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Meninos, meninos...
Parem com esse barulho
Bode velho ! Volte para o pasto.
V�o embora ou chamo a pol�cia.
Est�o atrapalhando o discurso.
N�s diplomatas devemos observar estas regras fundamentais de comportamento.
�s vezes podem parecer rid�culas
mas a vig�lia � constante para que nossa conduta seja sempre irrepreens�vel.
Como estudantes de Ci�ncias Pol�ticas, tenham sempre em mente o seguinte com rela��o a protocolo.
A etiqueta diplom�tica...
er.. a etiqueta diplom�tica assemelha-se � etiqueta pessoal.
Baseia-se em cortesia, considera��o, gentileza.
Se pretendem ser diplomatas, n�o podem envolver-se em esc�ndalos.
Lembrem-se: como franceses, voc�s t�m uma reputa��o.
E, se fizerem jus a ela, estar�o em apuros.
Agradecemos ao Sr. Talbot, que interrompeu suas atividades no Minist�rio das Rela��es Exteriores...
para nos brindar com esta palestra.
Agora podem fazer suas perguntas.
Bem... o senhor.
Qual a diferen�a entre uma nota entre pa�ses e um memorando ?
Imagine que o beb� do vizinho o mantivesse acordado durante a noite.
Primeiro lhe mandaria um memorando, dizendo como estava infeliz.
Se n�o surtisse efeito, mandaria ent�o uma nota...
...amea�ando chamar a pol�cia se n�o fizesse um "tratamento ac�stico" no beb�.
Monsieur, mencionou que a vida particular dos diplomatas deve ser irrepreens�vel.
Isto significa que deve colocar-se acima de certos instintos normais ?
Se...
... se ceder aos seus instintos for prejudicial ao seu pa�s...
... julgo que o diplomata deve ignor�-los.
Monsieur... Mas digamos que se sentisse atra�do por uma mulher irresist�vel ?
Bem...
Provavelmente seria valente, colocando o dever acima do prazer.
Achava que os valentes mereciam justi�a.
Infelizmente, os diplomatas raramente recebem o que merecem.
Pr�xima pergunta...
Ent�o ?
Desculpe, mas tinha que lhe fazer mais uma pergunta.
Se uma mo�a se apaixonasse, isto �...
... se uma mo�a se sentisse atra�da por um jovem e simp�tico diplomata...
... que quisesse lev�-la para sua casa, O Minist�rio aprovaria ?
Para casa.
Mas o Minist�rio aprovaria ?
Indagarei pela manh�.
Fale-me de si, mademoiselle...
... ou seria madame ?
Madame.
Vi�va ? N�o.
Divorciada ? N�o.
Bem...
O Minist�rio cria regras t�o magn�ficas para proteger seus diplomatas.
N�o prev�em nada para as mulheres que se apaixonam por eles ?
N�o.
Se achou muito espertinha fazendo todas aquelas perguntas, hein ?
Como � que conseguiu entrar ? Fiz cara de estudante e entrei.
Me fez parecer um comediante de vaudeville com um palha�o na plat�ia.
Mas eu sou sua palha�a. Para isso servem as esposas.
Esta � a sua opini�o.
Entre, querida. Vai adorar o homem que mora aqui.
Alto, brilhante, arrebatador. Feche os olhos, querido.
Feche os olhos. N�o vale espiar.
Promete ? Prometo. Cuidado. Mais dois degraus.
Um, dois.
Agora.
Querida, seu anivers�rio.
Com 91 velas ?
Hm ? Ah, claro que n�o.
Vejamos. N�o, n�o me diga.
91 velas... 91 dias.
Estamos casados h� tr�s meses. E voc� esqueceu.
Oh, minha querida... Com licen�a. Sim, Pierre.
Madame, chegou isto para a senhora. Para mim ?
Com os cumprimentos do noivo. Querido.
E isto � para o senhor.
Absolutamente lindo.
Pois bem... Escolheu sozinho ?
Estou me sentindo como uma noiva.
Sempre ser� uma noiva, querida.
David.
Quando � que uma noiva vira esposa ?
David.
O que tem na carta ?
O que tem na carta ?
Caro Jean... N�o � para voc�. Est� endere�ado a mim.
Permita que um velho amigo o congratule...
... pela nobre carreira. Aceite meus votos de felicidade...
... com sua esposa...
... agora est� em condi��es de me pagar a velha d�vida de 1 milh�o de francos...
I milh�o de francos ? Leia o resto.
Sugiro que leve o dinheiro at� a velha fazenda abandonada...
... na estrada de Chantilly e jogue-o por cima dos port�es...
Estou certo de que compreender� a raz�o para instru��es t�o estranhas...
...assim como por que esta carta n�o est� assinada.
O que significa isto ? N�o fa�o id�ia.
O que vai fazer ?
S� h� uma coisa a fazer.
David, estou assustada.
Carlos le Duc, est� sendo julgado por extors�o.
� acusado de escrever uma carta an�nima para David Talbot...
pedindo que saldasse uma d�vida de um milh�o de francos.
Senhor Presidente, a defesa provar� que a carta escrita pelo meu cliente...
foi uma cobran�a direta de dinheiro devido. Um instrumento moderno de extors�o.
Imagino que a defesa tamb�m alegar� que os credores de hoje exigem...
que suas d�vidas sejam pagas jogando-se o dinheiro por cima de muros em parques abandonados.
Meus credores n�o t�m tanta imagina��o.
Mas teriam, se vivesse sob falsa identidade.
E recorreriam a isso para manter a trapa�a em segredo.
O tribunal gostaria gostaria de saber quem est� acusando de viver sob falsa identidade.
Se o tribunal permitir que meu cliente conte sua hist�ria...
meu coment�rio ficar� claro.
Pode falar.
Conheci este senhor, David Talbot...
em 1919, logo ap�s a guerra.
Mas naquela �poca n�o se chamava Talbot.
Seu nome era Jean Pelletier.
Era um ladr�ozinho barato com uma ficha do tamanho de um bonde.
Podia ser extensa, mas nem tanto.
Com todo o respeito, mas o que a ficha de Pelletier...
tem a ver com a acusa��o feita ao r�u ?
Est� claro que, se houve alguma rela��o entre o r�u e o Sr. Talbot...
n�o importa qual nome tivesse usado,
haver� uma possibilidade de que a d�vida de fato existia.
Prossiga. Ele tinha um talento: o de escapar.
A pol�cia nunca conseguiu captur�-lo.
Foi em 1922 que ele contraiu a d�vida de 1 milh�o de francos comigo.
Era uma d�vida honesta, nada de escuso.
Quais foram as circunst�ncias da d�vida ?
Sinto muido, mas n�o tenho liberdade para fornecer maiores detalhes.
Talvez o Sr. Talbot possa explicar. Eu n�o posso.
Prossiga. Passaram-se anos e n�o soube mais de Jean Pelletier.
At� que um dia, h� cerca de um m�s,
vi sua foto no jornal. Anunciava seu casamento com Lucienne de Couvrille.
Percebi ent�o que Jean havia mudado de nome.
Mas se era alguma jogada, n�o quis interferir.
