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Original subtitles

A maioria dos filmes foram dirigidos por homens.

A maioria dos ditos cl�ssicos foram dirigidos por homens.

Mas h� 13 d�cadas, em todos os seis continentes onde se fazem filmes,

milhares de mulheres tamb�m t�m dirigido filmes.

Alguns dos melhores.

Que filmes elas fizeram?

Que t�cnicas usaram?

O que podemos aprender sobre cinema com elas?

Vamos revisitar os filmes atrav�s dos olhos das diretoras.

Vamos fazer um novo road movie pelo cinema.

MULHERES FAZEM CINEMA

UM NOVO FILME DE ESTRADA ATRAV�S DO CINEMA.

Alguns dos filmes mais famosos, O M�gico de Oz,

O Apartamento, de Billy Wilder, ET... S�o sobre o lar.

Como s�o retratados os lares no cinema?

Quais t�cnicas e ideias foram usadas?

CAP�TULO 20 - LAR

Vamos come�ar ao ar livre.

Em Ung Flukt, Liv Ullman � uma jovem de esp�rito livre.

Ela fugiu com o namorado.

Nesta ador�vel cena de est�dio

ela fala do sonho de terem uma casa juntos.

Sempre quis ter uma cama s� minha.

Branca durante o dia e preta � noite.

Com uma colcha preta feita de renda,

leve como uma teia de aranha,

que voc� poderia levantar com dois dedos.

E por baixo, tudo puro e branco.

O sonho do lar ser� como uma cola no relacionamento deles, ela acha,

mas a diretora Edith Carlmar funde a cena para os pais dele.

Uma casa burguesa, confusa e formal.

Esses sonhos sufocam?

Alguns minutos depois, voltamos para o jovem casal.

Eles est�o numa velha cabana da fam�lia dele.

O contraste! Madeira nua. Sem tapetes ou enfeites.

Palha servindo de colch�o.

O primitivismo n�rdico.

Um arqu�tipo que n�o anima nem um pouco a garota rebelde.

Vou pegar uns brotos de abeto.

Os brotos mais macios,

� o melhor colch�o.

Vamos nos ajeitar,

vamos come�ar com a pior parte.

O lar dos sonhos � tema de filmes americanos

estrelados por atrizes como Doris Day,

mas, al�m disso, � tamb�m um ideal.

The Enchanted Desna, de Yulia Solnsteva.

A Ucr�nia antes da Grande Guerra Patri�tica.

Uma cabana de palha idealizada.

O menino louro.

O galo canta.

A c�mera se move.

A entrada.

Outra porta...

E deixamos a luz do sol,

o id�lio.

M�sica e tremula��o.

Um obo�.

Santos.

Choro. Um espa�o sagrado.

A escurid�o encantada.

A seguran�a e maravilha do escuro.

Outro garoto, James,

na Esc�cia, em 1973.

Uma luz mais cinza. Um mundo mais sombrio.

E mais...

Uma nova casa para a qual sua fam�lia vai se mudar.

Ele n�o consegue entrar.

O som da chuva.

Pode n�o parecer glamoroso, mas tamb�m � um sonho.

Um recome�o depois dos pobres apartamentos de Glasgow.

A textura da parede em seus dedos.

E ent�o...

Estamos no lugar onde ele quer estar.

Um cineasta menor nos manteria do lado de fora, com ele.

Mas a diretora Lynne Ramsay

nos coloca no lugar de seu desejo: O lar.

A casa est� observando, prometendo.

Essa pequena cena aparece na janela de Ramsay.

O parceiro de Hedi Schneider, no filme de Sonja Heiss.

Uma �nica tomada.

Sem edi��o.

Ele abre uma janela para si mesmo.

Um lar � um mirante,

uma plataforma de observa��o,

um lugar para beber uma cerveja e ver a vida acontecer...

O homem em Jogos da Noite, de Mai Zetterling,

est� � procura da felicidade.

Ele trouxe sua noiva � mans�o onde foi criado.

Sua inf�ncia foi a de um filme de Federico Fellini...

Sexual, fascinante, grotesca e sem certezas.

Em que ele se consola agora?

Coisas nas quais aprendi a confiar.

Pinturas n�o caem em prantos ou fogem.

Camas com dossel n�o s�o infi�is.

Voc� se sentir� extremamente segura.

E ficar� entediada at� a morte na companhia deles.

