All language subtitles for Ordem Moral S01E03

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Original subtitles

Quero aqui uma mesa.

J� mandaram as suas coisinhas, minha senhora.

Se a senhora quiser posso ficar aqui a dormir consigo.

N�o quero.

Saia! V�-se embora!

A minha criada privativa chama-se Em�lia,

foi ela que me levou aos meus aposentos.

Um privil�gio a que tenho direito como internada de primeira classe,

com mais regalias e um quarto maior que os outros.

Espero, querida Berta, que n�o morras de inveja.

Na primeira noite n�o consegui pregar olho,

mas na noite seguinte acordei apavorada,

sem saber onde estava, sem saber se era um pesadelo ou a realidade.

Incr�vel.

Se me vissem nem me reconheceriam.

Cortei os meus cabelos brancos, que me ficavam t�o bem.

Minha senhora, n�o pode ficar deitada todo o dia.

N�o lhe faz bem.

Vou apresent�-la a duas senhoras.

O meu robe?

- � um romance? - Uma tradu��o.

De um romance?

- De uma pe�a. - Mademoiselle Julie. Francesa.

Sueca. Vi-a em Fran�a antes da guerra.

- E � sobre o qu�? - Uma rapariga e o criado.

Um chauffeur.

Um criado-chauffeur ou um criado-criado?

Um criado-criado.

Eu c� n�o podia com um criado.

Nem com um chauffeur. Tu podias?

Depende.

Ent�o �s tu que vais fazer a rapariga.

Eu fa�o o criado.

S�o homens como os outros.

N�o acha que engordei?

Talvez um nadinha, mas fica-lhe bem.

Como os cabelos brancos da Maria Adelaide?

Tem novidades dela?

- Atrav�s do Egas. - E ent�o?

Nada. Est� a ensaiar uma pe�a com as outras doidas.

Alfredo, a Maria Adelaide n�o � doida.

N�o? Meter-se com um fedelho que podia ser filho dela.

Se tivesse ju�zo arranjava algu�m da idade dela.

Que pe�a �?

� uma coisa moderna, um drama escandinavo que vimos em Paris.

Por falar em pe�a, vou ter tempo para acabar a minha.

Assino a venda do jornal no fim da semana.

- E a Maria Adelaide? - N�o lhe disse?

O tribunal vai acabar por pronunciar a senten�a de interdi��o,

ent�o s� eu � que decido.

Sempre era o jornal do pai dela.

Foi o pai dela que o fundou, mas fui eu que o fiz.

Bom, � tarde. Vou indo.

Vemo-nos para a semana?

Para a semana n�o sei se posso.

Eu depois mando-lhe recado para o jornal.

Sophia?

Sophia?

A ideia � transformar aqui na cozinha.

A minha secret�ria faz a mesa da cozinha.

Vamos puxar a cama para c�.

Que nojo!

Assim est� bem.

Obrigada. N�o bebe tamb�m?

Se � uma ordem.

E beba � minha sa�de.

� sa�de da minha senhora.

Bravo!

E agora, para a cena ser perfeita, beije-me o sapato.

Excelente! J� foi ator, com certeza.

� melhor pararmos, menina. Pode vir algu�m e ver-nos.

Que mal tem?

Sil�ncio no p�blico.

Vamos ao parque apanhar lilases.

- Com a menina? - Sim, comigo.

N�o pode ser. N�o pode ser, mesmo.

N�o percebo o que � que isso quer dizer.

Estar� por acaso a supor que...

- Eu n�o, mas est�o os outros. - O qu�?

Que eu estou apaixonada pelo criado?

N�o quero armar-me em convencido, mas �s vezes essas coisas acontecem.

Senhora Dona Maria Adelaide, desculpe.

Permita-me, no entanto, alert�-la para um problema.

Qual problema, senhor Doutor?

A sua amizade com a dona Mafalda,

aqui internada por manifesto e assumido desvio emocional.

Sexual, senhor Doutor.

Sexual. Desvio sexual.

Mas n�o tenha receio. Eu sei o que fa�o, o que sinto,

o que quero.

O que � que preferem? O que � que t�m mais medo?

Que eu seja louca, que eu seja puta,

que eu seja l�sbica?

Que seja tudo isso ao mesmo tempo?

Pe�o perd�o, madame.

Desculpe, � novo, veio arranjar o teto.

Desastrado.

Que desastrado.

Isto com tr�s alfinetes vai ao s�tio.

Passa-me o colete.

