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Para mim, um grande castelo britânico é uma fortaleza, um palácio, uma casa.
E um símbolo de poder, majestade e medo.
Durante quase 1.000 anos,
os castelos moldaram a famosa paisagem da Grã-Bretanha.
Estes edifícios grandiosos foram a casa
de alguns dos maiores heróis e vilões da nossa história nacional.
E muitos deles ainda estão orgulhosamente firmes,
a rebentar de incríveis histórias de guerra,
traição, intriga e até assassinato.
Juntem-se a mim, Dan Jones,
enquanto revelo os segredos por detrás de seis castelos britânicos.
Desta vez, estou no sudeste de Inglaterra para explorar a história
do maior castelo defensivo da Grã-Bretanha.
Esta fortaleza imponente nas falésias brancas de Dover,
resistiu a todos os inimigos,
desde a Idade Média até à Guerra Fria.
THE WHITE HORSE O PUB MAIS ANTIGO DE DOOVER
O pub The White Horse, enfiado nas ruas traseiras de Dover,
está repleto de nomes de pessoas que aqui pararam para um caneco.
Não que o senhorio se pareça importar.
Anne Cleveland De Inglaterra a França
A DOR É TEMPORÁRIA A GLÓRIA É ETERNA
Este pub encoraja grafite, mas apenas de algumas pessoas.
Mas se conseguir descobrir o que liga todos estes rabiscos nas paredes,
Dan Jones Historiador
então compreenderá a chave para Dover e para o seu castelo.
Essa chave está a curta distância.
O Estreito de Dover.
Ou, como normalmente é chamado, o Canal Inglês.
Todas estas pessoas são nadadoras do canal bem sucedidas.
E sabiam o mesmo que os romanos sabiam, que os saxões sabiam,
que os franceses medievais sabiam, que Napoleão e Hitler sabiam.
Que a forma mais rápida de atravessar o Canal para Inglaterra
era através de Dover.
INGLATERRA FRANÇA
De Dover, são apenas 34 quilómetros para França.
Dover - 34 KM - CALAIS
Se for rápido, pode nadá-lo em cerca de dez horas.
É ainda mais rápido de barco, e é por isso que é perigoso.
Se toda a Inglaterra for um castelo, Dover é o portão principal.
A palavra britânica antiga para água era "dubra", ou Dover.
Este era o limite do reino,
passado o qual estava o resto do mundo conhecido.
Então, qualquer invasão, qualquer ataque, tinha de vir por Dover.
Dover era a chave da Inglaterra,
e é por isso que tinha de ser protegida por um dos maiores castelos na GB.
Tem torres, portarias, e uma muralha com 1,6 quilómetros.
E, no meio de tudo isso,
está o formidável pátio interior e o maciço forte de pedra.
Na sua altura, esta fortaleza gigante manteve a GB em segurança,
dos franceses medievais, do Imperador Napoleão e de Adolf Hitler.
Mas a história do castelo de Dover começa muito antes de tudo isso.
A importância estratégica de Dover começou com os romanos.
No século I AC,
foi aqui que Júlio César e as suas legiões atracaram na GB.
E, aqui, nas alturas orientais de Dover, os romanos construíram uma estrutura
que ainda sobrevive, passados quase 2.000 anos.
Chama-se Pharos,
um farol desenhado para guiar as galés romanas até à margem.
Quando Guilherme, o Conquistador, invadiu Inglaterra e saqueou o forte saxão,
percebeu rapidamente a importância de Dover,
e ordenou a sua reconstrução o mais rápido possível.
O crédito pela fortaleza de pedra massiva que se pode ver aqui hoje
tem de ir para o trisneto de Guilherme, Henrique II.
Henrique II governou Inglaterra durante mais de 30 anos, no final do séc. XII.
E assentou muitas das bases para o país como ele é hoje.
Henrique II construiu o que ainda é a peça central do castelo de Dover.
Uma grande parede interior com 14 torres defensivas,
protegendo um dos fortes medievais mais impressionantes alguma vez construído,
A Grande Torre.
No seu tempo, Henrique II era o maior entre os reis da Europa medieval
e adorava construir castelos como afirmação da sua autoridade real.
Mas o castelo de Dover
tem de ser o símbolo máximo da supremacia e do poder real.