N�o, n�o vou.

Voc� n�o sabe onde foi se meter...

O dinheiro constr�i um muro � sua volta...

Os objetos s�o o que lhe d�o confian�a...

E a casa.

As coisas est�veis,

as coisas n�o mercuriais.

Elas consolam.

� como se a casa olhasse para ele

da mesma forma que olha pro garoto de O Lixo e o Sonho.

Oxhide 2,

a sequ�ncia do filme de Liu Jiayin, Oxhide,

que vimos no cap�tulo 18 sobre corpos.

Estamos novamente na casa da fam�lia da diretora.

Por mais de 20 minutos,

a c�mera est�tica �olha� para esta mesa.

Um longo e im�vel olhar para a vida dom�stica.

Uma sala vista de uma simples cadeira,

talvez.

O t�tulo do filme sobre nada mais que isso.

Vemos novamente as ma�anetas da porta, a l�mpada.

E depois uma tigela,

uma novidade na tela.

Vamos ver o que h� no saco?

Parece farinha.

A tomada parece quase meditativa agora.

E ent�o... Um corte!

Finalmente.

Um novo �ngulo.

A 45 graus do �ngulo anterior

e mais alto.

Olhando de cima agora.

S� haver� 8 desses cortes em todo o filme.

E em cada vez, a c�mera se move a 45 graus.

A geometria da casa.

Minuciosa, �ntima, o viver im�vel.

O curta Tailpiece, de Margaret Tait,

� igualmente �ntimo, com um formato mais livre.

Uma c�mera port�til.

A voz de uma garota.

Uma cama.

Uma janela,

um espelho,

uma lareira.

Um breve olhar de Tait sobre ela mesma.

Tait est� saindo desta casa.

Suas coisas est�o empacotadas.

Sentimos seus olhos examinando,

tentando lembrar os cantos, recantos.

Ma�anetas.

Uma cadeira.

Coisas que estiveram ao alcance da m�o,

do olhar, durante anos.

Como um garoto no ch�o

Adeus a tudo isto.

Liu Jiayin e Margaret Tait veneram seus lares,

a sala de suas casas?

Se sim, o que � isso?

Escreva uma frase que contenha a palavra �casa�.

Ele hesita.

�Casa� numa frase?

O suspense.

O que � uma �casa�?

Depois essa marcha de pessoas.

E somos exclu�dos do seu lugar seguro.

COL�NIA DE LEPROSOS

Onde eles podem ser eles mesmos.

E ent�o ele escreve sua frase.

Uma bela frase.

A CASA � ESCURA

De A Casa � Escura para Safe, de Antonia Bird,

um dos grandes filmes sobre falta de moradia e seguran�a.

Jovens em Londres.

Eles passam a noite num abrigo para sem-teto,

mas est� tudo um caos.

Ele est� com falta de ar.

Gypo, amigo deles, est� do lado de fora,

enfurecido, fren�tico. Descontrolado.

Ele ganhou um apartamento,

mas n�o s�o 4 paredes o que ele precisa.

Ele precisa de pessoas.

Kaz!

Ele far� de tudo.

Lar quase n�o existe pra ele.

Lar � vida e morte.

O interfone � sua salva��o.

Venha aqui embaixo...

R�pido, t�?

D� pra vir aqui embaixo?

A diretora Antonia Bird intercala os ambientes.

Algum deles � seguro?

Isabelle Huppert tentou se proteger,

bloqueando as portas e janelas de sua casa.

A rodovia do lado de fora os deixava loucos.

Gypo queria entrar. Eles querem sair.

Eles precisam de ar. Estavam presos demais.

Muito assustados.

Ru�do de carro e fuma�a de escapamento.

O para�so.

Ela sai para a luz do sol.

Tutanc�mon saindo de sua tumba.

Um lar n�o � bom quando n�o h� mais nada.

As tr�s �ltimas cenas deste cap�tulo...

Um lar destru�do, um novo lar e um lar futur�stico.

A Epopeia dos Anos de Fogo, de Yulia Solntseva.

A Grande Guerra Patri�tica.

Um soldado volta pra casa.

Uma casa destru�da.

Uma silhueta.

� como um cemit�rio.

Um tanque,

mas tamb�m brotos num arbusto.

Ele caminha,

caminha...

A m�sica cresce, clareia.

Um cen�rio ainda mais arruinado.

