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Original subtitles

[Wilbert] Essa aqui é a maquininha da grana.

Boa. Cabeça de empresário. Tô gostando de ver.

Cadê você?

Tô resolvendo um assunto particular.

[Cassiano] O MP avançou na investigação.

Sua audiência tá marcada.

Tô muito feliz. Obrigado.

Quero que abra uma igreja fora do Dendê.

E que ponha a minha mãe como administradora.

[Afonso] Sem o piloto, estamos sem esquema.

Precisamos de alguém de confiança.

Meu pai.

Não foi declarado morto. Pro Estado, tá vivo. Laranja perfeito.

Quem vai assinar por ele?

A conta é do Evandro, mas eu que assino.

Então só tu tem acesso a essa conta?

Tire toda a grana dessa conta sem chamar atenção.

Pra quando isso?

O mais rápido possível.

Seus amigos do IDI estão querendo fazer negócio comigo.

[Bagdá] É hora de retomar o nosso lado da ponte.

É uma favela colada na outra, pode dar merda.

- Bora, irmão. - [tiros]

- [homem] Caralho! - Foi você que quis criar essa guerra.

[gritos indistintos]

[homem no rádio] Fodeu! Os IDI invadiram o forte.

Mataram o Marreco e acertaram o Tubarão lá na ponte.

Minha mãe morreu na minha frente.

Foi o Wilbert, Afonso.

A mando do Evandro.

- [gritando] Larga ela! - [gemido]

[chorando] Aquele federal levou a Maria!

Quero matar esse filho da puta!

Meu amor...

Ele vai vir atrás dela, e é aí que vou pegar ele.

Só que eu preciso de ajuda.

Preciso falar com você. Você tá em perigo.

[música de tensão]

[cantando pneus]

[fim da música de tensão]

[música de tensão]

[carro cantando pneus]

[tiros continuam]

Tudo bem?

Tranquilo, tudo certo. Valeu.

A dica era quente, hein?

[suspirando] É.

[suspirando] Era bem quente.

[música-tema]

[bipe contínuo]

Doutor Rodolfo? Telefone.

Rodolfo falando.

[Wilbert] Qual é, doutor?

É o Wilbert.

Não conheço ninguém com esse nome.

Ah, para de caô, doutor. Porra!

Olha aqui, cidadão. O senhor está ligando pro número errado.

[ligação encerrada]

[resmunga] Caralho.

[campainha]

- [Inês] Quem é? - Cassiano.

Aconteceu algo com meu pai?

Não. Não se preocupa. Tá tudo bem.

Mas ele precisa da sua ajuda.

Ele foi indiciado.

Por um crime que eu tenho certeza que ele não cometeu.

Por que foi indiciado, então?

Porque ele tá se recusando a se defender.

Ele é acusado de matar um homem

no dia que invadiram a casa de vocês.

Você sabe onde ele tava? É importante.

[suspira e funga]

[música de tensão]

[celular vibrando]

[celular chamando]

[Rodolfo] Porra! Quer me foder, cara?

Opa, opa. Calma lá, doutor.

Tu tá muito paranoico.

Paranoico é o caralho!

Salvei a tua vida e tu quer acabar com a minha?

Como você liga pra linha oficial?

Mas quando o senhor tá taradão pra dar um bright,

não se incomoda de usar a linha oficial.

Não tenho nenhuma satisfação pra te dar.

A não ser que eu tenha uma pacoteira aqui de três mil doletas pra você.

[suspirando] O que é?

Qual é, doutor? Tá bicudo, é?

Acabei de perder uma criança, não tem porra nenhuma nesse hospital!

Me fala o que quer, não me enche.

Quero o senhor em uma hora aqui.

[Wilbert] Cirurgia.

Tá, é o quê? Bala? Qual calibre? Alojou?

Perfurou? O que é?

Fuzil. Mas é...

Não foi nada de mais. Não pegou no osso,

é mais uma questão estética.

Eu vou preparado, então. Bota o cara na maca,

chego em 40 minutos.

[Wilbert] Demorou. Qual é teu carro?

É um Tempra.

[Wilbert] Demorou. Vou deixar autorizado.

Valeu.

[Burgos] É isso, Geise.

Dessa maneira fica tudo no esquema e...

sem rastro do governo.

Tá.

Calma. Calma aí, seu Burgos. Só mais uma dúvida.

Olha, Geise,

me desculpe, mas realmente eu...

