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Boa noite e bem vindos a uma apresenta��o particular...
de tr�s quadros exibidos aqui pela primeira vez.
Cada um �, � sua maneira, uma obra de arte.
N�o por alguma qualidade art�stica especial...
mas porque cada quadro mostra...
suspenso no tempo e no espa�o...
um momento congelado de um pesadelo.
O primeiro � de uma pintura g�tica em tons de cinza e preto.
Um peda�o do passado conhecido como a cripta da fam�lia.
A este chamamos simplesmente "O Cemit�rio".
� seu, se quiser. Dois metros de terra e tudo o que ela cont�m.
Senhoras e senhores, esta � a Galeria do Terror.
Precisa de algo mais, sr. Hendricks?
Vou lev�-lo para perto da janela, senhor, por alguns minutos.
Ele n�o comeu muito hoje.
Ele come pouco ao almo�o, senhor.
Ent�o, por que serve tanta coisa, Portifoy?
� um desperd�cio, Portifoy.
O sr. Hendricks n�o se queixa, sr. Jeremy.
E o dinheiro � dele.
Me diga uma coisa, Portifoy.
Durante os 30 anos que passou servindo fielmente...
esse peda�o de carne meio morto que est� l� em cima...
n�o sabia que em algum lugar havia um sobrinho, n�o �, Portifoy?
Nem mesmo o seu tio sabia, senhor.
Bom, agora j� sabem.
Por isso pense nisso, Portifoy.
Me diga uma coisa, Portifoy.
Quando foi que meu tio pintou isso?
Antes de sua �ltima embolia.
Muito alegre.
Faz qualquer um duvidar que meu tio tenha um m�nimo de talento...
como tamb�m de sua sanidade, com sua m�rbida obsess�o pela morte.
O que o meu tio fazia para se divertir antes de ficar doente?
Com tanto dinheiro...
Quais eram seus outros interesses al�m da pintura?
A pintura sempre foi o seu �nico prazer, senhor.
E tamb�m a casa. Era tudo o que lhe importava.
Sim. Isso era o que minha querida m�e dizia, Portifoy.
Morreu relativamente jovem por trabalhar demais...
e ter orgulho em excesso.
N�o podia rebaixar-se a procurar seu irm�o rico e recluso.
Sua dignidade estava acima de tudo.
Esta era a sua maior qualidade, a dignidade.
Como resultado, passei grande parte da minha vida...
tomando gosto pela vida boa, mas sem ter meios.
Muito triste, senhor.
� s� uma tristeza passageira, Portifoy.
Se a pintura era o �nico capricho do meu tio...
acho que ele ter� uma exist�ncia muito mais despreocupada...
a partir do dia em que deixar de ver esta paisagem...
e passar a fazer parte dela.
Por que n�o diz o que pensa?
- Sou um sem-vergonha, certo? - � um canalha, senhor.
Que criatura ador�vel.
Pode dizer o que quiser. Est� ouvindo, Portifoy?
Porque quando eu for dono desta casa...
se voc� n�o andar nos trilhos direitinho...
vai se arrepender do dia em que nasceu.
Tio.
Tio, vim conversar um pouco com o senhor.
N�o, n�o. N�o se mova, n�o senhor.
Fique sentadinho a� e deixe que eu fale.
Tive uma manh� muito interessante, sabe?
Li toda a correspond�ncia que estava em seu escrit�rio.
E advinhe o que encontrei!
Sim, correspond�ncia.
Cartas para o seu advogado.
A respeito de qu�?
A respeito de seu testamento.
O seu estilo liter�rio me impressionou, tio.
Sim senhor. Preciso e direto no ponto.
Diz somente o que precisa dizer. Me impressionou muito.
E quanto ao conte�do, me impressionou ainda mais.
Descobrir que minha m�e era sua benefici�ria...
me comoveu, tio. Me comoveu profundamente.
O que mais havia? Sim, eu anotei.
Aqui est�.
"Se ela n�o mais estiver viva...
tudo ir� para o seu �nico descendente".
Tio.
Ao ler isso, pode acreditar...
eu chorei.
Chorei de verdade.
Que grande cora��o. Que desprendimento.
Est� quente aqui.
N�o acha, tio?
Muito bem.
Isso. Assim est� melhor.
N�o precisa chamar o Portifoy, tio.
Ele j� est� velho. Por que importun�-lo?
H� 30 anos ele o serve fielmente.
Por que n�o lhe dar a tarde de folga?
Agora...
seus m�dicos disseram para te manter longe das correntes de ar.
Parece que o senhor pode se resfriar e at� ter uma pneumonia.
Que tal se pusermos � prova esses conselhos m�dicos?
Podemos ver o qu�o forte o senhor �.