S� queria meu milh�o de francos. Ent�o escrevi pedindo.
A resposta que tive foi uma bruta apunhalada pelas costas.
Conforme depoimento de le Duc, Talbot �, na verdade, Pelletier.
E assim uma das maiores farsas na hist�ria da Fran�a foi perpetrada contra o governo e o povo.
O que come�ou como um simples processo por extors�o...
assume agora propor��es de um caso c�lebre,
sobretudo porque dizem que o Sr. Talbot ser� nosso pr�ximo embaixador no Brasil.
Com licen�a, por favor, deixem-me...
Que multid�o, hein ?
Um momento, est� lotado.
Mas eu sou testemunha. Perd�o, pode entrar.
Obrigado. � testemunha.
Por favor, posso ver sua intima��o ?
Claro, tenho-a aqui.
Estava aqui.
Devia andar com um cofre. Est�-se vendo.
Mas estou-lhe dizendo, sou uma testemunha muito importante...
Sou o Dr. Andre Tessier... Vamos, pode voltar para tr�s das cordas.
O Dr. Andre Tessier est� aqui ? Sim, sou eu.
Desculpe-me. Obrigado.
Dr. Tessier. Onde est� o Dr. Tessier ?
Estou aqui.
Quanto movimento, hein, David ? Como est� bonita !
Dr. Tessier. Est�o me chamando.
Adoro ele.
Jura dizer a verdade a nada mais que a verdade, sem �dio ou temor ?
Juro.
N�o odeio ningu�m.
Dr. Tessier, de acordo com os autos do processo, conheceu David Talbot em 1922.
Conheci-o quando foi internado meu hospital am Avignon.
Alguns dias depois do acidente no Expresso Paris-Marselha.
Foi o desastre quando aquele trem descarrilhou...
Sim, estamos familiarizados com o caso, monsieur.
Eu o examinei e foi diagnosticado com fratura esfenoidal cominu�da...
com hemorragia no seio dural resultando em trombose.
Podia explicar estes termos cient�ficos ? O que significam ?
Para sua informa��o, significam que quebrara a cabe�a como uma melancia madura.
O senhor � psicanalista ? Sou m�dico...
especializado em doen�as nervosas e dist�rbios mentais.
De fato, �s vezes recorro � psican�lise...
da mesma forma que tamb�m recorro a �leo de r�cino.
N�o sou psicanalista. Sou um m�dico que trata do c�rebro.
Meu consult�rio fica na Rue de Torrence, 41.
Prossiga, doutor.
David era muito forte e em poucos dias voltou a si.
Mas, infelizmente, percebi que a contus�o cerebral fora mais s�ria do que imaginava.
Havia amn�sia total.
N�o se lembrava de nada antes do momento em que acordou.
Nunca pensei ter que passar por isto de novo.
Ele sabe o que est� fazendo.
Como sabia que seu paciente era David Talbot ?
Ele foi identificado. Por quem ?
Pelo capit�o do cargueiro que o trouxera da Martinica.
Confere. Capit�o Maurice Durand.
Morreu uma ano depois num naufr�gio em Madagascar.
Apenas um homem identificou o paciente ?
David nunca estivera na Fran�a antes. Ningu�m mais poderia faz�-lo.
E essa pessoa morreu. Prossiga, doutor.
Com tratamento s�rio e prolongado...
David voltou ao normal sob todos os aspectos, com uma exce��o.
Mem�ria. Ainda n�o consegue lembrar-se...
de sua vida antes de 1922. Prossiga.
Resta apenas dizer que, nesses anos todos, mais que seu m�dico, tornei-me tamb�m seu amigo.
Conhe�o sua alma t�o bem quanto seu c�rebro.
E dizer que David Talbot � um criminoso � uma grande asneira.
Obrigado. Sr. Presidente. Pe�o que chame o Dr. Dubroc para o banco.
Dr. Dubroc.
Um asno metido.
Juro.
Podia definir amn�sia para o tribunal ?
A amn�sia � uma confus�o funcional ou org�nica do c�rebro,
que impede a mem�ria de reter impress�es sensoriais adquiridas.
Em outras palavras perda de mem�ria.
Pode ser.
Via de regra, quanto dura a amn�sia ?
Casos de amn�sia retr�grada decorrentes de danos f�sicos...
dissipam-se quase sempre em algumas semanas, meses no m�ximo.
� poss�vel fingir amn�sia ?
Isto � que h�.
Na verdade, a maioria dos casos de amn�sia � fingida ou induzida.
Mais asneira. Dr. Tessier !
Desculpe interromper, mas poderia fazer uma pergunta ao meu colega ?
Pode subir ao banco com o Dr. Dubroc.
Queria agradecer ao Dr. Dubroc por sua defini��o de amn�sia.
H� anos que procuro uma defini��o.
Mas, ao defini-la, usou a palavra "mem�ria."
Da� minha pegunta. Poderia o Dr. Dubroc definir mem�ria ?
Mem�ria � a fun��o do c�rebro que permite que experi�ncias passadas...
sejam guardadas ou resgatadas para o n�vel da consci�ncia.
Ah, sim. Muito bem.
S� mais uma pergunta.
Qual � a natureza dessa fun��o que torna a mem�ria poss�vel ?
A fun��o �...
A impress�o fica registrada no c�rebro para que... N�o.
N�o.. isto �... a experi�ncia fica guardada... Isto � rid�culo.
Ningu�m sabe como funciona a mem�ria. A pergunta � absurda.
N�o queria ofender, mas se n�o sabemos o que � mem�ria,
e, sendo a amn�sia um estado em que a mem�ria n�o funciona,
eu me pergunto: sabemos o que � amn�sia ?
Talvez o Dr. Tessier possa dar sua defini��o de amn�sia ?
� uma pergunta justa e que exp�e minha ignor�ncia..
Serei franco. N�o fa�o a menor id�ia da natureza exata da amn�sia.
A menor.
N�o h� regras ou precedentes. Nenhum caso � igual a outro.
O que o tribunal deve concluir desta discuss�o, doutor ?
Que n�o h� conclus�o poss�vel. Concorda com a testemunha, Dr. Dubroc ?
Perfeitamente, sr. presidente.
O Dr. Tessier demonstrou que nenhum caso de amn�sia pode ser comprovado como tal.
Mas o depoimento do Dr. Tessier foi derrubado pelo argumento do Dr. Dubroc...
de que n�o h� como se comprovar nenhum caso de amn�sia.
Na opini�o deste comentarista, mais importante que a culpabilidade de Le Duc...
ser� descobrir a verdadeira identidade de David Talbot.
Na minha opini�o, o povo franc�s tem direito a conhecer os antecedentes dos seus funcion�rios p�blicos...
que aspiram a cargos de confian�a.
Talvez saibamos algo mais assim que Talbot subir ao banco dos r�us esta tarde.
Sr. Talbot, disse ao tribunal que s� conheceu Le Duc na audi�ncia preliminar.
Sim, senhor. Como explica, ent�o, a d�vida reivindicada pela v�tima ?
N�o tenho explica��o.
S� posso dizer que � pura fic��o.
