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Original subtitles

O MAIS RELUTANTE DOS CONVERTIDOS

A HISTÓRIA NÃO CONTADA DE C.S. LEWIS

- Estão prontos para você, Max. - Ótimo.

- É preto. Extraforte. - Obrigado.

Certo, estamos a caminho.

BASEADO NAS OBRAS DE C.S. LEWIS,

INCLUINDO SUA AUTOBIOGRAFIA "SURPREENDIDO PELA ALEGRIA"

Um minuto para iniciar. Obrigado, pessoal. Todos prontos.

Aqui vamos nós.

- Checagem final... - Esta é a minha cadeira?

O sinal de luz vermelha, por favor.

Onde está meu telefone?

Quem tem meu telefone?

Som.

Câmera.

Certo. Como está meu cabelo?

Está bom.

Agora, silêncio, por favor.

Pronto para a tomada.

As câmeras estão gravando. Pronto...

- Tomada um. - Marque!

Silêncio!

Preparem-se, e...

Ação!

Quando eu era ateu, se você me perguntasse:

"Por que você não acredita em Deus?",

eu teria respondido: "Olhe para o Universo em que vivemos.

Quase todo espaço vazio, completamente escuro.

Inimaginavelmente frio.

A maioria dos cientistas acha improvável

que algum planeta em nosso sistema solar sustente vida,

e a própria Terra existiu sem vida por milhões de anos,

e pode existir por mais milhões

depois que a vida mais uma vez a deixar.

E o que é a vida?

Constituída para que criaturas vivam apenas atacando outras.

Nas formas inferiores, isso significa apenas morte.

Nas formas superiores, algo chamado consciência

permite que os vivos experimentem dor.

As criaturas nascem com dor,

vivem infligidas pela dor,

e a maioria morre com dor.

Na mais complexa de todas as criaturas, o homem,

outra qualidade aparece: a razão.

E pela razão podemos prever a nossa própria dor.

Chamamos isso de sofrimento.

Podemos antever nossa própria morte

enquanto desejamos intensamente continuar vivendo.

A razão permite que os humanos inventem centenas

de maneiras engenhosas de infligir muito mais dor

do que poderíamos fazer como criaturas irracionais.

Este poder nós exploramos ao máximo.

A História é nosso registro de crime, guerra, doença, terror...

com felicidade suficiente para nos dar

um medo agonizante de perdê-la.

E quando perdida,

a dor pungente de lembrar como era bom.

De vez em quando, nossa condição é melhorada

pelo que chamamos de civilização.

Mas todas as civilizações se vão.

Que nossa própria civilização cessará

é certamente provável, e mesmo que não cesse,

estamos todos condenados. O Universo está condenado.

Os astrônomos não têm esperança

de que este planeta seja permanentemente habitável.

Os físicos não têm esperança de que a vida orgânica

seja uma possibilidade permanente em cada parte do Universo material.

Não só aqui na Terra, mas em tudo.

Todos os sóis do espaço devem se esgotar.

A Natureza é um navio afundando."

Então, se você me pediu para crer em tudo isso

que acabei de descrever como a obra

de um onipotente e benevolente Deus,

eu teria rido e dito que as provas apontam na direção oposta.

Ou não há Deus por trás do Universo,

ou há um Deus indiferente ao bem e ao mal,

ou pior, há um Deus mau.

Nunca sonhei em cogitar

que se o Universo é tão ruim, ou mesmo metade ruim,

como os humanos chegaram a atribuí-lo

à obra de um criador sábio e bom?

Os homens são tolos!

Mas tão tolos assim para não inferirem

o preto do branco,

a flor maléfica da raiz virtuosa,

o trabalhador insensato daquele infinitamente sábio?

Isso abala a crença.

Não, eu não acreditava que Deus existisse.

Eu estava com raiva de Deus por não existir.

Por que as criaturas deveriam ter o fardo da existência

imposto a elas sem o seu consentimento?

Eu perdi minha mãe para o câncer.

Tive um relacionamento distante com meu pai

do qual me arrependo ainda hoje.

Estive nas trincheiras da Grande Guerra,

aquele inferno onde a juventude e o riso

vão apenas para ver homens horrivelmente destroçados

ainda se moverem como besouros esmagados.

Um morteiro me feriu matando o homem ao meu lado

e espalhando estilhaços,

alguns dos quais carrego no meu corpo até hoje.

Quando voltei a Oxford depois da Guerra, em 1919,

li as atas da última reunião da minha faculdade, de 1914.

Nada me fez perceber mais profundamente

o absoluto desperdício daqueles anos.

Me perguntaram: "Você teve muito medo na França?"

"O tempo todo", eu disse,

"mas eu nunca desci tão baixo a ponto de rezar."

Alguns têm a impressão por meus livros

que fui criado em um puritanismo rígido e vívido.

Isso é falso.

- Sr. Lewis. - Roger. O de sempre, por favor.

Você? Pode fazer dois.

É por minha conta. Edel nos encontrará uma mesa.

Você pode ficar nesta aqui.

Prontinho.

Não, a experiência religiosa não ocorreu na minha família.

Me ensinaram as coisas usuais, a dizer minhas orações,

no devido tempo fui levado à igreja.

Não me lembro de sentir muito interesse nisso.

Saúde!

Meu pai era advogado em Belfast, na Irlanda.

Ele era galês de sangue, apaixonado, retórico,

ria e chorava muito.

Quase não tinha talento para a felicidade.

Minha mãe era mais calma.

Ela era tranquila, carinhosa.

Ela tinha talento para a felicidade.

Foi direto para ela, como um viajante experiente

vai para o melhor lugar em um trem.

Eu morava em uma casa grande,

que, para um menino, parecia uma cidade.

Eu sou o produto de longos corredores,

salas vazias iluminadas pelo sol,

sótãos explorados na solidão,

ruídos distantes de cisternas e canos,

o barulho do vento por debaixo dos ladrilhos,

e uma infinidade de livros.

Livros agradáveis e desagradáveis,

livros adequados para uma criança

e livros enfaticamente não adequados.

Nada era proibido.

Nas tardes chuvosas aparentemente intermináveis,

eu quase, literalmente, lia tudo pela casa.

Jack! Não vai adivinhar o que eu achei!

- Rápido! - Ei, me espera!

- Espera! - Me alcança!

Jack, pare! Não perturbe seu pai!

Meninos!

Meninos!

Meninos.