Eu tenho uma reunião muito importante no Brasil,

eu vou acabar perdendo meu voo.

Por que você não anota tudo

e depois me pergunta

suas dúvidas quando eu voltar, hein? Hum?

Ah, tá bom.

É... Obrigada.

[música de tensão]

Boa viagem, seu Burgo.

[devagar] Boa viagem, seu Burgos.

Boa viagem.

Saiu.

[bebê chorando]

Ô, Airto, vai lá ver o que o teu irmão quer.

[Airton] Calma aí.

[bebê chorando]

Airto, vai lá logo!

Traz ele aqui também. Tô "estudano".

[Airton devagar] Estudando.

Estudando.

Tô estudando.

[bebê chorando]

[tapinhas no capô]

Boa noite...

doutor.

Boa noite, seu policial.

Oficial. Sargento.

Te chamei de doutor, me trate pela minha patente.

Tá. É porque tô apressado...

- [sargento] Documentação da viatura. - [desdenha e ri]

Que viatura? Isso aqui é meu carro pessoal.

[sargento] Pra mim, é a mesma coisa.

Ô, ô, ô, caralho. Peraí.

Tá mexendo nas minhas coisas aqui. Ou!

É Dênis. Cabo Dênis pro senhor.

O cabo Dênis tá só fazendo o trabalho dele.

O trabalho dele é mexer nas minhas coisas?

Por quê? Sou suspeito de alguma coisa?

O senhor é um doutor.

Tá num Tempra. Subindo o morro horas depois de um tiroteio...

é claro que o senhor é um suspeito.

Então, um médico não pode mais subir o morro agora?

É isso?

[agressivo] Caralho! Isso é meu material de trabalho, porra!

É a segunda vez que fala "caralho", e já não vou mais tolerar

que use palavras de baixo calão.

Tá. Então o senhor, por favor, peça

ao seu cabo Dênis que largue

o meu estetoscópio, por favor!

Meu sonho é ser médico, doutor.

[sargento] Cabo Dênis,

por favor, tenha a postura de policial militar

e devolva o instrumento ao suspeito.

[rindo] Porra! Suspeito do quê, caceta?

O doutor vai atender vagabundo?

Eu sou médico.

Eu posso atender quem eu quiser.

Boa sorte.

O senhor sabe que aí em cima é perigoso, não é?

Tomara que o senhor não se depare com uma bala perdida.

Isso não vai acontecer.

O senhor está aqui

pra me proteger,

não tá?

[tapinhas no capô]

Boa noite.

[ligando o carro]

[porta rangendo]

Oi, filha.

Tá tudo bem?

Por que não diz que tava comigo no hospital?

Do que você tá falando?

O Cassiano veio aqui.

O que você falou pra ele?

Qual é o seu medo, pai?

Que descubram que tem uma filha drogada?

Inês, me respeita. Eu tô te protegendo.

Você tá me protegendo?

Ou você tá se protegendo, pai?

O que falou pro Cassiano?

Eu não falei nada.

Mas olha, pai...

se tem vergonha de ter uma filha dependente química,

isso é um problema seu.

Não meu.

Não joga isso nas minhas costas.

E para de dizer que tá me protegendo.

Pai...

não deixa seu orgulho acabar com a sua vida.

Eu vou sair.

Você vai pra onde?

Vou encontrar o Afonso, pai.

Você não pode continuar com isso, você sabe.

- Tchau. - Inês.

[música de tensão]

[suspira]

- Doutor, o inferno tá na merda. - Falou que ele tava sob controle.

- [Tubarão grita] - Achei que tivesse,

mas tá nojento. Abriu um bocetão enorme!

Deixa o doutor ver o Tubarão. Abre!

- Deixa eu ver. - Radinho, vou voltar pra contenção.

Dá tudo que o doutor precisar.

Tudo que precisar. Vai, vai. Tô no apoio.

[Rodolfo] E aí?

[gritando] Porra, doutor. Acertaram minha bunda!

- [Rodolfo] Tudo bem. - Tudo bem? Não foi a sua, filho da puta!

- [Rodolfo] Peraí! Segura. - Porra!

- Volta aqui, caralho! - [Rodolfo] Peraí, cara.

- [funk toca] - [homem] O baile, mô paz.

[Salvador] Aê, rapaziada!

Porra, caralho!

Brabo, irmão.

Eu sou do movimento.

Cuida bem do meu patrão, hein?

Qual é, cumpade? Tira o olho, tá maluco?

