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UMA SÉRIE NETFLIX
BASEADA NUMA HISTÓRIA VERÍDICA
O pai já chegou.
Olá, pai. Vou para o barco.
Veste o colete salva-vidas antes de entrares.
- Está bem. - Olá.
Trouxe comida, caso tenham fome.
Outra vez à Urgência?
Sim. Ela estava com dores de barriga.
Desta vez descobriram algo?
Não. Estava de serviço uma estagiária inexperiente e...
Para a semana, levo-a a um pediatra.
Certo.
Porque dizes isso?
Na última vez que foram s Urgência, ela disse que não tinha tido dores.
Certo.
Bem, ela disse-me que tinha.
Há sempre alguma coisa, Christina.
Fica feliz por a mãe ser enfermeira. Vai ao médico mais depressa.
Eu ficaria feliz se a mãe dela fosse outra pessoa e não tu.
- Olá. - Bom turno.
Obrigada. Igualmente.
Bom dia.
A ENFERMEIRA
Está bem, isso foi muito depois. Seja como for... olha quem fala.
A Diana meteu-se com o residente do M130.
O de 22 anos! Ou tinha 19?
- O Max. - Não foi bom.
- Mas onde estava a Pia? - Passei a noite a dançar limbo.
- Sozinha, Pia? - Doem-me as costas.
Devia ter-me ido embora quando começaram a servir Jägerbombs.
- Foste-te embora. - Com o maqueiro.
- Arne? - Thorbjørn.
- Thorbjørn? - É o nome dele, certo? Thorbjørn.
Katja?
Katja.
- Temos de agir. - Como assim?
Temos de fazer alguma coisa.
Temos de falar com a direção...
Eu odeio envolver-me em mexericos e rumores...
No último ano e meio, ela tem o nome em 22 mortes.
São muitas. Talvez o diazepam...
Ouve. Eu sei que ela é uma exagerada. Não tenho dúvidas.
Katja, ela anda a matar doentes.
É uma acusação muito grave, Pernille.
Eu sei. Se a direção não nos ouvir, temos de ir à Polícia.
Passa-se algo muito estranho.
Ninguém vai acreditar em ti.
Toda a gente conhece a Christina e, em Falster, todos a adoram.
Não tens noção de como isso parece uma loucura?
Tu também andas desconfiada.
Ninguém vai acreditar em ti.
Estamos aqui por causa do John Dalgaard.
Eu lembro-me do John. Estava cá por causa da bexiga?
- Sim. - Sim.
Foi reportada uma morte inesperada.
Os sinais vitais dele estavam bons, mas entrou em paragem cardíaca e morreu.
- O médico não determinou a causa. - Ele já devia ter problemas cardíacos.
Podemos ver o quarto?
Claro. Ele já não está lá e o quarto foi limpo, mas podem ir.
Nesse caso, não vale a pena.
A família dele veio e tivemos de o preparar.
Claro. Viram algo invulgar? Algo que não estivesse como devia estar?
Não. Mas foi a Pernille quem tratou dele.
Reparaste em alguma coisa invulgar?
Bem...
Muitos doentes têm várias enfermidades. Pode ser difícil determinar a causa.
- Está bem. Fiquemos por aqui. - Certo.
- Ótimo. Adeus. - Adeus.
- Vemo-nos no sarau de ginástica? - Não tenho alternativa.
- Na secção dos pais. - Sim. Diz olá à Nanna.
- Olá lá para casa. Adeus. - Adeus.
Perguntas sobre o John Dalgaard?
É normal quando há uma morte inesperada. Mas nunca demoram.
Vou fazer café.
"O que mais tinha ele de fazer?
Certo, ele tinha de surpreender o pai. Depois, o pai..."
Mãe, não estás a ler o que está aí escrito.
Tens saudades da nossa antiga casa?
Não, nem por isso. Gosto mais desta.
E dos teus antigos amigos? Não tens saudades?
Tirando a Sally, não. Tenho quatro novos amigos.
A Dicte, a Iben, a Vera e a Hanna.
Isso é ótimo.
O pai disse que, agora que vivemos cá, talvez eu possa ter o meu próprio cavalo.
Ele disse isso?
