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Original subtitles

[Evandro] Tentei salvar seu pai.

[tiro]

Tentei tirar seu pai da favela e não consegui.

Não puxei gatilho.

Chefe de infraestrutura portuária

é um cargo muito importante.

O Gabriel é um zero à esquerda.

Então coloca um zero à direita aí nessa sua vontade.

- [Cassiano] Saiu o resultado da balística. - [tiros]

A arma era sua, né, Morello?

Foi roubada.

Deixa a Maria morar conosco.

Vocês não têm nenhuma condição de cuidar de criança.

Vocês não podem tirar ela de mim.

[Morello] O fax com o endereço do Evandro veio daqui.

Preciso saber quem fodeu o cara.

Ei, amigo!

Que isso, cara?

[Radinho] Ô, dona Arlete!

O que a senhora tá fazendo?

Não interessa. Sai da frente!

[batidas à porta]

- [Evandro] É o PC Dias esse cara. - Quem?

O político que roubou todo mundo.

Já que ele roubou todo mundo, vamos roubar dele e pegar pra gente.

Tinha uns apartamentos.

Uns apartamentos, é?

[homem] Dinheiro de campanha.

Tudo cash.

Evandro, fodeu. Morello.

Sai daí.

Caramba!

[música de suspense]

[Gilmar] Vem, filha da puta.

Vem aqui que eu te mato.

[música de suspense]

[gritando, atirando]

[gritando] Filha da puta!

[Wilbert] Vambora, porra!

Vambora, porra!

Segue, segue! Vai, vai!

Aí, caralho! Porra!

[gemendo, ofegante]

[empolgado] Caralho, porra! Tamo rico, caralho! [ri]

E aí, passou o cara?

Se eu passei, não sei. Mas eu acertei esse filho da puta.

[música-tema]

[Bebeto] Acho que ainda não sabe quem sou, né?

Todo mundo aqui sabe quem você é.

Mas eu gosto de me apresentar.

[música de tensão]

Eu sou o Bebeto, chefe do seu filho.

Bonita a sua casa, hein?

O que você quer na minha casa?

[Bebeto] Sabe o que é, dona Arlete?

Eu cuido do movimento como se fosse a minha casa.

Na minha casa, eu gosto de deixar tudo bem-arrumado.

Assim como na sua.

Eu fiquei sabendo, dona Arlete, que a senhora andou...

filmando o movimento. É isso mesmo?

Pra que a senhora fez essas imagens?

[Arlete hesitante] Eu...

Eu tô filmando pra igreja.

Eu quero mostrar aonde a droga leva.

Ah...

Mas eu prefiro que a senhora pare de filmar os meus homens.

E que pare de tentar tirar eles do Comando.

Eu acho que todo mundo merece uma chance.

Ninguém entra nessa vida obrigado, né?

Mas também quem se arrepende não pode sair, né?

Você não deixa.

[rindo] É, tá certo.

É justo.

Então vamos combinar o seguinte:

se alguém quiser sair do Comando pra entrar pra sua igreja,

eu vou permitir.

É só me devolver a arma.

Hum?

Agora, tem um porém.

Se o cara se arrepender,

cair em tentação novamente, aí...

vai ficar esquisito pro lado dele.

Aí, acho que nem o seu Deus

vai poder fazer nada por ele, entendeu?

Tá combinado assim?

A senhora pode ficar tranquila, viu?

Porque aqui no Dendê ninguém vai encostar um dedo na senhora.

Isso enquanto o chefe permitir.

E o chefe, no caso, não é o Evandro.

[sussurra] Sou eu.

[fim da música de suspense]

Foi um prazer, dona Arlete. Tenha uma boa noite.

Bora.

Bora.

[PC Dias] Que a condenação

é produto exclusivamente de eu ter criado contas

que eu denominei "de campanha"

para receber doações de campanha.

[batuque]

Olha, se alguns beneficiados

no meio do caminho quiseram usar o excedente...

Bom, eu não diria a você que...

Primeiro, que não é crime.

E depois, é perfeito, entende?

"Perfeito", que eu digo, dentro do sistema.

[batuque continua]

Olha, eu já disse isso tantas vezes em juízo...

na imprensa, em entrevistas...

Que me admira

eu ter passado por essa experiência

tão traumática como esse sequestro

e estar aqui agora sendo interpelado desta forma

tão invasiva como esse interrogatório.

- Porque... - [Morello] Senhor...

Meu senhor...

Isso daqui é uma colaboração de uma investigação

de um crime contra o senhor.

O senhor foi roubado, certo?

Olha...

me levaram pra uns apartamentos que eu não conhecia.