Qual foi, caralho?

[Salvador] Vou matar, hein, maluco?

[falas indistintas]

Se liga, que essa foi nossa primeira conquista.

Chegando as peça, a gente cai pra cima da ponte.

Se abrir a porteira, seu moço, a gente toma tudinho!

Vou poder voltar pra minha casa antiga.

Temos que arrumar uma situação de surpresa.

Eu gosto de surpresa, Bagdá.

De surpresa, né?

Tu é um cagão do caralho, Salvador.

- Eu? - Você.

Bagdá...

quantos tiros tu já tomou, meu irmão?

- Vale de 22? - Vale.

- De raspão também? - Vale tudo.

Onze, irmão.

Bagdá, eu nunca tomei tiro nenhum, Bagdá.

Nem de raspão. Eu não gosto nem de agulha, Bagdá.

- Bumbum de neném. - É você! Vai arrumar uma mulher.

Tá muito tempo sem mulher.

[Bagdá] Bumbum de neném do caralho, rapá!

[Salvador gritando] Aí, rapaziada! É o IDI, caralho!

- [Rodolfo] Dá a pinça aqui. - [Tubarão grita]

[gritando] Porra, doutor! Vou morrer, caralho!

Todo mundo vai, meu filho.

Tá? Fala baixo. Deixa eu trabalhar.

- Tá doendo pra caralho. - [Rodolfo] Tá bom.

Eu acredito. Deixa de ser frouxo agora.

- [Tubarão] Sei que vou morrer! - [Rodolfo] Bota pra dormir.

- [Tubarão] Tira logo isso. - [Rodolfo] Cara chato. Fica quieto!

- Nego? - [Evandro] Hum?

Tô achando meio mal parado esse teu esquema.

Como assim, amor? Do que tá falando?

Não sei...

Tem alguma coisa estranha.

Tô achando tudo meio frágil.

[Evandro sorri]

Tá tudo sob controle, amor.

E é pra você entender o esquema

e não tentar mudar, tá?

[suspira]

- Dá um abraço aqui, vai. - Não.

- Sai, Evandro! - [Evandro debocha]

Quando meu dinheiro sair, eu vou ter que vazar.

Você vem comigo?

Você quer que eu abandone tudo?

Temos amanhã pra resolver o que precisar.

Não pode vacilar.

Não podemos deixar nada pra trás.

[música de tensão]

Mas e o meu pai, Afonso?

Vou ter que sumir, Inês.

Ou sumo geral, ou eles me pegam.

Teu pai não vai mais saber de você.

É minha única saída, Inês.

A única chance que tenho de ficar longe dessa merda toda.

[música de tensão continua]

Tá na hora de acertar as nossas contas

e viver a nossa vida.

Fala.

O que você precisa pra começar outra vida?

A gente vai sumir. Pode fazer o que você quiser.

[Inês] Sabe o que eu quero? Eu quero justiça.

[Radinho] Ele tá aí?

[Rodolfo] Pode entrar.

Aí, doutor. O patrão quer ver o senhor.

Lá na birosca do Palmirão pra tomar café.

Café regado e pá. Tem como deixar alguém com o Tubarão?

Tá. Ele tá fora de perigo já.

[fungando]

A senhora fica com ele, né, tia?

É isso aí, então. Bora.

Vou arrumando aqui e já vou.

Já é. O Nuninho tá na porta. O patrão tá esperando.

Me ajuda aqui a tirar?

- Bom dia. Bom dia. - Bom dia.

Bom dia.

Fala, rapaziada. Bom dia.

- [Wilbert] Qual é, doutor? - Bom dia, dona Maria.

- [Wilbert] Chega aí, doutor. - Ó o cara aí, Wilbert.

Michael Jackson, deixa o doutor sentar aí, rala peito.

[animado] E aí, doutor?

E aí, quer cheirar ou quer comer?

Começar comendo, né? [suspiro]

Tô sabendo que o senhor operou um milagre, hein?

Salvou a vida do cidadão.

Ele foi quase. Perdeu muito sangue.

- Fica difícil trabalhar aqui com vocês. - Porra, como assim, doutor?

Tem tudo aí nesse posto.

Sangue não tem. Né?

Aí. Tua grana.

[celular tocando]

Vou pegar dois aqui também, tá?

Pera aí, que é o patrão.

[celular tocando]

Alô?

E aí, passaram o cara?

[Wilbert] Pô, patrão,

não deu, não.