- Boa noite, querida. - Boa noite, mãe.
- Queres as luzes das fadas acesas? - Não é preciso.
Olá.
- Olá. - Bom dia. Olá, Alberte.
- Olá, pai. - Café?
Sim, bebo.
- A pequena está pronta? - Quase.
Fantástico.
A Alberte disse-me que lhe queres comprar um cavalo.
Sim. Não seria divertido?
É uma coisa séria, Morten. São muitas responsabilidades.
Nós desenrascamo-nos.
Como vai o trabalho?
Bem...
Começo a duvidar que este trabalho seja para mim.
Como assim?
Estão a acontecer coisas que eu acho um pouco estranhas.
Mas ninguém faz perguntas e estão todos felizes e...
Não sei se me sinto à vontade lá.
Desistes por as coisas não serem como queres?
Não é só serem como quero. É muito mais grave do que isso.
As pessoas têm paragens cardíacas e morrem facilmente no nosso SU.
Pernille, é um hospital.
Não é aí que morrem algumas pessoas?
Mas são muitas e ninguém parece reparar nisso.
Está bem.
Mas não é estranho que sejas a única, no teu primeiro emprego, a reparar?
Não posso ignorar isto.
Talvez precises de te habituar à realidade.
Eu sou enfermeira. Se os doentes não são bem tratados, tenho de agir.
O John morreu...
Certo. Faz o que fazes sempre. Diz que estão todos errados menos tu.
Por estas bandas, não há muitas vagas para enfermeiros.
A Alberte gosta que pareçamos uma família e que moremos perto.
Sim.
Eu sei.
HOSPITAL NYKØBING F.
Heart fibrillation...
Como se diz em dinamarquês?
Fibrilhação cardíaca.
Sim, é isso.
A SUA SESSÃO VAI EXPIRAR SAIR - PERMANECER LIGADA
NÚMERO - NOME - DIAGNÓSTICO
- Não me esqueci. - Agradeço.
De nada.
- Desirée. - Sim?
- Viste a Pernille? - Talvez esteja no quarto 36.
Olá, Pernille.
- Olá. - Estás melhor agora?
Estás feliz com os turnos de dia?
- Sim, está tudo ótimo. - Ainda bem.
... quente e um pouco húmido, por isso...
É incrível como são rápidos. É fantástico, não é?
- É muito traumatizante. - Sim. É uma loucura.
NOME DO DOENTE: JOHN DALGAARD
Pode ser a tua única receita, mas é deliciosa.
Depois quero mostrar-te uma coisa.
- Também tenho algo para te mostrar. - Cala-te.
Ouve.
- Vamos contar às pessoas. - O quê?
Podemos publicar no SnapChat, no Facebook ou no MySpace.
Publicamos no LinkedIn.
- Nem sempre me lembro da tua idade. - Eu sou um hipster.
Mas depois falas e eu lembro-me imediatamente.
Há outros casais no hospital.
- Mas, Niels... - É cedo?
Sim... Não.
Já não tenho 22 anos. Não gosto deste secretismo.
Eu só quero...
... ser o teu namorado.
- Que horas são? - São quase oito.
Acho que vou demorar... mais meia hora.
Niels?
Eu acho...
... que a Christina, que trabalha comigo, faz coisas...
Acho que a Christina mata doentes.
Meu Deus...
Não... Eu estou a falar a sério.
Como assim?
O John ficou internado devido a retenção urinária.
- De repente, o coração dele parou. - O John?
Quando passámos o turno, os três doentes estavam estáveis.
E morreram os três com paragens cardíacas.
Para. Respira. O que queres dizer com isso?
Acho que ela os envenenou.
- Estás a falar a sério? - Acho que ela lhes deu alguma coisa.
E acho que não foi a primeira vez.
Tens noção do que estás a dizer?
Onde arranjaste isto?
Ele era teu doente. Ambos falámos com ele.
O John e a mulher, Ella. Tinham tido outra neta.
Eu lembro-me. E depois?
Ele tinha retenção urinária. Como se morre por causa disso?
Pode ter tido uma arritmia súbita.
Continua a ser estranho ter sofrido isso no hospital, enquanto é tratado...
E estás a dizer isto porquê?
