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BASEADA NUMA HISTÓRIA VERÍDICA
AÇÚCAR NÓRDICO
VENDE-SE
Stauning!
Stauning!
Calma.
Isso.
Encontrei a rapaziada nas docas. Não paravam de falar.
Querem sempre beber mais um copo.
E o tempo voa.
Olha o que eu trouxe.
Sim, estou a despachar-me.
Deixa-me só...
Deixa-me só...
A meio da segunda parte o resultado é de 3-2.
Após 58 minutos de jogo,
parece difícil para a equipa da casa, apesar da reviravolta.
Pode haver uma oportunidade agora. Atacam pela direita.
A bola chega ao atacante, mas ele remata por cima da baliza.
O ataque não resultou em nada.
A tarefa não está fácil para o Nykøbling FC...
Arne?
Arne, consegue ouvir-me?
Vamos cuidar de si.
Ele fuma muito.
Ele bebe muito.
Não segue uma dieta saudável.
Ele não faz exercício físico.
Tirando isso, ele não tem nada de mal.
Demos-lhe um soro com nutrientes. O mais saudável que comeu nestes dias.
Se me ajudarem a sair desta cama, eu vou andando.
Arne!
- Tenho de ir dar de comer ao Stauning. - Ele está bem. Está em minha casa.
O senhor fica aqui mais uns dias.
Nem pensar. Tenho de ir cortar a relva.
Primeiro, temos de estabilizar os seus sinais vitais.
Depois disso, fica como novo.
- Nós voltamos amanhã, Arne. - Sim.
- Sim. Adeus, Arne. - Adeus.
- Vão com cuidado. - Adeus. Tomem conta do nosso irmão.
Aquela conversa de médico dá-te sede.
- Aqui tens. - Obrigado.
- Também tens um cigarro? - Claro.
Toma.
Isso.
- Que confusão, não? - Sim. Pensámos que ias desta para melhor.
Eu não morro sem receber as 400 coroas que me deves.
Eu devia ter-te deixado lá.
O que...
Porque preciso...
Ainda em paragem cardíaca?
Afastem-se.
Desfibrilhação.
A ENFERMEIRA
- Mãe! - Olá, querida.
- Olá, Pernille. - Olá, Morten.
Vai vestir o pijama. Vais já para a cama.
- Boa noite, Alberte. - Boa noite, pai.
- Desculpa o atraso. - Correu bem?
Sim, correu muito bem. É ótimo ficar com ela durante mais tempo.
Ela ainda tem de se habituar a tudo, mas vai correr bem.
- Ainda bem que te mudaste para cá. - Sim, vai ser bom.
Sim.
- Amanhã é o primeiro dia? - Primeiro dia como enfermeira.
- Fixe. - Sim.
Sei que não é o melhor hospital, mas as pessoas que conheço são simpáticas.
Vai correr tudo bem. Estou ansiosa por começar.
- Tu não... Não estás nervosa? - Não.
Pronto. Eu estou muito nervosa.
Quero que pensem que sou a melhor enfermeira de sempre.
Eles vão adorar-te. Está bem?
Como sabes?
Porque sei que és querida e inteligente.
E és divertida. É claro que vais ter amigos.
Eu acho que é difícil.
Sim, às vezes pode ser um pouco difícil.
Mas, Alberte, vai ser ótimo.
Tu numa escola nova e eu num emprego novo. E podes passar mais tempo com o teu pai.
- Vão voltar a ficar juntos? - Não.
Porquê?
Porque eu e o teu pai não somos bons a viver juntos.
Mas somos muito bons a ser amigos.
E fomos excelentes a fazer uma menina.
Uma menina crescida.
Sim. Uma menina muito crescida que tem de ir dormir agora
se não quiser estar cansada amanhã, no primeiro dia de trabalho.
- Boa noite, querida. - Boa noite, mãe.
Não é fixe? E a tua escola é já aqui.
Há ali um lugar.
- Então? Estás a gozar comigo? - Mãe!
- Viste o que ele fez? - Não te chateies com isso.
Mãe, não tem importância.
- É injusto. - Eu sei.
Mas acabei de receber o meu...
Estão à procura de alguma coisa?
Estamos à procura da sala da turma 1A. Sabes...
Sei. Fica atrás da sala de trabalhos manuais.
