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Original subtitles

A maioria dos filmes foram dirigidos por homens.

A maioria dos ditos cl�ssicos foram dirigidos por homens.

Mas h� 13 d�cadas, em todos os seis continentes onde se fazem filmes,

milhares de mulheres tamb�m t�m dirigido filmes.

Alguns dos melhores.

Que filmes elas fizeram?

Que t�cnicas usaram?

O que podemos aprender sobre cinema com elas?

Vamos revisitar os filmes atrav�s dos olhos das diretoras.

Vamos fazer um novo road movie pelo cinema.

MULHERES FAZEM CINEMA

UM NOVO FILME DE ESTRADA ATRAV�S DO CINEMA.

O suspense � um dos pilares do cinema e da TV.

Toda s�rie policial tem.

Mas como constru�-lo bem?

SUSPENSE

Voc�s se gostam?

Eu a odeio, ela � uma vagabunda.

Ela adora negros. A m�o dela � negra!

Vamos come�ar em um lugar incomum.

N�o no g�nero suspense, mas no document�rio.

Suspense no mundo real.

Cale a boca, por favor!

L� vem voc�, l� vem voc�.

Imagens cruas, fora de cena...

Uma cena do making of de um filme de terror amador, Demon Lover?.

O diretor do document�rio, Joel DeMott, capturou a ingenuidade

e a arrog�ncia dos cineastas.

Mas a acontece isso.

Que droga! Eu perdi isso.

Terry disse as tr�s garotas que improvisassem,

e elas espalharam chantilly por toda a sala.

Essas hippies imbecis.

Acalme-se, Jeff.

Olha s�, Jerry, este equipamento � meu.

E n�o quero que encham minhas coisas de creme.

O cinegrafista ficou furioso

porque os atores danificaram seu equipamento.

C�mera itinerante. Absurdo.

E as pessoas representam sutilmente para a c�mera.

Mas percebemos a tens�o inconfund�vel de uma filmagem

quando as coisas d�o errado.

Droga, vou ter que trocar de bolsa!

A bolsa da c�mera ficou arruinada.

Ok, quero duzentos d�lares em dinheiro hoje � noite

para cobrir meu preju�zo.

Estou falando s�rio.

Ok, vai receber seu dinheiro, Jeff. Mas fique calmo!

Cara, voc�... voc� sabe que ela n�o fez de prop�sito.

Voc� n�o devia ter feito isso.

Eu n�o deveria ter feito isso?

Sim, n�o deveria ter dado um ataque.

Pode esquecer.

Quero voc� no filme, cara.

Olha Don, este filme � desorganizado para cacete.

Ent�o fa�a algo por mim.

-O que? -Me mostre como film�-lo.

Quer... n�o sei como filmar isso. N�o fa�o filmes de terror, Don.

-Explica para mim? -Eu j� expliquei.

-E os n�meros F? -Sim.

Deixe que eu filme.

Olha, Don, n�o vou ficar de bra�os cruzados por uma semana e meia...

Fique comigo nas filmagens e eu pagarei o dobro.

Quando?

Eu pago agora. Vou lhe dar mil d�lares.

N�o, voc� n�o tem. Quero dizer, isso n�o � justo.

Jerry, me de seu dinheiro.

Don, voc� n�o tem.

Tudo bem, vamos a casa dele para pegar o dinheiro.

Don, n�o.

Vou lhe dar mil d�lares em dinheiro agora.

Deixe-me filmar ou nunca vou terminar o maldito filme.

Deixe-me filmar, amigo. Eu sei o que quero!

Me ajude, Jeff. Vamos l�, me ajude!

E aqui est� outro tipo de suspense inesperado.

Tentando ser um pouco mais...

O filme de Carol Morley sobre Joyce Vincent,

que morreu em seu apartamento em Londres

e cujo corpo n�o foi descoberto por anos.

Morley p� a voz da Joyce.

Ol�, meu nome � Joyce. E isso � legal!

Ol�, sou a Joyce. E isso � legal.

� estranho, n�o soa como a Joyce.

Veja, � isso, n�o �? Traz a pessoa ? vida.

Sabe, ela n�o est� falando sobre patologistas,

fluidos corporais...

Pessoas discutindo se ela parecia ser ela mesma.

Fundo neutro em tons quentes.

Assim, s� nos concentramos nos rostos dos entrevistados.

Quando nos conhecemos, ela queria ser cantora.

Eu tinha um est�dio de grava��o e marquei uma sess�o para ela.

Por mais que amasse a Joyce, ela n�o era cantora.

Eu disse que ela poderia fazer m�mica ao fundo.

Sem esfor�o Sem esfor�o.

N�o h� recompensa N�o.

Recria um momento dela.