A Christina é uma das melhores enfermeiras do hospital, se não a melhor.
Ela salvou muitos doentes que teriam morrido.
Ela assinou 22 mortes no último ano e meio.
Isto é muito estranho. Desculpa.
Explica-me porque iria ela matar doentes.
- É de loucos. - Eu também não compreendo...
E isso seria possível sem ninguém reparar?
Chamam-lhes "turnos da Christina".
Turnos muito dramáticos. As pessoas brincam com isso.
- Mas ninguém faz nada. - Pernille, para! Isso é um disparate.
Não é um disparate. Está a acontecer. E vocês não veem o que se passa.
Obrigado.
Pernille...
A Christina trabalha no SU há quase três anos.
Sou o médico responsável que mais trabalhou com ela.
Se alguém deveria ter reparado em algo, essa pessoa seria eu.
Não achas que eu iria reparar se uma psicopata andasse à solta?
Diz-me tu.
Meu Deus...
Meu Deus... Isto é de loucos.
A sério.
Ouvir uma enfermeira recém-formada no seu primeiro emprego
dizer que sou cego e não faço o meu trabalho.
- Já queres falar sobre isso? - Não!
Ouço muitas discussões no trabalho. Vai bisbilhotar com outro.
Achas mesmo que tem que ver com mexericos e ciúmes...
- Não estás de folga? - Vim só buscar uma coisa.
NOME DO DOENTE: JOHN DALGAARD
Ida?
Olá. Chamo-me Pernille. Tens um segundo?
Claro.
Queria falar contigo sobre a Christina.
Não me quero envolver em intrigas.
Houve vários problemas na Ml30 e agora está tudo muito melhor.
Eu não digo nada a ninguém.
Só preciso de saber se sou eu que estou a enlouquecer.
Mas... conhecias bem a Christina?
Sim. No início, fizemos muitos turnos juntas.
E como correram?
Ela era muito enérgica e muito talentosa.
Mas tu já deves ter reparado nisso.
Sim.
Mas também vi coisas que...
Viste o quê?
Ela consegue ser brutal.
E...
Já a apanhei a mentir várias vezes.
Havia muito drama quando a Christina trabalhava.
Era tudo mais louco.
Na verdade, fui falar com a enfermeira-chefe.
Mas foi um erro. Ela ficou furiosa e acusou-me de criar problemas.
- Mas ela não fez nada? - Que eu saiba, não.
Pensei que iriam investigar isso.
Eu não soube de nada e, depois, ela transferiu-se para o SU.
Tudo ficou mais calmo após a transferência dela.
E ninguém reagiu a isso?
Não. Até foi uma coisa boa.
Houve alguns rumores, mas...
Cuidado com o que dizem dos vossos colegas.
A Christina tinha muitos fãs e também os deve ter no SU.
Acho melhor eu ir andando.
Naquela altura, o que te levou a falar com a enfermeira-chefe?
Em 2012...
... morreu um doente com uma paragem cardíaca.
Foi tudo tão estranho que o hospital abriu um inquérito para apurar as causas.
Encontraram doses enormes de morfina e diazepam no sangue dele.
Ninguém soube explicar de onde vieram os medicamentos.
O que aconteceu?
Concluíram que foi suicídio.
Suicídio?
Sim. Eu não acreditei nisso. Mas foi essa a explicação oficial.
Lembras-te do nome dele?
Ele chamava-se Arne. Arne Herskov.
- Kenny Herskov? - Sim, sou eu.
Peço desculpa por o ter feito esperar.
Já acabei por hoje, mas venha. Podemos falar enquanto arrumo as coisas.
Só quero perguntar se pode reabrir um caso.
Pode relembrar-me do que se trata?
Sim, foi o meu irmão. Ele... Arne Herskov. Ele esteve aqui internado.
Sim. Acho que me lembro do caso.
Gostaríamos de saber o que realmente aconteceu naquela noite.
Certo. Mas o hospital não apurou a causa do incidente?
- Mas o que nos disseram não é verdade. - Porquê?
Porque o Arne estava a melhorar.
Ele estava ótimo. Voltou a ter bom ar e estava feliz.
E mais importante, o Arne odiava... Ele odiava medicamentos.