- Ótimo. Obrigada. - De nada. É o primeiro dia?
- Sim. A Alberte começa na 1A hoje. - Isso é bom.
- És a namorada do Morten. - Sim.
Não. Já não estamos juntos. Na verdade, nós nunca estivemos...
O Morten é o pai da Alberte.
- Está bem. - Tu conhece-lo?
Conheço o Morten há muito tempo.
O meu irmão andou na escola com ele. E a mãe dele é prima do meu pai.
- Que engraçado. - Sim.
É melhor nós...
Boa sorte. E diz olá ao Morten por mim. Chamo-me Karen Møller.
Eu digo. Chamo-me Pernille.
Eu sei. Boa sorte no hospital.
Obrigada.
Anda. Vamos à procura da tua sala.
HOSPITAL
SERVIÇO DE URGÊNCIA 3
- Viste com quem ela foi para casa? - Quem?
Com o Chris. O paramédico.
Não! É o primo do Torben! Ela não dormiu também com ele?
- Acho que sim. - Não pode ser.
ORDEM DOS ENFERMEIROS DINAMARQUESES
Há cinco serviços de urgência. O três é não cirúrgico.
Temos doenças cardiorrespiratórias graves, tentativas de suicídio, overdoses.
Podem ficar aqui durante 48 horas. Após isso, têm alta ou transferimo-los.
Este pager tem de andar sempre contigo.
Se um doente precisar de ti, o pager apita duas vezes.
Se o alarme de paragem cardíaca disparar, todos os nossos pagers apitam.
A sala dos medicamentos é aqui. Só os enfermeiros têm acesso.
Nem os médicos podem entrar.
Sim, isto é um kit de emergência.
Em caso de paragem cardíaca, levas logo isto para o quarto.
Tem o que é preciso para ressuscitar.
Adrenalina, amiodarona, atropina e clorato de potássio.
Se o selo não estiver intacto, trazes um novo do armazém.
Sim.
- Onde apontamos o que levamos? - Não apontas. Falou-se sobre isso,
mas era muito complicado e a ideia não foi em frente.
- Percebo. - Vou mostrar-te a sala do pessoal.
Digam olá à Pernille. A partir de hoje, está no SU3.
- Olá. - Olá. Sou a Trine.
- Pernille. - Bem-vinda.
É a Diana e a Marlene. Ali estão a Ditte e a Katja. As adultas.
- A maioria de nós fala muito do Tinder. - Trine.
- A Linda não gosta que tenhamos uma vida. - Só não quero ouvir falar disso.
- Anda. Vamos à procura da tua colega. - Muito prazer em conhecer-vos.
Acho que o Frank bebeu de mais. As informações dele estarão no ficheiro.
Fica aqui. Eu vou procurá-la.
Eu escrevi isso no quadro, não foi?
- Podes ir buscá-lo? Ótimo. - Claro. É para já.
Fibrilhação ventricular.
- Devo intubar? - Não, espera.
- Vamos verificar o ritmo. - Parar de massajar.
- Temos um ritmo desfibrilhável. - A carregar.
Afastem-se. Desfibrilhação.
- Ainda em paragem cardíaca. - Iniciar massagem.
- Há adrenalina? - Tenho o kit de emergência.
A fazer punção.
Sabemos alguma coisa sobre a doente?
Chama-se Alma e tem 59 anos. Internada com dificuldades respiratórias.
Ritmo cardíaco irregular. Fibrilhação atrial e agora ventricular.
Saturação a 69, sem pulso, tensão arterial 60/20 e quase não respira.
Outras informações relevantes?
Ela precisou de oxigénio, mas não há nada a nível cardíaco.
Muito bem, Christina. Obrigado.
- Vamos verificar o ritmo. - Parar de massajar.
Sim, tenho aqui o tabuleiro de emergência.
- Há algum acesso venoso disponível? - Há um.
Afastem-se. Desfibrilhação.
- Ela está a respirar. - Temos ritmo sinusal.
- Faz-se um ECG? - Sim. Obrigado, Christina.
Eu levo a cama.
Ali está ela. É ela que te vai dar formação.
Christina, esta é a Pernille. Ela é nova no SU3.
- Olá, Pernille. Bem-vinda às Urgências. - Obrigada.