Obrigado. Alguma pergunta ?
S. Talbot, pode dizer-nos onde estava na noite de 27 de mar�o de 1922 ?
Claro, estava no Expresso Paris-Marselha.
Quanto tempo estivera em Marselha antes de embarcar ?
Dois dias. Chegara da Martinica no dia 25.
Como sabe ?
Como sei ?
Ouviu o Dr. Tessier declarar que fui identificado pelo capit�o do navio.
Tamb�m o ouvi declarar que n�o se lembrava de nada...
antes de 22 de mar�o de 1922.
Correto. Ent�o, como pode lembrar-se que esteve em Marselha ?
Eu... eu n�o me lembro.
Me disseram. Disseram-lhe.
Pode ent�o explicar ao tribunal...
se n�o lembra nada antes do acidente,
como pode lembrar que n�o tem uma d�vida com meu cliente Carlos le Duc ?
Qual o objetivo da pergunta da defesa ?
Para provar que Jean Pelletier tamb�m estava no trem.
Que David Talbot morreu no acidente e que...
o homem levado ao Dr. Tessier n�o era David Talbot, mas Jean Pelletier.
Sr. Talbot, desde que come�ou seu processo de reeduca��o, nas palavras do Dr. Tessier,
alguma vez tentou buscar sua origem ou restabelecer um elo com seu passado ?
Sr. Presidente, tentei de todas as maneiras.
J� ficou bem provado que estive no navio do Capit�o Durand.
Disse que eu embarquei em Fort-de-France na Martinica.
H� tr�s anos, voltei l�.
N�o reconheci nada na ilha.
Nenhum parente ou amigo que o tivessem conhecido antes do acidente ?
Nenhum.
O nome Talbot era desconhecido na Martinica.
Deve ser muito aflitivo n�o saber nada do seu passado.
Na verdade, n�o.
N�o quando se tem um presente t�o pleno.
Qual � a sua fun��o no Minist�rio das Rela��es Exteriores ?
Colher e correlacionar informa��es dos nossos agentes em outros pa�ses.
E existem fundos governamentais alocados para esse fim ? Sim.
Sabe onde s�o guardados ? A maior parte no meu escrit�rio.
Estaria traindo a confian�a do governo se revelasse ao tribunal o valor desses fundos ?
Variam de 500 mil a 5 milh�es de francos.
Ser� poss�vel que uma batida na cabe�a possa resultar em mudan�a car�ter...
a ponto de um ladr�ozinho se tornar algu�m a quem o governo franc�s confiaria 5 milh�es de francos ?
Isto � poss�vel ? S� uma pergunta, Sr. Talbot.
� o senhor quem decide os valores e os destinat�rios deste dinheiro ?
Sim.
E devo assumir que, dada a natureza desses pagamentos,
as transa��es s�o altamente confidenciais e n�o se assinam recibos ?
N�o h� documentos, comprovantes ?
Correto.
Sr. Presidente, desculpe, mas s� porque a testemunha ocupa um cargo de confian�a...
isto n�o constitui prova de sua integridade.
Muitos fraudadores passaram anos em cargos de confian�a...
antes de praticarem desfalques.
Um momento, por favor.
Sr. Presidente...
Fui intimado como testemunha do estado.
O promotor est� me tratando como seu eu fosse o prisioneiro.
Exijo que ele restrinja seu interrogat�rio ao caso em quest�o.
Ou ent�o que eu seja formalmente indiciado para que possa me defender.
Bem observado, senhor.
A corte dar� a devida considera��o.
Pr�xima testemunha, por favor.
Mme. Lucienne Talbot.
Jura dizer a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade sem �dio ou temor ?
Juro.
Mme. Talbot, quando conheceu seu marido ?
H� 3 anos, na casa do Ministro das Rela��es Exteriores, Sr. Deval.
Sabia ent�o que o Sr. Talbot sofria de amn�sia ?
Claro, n�o era segredo.
E nunca teve raz�o para suspeitar da identidade do seu marido ?
Por que duvidaria da sua identidade ? � meu marido.
Tenho orgulho de ser sua esposa.
Tem alguma prova de que seu marido � de fato David Talbot ?
Isto � algum costume novo ? Agora as esposas t�m que comprovar a identidade dos maridos ?
Claro que n�o. Queria saber apenas se confiava nele por estar apaixonada.
Conhece raz�o melhor, monsieur ?
Obrigado, madame. Est� dispensada.
Pr�xima testemunha, por favor.
Mlle. Michelle Alleine. Fui bem ?
Que advogado de defesa ! E eu pensando que s� a Escola de Medicina formava idiotas.
Jura dizer a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade, sem �dio ou temor ?
Juro.
Seu nome. Michelle Allaine.
Profiss�o. Canto no Club Sirene.
Conhece ou j� conheceu um homem chamado Jean Pelletier ?
Sim.
Onde o conheceu ?
Nas corridas.
O que estava fazendo ? Apostando, ora essa.
Estava apaixonada por ele ? Sim.
Quando o viu pela �ltima vez ?
Na noite de 27 de mar�o de 1922. Onde ?
Na esta��o ferrovi�ria de Marselha.
O que ele estava fazendo ?
Estava embarcando no Expresso Paris-Marselha.
Nunca mais o viu ?
N�o.
Reconhece aquele homem, mademoiselle ?
N�o.
Sr. Presidente, para que se estabele�a uma prova conclusiva...
o Sr. Talbot n�o poderia aproximar-se mais da testemunha ?
Estou certo de que a testemunha pode v�-lo perfeitamente de onde est�.
Querido...
Madame !
Mlle Alleine, a verdade. Ele � Pelletier, n�o � ?
Sim.
Nunca vi esta mulher em toda a minha vida.
Cabe ao tribunal decidir isto, monsieur.
Queira sentar-se.
Mademoiselle, pode apontar algo que identifique Pelletier ? Uma cicatriz, uma marca de nascen�a ?
Algum tra�o particular ?
N�o, nada. Nada de especial com suas m�os ?
N�o.
Sim, havia algo. Ele era canhoto.
Sr. Talbot. Com que m�o escreve ?
Com a esquerda.
Espere ! Est�o enganados. Preciso falar.
Dr. Tessier, esta � a segunda vez que viola a ordem no tribunal.
Que tipo de prova � ser canhoto ?
� claro que David escreve com a m�o esquerda.
Quando chegou ao hospital, sua m�o estava esmagada.
Durante tr�s anos esteve completamente paralisada.
Eu mesmo o ensinei a escrever com a m�o esquerda.
Obrigado, doutor. Sua informa��o ser� juntada �s demais provas.
Chame Henri Sarrou.
Henri Sarrou.
Mademoiselle, pode descer do banco.
Obrigado.
Jura dizer a verdade, toda a verdade e nada mais que a verdade sem �dio ou temor ?
Juro. Neste bilhete, o senhor diz...
"Sr. Presidente, possuo informa��es estarrecedoras concernentes a este caso."
"E pe�o permiss�o para fornecer as provas."
"Provas documentais pertinentes." � verdade, Sr. Presidente.
Seu nome ? Henri Sarrou.
