All language subtitles for (1985-03-02) - A Murder Is Announced [1950] (3-3)

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Original subtitles

1a.Exibição (2 Março 1985)

PARTICIPA-SE UM CRIME PARTE 3

Posso entrar, Sargento?

Claro. A senhora está acima de qualquer suspeita, Miss Marple.

Ninguém está acima de suspeita.

Bom dia.

Perdoe a minha intromissão, Miss Blacklock,

mas o pároco teve de ir ver um paroquiano moribundo

e a Mrs.Harmon teve de levar uma criança ao hospital

e pediram-me que lhe entregasse isto.

- Obrigada, Miss Marple. Sente-se. - Obrigada.

Calculo que sejam os preparativos para o funeral.

Sim, claro.

Se tiver algum recado...

O pároco é muito compreensivo. O que não serve de consolo...

Diga-lhe que concordo com tudo.

''Lead Kindly Light'' era o hino favorito da Bunny.

Sei que sou apenas uma estranha, mas lamento imenso.

Só agora percebo o que perdi!

A Bunny era a minha única ligação ao passado.

Era a única que se recordava!

Eu entendo...

Ficamos muito sós, quando perdemos a última pessoa que recorda.

Tenho sobrinhos muito simpáticos e amigos também,

mas já não tenho ninguém que recorde os velhos tempos.

É muito compreensiva, Miss Marple e fico-lhe muito agradecida.

Tenho de escrever ao pároco...

- A Polícia. - Obrigada, Hannah.

Bom dia, Miss Blacklock. Miss Marple.

A Miss Marple veio trazer-me um recado do pároco.

Já estou de saída. A não ser que precise de mim...?

- Esteve presente na festa de ontem? - Não, não estive.

Assim sendo, não vou precisar de si.

Ela trouxe mesmo um recado do pároco.

Reconheço uma coscuvilheira a milhas.

Não vou perder tempo com lamentações, Miss Blacklock.

Calculo que saiba que lamento imenso o sucedido.

Devíamos tê-lo evitado. - Não vejo como.

Havia comprimidos letais na sua mesa-de-cabeceira,

com a casa vigiada há vários dias.

- Não podem revistar tudo e todos. - Pois não.

Seja como for, tentaram alvejá-la e envenená-la. Mas quem será?

Não faço a mínima ideia, Inspector.

Vou oferecer-lhe algumas sugestões.

Fui à Escócia, falar com a Belle Goedler.

As únicas pessoas que beneficiam com a sua morte, são o Pip e a Emma.

Pensava que o Patrick e a Julia podiam ser eles,

mas investiguei os seus passados e...

- Fez o quê?! - E o meu trabalho, Miss Blacklock.

Sim, com certeza. Peço desculpa...

O Patrick e a Julia Simmons são exactamente quem dizem ser.

Depois lembrei-me da mãe deles, a Sonia Stamford,

a irmã de Goedler.

Acha que a reconheceria, se a visse?

Sim, calculo que sim.

Apesar de já terem passado 30 anos.

Deve ser uma senhora de idade.

- O que se recorda dela? - Era uma mulher baixa, morena...

Era muito alegre.

Mas agora deve estar cansada e grisalha, como todos nós...

Não há falta de senhoras de idade em Chipping Cleghorn.

Está a insinuar que a Sonia vive nesta aldeia, sob um nome falso?

Tenho de considerar todas as possibilidades.

Há três senhoras que correspondem a essa descrição:

a Mrs.Swettenham, a Miss Murgatroyd e a Miss Hinchcliffe.

Todas elas estiveram aqui ontem, bem como na noite dos tiros.

- Que ideia disparatada, Inspector. - Ajude-me a prová-lo.

Tem alguma fotografia da Sonia?

Só fotografias muito antigas.

- Estão num álbum, algures no sótão. - Posso vê-las?

A Julia está por aí algures. Peça-lhe que vá consigo.

Obrigado.

- Está cheio de pó e de lixo. - Tal como o meu cérebro.

Há muito que queremos limpá-lo.

