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O ANO DAS LUZES
Manolo!
Manolo!
A merenda!
Escrevam.
Comam bem.
Despachem-se!
Rezem as ora��es.
Toma conta do pequeno.
Manolo, aguente-te bem.
Adeus, mam�!
Adeus.
Adeus.
Peguem nas malas.
Mexe-te, Manolo!
Cuida do teu irm�o.
Quero uma.
Quanto custa?
Dois reais.
Despachem-se!
Perdemos a camioneta!
Dois.
Pronto, um e meio.
Onde vais? A camioneta � esta.
Imaginem a ofensiva do inimigo.
E que ofensiva! Que batalhas!
Neve at� ao pesco�o.
Aquilo � que era guerra!
Era mesmo!
Fuma?
Os bilhetes.
Os bilhetes.
Os bilhetes.
Ele est� comigo.
Estes s�o meus irm�os, filhos dum combatente morto.
Consta que fuzilam as pessoas no estrangeiro.
Era preciso fuzilarem ainda mais!
Tem toda a raz�o.
Vai de luto? Um parente morto
- pela Espanha? - A minha pobre mulher.
Minha sobrinha, uma santa.
A guerra acabou.
� preciso esquecer a rancor.
O Tenente tem raz�o.
O sol levanta-se, quer queiramos quer n�o.
Como Crist�o, estou pronto a perdoar;
como patriota, nunca! Seria o c�mulo!
Que achas?
Que pensas da guerra?
Que voc�s nos bombardearam
bastante.
T�nhamos de arrasar o inimigo.
Mas era em cima de nos que as bombas ca�am.
Um amigo d�le
perdeu as pernas,
e ele foi por milagre...
� a guerra.
Fez-em chichi em cima!
Pascoal,
as cal�as.
Procuravas provis�es.
Nas aldeias?
Como fazias?
La com os vermelhos.
Davas-te com eles?
Preferias os fascistas?
Depois falamos.
Areja-as.
Vamos aliviar.
Queres fazer chichi?
De certeza?
Tenho fome.
Se fazes chichi...
Viste?
Estou teso desde que partimos.
Ela n�o da por isso?
Agrada-lhe.
Est� dura como m�rmore, a cabra.
V�o-me doer os tomates a semana inteira.
Voltem.
Um cigarro?
N�o, obrigado, fiz uma promessa.
Sento-me eu no ch�o.
Para qu�?
Digo ao meu irm�o que
te d� f�rias...
Ali�s, � uma mulher s�ria.
Queres que a camioneta toda fale dela?
As frieiras fazem-me comich�o.
O documentos.
Vamos para o tejadilho.
Vou l� para fora com o Pascoal.
�s doido?
Assim vejo a paisagem e depois conto � m�e.
Ao menos, levanta a gola.
Os documentos.
Tu, n�o.
- Quero ir! - Vais apanhar frio.
Aqu� estamos melhor.
- Conta. - N�o viste?
Mal. At� onde foste com o p�?
Que coxas! T�o morrinhas!
- Para onde vai? - Hollero.
Levantei-lhe as cuecas com o dedo do p�,
e pronto...
Gozaste?
N�o, agora ela...
N�o fiz nada!
N�o fiz nada.
S� perdi os documentos.
V�o fuzil�-Io?
Quero l� saber!
Pascoal!
Pascoal!
O Tenente chama-te.
Pega no pequeno.
Pega...
Se apanhas uma pneumonia, n�o te queixes.
� como um avi�o.
Que vai haver no lar?
Enfermeiras ou freiras?
Porqu�?
� que se forem enfermeiras...
est�o habituadas a ver pi�as.
Agora as freiras...
Essas basta-lhes o ter�o.
Sou Em�lio Zorzano, porteiro do Lar.
Fizeram boa viagem?
Metam as bagagens.
Tudo a bordo!
Prontos?
- D�i-me a garganta. - Essa agora!
Ele n�o tem febre,
mas � melhor a menina Irene dar-lhe uma injec��o.
N�o quero injec��o!
Ent�o n�o ta d�o.
Ele disse "menina Irene". Ent�o n�o s�o freiras.
- Quem � a menina Irene? - A enfermeira-chefe.
Podemos tratar-nos por tu.
Tamb�m fiz a guerra.
Felizes os doentes tratados por essas m�os!
