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O �LTIMO TRAJE legendas @drcaio
Pronto, pronto... Todos olhando para c�.
Larita, Nico...
Falta a Micaela.
A Micaela n�o gosta de fotos, "zeide".
Foi a �nica coisa que pedi.
Menos um.
Por que n�o tira com os que querem,
em vez de pensar nos que n�o est�o?
A perna, papai.
N�o enche.
A Tzures est� bem.
M�idele.
M�idele...
Custa muito fazer a vontade do seu "zeide", M�idele?
N�o gosto que tirem fotos de mim.
Se n�o tirar a foto, v� embora agora da minha casa.
Esta casa nem mais � sua.
Fale para mim o que quer.
Um iPhone 6.
- Um qu�? - Um telefone.
� como este, um pouco maior e com impress�o digital.
E quanto "d�i"?
Consegue por mil d�lares, em Miami.
Est� "mishigne"? N�o posso te dar isso, meu amor.
Dou duzentos. Vamos.
N�o gosto que tirem fotos de mim.
Veja se entende:
esta foto � para enganar
os velhos cretinos do asilo de idosos,
para que pensem que os meus bisnetos
gostam muito de mim.
Dou quatrocentos, e pronto.
N�o gosto que tirem fotos de mim.
Seiscentos, e nem mais um peso.
Essa foto n�o servir�, se eu n�o estiver.
Ficou sem os seiscentos.
Lamento muito por voc�, porque � uma idiota.
Que se dane.
Dou oitocentos, mas est� me roubando.
Nem um peso mais. O resto, a sua m�e d�.
Est� bem.
Me decepcionou.
Cedeu r�pido demais.
Eu tinha esses mil d�lares para lhe dar.
Eu menti.
N�o custa mil, custa seiscentos.
At� me sobram duzentos, com o que vai me dar.
Voc�...
sabe que �...
�...
� a preferida.
A preferida.
U�sque!
J� t�nhamos decidido isto.
Mas � perfeito para minha casa.
Est� bem, S�rgio, mas j� t�nhamos decidido assim.
O que se passa com voc�s duas?
Falamos com o Besuievsky.
Ter�o que decidir na sala de opera��es.
A perna est� pior do que pensavam.
Precisam ver se conseguem salv�-la.
Digam ao Besuievsky
que n�o invente problemas onde eles n�o existem.
A Tzures est� bem aqui,
como est�.
Ou seja, primeiro, me mandam para o asilo
e, depois,
me tiram a Tzures?
Que bonito...
O que fa�o com isto?
- Tem que descansar a perna. - N�o enche com a perna.
Aten��o. Aten��o, aten��o...
Aten��o, que vou dizer uma coisa.
- Fale para ela vir. - Est� com as crian�as.
Ficaremos bem.
�s vezes, n�s, os velhos, n�o aceitamos a idade.
Mas tamb�m n�o queremos ser um fardo para ningu�m.
Por isso,
vamos encarar este tempo que nos resta para viver
com agradecimento
e felicidade.
� a melhor decis�o que tomou na vida.
Ent�o, poder�o entender...
que estamos um pouco cansados...
e que queremos ficar sozinhos,
para nos despedirmos...
da casa onde moramos
nos �ltimos cinquenta anos.
Claro que entendemos, papai.
Passamos �s 10h00, para te levar.
N�o querem vir mais cedo?
Venham mais cedo.
Estaremos aqui � sua espera.
Eu e a Tzures. Vamos juntos.
Tchau, querido.
- Tchau, "zeide". - Despe�am-se do "zeide".
Tchau. Gosto muito de voc�.
- At� mais. - At� mais.
V�, David.
- Tchau. - Um beijinho.
Quer que eu fique esta noite?
N�o.
N�o concordo com o que est�o fazendo com voc�.
Ficaremos bem.
A Claudia nunca faria isso com voc�.
N�o conhe�o nenhuma Claudia.
Paulina...
Shalom.
Para onde, vov�?
Quer me dizer?
N�o sou seu av�.
� jeito de dizer.
Senhor...
Senhor.
Est� me ouvindo, senhor?
Cruzamento entre Jun�n e Uriburu.
Desculpe... Incomoda que fume um cigarrinho?
Cada um � dono do seu c�ncer.
Quando chegarmos,
vou sair para ir tratar de um assunto.
