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Original subtitles

UM DOCUMENT�RIO ORIGINAL NETFLIX

Quando tinha 18 anos, h� muito tempo,

pensava que encontr�vamos a liberdade criando mundos na nossa mente.

Que t�nhamos de retroceder para seguir em frente.

Que as crian�as tinham a resposta para tudo.

Quando tinha 18 anos, tinha tantas ideias

que quase n�o dormia.

No ver�o de 1992,

eu e os meus amigos grav�mos um road movie nas ruas de Singapura...

... que se ia tornar num mito urbano.

O filme chamava-se Shirkers.

� uma palavra que significa "fugir".

Evitar as responsabilidades.

Escapar.

Eu escrevi o argumento e fiz o papel de hero�na,

uma assassina de 16 anos chamada S.

Ningu�m fazia filmes assim em Singapura.

Fomos pioneiros.

O filme era uma c�psula do tempo de uma Singapura

que era tanto real como imagin�ria.

Na altura, aquilo que mais queria era fazer um filme.

Mas nunca imaginei que acabasse assim.

Vinte e cinco anos depois, dou por mim numa viagem estranha.

A reviver o passado � procura de pistas.

Ouvi a grava��o que fizeste no teu quarto.

Adorei. Gosto de ser o teu melhor amigo.

Tu �s a minha melhor amiga.

Gosto de saber que est�s por perto. Gosto de saber que estamos ligados.

Que somos parceiros no crime.

Faz outra grava��o, por favor.

Tenho saudades tuas.

Aprendi a deixar de pensar nessa altura.

A fingir que nunca aconteceu.

Mas isso era imposs�vel.

O Shirkers tornou-se numa hist�ria secreta.

Partilhada pelo nosso grupo.

Iria assombrar-nos,

unir-nos

e separar-nos.

SINGAPURA

- Quando estiveres pronta. - Agora.

AMIGA DE INF�NCIA

Eu e a Jasmine fomos inimigas antes de sermos amigas.

Pensaste que era uma inimiga, mas acho que nunca te considerei como tal.

Pois.

Fomos inimigas at� aos 14 anos.

Durante a nossa inf�ncia nos anos 80...

S� AM�VEL... COME�A COM UM SORRISO

... o estado e a fam�lia andavam sempre em cima de n�s.

UM POVO, UMA NA��O, UMA SINGAPURA

AS QUALIDADES SILENCIOSAS SORRI

Singapura era t�o conservadora que o governo baniu a pastilha el�stica.

Se os americanos acham que s�o excepcionais,

deixem-me dizer isto,

em Singapura, sabem que somos excepcionais.

Uma pequena ilha h�mida em 1965,

Singapura tornou-se num dos pa�ses mais ricos do mundo em 2000.

Quando eu e a Jasmine t�nhamos 14 anos,

descobrimos filmes invulgares e m�sica pouco popular.

Sendo ambas estranhas, torn�mo-nos melhores amigas.

T�nhamos origens diferentes...

PAIS DA JASMINE

... mas �ramos unha com carne.

TEMOS DE SER AS IRM�S COEN.

A minha fam�lia era intensa.

O casamento dos meus pais come�ou a desmoronar-se antes de eu nascer.

Por isso, fui criada pelos meus av�s.

Quando chovia, o nosso jardim parecia leite com chocolate.

Em 1981, o meu av� insistiu para tirarmos estas fotografias...

... porque a sua adorada casa ia ser demolida.

Em 1985, constru�ram este apartamento no lugar da casa.

Ainda ficava inundado, mas j� n�o parecia leite com chocolate.

Esperavam sempre que brilhasse.

Era cansativo.

Precisava de escapar.

Claro que gostava da fam�lia da Jasmine.

Eram calorosos e pouco exigentes.

E deixavam-nos construir santu�rios no quarto da Jasmine.

T�nhamos o Deus do Teatro.

E a Deusa dos Argumentos.

�amos para a escola vestidas de enfermeiras.

E eu desafiei as autoridades do cineclube.

Querida Santi, vamos tentar adquirir os filmes que pediste.

Queria fazer filmes desesperadamente.

Dei entrevistas imagin�rias como realizadoras imagin�rias.

Ol�, quero partilhar o meu filme com voc�s.

Chama-se Magic Fire Brain, � totalmente original.

H� muitas cenas com multid�es.

Lia as revistas American Film e Film Comment religiosamente.

Mas era imposs�vel ver os filmes, a n�o ser que me tornasse muito criativa.

Criei um sindicato de grava��es clandestinas

com a minha prima Vicki na Fl�rida.

S� para ver o Veludo Azul.

VELUDO AZUL, 1986

Eu e a Jasmine devor�vamos o que os outros ignoravam.

Come��mos a escrever para a BigO,

a revista de rock clandestina de Singapura quando t�nhamos 14 anos.

A BigO � gerida por Philip Cheah com toda a sua gl�ria impass�vel.

Ele gravava cassetes da Patti Smith e dos The Velvet Underground

e fazia-nos perguntas sobre elas antes de nos deixar juntar ao clube.

Em Singapura, havia muita censura de m�sica e filmes.

Muitos dos grandes �lbuns cl�ssicos ainda estavam banidos.

Vimos a revolu��o que ocorreu no Reino Unido e nos EUA

e pens�mos se poderia acontecer o mesmo c�.

Fizemos colagens elaboradas para a BigO.

Todos odiaram.

Acho que �ramos punk demais para eles.

Era um clube de rapazes foleiro.

Por isso, fomos sempre n�s...

... contra o mundo.

O nosso maior feito foi publicar a nossa revista The Exploding Cat...

... na fotocopiadora da biblioteca nacional.

The Exploding Cat foi a nossa tentativa de reunir tudo o que nos enfurecia

e que nos fazia rir.

SANITA APRISIONA MULHER

QUE ESTRANHO. TENHO A CABE�A A ANDAR � RODA.

A revista ficou famosa.

Recebemos cartas de Nova Iorque, Londres...

... Paris, Jerusal�m...

... e at� de pris�es de tr�s estados diferentes.

Acima de tudo...

... era um cat�logo sobre n�s.

Sobre mim...

... os meus amigos...

... a nossa pequena ilha no centro do mundo...

... tra�ando o nosso destino...

... em 1989.

A pr�xima hist�ria � o cap�tulo 39.

Esperem, s� mais uma coisa.

Naquela altura, era obcecada pelo livro � Espera no Centeio

e pela ideia de Salinger de salvar crian�as.

Por isso, ensinei os meus primos a nunca crescer.

As pessoas falam.

Fala.

Vou ser m�dica.

FELIZ OBSERVA��O DE INSECTOS

Ou, se tivessem de crescer, a ser diferentes.

ODEIO A MINHA FAM�LIA

O hilariante era superior ao vulgar.

Odeio-te.

At� o depressivo era superior ao vulgar.

Rafeiro maldito!

�s est�pida.

H� muito tempo, no in�cio de 1991, inscrevemo-nos na aula de realiza��o.

Provavelmente, a primeira que houve c�.

Nesta sala e tamb�m na sala ao lado.

