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1a.Exibição (28 Fevereiro 1985)
PARTICIPA-SE UM CRIME PARTE 1
- O seu chá, Miss Marple. - Obrigada, querida.
É um rapaz muito elegante.
O Rudy?
Sim, para um estrangeiro...
Archie...
... vão cometer um assassínio.
O raio do Nehru é um grande espertalhão. Muito bem.
Eu disse que vão cometer um assassínio.
A que horas?
- Hoje, ás 19 horas. - E um pouco em cima da hora...
Um assassínio?!
Hinch!
Hinch!
O que é, Murgatroyd?
- Onde estás? - No galinheiro!
Escuta o que diz no "Gazette":
"Vai haver um assassínio na sexta-feira, dia 5 de Outubro,
"em Little Paddocks, ás 19 horas"!
- É hoje. - "Este é um convite para amigos".
Que disparate...
O que achas que significa?
É um convite para ir tomar algo.
Provavelmente, um Sherry rasca.
As pessoas não anunciam assassínios. Casamentos, sim, assassínios não.
Larga essa porcaria e vem ver. - Isto não é nenhuma porcaria.
Nem sequer és trabalhador.
- Estou a escrever um livro. - Refiro-me a trabalho a sério.
Calculo que seja alguma festa.
Há gente nova a viver em Little Paddocks.
Identificam-nos a todos com papéis,
escolhem quem vai ser a vítima e quem vai ser o detective,
apagam as luzes e toda a gente grita.
São fantasias burguesas, mãe. O ópio do povo.
"Este é um convite para amigos". Deve ser divertido!
- Deve ser enfadonho! - Que disparate, Edmund. Nós vamos.
Ópio? Espero que não haja ópio...
- Bom dia. - Bom dia, minha senhora.
- Bom dia. - Bom dia.
Um assassínio! Não é maravilhoso?!
A que horas é?
Disseste 19 horas? - Sim. Em Little Paddocks.
- Tenho um baptizado. - Que pena! Adoras assassínios.
- Posso ver? - Sim. Está aqui,
entre os anúncios de pianos em segunda mão e de Cocker Spaniels...
Que anúncio incrível! Nada ao género da Miss Blacklock.
- Isto é obra sua, Patrick? - Claro que não, tia Letty.
Porque diz isso?
- É o seu género de brincadeiras. - Há brincadeiras mais divertidas...
- E você, Julia? - Claro que não.
- Achas que a Mrs.Haymes... - Não é muito o género da Phillipa.
Não é muito dada a brincadeiras. Não é dada a nada.
- É uma partida qualquer. - Mas a que propósito?
É muito disparatada.
E de muito mau gosto.
Não fiques enervada, Bunny, deve ser uma brincadeira.
Mas diz que é hoje. Hoje, ás 19 horas.
O que achas que vai acontecer?
Tenha calma. O Anjo da Morte tomará conta de tudo.
Eu digo-te o que vai acontecer.
Às 19 horas de hoje, metade da aldeia de Chipping Cleghorn
estará a bater-me à porta, cheia de curiosidade.
É melhor ir ver se temos Sherry...
Coitada da Lotty, está tão preocupada...
Duas palavras, de cinco e seis letras.
"Endurecimento definitivo dos músculos".
- Rigor mortis. - Claro.
O bom do rigor mortis... - Não diga essas coisas!
Precisamos de uma garrafa de Sherry , Hannah. Vamos ter visitas.
- Não estarei cá, Miss Blacklock. - Como assim?
- Vou deixar de trabalhar para si. - Que disparate, Hannah...
Não é disparate, Miss Blacklock.
Eu li o jornal. Vêm matar-me.
Ninguém vem matar ninguém. E apenas uma brincadeira.
Matar pessoas é uma brincadeira? Em Inglaterra, é tudo uma brincadeira.
Na Europa, matar pessoas é um caso muito sério. Por isso fugi.
Prometo-te que não há problema.
Promete?
Se quisessem matar-te, achas que iam anunciá-lo no jornal?
Em Inglaterra, talvez. Talvez queiram matá-la a si.
O aquecimento central está ligado, tia Letty.
- Havia muita humildade no ar. - Usou o nosso precioso coque?
Caso contrário, teria de usar o ainda mais precioso carvão.
Lembro-me quando havia imenso carvão e imenso coque...
- Nos bons velhos tempos? - Sim, minha querida...
Boa noite.
Vai haver uma festa? - Bem-vinda à cena do crime.
- Não costumo perceber piadas. - Lá isso é verdade...
Daqui a um quarto de hora, vai haver um assassínio nesta sala.