Fazes-me corar.
S� digo a verdade. O director n�o est�?
Passa o inverno em Alicante
por raz�es de sa�de.
Tens alguma queixa?
Pelo contr�rio.
Mas como trouxe uma carta de recomenda��o...
Que resultou.
S� os aceitamos com menos de 12 anos,
e o Luisito j� � um homem.
Chamo-me Manolo.
Como v�s, � um homem.
Amanh� v�em o m�dico,
hoje est�o cansados.
Agora v�o comer.
Tens fome?
Que te apetece?
- Talvez uma omeleta. - Qualquer coisa.
Estiveste na frente?
Claro.
Foi uma granada.
Ainda tenho um estilha�o, repara.
V�s?
Da ra�a de Agostinha de Arag�o.
N�o tens febre,
n�o levas a injec��o.
Tens duas camas livres no teu dormit�rio?
Est�o aqu� dois Lobos.
S�o mesmo Lobos...
D�-lhes de jantar.
D� ao Jesus um copo de leite e meia aspirina.
- Este n�o � grande? - Faz o que te disse.
Vamos engord�-Ios.
Um aperitivo?
Obrigado por tudo, Irene.
Nunca vais a Madrid?
Gostava,
mas sou precisa aqu�.
N�o podemos descurar os homens de amanh�.
� como um sacerd�cio?
�.
Gostam de arroz doce?
E de leite creme.
Paquita.
A sobremesa.
Ainda t�m espa�o?
A fruta
limpa o organismo.
Cala-te.
Tem de se comer o que se agarra ao corpo.
Ignorante!
Paquita, vai-te deitar, amanh� � d�a de aulas.
Que fazem na cozinha?
Andou! Sempre metidos na cozinha!
� um r�dio.
Isso funciona?
� uma esta��o estrangeira.
� portuguese.
Estamos perto da fronteira.
Fi-Io eu mesmo.
Viste tudo?
Vi, mas como sombras.
E eu que dormi com o burro!
Qual era?
A da farda.
Ao duche, dispam-se.
N�o te atreves?
Tomo banho sozinho.
Tens lata!
�s o rei do Har�m! Eu c� n�o me queixava.
Se fores a Madrid, ficas em nossa casa.
A minha m�e h�-de gostar.
Sabes que � um sacerd�cio.
Muito obrigado, foste muito am�vel. Hei-de dizer a D. Ramiro.
Portem-se bem.
Come muito para a mam� ficar contente.
Escreve, prometeste �s manas.
Fa�a-os telefonar de vez em quando.
H�o-de telefonar da aldeia.
N�o chores, merda!
Nada de palavr�es.
Senhor, aben�oa esta refei��o,
o Caudilho e o Ex�rcito,
Jos� Ant�nio, os soldados mortos pela P�tria,
o Fuhrer, o Duce e o Imperador do Jap�o.
Quem �?
A professora.
Morales, sabes rezar o ter�o?
Passas a diz�-Io todas as noites.
J� disse o ter�o e n�o rezo mais.
N�o devias estar nas aulas?
Estudo sozinho.
Queres?
J� comi.
E depois?
Deite aten��o.
Que faz este tanso?
Ele estuda sozinho.
� um malandrete.
N�o te deram bastante de comer?
Ou j� andas atr�s das mo�as?
La a passar...
Mesmo com uma recomenda��o, deve ir �s aulas.
Ele n�o aprendia nada com os pequeninos.
A professora seu eu...
Pepita,
chama aquele pregui�oso.
O pai morreu.
Por isso � importante que se instrua.
Achas-me incapaz de dar aulas da 3e?
N�o disse isso.
A partir de amanh�,
assistes �s aulas.
D. Transito, a professora, quer ajudar-te.
Mas o meu irm�o tenente disse...
Espero-te amanh�
com os livros e os cadernos.
Vai comer.
E que � que foi fazer a Paris?
N�o se vai a Paris fazer nada,
vai-se porque � a capital do Universo.
Disse-o Victor Hugo...
"Fran�a, sem ti o mundo estar�a sozinho."
E o dinheiro?
Tinha uma amiga. Mas isso � outra hist�ria.
Qual?
C'est la vie, mon cher ami...
Ainda ontem...
flanava pelos Champs-Elys�es,
e hoje eis-me neste deserto.