�ramos um grupo grande.

Eu, tu,

uma estranha variedade de pessoas.

O nosso professor era Georges Cardona.

Um homem de idade e origem desconhecidas.

Devias fazer um filme sobre um tipo

que domina a visibilidade de Singapura.

Ele planeou ser um realizador americano.

E estava l� para nos ensinar, a jovens impression�veis de 18 e 19 anos,

sobre a produ��o de filmes em Singapura.

Conhecemos a Sophie na aula.

Ela era muito am�vel, est�vel e de confian�a.

N�o sabia se seria uma boa amiga.

O Georges acolheu tr�s de n�s,

eu, a Sophie e a Jasmine, no seu grupo de amigos.

A Cec�lia passou o v�deo.

A minha impress�o do Georges...

Primeiro, reparei nos olhos, muito met�licos.

Eram quase g�lidos, de azul glacial.

Falava em tons muito lentos, calmos e moderados.

Lembro-me que, mesmo nessa altura,

havia uma certa disson�ncia.

Os olhos pareciam g�lidos, mas a sua atitude parecia calorosa.

Ele tinha a capacidade,

quando falava connosco,

de nos fazer sentir que �ramos o foco da sua alma.

N�o conhecia outro adulto como o Georges em Singapura.

Ele gostava de se sentar e observar a luz a mudar.

Levou-nos a filmar festivais hindus interessantes

que a minha fam�lia teria achado assustadores.

Ele falava sobre filmes da forma que eu desejava falar.

Adorava a Nova Vaga francesa.

E, pouco depois, tamb�m eu.

Quando a aula de cinema acabava �s 21 ou 22 horas...

... passe�vamos pela ilha com o Georges.

Fic�vamos fora at� tarde,

apesar de sabermos que tinha mulher e um filho beb� � espera em casa.

E eu ladrei.

Ouvem os grilos?

�amos procurar ideias.

�amos procurar c�es selvagens.

Est�s a filmar?

Sim.

N�o sabia que gostavas disto, Sandi.

P�ra! Hoje n�o me apetece.

Bela banda sonora.

Despacha-te!

Estamos a falar muito alto.

Todos os amantes se irritam connosco e abandonam a zona.

Foi o primeiro homem adulto que tive como amigo.

Ele escolheu-nos.

Mas deixava-nos sentir que n�s � que o t�nhamos escolhido.

Os passeios nocturnos passaram para os meus sonhos.

Queria fazer um road movie.

Em vez disso, fui-me embora para um lugar estranho e frio.

Inglaterra.

UNIVERSIDADE DE KENT, CANTU�RIA CART�O DE ESTUDANTE

Pensei que encontraria a minha tribo.

Mas tinha-a abandonado.

A Jasmine foi para Nova Iorque.

A Sophie foi para L.A.

E o Georges ficou em Singapura.

Senti-me desamparada.

Dava tudo de mim...

... em cartas para o Georges...

... e para a Jasmine.

COMO UM ROAD MOVIE

FILME SOBRE A M�FIA

O Georges n�o escrevia cartas nem e-mails.

Muito raramente,

enviava-me grava��es da voz dele.

Que est�s a fazer?

Acho que vou aos EUA na P�scoa.

Vou alugar um carro e viajar pelos EUA.

Desde Nova Orle�es at� ao Arkansas.

Convidou-me e � Jasmine para ir com ele.

Poucas coisas entusiasmavam-me mais do que viajar de carro pela Am�rica.

Pensei: "Que se foda a Nova Vaga francesa, vamos viver o nosso filme."

A Jasmine n�o pensava assim.

Acabei por ir apenas eu.

DEVIAS ESTAR AQUI, PARVALHONA.

Fui ter com o Georges a Los Angeles.

Fomos at� S�o Francisco pelas estradas mais lentas e pitorescas.

Mesmo na altura, sabia o que parecia.

Andava a passear com um homem casado que tinha o dobro da minha idade.

Por isso, n�o contei a ningu�m.

Ele deu-me sinais.

Sinais estranhos em conversas nocturnas.

Dizia que as pessoas achavam que �ramos amantes.

At� que, certa noite, me disse para tocar na barriga dele.

Eu ignorei-o.

S� de pensar nisso, ficava incomodada.

E ambos fingimos que nunca aconteceu.

Depois, fomos at� Nova Orle�es, onde ele cresceu.

O Georges mostrou-me o Sul.

Com o seu musgo, insectos e hist�rias de terror.

Era aqui que se tinha tornado num artista.

Ele contou-me que, aos 12 anos,

viu o irm�o mais velho a esvair-se em sangue no colo da m�e.

Contou-me que, quando a Jayne Mansfield morreu num acidente de carro,

a cabe�a decapitada dela rebolou at� onde ele estava, no carro dele.

Disse-me que foi a inspira��o para a personagem de James Spader

no filme Sexo, Mentiras e V�deo.

Algo para me distrair da viagem.

Por isso, eu...

Eu...

Eu fi-lo no avi�o.

Se as hist�rias eram verdade ou n�o,

parecia irrelevante.

Adorava como ele as contava.

E como as hist�rias dele tornavam o tempo, o lugar e a verdade

completamente perme�veis.

Dei por mim a olhar para uma po�a de sangue

numa sala de estar, nos anos 60.

Estava apenas a dois graus da cabe�a da Jayne Mansfield.

A tr�s graus do Steven Soderbergh.

Aquela viagem foi importante por outra raz�o.

Escolhi o Georges como o meu novo melhor amigo.

Fal�mos sobre fazer um filme juntos.

Um road movie.

Voltei para a escola e, imediatamente, transformei tudo num argumento.

A S. conta ao melhor amigo TB que pode salvar o mundo quando acabar.

As ferramentas que usa s�o jogos, brinquedos e a imagina��o dela.

Ela salva o mundo em pequenos grupos, come�ando...

Na minha vis�o do mundo, h� os que se mudam,

os que revolucionam

e os que escapam.

O Georges enviou-me um faxe.

ESTE ARGUMENTO.

ESTA OBRA-PRIMA DO CARALHO.

EU CHOREI.

Come�ou...

... com a personagem principal misteriosa chamada S.

Que ser� que significa?

A minha ideia era fazer um road movie numa regi�o

que pud�ssemos atravessar em 40 minutos.

Seguimos uma personagem enigm�tica a passear por Singapura.

At� podia ser a Morte.

A escolher pessoas para as levar para a vida depois da morte.

A Sandi tinha uma obsess�o por Bergman.

O S�TIMO SELO, 1957

- Era isso? - Eu n�o... Eu odiava o Bergman.

Seja como for, continua. Podes descrever o enredo?

Como tu eras a argumentista, a estrutura n�o era em tr�s actos.

Como...?

Mostraste-me algo a que jovens de 19 anos teriam dito:

"Vamos a isso." Porque n�o?

Acabei o argumento em Junho.

E tivemos de come�ar a gravar em Julho

antes de as aulas da Jasmine e da Sophie come�arem.

Nem chegou a dois meses e meio.

A pr�-produ��o.