Mas tamb�m uma mulher e uma crian�a.

Ela est� fazendo p�o.

Pelo menos h� um forno, uma fornalha.

E ent�o esta aproxima��o.

Uma onda de sentimentos, de volta ao lar.

Um recome�o.

Cultivando os campos...

E mais brotos novos.

E ent�o esta tomada numa grua dentro e acima

do que restou de sua casa.

Uma volta ao mundo sovi�tico

e Larisa Shepitko sugere que � necess�rio repensar.

Seu filme raramente visto, A P�tria da Eletricidade.

Uma linda tomada de um velho olhando de sua casa.

E ent�o um jovem, personagem principal do filme.

Caminhamos com ele.

Ele olha em volta para um vilarejo desolado.

Ele acabou de chegar.

Casas destru�das.

Sua cabe�a gira repentinamente para esta tomada em movimento.

Uma velha observa de sua casa.

A falta de chuva significa que a colheita falhou

e as pessoas est�o com fome.

O jovem observa um cabo.

Come�a a pensar.

Tem uma ideia.

Segue a linha.

O solo de piano parece refletir seus pensamentos.

E ent�o a c�mera busca uma terceira alde� em casa.

� como se estiv�ssemos em As Vinhas da Ira.

Seu olhar, direto para n�s.

Um movimento mais r�pido.

Algo precisa ser feito para ajudar essas pessoas.

Esse homem, t�o magro,

t�o centralizado imagem.

A vila est� morrendo. O lar est� morrendo.

Mas o jovem, uma figura de Cristo,

cria um esquema de irriga��o,

usando os cabos el�tricos para alimentar a bomba d��gua.

Imagina��o e tecnologia

reinventando o lar.

De um dos temas-chave da cultura humana, o lar,

para outra, a religi�o.

Sua intensidade, diversidade,

complexidade, hipocrisia e absurdo.

CAP�TULO 21 - RELIGI�O

Os ricos e bem vestidos americanos de Lois Weber mais uma vez.

O ano � 1915. Um passeio agrad�vel.

O melhor do domingo.

De repente, este intert�tulo...

A ESTRADA LARGA OU O CAMINHO ESTREITO?

E agora um monge da �poca anterior,

a era medieval.

Um caminho mais �ngreme, uma subida.

E ent�o, a diretora Lois Weber nos mostra uma jovem em apuros.

Sujando-se na poeira.

De joelhos.

Arrastando-se.

E depois uma daquelas pessoas bem vestidas.

Uma pequena panor�mica pra esquerda

para reenquadrar sua queda.

A religi�o aqui � terrena, � a labuta.

O peso do seu corpo.

O que ela alcan�a.

1915, o ano das trincheiras da Primeira Guerra Mundial,

da Segunda Batalha de Ypres.

Sri Lanka em 1978 agora.

A bela hist�ria de amor da diretora Sumitra Peries,

The Girls.

Com meia hora de filme, temos esta cena...

O rosto dela

emoldurado por uma tela de papel recortado.

A c�mera se aproxima.

Corta para este objeto.

O que � isso?

Depois um movimento para a direita

ao longo de belos padr�es.

Primeiro plano filigranado.

Floral.

M�ntrico.

A c�mera passeia.

Segue um fio.

Outro fio.

Fora da escurid�o,

v�-se pessoas orando, entrela�adas.

Uma cena,

um momento religioso,

como uma teia de aranha.

A c�mera de Peries passeia nesta cena budista.

A c�mera cria as conex�es.

E agora,

uma terceira cena de genu�na intensidade religiosa.

O filme de Vera Stroyeva, de 1959,

baseado na obra de Mussorgsky, Khovanshchina.

O cen�rio � a Revolta de Moscou de 1682.

O pr�ncipe Khovansky foi assassinado.

Alguns de seus seguidores duvidavam dele.

A diretora Stroyeva corta para uma floresta.

Enevoada, retroiluminada, m�stica.

O libreto diz que � santificada.

Tela ampla, como uma tape�aria...

H� um corte

e seu rosto encontra a luz.

Uma cena sobre d�vida,

mas a ilumina��o, o enquadramento, a intimidade,

a emo��o e a intensidade t�m uma sinceridade Gets�mani.

A mesma sinceridade presente em A Menina Santa, de Lucrecia Martel.

Amalia, de 16 anos, observa seu m�dico,

que nada na piscina de um hotel.

