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DEUS � O MEU JUIZ
- Ei, � esse? - Acho que sim.
Meu marido vem neste avi�o, quatro anos na Cor�ia.
- Espera o seu marido? - N�o, ele morreu na guerra.
- Eu sinto muito. - Espero o seu irm�o.
- � o seu filho, coronel? - Sim, � o meu filho.
Estamos prestes a pousar. Velocidade 160 km.
Pousamos, com seguran�a a bordo. Tudo em ordem.
Meu marido foi prisioneiro de guerra por dois anos.
- Meu filho tamb�m. - Estar�o felizes em retornar.
Desculpem.
O que foi?
Essas recep��es apertam o cora��o.
Vamos, tudo pronto. Des�a.
L� est�, n�o � aquele?
N�o, acho que n�o.
Sargento, quer entregar isso ao ferido daquela maca?
Uma senhora me pediu para lhe dar isso.
Ed!
� voc�, rapaz? Ed!
- Est� doendo a perna, capit�o? - N�o, minha perna est� bem.
� melhor irmos ao hospital.
Sim.
Tenham em mente que esses homens acabam de passar por circunst�ncias
extraordin�rias que sempre deixam marcas.
Se quiserem falar, fa�am isso. Mas n�o perguntem nada,
n�o os pressionem.
Devem se lembrar que, apesar de parecer n�o desejarem
carinho, agora precisam muito.
A melhor maneira de expressar � tendo paci�ncia com eles
e aceit�-los como est�o.
Agora est�o com os oficiais da intelig�ncia
relatando os incidentes do cativeiro
antes que suas impress�es se apaguem.
Ol�, capit�o Hall. Entra, me chamo Byron Phillips. Sou psiquiatra.
- Tem que fechar? - N�o, n�o � necess�rio.
Deixe-me acender.
Vamos, d� no mesmo.
Tenho interesse em falar com todos porque sei que
o fato de ter sido prisioneiro causa problemas emocionais.
Eu posso ajudar. Diga a que divis�o pertencia na frente.
- O qu�? - Qual era a sua divis�o?
Campo n�mero cinco, Piokton.
Quero dizer antes de cair prisioneiro.
Divis�o 24.
Bem, pode me dizer algo do que aconteceu naquela �poca?
Quando foi capturado?
Est� tudo confuso.
� melhor assim, com a m�o na frente da boca?
N�o, deixa se quiser. Apenas perguntava se sentia-se melhor.
- Sim, � isso. - Tenta esconder alguma coisa assim?
Os dentes, perdi v�rios durante o meu cativeiro.
- Muitos? - Metade dos molares.
� lament�vel. Tem vergonha que percebam?
N�o.
Ent�o n�o coloque a m�o na frente da boca para esconder.
N�o � talvez para esconder algo que n�o quer que saibam?
Sobre o campo? Pode me dizer alguma coisa?
Bem. . .
l� havia um. . .
um homem. . .
que me deu um cigarro e acendeu.
Era um companheiro de cativeiro? Quem era ent�o?
Um interrogador, era chin�s.
Por isso tem medo que lhe acendam o cigarro?
O que aconteceu depois de acend�-lo?
N�o quer me dizer?
Tudo bem. N�o faltar�o ocasi�es para continuarmos conversando.
Precisa de alguma ajuda agora?
Talvez haja alguma quest�o especial que deseja registrar?
Eu tenho medo.
N�o quero ir para casa.
Filho, que alegria!
- Ei, a� est� o Ed. - Bem, finalmente.
- Ol�. - Posso te cumprimentar?
Bem, deixa eu te ver.
Sabe que no aeroporto nos assustou? Est� �timo.
- Est� admir�vel. - Sim, admir�vel, maravilhoso.
- O que precisa � de um. . . - Um bife de Kansas City.
- Uns bons bifes. - � tudo que eu preciso.
Feliz de estar em casa? Como voc� est�?
- Acalme-se, estou bem. - Trouxemos esses doces.
Sabe o que faria se n�o tivesse p�blico aqui?
- O que, me beijar tamb�m? - Bater contin�ncia.
- Bater contin�ncia para voc�. - Voc� faria isso?
- Faria, sim, senhor. Eu faria. - Bem, vamos sentar, heim?
Aggie, pensava que agora estaria esperando um beb�,
- aonde est� o Peter. . . ? - N�o recebeu nossa carta, certo?
Sim, agora me lembro. . . Desculpa, Aggie.
- Deixa pra l�. - N�o, sinto muito. Eu. . .
Bem, tudo que me lembrava ao retornar
era que Peter me devia 3 d�lares de um. . .
Quieto, deixa, n�o tem que explicar nada.
Sabe quanto passou? Foram mais de tr�s anos.
Claro, o meu quarto continua igual?
Tr�s anos esteve escondido numa casa de ch� oriental
e n�s aqui ficando loucos. Voc� n�o escrevia. . .
Pai.
- O que te fizeram, Ed? - Pai, por favor.
N�o sei nem o que estou dizendo. Sei que n�o tem que te perguntar,
- mas � t�o dif�cil. - Desculpa ter caido prisioneiro.
N�o diga isso, n�o podia evitar, s�o regalias da guerra.
- Queria compens�-lo de algum jeito. - Agora tudo acabou,
o melhor � esquecer.
