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SARABAND (2003)
Para Ingrid
Marianne mostra as fotografias dela
Johan tornou-se um milion�rio depois de idoso.
Uma tia dinamarquesa distante...
que fora uma cantora de �pera mundialmente famosa...
deixou sua fortuna para Johan.
Quando se tornou financeiramente independente...
ele deixou a universidade.
Comprou a casa de veraneio de seus av�s...
um pardieiro da virada do s�culo, na mata perto de Orsa.
Johan e eu n�o temos contato...
nenhum contato, h� muitos anos.
Nossas filhas est�o longe, longe at� de mim.
Martha vive em um asilo...
afundando-se cada vez mais no isolamento da sua doen�a.
Eu a visito de vez em quando, mas ela n�o me reconhece.
E a Sara...
Sara � casada com um advogado de sucesso.
Eles se mudaram para a Austr�lia e trabalham para uma firma de respeito.
Eles n�o t�m filhos.
Eu?
Ainda estou ativa na minha profiss�o...
mas no ritmo que quero.
Na maior parte, disputas familiares e div�rcios.
Estive pensando...
que eu deveria visitar o Johan.
UM
Marianne coloca o seu plano em a��o
Estive pensando...
que eu deveria visitar o Johan.
E agora estou aqui, de fato.
E ele est� sentado l� fora, na varanda.
E eu fiquei aqui...
olhando para ele e...
esperando por ao menos dez minutos.
Talvez eu devesse ter ignorado esse impulso totalmente irracional.
Esta viagem.
Na verdade, n�o sou nem um pouco impulsiva.
Mas c� estou eu.
Ent�o tenho que me decidir:
Ou eu retorno silenciosamente para o meu carro...
estacionado na entrada...
ou ando at� ele.
� claro...
eu poderia ficar parada aqui um pouco mais...
e deixar a minha confus�o me enlouquecer.
Mas n�o por muito tempo.
Mais um minuto.
Esse minutinho, levando o seu tempo.
Trinta e tr�s segundos.
Quarenta e sete segundos.
Cinquenta e cinco segundos.
N�o!
- Acordei voc�? - Ent�o � voc�, Marianne.
- Ol�. - N�o, n�o se levante.
- T�pico de voc�, chegando de fininho. - N�o cheguei de fininho.
N�s n�o nos vemos h� 30, 32 anos.
- Perdemos contato um com o outro. - Isso � natural.
Primeiro, as pessoas se juntam...
depois se separam e falam por telefone...
- e finalmente fica o sil�ncio. - Isso � triste.
Isso � uma reprova��o?
N�o. N�o t�nhamos nada a dizer.
E, subitamente, voc� telefona um dia e diz que quer me visitar.
Voc� n�o pareceu muito entusiasmado.
Entusiasmado? Eu disse n�o.
Ainda digo n�o.
Eu n�o quero. N�o. Mas voc� n�o d� a m�nima.
Eu tinha que vir.
Por qu�?
- N�o vou dizer. - Voc� est� rindo.
Johan...
eu viajei 320 quil�metros...
e consegui encontrar o seu esconderijo no meio da selva.
Mas agora que o vi, o beijei...
e falei com voc�, eu posso ir.
Isso n�o ser� poss�vel.
N�o?
Voc� tem que ficar ao menos para o jantar.
- Por qu�? - Uma semana atr�s...
eu disse � Srta. Nilsson que uma ex-esposa estaria vindo.
Eu n�o posso subitamente dizer-lhe que n�o haver� jantar.
Ela vai ficar muito brava.
Quem � a Srta. Nilsson?
Agda. Agda Nilsson.
Voc�s s�o um casal?
Santo Deus do c�u! Que Deus impe�a.
Voc�s dois vivem aqui sozinhos, no interior da floresta?
A Srta. Nilsson mora na vila.
Ela vem aqui para limpar...
e cozinhar, e depois vai para casa.
Ela � religiosa e de mau temperamento.
Ent�o n�o � exatamente um id�lio.
Para ser honesto, tenho medo da velha cadela.
Acho que ela imaginava casar-se comigo.
De qualquer modo, fique para o jantar.
E ela preparou o quarto de h�spedes.
Ent�o voc� deve passar a noite.
Acho que vou ter que obedecer.
Sempre me complico para sair desta cadeira.
N�o, n�o me ajude.
O que �, Johan?
Pretendo colocar meus bra�os ao seu redor.
Vamos come�ar a nos abra�ar?
Maldito seja, Johan.
Maldito velho idiota.
- Quantos anos voc� tem? - Eu n�o sei. Voc� sabe?
- Oitenta e seis. - N�o, n�o voc�, eu.
Por volta de 55...
Tenho 63.
� mesmo? T�o velha assim?
E tiraram os meus ov�rios e o meu �tero.
Voc� ficou triste por causa disso?
Sim. �s vezes.
Vamos sentar no banco.
� t�o belo.
Onde tal beleza � reveladora
Em toda a vida, em toda a cria��o Roubando
Qual deve ser a fonte, o doador? Beleza eterna
- N�o sabia que voc� sabia os Salmos. - Minha av� me ensinou.
E meu av� me recompensava com soldadinhos de chumbo.
Podemos apreciar a vista...
- dar as m�os. - Vamos dar as m�os?
N�o faz�amos isso nos velhos tempos?
Sim, acho que sim.
N�o tenho dado as m�os desde...
Bem, eu desisti de dar as m�os.
Voc� tem mesmo uma vista linda.
Consegue ver o chal� no lago daqui?
Pode ver a luz refletindo ali, al�m do marco.
No caminho para c�, eu passei pelo chal� no lago.
Parece habitado.
Pode-se dizer que sim.
Henrik est� assombrando o lugar.
Sim, Henrik.
Meu caro filho. O professor adjunto.
- Voc�s est�o finalmente se falando? - N�o exatamente.
Recebi uma carta curta anunciando que ele planejava ficar aqui.
Ele e sua filha Karin est�o aqui desde o final de abril.
N�o � um contato social muito ativo.
Nem um pouco. Conversa educada. Se nos encontramos.
O Henrik gordinho...
- Ele deve ter... - Sessenta e um.
Meu Deus.
Pode dizer isso.
E a filha, Karin?
Karin tem 19.
A m�e dela morreu de c�ncer, h� dois anos.
- Anna... - Diga-me.
Anna e Henrik foram casados durante 20 anos.
Ele n�o p�de suportar a morte dela.
Aposentou-se prematuramente.