Foram dias felizes.

Meu irmão Warnie e eu aproveitamos ao máximo.

Até a grande perda que se abateu sobre nossa família.

Uma noite, o meu pai, em lágrimas,

entrou no meu quarto para dizer à minha mente aterrorizada

coisas que eu nunca tinha imaginado.

Minha mãe tinha câncer.

- O médico disse para não... - Não acho que crianças

sofram menos que os mais velhos. Elas sofrem de forma diferente.

Então temos que ser fortes.

E toda a nossa existência se transformou

em algo estranho e ameaçador.

Sua mãe te ama muito.

A casa ficou cheia de odores estranhos,

ruídos após a meia-noite,

e sinistras conversas sussurradas.

Precisamos de bandagens...

Meu irmão Warnie e eu perdemos nossa mãe gradualmente,

à medida que ela se afastava da nossa vida

para as mãos das enfermeiras, do delírio e da morfeia.

Doutor! Obrigado...

A doença seguiu seu curso previsto.

Houve uma operação. Eles operavam na casa do paciente

naquela época.

Após uma aparente recuperação,

o retorno da doença, o aumento da dor...

e a morte.

Quando a mamãe morreu,

toda aquela felicidade desapareceu das nossas vidas.

Um grande continente havia afundado.

Agora, era apenas o mar e algumas ilhas.

Meu pai nunca se recuperou.

Com a pressão, ele falou o que não devia,

agiu injustamente.

Enquanto este homem infeliz perdia seus filhos,

bem como sua esposa,

meu irmão Warnie e eu

já tínhamos começado a mentir para ele.

Éramos dois moleques assustados,

buscando calor em um mundo sombrio.

A morte da minha mãe causou, como diriam alguns na época,

a minha primeira experiência religiosa.

Quando disseram não haver mais esperança,

lembrei do que me ensinaram,

que orações oferecidas com fé são atendidas.

Assim, eu me propus a produzir em oração

uma firme convicção pela recuperação dela.

Quando ela morreu, eu mudei.

Trabalhei para acreditar que haveria um milagre.

Eu me aproximei de Deus.

Não para vê-lo como salvador ou juiz, mas como mago.

Eu simplesmente queria que ele restaurasse o status quo.

E, quando ele tivesse feito o que foi pedido,

ele simplesmente iria embora.

A oração não funcionou.

Eu estava acostumado com coisas que não funcionavam,

então não pensei mais nisso.

A morte da mamãe, entre outras coisas,

produziu em mim um profundo e arraigado pessimismo.

Eu não estava de modo algum infeliz,

mas definitivamente formei opinião de que o Universo, no geral,

era uma instituição bastante lamentável.

A melancolia do meu pai foi um fator que contribuiu.

Um homem próspero que, pelos nossos atuais padrões tributários,

seria descrito como incrivelmente seguro.

Expressou-se na vida adulta

como estando em uma luta incessante.

O melhor que se podia esperar, segundo ele,

era evitar o asilo.

Isso se conseguia apenas com esforço extremo.

Nunca pensei em ver seus comentários sempre intensos

considerando o fato óbvio

de que estávamos vivendo vidas muito desconfortáveis.

Um viúvo temperamental ainda de luto pela perda da esposa

deve ser muito sábio para criar dois meninos barulhentos

que reservam sua confiança apenas um para o outro.

A mesma cena, reencenada várias vezes.

Então?

Quando ele abriu a boca para nos reprovar,

sem dúvida pretendia fazer um apelo curto e certeiro

ao nosso bom senso.

Vocês não têm nada a dizer em sua defesa?

Mas, infelizmente, ele tinha sido promotor público,

bem antes de se tornar pai.

As palavras vinham a ele,

e o intoxicavam assim que chegavam.

Nunca em todos os meus dias de vida,

eu estive diante de um comportamento tão recalcitrante.

Desobediência.

Desobediência deliberada e obstinada,

que consternariam os próprios fundadores da nossa civilização!

O que houve foi que um garotinho saído do banheiro em apuros,

viu-se atacado

como Catilina o foi por Cícero, símile sobre símile,

pergunta retórica sobre pergunta retórica,

o brilho no olhar do orador,

os gestos, as cadências...

As pausas.

As pausas eram o principal perigo.

Então?

Uma foi tão longa...

que meu irmão, supondo que a acusação havia terminado,

humildemente pegou seu livro e voltou a ler,

um gesto que meu pai, que apenas fez

um erro de cálculo retórico de cerca de um segundo e meio,

descreveu como:

Frio, premeditado, insolente!

A desproporção entre os discursos repreensivos

e o que os motivou, era ridícula.

Da infinidade das palavras,

surgiram ideias que eu assumi literalmente.

Talvez eu devesse fechar a casa.

Manter vocês dois na escola o ano todo.

E que deveríamos ser...

Enviados para as colônias,

para acabarem na miséria,

na carreira de crime em que ambos já embarcaram!

O efeito da retórica do meu pai durou...

até que comecei a percebê-lo como ridículo.

Aos 14 anos, eu deixei de ser cristão.

Nessa idade, ninguém quase nota.

Na escola, todos os professores e editores de livros

tinham como certo que a religião era um tipo de endemia absurda

em que a humanidade tendia a tropeçar.

No meio de 1.000 falsas religiões,

ergueu-se a nossa, a 1.001,

rotulada como completamente verdadeira.

Por que motivo, me perguntei,

ela foi tratada de forma tão diferente?

Eu estava ansioso para isso. Se Adônis podia ser explicado,

então por que não Cristo?

Então, pouco a pouco, me tornei um apóstata,

abandonando minha fé sem nenhum sentimento de perda

e com o maior alívio.

Não havia fé, esperança ou caridade na minha religião.

Eu não temia Deus, mas o inferno,

e o paraíso era apenas o menor de dois males intoleráveis.

Eu me tornei um vigoroso desmistificador

argumentando que não há provas para nenhuma religião

e que o cristianismo nem sequer é a melhor.

A religião foi inventada para explicar coisas

que aterrorizavam o homem primitivo:

trovões, pestes... cobras.

Nada era mais natural que supor

que eram animados por espíritos, e que cantando canções

e fazendo sacrifícios, podia-se apaziguá-los.

Grandes homens, como Hércules e Odin, eram considerados deuses.

Após a morte deles, portanto,

após a morte de um filósofo hebreu, Yeshua,

cujo nome corrompemos para Jesus,

um culto surgiu e o cristianismo começou.