Aqui estão as coroas de flores e ali estão os comes e bebes.
- Não estou a perceber... - Leia isto.
- Eu estava a explicar... - E mais rápido se for ela a ler.
- Tenho de ir guardar os patos. - Eu vou.
Nem pensar nisso. Da última vez, não fechou a cancela.
- Já li e continuo a não entender. - Nós também não.
É divertido, não é?
- Achas mesmo que virá alguém? - Não me parece.
As pessoas das aldeias são muito curiosas.
Sei que temos uma garrafa nova de Sherry,
portanto nada está perdido.
Quer que a vá buscar? - A Letty quer que mude a mesa.
Trabalho, trabalho, trabalho. Quando irá parar?
Obrigada, Patrick. Quando terminar, pode ir buscar...
A nova garrafa de Sherry. Com muito gosto.
- Assim está muito melhor. - Porquê?
Estamos preparados para receber visitas, mas sem parece-lo.
Vamos fingir que é mais um serão rotineiro
e mostrar-nos admirados com a chegada das pessoas.
- Exactamente. - Espero que não venha ninguém.
Está alguém à porta.
O Mr.e a Mrs.Borgia. E trouxeram uma garrafa.
Pode fazer um esforço e comportar-se?
Vou esforçar-me e... logo se vê.
- O Coronel Easterbrook e a esposa. - Obrigada, Hannah.
Que agradável surpresa!
- Boa noite. - Boa noite.
Estávamos aqui perto... Está uma noite agradável.
O aquecimento está ligado? - A casa estava húmida.
Bom...
... que bonitos crisântemos. - Estão um pouco descarnados.
- Ainda não ligámos o nosso. - Os crisântemos?
Não, o aquecimento central.
A Miss Murgatroyd e a Miss Hinchcliffe.
- Boa noite, Miss Blacklock. - Boa noite.
Está tão agradável que decidimos vir dar um passeio.
Disse à Murgatroyd para virmos ver se os patos têm posto ovos.
O ambiente está agradável. Já ligou o aquecimento central?
Sim. Parece que a casa estava húmida.
- Isto é muito agradável, não é? - Pode crer.
- "Pode crer"? É uma expressão nova? - Parece que sim, Coronel.
A Mrs.Swettenham e o... não sei quantos.
- Estamos todos reunidos! - É verdade...
Só vim ver se estaria interessada... num gatinho.
Um gatinho?
- A nossa gata está prestes a... - Dar à luz.
Desconhece-se quem é o pai, devem ser vários.
Vai nascer um monstro. - Edmund!
- Sente-se, Mrs.Swettenham. - Aqui está quentinho.
- Ligámos o aquecimento central. - Parece que a casa estava húmida.
Aposto que nunca teve problemas desses na India, Coronel.
Só algumas enchentes durante as monções. Mas pouca humildade.
A Mrs.Harmon.
- Boa noite a todos. - Boa noite, Mrs.Harmon.
Boa noite. Estou atrasada? Quando é o assassínio?
- Não, não está atrasada. - Ainda estamos todos vivos.
O Julian está furioso por não vir. Ele adora assassínios!
Escreve os melhores sermões quando anda a ler um bom thriller.
Daqueles com quatro ou cinco cadáveres espalhados pela casa.
Peço desculpa, estou a falar demais.
- Não se preocupe. - Quando vai ocorrer o assassínio?
Se acontecer, deve ser em breve, falta um minuto para as 19 horas.
Está na altura de oferecer um Sherry, Patrick.
Se não se importa, Phillipa...
- "Se acontecer"? - Sei tanto como você.
Bom, apetece-me um cigarro...
- Já começou! - Não estou a gostar disto!
- Onde estás, Archie? - Estou aqui, querida.
Peço desculpa!
- Mãos ao alto! Imediatamente! - Não é fantástico?!
Estou bastante impressionada!
- As luzes! - Acendam as luzes!
- Alguém tem fósforos, ou isqueiro? - Eu tenho!
- Quero ir para casa, Archie! - Experimente os interruptores!
Estão desligados. Foi um fusível.
- Vá buscar as velas, Patrick. - É para já.
A Hannah está a gritar!
- O tipo alvejou-se a si mesmo! - E bem feito.
Está fechada lá dentro.
Estava a limpar as pratas e um homem fechou-me aqui dentro e ouvi tiros...
- Pára com isso! - As velas. Estão na cozinha.
- Miss Blacklock! - Letty! Estás a sangrar!
Passou-me algo de raspão na orelha. Não é nada de mais...
- Está cheia de sangue! - As orelhas são muito sensíveis.