Ouvi dizer que ficaram felizes por se livrarem dele.
Ele se sentia maltratado l�.
- Como voc�, com aquela idade. - Eu? N�o.
Ah, sim.
Eu estava enrolado nas regras acad�micas sem sentido.
Meu doutorado honor�rio da Universidade de Michigan...
acabou com aquilo.
Johan, est�vamos falando sobre o Henrik.
Ele dirige uma orquestra chamada Uppsala Chamber Soloists.
Mas vai largar isso tamb�m.
- Ele tem que fazer alguma coisa. - Acho que est� escrevendo um livro.
E a filha? Karin?
Karin tamb�m toca celo.
Ela vai fazer o teste para o conservat�rio, no outono.
O Henrik lhe d� aulas.
Eles se sentam no chal�, no lago, com os seus celos, dia ap�s dia.
Posso dizer que ela � linda.
Como a m�e.
Sim, bem...
N�o sei nada sobre nossas filhas.
- Sara est� na Austr�lia. - Austr�lia?
Sim, Austr�lia.
Bem, ela conseguiu ir bem longe.
Eu recebo cartas e telefonemas.
Ela est� se dando bem.
Uma boa firma de advocacia, um bom marido.
Sara est� contente com sua vida.
E a pobre Martha?
Martha est� se afastando cada vez mais.
Ela n�o me reconheceu.
Ela n�o est� mais consciente, no nosso sentido da palavra.
Entendo.
E voc�?
N�o posso reclamar.
Mas, �s vezes, olho para o meu isolamento volunt�rio...
e acho que estou no inferno.
Que j� estou morto, mas ainda n�o sei.
Mas estou bem.
Eu revistei o meu passado e agora tenho o gabarito de respostas.
N�o parece muito divertido.
Exatamente, Marianne. N�o �.
Mas quem disse que a maldi��o devia ser divertida?
O que o seu ''gabarito de respostas'' diz?
- Voc� quer mesmo saber? - Eu perguntei, n�o foi?
Diz que a minha vida foi uma merda.
Uma vida inteira est�pida, sem sentido.
O seu casamento faz parte do seu inferno?
- Para ser honesto, sim. - Sinto muito ouvir isso.
Um velho padre me disse, uma vez...
que um bom relacionamento tem dois componentes:
Uma boa amizade e um erotismo inabal�vel.
Ningu�m pode dizer que voc� e eu n�o fomos bons amigos.
Gentis e capazes.
- Bons amigos. - Absolutamente.
Voc� foi infiel.
- Eu fui t�o... - Eu tamb�m.
- T�o triste. - Mas h� tanto tempo...
- Ainda � doloroso. - N�o � para mim.
N�o, acho que n�o.
Marianne querida.
� o que voc� acha.
Sim, eu acho.
� bom estar sentado aqui com voc�.
De m�os dadas, olhando para a bela vista.
Sem falar de coisas dolorosas.
� voc� quem est� segurando a minha m�o.
Merda! O jantar.
A Srta. Nilsson vai ficar furiosa se nos atrasarmos.
Johan, preciso me lavar e pegar a minha mala no carro.
Isso foi um erro.
DOIS
Quase uma semana se passou
Voc� � Karin?
Voc� quer falar com o seu av�?
O seu av� e a Srta. Nilsson foram ao dentista.
Sou Marianne. Eu fui casada com o seu av�.
- Estou de visita. - Eu sei.
Venha, sente-se.
Se quiser, pode me ajudar a limpar esses cogumelos.
Aqui tem uma faca.
Se quiser conversar, conversaremos. Se n�o, podemos s� ficar aqui.
- Deve conhecer o Henrik, meu pai. - N�o muito.
Eu disse ol� para ele, mas n�o o conhe�o.
- Mam�e est� morta. - Eu sei.
Ela morreu dois anos atr�s.
O seu av� me falou dela.
Papai est� dedicado � m�sica.
O celo, verdade?
Est� escrevendo sobre Paix�o Segundo S�o Jo�o.
Voc� n�o toca celo tamb�m?
Eu espero ir para o conservat�rio.
O seu pai � o professor e voc�, a estudante.
Sim.
O que foi?
Voc� conhece Sonata for Cello, Opus 25, de Paul Hindemith?
Eu n�o conhe�o nada de m�sica.
Papai quer que eu fa�a o teste com ela.
- � muito dif�cil! - Mas ele acha que n�o?
Como voc� ficava antes de menstruar?
Um monstro pr�-menstrual.
Eu ia dormir como um anjo na noite anterior...
e acordava como um dem�nio.
O meu c�rebro vira uma pasta e tenho dificuldade de acordar.
Papai � uma pessoa matinal.
E essa manh� voc� teve uma li��o?
Eu fiquei de camisola, em protesto.
E bocejei um pouco.
Est�vamos trabalhando no quarto movimento.
Aquele maldito Hindemith escreveu:
''Lebhafte Viertel ohne jeden Ausdruck und stets Pianissimo.''
- Voc� conhece? - Parece dif�cil.
Sentei-me com o meu c�rebro em pasta...
tentando ser ''lebhaft ohne Ausdruck''.
Implorei para que ele me liberasse, mas ele estava imposs�vel.
Ele me fez tocar as mesmas m�tricas pelo menos 20 vezes.
Finalmente eu disse, calmamente: ''N�o dou a m�nima para isso.''
Eu disse que isso n�o era uma li��o, era uma tortura animal.
Henrik tamb�m estava bravo...
mas riu e disse que dev�amos tentar o come�o...
onde diz:
''Lebhaft, sehr markiert mit festen Bogenstrichen.''
Mas estava t�o irritada, que n�o pude. Ele disse que eu errei de prop�sito.
Eu disse que ele n�o sabia ensinar...
o que foi injusto de minha parte.
Papai � o professor mais paciente, sens�vel e dedicado que existe.
Ele disse que n�o dependia de como ele ensinava...
que dependia de vontade e disciplina...
e que eu era pregui�osa. Que eu era pregui�osa!
Ent�o eu me levantei e, cuidadosamente, pus o celo de lado...
porque eu estava tremendo.
Eu disse que havia terminado por hoje...
e ia fazer uma caminhada sozinha.
Ele ficou p�lido.
Nunca o vi assim.
E ele disse: ''Voc� n�o vai sair desta sala.''
Eu calcei minhas botas e me dirigi para a porta.
Eu n�o o ouvi vindo atr�s de mim...
mas ele agarrou os meus ombros.