Recolheram montantes de dinheiro

nesses imóveis que eu desconheço.

Eu não sei o que vocês estão procurando, mas...

eu não tenho mais nada.

Eu perdi tudo

pagando os advogados

pra me livrar dessas acusações

injustas,

diga-se de passagem, injustas,

que sofri nos últimos tempos.

Percebe?

Então, o senhor não foi roubado?

Meu amigo, como posso ter sido roubado se o dinheiro não era meu?

[Santana ri]

[Gilmar] Caralho...

Tá quase lá.

Aí, na moral.

Tô chapado. Esse dinheiro tá mexendo comigo.

Qual foi, cara? Deixa isso aí, tô pesando.

Tá pesando pra quê?

Não dá pra contar. Tô fazendo uma estimativa.

Estimativa? É dinheiro pra caralho!

- Vamos chamar um monte de puta. - Tira a mão daí.

Aí, tamo capitalizado, hein?

Vamos usar essa porra pra expandir.

- É isso. - Ô, lindão...

você não vai me ajudar mais não?

Vamos terminar logo esse caralho, porra.

Qual foi, Gilmar? Eu, hein.

[ofegante] Porra!

Preciso de umas férias.

[Morello] Esse aqui?

Foi ele.

Esse foi um dos que me sequestrou.

Foi ele.

[música de tensão]

- E esse aqui, senhor? - Esse aqui também.

Esse aqui também.

É, eu gosto sempre de dizer

que os incompetentes são sempre bem-intencionados. [ri]

Agora, esse aqui, não.

Eu já convivi com muitos tipos, vocês imaginam.

Esse aqui é competente.

E os competentes mal-intencionados...

é, esses vão longe.

Vão muito longe.

Meu senhor,

eu não quero saber desse dinheiro.

Não é disso que eu tô interessado.

Então, vamos imaginar.

Vamos fingir

que dois criminosos te sequestraram,

te levaram pra um apartamento que o senhor não conhecia

e pegaram o dinheiro que não era seu.

- É isso. - [Morello] Tudo certo, o senhor tá salvo.

Mas agora...

agora eu quero saber cada gesto,

cada palavra,

cada movimento

que esse cidadão aqui, ó, fez na sua frente.

E aí, depois que o senhor falar tudo...

só depois...

O senhor vai poder voltar pra sua casa,

chamar um terapeuta pra cuidar desse seu trauma aí, tá bom?

Entendeu, meu senhor?

- Perfeitamente. - Desembucha.

Fala tudo que o senhor sabe. Desembucha.

Bora, rapaziada. Vambora.

[Wilbert] Vai, vai, vai...

[ri]

Ah, moleque!

Vai rápido aí, que essa chuva

vai foder meu cabelo, vai, vai.

[feliz] Ah, moleque! Tamo de volta à atividade, rapá!

[Evandro] O Bebeto é perigoso.

Pode deixar, Evandro, sei cuidar da minha vida.

E a senhora tava filmando pra quê?

Hum. Eu não te devo satisfações.

Vai me ameaçar que nem seu chefe?

Tô preocupado com a senhora e com a Maria.

A Maria tá ótima.

E você? Como é que tá?

Tô cansada, Evandro.

Você não tá cansado disso tudo não, meu filho?

O que você veio fazer aqui?

Vim evitar que a senhora entre em confusão.

Vim tentar uma vida nova pra gente, só que a senhora não colabora.

A senhora me perguntou se tô cansado.

Tô cansado pra caralho.

Tô cansado de tentar, tentar e ter a minha mãe.

A minha própria mãe me julgando, me tirando como bandido.

Nunca vai entender que tudo que faço é pela família.

Com licença.

Pela sua família, né, Evandro?

Porque a nossa

não existe há muito tempo.

Tá certo.

Evandro.

Era o Zeca que precisava de ajuda.

Mãe, por favor.

Tava tudo certo com a sua vida.

E olha onde você foi parar.

Mas foi a sua arma encontrada perto do local.

E a balística confirmou que foi a arma usada no crime.

Eu já falei, a arma foi roubada.

Reportei o roubo.

Não, não. O senhor, não.

O seu colega reportou.

O senhor estava em... paradeiro desconhecido.

Desconhecido, não. Atrás de quem roubou a arma.

E o senhor conversou com alguém?

Tem alguém que confirme seu álibi?

Não preciso confirmar álibi. Sou um policial federal.

- Não serei tratado como criminoso. - Ninguém aqui tá a fim de te indiciar.

Mas você não tá deixando alternativa!

Tem alternativa de acreditar que tão armando pra mim.

Tá bom, Morello. Você tem prova disso?