A Joyce tinha uma voz ador�vel.

Quando era crian�a,

j� cantava On a Summer?, de Shirley Bassey.

Ningu�m est� mentindo nesses momentos,

e nem o cineasta est� pregando pe�as.

Dizem aos documentaristas que contem a hist�ria.

Mas, e se a hist�ria n�o for aceita?

E se houver tens�o na verdade?

E se as mem�rias testarem sua for�a de tra��o?

Sem esfor�o.

Havia muitas pessoas.

Meninas, meninos, adultos...

Qualquer um poderia estar no parquinho.

Era algo autom�tico.

Havia uma multid�o ao redor da Joyce

que apenas apreciava e ela agradava as pessoas.

Mas n�o ficava se exibindo.

Era algo que gostava de fazer, amava e era boa nisso.

Falando de resist�ncia e tra��o.

Que tal uma fam�lia de classe m�dia indo jantar?

Eles deveriam estar se divertindo, aproveitando o momento.

Vemos as cores suaves de novo.

Como se eles estivessem em um nevoeiro.

E o plano fica amplo por muito tempo.

Sem intimidade, sem vivacidade.

-Pimenta? -Ainda n�o, obrigada.

-Pimenta, m�o? -Obrigada, querido.

Polidez.

Mas depois...

Isso n�o foi bem preparado.

-Ainda est� rosa no meio. -Mesmo?

Sim, n�o deveria ser assim. N�o, n�o mesmo.

Espere 25 minutos e depois...

Olhe!

Irritado em rela��o ao modo certo de cozinhar algo

e a maneira certa de reclamar.

N�o precisa dizer que est� bom se n�o estiver.

N�s estamos pagando, ent�o podemos mandar de volta.

-Est� bom. -Bem, o meu n�o est� nada bom.

Um dia de lazer juntos.

Uma pequena arena de avalia��es, expectativas, disc�rdia, irrita��es.

Bem, se n�o est� satisfeita com isso, ent�o...

Bem, n�o faz sentido n�o reclamar

quando vamos a um restaurante juntos.

Por favor!

E quando olhamos de perto,

percebemos olhares duros atrav�s da insatisfa��o.

Tudo bem com voc�s?

Ol�, a carne n�o est� bem cozida no meio.

-Certo. -Sim.

Sinto muito.

Quer que eu lhe traga um novo ou voc�?

Acho que vou escolher outra coisa.

Talvez tome se uma sopa.

Porque isso � muito perigoso.

M�e, m�o, n�o quer mandar o seu prato de volta?

O meu est� bom.

N�o precisa dizer que est� bom. Estou mandando o meu de volta.

Eu j� comi um pouco. Est� tudo bem.

Ent�o tudo bem.

Aqui est�, muito obrigada.

-Certo, voc� gostaria de... -Sim, uma sopa, �timo.

-Sinto muito. -Posso falar com o chef?

Porque � realmente perigoso. Obrigada.

-Sem problema. Vou cham�-lo. -Obrigada!

Voc�s n�o precisam sentar-se em sil�ncio.

E n�o precisam me olhar

como se eu estivesse fazendo um esc�ndalo,

como se eu os constrangesse.

O cozinheiro... N�o est� bem cozido, � perigoso.

Seria agrad�vel ficar aqui

sem pessoas silenciosas ao meu redor.

N�o importa.

De olhares cortantes ao Blue Steel?

e a primeira sequ�ncia de tens�o mais gen�rica.

A policial de Jamie Lee Curtis procura um ladr�o.

H� uma porta de metal levando s�o �rea de servi�o.

Ela checa...

mas ele n�o est� l�.

H� outra porta, levando ao dep�sito iluminado.

O ponto de vista dela.

Abra a gaveta, cara!

Ela espreita pelas prateleiras. Mas ele n�o est� l�.

A m�sica � underscore,

mas percebemos que a pergunta aqui,

uma das primeiras em tens�o e suspense,

E onde isso vai acontecer?

A c�mera vira de repente. Tamb�m n�o est� aqui.

Nosso quinto espa�o.

Que vagabunda! O que ela sabe?

E aqui tamb�m n�o, nosso sexto espa�o.

Mas h� um corpo.

Estamos chegando mais perto.

Um tom agudo na m�sica,

como a corda superior de um violino.

A corda mais firme e tensa.

E finalmente, l� est� ele, no s�timo espa�o.

Eu n�o estou pedindo comida chinesa, cara.

Me da o dinheiro!

Isso ai.

E os trocados l�. Coloque as moedas l�!

Nem se atrevam a respirar.

Tudo bem.

O imbecil que der uma de corajoso vai se ferrar.

Me d� a bolsa, me d� a bolsa.