E o que � pior, casado com aquele mastodonte.
N�o passas dum mamarracho!
N�o o ou�as.
Sabes o que fazia ele em Paris?
Jesus disse...
"Atira-te ao mar
antes que escandalizes uma crian�a."
Vivia � custa das mulheres!
Porco!
Ela tresvaria.
Eu n�o era um chulo.
O pai da minha amiga tinha uma charcutaria...
e eu comia de borla.
Ela era bonita?
Por que n�o casou com ela?
Ela n�o quis.
Se gosta tanto de Paris,
que faz num buraco destes?
Degenero, pronto. � melhor nem pensar nisso.
Como dizia Dante...
"N�o h� maior dor que recordar os tempos felizes."
Aquele quem �?
S. Boaventura.
Vai jantar. Ao menos isso � positivo.
- Manolo? - Que foi?
Fiz chichi.
Morales!
Por que n�o est�s no teu lugar?
N�o te podes levantar nas aulas.
P�e a m�o a�, vais aprender.
- Se toca no meu irm�o... - Amea�as-me?
Socorro! Socorro!
� um motim!
Um motim!
Francamente, um motim...
Um motim, uma revolta, chama-lhe o que quiseres.
Este delinquente levantou a m�o para mim.
Conta-me o que se passou.
O meu irm�o quer�a
fazer chichi.
Ela proibiu
e quis bater-lhe.
A escola � para estudar, n�o para fazer chichi.
N�o chamas a Guarda Civil?
Se o tivesses deixado em paz...
Demito-me!
N�o se pode deixar um assassino em liberdade.
N�o digas enseiras!
Vai-se dizer-lhe que estude na biblioteca.
Nem o castigas?
Claro...
Queres caf�?
N�o � altura disso.
Continua assim,
e ter�s a anarquia como com os vermelhos.
� verdade que bateste na D. Transito?
Que te fizeram?
Que querias que fizessem?
Qualquer coisa...
Se soubesses como ela �! Pertence
� Sec��o Feminina.
Que � isso?
Um microsc�pio.
Queres ver?
- Parvo! - Espera.
Espera.
V� agora.
� um cabelo?
P�e l� saliva.
Saliva?
Para qu�?
Para ver os micr�bios.
Tenho uma coisa melhor.
Bateste na professora?
Vem ver os micr�bios.
Bichinhos que temos no cuspo.
Est�s a gozar?
N�o, anda ver.
Cospe aqu�.
Cospe aqu�.
Cospe!
�s t�o bruta!
Disseste para cuspir.
L� est�o.
Que �?
Adivinha.
� leite.
Olha como eles mexem!
Parecem lombrigas.
�...
o que faz os beb�s.
Nojento!
Vais apanhar, grosseir�o!
Grosseir�o!
Eu tinha raz�o, era leite.
Anda!
Que fazes com os livros?
A menina Irene mandou queimar os que s�o anti-espanh�is.
E o que � que � anti-espanhol?
- � ingl�s. D. Transito... - Ela que se lixe!
� uma j�ia da literatura!
N�o sabes quem foi Dickens?
Incr�vel!
Queimar a cultura, o patrim�nio da humanidade!
Montaigne! Las queimar "Os Ensaios"!
A que vem esta expurga��o?
Ficamos com os espanh�is, os alem�es e os italianos.
Senhor, perdoa-lhes, que n�o sabem o que fazem!
Diz-lhe que os queimaste,
mas d�-mos.
Vou guard�-Ios no atelier.
Pergunto-me se os entendo...
O de Montaigne...
como � em franc�s antigo.
J� fizeste chichi,
caminha e sonhos lindos.
N�o como o maroto do teu irm�o,
sabe Deus com que � que ele sonha!
D�-me um beijinho.
Ao Manolo, tamb�m.
O teu irm�o quer que lhe d�s um beijo.
At� amanh�.
Se Deus quiser.
Sabes que cometeste um pecado mortal?
Se morres, vais direito para
o inferno. Se calhar,
repetes antes de adormeceres.
N�o tens medo do inferno?
Vou-te capar!
Vou-te capar!
Reza: "Eu pecador, me confesso..."
Quero ouvir-te.
Eu pecador, me confesso a Deus...
Amarra-me.
Amarra-me.
Tu � que pediste.
Quantas vezes o fazes por d�a?