Sim. Um cadáver cheio de balas da arma que foi roubada da minha casa.

Ah, para.

Se não quer acreditar, foda-se.

- Senta, vamos conversar. - Tô de saco cheio!

- [homem] Peraí. - Deu pra mim.

Peraí. Assim tá ficando difícil, hein, Morello?

[Morello geme]

[buzina de navio]

[música suave]

[fim da música suave]

Ai, desculpa, meu amor.

Tá bom, vó.

Desculpa. É que eu tinha muita entrega,

tava lá na Baixa do Dendê. Perdão.

[Geise] Que saudade.

Como você tá?

Tudo bem?

- Você tá bem? - Com licença.

Que isso, Arlete? Só vim dá "oi" pra Maria.

Você não tem parentesco com ela.

Não quero ela convivendo com vocês.

Que insistência!

Vai fazer na força, como seu marido?

Sei muito bem o que é melhor pra minha neta.

Vamos, meu amor.

[gritando] Tchau, Maria!

[música animada]

[Afonso] Caralho.

Aí, tem pra mais de tonelada aqui, ó.

- É o total estimado. - [Wilbert] Toca aí.

Aí, Evandro. O carregamento chegou.

Ótimo. Já pode convocar a galera.

Aí, vamos conversar aqui antes.

Gilmar, desce com as bolsas.

Porra!

Porra o quê?

Todos tão trabalhando.

Não quer trabalhar por quê?

Só pensa em comer, porra.

Fica reclamando o dia inteiro.

Caralho. Na moral. Não tem jeito.

Quando olho pra esse dinheiro fico tonto.

Não tô acostumado. Não tenho estrutura. Muita grana.

[Evandro] A parada é a seguinte:

só quem tá aqui pode saber dessa grana, tá?

Vamo organizar tudo direito.

[música animada]

O núcleo de confiança vai cuidar da separação

e da distribuição do dinheiro.

Se são mil bocas que a gente tiver pra alimentar,

são mil encomendas que a gente tem pra entregar.

[música animada continua]

Com todo mundo satisfeito, não tem erro.

Tem que tá todo mundo feliz.

Até porque a felicidade é a alma do negócio, né?

Ó, ninguém que sabe do esquema pode sair de mão vazia, hein?

Despache, translado e segurança,

carga, descarga e todos os peixes grandes que tiverem envolvidos.

O bom é que dinheiro não tem preconceito,

é igual em toda parte, só muda a quantidade.

Pra pagar a ponta da pirâmide,

a gente até finge que gosta de bacana.

Faz o seguinte:

põe um dos nossos lá fantasiado de playboy. Pronto.

[Afonso] Só uma coisa, Evandro.

Sem o piloto, estamos sem esquema de lavagem.

Não dá pra guardar tudo isso, temos que pensar em algo.

Precisamos de alguém de confiança.

- [Burgos] Quem? - Pensei no meu pai.

Como é que é?

Meu pai.

Eu tenho os documentos dele.

Nunca foi declarado morto. Pro Estado, tá vivo. Laranja perfeito.

E quem vai assinar por ele?

- Pode ser qualquer um. - Qualquer um?

[Burgos] Dependendo de quanto e pra quem pagamos,

dá pra trocar a assinatura do pai dele no cartório.

Você, então.

Faz uma nova assinatura do seu Pedro com a sua letra.

Assim, só você pode tirar o dinheiro.

Evandro, é muita responsabilidade.

Você vai receber na proporção dessa responsabilidade.

Sempre foi assim, né?

Quero um esquema seguro.

Cem por cento seguro.

O Hermes dá a saída da Bolívia. A rota tá na mão dele.

- [som de fita adesiva] - [música animada]

Depois é com o Gabriel.

Agora, tem que entrar no contêiner depois da inspeção da polícia.

[música animada continua]

O Gabriel vai conseguir os lacres.

Aí, é só deixar o porto fazer o trabalho dele.

[fim da música animada]

Precisamos fazer algo pelo Dendê.

Já coloquei posto de saúde, escola, creche. Não vai pra frente.

Injetamos um dinheiro forte aqui.

Só que o dinheiro não fica aqui.

Vagabundo pega o dinheiro e vai gastar na Mesbla.

Ó o Radinho ali.

Onde ele ia comprar um desse aqui?

Parada é que aqui só tem baile e mercado.

Aqui tem que abrir pra todos. Ou abre espaço pra insatisfação. Não pode.

É foda. Vai fazer o quê?

Sair distribuindo dinheiro?

Pensei numa parada dessa mermo.

Atividade aí.

[Rosa] Meu filho entrou pro tráfico,

mas ele não disse nada pra gente.