Esquecer.
Ed, entendemos.
Eu n�o. . .
Eu n�o queria que me vissem assim.
- Temos que ir. - Sim.
Ei, viremos muitas vezes mesmo que s� para. . .
N�o. N�o precisa vir, pai.
Agora quero me recuperar e quando estiver bom voltarei para casa.
- Lhe enviamos alguma coisa? - N�o, n�o � necess�rio.
Estarei em contato com os m�dicos diariamente
e quando estiver em condi��es te buscaremos.
� uma grande id�ia, obrigado.
- Bem, tchau. - Tchau, filho.
Essas coisas n�o n�o s�o engra�adas, eu lhe disse.
TRAIDOR
Ei, espera um pouco!
Ei, deixa eu explicar!
Ei, espera um pouco!
O que queria que fizesse? O que eu podia fazer?
Boa tarde, senhor. Direi ao coronel que est� aqui.
- Gostaria de um refresco? - N�o, obrigado.
- Quer uma x�cara de caf�? - O coronel o aguarda, senhor.
- Gostaria de um caf�? - N�o, obrigado.
O que foi, h� uma conspira��o para n�o me deixar dormir?
Sim.
Isso n�o me incomoda, estou acostumado.
- Sabe por que fiz voc� vir? - Os rumores t�m asas.
E este levantou v�o.
Estive falando com a enfermeira do seu quarto.
- Ele nem dorme. - Acabo de v�-lo.
Quando algu�m quer aprontar conosco, todos pressentimos.
Acha que aprontam com voc�?
- Sim, eu acho. - Por qu�?
Vai saber antes da corte marcial.
Saber o qu�, sobre boatos, de umas fofocas,
- de umas queixas? - � mais grave que tudo isso.
N�o s�o boatos.
- Me d� um cigarro? - Pode pegar.
Eu disse ao coronel Harvey que vinha para se encarregar
do sum�rio desta manh� e come�aria atuar imediatamente.
Diga-me o que est� faltando.
Coragem � o que preciso.
Ningu�m gosta de criar precedentes.
Bem, este n�o � o primeiro caso de colabora��o que se julga.
- Eu sei. - Ent�o lembre-se.
- Est� muito nervoso. - Claro que estou nervoso.
Um homem vai � guerra sendo tenente e volta capit�o
com a estrela de prata e men��o honrosa.
- O seu general lhe d� uma carta de elogio. - Sei de tudo isso.
Mas acha que acaba a lealdade ao cair prisioneiro?
Segundo os preceitos, n�o.
Ei, Sam, em tudo que afeta o ex�rcito atua cautelosamente
e quer que fa�a estrita justi�a.
Sabe quantos casos como este foram julgados?
Quarenta. Apenas quarenta entre centenas em que haviam ind�cios
de rigor m�ximo. Este � um deles.
- Eu sei. - N�s dois somos advogados.
Nosso dever � contribuir com a verdadeira justi�a.
Se declarados ou n�o culpados � algo que n�s n�o decidimos.
- O j�ri decidir�. - Certo.
Mas digo que para acusar tem que estar bem convencido.
Quem vai julgar tem que sondar suas pr�prias almas,
analisar suas d�vidas.
Um juiz deve sempre esclarecer suas perguntas, Sam,
caso contr�rio, n�o tem direito de julgar.
Condenar com d�vidas e sem garantias de justi�a
n�o seria julgar, seria uma iniquidade e ningu�m quer isso.
Vou te mostrar uma coisa, Sam.
Sargento, chame a seguran�a e diz que vou com o comandante auditor.
Vamos.
- � o expediente do Hall? - Sim, isso mesmo.
Bem, meu filho n�o � t�o alto.
� o que o ex�rcito recolheu em 6 meses entre os prisioneiros
que conviveram com ele. Todos tinham algo a dizer.
Posso dormir aqui esta noite?
Sam, como � natural, este caso deve lhe dar alguma pena,
mas nenhum remorso.
- Precisa de alguma coisa? - Sim.
Caf�.
- Boa noite. - Belo presente.
Que Deus me ajude esta noite.
Boa noite, Sam.
Aggie?
Aggie, est� a� fora?
� voc�, Aggie. Ol�.
O que foi? Tem algo errado?
- Se ia dormir, diga e vou embora. - Ah, n�o.
O Al disse que esta noite queria ir para a cama mais cedo
- para mudar de sistema. - � que preciso falar com algu�m.
- Querida! - Vou logo, Al.
- Venha, vou fazer um caf�. - N�o � melhor falar aqui fora?
Bem.
- Por que n�o l� um livro, Al? - Ler um livro?
Bem, para se instruir. Eu vou logo.
- Como est� o Roger? - Vamos o vi faz uma hora.
O Ed volta para casa amanh� � noite.
- Bem, finalmente. - N�o sei o que vou fazer.
- Pensei que sabia, mas n�o sei. - O que quer fazer, ficar na mesma?
N�o posso continuar assim, esse � o problema. Voc� n�o v�?
Caroline, quer por favor, vir de uma vez?
J� vou, querido.
� melhor me dizer logo.
- N�o queria incomodar. - N�o incomoda. Vamos, diga.
Pensei que havia esquecido todas essas coisas h� muito tempo.