Profiss�o. Comerciante de vinhos.
Acabo de chegar da Africa. Ao ler os jornais, deparei-me com o nome Jean Pelletier.
Percebi imediatamente que era meu dever testemunhar.
H� muitos anos represento minha firma no norte da Africa.
H� quatro anos adoeci e fui internado no hospital.
Na cama ao meu lado encontrava-se um homem morrendo de febre.
Condo�do, comecei a falar com ele.
Conquistei sua confian�a, ele se identificou e contou-me a hist�ria da sua vida.
Era uma hist�ria pat�tica.
Maus amigos, uma mulher, febril...
em suma, sua vida era uma desgra�a.
Morreu duas noites a seguir.
Mas fez men��o a provas documentais.
Pois sim, trago aqui os pap�is que o moribundo me deu.
Seu nome era Jean Pelletier.
TALBOT ABSOLVIDO
LE DUC CONDENADO A UM ANO.
Mr e Mme Talbot convidam Mr e Mme Claude Brillon para jantar...
Querida... Sim ?
"Eu amo-te, querida"
Obrigada, mas o que significa isso ?
� portugu�s.
Significa que voc� � linda, maravilhosa, me d� vertigens e eu te adoro.
Numa tradu��o livre, claro. Nem tanto.
Com licen�a.
Chegou um cavalheiro, madame.
Ora, Mr. Sarrou !
Que prazer. Madame.
Que grande prazer v�-lo, senhor.
Vejo que est� recebendo. Desculpem ter aparecido em momento t�o inoportuno.
Que nada, venha tomar algo conosco. Bem... Por favor, venha.
N�o quero me imp�r. N�o � imposi��o. Vitor !
Tentamos entrar em contato, mas seu nome n�o consta na lista.
Antes tivesse encontrado. Paris n�o � cidade para se ficar sozinho.
Com certeza, n�o. Obrigado.
Somos-lhe muito gratos.
Quisera ter como expressar nossa gratid�o.
N�o foi nada. Madame, � sua felicidade.
Mme. e Mr. Martin. Com licen�a.
Vai ficar em Paris ou voltar para a �frica ?
Me admira seu cinismo.
Seu trapaceiro imundo !
Boa noite, monsieur.
Boa noite, madame. Boa noite.
O certo seria eu contar a David. Por favor, deixe-me faz�-lo.
� hora de todos trocarem de parceiros.
Oh, obrigado.
Adivinhe o que ?
Deval falou com o Premier e est� quase certo que ganhar� a embaixada no Brasil.
N�o � maravilhoso ?
N�o est� feliz ?
Querida... Desculpe, mas n�o pode monopolizar sua esposa a noite toda.
Devia ter estudado. S� toco de ouvido.
Fale logo.
Qual � sua jogada ?
N�o � jogada. Por que veio aqui ?
Talvez porque tenha esquecido minha cigarreira.
O que quer ?
Quero 1 milh�o de francos.
De mim ?
Por que lhe daria 1 milh�o de francos ?
Por que tem um passado t�o delicado.
E tocar no assunto lhe causaria grandes transtornos.
Saia da minha casa. Espere a�.
Tenho uma hist�ria para contar.
Preferia cont�-la pessoalmente, mas se prefere diante dos convidados...
Foi �timo l� no tribunal...
quando o advogado de defesa lhe perguntou onde estava na noite de 22 de mar�o de 1922.
E se ele tivesse perguntado onde estava naquela manh� ?
Dif�cil de responder, para um homem sem mem�ria.
� verdade.
Esqueci que perdeu a mem�ria.
Perdoe-me, mas eu n�o perdi a minha.
Lembro-me onde eu estava naquela manh�.
Estava em Marselha com meu amigo, Jean Pelletier.
Fazia frio. Lembro-me que o mensageiro usava protetor de ouvidos.
Vi-o sair do banco com uma maleta, entrar num taxi e dirigir-se ao Banco Cr�dit Lyonnais.
Lembro-me tamb�m que o taxista entrou por uma ruela...
onde, sem raz�o alguma,
o motor parou.
De repente, o mensageiro recebeu visitas.
As portas se abriram e dois homens entraram...
mandando que ele entregasse a maleta.
O velhinho era valente e se defendeu como um tigre.
Ent�o um dos homemns sacou um rev�lver..
e atirou, atingindo-o na testa.
O mensageiro caiu no ch�o do t�xi.
Estava muito, muito morto.
Mas � claro que voc� n�o se lembra.
Quando come�ou a juntar gente, os homens j� tinham sumido...
assim como a maleta que continha 2 milh�es de francos.
O taxista falava mal franc�s.
Era um refugiado russo...
Nessa �poca n�o se chamava le Duc.
Quando a pol�cia o interrogou,
teve um pequeno ataque de amn�sia, voc� sabe.
E n�o se lembrava que um dos homens era eu.
E o outro, o homem armado, era voc�.
Ainda n�o se lembra ?
N�o se lebra da quemadura no seu dedo depois do disparo ?
Ora, Jean.
Voc� testemunhou no tribunal...
que naquela noite tomou um trem para Paris.
Mas n�o disse que foi para a Holanda para trocar o dinheiro.
�amos encontr�-lo em Rotterdam, mas nunca mais o vimos.
Voc� fugiu com nossa parte de 1 milh�o de francos.
E agora n�s iremos receber nosso dinheiro.
Saia.
Acha que vai conseguir blefar ?
Querido, voc� disse...
� minha culpa, madame. Voltei porque havia esquecido minha cigarreira.
Desculpem-me e n�o se incomodem. N�o precisam acompanhar-me.
Que estranho, n�o ?
Voltar por uma cigarreira.
Sabia que t�nhamos convidados. Ele � bastante estranho.
Talvez se sinta s�. N�o. Tem algo mais.
Lucienne, nossa dan�a est� quase acabando. Venha. Desculpem-me, estarei com voc�s num instante.
Ningu�m dar� por sua falta.
Ligue-me com a Delegacia, por favor.
Al�.
Eu...
Desculpe, foi engano.
N�o sei...
David,
Sim, monsieur.
Estou meio decepcionado com este relat�rio da Am�rica do Sul.
Qual � o problema ? Acho que n�o est� a contento.
Fiz o melhor que pude. Pessoalmente, acho excelente.
David, est� diferente hoje.
Perd�o, monsieur.
Talvez seja melhor refaz�-lo.
David.
Meu rapaz, embaixadores n�o t�m nervos.
Eu sei.
Conto com voc� para grandes projetos, David. N�o me decepcione.
Relaxe. Descanse um pouco.
Obrigado.
Sim ? Mlle. Allaine deseja v�-lo.
Quem ? Mlle. Allaine.
Mande entrar.
Mlle. Allaine.
Pode entrar.
Jean, querido. Ser� que me perdoa ?
Pelo que ? Pelo que fiz no julgamento.
Perdi a cabe�a. Podia t�-lo prejudicado muito.
Podia mesmo.
N�o sou de pedra.
Olhou-me como se fosse uma estranha.
N�o quis me prejudicar ? Claro que n�o.
Faria tudo menos isso.