Ele precisava de dinheiro.

Força, minha amiga.

[triste] Ai, minha filha.

Você acha

que adianta fazer alguma coisa disso?

Meu filho não vai voltar, Arlete.

Isso é muito perigoso.

Meu filho também não vai voltar não, Rosa.

Mas quantas mães ainda vão ter que perder seus filhos aqui no Dendê?

[música triste]

O Evandro precisa pagar pelo que ele fez.

[suspira]

A gente pode continuar?

O meu filho...

ele entrou pro tráfico

porque ele tinha que pagar o tratamento da minha neta.

Mas o chefe dele

deu um serviço sujo pra ele fazer.

Sabe o que era o serviço sujo?

Matar gente.

O meu filho matando gente.

Mas não demorou muito não, mataram ele também.

[funga] E a minha netinha

morreu no mesmo ano que ele.

[Arlete] E você sabe quem matou seu filho, Rosa?

Sei.

[com raiva] Sei quem mandou matar.

Evandro.

Evandro do Dendê.

[suspira]

[Rosa] Arlete...

Acha que isso vai ajudar a botar esse homem na cadeia, minha filha?

Como?

A polícia só entra quando sai no jornal, Rosa.

E você não tem medo, não?

[suspira e funga]

Você pode avisar pra quem é de bem.

Eu tô colhendo depoimentos sobre o Evandro.

E sobre tudo de ruim que o tráfico faz pra nossa gente.

[Rosa] Mas Arlete, se isso não der certo...

Eu já perdi tudo,

mas você ainda tem a sua netinha

pra você acabar de criar, mulher.

Eu sei o que tô fazendo, Rosa.

Obrigada, minha amiga.

Muito obrigada.

[portão fechando]

[música suave]

E aí, madame?

Me ligaram com urgência falando que é aqui que mora a mulher da minha vida.

Você vai ficar aí me olhando? Não vai me beijar, não vai me amar?

- [ri] - [rindo] Puto.

Desliga isso aí agora porque quero atenção da minha filha.

[rindo] Pai!

[Gilmar] Meu Deus. Ai.

Ai, que saudade!

Tá grande, tá forte, hein, chica?

Que negócio é esse de "chica" aí, hein?

Escolta pela América do Sul, meu amor.

Você acaba pegando um chica,

um gracias, um puto. [ri]

Puto!

Olha o que eu trouxe pra você, minha filha.

Ai, meu Deus! Tá pesado, hein?

É tudo pra você.

E pra mim?

Ô, meu amor. Você acha que eu ia esquecer?

- [filha] Nossa, pai, um Game Boy! - [Gilmar ri]

[Rosana] Gostei.

[fim da música suave]

[Afonso] Tem que preencher a ficha.

Nome, endereço, profissão... até o final.

Aqui embaixo,

anotar o estabelecimento que o camarada quer abrir, tá?

Pode falar. Seu nome?

[Joaquim] Joaquim Silva Matos.

- Não, mas como o senhor é conhecido? - Borracha.

Moro lá no Vietnã,

na última rua do Beco da Paz.

- E o que o senhor quer abrir? - Sou mecânico, né?

O meu sonho é abrir uma oficina.

Quanto o senhor quer?

Uns R$ 10.000.

Mas só tem um problema, eu não tenho comprovação de renda.

[ri de desdém] Isso aqui é um banco de confiança.

Não precisamos de comprovação, fica tranquilo, tá?

Entenderam?

Anota tudo, passa pra gente.

Se for viável, aprovamos e pensamos em parcelas que ele possa pagar.

- Tá certo? - [Joaquim] Maravilha.

- Qualquer coisa, faremos contato. - Vou ficar esperando.

[Afonso] Próximo.

- Nome? - Mergínio Jorge Câmera de Melo.

Como o senhor é conhecido?

Pica-pau do Norte.

[murmúrios ao longe]

Hum. Bota xilocaína aí pra disfarçar.

E aí, Salvador?

Qual é teu plano?

[Salvador] Irmão,

mais quatro cidadão desse aqui,

e a gente já pode considerar missão cumprida.

Aí, virou babá?

Tu é bandido, porra.

Tem que parar de cuidar de refém.

Mais quatro sequestros desse, eu coloco os irmão noutro nível.

- [ri] - [murmúrios continuam]

[irritado] Vou passar um. Não tô aguentando saporra.

[homem] Bagulho tá foda mermo, Salvador.

[resmungando] Vou passar um, mermão.

[murmúrios continuam]

[música calma]

Calmaê, meus amiguinho!