Mas quando entro na sala agora e vou acender a l�mpada
e colocar algumas flores, logo vem � mente lembran�as do Peter.
Como sinto falta do Peter esta noite!
Claro.
Pensei ter esquecido o que era um marido e agora
- tudo me faz lembrar. - Eu sei.
- Por que a vida n�o � igual? - Porque n�o h� nada eterno nela.
Aggie?
O que posso fazer agora?
Se quiser, pode ficar uns dias conosco. O Roger ficar� feliz.
- E o Al n�o se importar�. - Eu sei, nem voc�.
Desculpa, n�o queria interromper,
mas quando vamos arrumar a estante do Ed?
Agora, estou indo.
� melhor eu ir, n�o acha?
- Aggie. - Seja sincera.
Sim, acho que � o melhor. O Ed voltar� para casa de um hospital,
precisar� de toda ajuda que possam dar,
n�o acha?
Sim.
Querida, j� terminei de ler.
- O capit�o Hall, senhor. - Entre.
- Quer se sentar, capit�o? - Obrigado.
N�o pretendo entret�-lo, ent�o descartarei as formalidades.
- Quer me passar seus dados? - Meu nome, posto e n�mero?
� mera formalidade.
Edward W. Hall, capit�o, 4969001.
� meu dever inform�-lo que pesam sobre voc� s�rias acusa��es
e que deve comparecer ante uma corte marcial.
Est� bem.
Tenho aqui uma c�pia da sua folha de servi�os.
- Se quiser, pode verificar. - N�o, tenho certeza que est� correta.
Claro. Quero lembr�-lo que perante a lei tem como acusado,
os mesmos direitos que um civil. � considerado inocente
at� que se prove o contrario.
O tenente-coronel Frank Wasnick est� encarregado da sua defesa.
Se quiser, pode nomear outro e pode nomear um advogado civil.
N�o, est� bem.
Cuidarei para que esta tarde tenha uma c�pia das declara��es
das testemunhas e poder� agir imediatamennte.
Deseja que v� visit�-lo em sua casa?
Sim, mas. . .
antes queria prevenir o meu pai. Agora ignora o que h� contra mim.
Bem, podemos deixar para amanh�.
Vou dizer-lhe esta noite.
Devo lembr�-lo que tudo que disser desde agora pode ser usado contra voc�.
- Se encarregar� de me acusar? - Sim.
Entretanto, dei ordens para que voc� n�o seja preso
e que n�o lhe incomodem de jeito nenhum.
N�o seria justo considerando sua folha de servi�os.
Obrigado, aprecio o que tem feito.
- Bem. - Isso � tudo, senhor?
Tudo. Pode se retirar.
Agrade�o a sua aten��o.
E suas divisas?
Aqui no bolso.
Fazem parte do seu uniforme, capit�o.
N�o se julgue.
Obrigado.
Bem, ent�o at� a corte.
N�o tem ningu�m em casa?
Bem-vindo!
Ei, me salve, sim?
Pode me dar uma bebida?
- O que acha do rapaz, Aggie? - Vou preparar uma bebida.
Bem, soldado, como vai? Quanto passou, seis anos?
N�o fique pesado, Frank, n�o fa�a piadas.
- Isso � maravilhoso. Nunca. . . - Temos que sentar e conversar.
- Sofre de claustrofobia? - N�o.
Nem eu, quando n�o h� barras nas portas.
Tento me afastar um pouco das pessoas, mas n�o quero ficar s�.
Queriamos demonstrar nossa alegria e achamos que esta surpresa
seria uma boa id�ia.
Bem, n�o gosto de surpresas, mas est� tudo bem.
- Parece que te aconteceu alguma coisa. - Isso mesmo.
Quero dizer outra coisa que n�o as dificuldades de cativeiro.
- Parece ter mudado. - Ah, � mesmo? Por qu�?
N�o costumava contar para ningu�m o que sentia ou o que desejava.
- Para ningu�m, nem ao seu pai. - Como est� sua sa�de, Aggie?
- Inabal�vel. - Gosto disso, fico feliz.
Nada o afeta, n�o sei como consegue.
Isso se adquire no ex�rcito.
- Sabe o que penso? - N�o.
Minha m�e n�o esteve no ex�rcito ent�o estou no meio.
Ainda n�o te conhe�o bem. � esse o seu jeito de ser ou � que agora
- ri de si mesmo? - Ah, n�o.
Se lembra daqueles seres metade homem e metade cavalo?
Sou algo assim. A metade do meu pai. . .
A metade do meu pai, as desilus�es.
A metade da minha m�e, as esperan�as.
N�o desapontou o seu pai.
Sabe o que fiz esta tarde ao sair do hospital?
Fui ao cemit�rio e fiquei um tempo diante do t�mulo da minha m�e.
Eu disse: "M�e, me desculpa. Fui compreensivo, como queria,
mas j� era sem tempo."
Essa � a mudan�a que voc� nota. � engra�ado, n�o �?
- N�o, n�o acho nenhuma gra�a. - Veja, quando eu era crian�a
e fazia alguma travessura, precisava logo falar com algu�m, explicar. . .
Minha m�e sempre me ouvia, mas o meu pai nunca.
Bem, estou bebendo e n�o jantei ainda.
O que te preocupa agora, Ed?