Mas a magnificência e a escala do castelo de Dover que vemos hoje
existe devido à vergonha e à culpa de Henrique.
O castelo de Dover era uma fortaleza,
mas também era um palácio no qual não se olhava a custos.
Dentro havia duas suites palacianas,
adequadas para alojar convidados importantes, bem como o próprio rei.
Mas, no segundo piso,
um corredor estreito leva para longe dos impressionantes salões.
No final dele, há um quarto de significado especial para o rei.
Um local de reflexão e de lamento.
Esta capela em que estou sentado foi construída pelo próprio Henrique II.
Foi construída para venerar um santo.
Mas não era um santo comum.
Era um homem cuja morte Henrique II tinha causado pessoalmente,
da forma mais brutal possível.
Chamava-se Thomas Becket.
Becket foi outrora o melhor amigo de Henrique.
Era o seu braço direito e o seu conselheiro mais próximo.
Mas quando Henrique elevou Becket a Arcebispo da Cantuária,
a amizade deles terminou de forma espetacular.
Henrique queria que Becket o ajudasse a impor a lei real na Igreja inglesa.
Quando Becket recusou, os dois tornaram-se inimigos amargos.
Em fins de dezembro de 1170,
quatro cavaleiros de Henrique cavalgaram até à Cantuária com intuito assassino.
Ámen.
Encontraram Becket desarmado, na sua catedral.
Mataram-no perto do altar e esmagaram os seus miolos contra o chão.
Foi uma atrocidade que chocou a Europa do século XII.
Dois anos mais tarde, Becket era santo, mas Henrique era uma figura odiada.
Para restaurar a sua reputação danificada,
o rei cumpriu um ato de penitência extraordinário.
Henrique apareceu na Cantuária, descalço e vestido com farrapos.
Em seguida, ordenou que os 80 monges da catedral
o espancassem três vezes cada, com uma haste de madeira.
Depois, o rei passou a noite sozinho, no túmulo de Becket, a rezar por perdão.
Desde aí, o santuário de Becket tornou-se no destino turístico nº 1 da Europa,
visitado por peregrinos vindos de todos os continentes.
Então, de certo modo, esta capela,
e o castelo todo, foi fundado pela culpa de Henrique II.
Entre os muitos visitantes do túmulo, estavam os grandes nomes da Europa
e, em 1179, Henrique soube
que um dos maiores de todos o vinha visitar.
Luís VII, rei de França,
que vinha ao túmulo de Becket para rezar pelo seu filho muito doente.
O rei de França estava a caminho.
Esta foi a primeira visita de estado da história inglesa,
e Henrique teve de se preparar para a ocasião.
Nunca nenhum rei francês tinha pisado em solo inglês.
Mas Henrique tinha um problema.
Nesta altura, Dover estava longe de ser um local apropriado para receber realeza.
Isto era um pouco embaraçoso.
Henrique teve de se encontrar com o rei francês na praia,
antes de cavalgar com ele até à Cantuária.
E, talvez por causa dessa humilhação, dentro de poucos meses,
Henrique começou a enviar dinheiro para o desenvolvimento do castelo de Dover.
Nos últimos dez anos do seu reinado, Henrique gastou mais com Dover
do que com qualquer outro castelo inglês.
Fê-lo para garantir que o seu legado nunca seria assombrado
pelo assassinato de Thomas Becket.
O castelo de Dover recordaria a todos os peregrinos que passassem
a riqueza e a autoridade de um grande rei.
Mas Henrique também garantiu que Dover seria uma excelente fortaleza militar,
e ainda bem que o fez.
O castelo de Dover era a maior
fortaleza inglesa, e a estrategicamente mais importante, da Idade Média.
O rei Henrique II, que fundou o castelo, nunca o veria testado em guerra.
Mas o seu filho veria.
No virar do século XII,
estas paredes enfrentariam o seu primeiro grande desafio,
sob o comando do governante mais odiado de Inglaterra.
HENRIQUE II 1154
Um monarca com uma das piores reputações de toda a história.
JOÃO 1199
O infame rei João.
Todos conhecem o rei João do Robin dos Bosques.
Mas, na verdade, o seu papel na história britânica é muito mais importante.
Ele quase destruiu o castelo de Dover e o reino inteiro.