N�o, a pr�-produ��o e as filmagens de um filme.

E a maioria de n�s tinha emprego.

Tal como disseste, s� tu � que n�o trabalhavas.

Lembro-me...

M�E DA SOPHIE

... que tu eras a chefe ide�loga do trio.

A Sophie era a menina dos recados. E a Jasmine...

... tratava da parte t�cnica.

Estava sempre a mexer em qualquer coisa.

No final, o grupo dividiu-se em dois.

A Jasmine e a Sophie diziam para esperarmos e filmarmos no ver�o.

Eu e o Georges s� quer�amos fazer o filme.

Um dos filmes preferidos do Georges era Fitzcarraldo de WernerHerzog.

No filme, o louco Klaus Kinski

lidera um ex�rcito de nativos da Amaz�nia

para levarem um navio para o outro lado de uma montanha.

Foi uma das inspira��es do Georges.

E tamb�m se tornou na minha.

Sempre foste uma pessoa determinada e muito ambiciosa.

Querias faz�-lo a qualquer custo.

Estavas disposta a queimar coisas

s� para fazeres o teu filme.

Bom, est� bem.

Mas ap�s anos a planear fazer um filme,

n�o podia deixar a oportunidade passar.

N�o � como se a Jasmine fosse experiente.

Ela desenhou este panfleto das audi��es no seu estilo �nico.

AUDI��ES PARA O SHIRKERS

Como ningu�m conseguia ler aquilo, ningu�m apareceu.

Ela ficou furiosa quando pedimos a algu�m mais convencional para o fazer.

Achou que nos est�vamos a vender.

N�o te preocupes.

Vai ser um exerc�cio informal de improviso.

Lado esquerdo e direito.

Certo.

Segura no teu n�mero.

As audi��es foram feitas pela Sophie e a Jasmine.

Ena. Deixa-me filmar isto de perto.

Imagina que est�s num carro.

Est�s a passear de carro e a atropelar velhotas.

Pronto.

J� chega.

O Georges n�o estava presente.

A n�o ser aqui.

Eu era a argumentista.

A Sophie era a produtora.

A Jasmine era a montadora.

E o Georges era o realizador.

SOPHIE SIDDIQUE, PRODUTORA-EXECUTIVA

Sophie, a nossa produtora de 19 anos,

escreveu cartas como uma produtora-executiva experiente.

OS VOSSOS BELOS OLHOS VERDES, SOPHIE SIDDIQUE

Consegui marcar uma reuni�o com uma pessoa importante.

Foi preciso muito tempo e coragem.

Antes de a pessoa chegar, o Georges disse-me:

"Agora vai para a cozinha.

Eu trato da reuni�o."

Foi um momento muito dif�cil para mim.

N�o acreditava no Georges.

N�o acreditava nele, mas acreditava no filme.

Devo gritar com o Georges

ou � melhor ficar na cozinha

e deix�-lo fechar o neg�cio para bem do filme?

Eu escolhi o filme.

Est�vamos a tentar fazer uma longa-metragem

com pouqu�ssima experi�ncia pr�tica.

O assistente de produ��o tinha 14 anos.

O Georges falou com o Ronnie, um director de fotografia de 30 anos,

para fazer o filme connosco.

Eu trabalhei como t�cnico de som.

E ofereci-me para fazer o storyboard.

N�o fa�o ideia sobre que � o Shirkers.

- Posso dizer isto? Ofende-te? - N�o.

A minha av� fez de minha av� e a minha prima fez de minha prima.

Os seus bracinhos peludos tinham a sua pr�pria hist�ria.

Pensei...

ENFERMEIRA DO SHIRKERS

... "Fant�stico, est�o � procura de uma enfermeira como eu."

Sempre tive curiosidade em rela��o � representa��o.

Convenci o Philip a fazer de sinaleiro.

Porque, basicamente, era isso que ele era para mim.

Quando ouvi falar do Shirkers, pensei que j� estava na hora.

As �nicas longa-metragens independentes que foram filmadas em Singapura

foram tipo o famoso Chamam-lhe Cleopatra Wong.

CHAMAM-LHE CLEOPATRA WONG, 1978

Fazem poucos filmes em Singapura.

O nosso filme ia ser seguinte depois do Medium Rare.

O Medium Rare � um filme sobre um assassino em s�rie de Singapura

que � interpretado por um actor americano.

N�s conseguimos fazer melhor do que isto.

Envi�mos um grande grupo de pessoas para explorar a ilha.

APARTAMENTO DO MENTOR BOB

CASA NUM MUNDO DESFOCADO?

CRIAN�AS ACENAM DAQUI

Certifiquei-me de que encontravam as lojas de manequins.

E a padaria antiga que adorava.

Eu sabia que n�o iam ficar muito tempo.

PADARIA E PASTELARIA

A Jasmine e a Sophie negociaram com a Kodak e lojas de equipamento.

Todo o nosso equipamento foi dado.

Falta apenas fazer uma audi��o, a da hero�na S.

Achava que n�o podia fazer o papel, porque n�o era um papel.

Tu querias o papel.

Se foi uma boa op��o escolher-te para o papel...

... o filme o dir�.

Pois.

Exterior: Essex Street, tarde.

Um bairro suburbano pacato com filas de casas de um andar,

barulhos de corta-relvas, talheres a ressoar, cachorros a ganir

e sons distantes de um r�dio com m�sica popular de Xangai dos anos 30.

Seguir ao longo das casas at� o enquadramento surgir.

A nossa protagonista de 16 anos entra em cena

com uma velha mala e uma velha c�mara.

Est� a chegar a casa.

A S. vive com a av�.

E com a prima Woo Woo.

Vivem ao lado da sua melhor amiga, a TB.

A TB vive com a m�e que adora fumar e ver televis�o.

E com o irm�o mais novo, TJ,

que anda pelo bairro � procura de sarilhos.

Num lindo dia, a S. chama a TB para matar a professora de piano.

Quando a TB n�o tem tempo para estar com ela,

a S. procura uma nova parceira.

E maisquatro pessoas que goste o suficiente para matar.

Quando est� a dormir no seu local preferido na relva,

conhece um inspector chamado Rahman e vai para casa com ele.

Rapta o seu filho Haryo.

Ela e Haryo andam pela ilha e procuram mais pessoas.

Veem a enfermeira Cec�lia e o seu c�o gigante, o Cherish

e seguem-nos at� casa.

Conhecem a filha da Cec�lia, a Monster, que � epil�ptica, mas adora dan�ar.

S. est� � Espera no Centeio...

... e agora s�o tr�s.

Eles conhecem o Montana Bob.

� divertido, por isso, seguem-no at� casa.

Tamb�m h� o rapaz misterioso que a S. est� sempre a ver.

Ela come�a a gostar dele e isso significa que tem de o matar.

Dois j� est�o, faltam tr�s.

Conhece o Albert, um homem que fez uma fortuna com fita adesiva.

Desejoso, ele mostra-lhe a sua mans�o nova.

A S. conhece a sua esposa Mimi.

O filho Robert.

E as empregas deles, Portrero e Pacifica.