- Voc� � impass�vel, Aggie? - N�o, acho que n�o.
Ou�a, sei o que est�. . .
Seria melhor que em vez de eu vir, pudesse ter vindo o Pete.
Digo como me sinto e n�s dois pensamos igual.
Gostariamos que as boas-vindas fosse para outra pessoa.
� algo que compartilhamos.
Eu quero ficar aqui um pouco. Logo sairei.
Vai entender tudo mais tarde, Aggie.
- Quer desligar a luz? - Bem.
Al�?
Quem �, a Aggie? Sou o Dudley Smith.
Que surpresa, pensei que ainda estava na Cor�ia.
N�o, eu cheguei esta tarde.
- Como est� o velho? - Est� bem.
- Coronel Smith? - Diga que logo vou v�-lo.
Talvez demore um pouco, mas irei assim que puder.
Bem, te vejo depois.
Adivinha quem vem. O coronel Smith.
- Mas quando voltou? - Voltou esta tarde.
Espero que ainda chegue a tempo para a festa. Viu o Ed?
- Acho que est� na cozinha. - Na cozinha?
- Est� a�, Ed? - Sim, estou aqui.
Quero beber com voc�. Olha, esp�lio retirado do inimigo.
- N�o acenda a luz, pai. - Est� ruim com tanto barulho?
- N�o, estou bem. - Por que se esconde aqui?
N�o sabe que todos vieram para te ver?
Sim, eu sei.
Quer experimentar? Cheira, tem pedigree.
Quando todos sairem, nos sentaremos diante da lareira
e falaremos sobre as nossas coisas. Tudo bem?
Sim, muito bem.
Diga, e voc� como vai?
Voc� sabe que quando se chega a certa idade, te mandam passear.
Mas tudo correu bem.
Claro que n�o � como ter o comando.
Lembra o que dizem dos velhos soldados, que nunca morrem.
N�o escondo que estive a ponto de afundar algumas vezes.
Pelo Peter?
E por voc�.
Por voc�.
- Peter morreu sem sofrimento. - Ele teve sorte.
O alto comando me enviou uma carta. Est� em cima, num quadro.
Seu irm�o mais novo tamb�m foi um bom soldado.
Achou que eu voltaria?
Estava acostumado a n�o pensar em nada.
Fazia tempo que havia parado.
Mas esperava.
Por uma esperan�a feito realidade, que o meu filho Ed retornou.
Bem, n�o quer dizer nada?
Sim, quero brindar por voc�, pai.
Pelo meu pai, o inabal�vel otimista. Deus te guarde.
Desculpa, � necess�rio mais u�sque l� fora.
Se importa se eu dormir? Estou cansado e n�o quero estragar a festa.
N�o pode estragar nada. Hoje � o dia mais feliz da minha vida.
- Boa noite. - Boa noite, rapaz.
- Desculpa, o que queria? - U�sque.
- Que festa linda, Aggie. - Sim, uma festa muito bonita.
- Acho que todos se divertiram. - Claro.
Quer que prepare caf� para voc� e o coronel Smith?
Certamente passar�o a noite conversando.
- Acho que � uma excelente id�ia. - Certo.
Fica aqui e descansa.
Me faz muito feliz, Aggie.
- Me faz muito feliz. Eu lhe disse? - Sim, voc� disse.
Est� cantando, pai?
N�o, estou dan�ando.
Smith!
Ed, velha raposa.
- Vai me deixar aqui fora? - Entra, vamos entra.
- Agora est� completo. - Desculpa ter chegado t�o tarde.
N�o importa. Est� como um carvalho.
N�o sabe como me alegra a sua visita.
Sente-se para que possa te ver melhor. Pega essa cadeira, � confort�vel.
Bem.
Amigo, tenho que reconhecer que se mant�m bem, muito bem.
O ar do campo faz tudo.
Voc� tamb�m n�o est� mal para ser um velhote.
Os cabelos grisalhos lhe d�o um aspecto vistoso e distinto.
Sabe o que �? O c�rebro, que aparece.
S� consigo te dizer uma coisa: voc� ainda tem garra.
Meu destino atual exige que tenha.
Sabe o que fizeram comigo? Me reduziram a um tipo
de instrutor de garotos de escola.
- O que quer beber? - Qualquer coisa.
Acho que tenho conhaque Napole�o e abri a garrafa s� faz uns dias.
Fico feliz por ter tomado de bom grado.
O que mais posso fazer, gritar, chorar?
Seria uma maneira de relaxar. Ele mesmo te contou?
Contou o qu�?
O qu�?
Bem, o que � este mist�rio?
- Est� brincando? - Brincando do qu�?
- De nada. - Vamos, n�o deve me esconder nada.
- Bem, em pensei. . . - Por que n�o fica quieto e se senta? Me deixa nervoso.
Sente-se a�. Agora me conta tudo o que pensou que eu soubesse. Vamos.
Est� bem.
Quando aterrizei em Travis, encontrei o coronel Hansen.
- Quem �? - Um juiz militar.
- Aonde est� o Ed? - Em cima no seu quarto, por qu�?
- Acho que v�o process�-lo. - Processar?
O que ele fez, esqueceu de saudar um superior,
- ou foi pego sem uniforme? - N�o.
Parece ter colaborado com o inimigo.
