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Original subtitles

A maioria dos filmes foram dirigidos por homens.

A maioria dos ditos cl�ssicos foram dirigidos por homens.

Mas h� 13 d�cadas, em todos os seis continentes onde se fazem filmes,

milhares de mulheres tamb�m t�m dirigido filmes.

Alguns dos melhores.

Que filmes elas fizeram?

Que t�cnicas usaram?

O que podemos aprender sobre cinema com elas?

Vamos revisitar os filmes atrav�s dos olhos das diretoras.

Vamos fazer um novo road movie pelo cinema.

MULHERES FAZEM CINEMA

UM NOVO FILME DE ESTRADA ATRAV�S DO CINEMA.

Agora estamos a 3/4 do nosso road movie.

Vimos como montar filmes, criar imagens

e lidar com alguns dos principais assuntos da vida...

pol�tica, lar, corpos, religi�o e relacionamentos.

Tivemos revela��es?

Nesta etapa de uma hist�ria, deveria haver revela��es.

O que levanta a quest�o:

Como os bons cineastas fazem revela��es?

REVELA��ES

Bem, voc� tem seu diamante E suas roupas bonitas.

O motorista dirige seu carro.

Voc� deixa todo mundo saber.

Mas n�o brinque...

A forma mais obvia de descoberta num filme

e com uma c�mera nos mostrando coisas.

A TV cinematogr�fica do s�culo 21.

A cocriadora da s�rie Westworld, Lisa Joy, dirige esta cena.

Come�amos de forma circular e abstrata, e ent�o partimos.

Um road movie atrav�s de um apartamento.

Coisas largadas. M�veis e vidro.

Bom gosto e alto estilo.

Um toque de Psicopata Americano, talvez?

Como uma longa tomada dentro da mente de quem mora aqui.

Vamos descobrindo-os enquanto rastreamos.

Eles s�o ricos, esportivos e exibicionistas.

Designer, talvez tudo projetado.

Seu coroa levou seus diamantes E de quebra as tiaras.

Agora ela bate perna em Stepney.

N�o mais em Knightsbridge.

Ent�o n�o brinque comigo Porque est� brincando com fogo.

E ent�o vemos quem �.

N�s o vimos, o descobrimos,

este homem, este rob�.

A pr�xima revela��o mais comum � a revela��o da hist�ria.

Aqui uma maneira cl�ssica de se fazer isso...

Uma panor�mica numa pra�a de uma cidade na Alb�nia.

E ent�o esses tr�s garotos observando, curiosos.

O ponto de vista deles, agora mais perto da pra�a,

um zoom para nos aproximar.

Um dos meninos acha que sabe alguma coisa.

Eles n�o est�o se encontrando...

Vamos nos aproximar para que eles n�o sumam...

Depois, uma tomada deste homem que � um personagem obscuro.

O her�i do filme,

este homem de bons que vemos por tr�s,

caminha em dire��o ao personagem sombrio.

Ent�o este congelamento e a m�sica cresce!

E close do garoto...

Leve-me tamb�m. Estou com um problema...

Que tinha suas suspeitas.

Os dois homens n�o se falaram, mas trocaram alguma coisa.

Um momento que revela que o her�i talvez n�o seja um her�i, afinal...

Um salto do filme em preto e branco da era comunista,

de Xanfise Keko, para este.

O filme parece fechar os olhos.

Uma jovem mulher com seu homem.

Ela beija seu amante.

E ent�o isto, uma ferida.

A m�o dela tocando a dele.

O ROMANCE DE MOVERN CALLAR

O t�tulo do filme e...

Temos um plano aberto

e o pisca-pisca faz sentido: Luzes da arvore de Natal.

Aquilo na cozinha � sangue? Sim.

E o choque quando percebemos que ele esta morto.

A cena de amor � tamb�m uma cena de morte.

Uma mulher cujo homem esta morto.

Salto pra Uni�o Sovi�tica de d�cadas antes

e temos algo parecido.

Segunda Guerra Mundial.

Esta mulher foi sequestrada.

Disseram que seu marido est� na pra�a da cidade.

Ela tem um filho de um pai desconhecido.

Eu sei...

Mas reunirei toda minha for�a para contar minhas tristezas,

todos os meus sofrimentos.

Que imagem rom�ntica.