Voc� n�o vai sair!
Voc� n�o vai sair!
E eu me sentei e chorei.
E disse:
''Nunca mais, nunca mais, nunca mais.''
E continuei chorando at� sentir que estava vazia.
Ent�o pensei:
''Irei at� a casa do vov� e pedirei a ele que me ajude...
a me afastar daquele lun�tico.''
Tive que aturar muita coisa.
Mas j� chega.
E agora aquele velho pode cuidar do seu filho louco...
e mand�-lo para o hosp�cio ou report�-lo � pol�cia ou mat�-lo.
Ent�o percebi que de agora em diante...
eu n�o sei nada.
N�o sei nada sobre a minha vida...
o que vou fazer ou ser.
Depois percebi...
que mam�e est� morta e se foi.
E n�o posso lhe fazer perguntas sobre mais nada.
Ent�o, tive um ataque de auto piedade e comecei a chorar outra vez.
Voc� deve achar que tenho um temperamento forte...
mas � exatamente o que n�o tenho.
Voc� acha que o Henrik � suicida?
Que mataria a si mesmo?
Em uma situa��o extrema...
como voc� descreveu, ele machucaria a si mesmo?
Sabe, para ser honesta...
n�o conhe�o muito bem o meu pai.
S� sei que, bem no fundo, ele �... Bem, ele � bom.
Caso contr�rio, mam�o nunca o teria...
Mam�e o amava, sabia.
Eles se amavam.
E eu acho...
que fui exclu�da daquele amor.
Ao menos eu acho, quando fico com pena de mim mesma...
ou aborrecida com meus namorados.
Por que n�o posso sentir um amor como o de mam�e?
Voc� temia que seu pai fosse se matar ap�s a morte dela?
N�o pensei muito na trag�dia dele.
Mas tentei cuidar de mam�e tanto quanto ela me deixava.
Mam�e nunca gostou de falar muito.
Mas em um dos seus �ltimos dias...
Ela estava normalmente sonolenta pela morfina.
Em um dos seus �ltimos dias, quando estava sentada com ela...
ela olhou para mim.
Ela disse claramente:
''Voc� sabe que eu a amo.
Voc� sabe que eu a amo, Karin.''
Minha m�e nunca usava esse tipo de linguagem.
Papai disse uma vez, gozando... Foi h� muito tempo:
''Anna nunca diz que ama voc�...
mas ela demonstra atos de amor constantemente.''
E se o vov� chegar em casa?
Tudo bem, eu tenho outra garrafa.
Voc� foi mesmo casada com o vov�?
� t�o estranho?
� dif�cil de imaginar.
Que tipo de pessoa ele �, mesmo?
� uma boa pergunta.
Voc� o amava?
Eu me perguntei isso minha vida inteira.
Foi t�o dif�cil assim?
Fomos casados durante 16 anos.
E ent�o nos divorciamos.
Ele havia encontrado outra mulher, uma idiota chamada Paula.
Casei-me com um piloto de planador chato.
Um dia, ele foi embora voando, em sil�ncio.
Nunca mais foi encontrado.
Por algum motivo, Johan e eu voltamos, por v�rios anos.
Ent�o eu descobri...
que ele estava prestando servi�os � outra mo�a, uma vadia de verdade.
Eu fiquei furiosa e magoada, e terminei com ele.
Percebi subitamente...
que eu era a esposa e a amante mais enganada e tra�da do mundo.
Johan era um enganador not�rio e compulsivo.
- Quer dizer que o meu av�... - Era um mentiroso e tanto.
E ele escrevia poemas.
Uma colet�nea foi publicada, mas n�o fez sucesso.
- O meu av� escreveu versos? - Sim, de fato.
At� poemas de amor para mim.
- Voc� os guardou? - N�o.
Mas voc� o amava?
Eu era t�o terrivelmente ing�nua.
Hoje em dia acho que n�o � poss�vel ser t�o infantil e t�o...
incrivelmente sabe-tudo, como eu era.
Eu acho que o amei.
Completamente e sem restri��es.
Voc� alguma vez suspeitou?
Nem por um segundo.
O que fez com que viesse para c� assim, subitamente?
Eu n�o sei ao certo.
Voc� ainda o ama...
n�o �?
Se tiver que ser completamente honesta.
Marianne...
Ou�o gente dizendo coisas como:
''O Johan � assim e o Johan assado.''
Na maioria, coisas indelicadas.
Mas eu n�o conhe�o o Johan de que falam.
Sempre achei que ele era bom.
Quase bom sem querer.
Era t�o f�cil feri-lo.
Ele nunca conseguia se defender.
Acho que o Johan...
� uma pessoa lament�vel.
Ele � lament�vel.
Voc� est� chorando?
Sim, um pouco.
Est� chorando pelo vov�?
Estou chorando por...
Johan e Marianne.
Eu entendo.
Isso � loucura.
Querida...
O que voc� vai fazer?
Voltar para o Henrik.
- Isso � s�bio? - N�o tem nada a ver com sabedoria.
Vou ficar aqui mais uns dias. Conte-me o que acontece.
Pode ter certeza disso.
TR�S
Sobre Anna
N�o pode nunca, nunca mais ser assim.
- Nunca. - Nunca.
Temos que ter uma conversa s�ria.
Ambos sabemos como tudo funciona.
Nada precisa ser resolvido.
Estou feliz que seja t�o simples assim.
Fiquei mortalmente assustado. N�o h� outra maneira de dizer.
Mortalmente assustado.
Voc� entende? Entende?
Estou muito cansada. Vou para a cama.
Voc� est� dormindo?
N�o, n�o estou.
Passei por uma situa��o semelhante com a Anna, uma vez.
Ainda n�o est�vamos casados, mas mor�vamos juntos.
Acho que eu estava um pouco b�bado.
Eu despejei um monte de bobagens sobre...
a porcaria da universidade...
meus colegas, as condi��es de trabalho...
e sobre o meu pai, claro, o velho bastardo.
A Anna n�o disse nada...
e aquilo me aborreceu ainda mais.
Eu me lembro de pensar:
''No que a Anna est� pensando...
ao remendar a sua saia, l� perto da lumin�ria?
No que ela est� pensando?
Bem, provavelmente que o Henrik � insuport�vel.''
E ent�o ela disse.
''Quando voc� fala assim, eu penso:
'Esse n�o � o homem com o qual planejo me casar'.''
E ent�o ela foi at� a entrada e pegou o seu casaco.