O filho da puta tem o corpo fechado, não morre, não adianta atirar.

Caralho, ele pegou quatro malucos?

[Wilbert] O cara tava protegido com escolta.

[Evandro] Federal filho da puta.

Tem mais uma coisa também, patrão.

A gente acabou perdendo uma parada aqui.

Perderam o quê? Fala.

[Wilbert] A gente perdeu a boca lá perto da ponte.

Os caras do IDI invadiram. Passaram o Marreco e...

Tubarão tomou um tiro na bunda. Quase morreu.

Doutor falou que não tinha sangue aqui, que ele perdeu muito sangue.

A guerra tá chegando, patrão. O que a gente faz?

- É pra tomar de volta? - Não pega de volta.

Não quero o Dendê envolvido com guerra. Muito menos com o Royal.

[Wilbert] Mas tão atrás de conflito.

Bagdá e Salvador tão com dinheiro agora.

Tá geral nervosão, achando que vai ser atacado.

Caralho. Vou mandar umas armas praí, Wilbert.

Pô. Tava esperando você falar isso.

[Evandro] Pra manter a tranquilidade. Não é pra atacar ninguém.

Não queremos guerra, mas temos que estar prontos.

Beleza? Outra coisa.

Quero médico 24 horas no posto.

Resolve essa porra do sangue, meu irmão. Faz o seguinte...

- Não é pra atacar? - Não é pra atacar.

- Porra, não é pra atacar! - Porra!

[maquininha eletrônica]

E aí, doutor?

Tá gostando da maquininha?

Tenho uma missão pra tu.

O Evandro tá querendo sangue.

Como podemos resolver essa parada?

Enche o pãozinho de manteiga desde pequenininha, né?

Como foi ontem?

Foi tudo bem.

Tudo bem com você também?

Hum. Alguns contratempos, mas tudo bem. Nada de mais.

Pai?

Desculpa por ontem, tá?

[sirene distante]

Tá bom.

[música triste]

Filha.

O papai te ama, viu?

[voz embargada] Eu também te amo, pai.

[fim da música triste]

Oi, seu Wilbert. Em que posso ajudar?

E aí, seu Antônio? Tudo bem com o senhor?

Tá, tudo bem.

Seu Antônio...

soube que o senhor tá com dificuldade

pra honrar suas dívidas com o banco.

Não. Tá tudo em dia.

Olha, só atrasei duas vezes.

Calma, tá tudo certo, seu Antônio.

O banco é pro bem dos moradores, não tô aqui pra cobrar.

Só vim aqui

dividir com o senhor uma nova possibilidade.

Estamos abrindo uma nova linha de crédito aqui no Dendê.

Agora o senhor pode pagar com sangue também.

[nervoso] Não, patrão.

Que isso? Desculpa. Eu juro, não vou atrasar nunca mais.

- Não faça isso. - Não é isso.

- Odeio ficar devendo dinheiro! - Não é isso...

- Eu juro. Nunca mais. Eu vou agora... - Caralho!

Cala a boca, seu Antônio. Porra!

Não é isso, não! O senhor pode pagar doando sangue!

Porra. Velho escaldado do caralho.

Você vai lá, doa o sangue e abatemos sua dívida.

Entendeu? É negócio pra todo mundo.

A comunidade tá precisando de um banco de sangue.

Abate quanto?

Eu tive hepatite.

O que é isso?

[digitando, celular chamando]

[Juninho] Alô?

Juninho, é o Evandro.

[Juninho] Fala aí. Algum problema?

Preciso da sua ajuda, irmão.

[Juninho] É só falar.

Preciso que tire a minha mãe e Maria do Dendê.

[Juninho] Aconteceu alguma coisa?

Não, mas pode acontecer.

[Juninho] O que você quiser. Sabe que a Arlete pra mim é uma mãe.

Boa, irmão.

[Juninho] Mas ela não vai querer sair. Como vou tirar ela daqui?

Então...

você precisa fazer ela querer.

Tentei pela força, mas não deu certo.

Vai ter que ser pela igreja.

A igreja no asfalto não tá pronta?

[Juninho] Quase.

Então, é isso.

[Wilbert] Evandro falou que vai mandar um monte de criança pra cá.

AR, AK, Sig Sauer...

o morro vai ficar muito mais florido do que já tá.

Não faz sentido partir pra cima antes das peças chegar.

Não faz sentido nós entrar em guerra hoje.

Ué, por quê?