- Vens de onde? - Da escola de enfermagem.
- Boa. É o teu primeiro emprego? - Como enfermeira, sim.
Dá 2,5 miligramas ao tipo do quarto 32.
- Está bem. - Sim.
- Mas quero muito aprender. - Boa. Há muito para aprender.
Está com bom aspeto, Gerda. Eu já lhe levo sumo.
Isso parece-me ótimo. Obrigada.
Eu leio tudo o que encontro.
- Vais chegar a horas? - Sim.
- Colocar cateter, medir tensão? - Sim...
Mudo uma fralda enquanto faço compras online.
- Mãe solteira? - Ela já tem sete anos.
Já podias ter dito. Estás mais do que preparada.
Vivo só com a Nanna. Ela tem oito. Podem brincar as duas.
Claro.
O serviço de urgência é diferente dos outros serviços.
Aqui acontece tudo mais rápido. É tudo mais radical.
Aqui parece que estamos numa zona de guerra.
Olá, Bjarne. Só viemos ver como se sente.
- A Linda falou-te dos médicos? - Não.
É difícil arranjarem trabalho noutro sítio.
Se tivermos sorte, sabem algumas palavras dinamarquesas.
Sinceramente, muitas vezes, temos de lidar com as coisas sozinhos.
É importante pensarmos pela nossa cabeça.
E tomar decisões rápidas.
Ainda bem que somos competentes.
- Ajudas-me a virá-lo? - Claro.
Aos três. Um, dois, três.
Muito bem, Bjarne.
Já conhecem a Pernille? Ela é muito competente e simpática.
- Olá. - Olá.
Mas será ela uma das nossas?
- Vamos descobrir. - Sim.
Insere os sinais vitais dele.
- Sim. - Vou ter com a Linda.
Podes ir ver o tipo no quarto 38?
Sim.
- Olá. Sou a Ditte. - Pernille.
Não está na hora de fazer uma pausa?
- Olá. - Olá.
- Bem-vinda, Pernille. - Obrigada.
- Vejo que já tens uma fã. - Não, ela está só a brincar.
Ainda sou verdinha. Esforço-me para conseguir aprender.
Mas é empolgante.
- A Christina está a dar-te formação? - Sim. Ela parece competente.
Sem dúvida que ela é a enfermeira mais competente aqui nas Urgências.
E há muito para controlar. É frenético.
Muito frenético. Para trabalhar aqui é preciso ter olhos na nuca.
- Mas sê bem-vinda. - Obrigada.
Vamos ver. Vou mostrar-lhes que sou uma miúda das Urgências.
Uma quê? Onde queres isto?
Ao pé do sofá, acho eu.
Uma miúda da Urgências. Alguém disse...
Não importa. Vou mostrar-lhes que sou uma ótima enfermeira.
Fala a Pernille.
Olá, Linda.
Amanhã?
Um turno da noite é empolgante. Gostava muito.
- Mas tenho a minha filha... - Ouve.
Dê-me um segundo.
Eu posso ficar com ela. Levo-a à escola e tu vais buscá-la.
Eu posso ir, Linda. A que horas tenho de lá estar?
Ótimo. Mal posso esperar.
Adeus.
Vês como aqui é tudo mais fácil?
HOSPITAL NYKØBING F.
- Olá, Katja. - Olá, Pernille.
Ele volta a ganhar.
Bem, agora já conheces o Niels.
É o palhaço do hospital?
Acho que ele preferia ser, mas é o médico responsável.
Não...
- Aquele tipo? - Sim.
Chama-se Niels Lundén. Ele conta muitas piadas más,
mas é o melhor responsável de todos os Serviços de Urgência.
- Olá, meninas. Como estão? - Olá.
Ciao! Está tudo bem?
- Sim. - Ele é bonito.
Não és a primeira enfermeira a dizer isso, mas não vás por aí.
- As pessoas comentam muito. - Nem pensar nisso.
- Não, nunca... - Pernille.
- Olá. - Olá.
Bom turno.
Preparada para o primeiro turno da noite?
- Só eu e tu. - Vamos a isso.
As noites são muito compridas.
Não faz mal.
Em algumas, estamos muito atarefados.
Esses turnos são mais divertidos.
Será melhor eu ir fazer uma ronda para ver se está tudo bem?