Nuvens ao fundo, plano aberto, luz prateada e silhuetas.

Eu te trouxe minha vergonha e meu sofrimento,

um filho de um pai desconhecido.

Mate-nos ou salve nossas vidas.

Ent�o esta tomada de grua revela que seu homem esta morto,

como o homem de Morven Callar estava.

A m�sica cresce sob um c�u de madrep�rola...

Voc� voltou.

Estou pronto.

Posso pegar? Obrigada.

O endere�o � G. Allison, Camp Johnson, certo?

Sim.

Os pais dele n�o podem saber que ele vai receber minha carta.

A quest�o �...

Depois que seu beb� morreu, n�o veio mais dinheiro...

Da revela��o da morte para a revela��o do amor.

Aqui, Kinuyo Tanaka

usa uma cortina para esconder o que queremos saber.

Um homem ouve a voz de uma mulher atr�s da cortina.

� a mulher que ele amava? Ser que � ela?

A cortina a esconde e a posi��o da c�mera tamb�m.

Depois, cortamos para ela, mas apenas para a carta,

as luvas, o vestido, a bolsa.

Muito obrigada.

De volta ao homem. Isso foi uma revela��o?

Vimos apenas um pouco. Talvez uma revela��o parcial.

Uma revela��o de amor.

No cap�tulo 10, sobre viagens, vimos o que acontece a seguir...

De uma cortina para uma porta e outro amor se revela.

Um de nossos filmes de refer�ncia, Women of Ryazan.

Dirigido por Olga Preobrazhenskaya,

a dan�arina que virou educadora e diretora e fez 15 filmes.

Uma mulher abre uma porta. Portas revelam coisas, � claro.

Ela introduz uma jovem t�mida, cuja cabe�a esta inclinada.

Olhos para baixo.

Um grupo em volta de uma mesa.

Um jovem ? mesa tamb�m tem os olhos baixos.

Ela esta sendo apresentada ? sala.

Uma cena de arranjo de casamento.

A jovem � apresentada, avaliada.

O jovem ainda desvia os olhos.

Por que deveriam se casar se nem mesmo se conhecem?

Tudo quest�o de falta de contato visual.

Ent�o ele olha...

E que sorriso � esse?

E ele se move, mas a c�mera n�o.

Ent�o, os olhos dela.

A revela��o.

Cada um v� o outro

e o que os adultos chatos n�o sabem � que eles j� se conhecem

e est�o apaixonados.

Preobrazhenskaya, uma das primeiras diretoras do mundo,

divide tudo isso em fragmentos, em um mosaico.

A trama revela, a morte revela,

o amor revela.

Avan�ando um pouco mais e temos algo um pouco mais abstrato...

Uma revela��o de Deus.

Como vimos no cap�tulo 21, sobre religi�o,

Christine tem esclerose m�ltipla e usa cadeira de rodas.

Ao contr�rio do estilo mosaico de Preobrazhenskaya,

aqui a diretora Jessica Hausner faz apenas uma tomada,

se aproximando, em sil�ncio.

E Christine se senta...

Que revela��o...

Ela parece curada.

Ela se vira na cama.

O movimento lento e silencioso, o choque dos outros

e a Virgem Maria no canto inferior do quadro.

Revela��es sociais,

Revela��es da hist�ria, Revela��es de amor, de morte,

Revela��es religiosas.

Cada uma dessas aconteceu.

Mas e quando n�o temos certeza?

E se uma revela��o for parcial ou questionada?

Eu pensei que aquele ator na pe�a...

O belo document�rio de Sarah Polley,

Hist�rias que Contamos.

Um filme sobre sua fam�lia.

Entrevistas e filmagens em 8mm, como seria de esperar.

+ narrado por seu pai.

Mas cerca de meia hora depois, h� o inicio de um questionamento...

Ele � realmente o pai dela?

...que poderia ser esse outro cara.

E ent�o, em algum momento,

porque jant�vamos juntos nos fins de semana,

provavelmente Johnny disse...

"Voc� n�o se parece muito com seu pai."

Acho que foi o Johnny, quero dizer que foi o Johnny

e agora, pensando bem, sei que Johnny foi o primeiro de n�s

que soube que deve ter sido o Johnny.

Eu, estupidamente, mencionei isso pro Mark?, pensei.