Porra, Wilbert. Hoje é dia de baile, caralho.

- Esqueceu, porra? - Pode crer, meu irmão.

- Tá de boa. - Porra...

Tô com as prioridades meio bagunçada, meu irmão.

Caralho. Aí...

essas já vão chegar montada.

Vêm no nosso caminhão de lixo turbinado.

- [gargalha] - [Juninho] Aí, sim, mané.

Qual foi?

Qual foi? Tava ouvindo do baile aí.

- É hoje? - Vai partir com a gente?

Vai ter que cortar esse cabelinho, cara.

Não pode ir com esse cabelinho.

Tu me representa. Ficar do meu lado com cara de playboy?

- Qual foi, Wilbert? - [Wilbert ri]

[Neves] Evandro, está atrasando de propósito

a entrega das armas do IDI?

Sim, tô.

[música guarânia]

Evandro, eu tenho a minha palavra,

e ela é muito importante pra mim, sabe?

As minhas armas não chegaram no Dendê ainda.

Preciso controlar essa guerra, Neves.

Não às custas da minha palavra.

As armas têm que chegar.

Eu falei que no máximo em 24 horas.

Em 24 horas, elas vão ser entregues. Pode ficar tranquilo.

[fogo crepitando]

[digitando]

[celular chamando]

[suspira]

- [Rosana] Alô? - Alô, meu amor. Sou eu.

[Rosana] Oi, Gilmar! Como tá aí na Bolívia?

Ah, mais ou menos, né?

Pô, a casa é grandona só pra mim.

Queria vocês aqui do meu lado.

[Rosana] Até parece que eu ia entrar naquele troço. Não.

Ah, que isso, meu amor.

É mais perigoso andar nas ruas do Rio de Janeiro

do que viajar de avião.

[Rosana] Eu ir praí sozinha, Gilmar?

Vamos fazer o seguinte?

Quando eu tiver uma brecha,

vou buscar vocês aí, tá bom?

[Rosana] Tá. E tá tudo bem aí no trabalho?

Claro, meu chuchu. Claro, claro.

Tá tudo sob controle.

[Rosana] Já tô com saudade de você.

Te amo muito, tá?

[Rosana] Eu também.

- Se cuida, tá? - Tá bom.

[bipe]

Tem certeza?

Não pode mesmo?

Mas não entendo por que não pode

- doar mais toda semana. - [homem] Hum-hum.

Porque não pode.

Ia facilitar tanto meu orçamento.

[resmunga]

Porra, Evandro. Hoje foi fogo amigo, cara.

Isso vai acabar me fodendo,

ela me gravou, cara!

Burgos, ela tá com medo, só isso. Ela tá se protegendo.

Tá achando que você vai me passar a perna.

Ah, e você não vai fazer nada?

Você não tem que se preocupar, né?

Você não vai me passar a perna.

[música de tensão]

Se me passar a perna,

sabe que a gravação vai ser o menor dos seus problemas, né?

Então pronto, porra.

[ligação encerrada]

[Juninho] O lugar é lindo, Arlete.

É grande, é espaçoso.

Tamo fazendo uma megaigreja lá.

Já imagino os fiéis entrando, lotando as fileiras...

gente de todos os lugares da cidade,

de todas as idades.

É cachorro, é papagaio, é periquito. [ri]

Todo mundo pra ouvir a pastora Arlete,

da Igreja Nova Luz.

Eu te agradeço, Juninho.

Mas minha missão é outra.

Eu preciso cuidar da Maria.

Quero te auxiliar na igreja daqui de cima.

Eu prometo que vou tá sempre por perto.

Mas ser pastora, Juninho... [estala a língua]

...não é pra mim.

[Juninho ri]

A senhora é como uma mãe pra mim.

Pra Maria...

e pra boa parte da comunidade.

Você sabe.

Ah, não sei...

Já passou por tantas provações

e sempre aí, de pé, forte,

louvando ao Senhor.

Isso não é pra qualquer um, não.

Eu acho que mais pessoas

merecem ouvir a sua palavra.

A senhora tá recebendo um chamado de Deus, dona Arlete.

Vai dizer não pra Ele?

Mas será que minha missão não é exatamente essa?

Ficar aqui em cima, no coração do morro, onde eu cresci.

As pessoas vão descer pra te ouvir.

A senhora não precisa morar no Dendê.

[Juninho] Vamos? Conhecer o espaço?

É muito longe esse lugar, Juninho.