O Robert diz que � hedonista de poltronas.

V�o dar uma volta de carro.

Os amigos dele s�o cromos.

O tempo est� a acabar.

E a S. tem mais tr�s pessoas para levar para o outro mundo com ela.

N�o sabemos se este mundo � o C�u,

o inferno ou um supermercado.

As coisas acontecem.

Ou talvez n�o.

Porque talvez tudo isto tenha sido um sonho.

Bom, o enredo era quase irrelevante. Entendes?

Era um filme atmosf�rico. Era...

N�o sei.

O meu argumento exigia o maior c�o do pa�s

e a Sophie arranjou um Wolfhound gigante chamado Mega.

A Sophie e a Jasmine levaram-no para o supermercado...

... quando o gerente estava distra�do.

Fingi que tive um ataque

para atrair pessoas.

Eu juntava multid�es.

Al�m do resto.

A Sophie e a Jasmine raptaram idosos de um lar.

Levaram-nos de volta antes de eles perceberem o que se passou.

E pusemos todas as adultas a fumar.

E mais.

E ainda mais.

Grav�mos representa��es surpreendentes de amigos e desconhecidos.

Foste uma senhora do detergente fabulosa.

Nem por isso, acho que gostas de gozar com os teus amigos.

A Freda fez da minha melhor amiga TB.

A Kaylene era a minha ajudante doente, a Monster.

E a Pohshon era a m�e da Monster.

Era suposto tirares-me a minha filha

e eu tipo...

... chorei, porque ias lev�-la para sempre.

Agora fizeste-me chorar.

A nossa paix�o e fervor...

... prevaleceram.

Na altura, achei que o Shirkers...

CR�TICO DE CINEMA

... tal como foi apresentado,

... era incr�vel e estava muito � frente do seu tempo.

Foi na altura em que Am�rica estava a fazer filmes com a Winona Ryder.

Acho que...

... haver um lado da hist�ria de Singapura,

principalmente, quando � liderado pela Sandi,

deixa-me estupefacto.

Alguma vez leste o argumento? Achaste que era infantil?

Sim, mas isso era o melhor, tu sabes disso.

Sabes que � verdade. Era muito pessoal.

O Georges teve uma ideia para uma cena.

S� descobri muito mais tarde que a ideia nem sequer foi dele.

O meu amigo Leon era muito convencido.

Dizia que todas estavam apaixonadas por ele.

Por isso, dei-lhe o destino que achei que merecia.

AUTOCARRO ESCOLAR

No meu mundo do Shirkers, havia diferentes categorias de rapazes.

Os rapazes que achava deleit�veis.

Os rapazes que eram bons amigos.

E, tal como na vida...

... fiz amizade com homens desconhecidos,

porque eu era assim ousada.

Uma das mem�rias mais viscerais que tenho do Shirkers

� a cena da pista de b�lingue.

Pass�mos um dia inteiro a gravar.

Envolveu muita energia emocional.

T�nhamos 18, 19 anos.

No final, lembro-me de perguntar ao Georges:

"Como foi? Como est�o os takes?"

Ele olhou para mim e respondeu: "A c�mara encravou no primeiro take.

Por isso...

... n�o grav�mos nada."

Estivemos l� n�o sei quantas horas, naquele dia.

Passei-me com ele.

Tivemos de voltar � pista de b�lingue no dia seguinte

e fazer tudo de novo.

- Est�s a ir r�pido demais! Encosta! - N�o consigo.

Porque o persegues? Est�s fora do caso.

O chefe vai dar cabo de ti.

Enquanto film�vamos, o nosso amigo Ben trabalhava na banda sonora do filme.

Conhecia-te da revista The Exploding Cat

e da revista BigO.

Na altura, com os meus recursos, teria apenas uma grava��o.

Muitos toques...

... na guitarra...

... el�ctrica, muitas coisas de tr�s para a frente.

Na primeira vez, lembro-me que fiquei arrepiado.

� como se tivesse sido levado por voc�s de Newton Circus.

N�o estava � espera que o Georges me chamasse

e que me levasse at� ao carro dele

como se fosse um encontro entre gangsters ou entre pol�cia e informador

ou algo do g�nero, t�pico dos filmes.

Talvez ele fosse ouvir a minha grava��o.

Mas achei que era estranho, porque a grava��o era para voc�s.

Ele amea�ou-me,

sondou-me para saber os meus planos e disse-me:

"N�o te aproveites delas." Algo assim.

Eu fiquei tipo: "Desculpa?"

Tamb�m me disse que um m�sico mais experiente

e reconhecido estava a trabalhar na banda sonora.

Eu n�o sabia disso.

Mas deste-lhe a grava��o.

- Pensei que chegaria at� ti. - Porqu�?

Na altura, n�o sabia, mas o Georges levou a �nica grava��o do Ben

e proibiu-o de nos visitar no local de filmagens.

N�o me lembro como tudo se passou, mas as coisas foram ficando pior.

A Jasmine come�ou a tomar nota do que se passava.

L�, foste tu que escreveste.

"Tudo � duvidoso.

O Sr. C. N�o sabe o que faz,

nem faz ideia como vai arranjar o dinheiro.

Afirma ter um director de produ��o que trabalhou no Apocalypse Now."

Quem � este?

N�o sei.

- Tu estavas na reuni�o. - � �bvio que a pessoa n�o foi.

Porque continu�mos depois de eu � aten��o para isto?

� mesmo verdade.

S� tu e o Georges � que queriam mesmo isto.

Na altura, n�o ligaste nenhuma a estes relat�rios.

Eu tive-os em considera��o, mas pensei que �amos improvisar.

O que foi?

N�s fizemos o trabalho �rduo e tu pensaste que �amos improvisar.

Estavas a ser parvalhona.

Sempre foste parvalhona.

Consegues ser mesmo maravilhosa,

mas tamb�m consegues ser parvalhona.

Talvez fosse parvalhona,

mas eu s� queria que continu�ssemos.

N�o havia tempo para pensar.

O Georges estava a filmar-nos de uma ponte sobre os carris.

O comboio.

Eu ouvi o comboio antes de ele me avisar.

Achas que se divertiu a gozar connosco?

Claro! Que achas?

A duas semanas do fim, fic�mos sem dinheiro.

O Georges disse que s� precisava de 10 mil d�lares.

Ou ter�amos de parar as filmagens.

Eu e a Sophie ach�mos

que t�nhamos chegado longe demais para permitir isso.

O Georges levou-nos de multibanco em multibanco.

Durante as noites seguintes,

eu e a Sophie levant�mos todas as nossas poupan�as.

Nunca cont�mos a ningu�m.

No final das filmagens,

eu, a Sophie e a Jasmine est�vamos exaustas.

Mas t�nhamos feito o imposs�vel.

Fizemos um filme!

A Sophie voltou para L.A.

A Jasmine voltou para Nova Iorque.

Eu voltei para Inglaterra.

O Georges ficou em Singapura para tratar dos 70 rolos de filme

e dizer-nos como estavam as filmagens.

Nenhuma de n�s tinha visto o que foi gravado.