Faz isso.
Eu fico aqui sentada a apanhar uma tremenda seca.
É a tua primeira paragem cardíaca. Quarto 37. Traz um kit de emergência.
Despacha-te!
Devo chamar alguém?
Eu carreguei no alarme. Estão a caminho. Liga o desfibrilhador.
Sim...
- Desculpa. Nunca fiz isto. - Não faz mal.
- Já está. - Liga-o.
- Já fizeste massagem cardíaca? - Só num boneco.
Dou-te as indicações. Anda!
- Está bem. - Vem cá.
Põe aqui as mãos. Empurras com força. Não penses nas costelas dele.
Sim. Ouve com atenção.
Faz o ritmo.
Canta!
No ritmo!
- O desfibrilhador está ligado? - Está.
Parar de massajar.
Temos ritmo desfibrilhável.
A carregar.
Afastem-se. Desfibrilhação.
Ele está estável.
- Ele sobreviveu? - Foi por um fio.
Sobreviveu porque vocês agiram rapidamente.
Muito fixe.
Sim.
Vocês salvaram-no.
- Deve ter sido a canção. - Não quis que fosse a última canção dele.
- Nem pensar. - Muito bem.
São uma equipa de sonho.
Ouviste isto?
Somos uma equipa de sonho.
E ainda não viste o melhor.
Anda.
Então?
Estás exausta?
É estranho, mas não.
Na verdade, sinto-me com muita energia.
É a adrenalina.
Estás pedrada.
Na minha primeira vez, também senti isso.
Na verdade, ainda sinto isso.
Acabámos de salvar uma vida, caramba. Claro que é emocionante.
É de loucos.
"Olha, uma ilha. Olha, um lago.
Uma ilha num lago. Vejam, Bob e Vips."
Boa! Só estás há um mês na nova escola e já lês tão bem.
Estamos a estudar os poemas. Não têm de rimar.
Tens toda a razão. E agora está na hora de dormir.
- Já? - Já.
- Posso ir brincar com a Vera? - Sim, claro que podes.
É bom teres arranjado uma amiga.
Mas agora tens de dormir.
- Também arranjaste novos amigos? - Arranjei, sim.
Trabalho com uma pessoa muito fixe.
Tens muita sorte.
Sim, tenho muita sorte.
Eu não demoro. Tens de ficar aqui, Stauning.
Tenho de tratar disto. Tu não podes entrar.
Como lhe disse ao telefone, terminámos a autópsia do seu irmão.
Sei que não vai trazer o Arne de volta, mas...
... pelo menos, descobrimos a causa da morte dele.
E qual foi?
As análises ao sangue indicam que ele tinha dizepam e morfina no sangue.
O que significa isso?
Que ele teve uma overdose.
E isso fez o coração dele parar.
Uma overdose?
- Porque lhe deram uma overdose? - Não. Não lhe demos uma overdose.
Os médicos deste hospital não lhe receitaram morfina nem diazepam.
Se lhe tivessem dado isso, estaria nos registos médicos. E não está.
Certo.
Nesse caso, deram-lhe por engano?
A única explicação é ele próprio ter tomado os medicamentos.
O quê?
O seu irmão suicidou-se.
O Arne?
O Arne suicidou-se?
Eu não acredito nisso.
Segundo os registos médicos, o Arne tomava antidepressivos.
Após o filho dele...
- Refere-se ao Jimmy? - Sim, após a morte do Jimmy.
Eu não entendo. Quando me fui embora, ele estava bem-disposto.
Ele ia para casa. Vim buscá-lo. Planeámos...
Sei que é difícil acreditar.
Como fez ele isso? Onde arranjou ele os comprimidos?
Ele não tomou comprimidos. Não encontrámos vestígios no estômago.
Então foi o quê?
Ele deve ter ido à sala dos medicamentos durante a noite
e encontrou umas ampolas com morfina e diazepam.
Está a dizer que ele foi à sala dos medicamentos e encontrou...
- Ampolas. - Umas ampolas.
E depois voltou para o quarto e injetou-se com diazepam e morfina?
E voltou para a cama?
Exatamente.
Não.
Não.
Saúde!
Não estou a dizer que há grupos nas Urgências.
- Mas alguns são muito chatos. - Não me vou esquecer.