[suspira]

Onde o pastor for,

o seu rebanho o seguirá, dona Arlete.

Pastora Arlete. [ri]

Tá na hora da senhora sair do Dendê.

Eu prometo que eu vou pensar, tá bom?

Mas agora...

não. Agora, não.

[suspira]

Juninho?

Eu quero que você me diga a verdade.

Eu sempre falo a verdade pra senhora.

Foi o Evandro que pediu pra você me tirar do Dendê?

[música de tensão]

Você tá tramando contra mim pelas minhas costas, Juninho?

Eu tô tramando ao seu favor.

Você conhece o Evandro.

Sabe que, se ele te quer fora do Dendê,

ele vai te ter fora do Dendê.

Por bem ou por mal.

[suspira]

Eu só tô tentando que seja por bem.

[fim da música de tensão]

[Airton imitando tiros]

[imitando tiros]

[imitando tiros]

Você já tá morto. [imitando tiros]

[música de suspense]

[imitando tiros]

[gritando] Que isso, Airton?

[gritando] Perdeu a noção?

[gritando]Tem noção do perigo, garoto?

[gritando] Nunca mais aponta uma arma pra mim, ouviu?

[gritando] Ouviu?

[gritando] Nunca mais!

[telefone tocando]

Alô?

[Morello] Dona Arlete? Agente Morello falando.

Chegou a hora.

Pronta pra cumprir a sua parte do acordo?

Eu tô pronta.

[Morello] Tá. A senhora tem certeza disso?

[suspira]

Tenho. Tenho certeza.

[música de suspense]

[suspira] Só me diz o que eu preciso fazer.

[música de suspense continua]

[fim da música de suspense]

Se teu pai te visse com essa arma, acho que te matava.

Onde é que tu pegou isso?

No escritório do pai.

E o que você tem na cabeça?

Tá carregada, Airto! Isso não é brinquedo!

Se o pai morrer,

alguém vai ter que assumir.

[música de tensão]

Eu tenho que tá preparado.

Preparado pra quê?

Tu quer virar bandido?

[irritada] Olha pra mim.

Você quer virar bandido?

A gente já é.

A gente não é procurado pela polícia?

Não, você não é!

[incisiva] Você não é.

Você não tem que se meter nisso, meu filho.

Airto, tu pode ser o que você quiser.

Mas se o pai morrer...

não vou herdar tudo que é dele?

Mãe?

O filho herda

o que o pai deixa.

Tu vai herdar o que ele ganhou,

tu não vai herdar os negócio.

Meu filho,

teu pai entrou nisso muito cedo.

Ele não queria fazer isso, não.

Ele tá até hoje tentando sair.

Logo, logo, a gente vai arrumar um jeito de sair.

[música de tensão continua]

Meu amor,

a vovó vai tá sempre perto de você.

Sempre.

Tu é tão inteligente, meu filho.

Tu vai ter uma vida linda.

Agora vai lavar o rosto antes que seu pai saiba o que você fez.

Ele não pode nem desconfiar, hein?

[sonolenta] Falou comigo, vó?

[emocionada] Falei, meu amor.

Eu sempre falava com o seu pai

enquanto ele dormia.

Dorme, minha linda.

Dorme.

Mãe? Desculpa.

Vem cá, filho. Vem cá.

[Airton] Te amo.

[Geise] Também te amo, filho.

Desculpa também.

Tá? Vai.

Vai nessa.

PROBLEMA

[música de tensão continua]

[chora e funga]

[suspira]

[música clássica no ambiente]

Doutor Último, como está?

Não tão bem como o amigo.

Ah, que isso, doutor.

O colega é sempre tão elegante...

um lugar bonito como esse.

Vamos aos negócios, Burgos.

Trata-se dos caça-níqueis.

É uma febre, não?

Pois é exatamente esse o ponto.

Não podemos deixar que vire um outro tipo de febre.

Que tipo de febre?

O tipo que mata.

Doutor Último,

vamos fazer uma composição.

Meus clientes não aceitam composições. Sabemos disso melhor que ninguém.

Acontece que o meu cliente

costuma ter sempre muitos bons argumentos.

Burgos, tráfico e bicho não se misturam.

Mas acontece que as maquininhas

estão operando dentro do território do meu cliente.

A cúpula entende que não se trata de uma questão territorial.

A exploração do jogo é uma prerrogativa do bicho.

Doutor...

estamos quase chegando nos anos 2000.

Novo milênio.