Também eu, Miss Simmons. Também eu...

O álbum de fotografias está por aqui.

O Patrick encontrou-o quando chegámos.

Mergulhámos em nostalgia e rimo-nos dos chapéus...

Meu Deus, repare bem nisto.

A tia Letty não deita nada fora.

- Conhece a história da sua família? - Acho que sim.

A maior parte é entediante, mas se puder ajudar nalguma coisa...

Estas fotografias já faltavam quando viram o álbum?

- Não faltava nada. - ''A Sonia, eu e o R. G.''...

R. G. Randall Goedler.

''A Sonia e a Belle na praia. Piquenique em Skeyne.

A Charlotte, eu, a Sonia e o R. G.''.

Posso...?

Todas as fotografias da Sonia desapareceram.

É uma espécie de pista, não é?

É uma espécie de pista, sim.

Acha que a sua tia se importaria, se desse mais uma vista de olhos?

Não deve ser preciso um mandado

para proteger alguém de ser assassinado.

Se pensar que falhámos duas vezes seguidas...

Quer que me vá embora, para poder ser indiscreto?

Obrigado.

Isto é uma inconfidência, Miss Marple,

mas gostaria que as lesse.

Sim... muito obrigada.

Adoro inconfidências.

Devia ter casado com um padre. - Minha querida...

Claro que seria impossível.

- Já as leu? - Sim.

A que conclusão chegou?

A Miss Blacklock era muito dedicada à irmã,

escrevia-lhe duas ou três vezes por semana.

E o pai delas era um tirano, um médico vitoriano à moda antiga,

que detestava modernices.

Deve ter matado imensos pacientes.

Prefiro médicos mais velhos, a médicos jovens.

Tiram-nos os dentes, dão-nos hormonas esquisitas,

tiram-nos pedaços e depois dizem que não há nada a fazer.

Tudo isso porque ficamos totalmente diferentes.

Prefiro a medicina antiga. Frascos enormes.

Aqueles tónicos que podíamos despejar na sanita.

- Já sabe de onde veio a arma? - Pertencia ao Coronel Easterbrook.

A Mrs.Butt contou-me que o Coronel tinha uma arma.

Há alguma confusão quanto à data do roubo...

A irmã da Miss Blacklock morreu de doença?

Acho que sim. Estava internada numa casa de saúde suíça.

A sério?

- Utilizaram a arma do Coronel... - Mas ele não é a Sonia Goedler.

Apenas sabemos que a Sonia era baixa e morena

e que tinha muito mau feitio, a julgar por essas cartas.

Estas cartas são fascinantes, mesmo sendo uma inconfidência.

- Pode ficar com elas até amanhã. - Obrigada. Se não se importa...

Agora estou destinada a várias horas de silêncio.

Não se preocupe, querida. Hei-de arranjar tema de conversa.

A Miss Blacklock vê mal? - Sim, mas recusa-se a usar óculos.

Quando vai à missa, canta os hinos de cor e trauteia o que não sabe.

- A sério? - Levo-o até à porta, Inspector.

- Cuidado, Delilah! - Delilah?

O meu marido baptizou-a assim. E o nome faz-lhe justiça.

Tia Jane! Assim não consegue ler nada.

- Sim, estou um pouco ás escuras... - Vamos acender uma luz.

- Deve haver aí um interruptor. - Está no fio.

Delilah! Sua gata tonta!

Peço imensa desculpa...

A culpa foi da Delilah, tia Jane.

Deve ter provocado um curto-circuito. Que chatice!

Não é chatice nenhuma... É maravilhoso.

O fio está todo roído. Por isso fez curto-circuito.

- Com a ajuda da pastora... - Do que está a falar?

De assassínio, minha querida.

E não quero que digas mal dessa gata fantástica.

Pareceu-me ouvi-la dizer que o seu marido

tinha sido morto na Itália, Mrs.Haymes.

- Exactamente. - Mas não é verdade. Ele desertou.

- Eu sei. - Devia ter-mo dito.

- Tem de vasculhar a vida de todos? - Tenho, sim.