Eu, a Trine, a Diana e algumas outras. É melhor ficares connosco.
- Isso parece-me perigoso. - Muito perigoso.
Não, não... Já não sobra nada.
- Está bem, saúde. - Saúde.
Obrigada, querido.
- Equipa de Sonho, vens? Por favor. - Sim, está bem.
- Então, ganhaste? - Desculpa, o quê?
Aquela corrida de sacos. Ganhaste?
- Sim, claro que sim. - Certo.
Aqueles maqueiros pareciam ser mais novos do que tu.
Precisamente. Eles não têm a mesma experiência que eu tenho.
Muitas pessoas não sabem que há tática e estratégia nas corridas de sacos.
A quem o dizes. Fui campeã de corridas de sacos na creche.
Relembra-me. Quem és tu?
- Sou a Pernille. Enfermeira no SU3. - És tu.
Já te instalaste?
- Os enfermeiros conseguem ser... - Tudo bem, Niller?
Vou para casa ver as tatuagens dele.
Ele diz que tem uma na pila. Eu acho que é mentira.
- Boa noite. - Adeus.
- Ela é direta. - Pode dizer-se que sim.
- Saúde, Pernille. - Saúde, Niels.
Olá, Janni.
Chamo-me Pernille. Sou a enfermeira de serviço hoje.
- Olá. - Olá. Como te sentes?
Estou bem. Só dói um pouco quando falo.
Sabes que mais? Eu falo pelas duas.
E se eu falar demasiado, belisca-me.
Vejo que só comeste a sobremesa.
Não te censuro. Eu não teria comido isto.
Queres que te traga outra sobremesa?
Não é bom para a nossa reputação os doentes passarem fome.
- Sim, por favor. - Ótimo.
Eu não demoro. Puxa o fio se precisares de alguma coisa.
Está bem.
- Obrigada pelo ótimo turno. - Igualmente. Até sábado.
Olá.
Olá.
Noite divertida.
Sim, foi.
E peço desculpa.
Não. Desculpa. Que vergonha. Bebi de mais.
Foram os shots. Não aguento beber muitos. Sei que falámos de corridas de sacos.
Sim.
Depois disso, não me lembro de nada.
- Claro. - Mas do que me lembro foi bom.
Muito bom.
Não és de cá?
Não. Acabei de me mudar de Odense.
Se precisares de conselhos sobre Lolland-Falster, diz-me.
Também sou imigrante. É difícil viver neste sítio.
- Eu gostaria disso. - O quê?
Que me desses conselhos.
A não ser que não falasses a sério.
Às vezes, as pessoas dizem coisas só por dizer.
Vou buscar-te amanhã?
Está bem.
Às 17 horas?
Está bem.
- Onde moras? - Folisvej, 4, em Maribo.
Folisvej, 4, Maribo.
Até amanhã.
Sim.
Preciso de me vestir bem?
Sem dúvida. Sim.
Está bem.
- Isto não é fantástico? - Sem dúvida.
Adoro vir até aqui.
Longe do caos e das discussões.
- E de uma ambulância, se cairmos à água. - Para com isso.
Não sei fazer RCP.
Eu estava a pensar... Foi escolha tua trabalhar aqui?
Não. A minha ex-mulher e o meu filho vivem em Falster. Tenho de ficar aqui.
E se não tivesses de ficar?
Preferias estar noutro sítio?
Quando cheguei cá, sim.
Todos me disseram que era o pior hospital da Dinamarca.
Mas agora acho que é o melhor emprego do mundo.
Estou sempre ocupado. Gosto disso.
Estas pessoas acabaram nos confins da Dinamarca.
Têm todas as doenças.
Bebem demasiado. Parecem chaminés a fumar.
Ignoram a pirâmide da alimentação.
Mas a maioria delas são boas pessoas.
Precisam de alguém que as ajude e não as veja como falhadas.
Sei que parece um pouco...
Nada disso. Eu entendo.
Vamos ver se este barco anda depressa?
- Claro. - Costumas enjoar?
- Não. - Vamos acelerar ao máximo.
Há um pouco de vento de proa. Não vai andar tão depressa.
Costumo ser mais rápido.
Vamos tentar.
- Tem um bom turno. - Obrigada.
Fica de olho no quarto 34. Ele tira o soro.