N�o � refrescante, tio?
O frio! O vento!
N�o s�o revigorantes?
E pense nisso tio.
A �ltima coisa que ver� na vida...
ser� o cemit�rio da fam�lia a� embaixo.
Lembre-se bem dele.
Observa-o bem, como um morador observa a sua nova morada.
Muito bem. Agora vou deix�-lo.
Nigu�m vai aborrec�-lo.
Nem Portifoy e nem eu viremos a seu quarto na pr�xima hora.
Melhor ainda, nas pr�ximas duas horas.
Deve ser tempo o bastante...
para simplificar as coisas.
Continua tudo na mesma.
Dizem os m�dicos que o coma pode durar bastante tempo.
Que pena.
Me comunicaram que j� est� sabendo...
de certos pontos do testamento.
S� dos pontos que estavam...
em documentos no escrit�rio do meu tio.
Diga-me, quem lhe contou da minha reconfortante descoberta?
Um passarinho.
Um passarinho vestido de mordomo...
que deve tomar cuidado para que n�o lhe cortem o bico.
De qualquer modo...
j� que a minha m�e era a benefici�ria principal...
e eu sou o seu �nico descendente...
isso significa que vir� tudo para mim.
O homem ainda n�o morreu!
Pode por favor conter-se...
at� que ele morra realmente?
O sr. Hendricks faleceu.
Nunca recobrou a consci�ncia.
J� posso reclamar a minha heran�a?
Seria pedir muito que se encarregasse primeiro do funeral...
e mostrasse um pouco de pesar?
� um requisito legal, senhor advogado?
Digamos que � o que se esperaria de um homem civilizado...
como um gesto de respeito e agradecimento.
Ver�, sr. Carson...
que n�o sou um homem civilizado.
Sou um sobrinho ovelha negra...
muito ego�sta.
Doutor, por favor, cuide do enterro e dos proclamas.
- E ponha na conta. - Ele ser� enterrado no cemit�rio da fam�lia.
- Me pediu isso v�rias vezes. - Encantador.
Se algu�m precisar de mim...
estarei l� dentro.
Doutor!
Ele n�o deveria estar coberto, com as m�os cruzadas sobre o peito?
Digo, n�o � parte do ritual que ele pare�a estar em paz?
Ele deveria ressuscitar...
a tempo de deserd�-lo e chut�-lo daqui para fora.
Isso lhe daria paz.
N�o � necess�rio que nos acompanhe � porta, Portifoy.
Quer prestar-lhe os �ltimos respeitos?
- Est� morto, senhor? - Para sempre.
Algo importante, Portifoy.
H� uma pequena parcela legada a voc� no testamento.
Acho que 800 d�lares enquanto viver.
800 d�lares?
Oitocentos d�lares... por m�s.
Gostaria de permanecer aqui, senhor, se me permite.
Excelente. Muito bem.
Ent�o, Portifoy, a primeira ordem do dia...
� que tire daqui todas essas pinturas horr�veis e...
Algum problema, senhor?
- Que coisa estranha. - Estranha, senhor?
- Veja isso. - O que � senhor?
O quadro, essa pintura. Olhe!
Foi alterada.
N�o compreendo.
N�o tem olhos? N�o est� vendo?
� uma tumba rec�m aberta.
N�o h� nada a�, senhor.
Bem, deixa para l�.
Pode retirar-se. Sirva o jantar � hora de sempre.
Sim.
A� est� o meu c�o de guarda. � Osmond Portifoy.
Se n�o precisa mais de mim, senhor, trancarei tudo e irei dormir.
� essa a sua vida, n�o �, Portifoy? Trancar tudo e ir dormir.
Quando eu morrer levarei comigo a sua imagem...
andando pela casa todo empertigado...
carregando uma bandeja sobre o bra�o...
e me olhando de modo recriminador.
� assim que olha para mim, n�o �, Portifoy?
Por que ser�?
� como...
Como um gerente de banco olha quando encontra um balan�o errado.
Mudou de novo!
Mudou de novo!
Agora h� um ata�de na pintura.
Agora h� um ata�de a�. Isso n�o estava a� antes!
Em nome de Deus, o que est� acontecendo?
Trouxe-lhe um pouco de ch�, senhor.
N�o quero ch� nenhum.
Como quiser, senhor.
Sim senhor?
Cuidou da pintura, como pedi?
Sim senhor. Est� l� pendurada como sempre.
Como sempre?
N�o entendo.
Eu a queimei. Atirei-a no fogo.
Eu a vi queimar e virar cinzas.
E a� est� ela, na parede... como sempre.
� sua imagina��o, senhor.
Imagina��o?
O senhor me queimou de prop�sito.
N�o, Portifoy. Foi a sua imagina��o.