Por que, madame ?
Madame ?
Jean, voc� est� em franca ascens�o. Est� casado, tudo deu certo para voc�...
Entendo que n�o queira lembrar-se, mas...
eu n�o tenho por que esquecer.
O que voc� quer ?
N�o quero nada, Jean.
S� vim preveni-lo contra o Sarrou. Ah, Sarrou.
Voc� sabe o que ele �.
Quer arruin�-lo.
Sarrou...
O que me aconselha ?
Voc� � influente. Tire-o do seu caminho. Fa�a qualquer coisa.
Mas n�o lhe pague.
Seria apenas o come�o. Tirar� tudo de voc�.
Obrigado. Sou-lhe grato.
Quando estiver com Sarrou, diga-lhe que n�o vai conseguir nada de mim.
Quando estiver com... Jean, o que est� dizendo ?
Diga-lhe tamb�m que se um dos dois me ligar...
denunciarei ambos � pol�cia.
Sarrou tinha raz�o. Voc� mudou.
Est� frio, duro e ego�sta. Receia ter que dividir com seus velhos amigos.
Quer que ligue agora ? Quer que eu conte para sua mulher quem seu marido � ?
N�o se preocupe. Eu mesmo lhe contarei todas as suas mentiras e chantagens.
Chantagem ?
Antes de Sarrou acabar, vai desejar estar morto.
Isto parece chantagem ? Olhe.
Onde conseguiu isso ? Onde consegui ?
Papai Noel me deu de Natal.
Espere por mim.
Madame Alleine.
Boa noite.
Como vai, Madame Talbot ?
Espero que se lembre de mim. Sim, eu me lembro.
Monsieur. Boa noite.
Posso sentar-me ?
Fa�a o favor. Obrigada.
Deve estar-se perguntando o que me traz aqui.
Estou surpresa, sim.
Achei que seria justo para n�s duas justificar o que fiz no julgamento.
Este medalh�o est� sempre caindo. Tenho que mandar consert�-lo.
Detestaria perd�-lo. J� viu algum t�o bonito ?
� lindo. Posso ?
Tenho-o h� anos.
Muito bonito.
� verdade.
Estava falando do julgamento, madame.
Sim, eu queria que soubesse a verdade. Conforme expliquei para seu marido esta tarde...
Talvez j� tenha contado a sua esposa.
N�o. Acabo de chegar.
Prefere contar, ou quer que eu o fa�a ?
Ela veio explicar que cometeu um erro muito humano.
J� aconteceu at� com voc�. Andando na rua, de repente v� um rosto.
Por um momento acha que o conhece.
Foi o que aconteceu quando me viu no tribunal.
Um caso de troca de identidade.
Foi o que pensei.
H� semanas que est� pesando na minha consci�ncia.
Achei que lhe devia pedir desculpas pessoalmente. � muita gentileza.
Bem, preciso ir. Quem sabe nos encontramos algum dia ?
Estou no Club Sirene. Apare�am por l�. Obrigada.
Que sala linda. Algum dia terei uma exatamente assim.
At� logo e obrigada por ser t�o compreensiva. N�o h� de que.
Voc� tamb�m, n�o � verdade ?
Sim, claro.
Que bom.
Meu medalh�o !
Que tolice a minha.
Desculpe. Obrigada.
Bem, au revoir. Au revoir.
Foi muita gentil da parte dela, n�o foi ?
� verdade.
Aceita um chazinho, querido ?
Acho que a �gua ainda est� quente. Obrigado, mas vou tomar um cognac.
Teve um dia cheio, querido ?
Bastante. Sente-se e conte tudo.
As mesmas crises de gabinete de sempre ?
Agora s�o s� �s sextas-feiras. Ah, esqueci.
�s vezes fico aqui sozinha, sentindo-me in�til e vazia.
A� penso em voc� e na import�ncia do seu trabalho.
A� me digo: se sou sua esposa e se ele � importante, ent�o eu tamb�m sou.
E meu ego entra nos eixos.
Voc� � muito boa.
E seu ego tamb�m.
Tenho que me apressar. Vamos jantar cedo hoje.
S� nos dois para variar.
Mlle. Alleine, a verdade. Ele � Pelletier, n�o � ?
Sim.
Voc� n�o se lembra. Lembro sim.
Sim. Aquele pequeno restaurante nas montanhas.
St. Paul. Isso mesmo. Lembra do violinista ?
Era h�ngaro. Parecia que ia arrancar seu olho com o arco...
t�o perto que estava. Voc� estava era com ci�mes.
Estava mesmo.
Com licen�a, querida. Claro.
Para o senhor. � importante, esta marcado secreto.
LADR�ES DE BANCO MATAM MENSAGEIRO E FOGEM COM 2 MILH�ES DE FRANCOS.
Por que est� preocupado, querido ?
O trabalho. Mas Deval n�o disse que estava tudo correndo bem ?
Ah, sim, mas...
� que o trabalho acumula.
Se apenas pudesse voltar l� sozinho. Hoje ?
Voc� se incomodaria ?
N�o. N�o me demoraria.
N�o se preocupe. Tem certeza de que n�o se sentiria como uma esposa ?
Claro que n�o.
Eu te amo.
N�o voltarei tarde. Vou correndo.
Com licen�a, monsieur. Tem reserva ?
Ficarei no bar. Muito bem, monsieur.
Cognac.
Boa noite, monsieur.
Est� lotado hoje. Devia ter feito reserva. Onde posso falar com voc� ?
Meu apartamento � l� em cima.
Sente-se. Gostaria de tomar alguma coisa, talvez um cigarro ?
Pode esquecer as amenidades. Onde est� Sarrou ?
O que quer com ele ?
Acho que pode adivinhar. Talvez queira convid�-lo � sua casa....
ou, quem sabe, entreg�-lo � pol�cia.
Quero falar com ele. Pode falar comigo.
Depois de sua gentileza hoje � tarde no escrit�rio...
tive uma conversa com Sarrou.
Vou ajud�-lo como for poss�vel.
Um m�nimo de dec�ncia em mim diz que n�o devo fazer isto.
Darei 50,000 francos e estamos conversados.
50,000 ? Oh, n�o, ch�ri.
Est� pensando em repolho. N�s queremos caviar.
Al�m do que, Sarrou fica nervoso com cheques.
Posso dar em esp�cie. N�o o valor que quero. N�o aceito 50,000.
Vamos deixar claro.
Este � o valor do inc�modo que voc� representa.
Mas n�o pense voc� que ca� nessa hist�ria de Pelletier.
Seu impostor.
H� 13 anos que est� vivendo uma mentira, Jean.
Enganou sua mulher, seus amigos e at� seu pa�s.
Devia saber que algum dia nos encontrar�amos.
O que o faz achar que pode me enganar ?
Vejo que errei em vir aqui. Est� esquecendo uma coisa.
Sarrou o tirou daquele tribunal.
Pode mand�-lo de volta.
Espere a� !
Antes de ir em cana, � melhor ajustar contas com seu passado.
N�o vai ajudar nada quando souberem que deixou sua m�e � m�ngua.
N�o tenho m�e.