Ele a tocou inadequadamente.

Ela � bastante religiosa

e sente que talvez sua piedade possa salv�-lo

ou absolv�-lo.

Senhor, tenha piedade de n�s. Cristo, ou�a minha prece.

Pai celestial, tenha piedade.

Deus filho. Redentor do mundo. Santa Maria, rogai por n�s.

Santa m�e de Deus. Virgem das virgens,

M�e da gra�a divina, M�e mais pura.

M�e casta. M�e sem culpa.

M�e mais gentil, m�e mais admir�vel,

m�e mais s�bia, m�e do criador.

Sussurrando...

Virgem fiel, espelho da justi�a. Trono da eterna sabedoria...

e a nuca dele.

Vaso da gra�a, vaso da verdadeira devo��o...

Olhares silenciosos e persistentes.

Ent�o, esta mulher toca sua orelha.

A pr�pria Amalia tem problemas de audi��o.

Ent�o ficamos ainda mais intensamente no mundo dela.

Martel mant�m a cena e foca em Amalia.

Porta do c�u, estrela da manh�, sa�de dos enfermos,

ref�gio dos pecadores...

Sa�de dos enfermos, ref�gio dos pecadores,

conforto dos aflitos.

Rainha dos Anjos, Rainha dos Patriarcas,

Rainha dos Profetas, Rainha dos Ap�stolos...

Por que se lembra disso? N�o tem nada mais �til pra fazer?

� quase como uma cena de percep��o extra-sensorial.

Como se as ora��es sussurradas estivessem sendo transmitidas

em alguma nova frequ�ncia de r�dio da f�.

Cordeiro de Deus, que tirai os pecados do mundo, perdoa-nos.

N�o fale comigo.

Seu encantamento usa uma linguagem arcaica.

Enquadramentos assim�tricos e muito vazio nas tomadas.

Um mundo fora do comum onde religi�o e sexualidade

se misturam.

A complexidade da cren�a religiosa.

A figura do Salvador em A P�tria da Eletricidade,

de Larisa Shepitko.

O arco atr�s dele parece uma pintura renascentista.

Ent�o um corte pro seu rosto. Um besouro.

Ele foi teletransportado para este lugar?

Vento frio.

Paisagem des�rtica.

Uma aquarela de camponeses distantes.

Em uma prociss�o.

O que eles est�o fazendo?

Corta para isto.

Um padre. Cruzes.

Uma prociss�o religiosa.

A devo��o e o desespero de uma mulher.

Esperando pelas chuvas.

Este belo movimento acompanha as crian�as,

as crian�as chechenas.

Shepitko e seu fot�grafo

s�o �timos em close-ups em um quadro amplo.

O homem santo n�o est� participando.

� o menos digno de todos.

A religi�o est� abandonando a hist�ria deles,

sua lideran�a.

Uma cena sobre o fracasso da religi�o.

Aqui a religi�o tamb�m est� em crise.

Uma capela de Liverpool. Hora da comunh�o.

Todos fazem fila para receb�-la do padre � direita.

Ningu�m a quer deste padre, � esquerda,

porque os jornais o expuseram como gay.

E ent�o esta garota.

Ela foi abusada pelo pai.

O jovem padre ouviu falar sobre isso,

mas de forma superficial.

A diretora Antonia Bird

faz com que ela passe atrav�s da fila de pessoas

que rejeitam o padre gay

e depois a acompanha,

enfatizando sua escolha, sua caminhada, sua coragem.

Suas vozes calmas.

A hesita��o dele.

O olhar deles.

-O Corpo de Cristo. -Am�m.

Ele sabe que errou.

Mas seu delito n�o foi fazer sexo com um cara,

foi ter falhado ao n�o proteg�-la.

Fracassado em seu cuidado pastoral.

A caminhada dela o absolve.

Esta � uma cena confessional.

Ele vai cair de joelhos?

Ele deveria cair de joelhos.

Ent�o este movimento de grua visualmente articulado,

para cima e abrindo. Uma revela��o.

Um J�accuse.

Outro argumento. Outro mundo cat�lico.

Christine tinha esclerose m�ltipla

e estava numa cadeira de rodas.

Numa peregrina��o religiosa a Lourdes, ela foi curada.

Agora ela pode dan�ar.

Mas de repente, isto.