Seria a libr�?

Foi o que foi poss�vel arranjar, minha senhora.

Nesta casa os enfermeiros n�o usam libr�.

Parece mais um taberneiro galego do que um criado sueco.

Taberneiro...

- O que � que tem nesse olho? - Deixe-me ver.

� um gr�o de poeira, isto j� passa.

N�o, sente-se a� e deixe-me ver!

Fa�a o que lhe estou a dizer. Esteja quieto!

Esteja quieto!

Porque � que est� a tremer assim, um homem do seu tamanho?

Com estes m�sculos.

- Menina J�lia. - O que foi, senhor Jean?

Cuidado!

Eu sou apenas um homem.

C� est�, j� saiu.

Agora beije-me a m�o e diga obrigado.

Muito bem, mas depois s� poder� queixar-se de si pr�pria.

De qu�?

Com 25 anos j� n�o � uma crian�a.

N�o sabe que � perigoso brincar com o fogo?

Para mim n�o. Estou segura.

N�o, n�o est�.

E mesmo que esteja h� muito por onde atear um fogo.

Refere-se a si?

Sim.

N�o por se tratar de mim, mas porque sou novo e...

De boa figura?

Presumido.

Est� a tocar para a ceia. Acabou o recreio!

- Como � que eu estive? - Magn�fica, querida!

Maria Adelaide?

Magn�fica. A s�rio.

Ladr�o!

Vai denunciar-me?

Meu Deus! C�mplice de um ladr�ozeco!

Ter-me-ei embriagado? Ser� esta noite um pesadelo?

A noite de S. Jo�o, a noite dos prazeres inocentes.

Inocentes?

Haver� algu�m neste mundo t�o infeliz como eu me sinto agora?

E porque h� de sentir-se infeliz? Com uma conquista destas.

J� pensou na Cristina? No que ela pode estar a sentir?

Pensei, mas de relance. Uma criada � uma criada.

E uma puta � uma puta.

Criado! Lacaio!

Ponha-se de p� enquanto estou a falar consigo!

Pega de criados, puta de lacaios!

Cala essa boca e p�e-te a andar daqui!

�s tu que me vens ensinar a n�o ser ordin�rio?

Ningu�m na minha condi��o foi t�o ordin�rio como tu foste esta noite.

Julgas que alguma rapariga do pessoal se atirava a um homem

dessa maneira?

Viste alguma rapariga da minha classe atirar-se assim a um homem?

Eu nunca vi.

Assim s� os animais e as prostitutas.

Minha senhora! Minha senhora!

Mataram o Presidente da Rep�blica! Mataram o Sid�nio!

Mafalda!

Ele era um pr�ncipe.

Escrevi-lhe 112 cartas, dia sim, dia n�o,

desde que o vi pela primeira vez num camarote no Trindade.

Nunca me respondeu.

Deu-me esta fotografia e pediu que eu parasse,

mas eu nunca parei.

Respeitosamente, Sid�nio Pais.

Eu queria l� que ele me respeitasse!

V� l�, Mafalda, s� forte. Vai dormir, anda.

N�o! Deixa-me ficar contigo.

Eu n�o quero dormir sozinha, deixa-me ficar aqui.

Deixa-me ficar contigo. N�o quero ficar sozinha.

Deixa-me ficar aqui contigo.

- N�o. - N�o?

Toca a festejar a morte do tirano!

Manuel.

Manuel.

Para onde vamos, Manuel?

Para uma casa onde ningu�m pensar� em procurar-vos.

Estar�o em boas m�os.

Levo-vos l� e volto imediatamente para Lisboa.

- Porque n�o ficas connosco? - Porque n�o precisam.

N�o te inquietes, j� � tarde para impedir esta vossa loucura.

Podes contar comigo. Agora e sempre.

O queres dizer com isso? O que � que se passou?

N�o se passa nada.

Porque � que n�o vamos para Espanha?

Aproveitamos a confus�o, isto est� um pandem�nio.

Precisamente por isso. A inseguran�a � imensa.

Vamos ficar mais uns dias.

Eles v�o acabar por desistir.

Eles quem?

O seu marido, a fam�lia.

Querido Manuel, �s t�o ing�nuo.

Mas n�o nos conheces.

N�o podemos ficar aqui mais tempo.

Sinto-me inquieta.

Ontem tive a impress�o que algu�m nos espiava.

Nem os lobos sabem que isto existe.

S� os pais do C�cero c� v�m. Com eles podemos contar.