Patrick! Onde estão as velas? Não podemos fazer nada sem...
- A Phillipa está a ver os fusíveis. - Graças a Deus. Alguém eficiente...
É melhor ver o tipo.
- Meu Deus! - O que foi?
- O homem está morto. - Foi só um fusível...
É melhor ver quem é. Alguém o reconhece?
- Nunca o vi antes. - Nem eu.
- Parece tão jovem... - Acha que se alvejou a ele mesmo?
Pode ter sido um acidente. Talvez tenha tropeçado...
- Eu conheço-o. - A sério?
É aquele jovem do hotel termal em Medenham Wells, Letty.
O que te pediu dinheiro!
- Pois é... - Podia ter-te matado!
Ele veio para te matar, Letty! A sério!
Phillipa, leve a Bunny para a sala e dê-lhe um brandy.
Julia, vá lá acima e traga algo para estancar o sangue.
Patrick, telefone para a Polícia.
Rudy Scherz, de nacionalidade suíça. Era recepcionista aqui.
Sim...
... é ele.
Há quanto tempo trabalhava para si, Mr.Rowlandson?
Tomei a liberdade de confirmar os ficheiros, antes da sua chegada.
Há pouco mais três meses. Boas referências,
licença de trabalho, etc. Quer dar uma vista de olhos?
Acredito em si.
Era bom empregado?
- Era satisfatório, Inspector. - Isso soa-me um tanto pejorativo.
- É puramente conjectural. - A que se refere?
Houve alguns enganos nas contas.
Foram cobradas coisas a mais. Calculámos que fosse inexperiência.
- E não foi? - Disse que ela era um criminoso.
Sendo assim, calculo que quisesse enganar os nossos clientes.
Mas é muito diferente de um assalto à mão armada.
Tinha alguma namorada?
Uma das nossas empregadas.
- Nome? - Myrna Harris.
- Era amiga do Rudy Scherz? - Não sabia que ele era...
Ninguém sabe o que ele era. Quero que me ajude a descobrir.
Pensava que um recepcionista fosse de confiança.
São muito cuidadosos a seleccionar pessoas, especialmente estrangeiros.
Fazia parte de algum grupo?
- Achamos que trabalhava sozinho. - Dançava muito bem.
Era uma companhia muito agradável.
Arranjava os melhores lugares no cinema e comprava-me flores...
Lamento que tenha morrido.
Obrigado.
Têm desaparecido coisas.
- Que tipo de coisas? - Coisas dos quartos.
Uma pregadeira de diamantes e uma medalha de ouro, acho eu.
Talvez não tenha sido ele. Talvez tenha sido eu.
Mas não fui. - Você gostava dele.
Era muito gabarolas, mas habituei-me a isso, durante a guerra.
Os polacos também eram assim e os americanos eram piores.
- Como era ele, comparativamente? - Era tão gabarolas como eles.
Disse que pertencia a uma família abastada suíça
e que não tinha conseguido trazer o dinheiro com ele.
Foi o que disse. Mas não usava roupas caras, eram bastante vulgares.
Não usava roupa elegante, entende? - Sim.
Disse que tinha salvo muitas pessoas nos Alpes,
mas também não acreditei nisso.
Alguma vez falou na Miss Blacklock?
Não me parece.
Ela costuma almoçar por aqui, por isso talvez a conhecesse, mas...
Alguma vez lhe falou em Chipping Cleghorn?
Perguntou-me algo sobre os horários dos autocarros,
mas não sei se se tratava de Chipping Cleghorn...
Pode ter sido outra Chipping, há tantas nesta zona...
Se soubesse que era um criminoso, não teria saído com ele.
Mas lamento que tenha morrido.
Bom dia, Inspector Craddock.
- Já revistou a casa, Fletcher? - Sim, chefe.
Não há impressões digitais, nem sinal de arrombamento,
mas as portas estiveram sempre destrancadas.
O Scherz deve ter chegado de Medenham no autocarro das 18:30.
Porque se apagaram as luzes?
A sala de estar e a entrada estão no mesmo circuito.
Isto se fosse possível programar um curto-circuito para as 19 horas...
- É mais céptico do que eu... - Sim, chefe.
Fale-me sobre as pessoas que aqui vivem. A Miss Blacklock?
- Não levanta suspeitas, senhor. - E a Miss... Bunner, não é?
É uma senhora simpática, mas um tanto fútil, chefe.
- O Patrick Simmons? - Acha-se um brincalhão.
- A Julia Simmons? - Acha-se muito.
A Phillipa Haymes?