Para descobrir como, vou até à Catedral de Salisbury, em Wiltshire,
a 259 quilómetros a oeste de Dover.
Aqui, na magnífica Sala do Capítulo, está um manuscrito extraordinário,
um documento que ressoou através da história.
O seu nome é Magna Carta.
Esta é uma das quatro cópias sobreviventes da Magna Carta,
o tratado escrito em 1215, há 800 anos,
que ainda é um dos documentos mais famosos de toda a história ocidental.
E hoje pensamos na Magna Carta como base do Estado de Direito,
justiça, direitos humanos, liberdades inglesas e até da Constituição americana.
Mas, na verdade, em 1215,
foi um tratado de paz entre o rei João e os barões rebeldes.
João era um rei cruel e vingativo.
Impôs impostos terríveis para financiar campanhas militares sem sucesso.
Alienou os seus súbditos, pilhou a Igreja
e declarou guerra aos seus barões, quando finalmente se viraram contra ele.
A Magna Carta foi uma tentativa desesperada para chamar o rei à razão.
Há cerca de 4.000 palavras na Magna Carta,
e normalmente dividimo-las em 63 cláusulas.
Se lerem a sua maioria atualmente, não parece muito relevante.
São coisas sobre impostos, represas de pesca e bailiados,
e todas as coisas basicamente esquecidas na Inglaterra atual.
O mais importante era a cláusula 61, mesmo no fundo,
a que agora chamamos a cláusula de segurança.
O que ela dizia era que se o rei João quebrasse alguma regra da Magna Carta,
um conselho de 25 barões estaria legalmente apto para lhe declarar guerra.
E, em 1215, foi exatamente isso que aconteceu.
João apelou ao Papa, afirmando que, ao restringir os direitos do rei,
a Magna Carta era um ataque à autoridade da própria igreja.
O Papa concordou.
Os barões rebeldes foram excomungados e Inglaterra irrompeu em guerra civil.
Os barões sabiam que nunca poderiam fazer a paz com o rei João,
por isso convidaram o príncipe Luís de França a invadir a Inglaterra
e tirar-lhe o trono.
Convidar um príncipe francês para ser rei de Inglaterra pode parecer traição,
mas, na verdade, os ingleses estavam habituados a isso.
Na verdade, tinha acontecido três vezes
em 150 anos, desde a conquista normanda.
Um barão francês tinha atravessado o mar, chegado à costa sul, assumido a coroa
e construído castelos maciços para impor o seu poder,
tal como o de Dover.
Dentro de semanas, Luís e os barões rebeldes
tinham o controlo da Cantuária, de Rochester, de Winchester e de Londres.
Inglaterra estava a cair perante ele,
mas o que ele precisava mesmo era do centro de comunicações crucial
entre Inglaterra e França, o castelo de Dover.
O destino do rei João e do seu reino estava agora nas mãos de Dover.
Luís fez imediatamente um cerco.
Colocou as forças numa colina a norte do castelo
ACAMPAMENTO FRANCÊS - QUARTÉIS DE CONNAUGHT - COLINA DE EDIMBURGO
e massacrou as muralhas com catapultas.
Mas estas defesas aguentaram-se firmes.
Então, Luís mudou a sua estratégia,
explorando aquilo que tinha tornado Dover famosa.
As falésias de calcário branco debaixo das suas fundações.
Em vez de ir por cima das muralhas, os franceses iriam por baixo.
Por baixo das muralhas do castelo de Dover,
os engenheiros franceses começaram a fazer um túnel através da rocha,
tentando enfraquecer as suas fundações,
uma técnica de cerco conhecida como solapar.
Solapar, do que estamos a falar?
Bem, como podem ver aqui, o calcário é a rocha,
por isso têm de escavar por ela,
debaixo das fundações do castelo, para tentar fazê-las colapsar.
Se as muralhas e o portão caírem,
Paul Pattison Historiador
ficamos com uma inclinação de cascalho
que os atacantes franceses podem trepar para entrar no resto do castelo.
E como os paramos?
Um dos métodos que se usa é escavar os próprios túneis.
E este túnel de que estamos próximos pode bem ser um desses.
Como seria isso?
Haveria luta corpo-a-corpo nos túneis?