Meu advogado disse que n�o preciso falar com voc� e, portanto,

n�o vou dizer mais nada.

Lembro-me de Johnny dizendo que algum achava que seu pai

poderia ser algu�m com quem a mam�e atuou numa pe�a.

Eu disse a ele para n�o dizer nada a ningu�m,

mas eles transformaram isso em uma piada.

E eu n�o participei da piada, participei?

Acho que n�o.

Lembro que conversamos sobre como voc� n�o parecia um pai

e ele brincou com isso...

Eu sempre pensei...

Ela se parece comigo, tem um nariz reto...

Sim, isso � tudo bobagem, mas � divertido.

Quem voc� acha que � seu pai esta semana, Sarah?

E a piada ficou cada vez maior

porque cada um de n�s comparava voc� com um dos tr�s atores.

Todos conheciam esses tr�s atores...

Que sequ�ncia!

E termina com o pai dela lendo um roteiro escrito pela filha,

a diretora Polley, revelando que ele n�o � o pai dela.

A sequ�ncia � engra�ada, insegura e lindamente editada,

como uma maquina de pinball.

Uma revela��o sobre a paternidade no passado

se torna uma segunda revela��o,

sobre quem disse o que, quem estava certo

e quem n�o estava,

no presente, no filme de Polley.

Duas Revela��es, oscilando no limite...

...bem, isso depende se ele esta s vontade, eu penso.

Eu acho que foi o Geoff Bowes.

Acho que o consenso era que foi o Geoff Bowes.

Acho que havia um ator chamado Geoff Bowes.

Geoff Bowes...

Assim que o filme vai ser: Geoff Bowes? e ?Geoff Bowes?.

Nossa �ltima revela��o vai al�m de amor, morte ou fam�lia

e nos leva ao reino do mito.

As Maravilhas, de Alice Rohrwacher,

conta a hist�ria de uma fam�lia de apicultores italianos.

Um camelo, uma panor�mica para a esquerda

e a fam�lia est� estranhamente dormindo l� fora, na lama.

Os tempos s�o dif�ceis, falta dinheiro.

+ como se estivessem numa jangada em um mar de lama.

Mam�e!

Olhe!

N�o fique bravo.

Nem voc� tamb�m.

Deixe-me aqui.

L� est� ela!

Tem espa�o, venha.

Estamos preocupados, mas n�o muito.

Gel omina, sabe o que eu pensei?

Bem...

Dev�ramos esconder algo na casa.

Talvez debaixo do piso.

E essa coisa secreta, daqui a muitos anos,

ser encontrada por algu�m.

Gelso, em que est� pensando?

A filha assobia e ent�o uma panor�mica para a direita.

Ouviu isso?

Um fantasma!

E ent�o, sem cortar, volta novamente e...

A fam�lia se foi!

A casa esta fechada, abandonada.

N�s avan�amos no tempo. Semanas? Meses? Anos?

O que � revelado aqui?

O decl�nio da vida rural na It�lia?

Que tudo chega a um fim?

J� temos 9h em nossa hist�ria de 14 horas sobre cineastas.

J� vimos muitas coisas...

Como as mulheres come�aram os filmes, os visualizaram,

os conectaram aos grandes temas da vida,

brincaram com os g�neros de filmes e muito mais.

Percorremos quil�metros e vimos centenas de cenas de filmes.

At� aqui, em qualquer hist�ria,

talvez possamos come�ar a olhar para tr�s.

Para a mem�ria.

MEM�RIA

O cinema � como uma maquina do tempo.

+ perfeito com a mem�ria.

Ele tem maneiras sofisticadas de explor�-la,

mas vamos come�ar com formas mais simples.

O premiado document�rio de Petra Costa, Elena.

Aqui, a m�e dela fala sobre a irm� de Petra.

Uma simples reminisc�ncia.

Algu�m falando sobre o passado, descrevendo suas mem�rias.

O olhar dela no canto superior da tela � t�o intenso

que � como se a mem�ria estivesse l�, diante dos olhos dela.

A c�mera de Petra filma mais lateralmente do que se espera.

N�o atrapalha a m�e.

A filha da m�e, Elena, irm� de Petra, se matou.

Nos filmes de fic��o, h� muitas formas convencionais

de se reproduzir a mem�ria.