E eu enlouqueci de medo ou algo assim, enlouqueci.
Tentei impedi-la.
Ela n�o se moveu...
mas do seu corpo para o meu...
uma mensagem foi passada.
Dizia: ''Estou indo.
Estou deixando voc�.''
Ent�o eu disse, com uma voz que n�o reconheci:
''Ningu�m me deixa.
Ningu�m me deixa.
Ningu�m se vira...
e me deixa.''
E eu me sentei no ch�o e pensei:
''Ent�o, est� acabado agora.''
Fechei meus olhos e pensei:
''A Anna est� indo embora e n�o vai voltar.''
Mas ent�o eu ouvi barulhos na cozinha.
A Anna estava fazendo caf�.
Mas ela n�o disse nada.
Talvez ela quisesse me deixar s�brio.
Ela n�o disse mais nada pelo resto da noite...
s� ficou sentada, costurando.
A Anna era bem quieta de qualquer modo.
Ela nunca foi de falar muito.
Mas n�o precis�vamos falar. Sempre sab�amos...
Eu implorei por perd�o, como um garotinho � sua m�e:
''Nunca mais vou fazer isso.''
Era exatamente isso que eu queria dizer para voc�...
mas soa t�o rid�culo.
Qualquer um pode dizer: ''Sinto muito''. N�o significa nada.
Ent�o mais nada foi dito naquela noite.
Virou uma noite...
Uma noite de dist�ncia.
A Anna dormiu profundamente...
mas eu fiquei acordado, escutando-a respirar.
Olhei para ela. Havia uma luz de rua do lado de fora da janela.
Olhei para ela por muito tempo...
e imaginei se, bem no fundo...
ela sabia o quanto...
eu havia passado a gostar dela.
Com a Anna e eu, n�s pertenc�amos um ao outro...
se voc� consegue entender.
Pertenc�amos como...
um milagre.
Eu sei que parece exagerado.
Mas n�o h� palavra melhor.
Eu adormeci quando era quase manh�...
e quando o despertador soou, n�s nos levantamos, tomamos caf�...
e conversamos normalmente.
Eu fui a uma palestra e Anna foi � biblioteca.
Isso tudo � uma explica��o, n�o � uma desculpa.
N�o h� desculpa.
Se voc� me deixar...
eu ficarei vazio...
ou alguma palavra melhor que n�o existe.
Com tempo, voc� ter� a sua liberdade.
Ir� para o conservat�rio...
e ter� professores profissionais e uma vida diferente.
Ser� diferente para mim tamb�m.
Esses meses com voc� t�m sido...
um estado de gra�a.
Para mim, n�o para voc�.
Foi generoso de sua parte voltar t�o r�pido.
Eu n�o sei o que dizer.
Est� t�o enrolado.
N�o precisamos falar sobre isso.
�s vezes eu acho...
que uma puni��o incr�vel est� me aguardando.
QUATRO
Mais ou menos uma semana depois, Henrik visita seu pai
Estou interrompendo?
Ent�o, � voc�.
Faz tempo.
Como vai voc�?
Bem, obrigado.
Como vai voc�?
Aos 60, tem seis falhas...
aos 70, tem sete, e assim por diante.
� uma avalia��o bem justa.
� claro, depende das suas prioridades.
Ouvi dizer que sua ex-mulher apareceu.
T�pico da Marianne.
Ela sabia desde o princ�pio dos tempos que eu odeio improvisa��es.
Talvez eu a veja.
Ela est� colhendo frutas.
N�o sei se voc� ainda vai estar aqui quando ela voltar.
- N�o quero incomod�-lo. - Obrigado pela considera��o.
O que voc� quer?
Preciso de 890.000 coroas. Como um adiantamento da minha heran�a.
- Ent�o precisa de dinheiro outra vez. - Eu sei, lhe devo 200.000.
Que voc� nem come�ou a pagar.
Tenho certeza de que jamais verei esse dinheiro.
� interessante que chame aquilo de empr�stimo.
Se voc� acha interessante me humilhar, n�o vamos esquecer...
que eu n�o estou pagando aluguel pelo chal� no lago.
Estamos morando l� h� cinco meses...
e voc� n�o viu um centavo.
- Mas p�de comprar um carro novo. - � emprestado. O dono est� viajando.
Quando ele voltar, em outubro...
n�o terei mais carro.
Como vai o livro?
Bem, obrigado.
Que resposta detalhada.
Estou aqui h� 10 minutos, deixando voc� me humilhar.
Se eu n�o precisasse do dinheiro...
- teria ido embora h� muito tempo. - Pode ir agora.
N�o � para mim.
� para a Karin.
Isso mesmo.
Marianne contou que voc�s brigaram.
Est� tentando convenc�-la a ficar?
Acha que ela vai aceitar suborno?
Eu me pergunto como a Anna aguentou voc�.
N�o coloque a Anna no meio disso.
N�o leve o nome da Anna � sua boca velha e podre.
Eu gosto mais de voc�, ou desgosto menos, quando usa esse tom.
H� uma dose saud�vel de �dio no seu sentimentalismo geral.
� o seguinte:
H� um celo que posso comprar para a Karin, um Fagnola 1815.
� um instrumento excelente, quase como um Guarneri.
Karin tem um talento especial.
Ela pode se tornar uma �tima m�sica.
Estive encarregado da sua educa��o...
mas o seu talento exige mais.
� o mesmo com o seu celo.
Ela tem um celo alem�o aceit�vel.
Mas ela vai fazer o teste para o conservat�rio.
Tem certeza de que � bom?
N�o seria a primeira vez que seria trapaceado.
Tem um certificado de autenticidade e o vendedor � decente.
E � por isso que o est� vendendo t�o barato?
Est� velho e doente e n�o pode mais cuidar dele.
Ele disse que � perfeito para ela.
Que comovente.
Papai...
de onde vem toda essa hostilidade?
Fale por si mesmo.
Quando voc� tinha 18 ou 19 anos, eu tentei me aproximar de voc�.
Voc� havia estado muito doente...
e a sua m�e queria que convers�ssemos.
Eu disse que sabia que havia sido um pai ruim...
mas eu queria ser melhor.
E voc� gritou...
Sim, gritou:
''Mau pai?
Voc� nunca foi sequer um pai!''
E ent�o voc� disse que podia viver sem os meus esfor�os for�ados.
�dio honesto deve ser respeitado...
e eu respeito.
Mas eu n�o dou a m�nima se voc� me odiar.
Voc� mal existe.