Ainda não falei com ela. Tem estado a trabalhar.
Óptimo.
Que bonito jardim...
Esta é a sala onde ocorreu o incidente?
Sim, mas já a arrumámos, claro. Foi uma confusão!
Mesas no chão, pessoas ás apalpadelas...
E uma queimadura de cigarro, mas isso já é habitual...
É melhor limitarmo-nos a responder ás perguntas, Bunny.
Obrigado, Miss Blacklock.
Quando viu o Rudy Scherz pela primeira vez?
É esse o nome dele?
Foi há cerca de três semanas. Passámos o dia nas Termas Medenham.
Almoçámos no hotel. Ele veio até à nossa mesa
e disse que era filho do proprietário do "Hotel des Alpes", em Montreal,
onde eu e a minha irmã ficámos durante a guerra.
- Lembrava-se dele? - Não.
Afinal de contas, os recepcionistas são todos iguais...
- E ele veio visitá-la depois disso? - Sim, há dez dias.
Com uma história absurda. Disse que a mãe estava muito doente
e que precisava de dinheiro para regressar à Suíça.
Deu-lhe algum dinheiro?
- Claro que não. - Fez muito bem.
Fui secretária de um financiador durante muitos anos
e ouvi toda a espécie de histórias de desgraçadinhos...
Quando ele veio, não se apercebeu
se tinha estado a investigar a casa, por assim dizer?
- Refere-se a apalpar terreno? - Exactamente, Miss Bunner.
Sim, é possível. Lembro-me que estava muito interessado na casa.
Mas todo aquele disparate do anúncio no jornal...
Não entendo nada.
- Guarda algum dinheiro em casa? - Não, só algumas libras...
- E jóias? - Anéis, pregadeiras... E este colar.
Nada que valha a pena roubar. Foi por vingança, Inspector.
A Letty recusou-se a dar-lhe dinheiro e ele veio para a matar.
- Foi aí que ele a atingiu? - E só um arranhão, mas deitou sangue.
- Conte-me o que aconteceu. - O relógio deu as horas.
- 19 horas. - E as luzes apagaram-se.
- E depois? - A porta abriu-se.
- Qual porta? - Aquela ali.
E esta porta aqui?
Essa nunca é utilizada. Antigamente eram duas divisões.
Portanto esta porta abriu-se e...
E ali estava ele. Um homem armado.
Um homem encapuçado e armado.
Pensámos que era apenas uma brincadeira...
... mas depois ele disse algo. - "Mãos ao ar, senão disparo"!
Algo assim...
- E pôs as mãos no ar? - Sim. Parecia fazer parte do jogo.
Ele apontou-me a luz para os olhos. Fiquei sem ver.
Comecei a ficar irritada. - E depois?
Depois ouviu-se o primeiro tiro.
Acho que alguém gritou...
... e depois senti uma dor na orelha. - Vê como não foi só um arranhão?
- Onde estava, Miss Blacklock? - Aqui, ao lado da mesa.
- la buscar a caixa dos cigarros. - Veja! Os buracos das balas!
Queria matar-te!
Diga-lhe, Inspector. Ela não acredita em mim.
- E como não lhe acertou, suicidou-se? - É óbvio!
É da mesma opinião, Miss Blacklock?
Claro que não, Inspector. E absolutamente ridículo.
Não era o tipo de pessoa para se suicidar, ou matar seja quem for.
Leva isto daqui, detesto flores secas. - Apanhei-as ontem.
Nem as flores duram tanto como deviam...
- A Miss Bunner é sua parente? - Não, é uma velha amiga.
Andámos juntas na escola.
- Foi há cerca de 100 anos... - É uma companhia.
- Fazemos companhia uma à outra. - E as outras pessoas que vivem cá?
O Patrick e a Julia.
Tratam-me por Tia Letty, mas somos primos afastados.
Peço desculpa.
A tia Dora disse que a Polícia quer interrogar toda a gente. E verdade?
- Esta é a Julia. - Já que se oferece, Miss Simmons...
Sou o Inspector Craddock e este é o Sargento Fletcher.
Já nos conhecemos.
- Já não precisa mais de mim? - Não, Miss Blacklock.
- Vai também falar com a Hannah? - Quem é a Hannah?
- A minha cozinheira. - Ela grita muito.
- A desgraçada é uma refugiada. - Qual é a nacionalidade dela?
Perguntei-lhe, mas disse que
ainda não tinha lido os jornais de hoje.
Não seja preconceituoso em relação a ela, Inspector
apenas porque diz mentiras.