Depende. 1, 2,
3...
Porco!
Gostas tanto assim?
Vai rezando.
Eu pecador, me confesso a Deus...
Nojento!
...a S. Miguel Arcanjo,
a S. Jo�o Baptista...
e a v�s, padre,
de ter pecado em pensamento e obras.
Por minha culpa,
minha culpa,
minha m�xima culpa.
24 e meio.
O seguinte.
Vinte e um.
O seguinte.
Vinte e nove.
O seguinte.
O teu irm�o engorda, agora tu...
Estudo muito.
56,5.
O seguinte.
A minha m�e
quer que eu volte para casa.
Diz que n�o pode trabalhar tanto.
Quando vais?
Ela quer que va j�.
A minha irm� vai casar e ela fica sozinha.
Onde vou buscar quem te substitua?
Talvez a Maria de Jesus queira vir,
a sobrinha do Cura.
Ela quer fazer o servi�o c�vico.
Sim, m�e, lavo as orelhas.
E o Manolo, tamb�m.
Sim, m�e, quilo e meio.
N�o, o Manolo estuda muito.
Vou-to passar.
Ela quer falar outra vez contigo.
Eu escrevo.
Estamos a passar os 3 minutos.
N�o, j� n�o faz frio.
N�o faz frio.
Cortaram.
E a Vicenta?
Que se lixe.
A pequena ficou encantada,
- e eu tamb�m. - Veremos...
Mas o meu t�o � t�o esquisito.
Mato aquelas filhas do diabo!
Aqu� n�o cagam mais, juro!
T�o.
T�o.
Est� aqu� a Menina Irene da Miseric�rdia.
- Av� Maria Pur�ssima... - Concebida sem pecado.
� a sarna dos pombos...
cada vez h� mais.
Cagam tudo em plena missa! Diga l�.
A Maria de Jesus quer fazer
o servi�o c�vico.
Decidiu ser secret�ria.
Vamos, que aqu� ningu�m se ouve.
Viste?
Diz Voltaire.
Deviam ter vergonha.
Vou beber �gua.
Que fazes?
Estudo dactilografia.
Com isso?
N�o tenho m�quina.
Sem olhar?
Fa�o 120 letras por minuto.
Sabes escrever tudo?
Como te chamas?
Manolo Morales.
Manolo Morales.
M A N O L O,
um espa�o, M O R A L
E S.
Vens de Madrid?
N�o ias beber?
J� n�o tenho sede.
At� amanh�.
Onde est� o sr. Em�lio?
No atelier. Pareces uma alma penada.
J� estudaste o suficiente por hoje?
N�o nem estudei ontem nem anteontem.
Ent�o porqu�?
Pois, o cansa�o.
Vou dar-te um comprimido para o c�rebro.
N�o, n�o � isso.
� muito bom.
Ora ouve...
"Regulariza as fun��es do organismo
e tonifica o c�rebro."
V�s?
� um reconstituinte.
Com todo o estudo e as confus�es,
precisas dum reconstituinte.
Pega na bilha.
Tamb�m tonifica a m�quina gen�sica...
Quando o tomo,
fico pior que um garanh�o.
Nada de confiss�es!
Desde que chegou a Maria de Jesus, n�o fa�o mais nada.
A do Cura.
Ent�o...
est�s como S. Estanislau de Koska.
Apaixonaste-te.
Mon petit ami, tu es bien foutu.
Est�s tramado.
� mau estar apaixonado?
O amor � maravilhoso.
Dante dizia...
"O amor move o sol e a terra."
Tudo depende dos efeitos
produzidos no ser humano.
Portanto, abandonaste o ananismo,
o que � �ptimo,
mas j� n�o estudas, o que � p�ssimo.
Tento, mas n�o entendo nada.
Aposto que lhe fazes versos.
"Chegou a Primavera Aborre�o-me por�m...
A jovem em flor N�o escuta meu prato."
Disparate!
"Meu pranto"!
Disseste-lhe?
Que a amas, bolas!
Era a primeira coisa que devias ter feito.
E se ela n�o gosta de mim?
Dedicas-te a escrever versos.
Melhor, partes para Paris.
O meu tacho est� pronto?
Num instante esquecerias as tuas desgra�as.
L� h� raparigas por tudo o que � s�tio.
Continuas a dar-lhe a volta ao miolo?