Modernidade.

Outros tratos,

outros acordos. Hum?

Depois,

meia dúzia de maquininhas em meia dúzia

de birosquinhas.

Ouvi dizer que estão chegando a mil máquinas.

Não. Não, não, não. Mil, não.

Isso é intriga da concorrência.

Eu volto a entrar em contato

com o senhor pra informar a data

em que os recolhedores vão passar pra trocar os cadeados das máquinas.

[Burgos] Doutor,

nenhuma mensagem, assim,

um pouco mais otimista

que eu possa passar pro meu cliente?

A única mensagem que o meu cliente

queria passar adiante

está nessa mesa sentado à minha frente.

Só que seria do seu pescoço pra cima.

Era isso que ele ia enviar pro Evandro do Dendê.

Tenha uma ótima noite, doutor.

[música de tensão]

[fim da música de tensão]

[funk toca]

♪ Os moleque da Ilha tão foda ♪

♪ Não pode deixar ninguém largado ♪

- Tá ouvindo? - [funk distante]

O presepeiro do Wilbert tá no baile,

talvez seja a oportunidade que a gente precisa, essa distração.

E depois mandar a galera toda.

- Ô, chefe. - Cala a boca.

Vai lá e dá uma olhada. Vê como tá.

- Eu? - É, porra!

- Vai! - [cachorro late]

[funk tocando distante]

[música de tensão]

[tiros]

Não tô falando, pô? Dia de baile, fica tudo minado, porra.

Não passa nada. Os caras querem se divertir lá.

Não passa nem cachorro na ponte hoje.

Tá maluco, porra? Só falou isso agora.

Tu fez a gente vir até aqui!

Porra, chefe, tô tentando falar, o senhor não quer me ouvir.

Cala a boca, porra. Vai lá, vai.

- [homem] De novo? - Vai, porra!

[homem] Caralho. Vocês são foda.

[tiros]

[cantarolando]

[Wilbert] Qual é, MC?

- Vou de baile pro baile. - [Nuninho] Ih!

Qual é, pega visão.

Tu acha que vou pro baile com a Joana ou Bianca?

Qual que tu acha melhor?

A 762 sempre impressiona mais.

[Nuninho] Pode crer.

Acho que vou de AR, é mais estilosa.

A 762 é pra quem tem o pau pequeno.

Tá maluco, Nuninho? Que porra de pau pequeno o quê!

Ando de 762 pra cima e pra baixo. Quem falou saporra?

Tu não precisa ter pau grande, não. Tu é o chefe, porra.

Se tu fosse gordinho igual a eu,

tu ia entender o que tô falando.

[rindo] Porra.

- Aí, segura a Rafa aí. - [Nuninho] Ih, moleque...

Porra, não tem de cem, só tem essa aqui?

- Só essa daí. - [Wilbert] Vambora. Tá geral dispensado!

Uh! Vamo pro baile, neguinho! [risada]

- Baile, que saudade, moleque! - [moto ligada]

- Não morreu. Não falei? - Vamo dá uma curtida ali,

mas já tá voltando, valeu? Vamo ali, mas já tá voltando, já é?

[Wilbert] Sobe aí, Nuninho.

Caralho, tá gordão, mermão.

Tá foda, sabe como é que é...

- [Wilbert] Uhul! - [Nuninho] Partiu, já é, vamos pro baile!

Ê, batidão!

[nervoso] Falaram em começar a enviar cabeças pro morro.

E a primeira da lista sabe de quem é? É a minha.

[Evandro] Pensei que o cara fosse do meio jurídico.

Não se fazem mais advogados como antigamente.

[Burgos] Não. Ele é advogado.

Ele é meu colega.

Porra...

Ele só tava tentando me explicar

os planos dos clientes dele.

Evandro, entende uma coisa:

bicheiro não curte traficante.

Olha, não tô a fim de fazer novas inimizades.

Mas eu gostei dessas maquininhas.

[Burgos] Ah, essas maquininhas

não te pertencem, cara!

Por que a gente não fica só com o ouro branco, hein?

Por que a gente não fica só com essa coisa das armas e...

Porque eu sou diferente, Burgos.

Eu quero diversificar, quero mudar, quero crescer.

[Burgos] Crescer mais do que você já cresceu?

Evandro, olha à sua volta,

você já é dono de tudo!

Você é dono do mundo, cara, porra!

A ambição humana, vou te contar!

Você é um dos traficantes

mais bem-sucedidos que já conheci.