Voc� est� brincando?

Voc� quer fazer gracinhas, seu idiota?

Os batimentos card�acos do beb� est�o fracos.

O que voc� quer dizer com "fraco"?

-Vou verificar sua dilata��o. -N�o vai haver cesariana?

N�o.

Ponha a m�scara. Voc� precisa de oxig�nio.

Voc� est� em dilata��o total. Temos que fazer o parto agora.

A cabe�a do beb� est� sendo pressionada para baixo.

Quando a tens�o n�o � sobre o local onde vai acontecer,

e, com frequ�ncia, sobre o momento em que vai acontecer.

No filme sueco Hotel?, de Lisa Langseth,

Alicia Vikander faz o papel de Erika.

Ela est� em trabalho de parto, mas as coisas est�o dando errado.

N�o sa�mos da sala,

ent�o sabemos onde vai acontecer.

A tens�o vem do momento em que vai acontecer.

Podemos dizer que ser traum�tico.

Ent�o queremos que acabe logo, como ela tamb�m quer.

Mas o cinema dinamiza o momento, o tempo.

O bipe dos batimentos card�acos � a trilha sonora underscore.

Os planos ficam cada vez mais curtos e mais pr�ximos.

H� mais momentos fora de foco.

H� mais caos visual,

quando as pessoas ficam estressadas.

Os olhos movem-se rapidamente, o p�nico aumenta.

Eles perdem o controle.

Vou contar at� dez e tudo vai acabar.

Um...

A tens�o do momento pode tamb�m ser feita de maneira oposta.

Outra cena de hospital.

Novamente acontece na sala de opera��o.

Mas a c�mera fica parada, e precisa.

Quase matem�tica.

N�o h� tentativa de expressar medo ou ansiedade em seus movimentos.

Mas a mulher contando doa ansiedade, pavor.

E a calma delas � inquietante.

Cinco...

Apenas um detalhe,

os p�s do menino em movimento expressam sua ansiedade e medo.

Sete...

Uma agulha na carne.

Nosso sistema nervoso reage a amea�a de dor ou ferimento.

Oito...

O sussurro ao dizer dez...

Dez...

Algu�m totalmente sob controle.

� t�o assustador quanto algu�m fora de controle.

Metal na pele de novo.

Em The Wayward Girl?, de Edith Carlmar,

o casal quer matar uma ovelha.

O personagem-t�tulo de Liv Ullman tem uma faca e um machado.

Corte duplo.

E ao fundo, soa o mais sombrio dos instrumentos de corda.

Violinos elevam seu tom.

Sete planos curtos fragmentam a cena.

Ele faz uma pausa.

A suavidade da ovelha, a solidez do machado.

A tens�o do momento alonga o tempo como mozarela derretida.

Uma segunda pausa.

Dor adiada � dor dobrada.

Um punhal que vejo agora?

E a faca est� fora de foco.

Tudo bem! Est� tudo bem!

Voc� n�o pode passar por ali.

D� a volta, continue andando, obrigado!

Esquerda, por favor, contorne a barreira.

Acho que ele est� entre o primeiro e o segundo...

Outra cena concentrada no momento.

O tempo estica como mozarela derretida.

O filme de estreia, de Mimi Leder,

uma das diretoras principais do drama de TV Plant�o M�dico.

Vamos l�, venha com o papai.

Um iugoslavo vingativo tem um dispositivo nuclear na mochila.

Um atirador da pol�cia.

George Clooney manda o policial de opera��es especiais atirar.

A �rea n�o est� limpa, h� muitos inocentes.

N�mero quatro, aqui � o l�der, atire.

H� uma crian�a, uma fam�lia.

Entendi, atire nele.

Mas apenas o atirador pode ver que ele n�o tem uma mira certa.

Ele pode matar uma crian�a. A press�o est� pesando nele.

Repito, atire no alvo. Atire nele!

H� um debate interno.

Meu Deus!

Droga, algu�m tem que atirar nele!

E como a diretora Leder nos deixa ver o que ele v�,

nossos neur�nios-espelho nos fazem sentir um pouco da ansiedade dele,

sua indecis�o e a press�o sofrida.

Quatro pessoas em um momento.

Cinco, se voc� contar o espectador.

Precisamos passar por aqui.

Sim, voc� e o resto de NY. Fique calmo, ok? Mas d� o fora daqui.

Nos setores essenciais para o desenvolvimento futuro.

-Pode ser breve, Srta. Brouwer? -Com certeza.

A estreia da diretora holandesa vencedora do Oscar,

Marleen Gorris, foi um dos filmes mais tensos e col�ricos da �poca.

Tr�s mulheres que s�o condescendentes, caladas,

maltratadas ou humilhadas s�o levadas ao limite.

