

Se algu�m se importa com a cr�tica de teatro,

certamente sentir� que h� uma marca permanente de vergonha

por desprezar pe�a ap�s pe�a ap�s pe�a.

E com uma esp�cie de pregui�a.

Tipo: "Por que nos importar com o que esse velho

tem a dizer sobre qualquer coisa?

PSEUDOPSICOL�GICO

UM FRACASSO MANIFESTO, PALP�VEL - UM INSUCESSO

Voc� j� sentiu que estava perdendo seu p�blico?

Eu me senti deslocado, sobretudo.

Eu lhe digo por qu�.

Porque na Europa, minhas obras sempre foram aceitas.

Funcionavam, seja na Inglaterra ou na Alemanha,

frequentemente, na Fran�a, na It�lia.

Acho que foi doloroso para ele ser desprezado no pr�prio pa�s.

Mas ele tamb�m tinha essa efervesc�ncia

e cren�a em si mesmo que continuava borbulhando,

que era sua for�a vital essencial.

�s 8h ele j� estava na mesa dele, e descia ao meio-dia.

Parecia um rel�gio de ponto.

Ele tinha uma agenda de trabalho.

Havia uma �tica de oper�rio nele.

Quando o meu pai n�o estava trabalhando...

nas pe�as ou quando n�o estava escrevendo,

na nossa vida cotidiana,

tudo era orientado para o trabalho.

Ele achava que, se voc� conseguia fazer algo,

deveria fazer voc� mesmo.

Ele fez a mesa de centro, a mesa de jantar,

as estantes de livros.

Lembro-me de quando pedi um aparelho de som

aos 14 anos, mais ou menos.

E em vez de comprar o aparelho de pl�stico

que eu queria, que todos tinham,

meu pai me fez um aparelho de som de madeira.

E ele achou bot�es enormes na lixeira.

Voc� ainda escreve?

Eu escrevo todos os dias, naquele pr�dio.

-Pe�as? -Sim, estou escrevendo uma.

N�o me pergunte por qu�. Mas eu amo fazer isso.

Trabalhei bastante na pe�a.

Acho que est� muito bom agora, para minha surpresa.

Olhe, se voc� escreve tempo suficiente...

Desistir � uma coisa.

Se voc� continua escrevendo...

a arte �...

dar as costas para o que funcionou

e avan�ar para o que acha que pode funcionar,

porque o ser humano � multifacetado.

H� diversos tipos de emo��es e atitudes

dos quais todos somos capazes.

E temos de encontrar isso para comunicar algo.

Eu nunca culpo as outras pessoas.

N�o podemos fazer isso, porque n�o � verdade.

Um dia v�o entender algo, ou n�o.

Mas a voz � o mais importante.

Que voc� n�o...

fique em sil�ncio.

O �LTIMO IN�CIO

-Velocidade? Certo. -Sim, 39 e oito.

Est� bem, pai.

-Agora. -N�s estamos gravando.

Tudo bem. Isso n�o � tanto uma pe�a,

mas mais uma explora��o de uma �rea

entre a vida e a morte.

E um dia pode ser uma pe�a.

No momento, � s�...

um longo fragmento.

A pe�a que estou fazendo agora...

� um trabalho instintivo.

As pessoas querem. Querem e n�o sabem o que querem.

O arm�rio americano est� cheio de roupas perfeitamente boas,

que n�o podem mais vestir.

Instintivo no sentido de que estou contando com o fato...

de que dentro da minha cabe�a...

existe uma estrutura...

cujos contornos eu n�o posso detectar neste momento,

mas cujo som emocional,

peso e cor,

eu sinto muito fortemente.

Eu n�o teria feito isso h� 25 anos.

Entende?

Mas nessa pe�a, o que o faz escrever?

Qual � o tema que o impulsiona? Existe um?

Eu acho que � mais...

� menos um tema do que um ar de encantamento,

um ar de encantamento e divers�o...

com as pessoas...

e como elas...

s�o maravilhosas.

-Isso � excelente. -Eu amei.

-� muito bom. -� at� onde cheguei.

� maravilhoso. � realmente �timo.

� divertido, n�o �?

Sim, voc� conseguiu.

� tudo uma improvisa��o ap�s a outra.

Sim, mas � maravilhoso.

Bem, aqui est�.