Nada, ele est� apaixonado.
Duma menina de Madrid...
Escreve-lhe.
As mulheres gostam muito de cartas.
E nesse assunto...
desconfia deste tanso.
Ele fala muito,
mas nunca fez um filho, sequer!
Est� na menopausa.
Cas�mos j� com idade avan�ada.
E depois dos meus excessos em Paris,
tenho a ejacula��o seca. N�o procrio.
Mas sou t�o viril como aos 20 anos.
E se eu escrevesse � Maria de Jesus?
Esquece a literatura epistolar!
Frente a frente. Tens tomates ou n�o?
O meu irm�o quer saber se gostas de cinema.
- Por que n�o me pergunta ele? - N�o sei.
Diz-lhe que gosto muito de cinema.
Ent�o vai � biblioteca.
Posso entrar?
Vais levar-me ao cinema?
Vou consertar isto para passar filmes.
Palavra?
Tens da Danielle Darrieux?
� a minha preferida.
N�o sei.
Ainda n�o a consertei.
Preciso de ferramenta.
Que filmes tens?
"O Desastre do Anual",
"O Voo do Plus Ultra",
"As Olimp�adas"...
N�o s�o filmes de amor.
N�o os vi, mas pelos t�tulos...
- Gostas de filmes de amor? - Mais que tudo.
Tens sorte em viver em Madrid.
Aqu� n�o temos cinema.
Temos de ir a Portugal.
Eu dantes n�o gostava de filmes de amor.
Gostavas dos de guerra, como todos os rapazes.
Que pedras s�o estas?
H� granito...
m�rmore...
feldspato...
Maria de Jesus, eu...
Tu o qu�?
Grande lata! E se eu digo ao meu noivo?
Ou te agitas ou atiras pedras!
� s� o que sabes fazer?
Para onde olhas?
Os de Madrid...
ainda s�o brutos que os daqui!
"N�o me importo que digas ao teu noivo."
Rafaela!
N�O ME IMPORTO QUE DIGAS AO TEU NOIVO
Eu vi-te.
Se eu lhe disser, ele d�-te das boas.
Ele � da Mocidade Portuguesa.
S�o como os Lobos da Falange.
Paquita, est�s com a cabe�a na lua.
Como vai a "paella"?
Vai ficar uma delicia.
N�o sabes travar?
N�o se partiu.
Tivemos um conv�vio de fraternidade
com os Lobos.
Fui ver a tua m�e.
O sacrist�o n�o me disse
que a bicicleta n�o tinha trav�es.
�s t�o parvo!
Est�s bonito.
Morria de t�dio.
Por que vem ele?
O campo � de todos. Joga.
� o noivo de Maria de Jesus.
Ela falou-me dum noivo portugu�s.
Despachem-se,
que isto � para o meio d�a, n�o � para a noite.
Em Portugal, o "alcaide" � mais importante que aqu�.
Por exemplo, o meu pai
� o presidente da C�mara Municipal.
N�o � a mesma coisa?
Se ele diz que n�o...
Ele deve saber.
O teu pai gosta do tambor?
� o instrumento mais importante.
Mais que o violino?
N�o me fa�as rir, n�o se compara.
Imagine um desfile militar ao som do violino.
Seria rid�culo!
Do ponto de vista militar...
Ele tem raz�o, � um instrumento maravilhoso.
� t�o marcial!
O tambor comove-me.
� a emo��o do patriotismo.
Quando o Presidente me ouviu tocar...
O Marechal Carmona?
At� chorou!
A humidade faz-me mal
ao reumatismo.
Depois deu-me um beijo, eu tinha 7 anos.
T�o pequenino?
Uma crian�a prod�gio.
Quem o convidou? A "paella" n�o era para ele.
Estava boa.
A minha mulher � uma chata, mas na cozinha...
� um "cordon bleu".
Por que n�o a convidas para dan�ar?
A Maria de Jesus?
Havia de ser a minha mulher.
N�o sei dan�ar.
Um pasodoble.
Animo, rapaz!
Troquemos. Pega no mastodonte.
Troquemos.
N�o sei...
Sabes, pois.
S� pasodoble...
Est�s aborrecido?
N�o me falas.
O teu noivo est� c�.
� um slow, n�o se troca.
Vem a meus bra�os.