Há por aí muitas histórias sobre atrocidades,
mas acho que a dela tem um fundo de verdade.
Sinto imensa pena dela.
E é uma excelente cozinheira. - Quando lhe apetece.
- Levarei isso em consideração. - Obrigada.
Pode falar-me sobre ontem à noite?
- Já disse tudo ao Sargento Fletcher. - Gostaria que mo dissesse a mim.
- Vieram cá pessoas muito chatas. - Quem?
Por ordem de chegada?
O Coronel e a Mrs.Easterbrook,
a Miss Hinchcliffe e a Miss Murgatroyd,
A Mrs.Swettenham e o filho, Edmund
e a Mrs.Harmon, a mulher do pároco.
Todos disseram o mesmo:
"Que lindos crisântemos" e "o aquecimento está ligado",
à excepção da Mrs.Harmon, que disse o que todos estavam a pensar:
"A que horas é o assassínio?"
- Gosta da Mrs.Harmon? - É a melhor deles todos.
E depois?
As luzes apagaram-se, um homem entrou e disse:
"Mãos ao ar, pessoal", ou algo igualmente ridículo.
Mas depois ouviram-se tiros e deixou de ser ridículo...
A única luz era a da lanterna do homem? - Sim
E tanto quanto conseguiu ver,
ele disparou contra a Miss Blacklock?
Daquilo que consegui ver, diria que não.
Com a arma numa mão, a lanterna na outra
e a segurar aquela estúpida porta,
podia ter acertado em qualquer um.
Se queria acertar na tia Letty,
havia mil e uma maneiras mais fáceis.
Esconder-se atrás de um arbusto, algures na aldeia e pronto.
Estou a ver...
Encher uma sala de gente e colocar um anúncio no jornal...
... parece uma partida de estudante.
Você é estudante, Miss Simmons.
Estou a fazer um estágio de farmácia no hospital de Milchester.
Mas se tivesse planeado a brincadeira de ontem à noite,
não teria enchido uma sala de coronéis e esposas de párocos.
- E se planeasse um assassínio? - Sou farmacêutica.
Faria uma mistura letal. Rápido, limpo e sem barulho.
Devo tomar nota disso?
É melhor não, caso morra mais alguém em circunstâncias duvidosas.
- O seu irmão está em casa? - Não, foi dar uma volta.
Sabia que ele também é estudante? - A sério?
Estuda engenharia, na Universidade de Milchester.
Ocasionalmente.
É um pouco preguiçoso, mas gosto dele, é meu irmão.
Para além de ser um herói de guerra.
- Talvez vá falar com a Hannah. - A cozinheira estrangeira louca?
É uma suspeita óbvia, Inspector.
Toda a minha vida fui perseguida por homens fardados.
Vim para a Inglaterra, a pensar que estava a salvo,
mas continuo a ser perseguida por homens fardados.
- Não viemos prendê-la. - Não?
Só quero ouvir a sua versão do que aconteceu ontem à noite.
Ontem à noite?
Vi o anúncio no jornal e percebi que ia ser assassinada.
Tentei ir-me embora, mas ela não deixou.
É uma mulher muito forte.
- A Miss Blacklock? - Sim. Os outros são uns palermas.
- Decidiu ficar. E depois? - A campainha tocou e fui abrir.
A campainha tornou a tocar e fui abrir.
Tocou novamente e fui abrir... - Depois das pessoas terem chegado.
Fui limpar as pratas, na sala de jantar.
Ouvi tiros! Gritei! Tentei abrir a porta.
Estava trancada. Gritei de novo. Alguém abriu a porta.
Tornei a gritar! Bateram-me com algo! Vi sangue.
- E gritou de novo? - Acho que sim...
Vai prender-me? - Hoje não.
Meu Deus... É tarde para falar com os detectives?
- É o Mr.Patrick Simmons? - Sou suspeito?
Há quem pense que aquele anúncio é o seu género de brincadeira.
É o tipo de coisa que faria...
- Habitualmente? - Ocasionalmente.
Gostaríamos de ouvir a sua versão dos acontecimentos de ontem à noite.
Será tão confusa e contraditória como a dos outros.
Nesse caso, talvez possa dizer-nos onde encontrar a Mrs.Haymes?
A nossa Phillipa?
Ela trabalha em Dayas Hall, como assistente de jardinagem.
Eu conheço o local, chefe. E nesta estrada, à esquerda.
A Phillipa é de poucas palavras. E agradavelmente sossegada.
Não tem perfil de assassina. Afinal de contas, ninguém tem.
Alguém tem de ser.
A não ser que ele se tenha suicidado.