NOITE DE ESTREIA

O que voc� diria que Deus �? Ou isso � definitivo?

De modo algum.

Deus � precisamente o que n�o est� l� quando voc� precisa.

Parece um bom jazz. � t�o ousado.

-Era o que eu tentava conseguir. -Parece m�sica.

Acha que h� um cr�tico em Nova York que vai ver isso?

Posso lhe dizer a verdade?

O que posso dizer?

O que ele disse?

Eu sou tedioso.

Ele viu insights. N�o viu muito mais.

Esta � a Lola Garrido, a quem liguei no celular.

Ela disse que a ABC fez uma grande mat�ria

elogiando "Mr. Peter's Connections".

Algum espanhol viu e fez muito sucesso.

Disse que Arthur Miller foi indicado ao Tony, e tal...

Ela est� muito animada.

E ela diz que nunca l� cr�ticas.

Ter� de...

encontrar outra forma...

de penetrar, porque isso vai encerrar...

com esta temporada.

Mas n�o tenho d�vidas. Vai voltar.

A arte � longa.

Como assim?

A vida � curta.

Eu esqueci o latim.

-Voc� deu as meias da mam�e. -Eu lhe dei uma ordem!

-N�o me toque, seu mentiroso! -Pe�a desculpa por isso!

Seu falso!

A refilmagem de "A Morte de um Caixeiro-Viajante",

com Dustin Hoffman foi o come�o de um tipo de renascimento.

Todas as pe�as antigas come�aram a ser refeitas

neste pa�s e no mundo todo.

Eu n�o sou s� mais um!

Sou Willy Loman e voc� � Biff Loman!

Eu n�o sou l�der dos homens.

Foi a coisa mais feliz da minha vida profissional.

Algumas dessas pe�as t�m 50 anos.

N�o h� muitas coisas com 50 anos neste pa�s

que ainda s�o utiliz�veis.

O PANORAMA VISTO DA PONTE

"'O Panorama Visto da Ponte', sugere algo da rea��o emocional

que se deveria sentir, mas que raramente acontece

quando vemos 'Rei Lear' ou '�dipo Rei'.

O Sr. Miller nos mostra que pe�as contempor�neas

podem comover, perturbar e at� fazer chocar."

Muito bom.

Voc� v� se esperar o suficiente.

"As Bruxas de Salem"...

as filmagens come�am em cerca de uma semana.

Meu filho Bobby est� produzindo, seu irm�o.

Eu sei.

Eles constru�ram uma cidade inteira em uma ilha

acredite se quiser,

ao largo da costa de Massachusetts.

Realmente parece que voc� anda l�

e est� em outro tempo.

� como um sonho.

Mas � incr�vel

que fa�am essas pe�as agora, de uma s� vez.

Por que acha que � assim?

Eu realmente n�o sei.

Bem...

Isso acontece na vida.

Ocasionalmente,

as pessoas de repente acordam e dizem: "Sim, isso".

E fazem isso.

Mas eu n�o levaria isso muito a s�rio.

V�o se esquecer disso...

bem r�pido.

N�o seja t�o pessimista.

O pessimismo � uma defesa que tenho contra o otimismo.

L� est� sua m�e rastejando morro abaixo.

V� o caminho que eu abri l�?

-Voc� j� desceu? -N�o � um caminho bonito?

� lindo.

� lindo. Voc� pode ir at� o riacho e subir.

Amanh�, devemos fazer uma caminhada mais longa,

na floresta, com um ovo cozido.

Sim, podemos plantar um ovo cozido na floresta.

� t�o bonito.

QUERIDA INGE,

UMA PE�A SEMPRE TEM DUAS VIDAS:

A ESCRITA E A VIVIDA.

A �LTIMA, AINDA BEM, � FELIZ.

COM MEU AMOR, ARTHUR.

Ela costumava viajar para fotografar v�rias coisas

e passava cerca de duas semanas.

Ela descobriu que ele podia ficar sozinho por duas semanas.

Voc� quer a asa?

Por que n�o?

E ent�o ela tinha de voltar.

Para ser um casal...

� preciso trabalhar.

A salada.

Misture a salada, por favor. Sen�o vou levar bronca.

"N�o est� quente. N�o est� certo."

Eu morei sozinha por muito tempo

e gosto muito de morar sozinha.

Mas agora eu...