Voc� � um desajeitado.
N�o o foxtrot...
Eu conduzo.
N�o � meu noivo.
O pai � amigo do t�o da minha m�e...
o Cura.
Ent�o...
Ent�o o qu�?
- Nada. - N�o sejas chato,
diz.
Se te der um beijo, zangas-te?
N�o sejas atrevido.
Parem essa m�sica!
� pecado dan�ar de cara encistada!
No campo, em pleno d�a...
Que exemplo para os pequenos!
E tu... bonito!
Vais ver quando o teu t�o souber.
Onde est� o malandro do Em�lio? A culpa � d�le.
N�o fique assim,
n�o fizeram nada de mal.
Nada de mal? Pareciam lapas! A lux�ria cega-vos.
- As crian�as... - Elas que aprendam!
Dan�ar assim � pecado, compreendes?
Querem dan�ar, n�o querem?
As dan�as folcl�ricas s�o muito bonitas.
Dancemos uma jota.
Todos juntos!
Ele � mais desavergonhado que tu.
- Que foi? - Que maroto!
Pobre anjo! Desmamaram-no cedo demais.
Eu tamb�m em sonhos.
Malandro!
Por que n�o te sentaste na camioneta comigo?
N�o ouviste a D. Transito?
Se nos v� juntos, vai dizer ao Cura.
Ralo-me l�!
Sabes como � que se beijam nos filmes?
Claro, disparate!
N�o sabes nada. O impedido do meu irm�o disse
que era com a boca aberta.
E com a l�ngua.
Experimentamos?
Agora, n�o.
Ent�o com a boca fechada.
Que est�s a fazer?
Lavo os dentes.
Vai-te deitar.
J� ia.
- At� amanh�. - Se Deus quiser.
Abre!
Levante-te.
Que ias fazer?
Coc�, a retrete � para isso.
Tapa-te j�.
Aviso-te que tenhas cuidado.
Acaba.
A mim n�o me enganam.
Apanhaste-os?
Tu at� desconfias da Estrela da Alva.
N�o deviam dormir no mesmo dormit�rio.
S�o duas crian�as.
Crian�as, pois...
Se visses o rapaz!
Duma grossura... como um homem.
Palavra?
Est�s a dormir?
Manolo.
Manolo.
Manolo, tenho medo.
Vi a Virgem Maria.
N�o digas asneiras.
Fizeste chichi!
Maria de Jesus.
Maria de Jesus.
Que desastre! Que abandono! Nem levanta um dedo.
Sou porteiro
e n�o "fact�tum".
Quer dizer,
n�o sou topa-a-tudo.
Se n�o fosse a sua mulher,
j� estava na pris�o, vermelho!
Espera.
- Porqu�? - Temos de ter cuidado.
D. Transito mandou consertar o vidro.
Quero l� saber!
E se ela nos apanha?
Ela julga que fui buscar f�sforos.
Ouve...
Assim, n�o.
Deixe-me.
Quando casamos?
Vais para Madrid e esqueces-me.
N�o, juro-te.
Fecho os olhos, abro e fecho.
N�o estudei.
Como aprendeu as coisas?
Fui escutando.
At� na Sorbona, em Paris. Nos caf�s.
Ouvi Unamuno durante horas,
quando esteve exilado em Fran�a.
Com que...
idade se pode casar?
"Perguntas se devo ou n�o casar."
Recitava um cl�ssico.
S�focles... ou S�crates.
Importa � que era grego.
"Perguntas se devo ou n�o casar.
Faz o que quiseres. Fa�as o que fizeres,
arrepender-te-�s."
- Que foi? - Deixa-me.
Tenho muito frio.
S� um pouco.
Ames-me?
Claro.
E tu, amas-me?
Vou arranjar emprego para casarmos.
Manolo.
Deixa-me ficar a dormir contigo.
A tourada � uma carnificina, faz-me pena o pobre animal.
O touro? Gosta que o matem.
Se for bem bandarilhado...
- Um cigarro? - N�o fumo, obrigado.
N�o fuma, n�o gosta de touradas...
Que beato, Em�lio!
Agradam-me os bandarilheiros,
elegantes, leves, viva�os...
N�o tem uma queda?
C�us, n�o!
Melhor. E tu que dizes?
Concordo quanto �s touradas.
� a influ�ncia francesa.