E voc� vai esperar por mim, sem sair do local.
Nem pense em sair de l�,
que, depois, tenho que ir a outro lugar.
E posso saber aonde vamos depois, vov�?
Desculpe. Quis dizer "senhor".
N�o pode saber nada.
Aqui n�o se aceitam "schleppers".
- Me deixa entrar. - N�o.
Deixa, que a filha do Tarnapolski
est� me esperando, "goyshe kopp".
A filha do Tarna foi para Israel h� 15 anos.
Agora, est� a neta.
Mas acredito que n�o vai te atender a esta hora.
� atriz. De teatro.
Est� bem. Mas � urgente, Isaac.
Boa noite, Sr. Bursztein. � um pouco tarde, estou ocupada.
Tem os olhos do seu av�.
Obrigada. Estou no meio de um ensaio.
Conhece isto?
Sim.
Foi ele quem me deu,
uma semana antes de morrer.
O que precisa?
Quero ir aqui.
- Pol�nia? - Sim, sim...
Venha amanh� de manh�, poderei ajud�-lo melhor.
Tem que ser agora.
Agora?
Por favor.
Voc� � um amor.
O primeiro para a Pol�nia � na quinta.
N�o, hoje.
- Vai fugir? - N�o pergunte essas coisas.
Procure o primeiro voo que saia para a Europa.
H� um voo para Madrid, hoje � noite.
Est� quase na hora.
Pode ir daqui direto ao aeroporto?
- Sim. - Est� bem.
E o que fa�o, em Madrid?
Na Europa, tudo � perto. At� pode ir de trem.
Bem... Quando quer voltar?
Nunca.
Ent�o, de Madrid a Vars�via, de trem.
Mas em Paris tem que pegar um t�xi
para mudar de esta��o.
- Emito? - Sim.
Uma passagem de ida e o trem
seriam 3230 d�lares.
E quanto fica, com o desconto?
O seu av� sempre me vendeu passagens
e eu sempre fiz ternos para ele.
N�o h� desconto. Nem tempo.
- Quer ou n�o? - Sim.
Posso saber que diabos vai fazer na Pol�nia?
Se eu souber que disse para algu�m
que estive aqui, corto seu "veitzm".
N�o, isso n�o.
Boa noite.
Posso perguntar o que voc� est� lendo?
Perguntei: o que est� lendo?
Uma revista.
Sim, claro. D� para que � uma revista.
Mas � de algum tema em especial?
- M�sica. - Algum tipo de m�sica?
N�o.
Jazz, rock...
- � m�sico? - Estou lendo, senhor.
Sim, claro. Mas � que tem jeito de m�sico.
S� perguntei por isso, nada mais.
� m�sico?
Sim, mais ou menos.
Mais mais que menos ou mais menos que mais?
- J� entendi, quer ler. - Sim.
Por favor.
Toca algum instrumento?
Piano.
Ou bateria.
- Piano. - Piano. Eu sabia.
Abraham Bursztein.
Muito prazer. E a sua gra�a?
Leo.
Sim, j� sei que l�. Mas o que queria...
- Leonardo. - Leonardo...
Que engra�ado...
Piano...
Todos os grandes sempre compuseram em piano.
Rimski-Korsakov,
Verdi, Salgari...
- Vou descansar um pouquinho. - Por qu�?
- Como assim? - Est� cansado?
Vem de Buenos Aires?
Est� de f�rias ou vai tocar em algum lugar?
Porque os m�sicos viajam muito.
Temos um problema aqui, Sr. Bursztein.
N�o tem passagem de volta, n�o tem um tost�o
e n�o declara o motivo da sua viagem.
N�o, eu disse ao outro senhor que vinha fazer uma entrega.
E tenho dinheiro, sim.
Mas a cara dele n�o me inspirou confian�a
e por isso, disse que n�o tinha.
Ou�a senhor, somos neste momento sua porta de entrada na Europa.
Quanto voc� quer?
Est� tentando me subornar, Sr. Bursztein?
Nada disso.
� que tenho uma coisas para fazer.
Quanto tempo pretende ficar na Europa?
Quanto tenho que falar?
Se n�o colaborar, volta a Buenos Aires
no mesmo avi�o que o trouxe.
Perguntei quanto voc� queria,
e diz que n�o colaboro?
Bem. Volte para o seu pa�s.