Est� louco?
O coronel Hansen disse. Tr�s acusa��es, nove especifica��es.
N�o posso acreditar!
- Ed, pensei que j� soubesse. - N�o posso acreditar!
Colabora��o? Que o meu filho colaborou com o inimigo?
Que tipo de piada desagrad�vel est� tentando me contar?
- Pergunte a ele. - N�o preciso perguntar!
Que dano quer me causar?
Esse rapaz ganhou uma estrela de prata! Voc� sabia?
- E outras condecora��es. - N�o sou eu que quero process�-lo.
� o meu orgulho. Meu filho honrou o meu nome.
- Ed! - Acalme-se.
- Ed! - Pai, deixe-o agora.
Pai, agora n�o.
- Que horas s�o? - Levante-se!
- O que foi? - Levante-se!
Ou�a bem, tenho que lhe fazer uma pergunta.
Quero que me responda apenas "sim" ou "n�o".
Voc� colaborou com o inimigo?
Voc� colaborou com o inimigo?
Sim, eu fiz.
Por que n�o te mataram? Por que n�o te mataram como o seu irm�o?
Eu preferia que fosse assim!
Pai!
Pai!
Isso � o que eu tamb�m preferia, uma morte:
limpa, honrada e digna. O que voc� imaginou?
Que s� uns motivos tremendos puderam te arrastrar para a trai��o,
para a baixeza de esquecer a lealdade que devia a sua p�tria e a mim.
A voc�? E quanto a mim?
Sabe o que ganhei para me arrastar diante deles como voc� diz?
Sabe o que me deram, pai? Agora saber�!
Tudo o que ganhei foi um cobertor fedorento, esfarrapado e imundo!
E tr�s curtas horas de sono ininterrupto!
E ou�a isso, coronel: aquele dia me disse que tinha feito
um grande neg�cio!
- Bom dia, senhor. - Bom dia.
Pode me indicar o quarto do capit�o Hall?
Quarto 316. N�o se levantou, ontem � noite n�o deixou aviso.
- Aonde fica o refeit�rio? - Ap�s o vest�bulo.
Servi�o de quartos, por favor.
Servi�o de quartos? Quarto 316. Tragam um Bloody Mary.
Um Bloody Mary.
Espere um pouco. N�o desligue.
- Quem � voc�? - Seu advogado, meu nome � Wasnick.
Me esperam no telefone. Entre.
Sim, � u�sque com tomate. Quer um?
Como n�o abrem o bar at� as nove?
- N�o, n�o quero caf� da manh�. - Desculpa, capit�o.
J� encomendei o seu caf� da manh�. Suco de laranja, presunto com ovos
e um caf� duplo bem forte. Tem que comer.
Prefiro beber.
- Como disse que se chama? - Wasnick. W-A-S-N-I-C-K.
� um nome polon�s.
Prazer em conhec�-lo.
- Como soube que estava aqui? - Venho da sua casa.
Sua cunhada me disse. � muito simp�tica.
Sim. Meu pai estava l�?
Se retirou estrategicamente ao saber quem eu era.
A Aggie me contou o que aconteceu ontem � noite entre seu pai e voc�.
Sim, pobre Aggie. Est� entre dois fogos.
Eu n�o penso assim.
Bem, o que fazemos com isso?
Temos duas semanas para nos prepararmos.
- N�o sei. - � uma atitude curiosa.
Coronel, que tipo de advogado �?
Tem predile��o pelas causas perdidas?
N�o gosto que algu�m se julgue. N�o acho construtivo.
- Voc� n�o sabe? Sou culpado. - N�o achamos isso nenhum dos dois.
Ambos sabemos que teve suas raz�es para agir dessa forma.
Ambos?
Sou um homem de leis, capit�o. Nunca ganhei uma Estrela de Prata
nem estive num campo de prisioneiros.
Ent�o n�o sei como me comportaria no seu lugar.
Mas acho que teria feito mais ou menos o mesmo.
Em tal situa��o acho que todos fariamos.
Deve ser o caf� da manh�. Entre.
Bem, entre.
- Posso servir, senhor? - N�o h� necessidade. Deixe aqui.
� que terminamos a nossa conversa,
n�o quer fazer nenhum coment�rio?
Por que n�o me declaram culpado e esquecemos isso?
Sejamos pr�ticos, capit�o Hall, h� risco de sacrificar o seu apetite.
Sabe a condena��o se declarado culpado de todas as acusa��es?
Tenho uma vaga id�ia.
Ent�o n�o devemos lhes abrir o caminho.
Vamos, por favor.
Esta manh�, �s nove horas, a na��o inteira estar� assistindo
da cidade de S�o Francisco, onde ser� julgado em corte marcial
o capit�o Edward Hall. O filho do coronel com o mesmo nome
� acusado de ter colaborado com o inimigo
quando foi prisioneiro na Cor�ia.
- Eu vou ao conselho. - V�.
- Mudou de id�ia? - N�o.
N�o vou te implorar.
Voltar� para casa a tempo ou terei que comer fora?
Eu ligo mais tarde.
- Sargento. - Ter� que esperar a sua vez.
- Sou cunhada do capit�o Hall. - Venha, por favor.
O Conselho est� constitu�do.