A diretora Jessica Hausner ainda n�o a mostra no ch�o.

Vemos pessoas servindo bolo antes de v�-la.

E a estranha m�sica lynchiana n�o para.

O clima de sonambulismo � ininterrupto.

Essas pessoas n�o ficaram muito satisfeitas

com sua recupera��o milagrosa,

nem est�o angustiadas com sua aparente reca�da.

Sem sangue, sem paix�o.

� como se a cren�a deles os tranquilizasse.

Eles rejeitam essas cren�as tranquilizadoras?

N�o.

Mas um dos mais ousados filmes

sobre a rejei��o de dogmas religiosos � este...

De Marjane Satrapi, Pers�polis.

Rapazes iranianos foram informados de que,

se morrerem por sua religi�o, ir�o para o c�u.

Esta noite, nosso ex�rcito destruiu 63 tanques

e 26 avi�es de combate iraquianos.

O sangue de nossos m�rtires irriga nosso solo sagrado

e logo os desertos do desespero ser�o novamente f�rteis.

Quando morre um m�rtir o sangue bombeia nas veias da sociedade.

Juntamente com Vincent Paronnoud,

Satrapi adaptou seus pr�prios quadrinhos.

Contraste total em preto e branco.

E esta hist�ria...

Est� com uma cara p�ssima, sra. Nasreen, est� tudo bem?

N�o est� tudo bem,

na escola deram isso pro meu filho.

Disseram aos meninos que, se morressem lutando,

iriam para o para�so e entrariam com essa chave de pl�stico.

Que no para�so comeriam como reis, cercados por mulheres

e viveriam em casas feitas de ouro e diamantes.

Por mulheres?

Claro, ele tem 14 anos, sei que � da idade.

Sofri muito,

criei meus cinco filhos com sangue, suor e l�grimas

e agora querem tirar meu �nico filho com essa chave falsa.

Vivi sempre de acordo com as regras religiosas,

toda a minha vida rezei, usei um v�u e obedeci.

E pra qu�? Como ainda posso ter f�?

Uma m�e furiosa com as autoridades religiosas

por glamorizarem a morte.

E ela p�e o v�u.

O esfor�o para entender a religi�o,

para ver al�m do seu v�u.

Pe�a pro seu filho vir falar comigo, n�o se preocupe.

Gra�as aos meus pais,

o filho da sra. Nasreen nunca foi pra guerra.

Ap�s sexo, lar e religi�o,

vamos dar uma olhada em outra coisa central em nossa vida...

Trabalho.

Como as diretoras o retrataram e valorizaram?

CAP�TULO 22 - TRABALHO

Miranda July se diverte com o trabalho,

com um cara que � p�ssimo em sua profiss�o.

A hesita��o dele.

Ele n�o percebe as regras b�sicas do trabalho.

FORA VENDEDORES

Oh, desculpe, n�o vi seu aviso.

Acho que sou vendedor...

-Jura? -Quero dizer, eu...

Voc� � meu primeiro...

Ador�veis pausas na atua��o.

Ou n�o.

-Vamos deixar desse jeito. -Claro.

Sim?

Meu nome � Jason e trabalho na �rvore por �rvore.

Teria um minutinho para ajudar a reduzir o aquecimento global?

Um vendedor precisa manter seu olhar,

mas os olhos dele vacilam, e os dela tamb�m.

...meta de plantar um milh�o de �rvores em Los Angeles

por uma pequena doa��o.

N�s lhe daremos uma �rvore jovem e saud�vel.

Nosso rapaz precisa aprender a fazer

o mais b�sico dos trabalhos americanos: Vender.

Poderia jogar isso fora?

Claro.

Leu o manual ontem � noite? Os cinco passos do vendedor?

-Sim. -Um monte de besteira...

Voc� n�o precisa daquilo...

Ele poderia ter ouvido a opini�o do Shia Labeouf.

No livro do Jay h� um maldito passo.

N�o cinco, apenas um, um passo.

Depois que voc� d� o primeiro passo, j� � o chefe da tribo.

Ele vende revistas e est� ensinando suas t�cnicas aqui.

Basicamente, quando abrem a porta e olham pra voc�,

� o grande momento cr�tico. O momento de fisgar ou perder,

porque naquele segundo voc� precisa estud�-los,

precisa l�-los, escane�-los para entend�-los.