Ô! Sei que vocês tão acostumados a...

ser servido por um monte de empregado,

mas isso aqui é um sequestro, porra.

É tipo um hotel,

só que um hotel muito ruim, muito ruim.

- [ri] - Rosana, meu amor, calma aí.

Calma, Rosana.

Só um pouquinho, meu amor.

[geme de dor]

Que foi?

Eu não tô.

Quer dizer, ele não tá.

Não sei. Tá foda.

[suspira]

Olha só, Gilmar, tá tudo bem.

A gente vai devagar.

Devagar?

Como assim, "devagar", Rosana?

Eu sou homem de fazer as coisas devagar?

A gente tem uma filha linda, a prova aí.

Isso é coisa de quem faz as coisas devagar, Rosana?

O que tá acontecendo contigo, cara?

Tá tudo bem entre eu e a patroa.

Eu tô com saudade dela, ela de mim, qual foi, cara?

Não faz isso comigo não, cara.

[Arlete cantarolando]

[cachorros latindo]

- [portão abrindo, garrafa quebrando] - [mulher] Vou quebrar!

[música de suspense]

Vem, Maria.

[criança grita]

Quem que tá aí?

[Jerusa] Arlete?

Ai, Jerusa, que susto, minha irmã.

- Tudo bem? - [Jerusa] Tudo.

Minha irmã, eu resolvi falar.

Eu conversei com a Rosa e...

eu acho que Deus também me deu uma luz.

Botar pra fora. [suspira]

Pode contar comigo, amiga.

Obrigada.

Esses depoimentos...

esses depoimentos que você tá recolhendo

das mães...

Eu já vi muita coisa.

E vi muita coisa que o Evandro obrigou meus filhos a fazerem.

Eu quero falar dos meus meninos.

Obrigada, amiga.

Tu tava muito tempo longe, Gilmar.

Esse teu trabalho aí acaba afastando a gente.

Que nada, Rosana.

Fizeram um trabalho pra mim.

Trabalho?

Quem?

A mãe do meu chefe.

A mãe do teu chefe?

Da empresa de segurança?

É. É, da empresa de segurança.

É, a mãe do Jeferson.

Ela é macumbeira?

Não. Ela é crente.

Ela me amaldiçoou.

É sério.

Isso não é sobre maldição, não, Gilmar.

Porra.

Somos nós dois.

E tu tem que entender isso.

É maldição, Rosana.

[Juninho] Pode pegando, já tá servido, irmão.

Deus te abençoe.

Pode pegar, irmã. Já tem servido.

Só pegar, irmão. Tá servido já.

Deus te abençoe.

Só pegar, irmão. Tá servido já.

Evandro.

Tudo bem, moleque?

Na paz de Deus.

Vem, quero falar com você.

Evaristo, você assume aqui pra mim, por favor?

Obrigado.

Juninho, sabe que confio em você, né?

Já provou pra mim e pro Comando que você não arrega no serviço.

Te agradeço a confiança.

Mas agora meu compromisso é com a igreja.

Sabe o que vou te pedir?

Então calma, pô.

Quero que ponha juízo na cabeça da minha mãe.

Eu faço o que posso pela irmã Arlete.

Mas você sabe melhor que qualquer um

que não dá pra colocar nada na cabeça dela, né?

[ri] Realmente. Bom...

quero que você abra uma igreja fora do Dendê.

O Wilbert tá vendo o lugar certinho e vai te passar tudo.

Se isso for pra me comprometer com o Comando, não posso aceitar.

Comprometido você é com o Dendê.

Certo, Juninho?

[Juninho] Uhum.

Isso é recompensa, cara.

Desse trabalho maravilhoso que você vem fazendo com a comunidade.

Obrigado.

E pra ajudar a minha mãe no que ela precisar.

O que te faz pensar que ela vai aceitar essa mudança?

Aí é que tá. Essa igreja vai ser maior,

vai atrair mais gente, vai atrair mais fiéis...

E assim que a igreja ficar pronta,

quero que ponha a minha mãe como administradora.

Quero que chame ela pra ser a pastora.

Beleza?

Oportunidade boa, né?

- [fala baixo] Sim. - Hã?

Vai por mim, Juninho.

Minha mãe não é tão diferente de mim.

Bom te ter de volta, moleque.

[pássaros cantando]

- [em espanhol] Hermes. - [em português] Opa.

- [em espanhol] Olá. - [em português] Opa.

[em espanhol] Vem, Hermes, entra.

- Olá. - [em português] Licença.

- Com licença. - [em espanhol] Muito bem. Bem-vindo.

[em português] Tudo bem? Com licença.

Com licença.