Uma cena no come�o na sala da diretoria.

O corte em seu rosto inexpressivo quando ela mexe o caf�.

E acontece isso.

E a cabe�a dela se move como um rob�.

Como se estivesse morta em um lugar assim.

Is�topos radioativos.

H� algo que possamos fazer sobre isso?

Queria propor a n�o expans�o das atividades na �frica Ocidental

porque as perspectivas s�o altamente duvidosas.

A c�mera se aproxima.

E a m�sica de sintetizador dos anos 80 come�a.

Pulsante, animada, um toque de Halloween, de John Carpenter.

Vamos ao seu mundo interior. Ela resolveu agir.

Mais tarde, ela est� em uma loja.

Outra mulher, detida pelo dono da loja.

Nossa primeira mulher avan�a.

N�o h� falas.

Um sintetizador como batimentos card�acos.

A segunda mulher rouba abertamente uma roupa.

A terceira mulher aparece. Ela vira a cabe�a.

Como se estivessem sendo chamadas por uma for�a invis�vel,

como Encontros Pr�ximos do Terceiro Tipo.

Ent�o nossa primeira mulher rouba algo.

A for�a invis�vel est� ficando mais forte.

A for�a da raiva contra os homens e por serem humilhadas.

Essas mulheres improvisam,

inventando sua hist�ria, seu protesto enquanto continuam.

Momentos depois...

Eles empurram o homem.

Bofetada...

chute, viol�ncia fria.

N�o h� nenhuma erup��o vulc�nica aqui.

A m�sica � ultrapassada ou expressiva de uma maneira

que as mulheres n�o s�o.

Uma loja de roupas cheia de armas.

T�o perturbador quanto um filme de Brian De Palma ou Martin Scorsese.

Aonde ir ap�s o oposto de Esposas em Conflito, de Gorris dos anos 80?

Para Selma, talvez,

e um grupo de pessoas igualmente enfurecidas.

Neste ver�o, podemos concentrar nossas a��es em um pr�dio.

Uma cidadela, defendida por fan�ticos.

O Tribunal Selma.

O palco perfeito.

Tenso e f�ria formam uma boa equipe.

Mas essas pessoas se ajoelham e colocam as m�os atr�s da cabe�a.

A t�tica deles � o oposto das mulheres de Gorros.

Essas pessoas est�o determinadas a resistir ? viol�ncia,

por mais que sejam provocadas.

Xerife Clark, tentamos ter acesso ao cart�rio de registro civil,

� nosso direito.

H� muitas pessoas, voc� sabe muito bem.

E a c�mera voltando para a frente,

como se quisesse enfatizar o controle, o rigor, a disciplina.

A segrega��o racial agora � ilegal neste pa�s, senhor.

Ent�o temos a c�mera na m�o.

E um tom solit�rios na trilha sonora.

Vamos, liberem a cal�ada.

Liberem o caminho!

Saiam do caminho, saiam do caminho!

Um elefante em uma loja de porcelana.

Saiam do caminho. Liberem a cal�ada.

Disse para liberarem a cal�ada!

-Ok, ele vai se sentar. -Ele n�o pode se sentar?

Bem, tem que aprender.

-Ele vai se sentar. -Que merda! Ent�o sente-se!

Pai!

A tens�o aqui � se o vulc�o pode ser contido.

Eu lhe disse que ele n�o conseguia se sentar.

-Bem, o que temos aqui? -Espere um pouco.

O que est� acontecendo aqui, garoto?

Jimmy, sente-se!

N�o, m�o, vou ficar aqui.

Jimmy!

Tenso como press�o.

Como um peda�o de pau prestes a quebrar,

como um bal�o prestes a estourar.

Pegue aquela negra!

Tire suas m�os de mim!

Espere, espere um segundo!

Pare com isso!

Que tia ruim!

Ela engana as criancinhas.

Nossa cena final neste cap�tulo �

de uma das grandes cineastas de tens�o, Kira Muratova.

A tens�o do mundo real,

o tipo mais dif�cil de assistir.

As jovens atormentam um homem com dificuldades de aprendizagem.

Elas o cercam, o confundem.

Um dos temas de Muratova � a crueldade da vida cotidiana.

Sua ansiedade aumenta e a nossa tamb�m,

ao testemunharmos sua ang�stia.

Um jovem interv�m, talvez seja um bom samaritano.

Deixem-no em paz.

-Pare, ele � doente. -Voc� �...

Mas � violento demais.

Os gritos tornam a cena quase inaud�vel.

Pare!

Pare com isso!

Socorro!

Garotas malvadas.

E a persegui��o...

Socorro!

Vou mat�-la!

Seu nojento!