Aqui esta um exemplo raro de uma forma tradicional

de ir para o passado.

Um homem voltou para a vila onde cresceu.

Seus dedos acariciam os nomes nas rochas

e o passado come�a a ser invocado como se fosse o g�nio

e as rochas fossem a l�mpada.

O passado se move suavemente.

E n�s em torno dele.

A casa do meu pai ficava ao lado da casa de Vampiros.

A diretora Maria Plata foi a primeira cineasta da Gr�cia.

Este foi o segundo de seus 21 filmes.

Eles falam sobre traumas e tem concep��o e edi��o complexos.

Cineastas as vezes se cansam da tradi��o fusco pra mem�ria.

Aqui, Mary Lambert tenta algo mais econ�mico ou ousado.

A hist�ria de Stephen King � sobre os mortos voltando ? vida,

uma esp�cie de met�fora para a mem�ria.

Um homem idoso, Jud,

come�a a contar uma hist�ria sobre o passado.

Ele olha para a esquerda e seguimos seu olhar.

Foi ele o traste que me contou sobre o lugar,

era meio ind�gena.

Uma atra��o do foco

que novamente parece uma met�fora para a lembran�a.

E ent�o, pela janela e sem cortes, estamos no passado.

As roupas dela nos dizem isso.

Lente de longo alcance no in�cio, ela costuma falar do passado...

Ainda dava pra ver as marcas nele...

E ent�o muda-se a lente.

Fizemos o salto.

N�o estamos mais olhando para o passado, estamos nele.

E a esta o velho, um jovem rapaz agora.

Spot!

Ele n�o era mais o c�o que eu conhecia...

Spot!

Ele morreu pacificamente aquela segunda vez

e eu o enterrei no Cemit�rio Maldito...

Onde, como voc� viu, seus ossos ainda est�o.

Um homem nem sempre sabe por que faz certas coisas, Lewis...

Acho que fiz isso

porque sua filha n�o est� preparada para o animal favorito dela morrer.

Talvez com o tempo ela descubra o que realmente � a morte...

� a que a dor para e as boas lembran�as come�am.

Algu�m j� enterrou alguma pessoa l�?

Pelo amor de Deus, n�o! Quem faria isso?

...e ali esta o aro no caibro.

Seu ber�o ficava aqui e sua m�e te pendurava

neste mesmo banco h� muito, muito tempo.

Outro homem recordando, visitando sua vila depois de anos fora.

A c�mera se aproxima. E o som do passado come�a...

A m�e dele est� cantando. Parece atrair os olhos dele.

Depois, quadros do passado. Sem furo, sem imagem dissolvida.

Quase n�o h� movimento de c�mera.

Uma s�rie de imagens pict�ricas.

Cada uma delas um haiku de amor ou morte.

Quase de pra adivinhar que o filme foi dirigido por Yuliya Solntseva,

o romantismo pict�rico que aparece com frequ�ncia neste road movie.

A musica da m�e era o gatilho,

o dispositivo de transporte em O Poema do Mar.

As palavras na pedra foram a c�psula do tempo no filme grego.

+s vezes, uma mem�ria � acionada ao se ver algo.

E muito frequentemente em A Time to Die, de Dorota Kedzierzawska.

Aniela usa bin�culos.

Ela v� crian�as dan�ando.

Um longo caminho � frente. Uma vida inteira de distancia.

Mais perto dela agora.

E ent�o essa transforma��o.

O olhar dela � interior. Luz tr�mula.

Ent�o sua pr�pria dan�a juvenil. Como se refletida num lago.

Aqui a mem�ria � leve para a diretora Kedzierzawska.

Luz de uma estrela distante, talvez.

Uma vida distante, uma lente distante.

O filme de Vera Chytilov? sobre um homem envelhecido no mar.

C�mera tr�mula, como se ele estivesse num barco.

E ent�o isto.

Ele encontra um brinco.

E cortamos para suas antigas amantes.

A c�mera agora filma como se fosse ondas.

Sua mem�ria vem em ondas.

Vimos a mem�ria acionada pelo toque, �udio e olhar.

Aqui esta um objeto do passado.

Tempos mais felizes se intrometem.

Foram sua entrada nesse presente, na sua tarde.

N�o, nada de revistas. Isso levaria anos.