Perceber que tipo de pessoa aquela pessoa quer na vida dela

e voc� precisa ser essa pessoa.

As habilidades necess�rias s�o improvisa��o e desempenho.

Persuadir. Falar abobrinha.

Estar sempre perto da meta.

O trabalho dele � vender a si mesmo.

..."Mam�e tem c�ncer" ou "meu p� est� caindo".

"Estou tentando retomar minha vida."

Sabe, "andei perdido na adolesc�ncia

"e agora estou empenhado em mudar�...

"Sabe, meu pai morreu no Iraque."

Qualquer baboseira triste, e repetem isso o tempo todo

at� perder o sentido.

Essa pessoa n�o d� a m�nima pra revistas,

eles querem algo de mim.

Ent�o, se sou esperto, vou perceber o que �

e trabalhar em cima disso.

-�? -Isso � um super vendedor.

Depois de aprender seu trabalho, se tiver sorte, ele ter� prazer,

prop�sito ou dignidade.

Women of Ryazan foi dirigido por Olga Preobrazhenskaya,

uma atriz nascida em Moscou

que foi uma das primeiras mulheres a dirigir um longa.

Ela filma o corte e a colheita do trigo.

Homens e mulheres colhem juntos,

� quase como se o campo fosse o mar e eles fossem peixes.

Tomadas cl�ssicas, equilibradas e elegantes.

�s vezes, her�icas.

O sorriso dele

e o sorriso dela.

Prazer e prop�sito comum.

Um ano antes da coletiviza��o for�ada da agricultura

na Uni�o Sovi�tica.

Extra��o de sal, agora na Venezuela, em 1959.

Uma tomada feita com um guindaste

abandonado pelos trabalhadores do sal.

A diretora Margot Benacerraf nos mostra o processo,

como � organizado, como � bonito.

Outra tomada cinematogr�fica,

mas este filme foi feito por apenas duas pessoas,

Benacerraf e seu diretor de fotografia.

...com a for�a de seus bra�os.

Ela disse que chegar a Araya foi como ir � Lua.

O filme dividiu um pr�mio em Cannes

com o filme de Alain Resnais, Hiroshima, Meu Amor.

E o que est� al�m da dignidade do trabalho?

Remova o som sincronizado

e aproxime-se dos rostos dos trabalhadores

e obtenha algo como retratos de Rembrandt...

Algo espiritual.

Exaustivo e iluminado pelo sol.

Afaste-se dessa espiritualidade

e voc� ter� uma cena como esta.

Cozinhando.

E um jazz tocando.

A can��o para.

Mas seu trabalho dom�stico continua.

Novamente a can��o.

Suas tarefas di�rias,

em um ciclo diurno.

Como um loop de m�sica.

Sincopada.

O p� sempre se acumula.

As panelas e pratos precisam sempre ser guardados.

Ela n�o est� alegre nessas cenas,

mas tamb�m n�o est� oprimida.

A vida dela n�o � ruim.

A ambiguidade de seu trabalho.

Repetitivo, cansativo, mas com suas recompensas.

Vera Chytilova nos deu uma montagem de trabalho dom�stico,

mas Valerie Massadian

tem sua personagem, Nana, filmada numa �nica cena.

A m�e de Nana desapareceu.

A crian�a se vestiu e brincou com seus brinquedos.

Mas ocorreu-lhe que ela n�o podia jogar para sempre.

Brincar s�o as lacunas do trabalho ou vice-versa.

Trabalho � uma obriga��o.

Ela tem de arrastar coisas, mover coisas.

Ela tenta arrumar a cama, de certa forma.

Numa sala desordenada, ela quer criar alguma ordem.

Trabalho como o oposto de entropia.

Chantal Akerman tamb�m usa uma simples e rigorosa cena.

Tamb�m vemos Jeanne Dielmann de um ponto fixo.

Sem cortes, sem diminuir o processo de arrumar a cama.

Poderia ser um v�deo do youtube sobre como fazer a cama,

mas Akerman est� atr�s de algo mais radical.

Ela disse que nos filmes havia hierarquias de imagens...

Um beijo ou um acidente de carro eram mais importantes

que o trabalho dom�stico.

Ela quis nivelar a hierarquia, respeitar esse trabalho,

esse mundo do fazer e refazer.

Jeanne Dielman foi obrigada a trabalhar,

e esses meninos tamb�m.