Ah, n�o ? Ent�o v� � Rue Blanchot, 19 e visite um fantasma.
Boa noite, madame.
Monsieur.
Posso entrar ?
Sou uma mulher idosa. N�o recebo visitas.
Est� tarde. Madame, estou em apuros.
Preciso da sua ajuda, por favor.
Obrigado.
N�o quer sentar-se ?
Madame, preciso fazer-lhe uma pergunta estranha.
Sim, monsieur.
A senhora me conhece ?
Sim.
Eu o conhe�o.
Do julgamento. Assisti a tudo.
Vi sua foto nos jornais.
Foi um al�vio quando acabou.
Por que um al�vio ?
Voc� estava em apuros.
Madame Pelletier, a senhora tem um filho ?
Era uma crian�a alegre.
N�o parava quieto.
Eles crescem t�o r�pido.
Tem alguma foto dele ?
N�o.
N�o, nunca tive foto dele.
V� alguma semelhan�a entre mim e seu filho ?
Um pouco, talvez.
Uma certa semelhan�a, sim.
Mas para uma m�e...
Eu n�o poderia ser seu filho.
Meu filho est� morto.
Todos sabem que ele morreu.
Por que n�o deixam os mortos em paz ?
Desde o julgamento que as pessoas fazem perguntas e mais perguntas.
� tudo intriga. Eu juro.
Quero ter uma boa lembran�a do meu filho.
Sinto muito.
Estou velha e preciso de paz.
Est� tarde, monsieur.
Preciso pedir que se v�.
Por favor, monsieur.
Preciso de descanso.
Oh, monsieur.
O tempo est� ruim. Devia ter posto suas galochas.
Vai pegar um resfriado.
Sim.
Obrigado.
Madame...
Oh, n�o. N�o.
N�o.
Monsieur.
Deus o proteja.
Madame.
Madame.
� voc�, David ?
Sim, querida.
Querida, ainda est� acordada ?
Achei que j� estava dormindo h� horas. N�o consegui.
Estava t�o preocupada. Por que, querida ?
N�o esperava que fosse demorar tanto.
(Minist�rio das Rela��es Exteriores) Querido, todos seus problemas acabaram.
Desculpe, querida, mas sabe o que aconteceu ?
Nem cheguei a ir ao escrit�rio.
Quando estava para entra no pr�dio encontrei um colega que acabara de chegar do Brasil.
Disse que tinha informa��es importantes, ent�o fomos ao clube e perdemos a hora.
Desculpe, querida.
Querido, te amo tanto.
N�o me deixe nunca.
Hoje de manh�, quando David partiu para o escrit�rio, eu me lembrei de tudo.
Talvez Sarrou tivesse mesmo esquecido a cigarreira.
Talvez Mlle. Alleine quisesse mesmo se desculpar pelo que fez no tribunal.
Mas David est� t�o diferente.
Estou assustada, Andr�. Mas n�o tem o que temer, querida, nada.
Est� em estado de choque.
Esteve t�o controlada durante o julgamento. Ningu�m percebeu os momentos de d�vida...
que com certeza devem ter acontecido.
Passado o perigo, as pessoas corajosas sempre sucumbem ao medo.
Sabe disso, n�o � ?
N�o sei o que faria sem voc�.
Estou envergonhada.
Muito envergonhada.
Talvez Sarrou s� quisesse ser recompensado por seu depoimento. � poss�vel, n�o ?
Bem poss�vel. Andr�...
Tenho algum dinheiro, a casa, algumas j�ias.
Daria tudo que tenho para... Eu sei que daria.
O engra�ado � que se acordasse uma manh� e...
descobrisse que David era Jean Pelletier...
n�o faria nenhuma diferen�a.
Parece estranho ? N�o...
Seria estranho se fizesse.
N�o diga nada para o David. N�o direi.
Agora volte para casa e esque�a tudo isso.
Se estivesse em apuros, David me procuraria.
Sempre me procurou por qualquer coisa, desde...
H� 13 anos.
Que broche lindo. Presente de David. Eu adoro.
Adeus, Andr�. Adeus, Lucienne, minha querida.
� poss�vel. A diplomacia � uma arte que o mundo n�o precisa mais...
tal como acontece com vitrais.
A Fran�a precisa hoje de soldados, n�o de diplomatas.
Concorda, David ?
Perd�o ?
David, sou um homem importante e acabo de fazer uma observa��o profunda.
Perd�o, estava sonhando acordado.
Concordo, a diplomacia � um logro burocr�tico.
Boa noite, monsieur.
Ol�.
Como vai ? Bem, obrigado.
Este � Mr. Sarrou. Mr. Deval, Martin e de Lorrain.
Muito prazer, Sarrou. Obrigado, monsieur.
Somos-lhe gratos pelo que fez por David. N�o quer sentar-se ?
Gostaria de falar com voc�, se poss�vel. Com licen�a.
Pediremos mais tarde. Obrigado, monsieur.
N�o devia ter vindo aqui. Quem perde a compostura sou eu, n�o voc�.
O que pretendia mandando aquele velho me procurar ?
Do que est� falando ? Do Dr. Tessier.
Dr. Tessier ? N�o insulte minha intelig�ncia.
Acha que vou bater com a l�ngua para estranhos ? Talbot n�o sabe que estou aqui.
Eu n�o mandei o Dr. Tessier procur�-lo.
Talvez tenha chamado e esqueceu.
Falha de mem�ria de novo...
Isto n�o � hora...
Se quiser encontrar-se comigo, que seja mais tarde. � exatamente o que quero.
Encontr�-lo hoje � noite. E n�o venha sozinho.
Venha com 1 milh�o de francos, caso contr�rio...
a pol�cia ir� desvendar um caso de assassinato.
Um assassinato de que voc� participou, lembra ?
Esperava que dissesse isso. Mas foi voc� quem atirou.
E tamb�m h� outro aspecto.
Quem fornece provas para o estado sempre acaba beneficiado.
Mesmo assim prefiro apodrecer na pris�o a v�-lo ficar com o dinheiro.
Esperei 13 anos.
O prazo termina hoje � noite.
Estarei no La Sirene at� as dez.
Pense a respeito.
O doutor est� ? Sim, Mr. Talbot.
Andr�. Ol�, David.
Como vai, rapaz ?
Por que procurou Sarrou ?
Por que n�o deveria ?
Por que deveria ?
Queria falar sobre esse tal de Pelletier. � um caso muito interessante.
Sarrou esteve com ele num hospital na �frica.
Achei que poderia me fornecer um relato cl�nico...
sobre o comportamento de um criminoso � beira da morte.
� interessante, n�o ?
N�o foi por isso que o procurou. Por que est� duvidando ?
Foi porque n�o acreditou em seu depoimento no tribunal.
Est� com medo de mim, n�o � ?
Tudo que lhe diz respeito � importante para mim.
Acredita que sou Pelletier, n�o � ?
David...
A primeira vez que o vi...
voc� estava em coma.
Eu estava no quarto assim que abriu os olhos pela primeira vez.
Para mim, voc� nasceu naquele dia. Acredita que sou Pelletier, n�o � ?