Apenas mais uma mitologia entre muitas.

As superstições são sempre mantidas pelas pessoas comuns,

mas o pensamento instruído sempre esteve fora delas,

admitindo-as apenas por conveniência.

Eu não estava preparado para crer em um bicho-papão

que me torturaria para sempre

porque eu falhei em viver de acordo

com um padrão impossível.

ESCOLA PREPARATÓRIA PARA MENINOS ST. DUNALD'S

Com minha retirada deliberada da proteção divina,

sofri um ataque bem-sucedido de tentação sexual.

Parte disso era pela idade que eu havia chegado.

O efeito elétrico foi uma amante da dança.

Ela foi a primeira mulher a falar com meu sangue,

a quem eu olhava para desejar.

Bom dia, meninos.

Bom dia, senhorita.

Não era culpa dela.

Um gesto ou um tom de voz

têm resultados imprevisíveis nessas questões.

Por acaso, a sala da escola estava decorada para dança.

Ela entrou e disse:

Eu amo o cheiro das bandeirinhas!

E eu fiquei sem ação.

Agora, vamos começar.

Sigam todos meus movimentos.

Obrigada, Elsie.

Para cima...

e para baixo.

E para cima...

E dedos delicados.

Dedos delicados. Ótimo! Dedos delicados...

E um balanço...

Balanço...

Balanço...

Não era um cavaleiro se dedicando a uma dama,

mas mais um turco olhando para uma mulher circassiana

que ele não podia pagar.

Eu sabia o que eu queria.

Você pode pensar que isso produziu culpa.

Culpa não era uma coisa que eu conhecia.

Muito bem, meninos!

Muito bem!

Eu tinha sido um menino de coração sensível,

mas agora dava duro para me tornar um exibido,

um cafajeste, um esnobe.

Eu era, naquela época, tão amoral

como uma criatura humana poderia ser.

Ei, Lewis!

Aproveite as férias, sim?

Sim, senhorita.

Aí está você! Onde esteve?

- Desculpe, pai. - Vamos, vamos!

Ele não esperará você.

Obrigado.

Eu não podia contar ao meu pai sobre minha mudança de crença.

Ele não era tolo. Ele ainda tinha um traço de gênio.

Mas para um homem que foi formidável no tribunal

e, presumo, eficiente em seu ofício,

ele tinha mais poder...

para confundir uma questão

do que qualquer homem que já conheci.

A primeira barreira à comunicação

foi ter feito uma pergunta

que ele não ficaria para a resposta.

Diga a ele que um menino chamado Churchwood

pegou um camundongo e o manteve como animal de estimação.

Ele iria perguntar:

O que aconteceu com o jovem Chickweed

para ter tanto medo de ratos?

Quem, senhor?

Chickweed.

Acho que quer dizer Churchwood.

Era um camundongo, não um rato.

E ele não tinha medo dele.

Nem um pouco.

As tentativas de corrigir a versão dele

produziram um incrédulo.

Essa não é a história que você costumava contar...

- meu rapaz. - Tudo isso explica...

mas não justifica,

um dos piores atos da minha vida.

Eu permiti me preparar para a confirmação,

ser confirmado, fazer minha primeira comunhão,

tudo em total descrença.

Eu fazia um papel, comendo e bebendo

minha própria condenação.

Eu sabia que estava mentindo,

mas simplesmente não podia contar ao meu pai

minhas verdadeiras opiniões. Não que ele tivesse parado.

"Vamos conversar sobre isso", ele teria dito.

Mas o fio se perderia imediatamente.

Os argumentos dele...

Eu não daria valor a nada...

A beleza da versão autorizada,

a tradição cristã...

Era tudo sentimento.

E se eu tentasse esclarecer os pontos da minha visão,

sairia um trovão dele,

e um chocalho fino e rabugento de mim,

tampouco o assunto seria abandonado.

Tudo isso eu deveria ter ousado fazer...

em vez da coisa que eu fiz.

Parecia impossível na época.

A covardia me levou à hipocrisia,

e a hipocrisia...

à blasfêmia.

Os anos passaram,

então a coisa mais feliz possível aconteceu.

Mais à direita, por favor.

Meu pai havia declarado que enviaria meu irmão a um tutor,

em Surrey, ao sul de Londres.

Obrigado.

Em um tempo surpreendentemente curto,

esse tutor reconstruiu as ruínas da educação do Warnie,

e ele passou para Sandhurst,

recebendo um prêmio para cursar na Academia Militar.

Por algum tempo, minha própria escolaridade

não estava indo a lugar algum.

Não havia ocupado minha mente nem meu coração.

Mas ao ver meu irmão progredindo,

finalmente criei coragem para perguntar.

Jack! Jack! Está aí em cima?

Venha, garoto. Pegue seu casaco.

Já estamos 10 minutos atrasados.

Papai, quando você mandou o Warnie para Surrey,

para seu antigo tutor, o Sr. Kirkpatrick.

Sim. O "Grande Knock", como costumávamos chamá-lo.

Warnie pareceu se beneficiar muito com ele.

Com certeza. Ele é um bom professor.

Eu estive pensando.

Não seria bom...

me mandar para Surrey também?

Bem, não haverá outros rapazes.

Você não poderá jogar seus jogos.

Eu tentei parecer sério.

"Sem outros rapazes."

"Nunca mais jogar."

Eu fui transportado.

Sim, este é o dia em que o resto da minha vida

realmente começou.

Eu ainda era adolescente quando fui para a Inglaterra

e desci em Surrey para conhecer meu novo tutor.

Eu não tinha certeza do que esperar.

À primeira vista, ele parecia bastante decente.

Olá, prazer em conhecê-lo.

William T. Kirkpatrick.

O "Grande Knock".

Seu aperto de mão era como pinça de ferro.

Siga-me!

Lembro de sentir a necessidade de conversar

do mesmo modo deplorável que achava necessário com meu pai.

Estou surpreso com a paisagem de Surrey, senhor.

É mais selvagem do que eu esperava.

Pare! O que quer dizer com selvagem?

E em que fundamentos você baseia suas expectativas

sobre a flora e a geologia de Surrey?

Em mapas, fotografias, livros?

Desculpe, senhor.

Como resposta após resposta foi rasgada em pedaços,

Kirk concluiu que meu comentário não tinha sentido,

e que eu não tinha direito de ter qualquer opinião sobre o assunto.