Ô, Burgos,

tem todo o Paraguai e a Bolívia pra eles colocarem maquininha.

Você vai ver fila de bicheiro vindo beijar minha mão.

E no Dendê.

[Burgos] Entende uma coisa...

você não conhece esses caras,

eles não brincam.

Nem eu.

[música de tensão]

Qual é a cadeira, Afonso?

É aquela ali.

Inês...

E aí, vamos fazer isso?

Pela minha mãe.

Sabe que não tem mais volta, né?

Ela não vai voltar, Afonso.

- Fica de olho aí, tá? - [Inês] Uhum.

[fim da música de tensão]

- [telefone chamando] - [suspira]

- [Evandro] Alô? - Meu filho?

Mãe?

Tá tudo bem aí?

Não. Não tá tudo bem, Evandro. Tão armando uma guerra aqui,

eu tô no meio de tudo isso com a Maria, filho.

Eu quero que você tire ela daqui.

Ela tá correndo perigo.

Mãe, calma. Sei de tudo que tá acontecendo aí.

Preciso que faça tudo que eu pedir agora

pra eu tirar a senhora com segurança. Tá bom?

Onde tá o Juninho?

Não, Evandro.

Não vou sair daqui debaixo de uma chuva de bala com a minha neta.

E nem vou entregar ela pra ninguém.

[chorando] Não confio em mais nada nem em ninguém.

Tá bom, mãe. Calma. Sei que a senhora tá nervosa.

Mas tô longe, e a senhora sabe.

Só entrego ela se for pra você.

Pessoalmente.

Você me pediu trégua, Evandro. [funga]

[chorando] E eu tô te pedindo socorro, meu filho.

[Arlete chorando]

Filho? Você ainda tá aí?

Ô, mãe, preciso que a senhora confie em mim.

Tá? Eu demoro, mas eu chego. Amanhã mesmo eu tô indo.

Prometo que não vai acontecer nada com a Maria.

Confia em mim, mãe. Vou te ajudar.

[ligação encerrada]

[música triste]

[chorando]

[fim da música triste]

Um cafezinho, por favor, amigo.

[música de tensão]

Hoje à tarde, chega um carregamento de arma.

A guerra das facções começou no nordeste e foi se espalhando.

Chegou.

Royal já atacou, já tomou a boca da ponte, que é a divisa.

Tudo indica que é só o Dendê receber as armas, que a guerra vai começar.

Tá tudo aí. Hora e o local.

Tamo quite?

O Evandro, por acaso, tá aqui?

Se a guerra acontecer como eu acho,

pode ter certeza que ele vem.

Então, se ele vier,

se a gente pegar ele,

aí, talvez um dia a gente fique quite.

Não se anima, não, filhote.

O caminho é longo.

Você não entendeu mesmo que queremos a mesma coisa, né?

Quero que o Evandro caia. Só isso.

[fim da música de tensão]

[música triste]

Vamos?

[fim da música triste]

♪ Se botar na chapa quentes Os moleque engole ♪

♪ Quero ver quem vai bater ♪

♪ De frente com o bonde ♪

- ♪ Já fui bom, agora eu sou ralé ♪ - [Wilbert imita batida]

♪ Fui pro baile com o Wil E só peguei quatro mulé ♪

[Nuninho] Você tá rindo?

Qual é, MC? Qual é, mermão? Na moral.

Peguei mulé pra caralho. Que saudade que tava do baile.

[Nuninho] Tu é o cara, né?

[Wilbert] Não comi ninguém, tô de saco duro.

[Nuninho ri]

Porra, Nuninho. Tu não pode sentar aí.

- [Nuninho] Ih. - É a cadeira do chefe.

- [Nuninho] Foi mal. - Cadeira do frente. Minha.

- Porra! - Viajei, foi mal.

Levei mó tempão pra sentar nessa cadeira.

[ofegante]

Na moral, tô pilhadaço ainda.

[Nuninho] Eu também, mano [ri]

Vamos voltar pro baile?

Tá maluco? Já tá acabando.

Sou o frente, porra!

Se eu mandar, tem que recomeçar, não é?

- Então, vambora, porra! - [Nuninho] Vambora.

Eu já dou uma abastecida nas cargas.

[Wilbert] Peraí.

Pegar só mais um pouco pra gente.

Demora não, porra.

[música de tensão]

Aí, sim [ri]

Caralho!

Fodeu!

[música de encerramento]

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