Se descobrirmos um túnel francês a vir na nossa direção e conseguirmos entrar,
sim, haveria uma luta
e teria sido muito sujo, porque teria sido no escuro.
Tiveram sucesso em solapar uma das torres da portaria,
deitaram-na abaixo,
e chegaram a entrar no pátio exterior do castelo.
Passaram por cima delas. Por cima das defesas.
No entanto, a força da resistência inglesa no interior
forçou-os a voltar pela fenda que tinham feito.
E os ingleses reforçaram-na com madeira, rochas e outras medidas temporárias.
E os franceses não conseguiam entrar. Perderam o ímpeto.
A 14 de outubro de 1216, frustrado com três longos meses de cerco,
Luís negociou tréguas.
Quatro dias depois, tendo contraído disenteria,
o rei João morreu.
A única fraqueza do castelo de Dover tinha sido exposta.
Os engenheiros do castelo repararam o portão norte debilitado,
mas também expandiram os túneis subterrâneos.
Quando terminassem,
as defesas de Dover teriam sido expandidas muito para lá da muralha.
TÚNEIS MEDIEVAIS DOVER
Dover foi alargado e refortificado por vários reis ingleses.
Mas passariam 600 anos
até o castelo e os seus túneis voltarem a ver ação.
JOÃO 1199
No final do séc. XVIII, a GB estava em guerra com França.
NAPOLEÃO 1804
Por toda a Europa,
Napoleão Bonaparte tinha esmagado os seus inimigos.
E o seu olho estava fixo em Dover.
Em 1803,
Napoleão tinha reunido um exército de 130.000 homens e 2.000 barcaças
em Bolonha, no norte de França.
Uma força enorme apenas a 97 quilómetros do castelo de Dover,
dedicada a um objetivo, a invasão de Inglaterra.
A invasão francesa era esperada quase de hora a hora
e, mais uma vez, o castelo de Dover estava no coração da história.
O trajeto de invasão mais óbvio: Dover.
Os franceses iriam precisar de um porto onde reabastecer os exércitos: Dover.
Os ingleses precisavam de se preparar com força e engenho,
e encontraram-nas num engenheiro militar chamado William Twiss.
Twiss dedicou-se a transformar o castelo de Dover numa fortaleza moderna.
Acrescentou cinco postos de armas à muralha exterior
e uma plataforma de canhão elevada enorme no portão norte.
Também reforçou o telhado da Grande Torre
com arcos de tijolos para aguentar com artilharia pesada.
Mas foi debaixo do chão que Twiss mostrou engenho a sério,
porque o castelo de Dover tinha um problema.
Havia tropas, mas não havia onde as pôr.
Durantes as Guerras Napoleónicas, esperávamos uma invasão a qualquer hora.
O castelo já estava cheio de tropas. Não havia mais espaço acima do chão,
por isso uma personagem teve a ideia de construir espaço subterrâneo.
Isto é como escavar uma cave por baixo de casa para ter mais espaço.
Como é que isto foi escavado?
Foi escavado à mão, com picaretas, pás e carrinhos de mão.
Trabalho duro.
Podemos ver que a parede parece...
A minha mão está verde. É húmida e musgosa.
É húmida e fria mas,
para os soldados de inícios do século XIX,
que estavam habituados a condições muito difíceis em campo,
provavelmente não era muito mau.
E tudo isto foi muito engenhoso.
Isto é apenas uma parte debaixo do castelo de uma rede muito mais vasta
DOVER TÚNEIS DA CASAMATA
de fortificações para todo o país.
Defender o sudeste de Inglaterra era um dos aspetos mais importante
das Guerras Napoleónicas, no que nos dizia respeito.
Mesmo agora, enquanto Dover reluzia com o poder do exército inglês,
permanecia uma fraqueza.
As próprias falésias brancas.
Se Napoleão conseguisse desembarcar um exército na costa,
como é que os ingleses desceriam as suas tropas ao seu encontro?
São apenas cerca de 90 metros do topo das falésias até à praia,
mas para descer homens a cavalo são cerca de 2,5 quilómetros.
E até para descer homens a pé,
é ainda 1,6 quilómetros ao longo de caminhos estreitos e sinuosos.
Twiss percebeu que tinha de haver um caminho mais rápido e melhor.
O que Twiss desenhou foi um trajeto expresso
desde o quartel à base da falésia.