- É uma maneira estranha de o fazer. - E de assassinar alguém.
E a que conclusão chegou?
É mais fácil ser estudante de engenharia,
do que um bom detective.
- A que horas chegou, ontem? - As 18 horas.
Tomei um banho, mudei de roupa e soube que ia haver uma festa.
- Entrou por que porta? - Pela porta das traseiras.
Normalmente, estou suja de lama e não utilizo a porta da frente.
A porta estava trancada?
- Sim. Tranquei-a depois de entrar. - Estou a ver...
Fale-me do sucedido.
As luzes apagaram-se, precisamente quando o relógio deu as 19 horas.
A porta abriu-se, um homem apontou-nos uma lanterna,
mostrou uma arma e disse-nos para pormos as mãos no ar.
E você fê-lo?
Para dizer a verdade, não.
Pensava que era uma brincadeira e como estava cansada,
nem me dei ao trabalho de pôr as mãos no ar.
- Estava entediada? - Para dizer a verdade, sim.
Onde estava?
Perto da lareira, à procura do meu isqueiro.
Quando o homem apontou a lanterna pela sala,
pareceu-lhe estar à procura alguém?
Não.
- Não estava à procura de ninguém? - Olhando para trás,
acho que tinha um ar bastante vago, a apontar a lanterna ao acaso,
como se não soubesse o que estava ali a fazer.
Quando viu o corpo, reconheceu-o?
Não.
Não tenho dinheiro para ir comer no Royal Spa Hotel.
Sendo assim, calculo que não tenha jóias em casa?
Quem me dera. Tenho um anel de noivado e algumas pregadeiras.
- Sabe se há coisas de valor na casa? - Nada verdadeiramente valioso.
Há umas pratas bonitas, mas nada de extraordinário.
A Miss Blacklock gosta de usar pérolas... mas são de imitação.
Lamento não ser grande ajuda.
O Patrick diz que sou demasiado sensata.
Não é mau ser-se sensato, Mrs.Haymes.
Lá estava ele, de arma em riste,
a lanterna a ofuscar tudo e todos e disse:
- "O dinheiro ou a vida!" - Não disse nada, mãe.
Há anos que não me divertia tanto. Até ouvir os tiros...
Foi terrível.
Onde estava, quando aconteceu?
- Não sei. Onde estava, Edmund? - Não faço ideia.
Lembra-se com quem estava a falar?
Com a Mrs.Harmon, ou com o Coronel.
Acho eu... Edmund? - Não faço a mínima ideia.
E você, lembra-se com quem estava a falar?
Estava no meio da sala, a falar com a Julia Simmons.
Quando o homem apontou a lanterna, acenou-a, ou manteve-a fixa?
Apontou-ma directamente nos olhos. Não via nada!
Acenou-a de um lado para o outro,
para ver o que estávamos a fazer.
Foram disparados três tiros. Dois acertaram na parede,
ferindo a Miss Blacklock e o outro matou o intruso.
Acha que se suicidou, ou terá sido um acidente?
Parece-me que foi uma coisa ou outra,
apesar de achar que foi um assassínio,
mas isso não faz muito sentido, pois não?
Acabou de dizer que foram as três.
Não sejas tolo.
- Assassínio, suicídio e acidente. - Estou só a tentar ajudar.
E agradeço-lhe imenso, Mrs.Swettenham.
- Psicologia. É essa a solução. - Psicologia?
Tem de entender a mente criminosa.
O que o levou a colocar o anúncio?
Psicologia. Quer chamar atenção sobre si próprio.
Deve ter passado um mau bocado no hotel termal,
com os colegas a tratá-lo mal por ser estrangeiro.
Pode ter sido isso...
Ou pode ter sido rejeitado por uma rapariga e quis conquistá-la.
Mas como fazê-lo?
Sendo um delinquente, um encapuçado armado,
uma espécie de herói. Um Robin dos Bosques,
com um público para o aplaudir. Roubar aos ricos...
- E as coisas correram-lhe mal? - Sem dúvida. Foi exactamente isso.
Quando chegou o momento,
perdeu a coragem e disparou em todas as direcções.
- Pareceu-lhe que disparou assim? - Sem dúvida alguma.
A sala estava cheia e não acertou em ninguém.
De repente, o sonho transformou-se num pesadelo.
Não conseguiu encarar o que fez e decidiu suicidar-se.
Psicologia.
Não é maravilhoso o facto do Archie saber exactamente o que aconteceu?
Sim, Mrs.Easterbrook. Maravilhoso...
Gosta de porcos, Inspector?
Eu adoro-os.