[em espanhol] Não fique tímido. [ri]

Fogo? Tem fogo? Me dá.

- Hum. Tenho novidades. - [Hermes] Hum.

[em espanhol] Dos nossos amigos, os americanos.

[em português] Opa!

- Coisa boa! - [em espanhol] Sim.

O carregamento chegou como previsto.

Então hoje é um dia para comemorarmos.

- [em português] Hum, hein? - [em espanhol] Vamos, motorista.

[em português] Olá, querida.

- [em espanhol] Tudo bem? - Sim.

[em português] Vou te falar uma coisa: tô gostando muito dessa Bolívia aqui.

Ô, maravilha. [em espanhol] Tudo bem?

[em português] Sabe o que pensei?

Fala.

Coisa boba.

Mas a gente assim, na praia,

pegando sol, sabe?

Sem estresse, sem nada.

Não me sinto assim há tanto tempo.

Nossa.

Faz tanto tempo que você nem imagina.

[música suave]

[Afonso suspira]

Na verdade, lembro de ir à praia assim pequena.

Eu e meu pai.

Mas hoje isso parece tão distante.

Mas tenta ver o lado do seu pai também, né, gatinha?

Tem o trabalho dele, deve ter um monte de coisa pra se preocupar.

Você me faz bem.

Acho que meu pai vai gostar de você.

Vamos jantar lá em casa?

Eu falo com meu pai.

- Ele não vai te morder. - Acho que não dá, gatinha.

Tenho trabalho também...

Acho melhor não.

Tá.

O convite tá feito.

[Jerusa] Se eu disser que nunca vi o Comando ajudar uma família aqui,

vou tá mentindo, né?

Mas tudo tem... [suspira]

...tem seu preço.

A gente foi... Meu filho mais novo...

Assassinado.

[mulher 1] Cleiton Miranda, o Arroz...

o Marquinho...

Eu lembro o nome deles todos.

Tudo morto.

Como o meu filho.

A senhora tem o depoimento de várias mãe, é isso?

Aham.

[mulher 2] Como eu tava contando pra senhora,

quando ele mandou queimar o francês no forno de micro-ondas,

a gente viu tudo.

Ela tá falando do Charles? Do nosso jornalista Charles?

Sim.

Quando ele queimou o gringo nos pneu, foi horrível.

Ele gritava muito!

[homem] É.

Mas falta algo.

Pode ser qualquer um falando qualquer coisa.

Eu sinto muito, dona Arlete.

[vídeo rebobinando]

- [Charles] Queria falar com a senhora. - [Arlete] Sente-se.

Espera. O que é isso aí?

[Charles] É privado.

É o final da fita, porque eu usei uma fita que já tava na câmera.

[Charles] Sabe por que a senhora não consegue alugar a casa?

O Evandro não deixa.

[homem] É a voz do Charles?

- [Arlete] É. - [Charles] Quando vim, ele apontou a arma.

[homem] Por que ele te gravou?

Porque eu sou a mãe do Evandro do Dendê.

[música de suspense]

E essa é a gravação que custou a vida do Charles.

[Charles] Ele é perigoso.

Eu sei.

Me dá um minuto, por favor.

[Arlete] O Evandro acha que é dono de tudo e todos.

[mulher] Tem medo de alguma coisa?

A estratégia agora é essa?

Eu digo que sou um cagão e aí, sei lá,

o meu problema com álcool tá resolvido?

[mulher] O sarcasmo é o escudo que o álcool te impõe.

Ah, por favor...

[mulher] Me fala de alguma coisa que você

tem medo realmente.

[Morello suspira]

Rato. [suspira]

Ratos...

Por algum motivo especial?

[suspira]

Eu morava numa casa...

Aliás, eu voltei a morar na casa.

A casa tem quintal, né?

A maioria tem. A minha tem.

E quintal tem rato. [suspira]

E os ratos te fizeram algum mal?

Qual foi o mal que eles te fizeram, Vítor?

[suspira]

[música de tensão]

Eu tinha ganhado uma caixa de bombom da minha mãe.

E não era uma coisa muito comum a minha mãe me dar

uma caixa de bombom porque...

não sobrava muito dinheiro lá em casa.

E naquela época eu tinha uma...

uma mesa de futebol de botão.

E aí, uma...

uma noite, eu...

eu tava dormindo.

Eu tinha deixado tudo meio pronto, meio preparado, sabe?

A mesa tava ali no chão.

Os jogadores tava ali, cada um na sua posição.

O dadinho tava

em cima do banco e as palhetas tavam ali do lado.

Eu tava dormindo e o...

o meu sono começou a ficar meio perturbado, sabe?