Pedimos a todos os que foram citados como testemunhas neste caso
que saiam da sala at� serem chamado a comparecer.
Todas as acusa��es enumeradas est�o apontando na
colabora��o com o inimigo.
Se o acusado consentir, omitirei a leitura do sum�rio.
Uma c�pia dele para cada membro do tribunal,
- o auditor e o acusado. - O acusado consente.
Omitimos ent�o a leitura do sum�rio.
As acusa��es foram apresentadas por mim ao acusado em 06 de marco de 1954.
Capit�o Hall, tem algo a dizer?
O capit�o Edward W. Hall declara que n�o s�o verdadeiras as acusa��es
apresentadas contra ele. � inocente.
A promotoria recusa as palavras da defesa.
A promotoria provar� que o acusado, quando foi prisioneiro,
na Coreia do Norte, no per�odo de janeiro de 51
a Julho de 53, proporcionou consciente e voluntariamente
ajuda ao inimigo.
Segundo a lei, n�o � aceito alegar que agiu
sob coa��o ou maus tratos.
A acusa��o requer a presen�a da sua primeira testemunha,
o Sr. Millar Cassidy.
Levante sua m�o direita.
Jura que o que declarar neste conselho ser� a verdade,
toda a verdade e nada mais que a verdade com a ajuda de Deus?
Eu juro.
- Sente-se, Sr. Cassidy. - Obrigado.
Diga o seu nome e qual o seu trabalho, por favor.
Me chamo Millard Chilson Cassidy, sou mec�nico.
- Aonde mora, Sr. Cassidy? - Bloco 5, distrito 2, Carlina do Sul.
- Conhece o acusado? - Sim, senhor.
Se est� nesta sala, pode apont�-lo?
Sim, est� sentado al�.
Aonde viu o acusado pela primeira vez?
- No campo 5, em Piokton. - Quando foi isso?
Bem, n�o me lembro exatamente, posso perguntar ao capit�o Hall?
N�o, n�o pode perguntar.
Mais ou menos no inverno de 1951, pelo que lembro.
Observou no comportamento do capit�o Hall algum detalhe especial?
Sim, um dia amea�ou um rapaz que dormia ao meu lado.
Ele sabia que aquele rapaz estava doente,
mas lhe disse para se levantar imediatamente ou iria para o buraco.
Depois o esbofeteou. Nunca pensei que um oficial americano faria algo assim.
Disse que o esbofeteou e o rapaz se levantou?
N�o, senhor, estava muito doente e n�o podia se mover.
Descreva outros detalhes da conduta do capit�o Hall.
Uma manh� nos tiraram do barrac�o para ouvir umas bobagens doutrin�rias.
O instrutor disse que tinha um convidado especial e ent�o
- apresentou o capit�o Hall. - Sobre o que ele falou?
Quis nos convencer que os chineses eram �timos.
Disse que eles queriam ser nossos amigos.
Depois acrescentou para agradecermos a boa comida que nos davam.
Isso nos fez rir.
Disse que os chineses n�o odiavam as pessoas simples,
mas os rica�os de Wall Street que levaram os Estados Unidos
a invadir a Cor�ia.
Disse: "Eu me sinto alegre e feliz de declarar a verdade aqui
- diante de todos voc�s". - Protesto.
A testemunha citou uma frase que atribui ao acusado
e pe�o que ratifique, ou ent�o que n�o conste do registro.
Posso pedir ao defensor para salientar um pouco melhor?
Sim, me refiro especificamente �s palavras "Eu me sinto alegre e feliz."
Sr. Cassidy, o capit�o Hall proferiu exatamente essas palavras?
Sim, senhor, garanto. Certamente n�o fazem parte da minha linguagem.
A testemunha confirma que o capit�o Hall disse as palavras
"Eu me sinto alegre e feliz." Fa�a constar da ata entre aspas.
- Obrigado pelo esclarecimento. - De nada.
- Acreditou no que o capit�o Hall disse? - N�o, senhor.
N�o acreditei em nada daquilo porque tinha certeza que n�o era verdade.
Mas alguns rapazes come�aram a duvidar.
Porque n�o era um chin�s que falava, mas o capit�o Hall,
um dos nossos oficiais. Quero dizer era f�cil de ser enganado
vendo que falava com sinceridade.
- Protesto. Isso � uma opini�o. - N�o escreva a palavra "sinceridade".
Teve a impress�o que o capit�o Hall era t�o convincente
quando falava como quando golpeou o rapaz
e amea�ou jog�-lo no buraco?
Sim, senhor. Acho que em ambas ocasi�es agiu da mesma forma.
Nada mais.
Esta � uma das provas mais importantes que temos.
Sargento Pahnke, por favor, quer ler isto?
- Em voz alta? - Sim, por favor, para ouvir.
"Aten��o, camaradas, companheiros da divis�o 24,
falo em nome de todos que est�o sob o meu comando.
Como prisioneiros aprendemos a verdade sobre voc�s
desde que nos capturaram.
Pedimos para se renderem imediatamente.
Voltem suas armas contra os oficiais que est�o lhes dirigindo
nesta guerra injusta e assassina."
- Assinado? - "Edward W. Hall, Jr."
Em voz alta.
"Edward W. Hall, Jr. capit�o de infantaria, divis�o 24."