A bandeja, o bule, a sua m�o queimada...
s�o s� a sua imagina��o.
N�o � essa a explica��o que se d�...
para explicar todas as coisas estranhas que acontecem por aqui?
N�o � imagina��o, � uma alucina��o prolongada.
Deixe tudo a�. Se quiser algo, te chamo.
Se me chamar, sr. Jeremy...
ser� � longa dist�ncia.
Do que est� falando?
N�o passarei outra noite nesta casa.
Em vida, ele precisava de mim.
Mas depois de morto, � obvio que � forte o bastante para cuidar de si mesmo.
Escute, velho, a morte � definitiva. � o fim de tudo.
N�o acredito nisso, sr. Jeremy.
Acredito existirem coisas mais fortes do que a morte e mais duradouras do que a tumba.
Acredito que o �dio seja mais forte do que a morte, sr. Jeremy.
E acredito que est� vendo isso agora.
Passarei a noite no hotel da cidade e amanh� mando buscar minhas coisas.
Mas, eu eu? O que vou fazer?
Quem vai cuidar de mim?
Use sua imagina��o, sr. Jeremy. � muito bom nisso.
Me diga uma coisa, tio.
Por que n�o fica quieto onde est�?
Esta � a �nica homenagem que receber� de mim! Vivo ou morto!
Telefonista, ligue-me com o hotel da cidade.
Eu sei, mas eu n�o tenho o n�mero.
Ficaria muito agradecido.
Al�? Gostaria de falar com Osmond Portifoy?
Registrou-se a� esta tarde.
Como n�o pode cham�-lo? Voc� tem que...
N�o me importa se s�o tr�s horas da madrugada!
Telefonista.
Meu nome � Jeremy Evans. Estou na residencia Hendricks.
H� um invasor aqui.
Mande a pol�cia imediatamente.
Ele est� l� fora. Por favor chame a pol�cia...
e pe�a que venham imediatamente.
Sim, sim.
Quem �?
Quem est� a�?
Quem est� a� fora?
Voc�!
N�o pode estar aqui! Voc� est� morto e enterrado!
Voc� morreu!
Deveria estar em sua tumba! Voc� est� morto!
Al�, doutor?
Quem fala � Portifoy, da casa do sr. Hendricks.
Aconteceu um acidente, senhor.
Parece que o sr. Jeremy caiu das escadas.
Creio que est� morto.
Parece que quebrou o pesco�o.
Obrigado, doutor. Deixarei uma luz acesa.
Creio que merece umas longas f�rias, Gibbons.
Desempenhou sua tarefa... extraordinariamente bem.
De verdade.
Quinze pinturas a 500 d�lares cada uma.
E diria que foram bem baratas, pelo resultado.
Estou de acordo.
Obrigado.
- Posso contar? - Se quiser.
Est� tudo a�, mais 500 d�lares adicionais.
Pode n�o ser um Rembrandt, Gibbons, mas voc� tem uma assombrosa habilidade...
para imitar o estilo de outras pessoas.
Suponho que tenha meios de me pagar.
Economizei toda a minha vida.
Mas logo estarei bem de novo.
Esqueci de lhe dizer...
que o sr. Hendricks me tinha muita considera��o.
Estipulou em seu testamento que se n�o houvesse descendentes vivos...
seis meses ap�s o seu falecimento...
todos os seus bens seriam herdados por seu velho criado...
e mordomo.
Ande, Gibbons. Aproveite os frutos de seu trabalho.
E se o sobrinho n�o tivesse quebrado o pesco�o?
O que teria feito?
Teria posto algo em sua bebida?
N�o seja rude, Gibbons.
Se esse lament�vel acidente n�o tivesse acontecido...
ele teria enlouquecido lentamente.
E ao ser colocado em um manic�mio, eu estaria exatamente onde estou agora.
O mesmo fim, mas por meios diferentes.
Pode jogar isso fora para mim?
A morte me deprime.
A partir de hoje este ser� um lugar alegre.
Boa noite, Gibbons.
Boa noite, Portifoy.
Sr. Portifoy.
Sr. Portifoy.
Descanse em paz, sr. Hendricks.
Descanse em paz.
Para tr�s, Jeremy. Para tr�s, Jeremy.
Para tr�s, Jeremy!
Volte para a sua tumba!
Para tr�s.
Para tr�s, Jeremy.
Obra de arte n�mero dois.
Um retrato da srta. Claudia Menlo.
Uma rainha cega que reina em um apartamento de luxo na 5� Avenida.
Uma matrona imperiosa e mal�vola...
que logo encontrar� uma escurid�o mais negra que a da cegueira.
Esta � a sua hist�ria.
- Desculpe. - Procura a srta. Menlo?