Por isso...

... eu esperei.

E esperei.

E esperei mais.

O Natal passou.

A Passagem de ano passou.

Finalmente, recebi uma encomenda.

Do Georges Cardona.

Espero que estejas bem.

Espero que tenhas aberto a garrafa de vinho

e bebido tudo de uma vez.

Esta � uma m�sica cl�ssica de Chopin.

Beethoven.

� muito calmante.

Por agora, � tudo.

Vou enviar-te umas coisas.

Ent�o, esperei mais.

O ver�o estava de novo a chegar.

E a Jasmine pensou que tinha de voltar para Singapura

para editar o filme.

L�.

"Ele acha que eu e a Sophie estamos a exagerar.

E que estamos a ser paran�icas sem raz�o."

Por causa de onde trabalhava,

eu poderia ter editado o filme, termin�-lo, fazer tudo.

Por fim, recebi outra grava��o.

Ol�.

Primeiro, o telefone tocou

e era uma chamada de Nova Iorque.

A tua melhor amiga ligou hoje.

�s tr�s da manh�, estava a ver televis�o e...

"Est�s a ouvir?

N�s queremos saber como est� o filme."

Eu perguntei: "Tu e mais quem?"

Ela respondeu: "Que achas? Eu e as pessoas deste lado do mundo."

Como uma verdadeira americana, ela falou em nome do seu povo.

Seja como for...

... achei melhor fazer esta grava��o

antes que recebesse mais chamadas estranhas.

Foi a �ltima vez que tivemos not�cias dele.

Ele desapareceu.

E o Shirkers tamb�m.

Foi um grande choque.

Fiquei mesmo sem for�as.

Acho que toda aquela energia me abandonou naquele instante.

Uma parte da minha alma morreu.

Tudo o que sobrou...

... foram recorda��es indistintas....

... de estar nas filmagens...

... e esperar.

Tal como uma foto de fam�lia.

Estou pronto.

O Georges levou tudo.

Nas profundezas da mem�ria,

lembrei-me de uma ocorr�ncia final.

No �ltimo dia das filmagens,

s� l� est�vamos eu, o Georges e o Ronnie.

Fomos at� um terreno ao lado do aeroporto...

... e constru�mos uma estrutura estranha.

Era para fazer voar o nosso jovem actor, o Romaino.

Mas a cena n�o constava do meu argumento.

Perguntei ao Georges como nos �amos livrar do arn�s e da corda.

Ele disse para n�o me preocupar, que havia computadores.

Ap�s muitas horas a tentar gravar aquela cena totalmente inventada...

... ele abriu a c�mara sem querer.

Se calhar n�o foi sem querer.

E n�o tinha pel�cula no interior.

Ap�s 25 anos...

... questiono-me se estava a mandar uma mensagem que s� eu podia entender.

H� uma cena no meu argumento onde o Haryo descobre

que n�o h� pel�cula na c�mara da S.

Ela diz-lhe que n�o faz mal, porque quando se olha pelo buraco

e se faz clique, apanha alguma coisa.

Ou, pelo menos, a mente apanha.

N�o � preciso pel�cula. A simples ac��o ajuda-nos a recordar.

O que � que ele me queria dizer?

"Com ou sem pel�cula...

... deves lembrar-te disto."

LEMBRAR

Estaria ele a representar como realizador?

Ser� que viu todo este projecto

como um exerc�cio psicol�gico?

J� n�o �ramos mi�dos especiais que fizeram um filme.

�ramos s� mi�dos.

O Shirkers � um filme muito espont�neo, porque tu j� eras espont�nea.

Era maravilhoso que estivesses disposta a experimentar

e expressar o que tinhas em mente.

Quando perdi o Shirkers...

... tamb�m perdi isso.

N�o me filmes, recuso-me a fazer parte disto.

Tornei-me numa p�ssima cr�tica de cinema de 22 anos

no maior jornal de Singapura.

LAMECHICE TRANSCENDENTE DO TARANTINO

ABSORVE O RETRATO DE UMA SENHORA

ASSASSINO NATOS � MARCANTE

Obriguei-os a deixarem-me entrevistar os meus her�is.

CLE�PATRA EST� DE VOLTA

Uma editora abordou-me

para escrever um retrato ficcional sobre o Shirkers.

Mas eu disse que n�o estava pronta.

Nos anos seguintes,

recusei entrevistas onde queriam que falasse sobre o Shirkers.

Era algo que s� queria esquecer.

Cinco anos ap�s as filmagens do Shirkers terminarem,

a Jasmine recebeu uma encomenda misteriosa no escrit�rio.

Eram cassetes do Georges Cardona.

S� podiam ser as grava��es do Shirkers.

Recordo-me, talvez incorrectamente,

que era uma ocasi�o muito feliz.

Eu, tu e a Sophie �amos...

Recebi-as no meu escrit�rio.

E �amos ver as grava��es.

Mas afinal eram...

Era tudo est�tica?

As cassetes n�o tinham nada.

Achei aquilo muito cruel.

Porque � que ainda estava a fazer este jogo psicol�gico?

D�-nos o material para acabarmos o filme.

N�o consegu�amos acreditar no rid�culo da situa��o.

Era surreal e inconceb�vel.

MAS QUE PARVALH�O

Estava mais do que furiosa com o Georges.

Mas n�o tinha que fazer com a minha raiva.

Por isso, escrevi tudo.

PLANO SECRETO DENTRO DO ENVELOPE

Concebi uma esp�cie de final...

CHAMAM-LHE CLE�PATRA WONG, 1978

... com pirotecnia e boa montagem.

Na minha opini�o,

ele devia desaparecer no interior da floresta da Amaz�nia, onde pertence,

com a sua semelhante jib�ia e respectivas presas.

Esc�ria.

For�amo-nos a seguir em frente.

O meu priminho Yau...

... deu-me este livro de mosquitos.

Mas os meus priminhos j� eram grandes.

N�o consegues ver nada.

Aceitei o facto que uma parte de mim estaria perdida para sempre.

E mudei-me para Nova Iorque

para estudar cinema na Universidade Columbia.

Sei que estava a fazer tudo ao contr�rio.

Primeiro, fiz um filme.

As seguir, fui cr�tica de cinema.

E, depois, estudei cinema.

Mas � isso que acontece quando j� n�o temos um mapa.

Estive perdida durante dez anos.

Tentei escrever o livro

sobre as grava��es do Shirkers.

Mas n�o fui capaz.

Em vez disso, escrevi argumentos para filmes que nunca seriam feitos.

O Shirkers era uma mem�ria long�nqua.

Depois, comecei a receber pedidos de socorro.

Ouvi uns tinidos quando vi Gostam Todos da Mesma.

HERMAN J. BLUME OBSERVAT�RIO MARINHO

E voltei a ouvi-los...

... durante Ghost World.

Depois, o sil�ncio voltou.

Mas agora sabia que estava vivo.

E sabia que t�nhamos de nos reencontrar.

De repente, tinha 30 e tal anos.

E estava em Los Angeles.

Decidi dedicar-me � fic��o.