É incrível como se encontra tanta coisa.

Não quero que o meu filho saiba.

Não lhe conto mentiras sobre o pai, só não lhe falo nele.

O silêncio não é o mesmo que dizer mentiras.

Foi vista a conversar com um homem na semana do incidente.

Era o seu marido?

- Não falei com ninguém. - Veio pedir-lhe dinheiro?

- Há anos que não vejo o meu marido! - Tem a certeza?

O silêncio pode ser o mesmo que dizer mentiras, Mrs.Haymes.

- E isto esclarece a situação? - Sim.

Três pessoas beneficiam com a morte da Miss Blacklock:

a Sonia Stamfordis, ou os filhos desta, o Pip e a Emma.

E estas pessoas correspondem em termos de idade e sexo:

a Mrs.Swettenham, a Miss Hinchcliffe

e a Miss Murgatroyd - das mais velhas -

e o Patrick Simmons, a Julia Simmons,

a Phillipa Haymes, o Edmund Swettenham e a Mrs.Harmon.

Pelo menos teve a decência de colocar uma marca na mulher do pároco.

Sim, ela pertence ás mais velhas.

E ainda o casal Easterbrook. O Coronel tinha uma arma.

- Tinha? - Desapareceu na semana do crime.

- Porque não apresentou queixa? - Não deu por isso.

A mulher jura que desapareceu depois do crime.

Está a mentir para proteger o marido,

mas sem necessidade nenhuma, pois ele é um palerma.

- Quer a minha opinião sincera? - Toda a ajuda é pouca, Comissário.

Foi cometido um crime, na presença de um grupo de pessoas.

Através de dedução lógica,

conseguiu provar que o assassino faz parte desse grupo.

Mas penso que já calculávamos isso. Entre.

É melhor ver isto, chefe.

- Eu sabia que ela estava a mentir. - Quem?

Um tipo foi atropelado em Milchester, há dez dias.

Não tinha identificação e ninguém comunicou o seu desaparecimento.

Acabou de ser identificado como Ronald Haymes,

antigo Capitão em South Loamshire.

- O marido da Phillipa Haymes. - E o que parece...

Tinha algum dinheiro e um bilhete de autocarro de Chipping Cleghorn.

- Em que dia foi o acidente? - No dia antes do crime, chefe.

Com todo o respeito, devíamos ter em consideração a maneira como morreu.

O que quer dizer?

Atravessou a estrada para salvar um miúdo de ser atropelado.

Estou a ver...

- Uma morte boa. Atendendo a que... - Sim, já percebemos, Sargento.

Phillipa. Acabei de saber...

Podes dizer o nome dele. Já não pode fazer mal a ninguém.

O teu marido. Eu...

- Temos mesmo de fazer isto? - Sim.

A pessoa que matou o Rudy Scherz

fez o mesmo à desgraçada da Dora Bunner e isso incomoda-me.

Claro que sim!

Pode ser um de nós a seguir e isso também me incomoda.

Ora bem...

Todas as pessoas daquela noite, estiveram presentes

na festa de aniversário, excepto a Mrs.Harmon, portanto fica de fora.

- Também me parece... - Acho que foi um homem,

porque todos sabemos aquilo que os homens são.

Qualquer pessoa podia ter trocado os comprimidos durante a festa.

- Qualquer pessoa? Como assim? - Todos fomos à casa de banho.

Com tanto chá e Sherry, seria um milagre não termos ido...

Portanto... de volta ao primeiro assassínio.

Aquele suíço idiota entra, pára, acena a lanterna...

- E a arma. - Não! Outra pessoa tinha a arma.

Vamos fingir que sou o suíço idiota...

Onde estavas tu?

- Não me recordo. - Claro que te recordas!

Estava atrás da porta. Quando abriu, levei com ela no joanete.

Quando é que vais a um podologista?

Ainda vais arranjar um problema...

Vem cá e coloca-te atrás da porta.

Cuidado com o dedo do pé.

Eu estou encostada à lareira, a morrer de sede...