Ainda assim, diz aqui que encontraram morfina e diazepam no sangue dele
que não lhe foram receitadas.
O Arne nunca injetaria isso. O Arne não se suicidou. Tenho a certeza.
Kenny, ouça.
O mais interessante, mas também mais cansativo, do meu trabalho
é estar sempre a aprender.
Todos os dias acontece algo que me surpreende.
Mas a minha experiência diz-me cada vez mais
que as pessoas não são como nós pensamos.
O Arne detestava medicamentos.
Nós conhecemos a sua família, Kenny.
Vocês têm vindo muitas vezes ao hospital.
- Eu sei. - Certo.
Tem de admitir que ele bebia em demasia.
E que o fez durante muitos anos, certo?
E, por vezes, de uma forma muito...
... autodestrutiva.
Sim.
Talvez não fosse tão invulgar nele... como julga.
Obrigado por ter vindo, Kenny. Bom regresso a casa.
Aqui tem.
O NOSSO QUERIDO IRMÃO E TIO ARNE HERSKOV FALECEU
Já falámos do que estava na agenda. Podemos terminar a reunião.
- Sim. - Até para a semana.
- Sim. - Sim.
Temos de ver este pós-doutoramento. Ela precisa de estar ocupada.
É um projeto de investigação clínica que é muito bom...
- Adam. - Sim?
- Olha... - O que se passa? Pareces tenso.
- Demasiado vinho quente no fim de semana? - Sim. Estava a pensar...
- Podes ver isto? - Claro.
O John Dalgaard morreu na semana passada e eu não tenho a certeza
se uma arritmia súbita causaria uma paragem cardíaca.
Vi os registos clínicos e falei com o médico dele.
Nunca teve sintomas nem tomou medicamentos para o coração.
Certo.
O médico diz que não tinha problemas cardíacos.
Afirmou que ele estava em boa forma e tinha muitos anos de vida.
- Há algo nas enzimas cardíacas... - Certo.
Mas não parece muito dramático.
Mas não vês nada que possa ter causado a paragem cardíaca?
É mais ou menos isso.
Eu concordo. É muito estranho.
Que explicação encontras para isto?
Isto é Lolland-Falster. Morrem pessoas devido ao estilo de vida.
Sabes bem como é.
Não encontras nenhuma razão óbvia para a morte dele?
Nada que seja óbvio. Vemo-nos este fim de semana?
Sim. Corrida de sacos. Domingo de manhã, meias-finais.
Vai ser feio.
Sim, quando perderes.
- Adeus, Lundén. - Adeus. Vai para casa treinar.
NOME DO DOENTE: JOHN DALGAARD
NOME DO DOENTE: HANNA KOFOED
NOME DO DOENTE: GURLI MADSEN
NOME DO DOENTE: MATILDE BUNDGÅRD
NOME DO DOENTE: PETER BRUN NOME DO DOENTE: CLAUS LINDBERG
- Eu vou continuar a investigar. - Pernille.
Não posso ficar quieta. Se ninguém fizer nada...
Pernille. Concordo contigo.
Há aqui algo muito errado.
Vi os registos do John e...
Não faz sentido.
O coração dele estava bom.
Investigaste o caso dele?
Analisei muitas coisas.
E descobri várias mortes estranhas, todas durante os turnos da Christina.
Entra.
Tenho de falar com a direção.
Se o fizeres, terão a mesma reação que eu tive.
Nesse caso, vou à Polícia.
Se fores à Polícia sem provas concretas,
vão contactar o hospital.
Vão abrir um caso contra a Christina
e vão dizer-lhe do que é acusada e quem a acusou.
Será a tua palavra contra a dela.
E se tudo falhar e eles concluírem que o caso não vai a tribunal...
... a tua vida aqui fica arruinada.
Depois disso, quem te vai dar emprego?
Então?
O que devo eu fazer?
Nós.
O quê?
O que devemos nós fazer?
Se vires a taxa de mortalidade no M130 enquanto a Christina lá trabalhou,
comparada com o período após a sua saída,
caiu muito quando ela saiu de lá.
Qual foi a diferença?
Passou de 90 mortes por ano para...
... cerca de 50.
São 40 por ano.