A crise econ�mica significava que se poderia ganhar dinheiro com sucata.

Belo travelling com lentes de longo alcance.

De repente, a m�quina de pesagem.

O que foi?

Que porcaria � essa?

� alum�nio!

Espere,

e um pouco de bronze.

Arbor � t�o jovem

que n�o precisa saber o valor do metal.

Mas a vida o for�ou.

Ele se junta ao quintal dos deliquentes juvenis.

� como uma cena dos tempos vitorianos.

Foi quando a hist�ria em que o filme se baseia,

O Gigante Ego�sta, de Oscar Wilde, foi escrita.

O que � isso?

N�o sabe como o a�o chega, Leone?

N�o fa�o ideia.

Ele sobe o rio em barca�as e � carregado em reboques...

O curta Skyscraper, de Shirley Clark

tamb�m conta a hist�ria do trabalho com metal.

Mas ela faz algo incomum.

Ela mant�m seus personagens atr�s da c�mera.

Narrando. Ironizando.

...seria uma confus�o, se � que j� aconteceu.

Quando o empreiteiro faz o planejamento,

certifica-se de que todo o a�o pedido seja entregue.

-Isso � log�stica. -O que � log�stica?

Oh, Leone honesto, isso � log�stica!

Aquele caminh�o leva o a�o pelas ruas at� o trabalho.

Entendeu?

Onde n�s, homens de ferro, assumimos.

Observe como colocamos no lugar, pe�a por pe�a.

V� o cara puxando as cordas? � Harry Schnider, d� duro...

-� um cara legal. -Obrigado, Murphy.

N�o sabia que estava aqui, Schnider, retiro tudo!

O que � t�o dif�cil?

Ele tem que guiar cada peda�o de a�o para a posi��o, Dumbo.

Um sino, para cima, dois � direita, e assim por diante.

Sou eu de novo, n�o sou eu? Fiquei bem, n�o?

-Nada mal para um mestre de obras. -Talvez possa aprender algo com um.

-Diga a ele que vai, Lucky. -Pois �, Leone...

Existe uma sensa��o real deles observando a si mesmos,

seu pr�prio trabalho, seu pr�prio processo.

Parecem possuir o filme.

Papai Noel!

Mas e quando o trabalho se torna um desespero?

Tudo que voc� precisa na vida � amor,

e acreditar em si mesmo,

n�o h� nada que voc� n�o consiga.

Certo, deixa eu ver se entendi tudo isso direito.

Basicamente,

voc� n�o tem experi�ncia, diploma, curr�culo,

hist�rico de trabalho e agora quer ser advogada?

O filme de Patty Jenkins sobre Aileen Wornous.

A gram�tica simples do filme, plano e contra-plano,

que se adapta a uma cena de entrevista.

Mas o texto e a atua��o

capturam sua expectativa e esperan�a.

N�o quero parecer duro, mas isso � um pouco ofensivo.

E ent�o a humilha��o e mesmo a decep��o.

Posso te dizer uma coisa? Quando termina a festa na praia,

n�o d� pra voc� achar que vai ter o que os outros

trabalharam a vida toda pra ter. N�o funciona assim.

Foda-se, cara. Sim, foda-se!

Voc� n�o me conhece, porra!

Muito bem... Essa � boa. Viu?

Sinto muito por n�o ter te contratado antes.

Leslie, voc� poderia, acompanhar a senhorita...

N�o sei o nome dela, porque nem curr�culo ela tem.

N�o preciso da sua escolta de merda.

Acha que sou alguma retardada? O poder do entrevistador.

Sua licen�a para julgar.

Ele � o guardi�o do mundo do trabalho.

Tudo que voc� precisa � amor e acreditar em si mesmo.

Grande ideia!

N�o � bem assim que funciona.

E quando voc� est� realmente desesperado por um emprego

e consegue ler o guardi�o...

Talvez voc� possa atender as mesas, coquetel?

N�o, n�o, n�o.

N�o, n�o...

Olha s�...

A personagem de Maggie Gyllenhall

saiu recentemente da pris�o, era viciada em hero�na

e sua filha mal sabe quem ela �.

Portanto, o que ela quer, trabalhar com crian�as,

n�o � apenas pelo dinheiro.

Ela quer recuperar algum status social.

Muito bem...

E ent�o?

Bonitos.

Chupo seu pau se me der o emprego que quero.