... a pessoa que dispara os tiros tem de ir à entrada pela outra porta.

- Não temos outra porta. - Em Little Paddocks há outra porta!

Quem consegues ver?

E mais importante ainda, Murgatroyd,

quem não estava presente?

Estás por trás da lanterna, vês uma série de rostos...

Lembro-me de ver a Mrs.Harmon sentada no braço do cadeirão.

E a Dora Bunner de boca aberta.

Inacreditável!

Raios!

Estou? Daqui fala Hinchcliffe. Não te esqueças do que ias a dizer.

Boa tarde. É a própria.

O quê?!

Sabe que horas são?

Esqueça. Eu sabia que alguém tinha feito asneira.

O cão já chegou.

Veio de comboio e pensavam que ainda não estávamos a pé.

Não suporto que pensem por mim. Parvos...

Não queres saber do que me lembrei?

Depois falamos. Mas não te esqueças!

- Não percebes? Ela não estava lá! - Não te esqueças!

Ela não estava lá!

Vá para dentro, senão molha-se. Não demoro nada.

Miss Marple!

Entre, Miss Marple. Vai ficar encharcada.

Obrigada.

Consegue entrar?

Venha tomar um café. Ligamos ao pároco, a dizer-lhe onde está.

- Seria boa ideia. - Não se preocupe com o cão.

Os Setters são completamente loucos.

São 100% coração, 0% cérebro.

Temos uma visita, Murgatroyd!

Venha tomar um café, Miss Marple.

É melhor soltar o cão.

Se a Murgatroyd não tiver a cafeteira ao lume, vai haver sarilho.

Vamos, Fofinha.

Murgatroyd!

O nome dela é mesmo Fofinha. Já ouviu algo tão ridículo?

Ainda não apanhou a roupa.

É melhor ir ver o que os cães estão a fazer.

Ela deve ter perdido o juízo. Não que tenha muito...

Então!?

Eu mato quem fez isto.

Quando a apanhar.

Temos de chamar a polícia.

Porque se referiu a uma mulher?

Tínhamos estado a fazer um jogo...

... a tentar descobrir quem matou o rapaz suíço.

A ideia foi minha.

A culpa é minha.

Não. Conte-me o que aconteceu.

Estava a tentar descobrir, por exclusão de partes...

... quem podia ter ido à entrada, naquela noite.

Acho que a Murgatroyd viu tudo. - Compreendo.

Quando saí para ir buscar o cão, ficou toda enervada

e começou a gritar: ''Ela não estava lá''.

- ''Ela não estava lá''? - Exactamente.

''Ela não estava lá''.

Tenho de descobrir quem é... ''ela''.

Seja quem for, vai pagar bem caro.

Espero que a Hannah tenha preparado um manjar.

Fartei-me de trabalhar.

Estou admirada.

Faltei a três aulas. Normalmente, só falto a duas.

Julia!

Passa-se alguma coisa?

Esta carta.

É da Julia Simmons.

Pensei que você fosse Julia Simmons.

Meu Deus...

Apanhados com a boca na botija.

Na botija propriamente dita, não... - Do que está a falar?

Para dizer a verdade, tia Letty, não passou de uma brincadeira...

Chamou-me tia. Isso quer dizer que é mesmo o Patrick Simmons?

Sim, sou mesmo o Patrick. A Julia é que não é... a Julia.

Quem é você, exactamente?

Chamo-me Emma Jocelyn Stamfordis. Sou a filha da Sonia.

- A Emma... - Exactamente.

- Mas como se conheceram? - Numa festa em Londres.

E o que faz a verdadeira Julia em Perth?

Quer ser actriz. Tem trabalhado no teatro.

Sabíamos que a mãe objectaria,

por isso planeámos esta brincadeira.

Ela iria para a Escócia. e continuaria a sua actividade...

E eu viria para aqui, fingiria ser a Julia e ficaria tudo tranquilo.

Para além disso... queríamos ficar juntos.

- Estou a ver. Vocês estão...? - Perdidamente apaixonados.