Um homem sai por uma janela.

Os gritos aumentam e temos um caos.

Mais um ato de viol�ncia.

E outro espectador vislumbra um mundo min�sculo...

dom�stico, pobre, entulhado.

Uma sociedade inteira a ponto de explodir.

O que acontece quando a tens�o passa,

quando a viol�ncia passa, quando a amea�a acaba.

A adrenalina e a ansiedade diminuem.

Como o cinema mostra isso?

In�rcia, quietude e calma.

Os filmes costumam ser vistos como entretenimento de a��o,

como thrillers.

Mas o que eles fazem quando voc� quer diminuir a pulsa��o

em vez de aceler�-la?

IN�RCIA

No cap�tulo seis, vimos uma parte

de Places in Cities?, de Angela Schanelec.

Agora a tela est� negra.

Um instrutor de autoescola levou uma jovem ao seu apartamento.

Presumimos que est�o fazendo sexo,

mas n�o os vemos, nem mesmo os ouvimos.

Radicalmente, Schanalec n�o nos mostra nada da a��o.

A tela negra dura cerca de dois minutos!

De repente... Corta!

Fica nela, est�tica. O resultado.

In�rcia � o que resta quando a a��o � interrompida.

E ent�o o vemos, tamb�m est�tico, tamb�m exausto.

O filme de Schanelec � semelhante ao de Nanouk Leopold.

Uma mulher tamb�m acabou de fazer sexo.

Estamos na �ndia.

Come�o do dia, quando o sol n�o est� muito quente,

quando o tr�fego n�o est� rugindo,

quando o pulso da cidade n�o est� batendo muito r�pido.

Plano amplo est�tico.

Vimos a personagem da atriz Sandra Huller alternando homens

e encontros sexuais.

Mas o que ela est� realmente procurando?

Talvez seja isso.

Talvez a solid�o.

Tempo para pensar, tempo para sentir.

A calma depois da tempestade e antes de outra tempestade.

O filme S?ndrome Astnicah, de Kira Muratova novamente.

O filme todo � uma tempestade.

Sobre uma sociedade

que tem uma doen�a, uma s�ndrome e ansiedade.

No entanto, observe esses momentos,

que s�o raros no filme.

Natureza morta.

S�o close-ups de um apartamento.

A c�mera n�o se move, os objetos n?o se movem.

Como um �lbum de fotografias.

E ent�o esse plano mostra que h� um ponto de vista aqui.

O homem estou exausto?

Ele j� est� farto da cidade agitada?

Ele est� fascinado pelo banal,

pelas bugigangas cotidianas que tem visto?

Talvez "olhar" seja a palavra-chave aqui.

A mulher na �ndia estava de olhos fechados,

mas aqui, para ele, a in�rcia � a simples quest�o de olhar o mundo.

N�o as coisas grandiosas, mas as coisas comuns.

O curta da diretora escocesa Margaret Tait mostra que a in�rcia.

N�o � apenas uma coisa visual.

O som das abelhas nos prende tanto quanto as imagens das papoulas.

Como se o homem do sof� tivesse ido para o jardim.

As abelhas s�o trabalhadoras, mas ele � o oposto delas.

N�s somos o oposto, somos est�ticos.

Nossos pensamentos foram desconectados.

Nossos sentidos fazem o trabalho...

Nenhum instrumento, nenhum equipamento � necess�rio.

Olhe, a luz est� l�.

Olhe para tudo que � iluminado pela luz

e veja as notas, as m�sicas, as palavras, as cores e durma.

Todas as cores e todos os sonhos est�o l� no feixe de luz.

Claro que existem centenas de momentos calmos nos filmes,

mas o que acontece se voc� unir inercia a outras coisas?

E se voc� a colocar em lugares inesperados?

Isso � o que a diretora belga Fien Troch faz aqui.

Uma m�e descobriu que seu filho comia doces.

Ela briga com ele, Ela lhe de um castigo.

Mas como Troch filma a cena?

Assim...

E o irm�o do garoto tapa a boca.

Momentos congelados.

Congelados pelo medo da m�e?

Depois a c�mera est� em fuga.

Foge da m�e? Est� com o garoto?

Uma fuga real ou imaginaria?

E vemos o garoto sozinho, parado, est�tico.

Uma maneira muito inovadora de mostrar uma bronca.

Um eco do diretor escoc�s Bill Douglas.

Se Troch encontrou uma maneira criativa

de filmar um encontro est�tico,

a diretora holandesa Marleen Gorris fez o mesmo.

Como j� ouvimos nos cap�tulos anteriores,

a mulher esquerda assassinou brutalmente um homem que n�o conhecia.

A mulher a direita � sua psiquiatra,

cujo trabalho � fazer um diagn�stico da assassina.