Vai dar uma boa refeição de Natal. - Estou certo que sim.
- O que lhe posso dizer? - Algo sobre o incidente de ontem.
Incidente?
Assisti a vários, quando ajudei durante a guerra.
Aquilo sim, foram incidentes.
Mas gostei imenso.
Quer saber onde estava, quando soaram os tiros?
Sim.
Encostada à lareira, à espera que me oferecessem algo para beber.
Fale-me sobre os tiros. Foram disparados ao acaso,
ou foram direccionados a alguém?
Não faço ideia.
A lanterna estava a encandear tudo e todos,
depois ouviram-se os tiros
e só me ocorreu que fosse o Patrick, com as suas brincadeiras parvas.
- Pensou que fosse o Patrick Simmons? - Por exclusão de partes.
O Edmund Swettenham é um comunista intelectual, que escreve livros.
O Coronel Easterbrook não é muito dado a brincadeiras.
O Patrick entra em todas, excepto em assaltos com violência...
E a sua amiga, a Miss Murgatroyd? Terá visto alguma coisa?
Murgatroyd!
Está em cima de uma árvore.
É a Polícia!
Ela não é grande ajuda.
Falem com ela, mas não lhe dêem muita importância.
É da Scotland Yard?
Sou o Inspector Craddock, de Milchester.
Ainda melhor. Já tem alguma pista?
Ele quer saber onde estavas, quando ocorreu o crime.
Claro, já devia estar preparada. Um álibi.
Ora vejamos... Estava com os outros. - Não estavas comigo!
Lembro-me da rapariga a gritar e de ouvir: "Levantem as mãos, por favor".
"Mãos ao ar"! E certamente não disse "por favor"...
Lamento não ser grande ajuda. E tudo tão confuso...
Precisa de mais alguma coisa? - Não me parece.
O Inspector já formou uma opinião a teu respeito, Murgatroyd.
Naquilo que puder ajudar, pode contar comigo.
A mulher do pároco deve ser mais útil do que nós juntas.
Estamos habituadas a lidar com porcos.
Foram uma grande ajuda e agradeço-vos imenso. Obrigado.
Correu mal, Hinch? Fiquei enervada.
Estiveste muito bem, como sempre.
Obrigada.
Detesto ficar encadeada.
Quando ele apontou a lanterna, fechei os olhos.
E como detesto barulho,
quando ouvi os tiros, fechei-os ainda mais.
Quem me dera que fosse silencioso... - Quando voltou a abrir os olhos?
Quando tive a certeza que os tiros tinham terminado.
Havia pessoas na entrada, com velas.
Depois acenderam-se as luzes e as pessoas voltaram ao normal.
As pessoas são muito diferentes no escuro, não concorda?
O que viu, quando voltou a luz?
O rapaz... Scherz, não é assim?
Deitado no chão, morto e com a arma ao lado dele.
Parecia tão jovem e surpreendido...
Não faz sentido,
uma coisa destas acontecer em Chipping Cleghorn...
Concordo.
Mas compete-me fazer sentido de tudo isto.
Cada um conta a sua versão da mesma história.
Se contassem a mesma, continuaria a não fazer sentido...
- Tenho uma pergunta importante. - Sim, chefe?
- Sabe dactilografar? - Devagar, mas com precisão.
Óptimo. O Comissário-Chefe gosta de precisão.
Vou tentar não desiludi-lo.
- Faça favor de se sentar, Craddock. - Obrigado, Comissário.
Mais alguma coisa a acrescentar, desde o seu relatório?
Uma informação da polícia suíça. O Scherz tinha cadastro.
Roubos, falsificações, cheques careca...
- Era um homem desonesto. - Mas em pequena escala.
- É assim que se começa, não é? - Não tenho a certeza, Comissário.
Parece-me perfeitamente claro.
O Scherz foi de autocarro até Chipping Cleghorn.
Está confirmado por dois passageiros e pelo condutor.
Entrou na casa, abrindo a porta da frente.
Reuniu as pessoas, através de um anúncio no jornal local,
o que foi confirmado por uma empregada do "Gazette".
Disparou três tiros.
Dois acertaram na parede e o terceiro atingiu-o a ele próprio.
Qualquer júri concluirá tratar-se de suicídio,
ou morte acidental. Seja como for, podemos virar a página.
O seu silêncio significa que não concorda.
- Não concordo, Comissário. - Porque não?
- Não sei explicar porquê... - Qual é a sua teoria?
A Miss Bunner insiste que o Scherz queria matar a Miss Blacklock.
- E é uma testemunha fidedigna? - Não, é totalmente inconstante.