V�o me enterrar vivo.
Quem?
Os meus filhos.
Venderam minha casa,
querem me cortar uma perna e me por num asilo de idosos.
- E voc� fugiu para a Europa. - Sim, vou para aqui.
POL�NIA
Porque me mostra por escrito?
Por que n�o diz: "Vou para a Pol�nia"?
Porque n�o falo palavr�es.
Nasceu na Pol�nia, certo?
- E o que vai fazer l�? - Entregar isto.
Para quem?
Para uma pessoa.
- E est� � sua espera? - Sim.
Quando esteve na Pol�nia pela �ltima vez?
Em 1945.
E avisou que ia? Est� � sua espera?
- Eu prometi. - Quando?
Quando nos despedimos.
Em 1945?
Sim.
- Mas mantiveram contato? - N�o.
E o que o faz pensar que vai encontr�-lo,
se n�o manteve contato com ele, durante mais de 70 anos?
Est� me esperando.
Desculpe, mas isto parece um pouco esquisito.
Esquisito?
Sabe a hist�ria?
Sabe o que aconteceu com os judeus, na Europa?
Alguma coisa.
Se sabe alguma coisa,
por que parece esquisito?
Se quiser me matar, me manda de volta.
N�o me deixam entrar.
Morei aqui muito tempo, ilegalmente.
N�o tenho passagem de volta nem dinheiro para mostrar.
Tenho uma filha de quatro anos me esperando em casa.
Ida e volta, idiota.
- Reynoso. - Aqui.
Estou um pouco cansado, � da idade.
Quando um senhor da minha idade...
te diz "boa noite",
voc�...
larga a sua revistinha de merda e responde.
N�o � uma revistinha de merda.
� a melhor revista de m�sica alternativa do mundo.
Estou falando de outra coisa.
Est� bem.
Isso chama-se educa��o.
Desculpe.
Desculpado.
Quer saber?
Tome de presente.
Senhor Abraham...
Vou te deixar o meu n�mero.
Se quiser, posso vir busc�-lo e lev�-lo � esta��o, esta noite.
Seria um prazer para mim. Al�m disso, devo-lhe a vida.
N�o me deve nada.
N�O NOS IMPORTAMOS COM SEUS PROBLEMAS ECON�MICOS
O CREDOR SAIU PARA COBRAR
A EMPRESA N�O SE RESPONSABILIZA POR SEUS PERTENCES
Bom dia, senhorita.
Parece que tenho idade de ser senhorita?
Na d�vida, � sempre melhor senhorita.
Em que posso ajud�-lo?
Sou agente tur�stico.
Estou organizando um grupo de aposentados argentinos
que querem vir a Madrid, e queria saber...
- Quantos s�o? - Trinta.
- Quanto tempo querem ficar? - Uma semana.
Posso fazer o quarto duplo a trinta.
- Quinze por pessoa? - Sim.
Eu vou ficar at� a noite.
Tenho de pegar um trem, �s 21h30.
S�o cinquenta.
Voc� me quinze.
Para trinta pessoas, durante uma semana.
Mas eu sou o organizador do grupo, minha senhora.
N�o sou sua senhora, nem de ningu�m.
- Fico contente. - Com o qu�?
Que n�o seja senhora de ningu�m.
- Senhor... - Bursztein. Abraham Bursztein.
N�o tenho tempo nem disposi��o para gal�s argentinos.
Quase diria que est�o proibidos, em minha casa.
Se quer quarto duplo por uma noite,
s�o cinquenta euros.
- Senhorita... - Gonz�lez.
- E o de batismo? - N�o tem batismo.
- Est� bem. Gonz�lez. - Quer o quarto ou n�o?
Era uma vez um menino
que estava caminhando pela floresta.
Quando chegou a uma clareira,
viu uma estrela
que parecia estar morta, deitada sobre a grama.
Ele correu at� � aldeia dele
e contou a uma menina o que tinha visto.
Mas ela n�o acreditou e riu dele.
O menino jurou que n�o estava mentindo
e convenceu a menina a ir com ele.
Correram os dois a toda a pressa,
at� chegar � estrela.
Mas n�o se atreveram a toc�-la,
pois ela tinha pontas assustadoras e afiadas.
E foi ent�o que a estrela os surpreendeu,
porque, de repente, ficou iluminada.