O encontro delas � est�tico, n�o tem palavras,

como outros neste cap�tulo.

Mas a paciente come�a a fazer isso.

Como se estivesse escaneando a psiquiatra, tirando um raio-X.

Este momento pode ser est�tico,

mas n�o h� como relaxar aqui ou sentir o momento.

N�o h� muita a��o f�sica aqui,

mas as mulheres se analisam com grande intensidade.

Minha esposa me deixou...

Chantal Akerman usa a in�rcia no cinema

de maneira ainda mais complexa.

Uma c�mera est�tica.

Um homem est� falando com uma mulher que est� fora da tela.

Eles eram amantes.

Agora ele est� na frente de sua pr�pria casa.

Quase nenhum movimento.

Ele est� falando sobre sua ex-mulher,

sobre sua vida calma e est�tica.

Tudo parecia tranquilo.

Parecia que iremos passar nossas vidas juntas.

Verdade que passamos semanas deitados lado a lado

sem sentir nenhum desejo, mas isso n�o importava.

E muitas vezes...

quando eu me virava para dormir,

ela se aninhava contra mim.

Era confortante me dissolver nela.

Seu cheiro, sua carne...

E se ela adormecesse primeiro e virasse as costas para mim,

eu me aninhava contra ela

e sentia suas nadegas redondas na cavidade do meu est�mago.

Talvez outro diretor tivesse movido a c�mera lentamente,

mas Akerman fica totalmente im�vel.

E, assim, temos uma hist�ria

sobre vidas est�ticas contidas em um quadro est�tico.

E eles fugiram juntos.

E se n�o houver uma hist�ria �bvia dentro do quadro?

O filme da artista americana Sharon Lockhart, Double Tide?.

Uma mulher procurando mariscos.

Ela est� envolvida em seu trabalho,

e n�o percebe as nuvens em movimento.

Ela tamb�m n�o est� descansando e aproveitando aquele momento,

como a mulher que se deita na varanda na �ndia.

Mas a imagem est� descansando, n�o?

E, assim, tamb�m descansamos.

O filme dura 99 minutos.

As pessoas assistem uma observa��o, uma medita��o.

Vai chover ou n�o?

Os p�ssaros est�o voando por aqui.

Isso significa chuva.

Vai chover em breve.

Outra medita��o. Estamos no Paraguai.

O sol esta nascendo.

O casal est� apenas observando.

Sem movimento da c�mera. O momento.

Quase budista.

J� o outono,

mas ainda est� quente.

N�o est� t�o quente.

Nosso filho deve estar morrendo de sede.

Eu me pergunto se ele est� com frio.

Frio?

Mas est� quente!

Bem, ele levou o poncho.

N�o acho que v� ficar com frio.

Estou com saudades dele.

Quero que ele volte.

Mas um outro lugar invade o momento deles.

Pensam no filho deles...

e depois, na guerra.

Aquela guerra nojenta...

N�o faz sentido.

Aquele cachorro nunca vai se calar!

In�rcia, um lugar para ficar e pensar.

Ent�o balance a rede se isso lhe incomoda tanto!

O calor me incomoda mais.

Mas voc� acabou de dizer que n�o est� t�o quente.

E, � claro, a maior in�rcia de todas...

a morte.

O primeiro longa da diretora paquistanesa Sabiha Sumar,

Silent Waters?, ganhou o pr�mio de melhor filme

e de melhor diretor no festival de cinema de Locarno.

Sumar estudou hist�ria e pensamento pol�tico,

ent�o muitos de seus filmes s�o an�lises de quest�es sociais.

Vimos uma cena deste filme no cap�tulo 11 sobre descoberta.

Agora a personagem de Sumar enrola gentilmente o cachecol.

A luz do amanhecer aparece de novo.

Ela parece ter sido feita para a in�rcia.

Uma cena de natureza morta.

Ent�o olhamos para o povo da solid�o.

Depois, estamos longe.

Temos outra imagem como uma pintura. Ent�o...

O escuro.

O vazio. A morte dela.

Mas a morte n�o tem que ser algo t�o s�rio,

como mostra essa cena.

Plano frontal amplo, como uma cena de teatro.

Atr�s dela h� um corpo mumificado.

Estamos na Indon�sia.

Vemos um plano lateral.

Teatral de novo.

Nos �ngulos precisos.

Os diretores de in�rcia adoram geometria rigorosa.

Sem m�sica, sem dialogo.

Quase nenhum som.

Talvez um toque de Tarantino...

Mas o filme de Mouly Surya tem um tom pr�prio de humor negro.

Como isso mostra!

Vemos agora um corpo sem cabe�a!

Um homem que tentou estuprar uma mulher.