Sim.
E ninguém reagiu porquê?
Por vezes, há períodos com mais mortes que outros e...
Ninguém quer acreditar que um colega,
com quem trabalhamos, está a envenenar os doentes.
A Ida mencionou um caso no M130 que envolveu a Polícia.
O hospital abriu um inquérito para apurar as causas.
Arne Herskov.
Encontraste esse caso?
Esses inquéritos não são divulgados.
Se o fizeram, deve ter sido apagado.
- Quando foi o caso? - Foi em 2012.
Três anos entre o Arne e o John?
Sim.
São três anos vezes 40 mortes.
HOSPITAL NYKØBING F.
Continuo sem perceber a razão para ela o fazer.
- Certo. - Não são mortes misericordiosas.
Muitos deles não estão a morrer. Não estão a sofrer.
E apesar de ela exagerar, apesar de ser intensa
e mentir, ela não é uma psicopata.
É uma enfermeira muito talentosa. Toda a gente diz isso.
Talvez seja por isso.
Pode adorar que lhe chamem enfermeira muito talentosa.
É a identidade dela. A enfermeira estrela. Que, às vezes, sabe mais que os médicos.
Gosta de ser vista?
Quer chamar a atenção, ser reconhecida, elogiada e admirada.
Quer ser o centro das atenções.
Quando ela salva um doente em paragem cardíaca, é a estrela.
A paragem cardíaca não é para os matar.
Ela faz isso para os salvar.
Não podem investigar os casos antigos?
Não podem exumar os corpos?
Mesmo que convencêssemos a Polícia, não há corpos para exumar.
Todos são cremados.
Mas que tipo de provas podemos arranjar?
Ela tem livre acesso aos medicamentos. Não apontamos o que tiramos.
Todos usamos luvas e nos desinfetamos. Esquece as impressões digitais.
Os quartos são sempre desinfetados. Todas as seringas são destruídas.
A solução é apanhá-la em flagrante. Quando estiver a fazer algo a um doente.
Nesse caso... o que sugeres?
Que nós a vigiemos.
E, desta vez, quando dizes "nós"...
... queres dizer o quê?
Que tens de ser tu.
É importante ela não desconfiar.
Não posso aparecer no SU várias vezes por noite.
Ela vai desconfiar.
SÁBADO À NOITE CHRISTINA PERNILLE
O que estás a fazer?
Estou a ver o horário.
- Estamos no mesmo turno da noite. - Sim, eu reparei.
Já lá vai algum tempo, não?
- Pensei que me andavas a evitar. - Os nossos turnos não coincidiram.
- Vai ser ótimo. - E talvez muito agitado.
- Há sempre algo nos nossos turnos. - Não sei se tenho coragem.
Eu também não.
Bem, vou para casa.
Até amanhã.
- Mal posso esperar. - Também eu.
Fiz esparguete à bolonhesa. Se tiverem fome, a Clara aquece.
A Clara vem cá?
Sim.
Esta noite estou de turno.
Está bem.
Mãe.
Mãe!
- Mãe. - Então?
Então?
- Tiveste um pesadelo? - Sim.
Já passou. Foi só um pesadelo.
Parecia que era real.
Sim. Os sonhos são assim.
- Havia um monstro. - A sério?
Ainda bem que acordaste. Livrámo-nos dele.
Os monstros não existem, pois não?
Não.
E se existirem?
Nós vamos surpreendê-los.
Silenciosas como um rato.
Sem fazer barulho.
E matamo-los com as nossas espadas.
És muito corajosa, mãe.
Conheces um poema de boa noite?
Pega no meu coração com as tuas mãos
Mas pega nele suavemente
E leva-o delicadamente
O coração vermelho
Agora é teu
Gosto desse poema.
Está a bater calmamente Está a bater docemente
Porque amou e também sofreu
Agora está silencioso Agora é teu
E ele pode sofrer
E pode definhar
E pode esquecer-se O que muitas vezes acontece
Mas nunca se esquecerá
De que é teu
Era tão orgulhoso e forte, o meu coração
Dormia e sonhava com alegria e brincadeira
Agora pode ser despedaçado
Mas apenas por ti
Legendas: Rita Menezes
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