Desde aquele dia voc� tem sido gentil, honesto e leal.
Para mim voc� representa essas qualidades.
N�o um nome. Por que n�o responde minha pergunta ?
Sou apenas um m�dico, David. N�o posso dizer o que n�o sei.
Deixe-me mostrar-lhe uma coisa.
V� aqueles livros ?
Centenas de livros. Hegel, Jung, Hall, McDougall, Freud...
a soma dos conhecimentos da humanidade no que se refere ao homem.
Contudo, numa hora dessas...
eles fracassam.
Por isso, quando estou nessa situa��o...
sempre recorro a este livro.
O mais antigo de todos, em milhares de anos.
Aqui est�.
Prov�rbios, cap�tulo 23, verso 7.
"Porque, como imaginou no seu cora��o, assim � ele."
Como imaginou no seu cora��o
� s� o que importa.
Salom�o era muito s�bio.
Voc� nunca teve mil esposas.
Por isso mesmo. S� tenho uma...
e se achasse...
Se achasse o que, David ?
Se achasse que algo podia acontecer com Lucienne...
Nada pode acontecer com Lucienne.
Nada pode acontecer com ela.
Tem raz�o.
Nada acontecer� com ela.
Nada. N�o.
Voc� � um bom amigo, Andr�.
Uma passagem para Saigon, monsieur.
Parte do Le Bourget �s 11:15. Chega a Istanbul amanh� ao meio-dia.
Faz uma escala de 3 horas e continua at� Saigon, via Bombaim e Calcut�.
Tem seu passaporte ?
Sim. N�o o esque�a, pois n�o poder� partir sem ele.
Obrigado. N�o esquecerei.
Obrigado, monsieur.
Boa noite. Boa noite, Pierre.
Onde est� a madame ? Em seu quarto.
Trarei sua bebida, monsieur. Obrigado.
Pierre, n�o ouvi seu patr�o chegar ?
Est� na biblioteca, madame.
Querido, esqueceu dos Deval ? Estamos atrasados.
Eu sei, querida. Eu... Oh, nosso passaporte.
David, Brasil !
Bem... Diga logo. � oficial ?
N�o � bem oficial, mas...
acho que em particular, pode me chamar de Sr. Embaixador.
Vai ser maravilhoso. E s� de pensar. Duas semanas a s�s no navio.
N�o podemos celebrar ?
Temos que ir � festa ? Esqueci de dizer.
Deixei Martin no escrit�rio e est� at� aqui de relat�rios.
Pediu que o ajudasse, e como j� fez tanto por mim...
que n�o tive como recusar. Mas o que vou dizer � Madame Deval ? J� est� t�o tarde.
V� na frente que me encontro com voc� �s onze.
Est� bem. E depois vamos a todas as casas noturnas da cidade.
Come�ando pelo Cyro's.
E terminamos no mercado tomando sopa de cebola. Sim !
Mas n�o mencione Brasil com Deval. Temos que mostrar surpresa quando ele nos contar.
David, desmaiarei. �timo.
Ent�o v�. Detesto ter que ir sem voc�.
Detesta ? Hm-hmm.
Agora v� andando.
Sim, Sr. Embaixador. At� as onze.
Lucienne,
Sim ?
S� isso.
Al�.
Sim.
S� para avisar que n�o vai tomar o avi�o para Saigon.
Nem para qualquer outro lugar.
N�o, eu n�o o impedirei.
Mas a pol�cia o far�.
Estive vigiando voc�.
Protegendo meu investimento, se bem me entende.
Saiu do restaurante esta tarde, falou com o velhote...
em seguida foi � Air France e comprou uma passagem para Saigon.
Meu relat�rio est� correto ?
Achei que sim.
E nosso encontro de hoje ?
O que ?
N�o, isso � inaceit�vel.
Encontre-me no Sirene �s 10 com o dinheiro ou juro que ir� para a cadeia acusado de assassinato.
Pelo amor de Deus, sente-se. Est� me deixando louca.
Acho que ele n�o vir�. N�o. Ainda tem 10 minutos.
Sabia que n�o ousaria.
Disse que n�o viesse aqui. Disse-me muitas coisas.
Disse que recebria meu dinheiro em algumas semanas e nada.
H� tr�s meses que moro naquele buraco.
Fazendo todo o servi�o. Olhe minhas m�os. Pare de se lamuriar.
Estamos todos no mesmo barco.
Est� assustado, Sarrou. Quando se leva algu�m a achar que � outra pessoa, o tempo � vital.
Se lhe dermos tempo, acabar� descobrindo.
Fiz a minha parte. Eu o fiz acreditar.
Que bela interpreta��o.
"Meu filho est� morto."
"Todos sabem que ele morreu."
"Por que n�o deixam os mortos em paz ?"
Ele ficou todo tr�mulo. Tudo bem, � uma grande atriz.
Teria sido mesmo, se n�o tivesse largado o palco para casar-me com le Duc.
Quando vai solt�-lo ? Cale-se ! Acabou de entrar no caf�.
Ande. V� embora !
V� logo ! Pode levar a garrafa.
Controle-se. Voc� � o gato, n�o o rato, lembra ?
Por favor, n�o me venha com piadas.
Tamb�m est� envolvida. N�o me esque�o nem um minuto.
Ser� que � t�o burra que n�o imagina o que nos acontecer� se este idiota suspeitar...
Shh. � ele.
Pode entrar.
Entre, Jean.
Pode entrar.
Trouxe o dinheiro ?
N�o. Hmm.
Bem, seus amigos influentes ainda t�m at� as 10 para se reunirem com voc�.
Acha que � t�o simples chegar e pedir a um amigo 1 milh�o de francos ?
Tem uma esposa muito dedicada. E as j�ias devem valer pelo menos meio milh�o.
Sem contar a casa. N�o posso chegar para minha mulher e dizer: "Querida, sou um assassino."
"Por favor, me d� 1 milh�o de francos."
Eu posso dizer exatamente isso.
"Madame, seu marido � um assassino. � s� um empr�stimo, algum problema ?"
N�o posso perder mais tempo.
Sarrou...
quero dar-lhe o dinheiro.
Daria tudo para me livrar deste pesadelo.
N�o tem sido f�cil.
Ficar l� no escrit�rio lidando com altas quantias do governo...
Ele lida com altas quantias do governo.
Continue, Jean.
Mas o dinheiro n�o � meu. � da Rep�blica e est� sob minha cust�dia.
Ora, n�o me venha com apela��es patri�ticas baratas... Estamos tratando de neg�cios.
Mas n�o percebem que dariam por falta na hora ?
O cofre fica no meu escrit�rio. S� eu tenho as chaves.
Esqueceu-se de coisas que sabia muito bem.
N�o sei o que quer dizer. Ora, vamos.
Um homem trabalha num banco na Sui�a, tem todo o direito de estar l�...
Enquanto abre o cofre � atacado...
amarrado e amorda�ado.
Na manh� seguinte � encontrado pela faxineira.
O cofre est� vazio.
Voc� � absolutamente inocente.
Volta a levar uma vida normal, sua carreira...
sua mulher, Brasil !