Como da �ltima vez.

Com frequ�ncia, na vida e no cinema, as mem�rias chegam,

indesejadas, no convidadas, como fragmentos. Flashes.

Vejam esta cena not�vel de Casais Amorosos,

de Mai Zetterling...

Uma mulher correndo.

Ela esta num hospital, esperando pra dar ? luz.

E ent�o uma lenta fus?o para outra corrida que ela fez anteriormente.

Para onde ela esta indo?

Para ver seu amante.

Em seguida, fus?o lenta de volta ao hospital,

onde ela esta fugindo.

E ent�o a m�gica come�a.

Um close-up.

Seu passado se espalha para o presente como uma nova.

E depois some novamente.

Um conjunto de fases.

Nenhuma instru��o for�ada aqui.

Nada de cacos de vidro, at� que um copo se quebra.

Zetterling usou t�cnicas tradicionais de mem�ria nos filmes,

mas as reinventou, deu vida a elas.

At� agora, nossos personagens foram indiv�duos,

homens e mulheres pensando em seu passado.

Mas e se n�o for apenas uma lembran�a individual?

Como seria isso?

Algo assim, talvez.

A diretora Yuliya Solntseva novamente...

Esta tomada atrav�s dos girass�is.

Como chegar na terra de Oz. C�mera lenta.

Uma �poca em que a vida era bonita, idealizada.

N�o � tanto uma pessoa lembrando, mas uma n�o.

Um flashback de uma Ucr�nia quase m�tica.

O escritor, Alexander Dovzhenko,

estava retratando sua pr�pria inf�ncia,

mas filtrada pelas lentes da n�o.

A Ucr�nia nunca foi t�o paradis�aca,

mas ela queria essa fabula e talvez precisasse dela.

Movamos essa mem�ria m�tica adiante, para onde ela nos leva?

Consegue adivinhar?

Para o duvidoso cinema de mem�ria da era nazista de Leni Riefenstahl.

O assunto dela s�o as Olimp�adas

e � justo come�ar com o passado cl�ssico enevoado

onde as Olimp�adas come�aram.

Escultura grega e depois sua personifica��o...

Um lan�ador de disco em c�mera lenta e contra o c�u.

Ela ama esses corpos, � claro,

mas sua sugest�o � que eles estejam na mem�ria de sua cultura,

na mem�ria muscular.

Eles s�o sua linhagem, seus ancestrais.

+ como se ela estivesse pensando

na frase do escritor alem�o Friedrich Schiller...

Os gregos s�o o que ramos;

S� o que dever�amos ser novamente.

Isto � algo mais rico.

Um homem esta andando numa paisagem de neve.

Voc� o reconhece?

Se voc� e f� de cinema, talvez sim.

Ele � Magaye Niang, protagonista de um dos maiores filmes africanos,

Touki Bouki, feito em 1973, 40 anos antes.

Ele era t�o cheio de vida e divertido nesse filme,

mas agora esta ficando grisalho.

Ent�o, ao longe, tamb�m na neve, lente de longo alcance,

vemos uma mulher nua.

Para quem se lembra do filme original,

sua atriz, Mareme Niang, tamb�m aparece nua.

Ela era t�o discrepante e punk.

Eles estavam apaixonados naquela �poca num clima quente.

Agora, existe amor num clima frio?

Que tipo de mem�ria � essa?

A diretora deste filme � Mati Diop,

sobrinha do diretor de Touki Bouki, Djibril Diop Mamb?ty.

E isto � um document�rio.

Voc� acha que voltou pra casa e percebe que n�o est� em casa.

Magaye n?o estou interpretando um novo personagem,

ou mesmo qualquer personagem.

E, no entanto, esta cena evoca o filme anterior.

Esta � uma mem�ria do filme.

Voc� quer dizer que tenho um lar desde que n�o v� pra l�?

Voc� n�o tem um lar at� sair dele.

E assim que voc� se for, n�o pode voltar.

Tente ficar no presente, querida!

Mas �s vezes � melhor ficar no presente.

O aclamado filme de Liza Johnson, Return,

sobre uma militar que voltou da Guerra no Iraque.

Ela acha dif�cil voltar a sua antiga vida

e acaba de participar de uma sess�o de terapia.

Ela caminha ao longe.

A vida da cidade continua ao seu redor.