Falo dos teus pecados, n�o dos touros.
Pecados com a minha idade?
Conhe�o-te.
Pecas em pensamento.
Mas como pecar n�o � defeito...
Ouviram-no?
N�o lhe d� ouvidos.
� um liberal, mas tem um cora��o de ouro.
E a pequena, trabalha bem?
� boazinha e trabalhadora.
Rezo um ter�o por este desgra�ado?
N�o vale a pena, ele confessa-se.
D. Transito falou-me dum baile.
Um momento de descontrac��o
no campo, no d�a do almo�o.
Viste?
D. Teodulo,
o Cura, o t�o da minha m�e.
Queres ir � aldeia?
N�o percebes?
Ele veio confessar-nos e temos de comungar todos.
Tens de prometer uma coisa.
Promete que n�o lhe dizes nada
do que fizemos.
N�o lhe vais dizer?
�s doido?
Pois, � teu t�o.
Palerma! Ainda n�o compreendeste que � meu pai?
- E o pequeno-almo�o amanh�? - Depende da missa.
Pode ser �s 10,
escusam os mi�dos de estar tanto tempo em jejum.
- Perfeito, n�o? - Pensa em tudo.
Fizeram todos a primeira comunh�o?
Foi o que disseram.
Arrisca-se com os adultos ou prefere a inf�ncia?
Tenho t�o pouca experi�ncia...
Creio que prefiro os inocentes.
Estes curas novos!
Coragem. Fique com os maiores.
Ser� o seu baptismo de fogo.
E n�o se aflija, s�o santos.
Se fosse verdade...
Um palavr�o de vez em quando,
mais nada, tudo bem.
O confessor � que decide.
Desculpe,
mas estou habituado a D. Teodulo, que � amigo...
� tudo?
S� falta a absolvi��o.
D. Teodulo tinha raz�o,
somos santos.
Sr. Padre, confesso que pequei
por pensamentos e ac��es.
Sozinho e com outras pessoas.
Jesus, Maria, Jos�!
Estou arrependido.
Decidi mudar de conduta, mas...
Espera. Que idade tens?
Quinze anos.
Sant�ssimo!
Esses pecados contigo mesmo...
queres dizer que te tocaste duma maneira
indecente?
Sim, com a m�o.
Muitas vezes?
Poucas ou muitas?
Espere.
Anotaste!
At� aqu� foi em Madrid,
e depois foi aqu�.
Nossa Senhora do Socorro!
As cruzes s�o...
quando era sozinho,
a bolinha...
com outra pessoa.
Muitas?
S� com uma.
E estes actos impuros,
os da bolinha,
de que se tratou?
Imagine...
os dois sozinhos...
- Ele absolveu-te? - Sim, mas chorou.
Escusavas de ter dito tudo.
N�o disse que era contigo.
E tu...
n�o disseste nada ao teu pai?
N�o faltava mais nada!
Se comungas, ser� sacril�gio.
Parvo! N�o comungo.
O t�o da tua m�e vai perguntar...
Digo que me distra� e bebi �gua.
Ent�o hoje podemos
dormir juntos.
N�o, tu confessaste-te.
Amanh� bebo �gua.
Herege!
E se D. Transito sabe...
Andaste no passeio?
Tive de me aparamentar sozinho.
Preciso de lhe falar.
Depois. Ainda tenho outra missa na aldeia.
O inferno?
N�o sei se o inferno existe,
sou ateu.
Merda! A palavra explica-se sozinha, ateu.
N�o sei se h� outra vida ou n�o.
Se h�, que vai acontecer?
Nesse caso, � melhor a confiss�o.
Que � isso?
A bebida dos poetas malditos.
O absinto.
� muito bom!
Sabes quem foi Baudelaire?
E Verlaine?
Tamb�m n�o sabes. Rimbaud?
Muito menos. O Conde de Lautr�amont? Nem a menor ideia.
Sei um poema.
"Gosto das amantes Estendidas sobre o leito
Peito descoberto
Cintura desapertada
As pelas coxas nuas Os cabelos em desordem
Que prazer!
Espronceda. N�o � mau,
um tanto fraco. Enquanto que Verlaine...
Isso � que � poesia, puta!
N�o tens vergonha? Acabaste de te confessar.
Era um eufemismo.
Que te deu este porco para o escutares?