Nunca me ocorreu que meus pensamentos

precisavam ser baseados em algo.

Aquela conversa durou três minutos,

e definiu o tom dos meus dois anos em Surrey.

A dialética implacável de Kirk

era o único modo pelo qual ele falava.

Era um espanto para Kirk

que alguém não quisesse ser corrigido.

Kirk morava com sua esposa

em uma confortável e isolada casa nos limites do vilarejo.

Foi tudo muito maravilhoso.

- Seja bem-vindo! - Seja bem-vindo!

Ponha sua maleta aqui.

Eu me senti acolhido assim que entrei lá.

O lugar todo estava repleto de livros.

Eu tinha chegado ao meu lar.

E esta é minha esposa, Louisa.

Prazer conhecê-la, Sra. Kirkpatrick.

- O prazer é nosso. - Vamos mostrar o seu quarto.

- Está tudo preparado. - Desça quando estiver pronto...

e começaremos a pôr essa sua mente em forma.

Aqui está.

Espero que você goste.

E a propósito, não se preocupe com meu marido.

Ele gosta de discutir.

Bastante.

A maioria dos rapazes se acovardaria com tudo isso.

Adorei o mimo, mas era carne vermelha e cerveja forte.

Após alguns golpes,

eu comecei a ganhar massa intelectual...

e me tornei uma espécie de sparring

para meu novo tutor.

Se eu pudesse me dar ao luxo, viveria sempre como vivi aqui.

Café da manhã às 8h, na minha mesa às 9h,

para ler e escrever precisamente até as 13h,

e então, o almoço.

Muito delicioso. Obrigado, Sra. Kirkpatrick.

Bom.

Sim, eu fui encorajado a comer, assim como a pensar.

Sair para um passeio a dois, mas não com um amigo.

Andar e falar são dois grandes prazeres,

mas é um erro combiná-los.

Nosso ruído bloqueia os sons e os silêncios

do mundo exterior.

Obrigado.

Meu retorno e a chegada do chá

coincidiriam exatamente às 16h, passadas na solidão.

Comer e ler são dois prazeres que combinam admiravelmente.

Trabalhar até as 19h, mergulhado nos clássicos,

sem demorar muito.

Boa conversa a noite toda, sempre desafiadora,

com temas que agitam o cérebro.

Na cama às 23h, a menos que você esteja

passando uma noite no pub com seus amigos.

Passável. Você ainda está um pouco instável na precisão.

E temo que você tenha perdido minha orientação

sobre os clássicos, completamente.

Aquele que não sabe, não será ensinado...

pela instrução dos sábios.

Este homem não é...

Heródoto.

Ele sabia uma ou outra coisa.

Esse não é Heródoto.

É Hesíodo.

Prove.

É de seu poema... "Dias de Trabalho".

Eu o tenho em algum lugar.

Aqui.

Bom rapaz!

Meu trabalho era principalmente latim e grego.

Primeiro, Homero.

Ainda aprecio o brilho e a música dele.

Então, os dois grandes chatos:

Cícero e Demóstenes não podiam ser evitados.

Seguido por Lucrécio.

A glória!

Heródoto, Ésquilo, Eurípides.

Não tinha gosto por Virgílio.

À noite, dominávamos o francês, o italiano e o alemão,

mergulhando em nomes como Voltaire, e Fausto no Inferno.

Kirk foi meu grande professor.

Minha dívida permanece até hoje.

Quanto à religião, ele era um ateu presbiteriano.

Aos domingos, ele jardinava com roupas mais bonitas.

Entre os poetas que eu lia na época,

um se destacou:

William Butler Yeats.

Ele acreditava que havia um mundo além da cortina material,

e que o contato com esse mundo era possível.

Eu considerava Yeats um escritor responsável e culto.

Mais tarde, quando o conheci, sua personalidade me impressionou.

E ele rejeitou toda a filosofia materialista

de imediato.

Se Yeats fosse cristão, eu o teria ignorado.

Para mim, os cristãos eram descartados para sempre.

Mas Yeats oferecia algo mais: um talvez.

E por este talvez,

uma gota perturbadora de dúvida caiu no meu materialismo,

me apresentando a algo que passou a me causar problemas:

um desejo voraz pelo sobrenatural,

ou, para ser mais franco, o oculto.

Uma vez, tentei descrevê-lo em um romance.

É um desejo espiritual,

e, assim como o desejo da carne,

ele tem o poder fatal de fazer todo o restante

parecer desinteressante enquanto durar.

Eu adorava a indeterminação daquilo.

Círculos, pentagramas,

tabuleiros ouija, sessões espíritas,

tudo parecia capaz de levantar um espírito.

Toda aquela magia!

Nenhuma conexão do meu ateísmo

me influenciou para campos diferentes.

E o fato de ter sido desprezado tanto por cristãos

e por racionalistas, atraiu o rebelde em mim.

Minha descida foi da excentricidade...

à perversidade.

O mundo e a carne haviam aparecido.

Agora, veio o diabo.

Se na vizinhança houvesse algum ancião envolvido com isso...

e eles têm faro para discípulos em potencial,

eu poderia ser agora um satanista ou um maníaco.

Então...

em uma misericórdia superabundante,

veio o evento que tenho tentado descrever

em muitos dos meus livros.

Eu tinha o hábito de caminhar alguns quilômetros

até a estação Leatherhead,

e pegar o trem de volta para a casa do Kirk.

Enquanto esperava o trem, eu vasculhei o sebo

e peguei um título incomum:

"Phantastes: A Terra das Fadas", de George MacDonald.

Parecia um tanto diferente.

Eu não tinha a menor noção em que eu tinha me metido.

- Este aqui, por favor. - Dois centavos, senhor.

Muito obrigado, senhor.

Me desculpe!

Quando comecei a ler meu novo livro,

fiquei eletrizado.

Me senti como um mineiro que encontrou ouro.

Naquelas páginas, encontrei tudo

que havia me encantado em Yeats e outros.

No entanto, tudo mudou.

A sombra brilhante que saía daquele livro,

transformou tudo,

e isso afetaria para sempre a minha própria escrita.

Era como se eu tivesse morrido em um velho país

e renascido em um novo.

Todas as minhas fantasias ocultas e eróticas

começaram a parecer sórdidas.

Desarmado, o que eu realmente queria

estava fora de alcance.

Não por algo que eu não pude fazer,

mas por algo que não pude deixar de fazer.