No �ltimo andar. � a �nica no pr�dio.
- Eu sei. - Voc� a conhece?
Sou o seu m�dico h� anos.
- � um retrato muito bom dela. - N�o muito, doutor.
H� algo que n�o pude capturar.
- O que �? - Sua crueldade.
- � cega desde que nasceu. - Causa e efeito...
H� um m�s estou pintando isto.
Um verniz final e estar� pronto.
Sempre me perguntei que tipo de mulher construiria um pr�dio na 5� Avenida...
para ser sua �nica moradora.
Vou lhe dizer que tipo de mulher, doutor.
Um pequeno monstro. � isso o que ela �.
- Boa tarde. - Ol�, doutor.
A senhorita o espera. Quer que guarde o seu casaco?
N�o, obrigado.
Como � pontual, doutor! S� chegou uma hora atrasado.
Vi o seu retrato. Creio que o artista a favoreceu.
Se o fez, dr. Heatherton...
foi o �nico em meus 54 anos de vida.
Ningu�m nunca me favoreceu em nada.
Come�ando por Deus.
Desculpe por ter chegado tarde. Estive o dia todo em uma cirurgia.
Isso me impressiona. Sempre me impressiona.
O constante e eterno salvador.
Sobre o que quer falar?
Sobre o que j� falamos ao telefone.
Como lhe disse, srta. Menlo...
a opera��o sobre a que me perguntou s� foi tentada em animais.
- Com �xito. - Um chimpanz� e um c�o.
Em ambos foram injetados nervos �ticos de doadores cujos olhos estavam s�os.
Em ambos os casos, puderam ver.
Um, por uns momentos. O outro, por umas horas.
Os doadores, � claro, ficaram cegos.
� tudo s� uma experi�ncia.
Se funciona em animais, pode funcionar em seres humanos.
N�o � preciso ser um cirurgi�o famoso para chegar a esta conclus�o.
Famoso ou n�o, srta. Menlo...
nenhum cirurgi�o chegaria a esta conclus�o e a tentaria.
Deve compreender uma coisa, srta. Menlo.
Em primeiro lugar, o melhor que poderia esperar...
supondo que o trasplante do nervo �tico tenha �xito...
seriam umas 11 ou 13 horas de vis�o. N�o mais.
Logo estaria cega de novo.
Mas h� ainda um obst�culo inconteste.
Que obst�culo?
Precisa de algu�m disposto a renunciar � sua vis�o para sempre...
para que a senhora a tenha por 12 horas.
N�o creio que exista tal pessoa.
Bobagem, doutor. Todos t�m um pre�o.
Por seus olhos? Tenho minhas d�vidas.
Est� equivocado.
Meu advogado encontrou esta pessoa.
Defendeu-a em um caso criminal h� algum tempo.
O homem precisa muito de dinheiro.
Aceitou doar seus olhos e deixar de ver...
- por uma certa quantia em dinheiro. - Quanto?
Novecentos mil d�lares.
Foi o que pediu e eu pagarei.
Srta. Menlo, ou�a-me com aten��o.
S� existem quatro homens que podem realizar esta cirurgia.
Sou um deles, mas n�o posso falar pelos outros.
Eu tiraria a vis�o de uma pessoa...
para que a senhora a tenha por umas horas, tanto quanto mataria uma crian�a.
Fui claro?
Quero que leia algo, dr. Heatherton.
Neste envelope tenho um dossi� completo...
sobre o dr. Frank Heatherton.
O impec�vel dr. Heatherton.
O respeit�vel dr. Heatherton.
Vamos.
Leia.
Eu lhe disse que todos t�m um pre�o.
� porque todos t�m algo a esconder.
E o senhor, doutor...
tem mais do que todos.
Acho que est� tudo a�.
Lembra da jovem?
A srta. Grace Reardon, de 22 anos...
que morreu em uma mesa de cozinha porque o aborteiro...
tinha os h�bitos higi�nicos de um porco e a destreza cir�rgica...
de um encanador.
Ela foi ver este carniceiro ao inv�s de voc�...
este m�dico de moral r�gida e limpeza extrema...
que em algumas vezes, como nessa ocasi�o...
revelou um lado ligeramente mais escabroso de seu car�ter.
A divulga��o destas informa��es...
atrapalharia bastante a sua carreira profissional...
e o seu casamento.
N�o � mesmo, doutor?
Sim, obviamente me destruiria como m�dico...
e acabaria com o meu casamento de 25 anos.
Se � isso o que quer fazer, srta. Menlo...
tem todos os meios necess�rios.
Como deve ter notado durante todos esses anos...
que tem cuidado de mim...
n�o estou interessada em ajudar ou arruinar ningu�m.