Se voc� n�o tivesse a Karin...
que, gra�as a Deus, puxou � m�e...
voc� n�o existiria para mim.
N�o h� hostilidade aqui, eu garanto.
D�-me o nome e o n�mero dessa pessoa do celo...
e eu darei uma olhada.
Aqui est�.
Obrigado.
Qual � a sua resposta?
Avisarei voc�. Em tempo.
Estou dispensado agora?
Estou indo.
- Posso dizer s� uma coisa? - Se voc� realmente precisar.
A hist�ria sobre uma troca de palavras 50 anos atr�s n�o � desculpa.
Nem uma mentira.
- Ent�o � o que voc� acha. - Sim, isso mesmo.
Pobre Anna.
Vai bater em mim agora?
CINCO
Espero n�o estar interrompendo.
N�o, eu acabo de terminar.
Eu pratico pela manh�.
A organista vai ter um beb�, ent�o a estou substituindo.
- Achei que um fosse violoncelista. - Tenho um diploma em �rg�o.
Na minha �poca, era bom ter um diploma em �rg�o.
Muitas igrejas, poucas orquestras.
O que voc� estava tocando?
Uma tri sonata de Bach, primeiro movimento.
- Estava lindo. - Esse � um �rg�o sem igual...
de 1728.
Ningu�m sabe como veio parar aqui, no meio do mato.
Umas semanas atr�s, Karin e eu fizemos um concerto aqui.
Estava quase lotado.
- Voc� vai fazer mais concertos? - N�o h� tempo.
Karin tem que praticar para o teste e eu tenho que terminar o meu livro.
Sim, estou escrevendo um livro.
Paix�o Segundo S�o Jo�o, de Bach.
Conheci a Karin. Ouvi falar que � talentosa.
Ela � considerada excepcional, e n�o s� pelo seu pai.
- Voc� � seu professor? - Acabou assim.
No conservat�rio, ela ter� os melhores professores europeus.
N�o ser� dif�cil deix�-la ir?
Sim.
Pode dizer que sim.
- Voc� � muito ligado � Karin? - Sim.
- Sinto muito. - N�o, tudo bem.
Karin � como Anna.
Ela n�o se parece com ela.
Qual � o problema?
Quando falo da Anna, eu choro.
� o que acontece.
N�o posso evitar.
A Anna se foi h� mais de dois anos...
e ainda d�i muito.
� assim.
A vida tornou-se um ritual.
Eu n�o sei, n�o existem palavras para descrever.
Eu fiquei deficiente.
Bem simples. Inv�lido.
A Karin � o que d� sentido � minha vida.
E... Bem...
N�o haveria muito sentido sem ela.
Penso muito na morte, hoje em dia.
Penso...
Um dia estarei caminhando pela trilha na floresta, at� o rio.
� um dia de outono, nevoento, sem vento.
Sil�ncio absoluto.
Ent�o eu vejo algu�m...
no port�o.
Aproximando-se de mim.
Ela veste uma saia azul jeans...
um casaco azul.
Est� descal�a e seu cabelo est� preso em uma tran�a longa e grossa.
E ela caminha em minha dire��o.
Anna caminha em minha dire��o...
no port�o.
E ent�o, percebo que estou morto.
E ent�o, a coisa mais estranha acontece.
Eu penso: ''� t�o f�cil assim?''
Passamos nossa vida inteira ponderando sobre a morte...
e o que vem depois.
E � t�o f�cil assim.
Na m�sica, consigo uma fagulha.
S� uma fagulha. Como em Bach.
Eu acho que entendo.
Venha � nossa casa para o jantar.
- Somos bons cozinheiros. - Obrigada, eu gostaria.
Tenho que ir agora. Temos uma li��o.
Karin fica irritada se me atraso.
Veremos voc� em breve.
Espere, n�o acho que posso ir.
- Entendo. O velho ficaria chateado. - N�o.
Por que, realmente, veio aqui?
N�o sei.
- Voc� � advogada, n�o �? - Sim, por qu�?
Pode me dizer se posso process�-lo?
Por que quer fazer isso?
Ele tem uma fortuna e n�o morre.
Est� provavelmente mumificado pela sua pr�pria sordidez.
Eu pedi um adiantamento da minha heran�a...
mas ele me humilhou.
- Adoraria process�-lo. - N�o se ele estiver com a mente s�.
Ele n�o � insano dessa maneira.
N�o, ele n�o � particularmente insano.
Voc� veio aqui para sugar um pouco de dinheiro?
Para uma velha esposa abandonada?
N�o fique irritada.
Claro que eu me pergunto. Voc� ficou fora de contato por d�cadas.
N�o estou aqui para tirar o dinheiro dele.
Est� transando com ele?
Voc� o odeia tanto para usar esse tom?
Perdoe-me por profanar esse lugar...
e estragar a nossa conversa agrad�vel.
Eu o odeio em cada dimens�o da palavra.
Odeio-o tanto que assistiria contente � sua morte...
por alguma doen�a horr�vel.
Eu o visitaria diariamente...
e assistiria ao seu tormento at� o �ltimo suspiro.
Ele � uma alma deplor�vel, teoricamente.
Vejo surpresa e avers�o em seus olhos.
Como advogada, devia estar acostumada...
com o car�ter repulsivo e idiota do mundo.
Adeus, Marianne. Voc� foi gentil em escutar.
�s vezes eu acho que n�o sou muito s�o.
Sinto tanta dor, o tempo todo.
SEIS
UMA OFERTA
- Karin. - Ol�, vov�.
Bem, este � o meu escrit�rio.
N�o venho aqui h� anos.
Anna e voc� vinham aqui �s vezes...
quando estavam no chal�.
- Voc� costumava fumar charutos. - Ah?
Sim, voc� est� certa.
Eu larguei depois de ler uma biografia de Freud.
Ele sofreu 33 opera��es por c�ncer na boca.
E ainda assim, n�o p�de largar os charutos.
Mas voc� est� bem?
A menos que voc� veja a idade como uma doen�a.
Esta � uma bela foto da mam�e.
Eu a vi em algum lugar.
Mandei ampliar...
e aqui est�.
Penso em mam�e todos os dias.
E sonho com ela � noite.
Achei que a tristeza fosse desaparecer.
Mas n�o.
Mas n�o d�i como do�a no come�o.
Agora est� aqui.
Como parte de mim.
Eu n�o quero ficar sem.
Posso dizer-lhe que sinto sua falta...
dolorosamente.