Mas quem me garante... N�s desapareceremos.
Nunca mais saber� da gente.
E o retrato ?
Assim que recebermos o dinheiro, pode ficar com ele.
Algo para se lembrar de mim.
Boa noite, Sr. Martin.
Ol�, Charles Ol�, Lucienne. Onde est� David ?
N�o veio com voc� ? N�o, n�o vi David.
Achei que quando esteve com ele esta tarde... N�o estive com ele.
Estava em Londres. Acabo de chegar.
Devo estar sonhando.
Perdoe-me.
Marie, minha capa, por favor. Sim, madame.
Diga � Madame Deval que tive uma dor-de-cabe�a e fui para casa.
Sim, madame.
Espere.
Siga aquele t�xi.
Boa noite, Mr. Talbot. Boa noite. N�o vou demorar.
Queimou um fus�vel. J� vou consertar, Sr. Talbot.
Pode deixar. Est� dando para ver.
D�-me a lanterna.
Segure.
� mais simples abrir com uma chave, n�o � Jean ?
Lindo. Lindo.
Certo. Deixe tudo como est�.
Lucienne !
David, n�o, n�o, David.
Lucienne, n�o devia estar aqui.
N�o fa�a isso, por favor, n�o fa�a.
N�o h� mais nada a fazer. Mas tem que haver.
Est� assustado agora, eu sei. Mas eu estou aqui. Enfrentaremos isto juntos.
N�o v� que isto n�o vai ajudar em nada.
N�o tem outra sa�da.
N�o deixarei.
Eu...
Contarei � pol�cia.
Ou saio com o dinheiro, ou eu chamo a pol�cia.
A senhora decide, madame.
Por que acha que estou fazendo isto ?
O que quer que eu fa�a ? Ajude-me a amarrar. Vamos, Jean.
Voc� o encontrou amorda�ado, amarrado � cadeira.
O �libi perfeito.
D�-me tempo para sair daqui...
a� poder� gritar o quanto quiser.
Ponha seu dedo aqui...
Vamos, r�pido.
Assim.
Ouviu alguma coisa ?
N�o.
Madame Talbot, hesito em fich�-la.
Toda a Fran�a conhece sua fam�lia por sua honra e integridade.
Minha esposa n�o teve nada a ver com isso. Apareceu por acidente.
Estava l�...
Tire suas m�os de mim.
Acham que sou uma qualquer para ser arrastada por esses brutos ?
Est� aqui para ser interrogada. Interrogada ? Conhece esses tr�s, n�o ?
Fale !
Testemunhou no julgamento de le Duc, quando Sarrou apresentou provas...
de que este senhor n�o era o criminoso Jean Pelletier.
Sr. Comiss�rio, eu sou Jean Pelletier.
David ! No dia 27 de mar�o de 1922 participei do assalto a um mensageiro de banco.
Tamb�m estou envolvido em seu assassinato.
N�o � verdade, David. N�o sabe o que est� dizendo.
Mas eu sei, Lucienne.
Por favor, meu marido est� fora de si... Sr. Comiss�rio.
Deve ignorar as declara��es deste homem.
Sua amn�sia � total, n�o se lembra de nada antes de acordar em meu hospital ap�s o acidente.
O assassinato ocorreu dois dias antes disso.
Obrigado.
Isto � verdade ? �, sim.
Ent�o como sabe que est� envolvido neste assalto seguido de morte.
Me disseram. Quem disse ?
Meu c�mplice no crime.
Henri Sarrou.
N�o posso continuar sabendo que matei um homem. N�o suporto mais.
Desde que me contou... Nunca quis...
David... Sarrou, eu lhe imploro. Voc� tamb�m, Michelle...
Vamos confessar tudo e nos colocarmos � merc� do estado.
Mlle. Alleine estava envolvida no crime ?
Naquela �poca n�s �ramos...
�ramos mais que amigos, como pode ver neste medalh�o.
Ela me conduziu � esta��o ap�s o assassinato.
N�o. Nunca vi este homem. S� no dia em que testemunhei.
Cale-se. Henri, trata-se de um assassinato. Quer acabar na guilhotina ?
Nada temos a ver com o assassinato. Deixe que eu falo. J� falou demais. Por isso estamos aqui.
A chantagem perfeita, a toda prova. Cale-se. sua est�pida.
N�o me calarei. Ele n�o � Jean Pelletier.
Pelletier morreu no acidente do Expresso.
Sarrou e le Duc foram ao hospital depois do acidente.
Encontraram Pelletier entre os mortos.
L� souberam que um dos sobreviventes, o Mr. Talbot,
estava com amn�sia. Esperou todos esses anos para me chantagear ?
Ele esperou at� que voc� tivesse algo a perder.
Planejou tudo. At� a foto que � falsa.
S�o superpostas.
Mr. Talbot, acho que j� ouvimos tudo que precis�vamos.
Henri Sarrou e Michelle Allaine. Est�o presos at� serem julgados.
Mas a id�ia foi dele ! Vamos.
Sua hist�rica ! Hist�rica ? Espere at� eu falar no julgamento.
Bem, Mr. Talbot, arriscou-se bastante. Na verdade, n�o.
Sabia que n�o era Pelletier. Mas estava t�o convencido hoje no consult�rio.
Quando me despedi de voc�, achava que era o fim do mundo.
Querida, quando me deixou hoje � noite...
achei que n�o resistiria.
Ent�o, ao olhar nossa foto no passaporte...
algo me lembrou desta foto no medalh�o.
Associa��o de id�ias, muito natural. Mas ainda n�o compreendo..
Quando me levaram para seu hospital, de que lado era meu repartido ?
No lado direito. Sua cabe�a tinha quebrado bem em cima do repartido.
Levou 7 pontos. A� mudamos de lado para que o cabelo pudesse esconder a civatriz.
Mas o que isso tem a ver... Olhe, querida.
Este retrato era para ter sido tirado antes do acidente.
Olhe bem.
O que est� errado ?
Claro, o repartido est� no lado esquerdo.
Exato. Ent�o sabia que a foto s� podia ser posterior ao acidente.
Voc� � maravilhoso.
Quando me telefonou pedindo que mandasse a pol�cia...
Achou que tinha enlouquecido.
Armar o plano foi f�cil. Dif�cil foi atrair o Sarrou.
Como conseguiu, David ? Duas palavras bem simples.
Fundos governamentais.
Mordeu a isca instantaneamente.
Rapaz, se administrar da embaixada no Brasil da mesma forma...
ficaremos todos orgulhosos.
Se n�o, sempre haver� um lugar para voc� aqui na Pol�cia.
Soltem-me.
Solte-me, seu porco.
O que significa isto ?
� voc�, monsieur.
Por que me trouxeram aqui ?
Diga-lhes que n�o deviam perturbar uma senhora idosa no meio da noite.
M�e, acho que a senhora caiu na rede.
N�o estou entendendo.
A �nica coisa que pe�o � para ficar sozinha.
E vai conseguir.
Durante 10 anos.
Querido, por favor ! Lembre-se onde estamos.
Lembrar ?
Como posso ? Sofro de amn�sia.
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