Allen, parab�ns pela conta da Fisher.

Obrigado, Baxter.

Embora o mundo dos yuppies dos anos 80 esteja bem distante

dos problemas de Sherrybaby,

esta cena � estranhamente parecida com sua entrevista.

O banqueiro de investimentos Patrick Bateman

e seus associados est�o desesperados

para afirmar o status social.

A trilha sonora zune quando vemos a est�tica,

quase er�tica de seus cart�es de visita.

Novo cart�o.

O que acham?

Nossa, muito legal.

Olhe pra isso!

Peguei ontem na gr�fica.

-Belas cores! -Isso � osso,

e as letras s�o chamadas de silian rail.

Muito bacana, mas isso n�o � nada.

Veja isso.

Isso � sensacional!

Casca de ovo, com fonte Romania.

O que acha?

Bacana.

� como se estivessem comparando seus p�nis.

Trabalho ritualizado, comodificado e decadente,

como uma cena de um filme de samurai.

Esperem,

voc�s n�o viram nada ainda.

Letras em relevo. Nimbus p�lida.

Branco.

Impressionante.

Levam isso longe demais, esses homens-pav�o.

O trabalho para eles � exibi��o,

freudiano e gladiat�rio.

Olha essa cor sutilmente branca e a espessura de bom gosto...

Meu Deus, tem at� marca d'�gua.

Algo errado? Patrick?

Voc� est� suando.

Estilisticamente, este document�rio n�o � nada parecido

com o filme de Mary Harron.

Mas ele tamb�m � sobre levar o trabalho, seu ethos, seu ego,

a um extremo.

A diretora Barbara Hammer

entrevista pessoas sobre um not�vel coletivo de cinema

no Jap�o nas d�cadas de 1960 e 1970.

Eles radicalizaram a produ��o e distribui��o de document�rios

vivendo entre seus assuntos,

fazendeiros protestando, por exemplo, durante anos seguidos.

Para a Ogawa Produ��es, viver na...

Cooperativa agr�cola de Sanrizuka,

para viver coletivamente,

fazer filmes coletivamente, ter uma abordagem comum

na obra...

Mas a diretora Hammer n�o evita o lado negativo da abordagem deles.

Trabalhar nas produ��es da Ogawa tornou-se uma esp�cie de culto,

obsessivo, � sua maneira, como no Psicopata Americano.

Os cineastas anularam todas as fronteiras entre vida e obra,

e seu brilhante l�der, Ogawa Shinsuke,

exigia devo��o e, �s vezes, submiss�o sexual.

Nos coletivos radicais japoneses da �poca,

o ego era reprovado,

mas era presente no trabalho de Ogawa e sua equipe

e danificava os la�os do trabalho.

Acho que o Ogawa tinha esse tipo de atra��o.

A diretora colombiana Marta Rodriguez

come�a nos levando a um mundo de trabalho n�o sindicalizado.

Plano fechado de uma menina que cava a lama.

A fam�lia dela faz tijolos.

Nenhuma trilha sonora.

� nessa chamin� onde s�o queimados os tijolos?

A sirene � um alerta.

Um alerta para essas condi��es?

Estamos bem longe da dignidade dos trabalhadores do sal

ou da espiritualidade do filme de Shepitko.

Ent�o, al�m de sua c�mera observadora, antropol�gica,

Rodriguez acrescenta uma voz autorit�ria.

Col�mbia.

A fam�lia de Alfredo e Maria, mais seus doze filhos,

vivem nessa realidade ignorada.

Como eles, uma popula��o de cerca de 50 mil pessoas

sobrevive da produ��o primitiva de tijolos

nos latif�ndios urbanos ao redor de Bogot�.

Aprendendo como trabalhar,

sobre sua dignidade,

espiritualidade, necessidade,

excessos, divis�o e explora��o.

Mais uma cena sobre o trabalho, que nos afasta do limiar.

A cozinha de um pal�cio tunisiano.

As empregadas acabaram de ver a m�e da casa gritar,

porque ela est� gr�vida, provavelmente de um estupro.

E o que elas fazem?

Elas trabalham.

Ritmadamente,

devagar,

suavemente.

A diretora Moufida Tlatli passeia a c�mera em volta dos rostos

enquanto lavam e cozinham.

O trabalho acalma seus cora��es.

� o que elas fazem quando n�o sabem o que fazer.

� reparador.

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