- O promotor n�o tem mais perguntas. - A defesa deseja perguntar.
Sargento Panhke. . . desculpa, � Panhke ou Pinhke?
- Panhke, senhor. - Obrigado, sargento. Onde nasceu?
- Nasci em Campbell. - Agora, sargento,
como sabe que o capit�o Hall assinou isso?
Como eu sei?
Sim, n�o acha que poderia ser uma assinatura falsificada?
- N�o. - N�o?
Teria que ser um perito graf�logo para garantir. Voc� �?
N�o, mas sei que � a sua assinatura porque ele disse.
- Tem certeza que ele disse? - Sim, senhor.
Me obrigou assinar
e amea�ou me punir se me recusasse.
Voc� assinou?
� contra os meus princ�pios.
O capit�o Hall mandou lhe punir?
- Eu n�o. - N�o, eu vejo.
Tinha visto o acusado antes de pedir-lhe para assinar o manifesto?
Sim, eu o vi uma vez. Quando fez o an�ncio do manifesto.
Mas desde o an�ncio do manifesto at� que lhe pediu para assinar,
voc� disse que n�o o viu, por qu�?
Porque depois da confer�ncia desapareceu.
Quanto durou esse desaparecimento?
Eu diria. . . N�o tenho certeza, 4 a 6 meses.
- Sabe onde ele estava? - N�o.
Ent�o n�o sabe em que circunst�ncias assinou o manifesto.
Notou alguma diferen�a na sua apar�ncia quando voltou a v�-lo?
- Sim. - Diria que estava irreconhec�vel?
Sim. Parecia amedrontado.
Tinha visto antes um estado de terror como esse em algu�m?
Sim, eu vi alguns anos antes. Eu era muito jovem.
- Em Dahau. - Dahau, campo de crimes alem�es.
Protesto, est� sugerindo que o campo americano era um campo
- de crimes como Dahau? - Aceito.
Sem mais perguntas.
Fa�a a testemunha prestar juramento.
Levante a m�o direita.
Jura que tudo que declarar ser� a verdade, toda a verdade
e nada mais que a verdade, com a ajuda de Deus?
- Eu juro. - Pode sentar-se.
Diga o seu nome, posto e corpo militar.
John R. Miller, capit�o do ex�rcito.
- Capit�o Miller, conhece o acusado? - Claro que conhe�o este traidor.
Protesto. � inaceit�vel esta crueldade.
Protesto aceito.
Limite-se a responder as perguntas sem expor a sua opini�o.
Capit�o Miller, sendo voc� prisioneiro de guerra na Cor�ia,
especificamente em Piokton, fazia parte do grupo de reacion�rios?
- Sim. - O que um reacion�rio fazia l�?
Criar problemas. Era uma preocupa��o constante para os coreanos.
- Voc�s eram muitos? - Haviam v�rios grupos?
No meu eram 20 homens e certamente nenhum traidor como o Hall.
- Protesto! - Protesto aceito.
Havia no seu campo de prisioneiros uma comiss�o de fugas?
Sim, havia.
- E voc� era o chefe. - Sim.
Assunto perigoso, n�o �?
- Algu�m tinha que assumir o comando. - Um posto para um homem corajoso.
Por que aceitou essa responsabilidade?
Porque n�o gostava do tratamento que recebia.
- Voc� conseguiu fugir. - Sim, mas me capturaram novamente.
- Por que n�o conseguiu fugir? - Algu�m me denunciou.
- Como soube? - Vi um relat�rio.
- Assinado por quem? - Pelo capit�o Hall!
Conhe�o bem a sua assinatura.
Capit�o, al�m de frustrar a sua fuga, a sua e a dos dois homens,
porque era um grupo de tr�s, n�o?
Sim, os sargentos Scalpon e Jorgensen me acompanhavam.
Al�m de frustrar vossa fuga, o que deve ter sido um golpe,
o relat�rio que o acusado deu causou outros impactos em voc�s?
- Mataram o Scalpon. - Resistiu?
- Sim. - E o que aconteceu com voc�?
O sargento Jorgensen e eu fomos levados para uma casa chamada
"Pal�cio Pak."
Gostaria que contasse ao tribunal o que aconteceu no "Pal�cio Pak".
Bem, ficamos incomunic�veis.
Logo come�aram os interrogat�rios.
Queriam saber os nomes dos que planejavam fugir.
Me interrogaram durante todo o dia.
Talvez mais, eu n�o sei.
- Ent�o come�ou o Pak. - Ent�o come�ou o Pak?
Quem era o Pak?
Entre aqueles homens era o chefe. Um psiquiatra.
- Mandou me acorrentar. - Acorrentaram as m�os ou os p�s?
Os p�s.
Apertaram as correntes ao m�ximo.
Meus tornozelos come�aram sangrar.
Continuaram apertando at� chegar no osso.
Ent�o me despiram e me penduraram numa viga do teto,
mas me penduraram de cabe�a para baixo como se fosse um porco.
Depois, um deles come�ou me chicotear.
Voc� perdeu a consci�ncia?
Talvez, mas apenas um momento, porque me lembro vagamente
que molhavam meu rosto.
O que lhes disse?
Fiquei furioso. Disse coisas que n�o precisavam traduzir.
O que mais fizeram?