Acho que é assim que se diz. - Sim, dizem que isso acontece...

E a herança do Goedler fazia parte da vossa brincadeira?

Não exactamente, tia Letty.

O que pretendia exactamente, Miss Stamfordis?

Os meus pais separaram-se três anos após casarem. Separaram-nos também.

- A você e ao Pip? - Sim.

Pip ficou com a minha mãe e eu fiquei com o meu pai.

Ele era terrível e mau pai. Mas era uma pessoa agradável.

Depois começou a guerra e fiquei sem ele também.

Trabalhei na Resistência francesa

e vim para Inglaterra, quando as coisas acalmaram.

Sozinha, sem um tostão, mas sabendo que havia dinheiro na família.

Depois conheci o Patrick, o que foi uma sorte incrível.

Disse-me que vinha para cá

e pensei que a senhora talvez tivesse pena de uma pobre órfã.

- Pena? - Talvez me desse uma mesada.

Porque não me disseram a verdade?

Queríamos fazê-lo, mas apareceu alguém aos tiros

e comprimidos a causar morte instantânea,

pelo que achámos melhor ficar calados...

Calculámos que o Inspector

ia suspeitar logo de alguém que tivesse mentido.

Sim. Parece-me compreensível...

Se você é a Emma, onde está o Pip? - Não faço ideia.

Separaram-nos aos três anos.

Há mais de 20 anos que não vejo Pip, nem a minha mãe.

Está a falar a verdade?

A verdade é que vim cá, à espera de uma mesada de família

e não para cometer um assassínio e receber uma fortuna.

Não tenho alternativa, senão acreditar em si.

Só um momento... Esteve na Resistência francesa?

E aprendeu a usar uma arma? - Aprendi, sim.

Nesse caso...

Se a quisesse matar, não teria falhado, Letitia Blacklock.

O Inspector Craddock quer falar com todos vós.

- Obrigada, Hannah. - Com todos? Mas acabámos de chegar!

A Miss Amy Murgatroyd foi assassinada esta tarde.

Foi estrangulada, no seu jardim.

Quero saber onde estavam todos.

Quem fez isso deve ser louco! Louco!

- Não necessariamente... - As minhas pérolas!

As minhas pérolas...

Nunca a vi tão perturbada.

- Bom dia, Miss Marple. - Bom dia, Sargento.

Como está a Miss Hinchcliffe?

Está em estado de choque. Parece ter envelhecido dez anos.

Temos de fazer alguma coisa, Sargento.

- Desaparecida? - Sim.

- Há quanto tempo? - Há cerca de duas horas.

Foi ao fundo da rua, falar com o Sargento Fletcher.

- A cinco minutos daqui, não é? - Dez, no máximo.

Não ajuda muito, o facto de não saber do Fletcher...

- Estava interessada em pérolas. - Pérolas?

Estava a fazer uma lista no caderno.

''Candeeiro, violetas, aspirinas,

Berne, Letty, reforma, pérolas''.

A Miss Blacklock usa sempre aquelas pérolas?

Sim. Brincamos muito com isso.

Estou preocupado com a Miss Marple. Assim que souber algo, telefone-me.

Com certeza.

- Inspector Craddock! - O que anda a fazer, Fletcher?

- Como vê, foi um dia e tanto. - É verdade.

- Mas só houve um crime. - Julia!

Não disseram que ela não era a Julia?

- Continuo a vê-la como Julia. - Bom...

E para ajudar à festa, a simpática Miss Marple desapareceu.

- Talvez tenha fugido. - De quê?

- Se matou a Miss Murgatroyd... - Phillipa!

Podem parar de falar em assassínios?

Não vêem que estou assustada?

Não se preocupe, tia Letty. Eu tomo conta de si.

Fazia-o melhor de estômago cheio.

Estou esfomeado, Hannah.

- E eu estou assustada. - A que horas jantamos, Hannah?

Façam-no vocês. Não faço mais nada nesta casa.

Se mataram a Miss Murgatroyd, podem matar qualquer um.