N�o tinha de esperar por ningu�m para escrever um romance.

S� precisava de mim.

E dos meus fantasmas.

HIST�RIA ACIMA DE TUDO

O meu romance, The Black Isle,

conta a hist�ria de uma jovem com poderes extraordin�rios

que se deixa influenciar por um homem carism�tico, mas sinistro.

Ao escrev�-lo senti que fiz um exorcismo.

Mas estava enganada.

No dia 11 de Setembro de 2011,

recebi um e-mail de um nome conhecido.

Era a mulher do Georges.

Disse que ele tinha morrido.

E disse que encontrou 70 rolos de filme etiquetadoscom "Shirkers".

Estavam em perfeitas condi��es.

Senti que uma maldi��o, que durou 20 anos, tinha, finalmente, acabado.

A vi�va dele enviou-me caixas de coisas que n�o via h� anos.

O Georges tinha guardado tudo.

Tirei alguns diapositivos que foram tirados no est�dio dele.

L� estava a Kaylene...

... a mi�da que fez de Monster...

... rodeada de coisas minhas.

Porque � que o Georges guardou tudo...

do Shirkers?

At� escreveu esta carta no nome da equipa.

"Neste momento, o filme est� na sala de montagem,

mas est� quase pronto.

O Shirkers estar� pronto em Outubro,

esperamos que seja a tempo do Festival de Cannes.

Tenham um bom dia."

O Georges e as suas hist�rias eram t�o ex�ticos

que eram dif�ceis de alcan�ar.

AMIGA DO GEORGES

Lembro-me que ele come�ou por descrever filmes do in�cio ao fim.

Depois, come�ou a contar hist�rias da sua vida.

A fam�lia dele queria demolir uma barragem,

devia estar na propriedade deles,

e deixar o rio correr novamente.

Ent�o, o Georges construiu um foguete.

E a m�o dele explodiu.

Ele falou-me do irm�o que, em Columbia,

entrou em casa com uma faca espetada na art�ria femoral

e esvaiu-se em sangue no ch�o da cozinha.

Ele foi preso...

... pela Pol�cia que pensou que ele era um ladr�o cubano.

Ele ligou a um tio de Nova Orle�es da pris�o

e o tio disse: "Vem para Nova Orle�es. Eu tomo conta de ti."

A certa altura, senti o p� molhado

e reparei que ele estava a chorar por causa da hist�ria dele.

As l�grimas estavam a cair no meu p�.

O Georges contou estas hist�rias � Grace

no primeiro dia em que se conheceram,

na piscina do hotel Raffles, em 1985.

Depois ocorreu-me que ainda nem me tinha apresentado.

J� n�o era uma crian�a.

A Sandi Tan tornou-se numa detetive

que tem de atravessar dois continentes para resolver este mist�rio de 25 anos.

H� muito tempo, fiz-me � estrada com o Georges.

Agora, fiz-me � estrada de novo sem ele,

mas nem por isso.

� t�pico do Georges querer perseguir-me desta forma.

NOVA ORLE�ES

- Ol�. - Como est�s?

Passou imenso tempo.

� verdade.

Mas tu est�s igual.

A VI�VA

Sandi, estava com receio de hoje. Estou feliz por te ver.

E quero ajudar-te.

N�o fa�o ideia do que se passou.

N�o sei mesmo.

A vi�va continua t�o horrorizada por causa dos 25 anos com o Georges

que n�o quis divulgar o nome.

Nem sei como morreu.

Ele tinha uma namorada de 21 anos.

N�o s� era jovem, como era da B�lgica.

E era qu�mica.

Ele ia para a cama.

As art�rias fecharam-se e ele desmaiou.

Depois, morreu.

- Morreu mesmo assim. - O mais curioso...

- Era muito novo. - Pois era.

Era quatro anos mais velho do que pens�vamos.

Quando descobriste isso?

Quando nos divorci�mos.

Ele sempre disse que o passaporte tinha o ano errado.

E o dia tamb�m.

Nem sequer fazia anos quando pensava.

Era dois dias antes.

Festejando dois dias depois fazia como que fosse de outro signo.

Ele era Caranguejo.

A situa��o po�tica era t�pica do Georges Cardona.

Eu acreditava no que ele dizia.

Eu confio mesmo demasiado, sou f�cil de enganar.

� por isso que isto � t�o dif�cil.

Sempre que ele fazia filmagens, era horr�vel para mim.

Isto � muito caro.

- Tu � que pagaste tudo? - N�o paguei tudo.

Mas paguei muitas coisas.

At� 1998, onde quer que ele estivesse, sempre que est�vamos juntos,

levava o filme com ele e certificava-sede que era arejado

e era tipo, meu Deus.

Era tipo uma cruz ao meu pesco�o.

Mas acho que, em Singapura, guardava-o no est�dio dele.

Ela e o Georges foram para Perth, na Austr�lia,

onde ele a fez gastar as poupan�as para lhe comprar uma vinha.

Ele disse que ia aprender a geri-la, lendo livros sobre o assunto.

PERTH, AUSTR�LIA

T�nhamos um quartinho e estava l�.

Foi ent�o que me quis livrar dele, porque estava a ocupar uma divis�o.

Dois anos depois, divorciaram-se e ele mudou-se para Seattle.

E, depois, para Houston, onde morreu.

Nunca largou os 70 rolos de filme

e um monte de caixas com argumentos e storyboards.

Quem faz isto?

A minha mulher lembrou-me hoje que conheceu o Georges em 1985.

MELHOR AMIGO DO GEORGES

Ela diz que pensou que ele estava no Programa de Protec��o de Testemunhas.

O PROTEGIDO

Acho que ex-alunos e protegidos do Georges, como tu e eu...

... ficam obcecados por ele, porque s�o contadores de hist�rias

e porque ele � uma boa hist�ria.

Conheci o Georges Cardona no final dos anos 70.

Soube atrav�s dos m�dia locais

que o Georges tinha aberto a famosa Lighthouse Media Center.

Eu tinha 21 anos.

Demo-nos logo bem,

houve qu�mica de imediato.

Pensei que tinha morrido e ido para o C�u,

porque ele tinha c�maras e gravadores sobre os quais s� tinha lido.

Provavelmente, ningu�m a sul da linha Mason-Dixon

tinha equipamento Super 8 profissional.

E o Georges era carism�tico.

Tinha uma forma estranha de fazer com que viv�ssemos aventuras

ou, pelo menos, que tiv�ssemos expectativas disso.

Pedi � vi�va

para me mostrar os locais em Nova Orle�es onde o Georges Cardona ia.

Era aqui que ele vivia, � esquerda.

No apartamento com garagem.

Est�s a ver?

Quando nos cas�mos, trabalh�vamos na mesma empresa.

Eu trabalhava com mausol�us.

Era p�ssima nesse trabalho.

Tivemos uma loja na University Section.

Como se chamava a loja?

Lighthouse Media Center.

E...

Estou � procura de Naples Street.

Acho que era onde est� esta casa cinzenta.

Se calhar era onde est� esta casa amarela. Est� completamente diferente.