N�o me importam suas atividades extra-curriculares...
ou as negociatas de meu advogado...
ou qualquer coisa que n�o me envolva.
O que sempre me interessou, minha �nica preocupa��o, doutor...
� a minha pessoa.
11 horas, 12, menos ou mais, n�o importa.
Quero ver alguma coisa.
�rvores, pr�dios, animais...
flores, avi�es, cores!
Os ricos ociosos.
Precisam fazer algo para acabar com a monotonia.
Como fu�ar a terra, igual a um c�o buscando um osso...
e finalmente desenterrar o que um homem deve manter em segredo...
para garantir a sua sobreviv�ncia.
Muito bem, srta. Menlo.
Por que? N�o sei, mas dou muita import�ncia � minha sobreviv�ncia.
Farei a sua cirurgia. Quem � o doador?
Meu advogado lhe dar� todas as informa��es.
� um meliante sem import�ncia.
Combine tudo com Packer.
Quero que seja o quanto antes.
Est� claro, doutor?
O que est� claro � que satisfar�...
um capricho durante umas poucas horas...
e um homem perder� seus olhos gra�as a mim.
S� espero que ele se d� conta...
do quanto perdeu por t�o pouco.
Lou, n�o fa�a isso comigo.
Sabe como fico enjoado.
Conte outra, Sidney.
Por favor, tenha compaix�o.
Estou enjoado. Esta coisa me faz sentir doente.
Te faz sentir doente?
Voc� n�o sabe o que isso significa.
Isto � ficar doente:
Me deve muito dinheiro, e h� tempo demais.
Isso � ficar doente. Ficar doente at� a morte, sabe?
Lou, eu vou...
Vou conseguir muito dinheiro amanh�.
Servirei de cobaia para um doutor.
V�o fazer umas experi�ncias...
e v�o me pagar muito por isso.
- Est� de brincadeira, Sidney? - Eu juro sobre o t�mulo do meu pai.
� verdade.
Voc� tem muita imagina��o.
Vai ficar rindo, �?
Que tipo de experi�ncia?
N�o me permitem dizer.
Eu juro, Lou! � isso mesmo!
� uma cirurgia, mas n�o posso falar nada sobre isso.
� ilegal ou algo assim. Mas juro que � verdade.
Haver� uma reuni�o sobre isso amanh� � tarde...
com um advogado e um m�dico.
E amanh� � noite vou ser internado em um hospital particular.
E quando me dar� o meu dinheiro?
Quando me pagarem.
V� � minha casa depois das tr�s.
Estarei com ele.
Est� bem, Sidney.
Irei a sua casa amanh� � tarde.
Se n�o estiver com o meu dinheiro, ter� 15 segundos para rezar.
Gostei muito desta conversa com voc�.
GEORGE Y. PACKER DOUTOR EM DIREITO
Bem, o que lhe parece, doutor?
Pode ser?
Terei que fazer mais testes no hospital, mas creio que n�o muitos.
N�o pedimos muito, s� seus olhos, � tudo.
- Ela tamb�m o pegou, n�o �? - � o estilo dela..
Sabe que pe�as mover...
essa mulher t�o fr�gil como um p�ssaro.
Amea�a destruir tudo em seu caminho...
que seja um obst�culo...
ao que ela quer alcan�ar.
E ent�o surge um pobre indiv�duo...
que serve a seus prop�sitos...
e � ele quem ser� destru�do..
Sr. Resnick, por favor, assine aqui.
� tudo meio engra�ado.
Teria que ser um advogado para ler isso e entender.
� s� assinar nesta linha, sr. Resnick, onde diz "doador".
Ou�am, s� por curiosidade...
s� por curiosidade mesmo...
o que vou doar? E o que me dar�o em troca?
Bem, sr. Resnick, doar� os seus olhos.
Especificamente, o nervo �tico central.
Poderia usar os termos m�dicos.
Falar das fibras nervosas, dos neur�nios e das...
Eu acredito, eu acredito.
N�o tenho alternativa.
Nenhuma.
Aqui, me tiram os olhos. L� fora, me tiram a vida.
Muito bem, sr. Resnick.
O anjo salvador, certo?
Sidney...
o que d� a vis�o.
- Afinal, o que h� para ver? - Sr. Resnick.
J� vi tudo mesmo.
Vi a segunda luta entre Louis e Schmeling e ganhei muito dinheiro.
E vi o Derby de Kentucky tr�s vezes!
E vi quando Bobby Thomson acabou com os Dodgers.
J� vi tudo, homem. Tudo.
Mas me pergunto...
- Me permite? - Claro.
Me pergunto...
Como ser� quando for sempre meia-noite...
e ningu�m apagou a luz?
O que farei?