N�o aguento mais, esta solid�o �-me mais pesada que o hospital.

Nem sequer tenho com que me vestir.

- Quando poderemos ir � cidade? - S�o quatro horas a cavalo.

O C�cero volta dentro de dois dias. Veremos com ele o que fazer.

Preciso de contratar um advogado. Quero tratar do meu div�rcio.

Se n�o for de carro, vou a cavalo.

Minha senhora.

Est�o presos! N�o se mexam!

Onde � que ela est�?

Est� aqui.

Pr�xima!

Despache-se mulher! Temos mais que fazer.

Mas eu n�o estou presa! N�o me podem prender!

N�o estou presa nem estou louca!

Abram a porta!

Tirem-me daqui!

Se me fecham aqui enlouque�o!

Eu n�o sou doida! N�o sou doida!

N�o! N�o!

N�o sou doida!

Bernardo Lucas, advogado.

Os seus amigos contactaram-me para eu o ajudar.

Se aceitar s� tem de me constituir seu advogado.

Claro que aceito.

- Eles precisam de si l� fora. - J� sei da hist�ria.

Obrigado. Mas � preciso libertar a Maria Adelaide,

sem ela � complicado tirarem-me daqui.

Se ela quiser posso ocupar-me do caso dela tamb�m.

Quer, com certeza. Diga-lhe que fui eu que lhe pedi.

Bom, agora vamos tratar de si.

A acusa��o � grave: rapto e viola��o.

A pena requerida � de 25 anos de degredo.

25 anos?!

- Est�o loucos. - N�o, n�o est�o.

Mas porque t�m dinheiro e poder pensam que tudo podem. Enganam-se.

A Maria Adelaide perdeu completamente a raz�o.

Agora diz que tento enlouquec�-la e que a quero roubar.

S�o aqueles canalhas que se querem aproveitar dela.

A fortuna de sua m�e pode comprar muitas vontades e cumplicidades.

Mas como a impedir?

O tipo de dem�ncia que aflige a sua esposa

transporta-a para um outro mundo, mas que se torna o seu mundo.

E depois, sendo rica,

provoca noutros mais atentos e interesseiros

expetativas e invejas inconfess�veis.

Meu caro J�lio de Matos, podemos proteg�-la dessa quadrilha?

Posso evitar que ela caia nas m�os dessa escumalha?

Pode. Se a sua fam�lia quiser pode.

Queira sentar-se.

A Sra. D. Maria Adelaide Coelho da Cunha, que todos conhecem,

os doutores...

Conhecemo-nos todos. Dispenso as apresenta��es.

Mas n�o quero deixar de agradecer a presen�a t�o reconfortante

da minha irm� e do meu filho.

Bem, estamos aqui reunidos com o �nico prop�sito...

De me declararem irrespons�vel e legalizar o roubo

do Di�rio de Not�cias e do meu restante patrim�nio

por Alfredo da Cunha e seu filho, Jos� da Cunha, aqui presente.

Com o �nico prop�sito, minha senhora,

de tentar definir o mal de que padece.

O historial da sua fam�lia � avassalador, fala por si mesmo.

O meu advogado comunicou-me o dossier onde sujam a minha fam�lia:

tias, tios, primos, av�s, todos s�o doidos ou doentes.

Tratei pessoalmente um dos seus tios,

Francisco Adolfo Coelho, de uma neurastenia.

O que n�o impediu o dito senhor de ocupar, at� ao fim da vida,

a cadeira de Lente, no curso de Letras, em Lisboa.

Temos tamb�m o caso da sua tia, Amab�lia Eduarda Maria,

que tentou suicidar-se.

Essa senhora, inteligent�ssima e de uma atividade extraordin�ria,

sobreviveu a essa tentativa e morreu de velha aos 70 e tal anos.

Bom, deixemos a fam�lia.

Mas n�o nega que � pelo menos inconveniente de algu�m da sua idade

deixar-se arrastar a estes extremos pelos seus sentimentos.

E o que � que os senhores t�m a ver com os meus sentimentos?

De que extremos se atreve a falar?

Foi o Dr. Cunha, com o vosso acordo e talvez com os vossos conselhos,

que me fechou nesta casa dos esp�ritos.

E por fim, Dr. J�lio de Matos,

acho extremamente indelicado fazer refer�ncia � minha idade.

Conhece a idade do seu amigo Alfredo da Cunha?

E a das suas amantes?

Ele n�o abandonou o domic�lio conjugal.