Chamava-se Grand Shaft.
Uma escadaria gigante,
com 9 metros de largura e 55 metros de profundidade,
com três lances de escadas.
Foi um dos projetos de construção mais brilhantes da época.
O Grand Shaft
Meu Deus, parece uma prisão futurística.
É incrível.
Precisavam de um trajeto para mover soldados rapidamente,
desde o local do quartel até à frente de mar,
se Napoleão tivesse invadido.
Seriam caminhos de calcário,
Mandy Whal Sociedade de Preservação Western Heights
muito escorregadios quando estivessem molhados.
Então, o que fizeram foi construir ostensivamente um poço
e colocar lá três lances de escadas,
o que significava que as tropas podiam mover-se rapidamente do quartel acima
até à frente de mar.
Ao ter três lances de escadas, pode mover-se tropas três vezes mais rápido.
Três vezes mais rápido.
Pode dar-nos uma ideia geral de quanto tempo levaria
para levar 1.000 homens do topo à base?
Uma altura fizeram um exercício que era levar todas as tropas
do Grand Shaft e do castelo de Dover até à praça do mercado.
E demoraram 12 minutos e meio.
Doze minutos para mil homens?
Doze minutos e meio. Sim.
É quase como água a descer pelo ralo.
É muito parecido com isso, sim.
É muito, muito simples, o que é parte do engenho.
Apesar de completamente preparadas
as defesas de Dover nunca foram testadas.
Bloqueado pela Marinha Real,
incapaz de controlar o Canal Inglês tempo suficiente para atravessar o exército,
Napoleão foi forçado a cancelar a invasão.
Em 1805, a ameaça tinha passado,
mas o medo permanecia.
No início do século XIX, havia medo real de que Napoleão fizesse um túnel
desde França até Dover, para uma invasão.
E isso não é tão louco como parece porque, mais tarde no século,
nos anos 1880, foi escavado um túnel de teste mais de 1,6 km debaixo do mar,
antes de ser cancelado com base na segurança nacional.
Isto é um artigo de um dos jornais de Londres, em 1882,
a discutir o túnel proposto,
que ia ser escavado debaixo do Canal.
E até há uma entrevista com um homem chamado Sir Garnet Wolseley.
Ele achava que um túnel seria "uma fonte considerável de perigo nacional."
"Durante a noite, uma força pequena podia ser desembarcada em Dover," disse.
"E ninguém podia suspeitar que vinham,
"até eles baterem à porta da fortaleza."
Durante os próximos 130 anos, o castelo de Dover não foi desafiado.
Os seus túneis foram abandonados e esquecidos.
Mas a ameaça da invasão ia regressar.
Mais uma vez, viria de França,
NAPOLEÃO 1804
mas não dos franceses.
2ª GUERRA MUNDIAL - 1939 INVASÃO ALEMÃ DA POLÓNIA - 1939
Durante nove séculos,
as muralhas do castelo de Dover tinham-se adaptado às agitações da guerra civil
e à ameaça da invasão estrangeira.
Mas, no início da Segunda Guerra Mundial,
a proteção da sua grande muralha estender-se-ia para lá da Inglaterra,
através do Canal, até França.
Em maio de 1940, o exército britânico enfrentava a destruição quase certa
nas praias de Dunkirk.
Aqui, na costa do norte de França,
400.000 tropas aliadas
estavam agora cercadas por um exército alemão com o dobro do tamanho.
E as forças de Hitler estavam a cercar para matar.
O Primeiro-Ministro Winston Churchill precisava de uma missão de salvamento,
e o homem que escolheu para a formular foi o Vice-Almirante Bertram Ramsay.
A sede de Ramsay precisava ser o mais perto possível de Dunkirk.
Ele escolheu o castelo de Dover.
Por baixo das falésias brancas, a rede de túneis com 100 anos,
construída nas Guerras Napoleónicas, ainda era segredo para o mundo exterior.
Agora seria transformada no centro de comando militar de Ramsay.
DOVER SISTEMA DE TÚNEIS OPERAÇÃO DÍNAMO
ABORDAGENS AO ESTREITO DE DOVER
Foi tomada a decisão de evacuar Dunkirk o mais rápido possível,
e o aposentado Vice-Almirante Ramsay foi posto no comando de uma tarefa impossível.