Se eu pudesse deixar partir...

Me desfazer...

Eu não sabia o nome dessa nova qualidade.

Agora eu sei:

Santidade.

Naquela noite, enquanto eu lia "Phantastes",

minha imaginação foi batizada.

O resto de mim, demorou um pouco mais.

A conheci primeiro como uma memória

surgida de repente e sem aviso da profundidade não de anos,

mas de séculos.

A memória era da infância, quando meu irmão

trouxe a tampa de uma lata de biscoito,

decorada com galhos e flores para fazer um jardim de brinquedos.

Foi a primeira beleza que eu conheci,

uma sensação de desejo.

Mas antes que eu soubesse o que desejava,

o desejo sumiu, se retraiu, e o mundo voltou a ser comum.

Desde então, meu esforço constante

foi obtê-lo novamente,

lendo todos os livros, fazendo todas as caminhadas,

ouvindo cada peça de música.

Ocasionalmente, o céu virava.

Com muito mais frequência,

eu o assustava com minha ganância em tê-lo.

Eu chamo esse desejo de alegria,

que deve ser distinguido de felicidade ou prazer,

exceto que qualquer um que já experimentou alegria

irá querê-la de novo.

Além disso, pode ser chamada de um tipo particular de luto.

Mas então, é o tipo que queremos.

É o perfume de uma flor que não encontramos,

o eco de uma música que não ouvimos.

Notícias de um país que ainda não visitamos.

Duvido que alguém que já tenha provado a alegria...

a trocaria por todos os prazeres do mundo.

Mas a alegria nunca está em nosso caminho.

O prazer está.

Aos 18 anos, eu cheguei a Oxford.

O lendário aglomerado de torres e pináculos sonhadores

jamais pareceu tão belo.

Menos de um semestre depois, como a maioria da minha geração,

me alistei no Exército,

e fui enviado à linha de frente na França,

no meu aniversário de 19 anos, para ser exato.

A primeira bala que ouvi não trouxe medo,

mas o pensamento:

Isso é a guerra.

Foi sobre isso que Homero escreveu.

Cinco meses depois, fui ferido e mandado para casa.

Nesse meio tempo, eu tive a sorte

de adoecer com febre das trincheiras.

Comparado às trincheiras, uma cama de hospital e um livro

eram o próprio paraíso.

Como está esta noite, tenente Lewis?

Bem. Obrigado, enfermeira.

Stanley, acho que está na hora da sua inspeção.

Sim, enfermeira.

Exceto que a enfermeira noturna estava tendo

um caso tórrido com meu colega de quarto.

Eu estava doente demais para ficar envergonhado,

mas o som de dois namorados sussurrando na noite...

é um barulho tedioso.

Foi aqui que li pela 1ª vez G.K. Chesterton.

Não o conhecia e não fazia ideia do que ele representava,

nem conseguia entender por que isso me conquistou.

Seu humor era do tipo que eu gosto.

Não eram piadas, muito menos um tom de irreverência.

Isso eu não posso suportar.

Em vez disso, seu humor era a flor de seu argumento.

Por mais estranho que pareça, gostava dele por sua bondade.

Não que isso tivesse algo a ver com eu mesmo ser bom.

Eu não tinha o nariz cínico para hipocrisia e presunção,

tão comuns entre meus colegas.

Em Chesterton, assim como em MacDonald,

eu não sabia em que estava me metendo.

Um jovem que deseja permanecer um ateu sadio

não pode ser muito cuidadoso nessa leitura.

Após minha convalescença, eu voltei para a linha de frente.

Espere!

Apague a luz!

- Se abaixem! - Recuar!

No momento em que fui atingido

e descobri que não estava respirando,

concluí que isso era a morte.

Não senti medo, nem coragem, apenas o pensamento:

Aqui jaz um homem que morreu.

Não foi sequer interessante.

O fruto desta experiência

é que apareceu um eu totalmente consciente,

cuja ligação comigo estava chegando ao fim,

e eu, quem quer que fosse,

não poderia ter me importado menos.

Foi mais do que uma abstração.

Eu provei.

Quanto ao resto da guerra, o frio, o medo, o susto...

os cadáveres.

Foi uma pavorosa interrupção da vida racional.

Agora, parece que aconteceu com outra pessoa.

Exceto pelos pesadelos recorrentes.

Quando voltei a Oxford, adotei uma nova aparência,

que significava agir com o maior bom senso,

e não ter mais flertes com o sobrenatural.

Logo após a guerra, passei quinze dias

com um homem que eu amava muito, e que estava enlouquecendo.

Eu o segurei enquanto ele chafurdava no chão

e gritava: "Os demônios estão me despedaçando!"

"Estou caindo no inferno!"

Eu sabia que esse homem flertou

com todos os tipos de ideias ocultas, como eu.

Talvez não houvesse conexão, mas tomei isso como um aviso

para permanecer no caminho comum,

no centro da estrada de material aprovado,

com as luzes acesas.

Os primeiros dias da minha nova aparência foram felizes,

ocupado em meus estudos de clássicos e filosofia.

À época, fomos todos arrebatados por Freud e sua nova psicologia.

Aos meus 20 e poucos anos,

fui eleito membro do Magdalen College,

e assim começou minha carreira como acadêmico e professor.

- Depois de você, garoto. - A resposta, claro, é essa...

Até forneceram salas para que eu lesse

e escrevesse meus tutoriais.

Eu tinha chegado.

Senti ter encontrado um lar

com alguns dos melhores acadêmicos que já conheci.

Éramos jovens, lúcidos, invencíveis.

Então, um dia, meu querido amigo

Owen Barfield,

que satisfez minha fome por debate e oposição racional,

anunciou que ele havia mudado de opinião.

Ele não era mais um materialista, e se tornou um teísta.

Fiquei chocado. Achei que Barfield estava a salvo.

Ele veio de uma família com livre pensamento,

mal tinha ouvido falar do cristianismo.

Barfield assumiu todas as abominações:

Deus, espírito, vida após a morte.

Eu disse: "Droga Owen, isso é medieval."

Droga Owen, isso é medieval.

Pode dizer isso Jack, mas o mundo medieval

tem muito a nos ensinar.

Você quer dizer que a Terra é plana?

Por favor, Jack, seja sério. Abra a sua mente.

Eu abri.

E como um sábio homem certa vez me disse,

aquele que não conhece...

Isso começou nossa grande guerra.

Nossa disputa filosófica que durou anos.