É uma velhota muito amorosa e um tanto fútil,
mas é extremamente sincera e a opinião é mesmo dela,
ninguém a convenceu disso. E continua a insistir.
Posso fazer-lhe uma pergunta pessoal? Que tal se dá com velhotas?
- Não tenho nada contra elas... - Óptimo.
Está uma velhota hospedada no Royal Spa Hotel.
Chama-se Miss Marple. Miss Jane Marple.
É uma amiga do Sir Henry Clithering
e ele acha que devia falar com ela.
Mostre-lhe o seu relatório. É uma senhora de confiança.
Obrigada por mostrar-me isto, Inspector.
- Tem alguma observação a fazer? - Sim. Posso falar-lhe noutra coisa?
- Esteja à vontade. - Quero mostrar-lhe algo.
Vou estar aqui hospedada durante alguns dias,
por causa do meu reumatismo.
O senhor não sabe o que isso é, pois ainda não chegou à minha idade,
mas há-de chegar.
Apesar de não ter muitas posses,
tenho um sobrinho muito generoso, chamado Raymond. Ora vejamos...
Aqui está.
Um cheque?
- Ele alterou-o. - "Ele"?
O jovem que trabalhava na recepção e que agora faleceu.
Era um cheque de sete libras e ele alterou-o para 17.
Com um traço antes do sete e um "deza" antes do sete.
Está muito bem feito. Foi necessário alguma prática...
- Sim, está muito bem feito. - O banco devolveu-mo esta manhã.
- E como deu por isso? - Nunca passo cheques de 17 libras!
- Mas passa cheques de sete? - Sim, com alguma frequência.
Mas foi o olhar do jovem que me despertou a atenção.
O olhar?
Um modo de olhar, sem pestanejar. Tal como o Fred Tyler.
É importante eu saber quem é o Fred Tyler?
Trabalhava na peixaria da minha aldeia. Era um aldrabão.
As pessoas nunca confirmam as contas.
O Fred Tyler olhava-nos nos olhos, ao mesmo tempo que roubava dinheiro
para levar a Jessie Spragge ao cinema e comprar gravatas horrorosas.
A sua análise foi muito precisa.
O Rudy Scherz tinha...
- Mais café? - Não, obrigado.
E a Miss Marple?
Obrigada, querida, fico bem até à hora do jantar.
Calculo que já tenha falado com ela. - Falei, sim.
Fale novamente, pois há ali mais coisas.
Trouxe-me arenques fumados em vez de cozidos e esqueceu-se do leite.
Talvez ele lhe tenha dito quem foi. - "Quem foi"?
Que o mandou fazer aquilo.
- Acha que foi a mando de alguém? - Sim, parece-me óbvio. E a si?
Para ser sincero, não, Miss Marple.
Peço desculpa...
Este era um rapaz gabarolas, fazia umas aldrabices aqui e ali
e gostava de impressionar as raparigas.
De repente, pega numa arma e assalta uma sala cheia de gente.
Ele nunca teria feito uma coisa dessas.
Mas temos testemunhas que dizem que sim.
Tem testemunhas que dizem tê-lo visto
a abrir a porta e a apontar uma lanterna.
E a apontar uma arma.
Estavam ás escuras. Como podem ter visto a arma?
Está a insinuar que...?
Eles pensaram que viram uma arma, ouviram tiros
e ouviram-no dizer "mãos ao ar!", ou algo parecido.
Mais tarde viram a arma no chão,
mas não podem ter visto a arma no momento em que entrou na sala.
- Outra pessoa pode ter disparado. - Logicamente.
A mesma pessoa que convenceu o Rudy Scherz a colocar o anúncio no jornal,
a entrar de rompante na sala, a apontar a lanterna
e a dizer aquelas palavras ridículas.
- Está a insinuar que há um Mr.X? - Mr., Mrs., ou Miss X.
Alguns dos melhores assassinos são mulheres,
especialmente numa aldeia inglesa. Nunca se sabe o que pode encontrar...
Mas alguém que tencionava matar a Miss Blacklock.
Tudo indica que sim.
Devo dizer-lhe que virou a minha investigação do avesso...
Lamento imenso, não era minha intenção interferir.
Posso...
- ... posso incomodá-lo um pouco mais? - Como queira.
Posso mudar de ideias e comer uns biscoitos com queijo?
E fale novamente com a rapariga, Inspector. Está assustada.
Assustada?
Alguém matou o Rudy Scherz.
Algures em Chipping Cleghorn anda um assassino à solta.
1a.Exibição (28 Fevereiro 1985)
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