Usarei uma bengala e venderei l�pis?
O que fazer?
Talvez chorar um pouco.
Terei muito tempo para isso, muito tempo.
Ainda posso chorar com meus olhos, n�o �?
Sem nenhuma restri��o, sr. Resnick.
Sem nenhuma restri��o. Doutor, o senhor sabe dizer as coisas.
- � claro que sabe... - Aqui est� o seu dinheiro, sr. Resnick...
com algum extra por nossa conta...
e o endere�o do hospital.
Deve estar l� �s 7 da noite.
Est� pesado.
Espero n�o passar por uma loteria.
Os jogos de azar s�o minha perdi��o.
� um v�cio, eu sei.
Por exemplo, cavalos, aposto 5 contra 1...
que 24 horas depois que me cegarem...
vou querer me matar.
� esta a aposta que fa�o.
Quando o vir, beberei o Central Park.
Deixarei que entre por meus olhos, at� que me inunde o c�rebro.
Farei um registro de tudo o que vi neste curto tempo...
para lembrar delas o resto da minha vida.
O que se pode fazer? Nada.
� a hist�ria da vida do simples Sidney.
Escreva na l�pide, sim?
"Aqui jaz Resnick.
Queria ir a Miami Beach e fumar uns charutos...
e era tudo o que queria".
Que isso lhe sirva de li��o.
� isso o que se ganha por ser pobre.
Te arrancam os olhos.
A hora esperada pode ser a qualquer momento...
como disse, depois das cinco.
Permita-me dar-lhe alguns conselhos.
Tire as bandagens lentamente.
Em seu lugar eu manteria os olhos fechados...
e o quarto no escuro.
A luz deve ser introduzida lentamente, pouco a pouco.
� como acostumar-se a um membro artificial.
Pode levar tempo at� que os olhos se ajustem...
e que aceitem a luz.
Talvez horas.
O que foi, doutor? Est� admirando minhas obras de arte, n�o �?
J� tinha tudo planejado, n�o �, srta. Menlo?
� claro. Todas as pinturas e estatuetas...
est�o aqui onde posso v�-las...
se for de tarde ou de noite.
Meus olhos v�o tirar fotografias, doutor.
Fotografias de tudo, e que arquivarei para futuras consultas.
Uma consulta futura muito grande...
dependendo do tempo que viver.
Agora, se j� terminou, doutor...
Srta. Menlo...
espero que aproveite bem as pr�ximas 11 ou 12 horas.
Espero...
que seus olhos vejam o que � importante ver.
Espero que meus esfor�os n�o tenham sido em v�o.
Pelo nosso bem, tamb�m espero doutor.
- Ent�o boa noite. - Diga adeus, doutor.
- N�o voltaremos a ter contato. - Que pena.
Ent�o vai se desfazer de mim.
Todos os que cruzam o meu caminho...
s�o descartados quando n�o t�m mais serventia.
- Claro. - Doutor.
Acenda a luz, por favor. A da entrada.
Pode deixar.
Se me vir na cidade esta noite, doutor...
deve apresentar-se.
Me ocorreu que nunca vi o seu rosto.
Vai me reconhecer, srta. Menlo.
Serei um homem alto, com olhos doentes.
A dor em meu semblante...
e uma infec��o incur�vel em minha consci�ncia.
Vai me reconhecer, srta. Menlo.
Obrigada, Heatherton.
C�us! N�o!
Bruxo! Charlat�o!
Curandeiro! Carniceiro!
Vou acabar com voc�!
Heatherton! Quero que volte aqui!
Elevador!
Heatherton, por favor, volte.
N�o funcionou.
N�o serviu de nada.
Est� tudo escuro de novo.
Heatherton, por favor.
Quem est� a�?
Tem algu�m a�?
Algu�m pode me ver? Preciso de ajuda!
Heatherton. Por favor.
Policial, o que aconteceu?
Um apag�o. N�o h� eletricidade. Aonde vai, senhor?
A Westport, Connecticut.
Desejo-lhe sorte.
V� pela Columbus Circle, at� chegar � rua 79.
Mas saia da cidade se puder.
- Quanto tempo isso vai durar? - � melhor perguntar ao prefeito.
V� andando.
Posso ver.
Estou vendo o sol.
O sol � de um dourado intenso.
Isso � cor!
Meu Deus! Que lindo!
Est� desaparecendo.
Espere, ainda n�o!
11 horas!
E j� se acabaram!
Isso n�o � justo!
N�o! N�o � justo!
N�o estou pronta. Volte!
N�o pode me deixar.
Por favor volte.
Eu o quero! Quero o sol!
E agora o �ltimo quadro.