"N�o estou morta.", disse a estrela brilhante.
"O que aconteceu?", perguntou o menino que a descobriu.
"Adormeci,
"esqueci de flutuar
e acabei caindo do c�u."
Por isso, agora sabemos que as estrelas n�o dormem.
Porque, se as estrelas adormecerem,
esquecem de flutuar.
E, se se esquecerem de flutuar,
acabam caindo do c�u.
Sr. Bursztein.
Sr. Bursztein! Abra a porta, pelo amor de Deus!
Sr. Abraham...
Abraham...
Abraham.
O que foi?
A que horas tinha que pegar o trem?
- �s 21h30. - Perdeu.
S�o 22h10.
Tenho fome.
Vou lev�-lo a um lugar, ent�o.
- � um encontro? - N�o.
E por que voc� est� t�o chateada com os homens?
Tive tr�s maridos.
O primeiro me deixou, com dois filhos.
Voc�s se separaram?
Ele se separou, sem me dizer nada.
Procurei por ele durante sete anos.
E no s�timo ano, apareceu?
- Apareceu o segundo. - E o primeiro n�o apareceu?
Sim, apareceu. Da�, ter deixado o segundo.
Sabe o que o desgra�ado me fez?
- A qual se refere? - Ao primeiro.
- N�o, n�o sei. O que ele fez? - Foi embora.
- Foi embora, outra vez? - Sim.
E vi que me enganei com o segundo,
que era um homem excepcional e corajoso.
E supliquei que me perdoasse. Supliquei de joelhos.
Te mandou ao inferno, certamente.
N�o, me perdoou.
Era um homem generoso.
Compreensivo.
Um filho da puta...
V� com calma, gal�, voc� veio comigo.
Estou s� cumprimentando a senhora,
n�o posso ser descort�s.
� melhor que seja.
Est� com ci�mes por aquela senhora
ter me cumprimentado?
N�o, pode cumprimentar quem quiser, siga suas bolas
que devem chegar ao ch�o.
Que � at� onde chegam seus peitos?
N�o, s�o operados. Nem se mexem.
As minhas bolas tamb�m.
Velho degenerado...
Por que...
- O que vai fazer na Pol�nia? - Entregar um terno.
J� me disse isso, mas me explique.
N�o, termina de contar a sua hist�ria,
que � muito mais bonita e interessante.
Qual?
A do segundo marido, o que a perdoou.
Diga-me porque � que, ap�s a ter aceitado de volta,
porque o abandonou pelo seu primeiro marido,
voc� o qualifica como...
- Um filho da puta. - Sim, foi o que disse.
Porque me perdoou, mas me fez pagar muito caro.
Claro...
Claro.
Deixou a janela do seu quarto aberta?
N�o sei... Que janela?
Janela, diga se deixou a janela do seu quarto aberta.
Eu n�o abri nada.
- Meu Deus... - N�o...
N�o, n�o...
Quinze mil e novecentos d�lares.
E ainda pechinchou o pre�o do quarto.
Cinquenta euros por noite, e fiquei sem nada, aqui.
O que fa�o, agora?
� bem vis�vel e em mai�sculas, o cartaz na recep��o.
Deixe-me em paz, por favor.
Sinto muito.
N�o tanto como eu.
O que pensa fazer?
Tenho uma filha que mora aqui em Madri.
Mas n�o posso pedir nada para ela.
Por qu�?
Estamos brigados.
Mas chegou a hora de ir ver a sua filha
e resolver as coisinhas,
porque n�o tem nem para pagar o caf� que est� tomando.
N�o, ela � quem tem que pedir desculpa.
Por que tem que pedir desculpa?
Porque me humilhou.
Ela me humilhou na frente de todos.
S� tinha que dizer tr�s palavras.
Tr�s lindas palavras.
- E ficou chateado, por isso? - Sim.
Porque n�o lhe disse uma palavrinhas bonitas?
Sim.
Meu Deus...
Isto...
um amigo me deu de presente,
uma semana antes de morrer. Quanto me dariam por isto?
Tem que falar com a sua filha
e contar para ela o que est� acontecendo.
N�o.
Ent�o, procure outro alojamento.
Era ela?
Vamos embora.
Por que n�o fez nada?
N�o vou conseguir.
Minhas filhas,
a minha vida foi muito dura e estou muito cansado.