- Certo. Bom regresso a casa. - Obrigada.
- Olá, Pernille. - Olá.
A Inger tem dores nos rins, mas a morfina não está a ajudar.
Dá-lhe oxicodona. Ela é medicada conforme as necessidades.
Equipa de Sonho. Café no telhado mais tarde?
- Claro. - Combinado.
NOITE - DEITAR - MANHÃ - MEIO-DIA
Vou fazer isto.
Pronto.
Como se sente? Consegue dormir?
- Sim, tenho dormido bem. Sinto-me bem. - Ótimo.
Janni?
- Olá. - Olá.
- Vou só medir a tua tensão arterial. - Está bem.
Pronto. A tua família veio hoje?
- Sim. - Sim? Que bom.
Devem estar ansiosos para te terem em casa.
Parece estar tudo bem.
Precisas de alguma coisa?
- Ótimo. Tenta dormir mais um pouco. - Sim.
ALARME
Pernille! Paragem cardíaca no 35. Traz um kit de emergência!
Temos um ritmo desfibrilhável.
A carregar.
É demasiado jovem para isto.
Afastem-se. Retirar oxigénio. Desfibrilhação.
- Sem alterações. - Retomar massagem. Amiodarona, 300 mg.
Aqui tem 300 mg de amiodarona. Prepara a adrenalina.
- Administrados 300 mg. - Obrigado.
- Verificar ritmo. - Parar de massajar.
Ainda temos ritmo desfibrilhável.
A carregar.
Afastem-se. Retirar oxigénio. Desfibrilhação.
- Sem alterações. - Massajar o coração.
E oxigénio.
Estou a ouvir.
Parar de massajar.
Já não temos um ritmo desfibrilhável.
Vamos no 12o ciclo. Estamos a fazer isto há 26 minutos
e não há ritmo desfibrilhável.
Alguém se opõe à suspensão do procedimento?
Não.
São 3h16 e a doente faleceu.
Certo. Obrigado.
Olá.
Pareces estar exausta.
Tem sido muito intenso.
- Como? - Perdemos uma doente. Chamava-se Janni.
Uma jovem que não devia ter morrido.
Merda. Que turno de loucos.
- Onde está o registo de mortes? - Não está ali?
Está.
Então, Equipa de Sonho?
Queres ir até ao telhado?
Que turno de merda.
Achei mesmo que ela estava bem. A Janni.
Estás bem? Estás um pouco pálida.
Não sei se fui feita para isto.
Para quê?
- Para trabalhar no Serviço de Urgência. - Que conversa é essa?
Ela era muito nova.
Acho que eu não tinha pensado no quão violento isto é.
Talvez um trabalho normal seja mais adequado para mim.
Começas de manhã e vais para casa à noite.
Almoças ao meio-dia. Esse tipo de coisas.
Isso é melhor.
Isso o quê?
Ser enfermeiro num serviço normal.
O Serviço de Urgência não presta.
Dorme-se pouco, há muito stress e trabalha-se muito.
E o esforço é o mesmo quer falhes, quer tenhas sucesso.
E por muito bons que sejamos...
... só controlamos 95 % do que acontece.
Não controlamos os outros cinco por cento. São apenas coincidências.
Ou é o destino...
Ou é obra dos deuses.
Ouve. Por vezes, morrem pessoas.
É mesmo assim.
As pessoas aqui costumam ter vários diagnósticos e um risco maior.
Mas quando é o nosso turno, elas têm uma hipótese.
Já te vi a trabalhar.
Sabes o que fazes. Não admites que abusem de ti.
Lúcida, mesmo sob pressão.
Quanto mais pressão, mais lúcida estás.
Tal como eu.
Garanto-te que a emoção que sentes quando tudo corre bem...
Não a irás encontrar noutro lado.
Sei que não queres ouvir isto, mas vou dizê-lo.
És uma miúda das Urgências.
E eu e tu somos uma equipa de sonho.
Certo?
REGISTO: 070487-5642
NOME: JANNY CARLSEN MORADA:
- Precisas de ajuda antes que eu saia? - Não, obrigada.
Ditte?
Sim?
Sabes se ela alguma vez tomou diazepam?
Sei. Nunca tomou.
- Até amanhã. - Até amanhã.
Legendas: Rita Menezes
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