Vou trancar-me no meu quarto e amanhã saio daqui, de vez.

Boa noite, Miss Blacklock.

Talvez seja melhor ser eu a fazer o jantar...

Não sejas tonta, querida.

Ninguém quer sentar-se à mesa com uma impostora.

Como estás armado em protector, é melhor provares a comida, Patrick.

Não quero ser acusada de envenenar as omeletes.

Pode ser omeletas? - Por mim, tudo bem.

Não sei cozinhar mais nada, mas faço-as muito bem.

- Precisa de ajuda? - Não.

- Quero dizer-lhe uma coisa. - Não vale a pena!

Já basta de emoções fortes, por hoje.

Se está apaixonada pelo Edmund Swettenham, o problema é seu.

- Não se trata disso. - Porque não faz algo útil?

Vá pôr a mesa. É uma maneira educada de a mandar embora.

Quando atiro, atiro a matar. - Estou do seu lado, Emma.

- Estava muito saboroso. - Obrigada.

- Comeu alguma coisa? - Comi lá em baixo, Mrs.Haymes.

Eu atendo.

Sempre que o telefone toca, penso que lá se foi mais alguém.

Devemos dar-nos por satisfeitos. Pelo menos, não foi nenhum de nós.

Está muito alegre, Phillipa.

Atendendo a que estamos rodeados de morte e mentiras...

Podemos tomar o café na sala? Vamos receber visitas.

- Houve mais um anúncio no jornal? - O Inspector Craddock vem ver-nos.

Há pelo menos 20 minutos que não sabe nada de nós...

E traz os Easterbrook e os Swettenham.

Que excitante...

Café na sala de estar. Muito bem, minha senhora.

Já devem saber porque estamos aqui.

A Miss Murgatroyd foi hoje brutalmente assassinada

e tudo indica que o assassino se encontra nesta sala.

Mais ainda, estou convencido de que é uma mulher.

Meu Deus!

Quero perguntar ás senhoras presentes

onde estiveram entre as 11 e o meio-dia de hoje.

Começando pela jovem que se tem feito passar pela Julia Simmons.

- Que se tem feito passar?... - Pouco barulho, mãe.

Entre as 11 e o meio-dia, estive em Milchester.

Fui dar um passeio secreto perto do rio, com o Patrick.

Não temos testemunhas.

Podíamos ter ido de carro até à casa da Miss Murgatroyd, mas não fomos.

Estou inteiramente à mercê do Tribunal.

- Mrs.Swettenham? - Eu?!

- Onde estava na altura do crime? - Bom...

A cozer uma meia, ou a limpar a sarjeta,

tudo depende da hora a que começou a chover.

Começou a chover às 11:10.

Nesse caso, estive a cozer uma meia até essa hora.

Depois começou a chover e entupiu a nossa sarjeta,

por isso vesti o casaco e as galochas

e limpei a sarjeta com o cabo de uma vassoura.

- E tem testemunhas? - Não.

Chamei o Edmund, mas não respondeu,

pelo que calculei que estivesse a escrever o livro dele.

E estava?

Não, estava a dormir. Preciso de uma testemunha?

Não me parece. Mrs.Easterbrook?

Estava no escritório, com o Archie. Estávamos a ouvir o rádio.

Pode confirmá-lo, Coronel?

- Não. - Não?!

Estivemos a ouvir o rádio até às 11 horas.

- Não é a essa hora que se refere? - Não, entre as 11 e o meio-dia.

Precisamente.

Lembre-se que guardaram informação vital relativamente à arma.

Desta vez, quero precisão.

Estive no escritório com o Archie, a ouvir o rádio

e depois aqueci uns scones

- e, pelo meio, fui dar um passeio. - Sozinha?

Estive a conversar com o Lampson, um agricultor de Croft End,

sobre galinhas. - E a sua mulher foi dar um passeio.

Porque não pergunta aos outros?!

Pergunte à Haymes! E ao Edmund!

Ele escreve livros sobre assassínios

e é comunista! Está sempre a dizer...