Mas decidi p�r em nome de voc�s
a minha casa e as poupan�as de toda a minha vida.
A �nica coisa que pe�o em troca
� que cada uma,
em poucas palavras,
me diga quanto gosta de mim.
E, quando chegou a vez dela,
disse que lhe d� vergonha
a quantidade de falsidades ouvidas
nos discursos rid�culos das suas irm�s,
que o amor se demonstra em atos, n�o em palavras,
e que n�o estava disposta a participar
naquela cerim�nia absurda.
E eu disse:
"V� embora da minha casa e da minha fam�lia para sempre."
- E ela foi. - Enlouqueceu?
Me faltou ao respeito, diante de todos.
Ela foi a �nica sincera.
E as outras?
As outras venderam a casa
e queriam me por num asilo de idosos.
Est� vendo? Tem o que merece.
Me ajude a vender isto, por favor.
Isto n�o tem pre�o.
Foi um presente do seu amigo.
Voc� � uma grande pessoa, sabia?
E voc�, n�o.
Sim?
- Claudia? - Sim. Quem �?
Eu.
Voc� est� a�?
Papai?
Sim.
N�o saia da�. J� des�o.
Me mandou �s favas.
Ligue o carro. Vamos embora.
- Vamos, ligue o carro. - Eu ouvi tudo, Sr. Abraham.
O que est� acontecendo, papai?
Vim te pedir desculpa.
Cometi um erro, me enganei.
Quem �?
Um senhor.
Ol�, linda.
Ol�.
O que est� acontecendo?
Vou aqui.
"Pol�nia" n�o era um palavr�o, papai?
Vou ver uma pessoa.
Quem?
Um amigo.
- Na Pol�nia, papai? - Sim.
Por que veio?
Vim pedir desculpa, porque agi mal.
E a conhec�-la.
Vou avisar a Sara. Est�o desesperadas.
Nem me fale da Sara.
Venderam a casa e ficaram com tudo,
incluindo a sua parte, que lhes dei por erro.
E agora se preocupam.
Coitadinhas, est�o desesperadas...
N�o ficaram com a minha parte, papai.
Ficaram, sim. Eu dei.
E elas me deram.
Desgra�adas...
Ent�o, papai?
N�o disse que foi um erro o que fez comigo?
S� tinha que dizer tr�s palavras.
Por que veio?
Abriram a janela e entraram no quarto.
- O qu�? - Perdi tudo.
Quem?
A Shoshana? A Sara?
N�o me deixaram nem para comer.
- N�o entendo nada, papai. - � o meu av�?
Tenho que ir a Lodz.
De que janela est� falando, papai?
Dei a minha palavra.
E me roubaram todo o dinheiro.
Vamos entrar. Vamos, est�o desesperadas.
Bastam dois mil.
Dinheiro?
Mil.
J� lhe trago os mil.
Anda, meu amor.
Anda, vamos.
Esta j� n�o � a sua casa.
- Por Deus, deixe-o entrar! - Calada!
Fecha j� essa porta.
- Vou deix�-lo entrar. - J� mandei fechar a porta.
Vou deix�-lo entrar.
Piotrek. Piotrek!
Piotrek, Piotrek... V�o voltar e nos expulsar.
Tudo o que voc� tem � gra�as ao pai dele.
Piotrek...
Piotrek...
Voc�... Voc� � uma m� pessoa.
Consegue me ouvir?
Est� em casa.
Senhoras e senhores,
dentro de instantes, chegaremos � Gare de Montparnasse.
- Bom dia. - Como est�, meu senhor?
- Fala Espanhol? - Sinto muito.
- Ingl�s? - N�o, sinto muito.
Me d� um papel.
Como?
Papel...
Caneta...
ALEMANHA N�O POL�NIA
Sim, mas...
- N�o. N�o. - N�o...
O seu destino � Vars�via.
Pe�o desculpa, meu senhor, mas n�o o entendo.
Sabine...
Vai para Vars�via, mas n�o entendo o que quer.
Bom dia, meu senhor. Podemos ajud�-lo?
Quero chegar a este pa�s,
sem passar por este.
Nem um metro. Nem um cent�metro.
Nem um pedacinho de nada, disto.
Entende?
Posso ajud�-lo?