A calma deste close. Devemos rir agora?

Agora est�o os quatro juntos.

Um quadro amplo, macabro, est�tico...

Saindo da tranquilidade para algo semelhante.

"Menos � mais", dizem.

Como isso funciona nos filmes?

O que acontece quando os cineastas excluem coisas das cenas

ou da hist�ria de prop�sito?

EXCLUSIVO

Quando voc� ficar sem dinheiro,

quando n�o tiver mais um centavo.

Ent�o venda tudo, assente o gado e acabe com tudo.

O filme brilhante de Kira Muratova, Chekov?s Motifs?.

Ouvimos uma briga de fam�lia. J� dura uma eternidade.

Mas s� nos concentramos no beb� da fam�lia.

Muratova deixa os outros de fora nesta cena.

O temporal ao redor da crian�a,

a tempestade que n�o aparece na tela.

Uma tempestade magn�tica.

N�o v� que n�o estou mais acostumado a essas coisas?

Eu aguentava antes, mas agora n�o posso mais.

A crian�a, que est� caindo de sono, quase n�o v� ou ouve

o que est� acontecendo.

Veja, isso � o que importa.

Mova sua m�o.

Agora vemos um homem, em preto e branco de novo.

Foi filmado do mesmo �ngulo do beb�.

Mas algo muito diferente est� acontecendo aqui.

Ele � motorista de caminh�o.

Uma mulher abre o z�per de suas cal�as.

Ela come�a a masturb�-lo.

Mas a diretora Chantal Akerman n�o nos mostra a mulher,

nem a virilha, nem a a��o.

Quase tudo � exclu�do,

inclusive a sensa��o de seu pulso acelerado.

Est� ficando quente.

Est� ficando mais duro.

Como vimos no cap�tulo 19 sobre sexo,

Akerman certamente n�o tem medo de mostrar cenas de sexo.

Mas aqui ela deixa de fora as imagens mais obvias.

Assim, nos concentramos no rosto dele,

em algo rigoroso, em um vazio, como Andy Warhol.

Vai ficar muito grande e irromper na pele.

Outro filme em preto e branco.

Mas voltamos quase 50 anos.

Close-ups do sogro e da nora.

Ela recua.

Atua��o melodram�tica da �poca.

Ele vai estupr�-la.

Mas algo acontece.

Um balde cai.

E cortamos para sua esposa, que ouviu o alvoro�o.

Esperamos voltar ? parte chocante,

mas a diretora Olga Preobrazhenskaya

nos deixa com a esposa enquanto ela lentamente examina o local.

Est� na chuva?

O cavalo tremendo de frio fez o barulho?

As texturas dessas imagens.

Fora da tela, exclu�do, o estupro continua,

enquanto a busca da esposa segue.

Ela vai a porta agora.

A cena do crime.

O olhar acusador dela. Seus olhares se cruzam.

A mulher agredida est� em choque.

E a imagem fica desfocada.

Provavelmente o estupro n�o foi mostrado por causa da censura,

mas tamb�m por uma quest�o de doc�ncia.

Talvez a cena seja mais rica por sua aus�ncia.

Wadjda?, de Haifaa Al-Mansour.

Meninas na escola.

Um mundo pintado de amarelo que parece uma pris�o.

Vamos mudar de lugar, os homens podem nos ver aqui.

Por qu�? Eles s�o super-homens?

Se voc� pode v�-los, eles tamb�m podem v�-la.

Garotas decentes voo para dentro.

O resto vai ficar aqui onde os homens podem v�-las.

As mulheres devem ficar invis�veis neste mundo.

E a maioria das meninas se tornam invis�veis.

Wadja, de 10 anos, n�o � assim.

Ela fica a vista.

Ela n�o quer conspirar.

Como na cena anterior do filme russo,

o que n�o � visto aqui tem uma dimens�o feminista.

De onde vem um momento assim?

Talvez daqui?

O filme iraniano The Sealed Soil? de novo.

No cap�tulo 18, sobre corpos,

vimos a personagem principal tirar a blusa

e desfrutar a sensa��o da chuva em sua pele.

Esta cena acontece antes disso.

Por mais de meia hora,

a diretora Marva Nabili se recusa a nos mostrar

o rosto de seu povo.

A c�mera dela aqui � ampla,

ent�o seria dif�cil ver os rostos,

mas n�o � s� isso.

H� uma �rea com sombra a esquerda

e na b�blia faz a maior parte d� ao acontecer na sombra.

Ent�o a mulher sentada n�o � vista.

A pessoa de vermelho se levanta

e, antes disso, ela quase n�o era vista.

Dist�ncia e sombra.

Est� na tela, mas tamb�m fora dela.