Lembro de Barfield perguntar:

Jack, você acredita que a lógica e a razão

trazem uma verdade indiscutível?

Eu acredito.

E seus julgamentos morais e estéticos são válidos?

Eles são.

Então o materialismo deve ser abandonado.

Há uma discórdia entre o que nossas mentes

afirmam ser, e o que elas realmente devem ser,

se o materialismo for verdadeiro.

Afirmamos que nossas mentes são perceptivas da razão,

de princípios intelectuais universais, leis morais,

e possuem livre arbítrio.

Mas se o materialismo é verdadeiro, nossas mentes, na realidade,

são só meros arranjos aleatórios de átomos em crânios.

Eu, claro, refutei.

Devemos aceitar a realidade como nossos sentidos a revelam.

E as descobertas da ciência concluem que a razão humana

é apenas mapas cognitivos resultantes da seleção natural,

com mutações aleatórias ao longo de milhões de anos,

para dar aos humanos uma vantagem reprodutiva

sobre outras espécies.

Eu tinha que dizer alguma coisa.

Eu vinha defendendo o materialismo há anos.

Veja.

Se meu raciocínio me diz

que minha mente nada mais é do que o resultado acidental

de átomos colidindo em crânios, deve haver algum engano.

Como confiar em minha mente quando ela me diz que

meus pensamentos mais profundos são meros padrões mentais,

resultantes da hereditariedade e da física?

A noção de Barfield...

de que, se o materialismo for verdadeiro,

minha mente consciente seria nada mais

do que átomos colidindo em crânios...

Isso era simplesmente inacreditável para mim.

Eu não podia forçar meu pensamento nisso

mais do que poderia coçar minha orelha com meu dedão do pé.

Era tão definitivo quanto uma impossibilidade física.

Mente, razão, imaginação, consciência,

devem ser mais do que simples bioquímica.

Deve ser uma participação real.

Algo mais distante, mais profundo.

A realidade do fundo do poço tinha que ser inteligente.

É surpreendente eu não ter visto isso antes.

Cegueira intencional, eu suponho.

E tive o cuidado de não ligar

a realidade do fundo do poço com Deus,

meu ceticismo não me permitiria ir tão longe.

Em vez disso, liguei-a ao próprio Universo.

Ainda assim, tinha uma potência imensa.

Atrás da cortina material estava a glória oculta.

Barfield e eu começamos a falar religiosamente sobre o absoluto.

Claro, esta era uma religião que não custava nada.

Não era pessoal.

Não faria nada.

Não levaria a lugares escuros onde os homens gritam

que estão sendo arrastados pro inferno.

Estava lá.

Nunca viria aqui. Seria um incômodo a si mesma.

Dentro do corpo docente, fiz amizade com Hugo Dyson,

e J.R.R. Tolkien...

ambos cristãos.

Essas pessoas estranhas surgiam por todos os lados.

Houve uma perturbação mais ampla.

Todos meus livros se voltaram contra mim.

Eu devia estar cego como um morcego,

para não ter visto isso antes.

George MacDonald me atingiu mais do que qualquer outro escritor.

Claro que ele tinha sua obsessão sobre o cristianismo.

Ele era bom apesar disso.

Spenser, Dante, e Milton também.

Achei Chesterton o mais sensato homem vivo,

tirando seu cristianismo.

Comecei a pensar que o cristianismo

era algo sensato, exceto pelo seu cristianismo.

Por outro lado, aqueles escritores que não admitiam religião

e com quem minhas simpatias deveriam ter sido completas:

Shaw, Wells, Gibbon, Voltaire...

pareciam magros, minúsculos.

Todos eles eram divertidos,

especialmente Gibbon, mas não mais.

A aspereza e a densidade da vida

não apareciam nos livros deles.

Concluí que aqueles sem uma mente filosófica treinada

poderiam chegar perto da noção de um ser absoluto

crendo em um Deus.

E distingui a minha crença muito nitidamente

do Deus da religião popular.

Não havia possibilidade de ter uma relação pessoal com ele.

Eu não poderia conhecê-lo mais do que Hamlet conhecer Shakespeare.

E eu também não o chamei de Deus.

Eu o chamei de Espírito.

Deve-se lutar pelos confortos que restaram.

Nessa época, um dos meus colegas tutores,

o ateu mais ferrenho que já conheci,

senta na minha sala, do outro lado da lareira,

e comenta:

"A evidência para a historicidade dos evangelhos

é surpreendentemente boa.

Que coisa, toda aquela mitologia sobre o deus moribundo.

Que coisa, parece que realmente aconteceu uma vez."

Eu fiquei despedaçado.

Se ele, o cínico dos cínicos,

que nunca mostrou interesse pelo cristianismo,

também não poderia mais ser considerado a salvo,

para onde eu me voltaria?

Antes de Deus me cercar,

me foi oferecido um momento de livre escolha.

Eu estava sentado em um ônibus para Headington Hills

pensando que vestia uma armadura,

tentando manter algo longe.

Eu poderia retirar a armadura, ou mantê-la.

A escolha parecia importante.

Eu escolhi retirar.

Não parecia impossível fazer o oposto.

A iniciativa não era minha.

Se Hamlet e Shakespeare se encontrassem,

teria que ser por Shakespeare.

Ele poderia escrever si próprio na peça.

O que chamei de Espírito começou a mostrar

uma tendência alarmante de se tornar pessoal.

Em minha mente, rastejava uma novidade horrível:

Eu realmente acreditava em algo.

Agora que tinha tropeçado nisso,

eu sabia que não podia mais brincar de filosofia.

Estava na hora de algo ser feito.

O absoluto havia chegado.

Fazendo um transtorno, emitindo um comando.

Todos os meus atos e desejos deveriam se alinhar

com esse Espírito absoluto que eu agora acreditava.

Pela primeira vez,

eu me examinei com um propósito prático sério.

O que eu encontrei me assustou.

Profundidade após profundidade de orgulho,

narcisismo,

um zoológico de luxúria, um tumulto de ambições,

um berçário de medos, um harém de ódio afagado...

O meu nome é legião.

Agnósticos afáveis falam alegremente

da busca do homem por Deus,

assim como podem falar da busca do rato pelo gato.

Tudo que eu sempre quis foi não ser interferido,

poder chamar minha alma de minha.

Fique fora! Privado! Isso é da minha conta!

Mas ninguém falava levianamente dos confortos da religião.