A quem � que passa pela cabe�a que um judeu
possa atravessar tudo isto,
de trem, como se nada fosse,
e fazer escala...
nesta cidade?
Acho que quer chegar � Pol�nia, sem passar pela Alemanha.
Ent�o, tem que pegar um avi�o.
N�o � poss�vel, meu senhor.
Ent�o?
Meu senhor... A sua passagem, meu senhor!
Com licen�a.
Desculpe...
Fala i�diche?
Falo.
Bom dia.
Me chamo Ingrid.
Abraham Bursztein.
Riram de mim.
N�o, s� n�o o entenderam.
Sim...
Entenderam, sim.
N�o acho.
- Voc�, como judia... - N�o sou judia.
Sou alem�.
Estudei Hist�ria Judaica, na universidade.
Da�, saber falar i�diche.
Se n�o � judia, n�o fale i�diche.
Tamb�m falo Espanhol.
Estou tentando ajud�-lo.
Voc� n�o est� bem.
Desculpe, se o incomodei.
E a Sheine?
O que foi feito dela?
Mudou de ideia?
Fico contente.
Sou antrop�loga.
Sabe o que � Antropologia?
Por que n�o me diz o que quer, e acabamos com isto?
O que vai fazer na Pol�nia?
Vou ver um amigo...
que me salvou a vida,
quando voc�s foram embora.
N�s?
Sim, voc�s.
J� estamos na Alemanha.
Sou divorciada.
Como os meus filhos j� s�o crescidos, viajo muito.
As coisas mudaram, na Alemanha.
N�s, incluindo aqueles que ainda n�o tinham nascido,
compreendemos uma coisa:
somos todos respons�veis pelo que fizemos.
Penso que os pa�ses, os povos,
tamb�m podem enlouquecer
e cometer atrocidades. - Saia daqui, por favor.
Pessoalmente,
me sinto envergonhada.
Eles a arrancaram dos meus bra�os.
Quem?
Eu entendo.
N�o o chateio mais.
Menina...
Se quer fazer algo por mim,
arranja um jeito
de que eu n�o pise o solo do seu pa�s.
- N�o se preocupe, eu fa�o isso. - Eu estou fazendo.
Pedimos desculpas pelo inc�modo. Estamos em reforma.
A minha m�e foi professora.
O meu pai: alfaiate.
Tive um irm�o
e uma irm�zinha que inventava hist�rias.
Ela nos hipnotizou
desde pequenina com suas hist�rias.
Linda.
�nica.
No ver�o, �amos ao rio.
Vinham os tios,
os primos...
Quando havia alegria,
nas festas,
nos junt�vamos...
mais de sessenta.
�ramos felizes,
mas n�o sab�amos.
Sabe qual foi...
o crime do meu pai,
al�m de ser judeu?
Ter um acorde�o.
E sabe qual foi o crime do meu tio,
o irm�o da minha m�e?
Ter um violino.
Um tiro na cabe�a do meu tio
e um tiro na cabe�a do meu pai.
N�o me contaram.
Eu vi,
da minha janela.
E sabe qual foi o crime...
da minha irm�zinha que inventava as hist�rias?
N�o ter nascido um m�s antes.
Dez mil crian�as.
Desde beb�s...
at� dez anos.
Vinte vag�es,
repletos at� ao teto,
de gritos e choro.
Era preciso ter onze anos, para se salvar.
Para ela s� faltava um m�s.
N�o me contaram.
Eu vi.
Olhou nos meus olhos,
antes de entrar.
Aten��o, por favor.
Informamos que o expresso para Vars�via
dar� entrada na plataforma quatro.
O que foi?
E como pensa fazer, agora?
Voc� a�... O que faz aqui?
Chega aqui, rapaz.
Disse para vir aqui!
Qual � o seu nome?
Est� com medo, n�o est�?
Mostre a porcaria que tem entre as pernas.
Mostre!
Consegue me ouvir, Sr. Bursztein?
O meu nome � Gosia e sou sua enfermeira.
Consegue me ouvir?
Consegue me dizer o seu nome?
Onde estamos?
Em Vars�via.
Vars�via...
Fale o seu nome completo, por favor.
Abraham Samuel Bursztein.
Data de nascimento?
15 de Janeiro de 1927.
Nacionalidade?
Argentino.
Local de nascimento?
Lodz.
- � polon�s, ent�o? - N�o.