Muitos cineastas fariam um flashback aqui,

para momentos de sua experi�ncia de guerra,

mas a diretora Johnson resiste e tenta.

Ela fica no aqui e agora.

As mem�rias da soldado s� invis�veis para todos,

exceto pra ela,

ent�o tamb�m n�o as vemos.

Nos �ltimos seis cap�tulos deste filme,

chegaremos ao cerne da quest�o.

Veremos o tempo, a vida interior,

o significado da vida,

o amor, a morte, os finais e as caneles.

Primeiro, o tempo.

TEMPO

Veja como � f�cil mudar a velocidade do filme.

Uma tomada pode ser um trem expresso

ou uma batida do cora��o.

Um momento tocante de um das primeiras diretoras,

Alice Guy Blach.

As folhas est�o caindo,

mas a pequena Trixie tenta amarr�-las nos galhos,

para reverter o tempo.

Parar o tempo, parar a decad�ncia.

Sua irm� esta morrendo de tuberculose.

Trixie quer uma maquina do tempo,

mas Alice Guy Blach � quem tinha uma.

O cinema.

E 66 anos depois, Chantal Akerman filmou esta cena...

a cena de abertura de seu filme Os Encontros de Anna.

A chegada de um trem.

Ouvimos passos.

Viajantes.

Nenhum movimento da c�mera. Nenhuma trama.

O espa�o esta mudando? N�o.

A luz esta? N�o.

O som esta? Um pouco, mas n�o muito.

O que realmente est� mudando � o tempo.

A cada segundo da cena, todo mundo nela, tudo nela

� um segundo mais velho.

Uma tomada como esta � uma imagem do tempo.

Em filmes com mais tramas,

h� momentos em que podemos ouvir tamb�m o tique-taque do rel�gio.

O belo Meu S�culo 20, da diretora h�ngara Ildik? Enyedi.

Minutos antes da meia-noite na �ltima noite do ano.

Dois trens param na esta??o.

As pessoas se olham atrav�s do gelo.

Uma �tima forma de chamar a aten��o para o tempo

� par�-lo.

Quando nada est� acontecendo,

notamos que o tempo est� acontecendo.

Quietude. O rel�gio.

Um mundo congelado de v�rias formas.

Voc� percebe o tempo quando nada mais acontece...

E esse momento oposto confirma isso.

Quando voc� faz muitas coisas, n�o percebe o tempo.

A Polegarzinha com uma borboleta.

Escurece a tela.

Ent�o aparece um inseto.

Tela preta. Um p�ssaro.

Preto. Ela est� brincando. Alheia ao tempo.

Absorvida pela divers�o, o momento, o evento.

Os escurecimentos parecem dizer que o tempo esta passando.

Uma cena delicadamente amb�gua.

Esses tr�s �ltimos trechos

foram sobre o tempo real, digamos assim.

Vamos ver a seguir o que poderia ser chamado de tempo de vida.

Como filmes resumem uma vida em algumas horas?

Ent�o, acreditei de todo cora��o que nunca me rebaixaria...

Aqui uma maneira brilhante de se fazer isso.

A abertura de Monster: Desejo Assassino, de Patty Jenkins,

que tamb�m dirigiu Mulher Maravilha.

Que todas essas pessoas ainda n�o sabiam quem eu seria.

Um dia, elas todos veriam.

Ouvi dizer que Marylin Monroe foi descoberta numa lanchonete

e pensei que poderia ser assim.

Por isso comecei a sair bem jovem e sempre procurando secretamente

quem iria me descobrir.

Seria esse cara?

Ou talvez este?

Medida em que a personagem principal cresce,

a imagem tamb�m cresce.

O passado resumido, telesc�pico.

...eles me viam como eu era e me consideravam linda,

como um diamante bruto.

Eles me dariam uma nova vida, um novo mundo,

onde tudo seria diferente.

Sim...

Eu vivi assim por muito, muito tempo.

Na minha cabe�a, sonhando assim.

Um corte pro presente.

Um dia tudo isso acabou.

Amadurecimento.

Muitos filmes tentam mostrar isso.

Muitos filmes s� sobre vidas e, portanto, sobre o tempo.

Como retratar uma vida inteira?

Como avan�ar, enquanto a vida nos leva?

YULA, 10 ANOS.