É pouca coisa entregar-se cegamente a um guia

quando a própria exibição pode levar você

à pobreza, ao ridículo, à morte?

Eu sabia que não me permitiria fazer nada

intoleravelmente doloroso.

Eu seria razoável.

E isso seria razoável?

Nenhuma garantia foi oferecida.

Era tudo ou nada.

Enquanto os ossos secos tremiam no terrível vale de Ezequiel,

o Espírito absoluto começou a se agitar,

se levantar e se desfazer de suas roupas funerárias.

Ele disse:

"Eu sou o Senhor."

"Sou o que sou."

"Eu sou."

Você deve me imaginar sozinho em meu quarto em Magdalen.

Noite após noite, sentindo sempre que minha mente se elevava,

mesmo que por um segundo, do meu trabalho,

a abordagem constante e implacável

daquele a quem eu desejava tão sinceramente não conhecer.

Aquilo que eu tanto temia...

finalmente me encontrou.

No último trimestre, no verão de 1929...

eu cedi.

E admiti que Deus é Deus.

Se ajoelhou e rezou naquela noite,

talvez o mais abatido e relutante convertido

de toda a Inglaterra.

Eu não via como o amor divino

aceitaria um filho pródigo nestes termos.

Chutando, lutando, se ressentindo,

lançando seus olhos em todas as direções,

procurando uma chance de escapar...

A dureza de Deus é mais gentil que a suavidade do homem.

A coerção dEle é a minha libertação.

Você deve entender que a conversão que descrevi

foi apenas ao teísmo, puro e simples,

não ao cristianismo.

Eu não sabia nada da encarnação.

O Deus a quem me rendi não era humano.

Eu não tinha nenhuma crença na vida após a morte.

Para mim, isso parecia um suborno.

Meu argumento contra Deus era que o Universo

era muito cruel e injusto.

Mas de onde eu tirei essa noção de cruel e injusto?

Eu chamo de linha torta,

pois tenho alguma ideia de uma linha reta.

Com o que eu comparava o Universo,

quando o chamei de cruel e injusto?

Se todo o Universo não tem significado,

eu nunca deveria saber que não tem significado.

Toda a minha mente racional estava convencida

de que o Universo não pode se explicar,

que Deus está por trás do Universo, que Ele tem propósitos,

e deve ser obedecido simplesmente porque ele é Deus.

Suponho que minha religião era como a dos judeus.

Assim que me tornei teísta,

comecei a frequentar minha paróquia aos domingos,

e a capela da faculdade durante a semana.

Não por acreditar no cristianismo,

mas porque achava que deveria hastear a bandeira.

A igreja era um assunto pouco atraente.

Gosto do clero como gosto de ursos, mas não tenho desejo maior

de estar na igreja como de estar em um zoológico.

Igreja para mim significava arquitetura feia.

Música de dar pena, poesia ruim...

Hinos são extremamente desagradáveis para mim.

E o incômodo naquilo tudo, as multidões, os avisos...

a perpétua organização.

Antes de nossa oração final, um anúncio rápido.

Quem quiser se juntar à Edith na rota das flores,

ela está desesperada por voluntários,

por favor, fale com ela depois perto da pia batismal.

Rezemos.

Ilumine nossas trevas, nós rogamos, ó Senhor,

e que Sua grande misericórdia nos defenda de todos os perigos

e perigos desta noite,

por amor de Seu único Filho, nosso salvador Jesus Cristo.

Amém.

Minha nova convicção em um ser superior

não me fez exatamente um membro modelo

na Igreja da Inglaterra.

Mas, agora que eu acreditava em Deus,

eu queria saber mais sobre Ele,

de qualquer fonte, pagã ou cristã.

A questão não era mais encontrar a única

e verdadeira religião entre muitas,

mas onde essa coisa havia crescido.

O paganismo foi a infância da religião.

Onde ela atingiu a maturidade?

Quanto aos materialistas, sua visão estava fora de questão.

Se a razão é apenas o resultado acidental

de átomos colidindo em crânios,

eu não via razão para acreditar

que um acidente deve dar a causa correta

para todos os outros acidentes.

Minha lealdade estava agora com a massa da humanidade

que dançava, cantava, orava...

e louvava.

Não há realmente uma infinidade de religiões.

Para mim, as únicas que vale a pena considerar

são o cristianismo e o hinduísmo.

O islã é apenas a maior das heresias cristãs.

O budismo é apenas a maior das heresias hindus.

Tudo o que há de melhor no judaísmo e Platão

sobrevive no cristianismo,

e o hinduísmo não possui nenhuma reivindicação histórica.

Isso foi posto na minha cabeça por aquele ateu ferrenho,

que disse: "Toda aquela mitologia sobre o deus moribundo...

parece que realmente aconteceu uma vez."

Um dia, Tolkien e eu demos um passeio por Addison.

Enquanto conversávamos, eu disse:

Tollers, eu passei, com considerável resistência,

a acreditar em Deus...

mas não no cristianismo.

Jack...

Não consigo acreditar em algo que não entendo.

Como a vida e a morte de quem quer que seja,

há 2.000 anos, pode nos ajudar aqui e agora?

Quando você vê um deus se sacrificar em uma história pagã

como Dionísio, Balder, Osíris, ou mesmo em um conto de fadas,

você gosta e é misteriosamente comovido por isso.

Exceto se você o encontrar nos evangelhos.

A história de Cristo é um mito,

da mesma forma que outros mitos,

com a tremenda diferença de que realmente aconteceu.

De repente, uma rajada de vento nos interrompeu, me assustando.

Tantas folhas caíram no chão que pensei estar chovendo.

Segurei minha respiração.

Vamos, Jack. Você é muito sem noção.

Sabe que Dyson odeia sentar naqueles degraus até poder entrar.

Não sei se Tollers se lembra daquele momento.

Eu sim. Suas palavras acertaram em cheio.

Não importava o quão relutante, eu estava começando a me mover.

Tollers e eu conversamos noite adentro.

Hugo Dyson estava conosco.

- Carne? - É, carne.

- Torta sensacional. - Você fez uma bagunça aí.

Agora, essas coisas colocarão pelos no seu peito.

Aqui está!

Façam espaço.

Vamos lá!

Posso estar preparado para aceitar Jesus

como um grande mestre moral,

mas não posso aceitar que ele seja Deus.

Qual é, Jack.