N�o nos v�amos com frequ�ncia...
por causa da situa��o entre Henrik e eu.
A Anna tentou e tentou.
Mas o Henrik e eu jamais pudemos...
Bem, voc� sabe.
Voc� queria falar comigo?
Sim, sente-se.
Ontem � noite, a Srta. Nilsson apareceu pessoalmente...
com uma carta para mim.
- O papai n�o devia... - Absolutamente certo.
Ele est� em Uppsala com sua orquestra.
Tenho uma carta aqui...
que chegou uns dias atr�s, e diz respeito a voc�.
Ouviu falar em Ivan Chablov?
Maestro chefe em S�o Petersburgo.
Ele esteve em turn� aqui, recentemente.
Com a Filarm�nica. Fant�stico!
Eu o conhe�o da �poca que passei em Leningrado.
A carta � dele.
''Johan, meu caro amigo e irm�o.
Perdoe-me por escrever a voc�...
no meu ingl�s imprest�vel e alem�o ruim.
Mas a minha fabulosa secret�ria...
acaba de dar � luz a g�meos.
Mas acho importante escrever para voc�...
meu caro amigo.
E a raz�o � a raz�o seguinte.
Em uma noite livre, visitei um concerto para m�sicos bem jovens.
Devo dizer que fiquei surpreso e feliz.
Uma mo�a bem jovem tocou celo l�.
Ela tocou um solo de Zolt�n Kod�ly.
E fiquei surpreso com o talento incomum daquela jovem.
Sua maturidade, sua habilidade...
e coragem.''
E essa agora.
''O respons�vel pela escola me disse seu nome e que seu pai...
era seu professor principal.
Entrei em contato com o pai. Ele me rejeitou, de forma pouco educada...
ou melhor, com arrog�ncia.
Eu sabia que voc�, meu caro Johan...
era o av� dessa garota...
e essa � a raz�o pela qual escrevo a voc� agora.
A t�cnica da jovem � bastante arriscada...
parcialmente deficiente...
e pode, em um futuro pr�ximo, chegar a consequ�ncias catastr�ficas.
Eu sou, como pode n�o saber...
professor convidado na Academia Sibelius, em Helsinki...
uma das melhores escolas da Europa.
Tenho �timo contato com o presidente e com os professores.
E podemos, ap�s o teste obrigat�rio...
dar a essa jovem e talentosa violoncelista...
li��es de grande qualidade...
que a sua neta muito talentosa merece.
Por favor, d�-me sua resposta assim que poss�vel.
Um abra�o.''
Bem, Karin, o que voc� acha?
Talvez eu deva acrescentar...
que eu, � claro, tomarei conta de suas despesas enquanto voc� precisar.
Falei com a pessoa com o celo e lhe fiz uma boa oferta...
melhor do que ele havia pedido.
Ent�o se quiser, est� ao seu alcance.
Presumindo, � claro...
que voc� aceitar� a generosa oferta de Chablov.
Eu n�o sei o que dizer.
Estou sem palavras.
Eu entendo que essa carta a coloca em uma situa��o complicada.
- Escreverei para ele e direi que est�... - Sem palavras.
Mas que a sua decis�o afetar� outros.
- Outros? - Bem...
seu pai, para ser exato.
Preciso descansar. Adeus, Karin.
Obrigada pela conversa.
Marianne costumava dizer que eu era um p�ssimo juiz de car�ter.
Que eu n�o compreendia emo��es.
Ela disse isso?
Mas at� eu entendo isso...
que a sua m�e viveu nesta terra para torn�-la menos insuport�vel.
A escurid�o ficou mais escura e a luz mais fraca quando a Anna morreu.
� dif�cil para o Henrik. Viver.
Independentemente. Voc� � como a sua m�e.
E estou ligado a voc�, Carrie.
Tchau, Karin.
Tchau, vov�.
SETE
A CARTA DE ANNA
Para Henrik, de Anna?
Encontrei esta carta em um livro.
Dia 18 de maio.
Anna...
Ela a escreveu uma semana antes de morrer.
Eu gostaria que voc� a lesse.
N�o consigo entender a letra da Anna.
Voc� ter� que ler.
Vou tentar.
Aqui, tome um pouco do meu u�sque.
Mam�e havia descoberto uns dias antes que n�o viveria muito mais.
Ela escreveu uma carta, pois o Henrik ficou gripado e n�o p�de visit�-la.
Diz:
''Voc� n�o poder me visitar deve ser um al�vio para n�s dois.
Entendemos um ao outro muito bem.
Voc� abre a porta.
Eu fa�o um esfor�o. Voc� faz um esfor�o.
Mas ainda posso ver no seu rosto como estou doente.''
Esta � a parte dif�cil.
Ela escreve sobre o papai e eu.
E isso � doloroso?
Sim, �.
Quando voc� estava com ela no hospital...
falaram sobre o que ela escreveu?
N�o, nunca.
O que ela escreveu?
''Car�ssimo Henrik...
tenho que lhe dizer algo sobre o qual nunca conversamos.
Eu queria falar com voc� sobre a Karin...
mas nunca foi necess�rio.
Eu sempre estive por perto.
Quando fiquei doente, j� n�o estava mais por perto.
� claro que estava...
mas fui posta de lado.
Voc� e eu nos am�vamos.
Eu estava segura com nosso amor. Voc� entende.
Mas nenhum amor � t�o forte...
que possa aguentar algo t�o devastador quanto a minha doen�a.
Eu vejo que voc� ama a Karin...
mas tamb�m que a est� amarrando a voc�.
� bom que tenha sido seu professor...
mas h� um limite.
Quando eu me for, esse limite ficar� obscuro.
Eu sei que a Karin ama voc�...
mas voc� n�o deve usar o amor dela.
Voc� vai mago�-la.
Pode ser uma ferida permanente.
� por isso que pe�o que a liberte.
N�o deve tirar vantagem das suas afinidades.
N�o tire vantagem dela...
atrav�s do seu autodenominado papel como professor.
Car�ssimo Henrik.
Voc� � t�o sens�vel...
t�o atencioso, t�o am�vel.
Eu sei disso sem d�vida, ap�s todos os nossos anos juntos.
Mas voc� deve ficar alerta para o perigo de cercar a Karin com o amor...
que ficar� sem abrigo, quando eu me for.''
H� mais...
mas eu n�o quero mais ler.
N�o consigo.
D�i demais!
Consigo ouvir a voz da minha m�e!
Karin...
Por que voc� veio falar comigo?