A �ltima parte da apresenta��o � sobre Josef Strobe...
um criminoso nazista de guerra, que se esconde na Am�rica do Sul...
um monstro que queria ser pescador.
Esta � a sua hist�ria.
Mas que bagun�a � essa?
Volte a dormir, velho...
ou eu o fa�o dormir.
N�o fa�a tanto barulho.
� muito persuasivo, herr Strobe!
A proximidade de uma vadia barulhenta me faz ficar assim.
Mas se algu�m te furar com isso...
como ficaria ent�o?
Deve aprender a viver com um pouco de dor, querida.
� disso que o mundo � feito.
Assim, se acostuma.
J� estou bastante acostumada.
� a caracter�stica da minha ocupa��o.
E � o que mostra o meu corpo.
Mas todos sempre mostram alguma valentia, n�o �?
Ao inv�s de...
uns tantos mil por dia na c�mara de g�s...
Agora �...
um ou outro b�bado vestido de marinheiro.
Ou uma prostituta que fala a minha l�ngua.
Este � um acidente de nascimento, herr Strobe.
O idioma � a �nica coisa que temos em comum.
E?
Boa noite, herr Strobe.
V� para o seu quarto...
e tenha um de seus pesadelos.
Quando ou�o todo o seu medo atrav�s da parede...
� uma noite de gl�ria para mim.
Gruppenf�hrer Herme Arndt. Ali�s Josef Strobe.
Seu �ltimo paradeiro conhecido Caracas, Venezuela.
Saiu do pa�s em abril de 1961.
Sup�e-se que atualmente se encontre em Buenos Aires.
H� algo de concreto?
O de sempre. O viram aqui e ali.
Dizem que trabalhou em uma f�brica de a�o.
Investiguei tudo. Nada realmente.
Procurei nos bares, grupos sociais alem�es, tudo.
Nem sinal dele.
Mas provavelmente ele est� aqui.
Desta vez me basearei em meus instintos.
Pode ter feito uma cirurgia pl�stica...
usar barba e bigode...
ou um chap�u que esconda o seu rosto.
Ele est� aqui...
e vamos encontr�-lo.
Um pesadelo.
Aqui est� um pesadelo.
Estive presente a este tipo de coisa.
Tive um amigo, Jacob Sternbach, que foi crucificado assim
Levou dois dias para morrer.
Me desculpe. O quadro me afetou.
Me traz muitas recorda��es.
Espero n�o o ter perturbado.
- Senhor? - Sim?
Eu j�...
J� nos encontramos antes, n�o �?
N�o creio. Acabo de chegar.
� alem�o, n�o �?
N�o. H�ngaro.
Me parece... Me parece conhecido.
Nunca esteve em um campo de concentra��o?
Em Auschwitz ou... em Oranienburg?
Estive nos dois lugares.
Me chamo Bleum.
J� lhe disse que n�o sou alem�o.
Me desculpe.
Senhor, o museu vai fechar.
Queira sair, por favor.
Senhor, deve sair, por favor.
Por favor.
Pesadelos outra vez, herr Strobe?
V� para o inferno.
Dizem que agora � um amante de arte.
Uma amiga me disse que o viu esta manh� no museu.
O que o atormenta esta noite?
Gretchen.
Converse comigo um pouco.
Sobre o que quer falar?
Algo me aconteceu outro dia...
e hoje de novo.
- O qu�? - Estava olhando para um quadro.
Um quadro de um... pescador...
em um lago nas montanhas.
Depois de um momento pareceu como se...
- Como se o qu�? - Como se fosse eu que estivesse no bote...
pescando.
N�o havia dor.
Nenhuma fuga. Eu...
olhava por cima do meu ombro.
O que espera ver?
Fantasmas.
Fantasmas israelitas.
Parece que existe uma lista de procurados.
- Sim, existe. - E depois de Eichmann...
� voc� o primeiro dessa lista, herr Strobe?
� bem prov�vel.
O que fariam com voc�?
�timo.
O que pe�o afinal?
� pedir muito parar de fugir?
Deixar de procurar as sombras para me esconder nelas?
Onde est� esse Deus cheio de compaix�o e de perd�o de quem tanto falam?
Que me apare�a agora.
Que me d� uma oportunidade de sobreviver.
S� isso. Sobreviver.
Como naquele bote...
e naquele lago.
Se eu tivesse...
me concentrado...
com todas as minhas for�as...
Se eu tivesse exercido toda a minha vontade...
teria entrado naquela pintura.
Estou surpresa, herr Strobe.
Quem haveria de pensar...
que a �nica coisa que deseja � um bote com remos?
Sim.
Somente isso.
Voc�, o deus vestido de preto...
que acabou com milhares de vidas...
E a �nica coisa que deseja � um bote com remos!
Sabe uma coisa, herr Strobe?