Um, "rac, rac, rac, rac" no meu ouvido.

Um barulho esquisito tava chegando pra mim.

[música de tensão continua]

Eu tinha uma lanterninha.

Aí eu...

eu apertei o "on"

da minha lanterninha...

amarela.

E eu lancei a luz em cima do tabuleiro.

E lá tava ele.

De pé.

Embaixo da minha baliza.

Desembrulhando, sabe?

Um dos meus bombons.

Era um rato...

um camundongo...

Ele era pequeno, mas ele era assustador.

E...

eu peguei e desviei a luz do tabuleiro.

Fiquei em pé em cima da cama.

Eu tava apavorado. Eu tava...

assustado.

De repente, ele ficou enorme e...

e ele era um monstro.

[mulher] E o que você fez?

Eu lancei de novo a luz no tabuleiro.

[música de tensão continua]

E aí, eu pulei em cima com toda a minha força.

Eu esmaguei, eu...

eu explodi, explodi tudo...

baliza, rato... eu explodi

tudo com a sola do meu pé.

E aí foi sangue por todo lado, pra toda parte.

Ficou tudo melado.

E aí sai correndo, chamando a minha mãe.

[mulher] Foi a primeira vez que você matou?

Não. Eu já tinha matado barata.

Barata é invertebrado.

O rato é um mamífero. É completamente diferente.

Foi a primeira vez que você matou um animal?

Foi.

[mulher] E depois dele?

Você matou algum outro

ainda naquela casa?

- [suspira] - [música de tensão se intensifica]

Doutora...

[nervoso] acabou a consulta.

Não. Morello... Morello.

- Até logo. - Morello, por favor.

Tchau, doutora.

[em espanhol] Um bom negócio exige um olhar estratégico, Hermes.

E você tem esse olhar.

Você tem a atenção necessária

para os nossos negócios.

- Entende? - [em português] Olha...

- me esforço pra isso. - [em espanhol] Sim.

[em português] Entendeu? Fui do exército. Soldado.

- Me esforço. - [em espanhol] Claro. Saúde.

- [em português] Saúde. - Hum.

- [em espanhol] Uísque bom. - [em português] Muito.

- [Navarro] É pra você. - Ô.

[em espanhol] Hermes, você é bem diferente do Evandro.

O Evandro é uma pessoa muito...

- [em português] Obrigado. - ...gananciosa.

Sempre quer mais e mais.

E você, não.

É claro que você tem as suas ambições.

Mas você é um homem feliz, calmo,

no seu sitio.

[em português] Não sei se entendi bem o que você quer dizer,

Eu nem sítio tenho. Entendeu? Mas eu sou feliz mesmo.

Sou feliz, sou feliz de verdade.

O Evandro também é, Navarro. O Evandro é feliz.

Eu só acho que, assim, ele é um pouco...

agoniado, entendeu? Agoniado.

Mas, pô, muita responsa também, né, mano?

- "Responja"? - Responsa.

[Navarro] Responja...

[em espanhol] Às vezes, não entendo nada do que dizem.

- [ri] - Quem se importa?

Quem se importa?

[em português] É muita responsa.

[mulher na TV] O que você verá foi obtido

com exclusividade pelos nossos repórteres investigativos,

e mostra que pouca coisa mudou

no império de Evandro do Dendê.

Mesmo com a pesada repressão policial sofrida

- após o assassinato de Charles... - [Burgo] Isso não é nada bom.

Dá última vez, os caras entraram arregaçando.

Pois é. Manda desfazer as bocas.

Manda geral tirar tudo de lá. Seguinte:

o estoque e as armas que não forem pra contenção, enterra no mato.

- Avisa, vai. - E tu, cumpade?

Vai ficar aqui, vai encarar?

Os caras vão entrar rasgando.

- Melhor ir pra outro morro. - Não vou.

Pra outro morro não vou.

[voz distorcida na TV] Sei quem mandou matar.

Evandro.

Evandro do Dendê.

Você lembra do último dia dos seus filhos

aqui no Dendê?

Os meninos chegaram lá em casa nervosos nesse dia, agitados.

O Evandro tinha matado

um senhor que todo mundo conhecia, um marceneiro.

Já construiu coisa pra todo mundo, o seu Pedro.

E eu fiquei com isso na mente,

não tava entendendo o que a gente tinha a ver com aquilo tudo.

E aí eles disseram que o Evandro ia...

Ele ia...

enterrar o corpo do seu Pedro na mata pra que ninguém encontrasse.

[Afonso] Filho da puta.

O Evandro é assim, né?

Não precisa de vingança por algo assim pequeno.

Custa acreditar um pouco na sua mãe, porra?