Já disse que estamos à procura de uma mulher, Mrs.Easterbrook.

Antes de morrer, a Miss Murgatroyd

disse algo muito importante sobre o assassínio do Rudy Scherz.

Como devem estar recordados, a Miss Murgatroyd

estava neste preciso lugar quando o homem entrou por aquela porta.

Mas estava escuro. Ninguém conseguia ver nada.

A Miss Murgatroyd estava aqui e por isso viu a lanterna.

Mas também viu quem estava ausente naquele momento.

Ela viu tudo.

- Eu também vi tudo. - Impossível! Nem estava aqui!

Não, não estava.

Sou apenas uma criada estrangeira,

não sou suficientemente fina para estar numa sala cheia de ingleses.

Nem sequer me chamou à sala para responder às suas perguntas

e eu sei as respostas, pois vi o que aconteceu.

Conte-nos o que aconteceu.

Na noite do crime,

estava na sala de jantar a limpar as pratas e ouvi tiros.

Espreitei pela fechadura e vi-a com a arma na mão.

Vi a Miss Blacklock.

Eu?!

Deve estar louca!

- Mas é impossível, Inspector. - Claro que é, porque foi você.

- Obrigada. Pode voltar à cozinha. - Sempre para a cozinha...

Roubou a arma do Coronel

e planeou o anúncio no jornal com o Scherz.

Tem uma grande imaginação.

Que ideia disparatada!

As luzes apagaram-se, foi até à entrada por aquela porta,

disparou contra a Miss Blacklock e depois matou o Rudy Scherz.

Porque faria tal coisa? E qual seria o meu motivo?

Espero que tenhas uma boa explicação, Edmund.

Se a Miss Blacklock morrer, duas pessoas ficam a ganhar.

O Pip e a Emma.

Já sabemos que a Julia Simmons é a Emma e...

E acha que eu sou o Pip?!

Chamo-me Edmund Swettenham e posso prová-lo.

Tenho certidões de nascimento, documentos da universidade, tudo.

- Posso provar que ele não é o Pip. - Você?

- Eu sou a Pip. - Phillipa Haymes...

Todos partiram do princípio que o Pip era um rapaz,

- mas éramos duas raparigas. - Não nos víamos desde a separação.

Pensei o mesmo que a Julia. Sabia que havia dinheiro na família,

descobri onde vivia a Miss Blacklock e arranjei trabalho aqui perto.

Queria algum dinheiro, para os estudos do meu filho.

Assassinar pessoas não fazia parte dos planos,

mas depois começaram os crimes...

E com a chegada da carta de hoje, ficámos a saber...

- Quem éramos. - E estamos a dar-nos muito bem.

Dá-me licença, Inspector?

Não demoro nada...

Nunca faria mal à Miss Blacklock, tem sido tão generosa comigo.

E o Edmund também não, pois não é o Pip.

Mas está apaixonado por si, não está?

E verdade que a pediu em casamento?

Claro que sim! Ela é maravilhosa e quero casar com ela!

Nunca me contas nada, Edmund!

É impossível ter-me visto!

É tudo mentira!

Charlotte!

Charlotte!

- O que faz na minha cozinha? - Estou a vigiá-la, Miss Blacklock.

Sente-se bem, minha querida?

- Portei-me bem? - Lindamente.

Vai ter de me acompanhar à esquadra. Vai ser acusada.

Devo avisá-la, Letitia Blacklock...

- Charlotte Blacklock, Sargento. - Desculpe. Charlotte Blacklock.

Lamento...

Lamento...

Estou capaz de a matar. Estou capaz de a matar!

- A história é sua, Miss Marple. - Só ajudei aqui e ali...

Na encenação da Hannah, por exemplo.

Ela nunca poderia ter visto nada,

porque a chave estava na fechadura.

- E você quase estragou tudo. - Estava a acusar-me de assassínio.

A sério? Perdi tudo isso...

O Edmund fazia parte da encenação e portou-se lindamente.

Mas o que a levou a suspeitar da Miss Blacklock?