� um tipo de amor...

e respeito m�tuos...

e estar l� por algu�m e algu�m por voc� � maravilhoso.

-Sabe onde p�r a vara? -Sei.

� mais para...

-O qu�? -V�o dar o nome dela a uma rua.

-Sabia disso? -Eu n�o sabia disso!

-Na aldeia... -Vai ser Rua Inge Morath.

-Onde? -Em uma aldeia espanhola.

Eles viram as fotografias da aldeia

na exposi��o espanhola, e n�o acreditaram.

Disseram: "Voc� nos colocou na hist�ria.

Podemos nomear uma rua em sua homenagem?"

V�o fazer uma grande festa no dia 12.

N�s fizemos alguns livros, um sobre a China,

sobre a R�ssia, sobre o interior daqui.

Foi uma uni�o...

�ntima entre duas disciplinas.

Ela � simplesmente �tima. Vamos combinar.

Posso dizer isso depois de quantos anos...

trinta e cinco anos casados com ela?

� muito tempo.

� mais longo.

Mais longo? Sim.

Mas parece um dia.

A Inge foi diagnosticada com linfoma

e viveu com isso por alguns anos,

e o Arthur estava bem perto dela.

Mas de repente ela ficou muito doente e morreu.

E isso foi um choque para ele.

Parecia a morte de uma mulher bem jovem,

estranhamente.

E...

ele ficou bem perdido depois disso.

Quando sua m�e morreu, escrevi uma carta para ele,

e recebi uma resposta impressionante.

E a carta terminava com ele dizendo

que percebia agora que todos n�s estamos por um fio.

ESTOU MUITO VELHO. COMO UM C�O,

EU DEPOSITAVA AOS P�S DELA O QUE BUSCAVA.

AGORA, ESTOU SEM DIRE��O. A BRINCADEIRA ACABOU.

PARA SEMPRE. MAIO DE 2002

Pensou no que seu obitu�rio vai dizer,

no que quer que diga?

"Escritor".

"Escritor"?

Fale mais.

Isso � tudo. Deveria dizer isso.

Tudo bem, prontos?

Muito bem, pai!

E h� milhares de pe�as que v�m e v�o

e ningu�m pode manter grande interesse nelas

durante qualquer per�odo.

Mas as obras de qualquer grau de seriedade,

apresentam algumas quest�es sobre o que � real

e o que simplesmente � ef�mero.

Nenhuma pe�a � conclu�da.

As pe�as s�o abandonadas.

S�o abandonadas porque voc� s� pode chegar a uma dist�ncia

e ent�o n�o pode se aproximar mais.

Aproximar-se mais de...?

Da narrativa...

oculta,

a verdade oculta do que est� acontecendo.

Isso me lembra um pouco a ideia da cabala.

Sim.

Eu acho que h� uma semelhan�a.

Um ser humano � o trabalho da imagina��o,

da imagina��o de algu�m. Talvez da imagina��o de Deus.

Voc� acha que uma pe�a � uma �tima pe�a

porque reflete algo profundo sobre a natureza humana

ou que tem um pouco do que voc� neste caso chamaria de Deus?

N�o sei se � o que diz sobre a natureza humana.

Acho que � o processo...

de abordar...

o n�o-escrito, o n�o dito e o indiz�vel.

E, quanto mais perto estiver, mais vida parece haver.

Eu vivi mais da metade da minha vida no interior de Connecticut

o tempo todo esperando receber alguma pe�a ou livro

para poder passar mais tempo na cidade onde tudo acontece.

Mas pouco acontece aqui que eu n�o fa�a acontecer,

exceto o sol nascendo e se pondo,

as folhas surgindo e caindo,

e uma surpresa ocasional

como o aparecimento recente de coiotes na floresta.

E estou nesta sala da qual �s vezes

posso olhar para o crep�sculo e v�-los se movendo

pelas est�reis �rvores de inverno

e, suponho, que eu fa�a o que eles fazem,

tornando-me poss�vel para aqueles que v�m depois de mim.

Eu sou um mist�rio para eles

at� que se cansam e seguem em frente,

mas a verdade,

a primeira verdade, provavelmente,

� que estamos todos conectados,

assistindo um ao outro.

At� as �rvores.

Subrip Pix

17 DE OUTUBRO DE 1915 10 DE FEVEREIRO DE 2005

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