Chamaram-lhe Operação Dínamo,
e a primeira reunião de planeamento aconteceu nestas salas,
muito abaixo do castelo de Dover, a 20 de maio de 1940.
A operação de Ramsay,
batizada com o nome da sala do dínamo que dava energia ao sistema de túneis,
foi planeada apenas em seis dias.
Imediatamente, requisitou uma frota de contratorpedeiros e transportadores
para uma missão aparentemente impossível.
No labirinto de túneis, havia salas de operações para o Exército,
a Marinha e a Força Aérea.
Aqui foram feitos planos para oferecer a maior cobertura possível para a evacuação.
Ramsay e a sua equipa viviam 24 horas por dia nestes túneis.
Deve ter sido incrivelmente intenso e claustrofóbico.
As últimas notícias de Dunkirk.
E mesmo com relatórios de informação a chegar do exterior,
ainda não tinham forma real de saber o que estava a acontecer
às forças Aliadas, reunidas nas praias de Dunkirk.
Sargento, informe todos os atiradores para estarem a postos.
Quase meio milhão de vidas estavam em risco.
Mesmo na melhor das hipóteses,
Ramsay esperava salvar 30.000 a 40.000.
Para além das forças alemãs,
os navios iriam enfrentar as águas rasas traiçoeiras da costa francesa
e um Canal Inglês repleto de minas.
Do seu bunker muito abaixo do castelo de Dover,
Ramsay deu ordem para começar a Operação Dínamo.
Assim, uma frota de 35 contratorpedeiros e transportadores partiu para Dunkirk,
a 76 quilómetros dali.
Dunkirk, Nordeste da França
Uma vez lá, iriam atracar no mar
e usar lanchas de desembarque para transportar os soldados.
Estas dunas, na verdade a praia toda,
estavam repletas de homens sob o bombardeamento alemão,
mas o porto interior estava fora de serviço,
por isso os navios maiores não podiam aproximar-se da praia para o salvamento.
Para além disso, o caminho mais rápido de volta a Dover era muito perigoso,
porque o mar estava minado
e havia fogo constante das posições alemãs ao longo da costa.
É quase impossível imaginar o caos, medo e pânico daquele primeiro dia,
a menos que estivéssemos lá.
Vic Viner, de 97 anos, estava na tripulação de uma embarcação
que levava soldados da praia para o contratorpedeiro HMS Esk,
ancorado mais longe, no mar.
-No primeiro dia, levaram 7.000. -Certo.
Quando olhámos e vimos que andávamos a transpirar sangue...
-Andavam a transpirar sangue? -Sim.
O meu colega ao meu lado disse:
"Vic, as tuas mãos estão cobertas de sangue."
Respondi: "Também as tuas."
Então, arregaçámos as mangas e era até ao fundo.
Enquanto tudo isto acontecia, a Luftwaffe fazia a sua parte.
Vic Viner Veterano da Segunda Guerra Mundial
Muitos foram mortos no bombardeamento,
depois houve um bom número que entrou a pé pelo mar para ir para casa.
-Vão... -"Vou voltar para Inglaterra,"
e lá iam eles.
Consigo lembrar-me vivamente de dois sargentos grandes, a chorar,
-porque estavam fartos. -A sério?
E, no entanto, quando lhes dizíamos alguma coisa,
e os fazíamos olhar para cima,
a disciplina deles voltava.
Após três dias, cerca de 70.000 homens tinham sido salvos,
mas ainda estavam centenas de milhares encalhados na praia.
Mas, de volta aos túneis do castelo de Dover,
a segunda parte do plano de Ramsay estava prestes a acontecer.
Ao longo de toda a costa sudeste e do estuário do Tamisa,
o Almirante tinha lançado um pedido de emergência a donos de barcos pequenos.
Já tinha reunido 700 deles em Ramsgate,
de tudo, desde lanchas, iates privados e balsas.
A 28 de maio, partiram para Dunkirk.
Qual era a ideia por trás dos navios pequenos?
O que aconteceu foi que, quando Ramsay chamou a Marinha
para ir evacuar as tropas de Dunkirk,
perceberam que não conseguiam chegar às praias
e o problema com navios maiores
Simon Palmer Associação de Navios Pequenos de Dunkirk
é que tinham uma profundidade de 3, 4, 6 metros.