Seus desejos s�o realmente bem extravagantes.
Anseia pelas coisas mais...
pelas coisas mais caras e imposs�veis de conseguir.
Paz e imortalidade.
Esque�a, herr Strobe.
O pre�o � uma alma e uma consci�ncia, e voc� n�o tem nenhuma das duas.
V� para o inferno!
Depois do senhor, herr Strobe.
Boa tarde.
Gosta dele, n�o �?
De certa forma.
E do quadro do campo de concentra��o...
n�o gosta dele, herr Arndt?
O que disse?
Acho que se enganou.
Eu me chamo Strobe.
Josef Strobe. O senhor me chamou por outro nome.
Me perdoe. Acho que foi isso mesmo.
O senhor me lembrou algu�m.
Algu�m chamado Herme Arndt.
Herr Arndt n�o gostava de judeus.
Ficava parado na entrada principal de Auschwitz...
com um bast�o nas m�os.
Indicava quem iria morrer...
e quem ficaria vivo por uns tempos.
E como foi que escapou, herr Bleum?
Um campo de concentra��o pode ser uma boa escola...
onde um homem pode aprender a permanecer vivo.
Tenha um bom dia, herr Strobe.
Eu sabia quem o senhor era.
N�o se esquece um homem como o senhor facilmente.
Que comovente.
E agora, tomaremos um trago?
Ou falaremos dos velhos tempos?
O que faremos, hein?
Do que gostaria?
Diga-me e verei se posso agrad�-lo.
Diga-me, herr Bleum...
Eu mudei muito?
N�o. N�o, gruppenf�hrer.
O senhor mudou muito pouco.
Excelente.
Excelente, herr Bleum.
A mem�ria ainda est� inteira.
O corpo est� um tanto... deteriorado, n�o �?
O meu corpo foi muito maltratado.
Isto, me fizeram com um cigarro aceso...
durante uma tarde, digamos, mon�tona.
Uma divers�o, gruppenf�hrer...
algo que o senhor muito aprecia.
Diga-me, herr Bleum.
Est� feliz relembrando essas coisas?
- Ou est� pensando em...? - Contar a todos?
O que o senhor acha?
Acho, herr Bleum...
que se tem algo a dizer ao Deus de Israel...
este � o momento.
Estou em paz com Deus.
E isto � algo que voc� nunca ter�, gruppenf�hrer!
O senhor crucificou muitos 'Cristos'...
para que Deus possa lhe perdoar.
- Ainda � um m�rtir, n�o �? - N�o. Sou simplesmente...
seis milh�es mais um.
A que horas sai o pr�ximo �nibus?
Para onde o senhor quer ir?
Para qualquer lugar fora da cidade...
para o mais longe poss�vel.
Bem, este vai para Mar del Plata.
Tem sorte, parou de chover. N�o vai demorar a sair.
Depois de 20 anos n�o � muito.
Desculpe, acho que temos um conhecido em comum.
Conhece o sr. Bleum?
Escutem, n�o me importa o que Bleum tenha dito.
- Est� completamente louco. - Vamos.
Me escutem.
Eu n�o sou quem voc�s querem.
H� outros mais importantes.
Como Martin Bormann, ainda est� vivo.
Podem acreditar, est� vivo.
E M�ller. Heinrich M�ller est� vivo, na Sil�sia.
Me escutem. Conhe�o estes homens, posso encontr�-los.
Por favor. Deve haver um pre�o.
H� um pre�o, n�o importa qual!
Tomem cuidado com essas pinturas.
Ponham-nas com cuidado no caminh�o.
Est� bem!
Ningu�m liga para cultura neste pa�s.
H� coisas mais interessantes na vida.
- Ningu�m liga para as pinturas. - Est� bem, tomaremos cuidado.
N�o deixem que se molhem.
- Agora m�os � obra. - Est� bem, est� bem.
Andem logo, est� ficando tarde.
Est� bem.
E tomem cuidado quando as guardarem, por favor!
Quem est� a�?
Quem est� a�?
'Shalom', gruppenf�hrer. 'Shalom'.
Por favor. Se existe um Deus, que me apare�a agora.
Coloque-me no quadro.
Devo entrar no quadro.
Por favor.
Deus, Cristo, seja l� quem for!
Coloque-me dentro do quadro!
Tenho que entrar no quadro.
A esta hora?
O que foi agora?
N�o est� ouvindo?
Deve ser um cachorro atropelado.
Parece tudo em ordem.
Se tinha algu�m aqui, j� se foi.
Onde est� o "El Pescador"?
- O que estava em exposi��o? - Era emprestado. J� foi embora.
O diretor p�s o do campo de concentra��o no lugar.
� espantoso.
Boa noite.
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