Pela maneira como foi planeado para acontecer às escuras.

A lareira não podia estar acesa, por isso o aquecimento central

estava ligado. Todos o comentaram.

Ninguém poderia ter preparado isso, excepto a dona da casa.

As luzes apagaram-se, a Miss Blacklock foi até à entrada,

disparou os tiros e voltou para a sala.

Depois cortou a orelha com uma tesoura pequena.

Quando se corta o lóbulo, deita imenso sangue.

- E a Delilah também ajudou. - A Delilah?

A gata.

Se se cortar um fio de electricidade e se deitar água para cima,

provoca-se um curto-circuito.

Só percebi isso, depois da Delilah demonstrá-lo.

Foi assim que a tia... que a Miss Blacklock apagou as luzes?

Deitou a água das flores para cima do abajur.

A pobre da Dora Bunny tinha dito que o abajur tinha sido trocado.

Do abajur do pastor, para o abajur da pastora.

Ou ao contrário, já não me recordo bem...

- Mas porquê matar pessoas? - Porque tinha um terrível segredo.

É uma história que começa com ''era uma vez''.

Era uma vez duas irmãs, a Charlotte e a Letitia Blacklock,

bem como um pai tirano e antiquado.

A Letitia Blacklock era uma profissional de sucesso,

secretária pessoal de Randall Geodler.

Mas a Charlotte estava em casa, pois tinha um inchaço no pescoço,

conhecido como papeira.

Podia ter sido operada, mas o pai dela não queria.

Pouco antes do início da guerra, o pai delas faleceu,

pelo que ela foi até Berne e submeteu-se a uma operação.

Mas a operação deixou uma marca no pescoço, daí as pérolas.

A Letitia deixou o emprego para tomar conta da Charlotte, na Suíça.

Após a operação, ambas trabalharam na Cruz Vermelha.

Subitamente, a Letitia morreu.

A Charlotte sabia que a Letitia ia herdar bastante dinheiro

e sabia que ninguém a reconheceria em Inglaterra,

portanto mudou de identidade,

escolheu uma aldeia sossegada chamada Chipping Cleghorn

e ficou à espera que a Belle Goedler morresse, para poder enriquecer.

Mas foi a bondade dela que a traiu.

A Dora Bunner escreveu-lhe uma carta.

Tinha sido amiga das duas irmãs.

A Charlotte ficou feliz por vê-la e confessou-lhe o seu segredo.

E a Dora aceitou tudo.

Parecia-lhe perfeitamente justo que a Lotty recebesse a herança

que pertencia à Letitia, caso não tivesse morrido inesperadamente.

Assim, a Dora veio morar para Little Paddocks

e a Charlotte apercebeu-se rapidamente

que tinha cometido um erro terrível.

- A Dora não era de confiança. - E por vezes tratava-a por Lotty.

Depois apareceu o Rudy Scherz. Uma ameaça muito mais grave.

- Ele conhecia a Miss Blacklock? - Trabalhara na clínica em Berne.

Certamente só queria fazer chantagem,

mas era uma ameaça demasiado grande.

Ela já acreditava na sua identidade, pelo que decidiu matar o Rudy Scherz.

E depois percebeu que a Dora não era de confiança.

A conversa que tive com ela no café

e que a Charlotte ouviu parcialmente

deve ter determinado o destino da Dora.

Quis que o último dia da amiga fosse um dia feliz

e preparou-lhe uma festa de aniversário.

Foi como ser bondoso com um cão que se está prestes a abater.

- E a Miss Murgatroyd? - Matou-a por medo.

Pobre tia Letty...

Não saiam daí. Só mais uma.

Miss Marple.

Inspector...

- Fazem um casal simpático. - Sem dúvida.

Calculo que seja a convidada de honra.

Sim, insistiram imenso.

E o senhor?

Não, estou só de passagem.

Para dizer a verdade, soube do casamento no ''Gazette''.

Mas com certeza.

Só assim se sabe o que se passa em Chipping Cleghorn.

1a.Exibição (2 Março 1985)

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