Hanna Polak faz isso de forma brilhante.

Este � o document�rio dela sobre uma garota, Yula,

que vive num dep�sito de lixo a 21km do centro de Moscou.

Polak corta para p�ssaros,

para os sonhos de fuga de Yula.

+ mais uma montanha de lixo que um dep�sito de lixo.

Mas h� outros letreiros... 12 anos, 13 e depois este...

14 ANOS

-J� bebemos muito disso? -Sim, bebemos muito!

Interior, c�mera na m�o.

O rosto de Yula arredondou desde que a conhecemos.

Hanna, n�o filme isso!

Sua m�e, alco�lica,

ainda esta viva, gra�as a Deus.

Como assim?

N�o � a vodca que eles vendem na loja.

Pelo menos esta garrafa tem um r�tulo.

-Geralmente nem tem r�tulo. -Qual a diferen�a?

Cheguei no Misha e perguntei a ele...

"Quer envenenar seus pr�prios trabalhadores?"

Quando Misha descobriu quantos trabalhadores da nossa brigada

haviam morrido com a sua Vodca sem r�tulo,

e ele ainda tinha tr�s caixas,

ele devolveu e trocou por outras certificadas.

De repente, isto.

Outro s�mbolo de voo,

em outro lugar e uma panor�mica para baixo.

Tenho que consertar a merda que fizeram.

Close-up da m�e.

Ela ainda esta aqui.

N�o vou cuidar de nenhum neto!

Eles que descubram o que fazer, j� s�o adultos agora.

Yula com 21 anos.

Ela tem um apartamento, mas teve que dar o beb�.

Se tivesse ficado com ela, j� teria cinco anos agora.

Estaria correndo por ar, j� no jardim de inf�ncia,

se eu tivesse ficado com meu beb�.

Se eu tivesse uma maquina do tempo,

voltaria aos 16 a 17 anos,

pegaria minha filha e a traria de volta comigo,

de volta ao meu tempo presente.

23 ANOS

Polak est� filmando h� 11 anos.

Yula fala sobre tempo.

Uma das poucas entrevistas diretas no filme.

Polak tem uma maquina do tempo. Sua c�mera.

No total, ela filmou Yula por 14 anos.

...quando voc� viu crian�as e adultos, o que voc� sentiu?

Aqui est� uma forma bem diferente de mostrar uma garota crescendo.

The Gold Diggers, de Sally Potter.

C�mera parada.

Uma menina circunda uma cabana isolada.

Classicamente enquadrado. Um rob� contrastando.

De repente, a menina envelheceu.

Os anos se passaram,

mas a tomada n�o mudou, nem a musica nem a luz.

E ent�o um pouco mais aberta e a mesma garota.

N�o h� musica agora.

E a garota � uma mulher. Julie Christi.

20 anos em 40 segundos.

Potter estava usando a magia do cinema,

sua caixa de magicas.

H� muitos truques, � claro.

O oposto de comprimir o tempo

e estic�-lo como uma mu�arela.

+ o que Antonia Bird faz aqui em seu filme Mortos de Fome.

Robert Carlyle � um canibal

determinado a fazer o que quiser com Guy Pearce.

M�sica agitada e corte intercalado.

De repente, isto...

Queda.

Queda. Queda.

Uma queda mais longa do que voc� esperava.

E todas estas tomadas caindo das �rvores.

Mais demoradas do que realmente levariam.

E rola... Rola... Rola...

Mais tomadas, mais tempo do que realmente levaria.

Bird e sua equipe aumentam o tempo pela repeti��o,

alterando o tamanho da cena e multiplicando a a��o.

O rio Hudson, filmado por Marie Menken.

Acelerado assim

� uma esp�cie de autoestrada.

O tempo voa, a fuma�a voa.

Barcos apressados, como carrinhos de bate-bate.

De repente, estamos olhando para uma avenida.

Nova-iorquinos na correria.

Esse truque da caixa do cinema deixa as coisas malucas.

E � f�cil fazer isso.

Voc� filma lentamente e depois projeta na velocidade normal.

A diretora grega Maria Plyta

amava a maquina do tempo do cinema

e adorava manipular o tempo.

Seu filme The She-Wolf novamente.

Panor�mica pra esquerda com uma velha senhora.

Seus gemidos de tristeza.