Como um mero homem seria chamado de grande mestre moral

e diria as coisas que Jesus disse?

Como?

Que ele sempre existiu.

Que ele voltaria para julgar o mundo.

Homens assim são considerados uma fraude. Lunáticos.

Apesar da minha resistência,

eles me convenceram de que, em toda a literatura,

nada mais é como os evangelhos.

Os mitos até se parecem com suas histórias de milagres,

histórias que também possuem atenção aos detalhes minuciosos,

mas nada é simplesmente como isso.

E nenhuma pessoa é como a pessoa retratada.

Tenho certeza que há muita gente que acredita ser Deus.

Nossos hospitais estão cheios deles.

Qual é, Jack. Seja sério.

Nunca um grande mestre moral afirmou isso,

exceto Jesus, e você sabe disso.

E ele continuou e continuou...

Como assim?

Alegou perdoar os pecados,

e deixou-se ser a parte lesada em cada transgressão.

Olha, em qualquer outra pessoa isso seria considerado tolice.

Se você me dissesse que dois colegas

o fizeram perder um cargo de professor

contando mentiras sobre seu caráter,

e eu respondesse:

"Perdoe incondicionalmente os dois."

- Não acharia pura loucura? - Seria pura loucura.

Porém, mesmo aqueles que se opuseram a Jesus

admitiram que ele expressou uma verdade moral profunda e pura,

cheia de sabedoria e astúcia.

"Sabedoria e astúcia."

Você o faz soar como Salomão, o grande.

Ao contrário, a história o chama de humilde e manso.

Mas não quer notar isso, não é, Jack?

Humildade e mansidão são as últimas coisas

que alguém atribuiria a quem faz afirmações de um megalomaníaco.

O "Grande Knock" me ensinou

a envergonhar a inconsistência.

Se as declarações de Jesus são falsas,

o cristianismo não tem importância.

Sendo verdade, é de importância infinita,

mas o que ele não pode ser é moderadamente importante.

Então, o que estão dizendo?

Simplesmente que, ou este homem era, e é,

o filho de Deus...

ou então ele é um mentiroso, um lunático ou uma fraude.

Mas todo esse absurdo sobre ele ser um grande professor de moral,

não é uma opção para nós, nem pretendeu ser.

Senti uma resistência a isso quase tão forte

quanto minha resistência ao teísmo.

Cada passo, do absoluto, ao Espírito e a Deus,

era um passo em direção ao mais concreto.

E agora, aceitar a encarnação em que Deus se tornou homem

era mais um passo na mesma direção.

Isso também era algo que eu não queria.

Lembro muito bem quando, mas pouco do como

o passo final foi dado.

Meu irmão Warnie me levava ao zoológico Whipsnade

na garupa de uma motocicleta em uma manhã de domingo,

no outono de 1931.

Quando nós partimos, eu não acreditava

que Jesus Cristo é o filho de Deus.

Quando chegamos ao zoológico, eu acreditava.

Eu não tinha passado a viagem refletindo, ou em grande emoção.

Era mais como um homem que, após um longo sono,

percebeu...

que agora está acordado.

Minha conversão lançou uma nova luz

em minha busca pela alegria.

Os anseios avassaladores que emergiram de "Phantastes"

e o jardim de brinquedos do meu irmão...

eram meros indicadores do que eu realmente desejava.

Eles não eram a coisa em si.

Concluí que se encontro em mim um desejo

que nenhuma experiência neste mundo poderia satisfazer,

a explicação mais provável...

é eu ter sido feito para outro mundo.

No momento, estamos fora desse mundo,

no lado errado da porta.

Não podemos nos misturar com os esplendores que vemos,

mas todas as folhas do Novo Testamento

estão farfalhando com o rumor de que nem sempre será assim.

Um dia, se Deus quiser, nós devemos entrar.

Enquanto isso, a cruz vem antes da coroa,

e amanhã é outra manhã.

Uma fenda se abriu nos muros impiedosos deste mundo,

e fomos convidados a seguir nosso grande Capitão

para dentro.

Segui-lo é, obviamente, o ponto essencial.

No meio do inverno sombrio

O vento gelado fez gemer

Naquele Natal, fiz uma curta caminhada

até minha paróquia.

Aquela caminhada marcou o fim de uma jornada

e o início de outra.

A neve tinha caído

Nevava, nevava...

No meio do inverno sombrio...

Enquanto olhava ao redor, pensei não apenas

em minha própria glória potencial futura,

mas também na glória do meu próximo.

É algo sério viver em uma sociedade

de deuses e deusas possíveis, e lembrar que o mais estúpido,

a pessoa mais desinteressante que você conhece,

pode um dia ser uma criatura que, se você a visse agora,

seria fortemente tentado a cair no chão e adorar,

ou então sentiria um horror...

ou uma corrupção, como conhecem agora,

se é que é comparável,

apenas em um pesadelo.

Todo dia, ajudamos uns aos outros

a seguir para um ou outro desses dois destinos.

É à luz dessas possibilidades avassaladoras

que devo conduzir agora todas as minhas ações.

Não existem pessoas comuns.

Eu nunca conheci um mero mortal.

Nações, culturas, civilizações...

elas são mortais.

A vida delas está para a nossa como a de um mosquito.

Imortais são aquelas com quem brincamos, trabalhamos,

casamos, esnobamos, exploramos.

O peso ou fardo da glória do meu próximo

deve ser colocado diariamente nas minhas costas.

Uma carga tão pesada...

que só a humildade pode carregá-la.

E as costas dos orgulhosos serão quebradas.

O que posso dar a ele

Que é pobre como eu

Se eu fosse um pastor

Eu daria um cordeiro

Se eu fosse um homem sábio

Eu faria minha parte

Porém, o que posso dar a ele

É o meu coração

É o meu coração

Cristo, em nossa Páscoa, se sacrificou por nós.

Portanto, vamos manter a festa.

O corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ao contrário da minha 1ª comunhão, 17 anos antes,

agora eu acreditava.

Certo, muito obrigado!

Cortamos aqui. Obrigado!

Obrigado, Max.

Obrigado.

EM LEMBRANÇA AMOROSA DO MEU IRMÃO CLIVE STAPLES LEWIS

29/11/1898 - 22/11/1963

O MAIS RELUTANTE DOS CONVERTIDOS

A HISTÓRIA NÃO CONTADA DE C.S. LEWIS

Tradução e legendas: willy_br

Contato: willybr.legender@gmail.com

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