Se o tivesse feito

eu n�o lhe teria lan�ado uma matilha de c�es em cima.

Doutor Sobral Cid.

Minha senhora, n�s n�o estamos aqui para ser julgados.

O nosso dever profissional � lembrar-lhe

as transforma��es que sofreu, das quais fomos testemunhas,

antes do seu desaparecimento.

A sua teatralidade, o seu gosto pela dissimula��o e a mentira,

s�o exatamente os sintomas de uma patologia hist�rica.

Hist�rica?

Se assim o pretendem.

Mas foi precisamente a dissimula��o,

a mentira a que me obrigaram, que, ao tornarem-se insuport�veis,

me fizeram abandonar o domic�lio conjugal.

O que � mais leal, senhores doutores,

meu muito querido filho? O que eu fazia ou o que eu fiz?

J� fui considerada irrespons�vel?

N�o, ainda n�o, mas a press�o � muito forte.

O senhor � o advogado do sindicato?

Sou, sim, senhora.

Aceitaria ser meu advogado?

Ser� uma honra.

H� que fazer tudo para que n�o seja declarada irrespons�vel.

S� assim a venda do jornal sem a minha autoriza��o

poder� ser ilegal. Espero que n�o seja tarde demais.

Esse combate parece-me dif�cil.

- N�o vai depender muito de n�s. - Veremos.

E diga ao seu cliente, diga ao Manuel,

que farei tudo para o ilibar e libertar.

Mas para isso tem de me fazer sair daqui.

Isso sei que vou conseguir.

Entre.

Apresento-lhe o senhor Governador Civil,

doutor An�bal Cruel.

Ganh�mos, senhora, ganh�mos.

Queira sentar-se, dona Maria Adelaide.

Por ordem do Governo da Rep�blica

e de acordo com o requerimento do seu advogado

vou p�r fim ao seu internamento.

E como ele n�o significa priva��o da liberdade,

esta senhora vai sair daqui comigo

sem que haja quebra de respeito pelo internamento judicial.

A senhora Maria Adelaide est� impaciente

para falar com os senhores jornalistas.

Boa tarde.

Meus senhores, como imaginam, pe�o-vos que mantenham em segredo

o local deste nosso encontro.

Aqui estou.

Sa� da minha pris�o gra�as a uma esp�cie de milagre jur�dico.

Mas quando Alfredo da Cunha o soube

contactou o ministro do Interior, que revogou a sua pr�pria decis�o.

Sou obrigada a esconder-me como uma criminosa

quando o verdadeiro criminoso frequenta e influencia

as altas esferas do poder, servindo-se de uma fortuna

que n�o lhe pertence

e ainda conseguiu encarcerar quem verdadeiramente me ajudou

inculpando-o de rapto e viola��o.

Atrav�s dos vossos jornais ajudarei a libertar Manuel Claro,

o homem que nunca me traiu.

Com a vossa ajuda me vingarei, resistindo e denunciando

a trag�dia que vivi e ainda vivo.

Sophia!

N�o me reconheces? Sou a Berta!

Berta!

Ent�o?

Julgava que ainda estavas em Angola.

- Mo�ambique. - Isso.

O Paulo foi chamado ao minist�rio, uma promo��o.

Que bom, n�o fazia ideia.

� incr�vel, tu est�s na mesma.

N�o estou nada. Estou mais velha.

Tu � que n�o mudaste nada.

N�o achas que engordei?

Um tudo nada, talvez. Mas fica-te bem.

E a Maria Adelaide? Tens tido not�cias?

Acho que continua l� para cima. Sempre com o chauffeur, imagina.

Quem eu revi foi o filho, o Z� Eduardo.

No funeral do pobre Alfredo.

Sabias que, no fim, ele acabou a viver com a governanta?

Quem? O Z� Eduardo?

N�o, o Alfredo.

O Z� Eduardo acho que casou com a dama de companhia da madrasta.

- Que fam�lia. - Destinos.

N�o se esque�a, dona Am�lia.

Diga � Mariazinha que amanh� lhe ensino o n� franc�s.

Trago eu as agulhas.

- At� amanh�. - At� amanh�.

Cansada?

Um nadinha.

E tu?

Passei a tarde sentado no carro a ler o jornal.

Tr�s clientes.

Todos no centro.

Compraste-me o livro?

� ela que devia contar a nossa hist�ria.

Quem sabe?

Manuel, traz-me a manta escocesa, por favor.

Levantou-se uma aragem.

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