Sua amiga...

Vai continuar sentada, minha amiga?

Um close-up dela, aborrecida.

Minha filhinha ficava sentada ali...

Ela adorava aquela sombra...

E ent�o corta para a pessoa que esta assistindo tudo isso,

essa mulher.

Uma fus�o para as mem�rias do passado da jovem.

At� agora bem convencional.

De repente, essa estranha fus�o pro passado,

com uma pequena a��o.

Um lapso de tempo.

Outra fus�o de volta para a lembran�a do presente

e ent�o cortamos para o homem que est� recordando o fato!

Um lapso de tempo dentro de um flashback dentro de um flashback!

Mas existem raz�es na hist�ria para essas mudan�as de tempo.

No in�cio do mesmo filme, temos algo mais abstrato.

Um jovem descendo uma colina...

A c�mera se inclina para o ch�o

e depois novamente para o c�u.

E ent�o, cinco fases!

N�o devemos esquecer nossa amizade!

H� pequenos defeitos na proje��o do filme,

podemos ouvir mudan�as na m�sica.

Mas o efeito � de pequenos momentos de tempo ou consci�ncia,

sobrepostos, mas no fluindo.

Um toque de cubismo, talvez.

Dif�cil resistir a esse jogo do tempo e da mente.

Em seu filme O Futuro, a cineasta Miranda July

n�o consegue resistir.

Sua personagem est� prestes a dar mas not�cias ao namorado.

Ele n�o quer ouvir...

N�o sei o que est� acontecendo, mas...

Se voc� vai dizer algo muito ruim,

pode esperar um minuto?

Ent�o, literalmente, h� uma pausa no tempo.

Se preciso de um tempo antes de voc� dizer o que vai dizer.

S� quero que saiba...

Silhueta filmada com pouca luz, como um recorte vitoriano.

E neste tempo congelado, tudo pode acontecer.

A lua pode falar com voc�.

Voc� pode pedir conselhos a ela.

Ent�o, e agora?

Qual o seu plano para o futuro?

Acho que de pra recauchutar esse quando n�o funcionar mais.

Mas n�o d� pra ficar enrolando por muito tempo.

Por quanto tempo vai mant�-la paralisada?

Aquele tempo das com�dias de f�rias.

Analisamos o tempo real no cinema, o tempo de uma vida,

o tempo magico do filme, mas al�m disso,

h� uma esp�cie de tempo m�tico.

E o vemos aqui.

A adapta��o do Orlando de Virginia Woolf por Sally Potter.

Estamos no ano de 1750.

Aparece um avi�o de guerra, o que � imposs�vel.

E de repente, estamos no Reino Unido,

num bombardeio, na d�cada de 40.

Quase 200 anos em um �nico corte.

Orlando � uma passageira do tempo, uma passageira do g�nero,

uma Doctor Who.

A fumaceira da guerra.

Travelling pra direita.

NASCIMENTO

E ent�o, com um baque,

estamos no vidro e no cromado dos anos 80.

Mais 40 anos em um corte.

Realmente muito bom...

Orlando quase n�o envelheceu,

mas a hist�ria deu um salto impressionante.

Acho que vai vender.

O romance de Woolf estava implorando pelo cinema.

...aumentar o interesse pelo romance, dar um final feliz...

A prop�sito,

quanto tempo demorou neste rascunho?

Nosso �ltimo trecho � um dos mais simples tecnicamente,

por�m um dos melhores.

Uma garota, um pirulito.

Por que ela olha por cima do ombro?

Seu amigo.

Tomadas simples, plano e contra plano.

Ent�o ela se afasta.

Disseram que hoje ela se tornaria uma mulher.

Que quando for meio-dia,

quando um galho n�o fizer mais sombra,

sua inf�ncia terminar.

Esta quase sem sombra. R�pido!

O pequeno rel�gio solar.

Uma coisa simples fala de grandes mudan�as na sua vida.

A diretora Marziyeh Meshkini consegue atua��es reais.

Pegue...

De repente, a pessoa que ela procurava por sobre o ombro.

Sua m�e.

O �ltimo.

Um pirulito, um peda�o de pau...

e agora um chador.

Hasan, n�o tem mais sombra. Adeus.

Tr�s objetos,

o tempo

e a sirene de um barco.

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