Era algures por aqui, n�o acredito que n�o me lembro onde era.

Como pode ter desaparecido? Aqui.

Durante horas, procur�mos o centro de cinema

que o Georges criou com o dinheiro dela.

Perdemos 36 mil d�lares.

EM 2017: 167 MIL D�LARES

Devia estar totalmente... Se calhar fez-me uma lavagem cerebral.

O CONFIDENTE

O Georges escreveu-me.

Est�vamos em Cambridge, Inglaterra, e ele disse:

"Vou enviar-te uma pessoa.

Ela � genial.

� autodidacta.

E precisa de ti."

Ele achou que ela me podia encorajar a escrever um argumento.

Tal como ele a convenceu uma vez a escrever um argumento para ele.

Tinha iniciado o meu primeiro romance antes de o conhecer

e ele perguntou-me se queria trabalhar

num filme com ele.

Queria fazer um film noir em Nova Orle�es

e ia chamar-lhe Night Decoy.

NIGHT DECOY POR GEORGES CARDONA E GRACE DANE MAZUR

Ele prop�s que eu fosse para Nova Orle�es

e...

... ele ia falar comigo, eu gravava

e depois ia para casa para escrever um argumento.

Havia um homem e duas mulheres.

Uma mulher durona chamada Audrey.

E uma asi�tica ador�vel chamada Shelly.

O homem fica obcecado pela Audrey

e ele...

... grava-a no apartamento dela, sem ela saber.

Havia uma sensa��o constante de taradice em torno do Georges.

Ele nunca se atirou a mim.

O Georges era bom com as mulheres de outra forma.

Acho que ele conseguia obter o que queria delas

e o que ele queria nem sempre era sexo.

Ele fez com que trabalhasse nos sonhos dele,

durante quatro ou cinco anos,

em vez de me focar nos meus projectos.

Sempre foi um mist�rio.

Meu Deus. Como...

Como me tornei numa estagi�ria?

Ele tinha uma forma estranha de ajudar as pessoas

a sentir que podiam alcan�ar o seu sonho.

Mas quando a concretiza��o do sonho se aproximava,

ele tinha de o sabotar.

Escrevi um filme slasher chamado The Last Slumber Party.

Era suposto ser uma esp�cie de conclus�o,

a forma��o do grupo da Lighthouse Media Center.

O Georges era director de fotografia, mas tamb�m era...

... o guru.

Alguns anos depois, recebi um rendimento extra

que podia investir nos meus filmes.

Pedi todos os negativos ao laborat�rio de cinema em Memphis

para onde o Georges enviou o filme e com o qual tinha uma rela��o longa.

Mas alguns negativos tinham desaparecido.

Acho que o Georges fez algo com eles.

N�o o posso provar, mas n�o seria incompat�vel

com outras coisas que ele fez.

Sei que � horr�vel sentir um alegria com a desgra�a dos outros,

mas ouvir isto fez-me sentir menos s�.

Eu e a vi�va continuamos a procurar vest�gios da vida dela com o Georges.

� um pesadelo conduzir aqui.

J� vim por aqui e n�o o encontro.

Podem n�o perceber, mas fico muito feliz

por nem sequer me lembrar onde �.

Esperava que, ao andar por l� com ela, me sentisse mais pr�xima dele.

Mas ela s� tinha becos sem sa�da.

T�nhamos uma necessidade perversa de criar mitologia.

SEXO, MENTIRAS E V�DEO, 1989

Para investigar a raz�o por que o Georges dizia

que foi a inspira��o

para o protagonista do filme do Steven Soderbergh,

Sexo, Mentiras e V�deo,

trabalhei na equipa do filme.

Trabalhei com o meu melhor amigo, Larry Blake,

que tamb�m fazia parte do grupo original do Georges.

O Georges teve ci�mes

e sentiu-se amea�ado, exclu�do e com raz�o

por dois dos seus protegidos

estarem ligados a este filme

que se tornou controverso.

Trabalh�mos num vencedor da Palma de Ouro.

� t�pico da personalidade e car�cter do Georges,

tal como o conheci, inventar uma hist�ria destas.

Tent�vamos contactar com ele, ao longo dos anos, e n�o havia rasto.

S� havia uma pessoa desaparecida.

Para mim, o mais estranho de tudo

foi v�-lo a fumar, porque nunca o vi a fumar.

E nunca cheirava a fumo.

� muito estranho o facto de ele fumar.

� curioso que tenha ficado surpreendida ao v�-lo fumar.

Em vez de ficar surpreendida por algu�m publicar na Internet

que ele estava desaparecido.

N�o sei o que era verdade ou n�o.

40.� ANIVERS�RIO, 1991

Ele disse que a m�e era francesa.

- Era? - N�o sei.

Conheceste-a. Era francesa?

N�o falei com ela, ela s� falava Espanhol.

Nunca me disse que era franc�s, n�o me esqueceria.

Ele disse-me que nasceu num navio

que tinha sa�do da Alemanha em direc��o a Columbia.

Vinha da Alemanha, porque o pai era alem�o.

Acreditei nisso durante muito tempo.

Mas, certo dia, estava a conversar com a sobrinha dele, a Catalina,

e ela come�ou a rir-se.

Eu perguntei qual era a piada.

Ela perguntou-me: "Tamb�m te contou essa hist�ria?"

Ele nasceu numa pequena aldeia nas montanha de Columbia.

Havia sempre a sensa��o de que ele n�o tinha consci�ncia

da percep��o da sua classe

e da sua etnia.

Ele era sempre muito vago em rela��o � sua etnia.

A �ltima vez que falei com o Georges

foi no in�cio dos anos 90.

Ele j� estava em Singapura e eu ainda estava em Nova Orle�es.

Como sempre,

o Georges come�ou a falar sobre um projecto de sonho.

Queria que eu fizesse parte dele. Estava a fazer um filme em Singapura.

ELE AFIRMA QUE TRABALHOU NO APOCALYPSE NOW

"Vem para Singapura, ser�s o meu bra�o direito.

Vamos fazer uma longa-metragem."

DIRECTOR DE PRODU��O: STEVE TYLER

O padr�o evidente � que o Georges

se sentia amea�ado

pelo sucesso dos seus protegidos.

Para lidar com essa amea�a, ele tomava medidas,

fugindo com manifesta��es f�sicas dos sonhos das pessoas.

No teu caso, foram rolos de filme, no meu caso, foi equipamento.

Em outros casos, eram rolos, bandas sonoras, o que fosse.

Eu e o Steve estamos ligados para sempre.

N�o como v�timas, mas como detectives.

Ou seja, somos amigos.

Recebi um �ltimo peda�o do Georges.

Uma carta antiga da m�e do Georges com Arabi na morada do remetente.

� perto de Nova Orle�es.

� linda.

A vi�va tentou convencer-nos a n�o l� ir.

Arabi n�o � nada bonita.

Est� bem.

Arabi � horr�vel.

Por isso, tinha de l� ir.

Boa, n�o est� a chover agora.

Precisas dos mapas?