E não podiam chegar às praias, as tropas não conseguiam sair,
por isso o que precisavam era de barcos mais pequenos para irem à praia,
recolherem as tropas da praia e transportá-las até aos navios maiores.
Faziam muitas viagens curtas de um lado para o outro,
cheios de tropas a serem fisicamente retirados das praias.
Era exatamente isso.
E sabemos algo sobre este barco em particular, certo?
Sabemos quantas pessoas estavam nele?
Sim, invulgarmente, não sabemos muito sobre a maioria dos barcos.
Sabemos que o New Britannic recolheu até 3.000 tropas,
que é um número de tropas espantoso
e, assim, muitos jovens devem muito a esta velha embarcação.
O iate maior levava entre 180 e 200 a bordo,
e depois levava-os até aos navios, aos navios maiores,
os contratorpedeiros e os cargueiros, que estavam à espera.
Durante o dia 30 de maio,
salvámos 68.000.
-Isso é incrível. -E, no dia seguinte,
pouco menos de 68.000.
Deve ter sido uma imagem do inferno.
Exatamente. Sim.
É muito difícil...
É muito difícil agora...
Tento muito explicar como me senti.
Mas agora é tão pacífico, que é muito difícil.
Mas...
Mas é pacífico devido ao que aconteceu,
-todos esses anos atrás. -Exatamente, sim.
Sinto-me muito humilde por saber que fui parte disso.
A 4 de junho, o último contratorpedeiro partiu do porto de Dunkirk, para Dover,
com os últimos homens que foram evacuados.
O Vice-Almirante Bertram Ramsay esperava salvar no máximo 45.000 vidas.
No final, a sua Operação Dínamo
salvou 338.226 pessoas.
Senhor, temos de ter muito cuidado
para não atribuir a esta libertação
os atributos de uma vitória.
Discurso de Winston Churchill à Câmara dos Comuns - 4 de junho de 1940
As guerras não são ganhas com evacuações.
Mas houve uma vitória nesta libertação que devia ser reconhecida.
Em termos puramente militares, Dunkirk era humilhante,
mas o seu sucesso salvou o núcleo de um exército profissional
e, mais importante do que isso,
o que aconteceu entre Dunkirk e Dover
ajudou a criar um orgulho, aquele espírito de Dunkirk,
e isso provavelmente mudou o curso da guerra.
Defenderemos a nossa ilha, custe o que custar.
Lutaremos nas praias,
lutaremos nas zonas de aterragem,
lutaremos nos campos e nas ruas.
Lutaremos nas colinas.
Nunca nos renderemos.
No final de 1940, o castelo estava na linha da frente das defesas britânicas.
Enquanto os alemães escavavam ao longo da costa francesa,
o Almirante Ramsay sabia que os túneis secretos do castelo de Dover
eram cruciais para o esforço de guerra.
Então dedicou-se a expandi-los.
DOVER TÚNEIS DA 2ª GUERRA MUNDIAL
Por cima dos velhos túneis napoleónicos, um novo piso anexo foi esculpido,
VICE-ALMIRANTE - DOVER DEFESAS FIXAS - DOVER
com alojamentos subterrâneos,
casas de banho, hospitais e salas de operações.
Daqui, operadores de rádio transmitiam comandos militares falsos
e outras informações erradas, para confundir os alemães.
O trabalho feito aqui seria crucial a preparar o desembarque na Normandia.
Dover foi usado como ponto de partida falso para o Dia D.
Então, no porto, estavam centenas de lanchas de desembarque falsas,
MOVIMENTOS DOS NAVIOS CHEGADAS - PARTIDAS
CÓDIGO PORTE - AMEIXA
e milhares de ordens falsas e comunicações
foram enviadas desta sala de repetições.
Mesmo quando era a fingir, Dover estava no coração da guerra.
NÃO MENCIONAR ESTA SALA DE OPERAÇÕES NO EXTERIOR.
CONVERSA DESCUIDADA CUSTA VIDAS.
De novo, Dover tinha tido um papel vital na defesa do reino.
Graças a Bertram Ramsay,
Em memória de SIR BERTRAM RAMSAY
tinha salvo não só o exército britânico, mas a própria Grã-Bretanha.