Voc� est� bastante envolvida.
Sim, pode-se dizer que sim.
E voc� sabe dos planos do vov�.
Ele me contou.
N�o espero que voc� me d� bons conselhos...
mas preciso pensar alto.
Digo a mim mesma que as coisas ficar�o mais claras assim.
V� em frente e fale.
A mam�e viu.
Sim.
Acho que sim.
E tudo para que ela alertou aconteceu.
N�o posso aceitar a oferta do vov�.
- N�o pode? - N�o, n�o posso.
Mas por que n�o?
Se eu abandonar o Henrik, ele vai morrer!
Se eu o deixar, ele vai morrer, tenho certeza disso.
Marianne.
Ele nem tem mais a sua orquestra.
Ele pode ficar como m�sico...
mas o condado est� se reorganizando...
e o papai n�o vai mais fazer parte da administra��o...
ent�o ele vai largar.
N�o posso deix�-lo.
�s vezes fico t�o cansada dele!
Sei de toda a hist�ria sobre o meu futuro.
Mas mam�e est� morta agora...
e o Henrik n�o consegue lidar com a sua vida.
Como acha que vou poder viver com a culpa...
se algo acontecer com o papai?
O meu futuro e o do Henrik est�o entrela�ados, por enquanto.
Ao menos voc� diz ''por enquanto''.
S� para me consolar, s� isso.
Quero que saiba que eu n�o concordo.
N�o, tenho certeza.
O amor da Anna.
Esta carta � o que � o amor.
N�o �?
Eu n�o sei.
OITO
SARABANDA
J� est� de volta?
N�o havia muito o que fazer em Uppsala.
- Ol�, papai. - Ol�, pequena Carrie.
O que � essa partitura?
Cello Suites, de Bach.
Est� louco.
Apenas ou�a.
Anderberg sugeriu que voc� e eu d�ssemos um concerto...
em novembro.
- Isso � dif�cil demais para mim. - Tocaremos juntos.
Como assim, juntos?
Como um di�logo, um de frente para o outro.
Voc� toca as partes que puder e eu toco as dif�ceis.
Especialmente o prel�dio. Ser� fant�stico!
Que partes eu posso tocar? � loucura.
As sarabandas, por exemplo.
Leva-se uma vida inteira para domin�-las.
Temos tr�s meses.
E o meu teste?
Est� quase pronta.
E estudantes s�o liberados para tocar em concertos.
Eu falei com o B�rtz.
Ser� bom para n�s dois...
agora que n�o estou ocupado com a orquestra.
Nem serei mais o primeiro violoncelista de concerto.
- Papai. Voc� deve estar furioso. - Talvez.
Mas agora terei mais tempo para voc�.
Posso ajud�-la mais.
Certo. Claro.
Isso n�o soou particularmente encorajador.
Ei, pequena doce Carrie.
Sinto que algum tipo de discuss�o est� por vir.
- O que �, Carrie? - Eu n�o sei.
Quero dizer, eu acho que sei, mas n�o sei como...
Eu sei que falou com o seu av�.
- Sim. - N�o falou?
- Sim, eu falei com o vov�. - E com a cadela.
- Quero dizer, Marianne? - Sim.
Entendo.
Foi tudo armado.
Eu tenho que me decidir.
- Achei que j� havia decidido. - N�o, voc� decidiu.
� verdade?
Quero dizer, � isso que tem pensado?
Papai, n�o me preocupei em pensar.
Achei que o papai soubesse o que era melhor para mim.
Talvez voc� j� tenha tomado alguma decis�o.
Tomou?
Vai aceitar a oferta do seu av�?
- Voc� leu isso? - Li.
- Leu a carta da sua m�e para mim? - � sobre mim.
Mas era para mim. E voc� leu. Como se n�o fosse nada.
E acha que n�o h� problema porque � sobre voc�?
Se voc� vai agir assim, n�o adianta conversar.
Desculpe, desculpe.
- Eu pedi desculpas, droga! - Desculpas pelo qu�?
Vamos ensaiar ou havia mais alguma coisa?
Papai...
vai ser doloroso.
Para voc� ou para mim?
Pode parecer est�pido, mas o seu tom me assusta.
Eu me decidi.
Pela primeira vez na minha vida, � a minha pr�pria decis�o.
Mas voc� est� triste?
Sim, estou triste.
Se voc� tivesse me dito que tinha aquela carta da mam�e...
Se tivesse me deixado ler a carta...
poder�amos ter...
Voc� nunca me contou...
Devia ter dito...
- Bem, agora � assim. - O que � assim?
Vou para Hamburgo com a Emma, na semana que vem.
Ela e eu vamos para uma escola para jovens m�sicos de orquestra.
Em outubro, Claudio Abbado vir�...
e iremos para Munique.
� para jovens m�sicos de toda a Europa.
N�o pode ter mais de 22 anos.
Abbado vai trabalhar conosco por seis semanas...
e faremos quatro concertos.
A Emma gravou um v�deo.
Ela mandou para o comit� de admiss�o, s� por divers�o.
Est�vamos tocando Brahms.
Emma e eu recebemos uma carta dizendo que fomos aceitas...
nessa escola.
Que somos bem-vindas.
E isso...
Isso � exatamente o que eu quero fazer.
� exatamente o que eu decidi fazer.
E o conservat�rio?
Quanto tempo leva o curso de Hamburgo?
Dois anos.
E depois haver� um est�gio pago em uma orquestra alem� ou austr�aca.
Tr�s anos.
Como planeja pagar por isso?
Tenho a minha heran�a.
- Tem pensado muito nisso. - Eu disse � Emma que era in�til.
Que voc� j� havia tomado a decis�o.
Deus.
Eu...
Meu Deus.
Mas papai...
Eu n�o quero. N�o acredito em mim mesma como solista.
Quero tocar em uma orquestra.
Ser parte de um esfor�o comum.
N�o quero sentar em um palco, sozinha e exposta.
N�o quero que outras pessoas me digam que n�o sou boa o suficiente.
Quero decidir o meu pr�prio futuro.
Quero viver uma vida simples.
Quero estar...
em casa.
Quero viver uma vida simples.
N�o como uma pobre substituta da mam�e...
sob sua aprova��o pelo que n�o sou.
Isso tem que parar.
E agora acabou.
Ao menos, d� a isso o final perfeito.
O que quer dizer?
Voc� n�o gostaria de tocar a quinta sarabanda?
A que voc� sabe.
- Agora? - Sim, por favor.