Isto fez-me pensar naquela cena em Hist�ria de Um Fot�grafo,

quando o David Hemmings regressa � cena do crime

e n�o encontra nada.

Ap�s desvendar o Georges Cardona, camada ap�s camada,

percebo que n�o h� nada, apenas filmes.

Havia personagens que ele queria imitar.

E havia personagens que ele fingia ser.

SEXO, MENTIRAS E V�DEO, 1989

Mas aquela que era mais parecida com quem ele era de verdade,

era Nosferatu.

NOSFERATU, O FANTASMA DA NOITE, 1979

Tentava tornar-se imortal,

alimentando-se de sonhos de jovens.

O Georges Cardona tinha uma paix�o estranhapelo Shirkers.

Pensei que, quando fugiu com todos os rolos,

os iria deixar espalhados por a�,

que a humidade ia dar cabo das grava��es e ponto final.

Mas ele adorava os rolos.

Todos nos apaixon�mos pelo filme de formas diferentes.

A paix�o dele, n�o sei,

era tipo necr�fila.

Talvez adorasse os nossos rolos de filme, mas livrou-se das grava��es de som.

O Shirkers regressou mudo para n�s.

CR�TICO DE CINEMA

� a primeira vez que vejo isto.

Mais de 20 anos depois.

Aqui est�s tu, ao longo do v�deo.

Voc�s eram ador�veis.

A s�rio.

Quando vi as filmagens,

pensei logo que o filme devia ter sido terminado.

Teria sido um grito de guerra de que se pode experimentar tudo.

O Shirkers � tipo o fantasma

entre as linhas dos livros sobre a hist�ria do cinema de Singapura.

E, para mim, a aus�ncia do Shirkers � muito palp�vel.

Algo me dizia: "N�o, nem pensar.

O Shirkers tem de l� estar."

Durante anos, senti-me louca por falar sobre um filme que n�o existia.

Mas tinha raz�o.

Todos que recordava terem sido fant�sticos, foram fant�sticos.

E eu fui t�o m� como achei que tinha sido.

H� muita surpresas nesta c�psula do tempo.

A escolha da roupa da �poca.

A Jasmine foi proibida de mastigar pastilha atr�s de pastilha el�stica.

E havia a paisagem de Singapura.

Tinha-me esquecido.

INOVA��ES PROFUNDAS PARA EXPERI�NCIAS PROFUNDAS

SINGAPURA ESTA��O DE MALAYA, 1932-2011

A Jasmine n�o foi naquela viagem que fiz com o Georges antes do Shirkers.

Mas, alguns anos depois, fizemos outra.

Levei-a de volta a Nova Iorque.

Talvez uma Nova Iorque diferente da que ela conheceu.

Mas ela tamb�m tinha mudado.

Porque fazem parecer que � de cart�o?

Americanos, � maravilhoso.

Eu ia casar-me em Paris.

Paris, Las Vegas.

Vamos a isto, aqui est�o eles.

Boa.

A luz est� desligada.

A luz est� desligada.

Vejam isto, acabei de me casar...

O v�deo...?

... e comecei a discutir com a Jasmine.

LE JAZZMATRON

N�o �s um camelo.

N�o � pesada, estou a segurar nela.

Ela tinha raz�o.

Eu era parvalhona.

� incr�vel.

A Jasmine tinha acabado de fazer o que ainda �

o filme mais aventureiro feito em Singapura.

Vamos a isto!

A Jasmine � a �nica das tr�s que ainda vive em Singapura.

E � a mais nobre de todas.

Isto � para despertar a aten��o para os argumentistas.

- Assim? - Sim.

Argumentistas unidos!

- Argumentistas unidos! - Sim!

COM�CIO LGBT, 2016

Ela luta contra a injusti�a que v�.

Ainda vamos almo�ar juntas, quando estamos na mesma cidade.

E ainda fazemos emboscadas ao nosso amigo Yek Keak

que nunca sai de casa.

Ol�, Yek.

Entrem.

E depois cortamos, temos de ir tirar as coisas do est�dio.

Estamos a gravar?

ACTIVISTA, REALIZADORA

Sempre que se fala do Shirkers, mesmo passados tantos anos,

descemos ao mesmo c�rculo do inferno.

� mesmo t�pico teu analisar toda a gente ao detalhe,

colocar toda a gente no mesmo saco, excepto tu.

Fazes sempre assim.

- Como? Quando? - Sempre.

Fazes isto para te divertires.

Quantas vezes j� te disse que foi muito desagrad�vel,

muito decepcionante e muito desgastante

e que foram as rela��es que esgotaram

e n�o foi a produ��o em si que nos deixou exaustas?

Obrigada.

Esta batalha de 23 anos...

... � uma faca de dois gumes para mim.

porque eu, tu e a Jasmine temos uma liga��o

que n�o tenho com mais ningu�m.

N�o temos de falar todos os dias.

Tenho de falar com voc�s regularmente,

mas temos uma liga��o imediata que � muito visual e emotiva.

Deste-me este caderno quando chegaste.

N�o vejo isto h� 23 anos.

- � teu. - � o meu caderno.

Estou a analisar e a decompor o argumento,

� procura de simbolismo, met�foras e ilus�es.

Este caderno

cont�m o n�cleo para a minha profiss�o, sem o meu conhecimento.

Cena sete, interior, casa da S., de tarde:

Os brinquedos seriam manifesta��es f�sicas da sua personalidade.

Eles devem reflectir quem "ela" �, em mai�sculas.

Ela procura a imoralidade atrav�s dos sonhos?

J� procurava nas entrelinhas, na altura.

Vou ser chefe de departamento durante tr�s anos.

A s�rio? Chefe de departamento?

Partilha connosco. De cinema?

- Sim. - Na Vassar College?

Sou das mais antigas, mas pronto.

Que se segue?

Ao fazer este document�rio,

percebi que o fantasma do Georges nunca me abandonar�.

E aprendi duas coisas.

N�o faz mal.

Esperemos pelo outro lado,

para ver o que nos reserva.

Durante mais de 20 anos,

o Ben fala da banda sonora que o Georges lhe roubou.

Por fim, um dia, disse...

... para a tocar para mim.

Tens um carinho pelo filme, por causa da altura da tua vida.

Chor�mos e rimo-nos por causa dele.

Queix�mo-nos por causa dele.

� estranho, porque n�o existe como filme, mas existe.

Para mim, existe aqui e aqui.

N�o est�s a trazer o Shirkers de volta � vida,

mas sim a dar-lhe outra vida e de volta para n�s.

� mais do que uma c�psula do tempo.

N�o � apenas a paisagem e os edif�cios que desapareceram,

mas tamb�m as pessoas desses lugares.

Sei que nunca reunirei todos os amigos no mesmo lugar,

ao mesmo tempo, novamente.

Vamos repetir.

Mas aqui est�o todos...

...comigo.

Exterior, autoestrada, tarde.

O som do vento.

Olha.

Em todas as tardes maravilhosas,

h� os que se mudam,

os que revolucionam...

...e depois...

...os que escapam.

Legendas: Ruben Oliveira

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