- Sabe falar Polon�s? - N�o.
Fale o nome completo do seu pai.
Josseff...
Jaim Bursztein.
E da sua m�e?
Suri Rifka...
Klainberg.
Sabe que voltou dos mortos?
- Sei. - � um homem de sorte.
Depende de como se v� a minha vida.
A sua perna estava com muitos problemas.
Os m�dicos decidiram amput�-la.
O Dr. Janowski soube e quis v�-lo.
Os cirurgi�es discutiram.
E eu ouvi o Janowski gritar
que, se a sua perna tinha alguma chance, tinham que salv�-la.
- A Tzures pode andar? - Tzures?
Tzures � o nome da minha perna direita.
A sua recupera��o ainda vai demorar algum tempo.
Senhorita Gosia...
Quando me deixarem sair do hospital,
seria t�o gentil de me acompanhar
at� � casa de um amigo?
Sim. Claro.
- Onde fica? - Em Lodz.
- Lodz? - Lodz.
Bem, continue a me falar sobre o seu amigo.
� filho da Nadia, a nossa empregada,
e do Olek, empregado do meu pai na alfaiataria.
O bra�o direito dele.
Piotrek nasceu no mesmo inverno que eu.
Era um rapaz muito t�mido.
Cham�vamos de "o mudo".
Ele s� falava comigo. E, quando falava,
a voz dele era linda, suave...
Era como uma car�cia.
Voc� e o Piotrek cresceram juntos, ent�o?
�ramos como irm�os.
At� que tivemos que ir para o gueto,
em 1939.
Depois do gueto, estive em dois campos de trabalhos for�ados.
Quando acabou a ocupa��o e antes de irem embora,
iam nos matar a todos.
Nos fizeram marchar at�
um campo de exterm�nio, mas eu fugi.
Me perdi na floresta e subi em uma �rvore.
Comi p�ssaros, ra�zes...
Tomei �gua da chuva...
Quando j� n�o pude mais,
sai da floresta e soube que os alem�es tinham ido embora,
porque chegaram os russos.
Eles n�o matavam os judeus.
N�o sei como consegui sobreviver e chegar a minha casa, em Lodz.
Piotrek cuidou de mim.
Me colocou no mesmo quarto
de empregada onde ele havia crescido.
Quando recuperei um pouco as minhas for�as,
Piotrek me deu roupa
e me deu as poupan�as do pai dele,
que ele mesmo roubou.
Havia l� em casa uma carta
de uma tia que tinha ido
para a Argentina, antes da guerra.
E Piotrek me deu a carta, junto com a roupa e o dinheiro.
Prometi escrever para ele
e voltar um dia para v�-lo
e contar a minha sorte.
N�o sei porqu�, mas...
n�o cumpri.
Est� cumprindo agora.
N�o, n�o � aqui...
Aquilo n�o existia.
Deve ser em outro lado.
Tem o endere�o?
Piotrkowska, 122.
� aqui.
Viramos � esquerda e vamos pelo beco.
S�o menos de 100 metros.
Tenho medo.
Do qu�?
De que n�o esteja.
De que esteja.
De tudo.
� melhor voltar.
O que est� dizendo?
E se foi embora?
E se...
� muito prov�vel que tenha ido embora
ou que tenha morrido.
Mas n�o ser� bom para voc�, ir embora sem saber.
- E o que voc� acha? - Eu?
Acho que s� existe um Deus.
O chamamos de nomes diferentes, mas � o mesmo para todos.
E ser� feita a Sua vontade.
Eu me referia ao Piotrek, n�o a Deus.
Vai estar ou n�o?
N�o h� tanta diferen�a como voc� pensa.
S� vou lhe dizer uma coisa:
voc� � um grande homem, por isso que chegou at� aqui.
Suponho que tenhamos de bater.
Suponho que sim.
E que fazemos, se n�o estiver?
Vai estar.
Vamos perguntar ali se o conhecem.
N�o fique triste, Sr. Abraham. Passaram muitos anos...
Tinha que ter vindo antes.
Fez o que p�de.
Piotrek se foi.
O que quer fazer?
Ir com ele.
E ali?
Abraham?
Este...
� o meu �ltimo terno.
Usei como molde...
um que voc�...
me deu,
em 1945.
Um que era azul?
Sim...
Sim.
Venha...
Vamos para casa.
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