Cultura!
E embriagas-te.
S� um aperitivo.
� com a tua consci�ncia,
mas veremos quando o diabo te levar.
Garanto-te,
acabas no inferno!
O tanas, o inferno! E ent�o o c�u?
Pois �, ningu�m vai para o c�u?
Ao c�u, po�a!
Est�s b�bedo de todo.
Eu explico.
Bebe o caf�.
Estava com medo do inferno.
E a vergonha?
Queres que te pe�a perd�o?
Eu � teu espera, e tu a beberes!
Esperavas-me?
Sim. N�o era para nada,
s� para falarmos os dois.
Falamos agora.
Deixa.
� imposs�vel!
Onde est� a Maria de Jesus?
Em casa.
A chave!
Nunca! Ficas fechado at�
o teu irm�o vir.
D. Transito foi telefonar-lhe.
D�-me a chave.
Manolo, pe�o-te.
- Quero a chave! - Manolo!
D�-me a chave.
Manolo...
Se fores simp�tico...
n�o digo nada ao teu irm�o.
Manolo! Socorro! Vou gritar, Manolo!
N�o passas...
dum canalha.
Coitadinho!
Coitadinho.
T�o novinho...
e t�o viril.
D� isso a sua mulher, que eu tenho um recado a fazer.
Jesus!
Manolo.
N�o digas que fui eu que trouxe.
�s um bom malandro.
Ela chora como uma Madalena e tu
enfardas como um porco.
Manolo!
- Fizeram-te mal? - N�o. E a ti?
O meu pai...
o t�o da minha m�e deu-me com o cinto.
Olha a marca.
Que vamos fazer?
O meu irm�o vai vir.
D. Transito diz que vais
- para a pris�o. - Rala-me l�!
Meu homem!
- Meu pobre... - N�o digas isso.
Pod�amos fugir.
A Guarda Civil encontrava-nos.
Temos de dar uma solu��o.
Deita-te.
Est�s bem?
Amas-me?
Claro.
N�o queres que nos separemos?
Se eu ficasse � espera de beb�, obrigavam-nos a casar.
Desconfiei
logo.
Custa-me dizer-lho, mas o seu irm�o
� dominado pela lux�ria.
Palavra?
V�-se.
Palavra?
Os olhos brilham-lhe duma forma demon�aca
mal v� uma mulher.
Como a sua m�e deve sofrer!
� verdade.
E a directora, a D. Irene?
Gostava de a cumprimentar.
Ela est� desvairada.
Foi ela que os descobriu.
Que faziam eles?
Tinham ido longe?
Julga que estavam a rezar?
Pobre Irene!
Encontrei-a na enfermaria,
depois de lhe ter telefonado.
Ela n�o quer ver ningu�m.
- Porqu�? - Sente-se culpada.
Toma "Os Ensaios" de Montaigne.
- Tens a� as respostas todas. - N�o sei franc�s.
Os livros fazem mal ao c�rebro.
Trouxe-te uma merenda
para a viagem.
Grande malandro.
Come tudo, s� tens pele e osso.
Agitou-se tanto.
Comigo eram os azeites, mas com ela...
N�o ou�as estas carpideiras.
Pega nos teus trastes e vai para Paris.
Estuda. Para casares com ela quando cresceres,
pois � boa mocinha.
Manolo!
Obrigado por tudo.
D� um beijo ao teu irm�o e vamos embora.
Tamb�m quero ir.
Obrigado
e despe�a-se da Irene por mim, se faz favor.
Esperamo-la em Madrid.
Quero morrer!
Senhor, quero morrer!
Quero morrer!
Manolo!
- Que � isto? - Que faz aquela louca?
Tragam-me a espingarda!
Vai para casa, desgra�ada!
Padre,
sou o irm�o. Lamento muito.
Se n�o fosse militar, matava-o.
Manolo!
Manolo!
Manolo, amo-te!
Amo-te, Manolo!
Amo-te muito!
Largue-me!
Manolo!
Largue-me!
Sobe j�!
- Que foi? - A mala.
Vai busc�-la.
Levavas um bom estalo.
Era bem recheada, a pequena.
Por que se rala o Cura com ela?
Mesmo gira, a mi�da...
O trabalho que aqu� o Manolito d�...
Imbecil!
Ent�o n�o quer�a suicidar-se?
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