NOVE
MOMENTO CRUCIAL
Sim, ele est� aqui. Obrigada.
- Posso perguntar quem era? - Era do hospital.
Henrik tentou cometer suic�dio. Com p�lulas.
Depois cortou os bra�os e a garganta com uma gilete.
Ele est� na UTI.
Ligue para este n�mero...
e chame a enfermeira Ingegerd.
Droga.
Ele foi encontrado na �ltima hora.
Uma tal de Sra. Berg estava passando pelo chal�...
e viu uma pessoa nua no ch�o.
Droga.
A porta estava destrancada.
Ela tentou despert�-lo, mas ele estava inconsciente.
E sangrando.
- A ambul�ncia demorou 20 minutos. - Que droga.
Eu devia ligar para a Karin...
mas ela est� a caminho de Hamburgo.
O Henrik consistentemente falha em tudo.
N�o consegue nem se matar.
Diga algo, droga.
- Voc� quer uma resposta para isso? - Qualquer coisa.
Diga o que se passa na sua cabe�a, ao menos uma vez.
N�o consegue.
�s vezes age como um personagem esquecido de um filme antigo ruim.
- Voc� n�o � real. - N�o me diga.
Agora mesmo... N�o, vamos parar.
N�o, voc� est� pegando o embalo.
De onde voc� tirou todo esse desprezo?
N�o me lembro de voc� ser assim.
- Desprezo? - Sim!
N�o sei.
Se eu desprezo algu�m, � a mim mesmo.
Eu n�o sei. Nunca pensei dessa maneira.
E aquele pobre garoto.
Garoto?
Ah, Henrik.
Ele deve ter percebido que era muito parecido comigo.
Eu nunca gostei dele. Era t�o rid�culo.
Obeso e submisso.
Ele me cercou com um tipo de amor grudento.
Eu admito que ignorei aquele amor.
Ele era t�o devoto quanto um c�o. Eu queria chut�-lo.
Simbolicamente, � claro!
- O que vai acontecer agora? - O que isso vai fazer com a Karin?
Ela vai se culpar.
Ele devia ter pensado nisso.
Voc� acha que ela vai voltar para casa?
N�o sei.
Voc� vai falar com ela, n�o vai?
- Se a encontrarmos. - Contratarei voc� como minha agente.
Quanto voc� cobra? Dinheiro n�o � problema.
Contanto que voc� tranque a culpa dela em um cofre.
E se ela voltar para casa?
Ela � t�o apegada �quele bastardo miser�vel.
Seria uma cat�strofe.
Sim, acho que sim.
O que posso dizer?
Eu era t�o apegado � Anna.
Foi pavoroso quando ela foi tirada de n�s.
Para mim tamb�m.
Mesmo que eu tenha estado s� � margem da trag�dia.
� incompreens�vel...
que o Henrik tenha recebido o privil�gio de amar a Anna.
E que ela o tenha amado.
Voc� est� sorrindo aquele sorriso ir�nico.
N�o.
N�o estou sorrindo nem um pouco.
Estou tentando n�o chorar.
- Voc� n�o tem motivo para chorar. - Tenho...
mas n�o vou explicar.
DEZ
A HORA ANTES DO AMANHECER
Marianne.
Marianne! Desculpe acord�-la.
Tudo bem. Eu volto a dormir.
Qual � o problema? Johan?
Eu n�o sei.
Acho que � um tipo de ansiedade.
Ansiedade? Como assim?
Agora entendo.
- Voc� est� triste. - N�o estou triste, eu...
� pior. � uma ansiedade infernal.
� maior do que eu.
Est� tentando sair de mim atrav�s de todos os orif�cios: meus olhos...
meu �nus.
� como uma diarreia mental gigante.
Sou pequeno demais para a minha ansiedade.
Tem medo da morte, Johan?
Acima de tudo, eu s� gostaria de gritar.
O que voc� faz com um beb� chor�o que n�o aceita o seu conforto?
- Venha deitar-se comigo. - N�o h� espa�o.
- Dormimos em camas mais estreitas. - N�o vamos conseguir dormir.
Como se fizesse alguma diferen�a...
nos �ltimos dias.
Tenho que tirar minha camiseta. Est� molhada da minha indisposi��o.
V� em frente.
- Voc� tamb�m tem que tirar a sua. - Tenho?
Est� bem.
Agora venha, Johan. Venha c�.
Pronto. Deite-se.
- Boa noite, Marianne. - Boa noite.
Pode finalmente explicar por que voc� subitamente apareceu aqui?
- Achei que estivesse me chamando. - Nunca chamei ningu�m.
- Entrou na minha cabe�a. - Que estranho.
Eu entendo que voc� n�o entenda.
Quanto tempo voc� vai ficar?
- Tenho um caso no dia 27. - De novembro?
Outubro.
- Boa noite, outra vez. - Boa noite.
EP�LOGO
Talvez esteja se perguntando como acabou?
Fiquei com o Johan at� o come�o de outubro.
Nosso tempo juntos foi agradavelmente relaxante.
Falamos pouco...
de assuntos mais sens�veis.
Na �ltima noite, comemoramos.
Nada extravagante, mas o suficiente.
Prometemos manter contato.
At� sonhamos com uma viagem a Floren�a, na primavera seguinte.
A viagem n�o aconteceu, � claro.
Mas falamos ao telefone aos domingos.
Ent�o, um dia, a Srta. Nilsson atendeu.
Ela disse que o Johan n�o podia atender telefonemas...
mas que ele escreveria.
Eu perguntei se ele estava bem...
e ela disse que sim, pelo que parecia...
mas que ele estava um pouco cansado e que escreveria.
Claro que nunca recebi uma carta.
Eu escrevi, mas n�o recebi resposta.
Um sil�ncio recaiu-se.
As coisas sempre ficam comigo. Em ordem.
Tudo no seu lugar.
Talvez eu seja um pouco solit�ria, n�o sei.
�s vezes penso na Anna.
Eu me pergunto como ela lidou com sua vida.
Como falava...
como se movia...
Seu olhar...
o sorriso quase invis�vel.
Os sentimentos de Anna.
O amor de Anna.
Bem...
Aconteceu algo comigo...
que pode estar relacionado com isso.
Quando eu voltei...
visitei minha filha Martha no hosp�cio.
Mas pensei no fato enigm�tico...
de que, pela primeira vez...
em nossa vida juntas...
eu percebi... Senti...
que estava tocando na minha filha.
Minha crian�a.
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