O Evandro é ruim!

[mulher na TV] Vamos ver agora, com exclusividade,

às últimas imagens feitas pelo jornalista

Charles Trévoux.

[Arlete na TV] Criei meus filhos sozinha, sem ajuda de ninguém.

Mas quando meu menino Zeca morreu,

o Evandro morreu junto.

O Evandro acha que é dono de tudo e todos.

Fui eu que botei ele no mundo, mas...

[celular chamando]

[Inês] Alô?

[funga] Oi, gatinha. Sou eu.

Pensei melhor e acho que você tá certa.

Nada a ver a gente ficar evitando essa situação.

Eu e seu pai, a gente precisa se conhecer direito.

[Inês] Você vem jantar com a gente?

Eu vou.

Daqui a pouco chego aí.

[Cassiano] Tá em todos os jornais.

Vai todo mundo cair de pau em cima dele.

Só a nossa mídia pra atiçar a memória da Secretaria de Segurança.

A gente vai entrar nessa briga.

- Mas tem uma coisa. - O quê?

- A operação é do Santana. - Por favor, Cassiano.

Acha mesmo que vai pegar o Evandro entrando pela porta da frente?

Não vou participar dessa palhaçada.

[pastor na TV] O maior descarregador do Universo!

Aliás, ele é o único que descarrega.

Os outros...

Tá dormindo?

[homem] Não tem como saber.

Coragem, vai ali pela janela ali.

[pastor na TV] ...pela linha espiritual.

Envia algum tipo de estimulante

pra você não sentir que tá tão pesado.

Agora, a estratégia de quem vem falar

é o único que faz falta.

[Inês] Mais um pedaço, pai?

Hum? Uhum.

[hesitante] É... machucou feio aí?

É.

Futebol.

[Inês ri]

[rindo] Olha a cara dele de quem joga futebol.

Pai, você é muito cínico.

Foi tiro, Afonso.

Mas foi de raspão, ainda bem.

Desculpa, não quero ser inconveniente.

Mas deve ser difícil ser policial, né?

Ainda mais no Rio de Janeiro.

É.

[Inês] Afonso,

me ajuda a levar as coisas pra cozinha?

[porta rangendo]

[música de suspense]

[Geise] Ei...

Menina bonita...

[fim da música de suspense]

Dá aqui. Obrigada.

Ei.

Ei.

Relaxa.

[Inês] Uhum.

Vou te ajudar aqui, vai.

Obrigada.

[pastor na TV] Vou falar pra vocês...

A tia prometeu que ia cuidar de você. Vamos, filha, vem.

[música de suspense]

[falas indistintas na TV]

[pastor na TV] Hoje, num almoço na Fábrica de Esperança

com um grupo de presidentes de associação de moradores,

ao final da reunião...

[homem] Vai devagar.

Cuidado.

- [porta rangendo] - [falas indistintas na TV]

[música de suspense continua]

[fim da música de suspense]

Afonso, vê pra mim se tem mais alguma coisa na mesa, por favor?

Afonso, tem muita coisa aí ainda?

[Afonso] Tô levando.

[música de suspense]

Tá de carro, garoto?

Não.

Inês, vou dar uma saidinha. Aproveito e dou uma carona pro garoto.

Como assim, pai? Você tá dirigindo com essa perna?

Agora eu tô.

Maria?

[Evandro] Caralho, cadê a Geise? Falei pra ela não demorar.

Acho que vai ter que apertar mais um lugar no carro.

[Evandro] Como assim?

Maria?

Maria?

Maria!

Maria!

[Geise] Todo mundo pronto?

Ei, calma aí.

O que tá fazendo?

Gilmar, leva a Maria na casa da mãe.

Evandro, você prometeu.

Como você quer viajar sem a guarda dela?

[chorando] Alguém viu a Maria?

Viu a Maria?

[grita] Maria!

Os caras tão pra invadir o Dendê.

Eu não quero nem saber.

Ou a Maria vai com a gente,

ou eu subo o Dendê agora,

com as mala, as crianças, com a cara e a coragem que tenho,

e eu fico aqui mermo.

[grita desesperada] Maria!

[Evandro] Não farei isso com a minha mãe.

Tua mãe quer a guarda do Evandrinho?

Alguma vez ela quis saber como tava o Airton?

O que isso tem a ver?

[grita desesperada] Maria!

[Geise] Tua mãe

só liga pra Maria porque ela é filha do Zeca.

Pros teu filho, ela não tá nem aí.

[música de suspense]

[carro ligando]

[assustado] Que isso, porra?

[fim da música de suspense]

[música de encerramento]

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