Escondida dentro do quadro.

Ele me disse isso, ent�o fazia o que mandavam.

At� meus filhos tinham que fazer a mesma coisa.

Talvez esse momento seja ainda mais feminista.

Uma menina e sua m�e est�o conversando.

Mas n�o � bom fazer circuncis�o, algu�m pode morrer.

N�o, n�o, nossa cultura permite que haja circuncis�o.

A mais velha obrigou sua filha a sofrer mutila��o genital feminina.

Senti dor na �poca.

Quando estava sendo circuncidada, eu a chamei: M�e, m�e!

Por que me disse para ficar quieta?

Disse para ficar quieta, porque na nossa cultura,

a pessoa circundada n�o deve chorar nem gritar.

Uma filmagem de document�rio cl�ssico.

Sem luzes extras, c�mera na m�o.

A m�e n�o se desculpa, mas quer o perd�o da filha.

Essa � nossa cultura, voc� n�o pode elimin�-la.

Mas n�o deveria seguir a religi�o?

A religi�o permite a circuncis�o.

Mas n�o � obrigat�rio. Voc� pode ser circuncidada ou n�o.

Sim, mas eu sigo a cultura somaliana.

Sou somaliana, tenho que seguir minha cultura.

Esta � a resposta da filha.

Se quer que eu a perdoe, n�o circuncise a Fartu.

A Fartu?

-Ent�o n�o vou circuncida-la. -Ok, eu a perdoo.

Ela a perdoou.

Ela usa seu poder para remover algo.

Remove a amea�a de sua irm�.

Vemos um contrato nascer.

Deus n�o permite. Acho que no dia do julgamento final,

eles v�o me perguntar se ela me perdoou neste mundo.

Mas o dia do julgamento est� a, e Deus � que me pergunta.

N�o sei o que vou dizer.

At� agora neste cap�tulo, vimos um item fora da tela.

Mas o que acontece se tivermos dois?

O filme Baxter, Vera Baxter, da autora e cineasta Marguerite Duras.

Come�o do filme.

Estamos em um bar.

Um gar�om conversa com uma mulher fora da tela.

Eles conseguiram construir, mas alguma coisa aconteceu.

Eles nunca mais voltaram...

Ent�o ouvimos uma voz � direita. Um homem fazendo uma liga��o.

Ala?

O agente imobili�rio tamb�m tentou ligar.

A voz do barman soa como um eco,

mas a voz da mulher � gravada mais perto e com mais clareza.

-Qual � o nome dela? -Baxter.

Vera Baxter.

Vera Baxter. N�o a conhe�o.

Como se ele estivesse no bar

e ela estivesse em uma cabine de grava��o

ou talvez no pr�prio filme.

Portanto, temos uma pessoa na tela e duas fora da tela.

A c�mera mal se move.

Eu disse que voc� � jornalista.

O cara ao telefone se move, de fora para dentro da tela.

E ele � o jovem Gerard Depardieu.

Verdade.

Ela ainda n�o est� atendendo o telefone.

Vai at� l�?

Eu n�o sei.

Eu n�o sei.

Esta cena � ainda mais rica. O fot�grafo cego Martin.

Seu cachorro passa por Andy,

que descreve as fotografias para ele.

Depois vai para Celia, a empregada de Martin,

que � um pouco obcecada pelo fot�grafo.

Bill.

Bill.

Bill!

O Andy de Russell Crowe est� entre os dois.

Mais um trio.

O uso preciso da dire��o em tela da diretora Jocelyn Moorehouse.

Martin est� perdido sem seu cachorro.

O mundo fica fora da tela.

Ent�o sai a refer�ncia que completa a cena,

que completa a hist�ria.

E a mulher foi embora. Tamb�m saiu da tela.

Finalmente, neste cap�tulo, chegamos ? Segunda Guerra Mundial.

Nosso her�i Ivan est� lutando contra os alem�es.

Uma gris escura ao redor da lente o cerca.

Um pouco para a direita...

um pouco para a direita.

A moldura tem a mesma forma de seu corpo rastejante.

Ele olha para o rel�gio.

E diz...

Feliz Ano-Novo, cidad�os do mundo! Muitas felicidades.

Ao nos olhar e nos cumprimentar,

ele nos lembra quem est� realmente fora da tela: O p�blico.

N�o sou um guerreiro.

Maldito Hitler, Goering, Goebbels, Ribbentrop e todo o fascismo.

Eles te do um pouco de vodca. Isso � bom?

Eu prefiro vodca uma vez a cada tr�s dias.

Assim posso sabore�-la e realmente senti-la.

E h� uma tempestade de neve aqui. Perdoe-me, Deus.

Onde est� voc�, esc�ria fascista?

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