Bertram Ramsay morreu num desastre de avião, em janeiro de 1945,
por isso nunca viu o fim da Segunda Guerra Mundial,
nem celebrou a vitória que ajudou a realizar.
Mas o que fez e o papel do castelo de Dover na defesa da GB
ainda é recordado hoje.
Quatro, três, dois, um, zero.
Mas, em breve, o mundo cairia na sombra de um novo tipo de guerra.
E se alguma vez tivesse acontecido o pior,
o castelo de Dover teria sido o melhor sítio para se esconder.
Durante quase 900 anos,
o castelo de Dover tem sido a fortaleza estrategicamente mais importante da GB.
Em todo esse tempo, permaneceu firme, face à invasão.
ANÚNCIO DAS TRÊS POTÊNCIAS HOJE: MAS A GB SABIA ONTEM
DIA-V - ACABOU TUDO
Em maio de 1945, a guerra na Europa terminou,
com a rendição incondicional da Alemanha às forças Aliadas.
Em agosto, duas bombas atómicas acabaram com a guerra no Japão,
e introduziram uma nova era sinistra.
Os túneis por baixo do castelo de Dover,
antigo centro nervoso das operações militares secretas,
teriam em breve um novo papel a desempenhar.
Uma das principais vantagens dos túneis era o seu segredo
e, após a guerra, isto veio a ser útil.
O nível inferior, Nível D, tinha o nome de código de DUMPY,
e era para ser usado como centro de comando regional,
na eventualidade da eclosão de uma guerra nuclear.
A maioria da informação sobre estes túneis
ainda é protegida pela Lei dos Segredos Oficiais.
E não deixam o público vir cá baixo muitas vezes.
À medida que a Guerra Fria se intensificou,
o governo britânico começou a planear a possibilidade de um ataque nuclear.
A GB seria dividida em 12 locais de governo regional.
Em 1968, o Nível D por baixo do castelo de Dover tornou-se num deles.
DOVER NÍVEL DUMPY - ABRIGOS ATÓMICOS
Quarenta e seis metros abaixo da superfície,
sete corredores e mais de 30 salas foram modificados
para fornecer abrigo a 300 oficiais do governo e militares,
na eventualidade de um ataque nuclear.
Aqui, bem dentro das falésias brancas,
simulações apocalípticas e treino de defesa civil
foram levados a cabo durante os anos 60 e 70.
Se se encontrassem aqui durante a Guerra Fria,
então o pior provavelmente tinha acontecido.
Seriam arrancados da cama a meio da noite,
trazidos para este bunker
para ajudar a manter o que restasse do sudeste de Inglaterra.
Completamente guarnecido e equipado com sistemas de filtragem e ventilação,
as condições eram espartanas e bastante claustrofóbicas,
mas práticas, em caso de ataque nuclear.
Os habitantes do Nível D teriam ficado isolados,
mas capazes de transmitir para o mundo exterior,
se ele ainda existisse.
GRAM PARA L.S. PARA CONTROLO DE ESTÚDIO
Este é o estúdio da Rádio BBC, e tinham instruções para,
na eventualidade de um holocausto nuclear, tocarem música ligeira e animada
para manter as pessoas positivas.
Havia apenas um problema.
Nos anos 70, percebeu-se que, apesar do calcário que rodeava o bunker
ser suficiente para manter Napoleão e Hitler de fora,
também era permeável,
o que significava que qualquer chuva radioativa de um desastre nuclear
se infiltraria na rocha e chegaria ao bunker.
Felizmente, o castelo de Dover nunca teve de defender ninguém de um ataque nuclear.
Nos últimos 60 anos de paz,
permaneceu um monumento
à reputação de 2.000 anos de Dover, como porta de entrada da Grã-Bretanha.
Em todo esse tempo,
Dover contribuiu mais para a defesa da Grã-Bretanha
do que qualquer outro castelo.
De farol romano e forte saxão,
ao maior e mais formidável castelo da Idade Média,
de palácio real e quartel subterrâneo,
e uma das bases militares mais engenhosas do século XIX,
o castelo de Dover estendeu a sua defesa
muito para lá destas muralhas medievais,
desde as falésias brancas às praias da Normandia.
Hoje, a Chave da Inglaterra permanece um testemunho
da determinação, resiliência e coragem britânicas.
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