Pak disse aos seus homens para n�o apagarem os cigarros
no ch�o, que podiam fazer no meu corpo.
- E eles fizeram, n�o? - Sim.
- Quantas vezes? - Fumavam muito.
Capit�o, o que aconteceu ao sargento Jorgensen?
- Tamb�m foi torturado? - Sim, ele teve o dele.
Quebraram seu queixo com a coronha de um fuzil.
- Depois os levaram para o campo. - Sim,
mas nos mantiveram separados. Depois j� n�o foi t�o ruim.
Quando estava sendo torturado, Pak e seus capangas tentaram
- arrancar os nomes dos que queriam fugir? - N�o.
N�o revelou nada?
Sim, meu nome, posto e n�mero!
Te maltrataram depois disso?
N�o, nunca mais.
Embora seu corpo fosse brutalmente ferido,
resistiu a puni��o at� o limite das suas for�as, certo?
Sim.
Capit�o, por favor, tire os sapatos,
as meias e a camisa
e mostre ao tribunal os tra�os da tortura que. . . ?
Protesto!
Torturas que s�o resultado da informa��o dada pelo acusado.
- Protesto! - Protesto rejeitado.
� uma prova da declara��o da testemunha.
- Acorda. - Que horas s�o? - J� est� amanhecendo.
N�o pode ser t�o tarde. Onde esteve?
Por a�, o que h� nesse pacote?
Camisas limpas, achei que precisaria.
Ah, obrigado. Que tal em casa? N�o parece bem.
Ontem � noite nem provei o jantar.
- N�o viu o papai na sala. - Sofre muito, Ed.
Entendo, ele fez voc� vir para me levar para casa.
- Uma reconcilia��o de pleno direito. - N�o sabe que estou aqui.
Bem. Ent�o voc� veio me trazer isto. Quer uma bebida?
- N�o � m� id�ia. - Vamos subir ao meu quarto.
Vamos.
Gostei dessa sua d�vida. Prova que ainda sou um homem.
N�o se preocupe, se o zelador dizer algo direi que voc� � minha cunhada.
Por aqui.
Bem.
Bem.
- S� tenho u�sque. - Eu n�o quero.
- Disse que tomaria uma bebida. - Sim, mas mais tarde.
Bem, como voc� quiser.
Vim porque tenho algo a lhe dizer.
- As camisas foram um pretexto. - O que �?
Hoje na sala disse que n�o. . .
Quanto tempo esteve casada com Peter?
Nunca imaginei que ele ousasse te pedir. . . ambos eramos vergonhosos.
Eu sei, mas n�o vim falar do Peter.
Devia se casar novamente com um bom rapaz.
Uma vez estava numa velha fazenda abandonada.
Vi uma coisa curiosa: as macieiras sabiam que estavam abandonadas.
Mas floresciam como sempre.
As �rvores estavam cheias de frutas.
Mas ningu�m colhia as ma��s.
Entende agora?
- Mudou a conversa. - N�o, n�o me entendeu.
Quero dizer as macieiras
continuavam tendo vida apesar de ningu�m colher as ma��s.
Ah, meu Deus! Que horror, uma vida que n�o se aproveita!
Me diga, acha l�gico desperdi�ar uma vida desta forma?
N�o fale. Temos que acabar com este solu�o.
- Com um copo de �gua? - N�o, assim � melhor.
- Est� me machucando. - Tem que doer.
Inspire e segure a respira��o. N�o me ouviu?
- Agora n�o est� no tribunal. - N�o gosto que. . . !
Eu disse para n�o respirar!
Embora durante o julgamento n�o disse nada, sei o que pensava
pelo modo de se sentar e n�o entendo como aceita o que dizem de voc�.
Por que voc� diz isso?
O solu�o n�o passar� se continuar falando.
- N�o tenho solu�os! - Ainda tem.
O que fez, voc� faria por alguma raz�o.
Se voc� dizer no tribunal, talvez lhe favore�a.
Voc� mudou l�, porque acha que agora � mais humano.
Mas os humanos podem fazer mais do que desmoronar.
Os seres humanos tamb�m lutam.
Por que n�o luta agora? Antes fazia porque te mandavam.
Agora tem que fazer porque quer.
Passou os solu�os.
� tarde, tenho que ir.
Estar� l� amanh�?
- Certo. - Tchau.
- Obrigado. - Tchau.
Ordem no tribunal.
Fiquem em sil�ncio.
O conselho est� reunido.
Todas as pessoas do jurado est�o presentes nesta sess�o.
A acusa��o n�o tem nada a acrescentar por hora.
A defesa quer expor seu primeiro relat�rio.
Voc�s t�m c�pias dos telegramas inclu�dos no sum�rio como provas.
S�o do general-em-chefe e de outros altos oficiais.
Testemunham o comportamento do capit�o Hall.
Deles se conclui que o acusado � um militar que se distinguiu
pelo seu comportamento e que � considerado por seus superiores
como um homem corajoso. Afirmo que � digno de tais conceitos.
Todas as nossas leis s�o baseadas em princ�pios que achamos imut�veis.
Um deles � que h� um determinado n�vel moral
que a sociedade � obrigada a respeitar.
Mas chegamos a um ponto que este n�vel moral
n�o � reconhecido por todos os homens.
Porque uma parte da humanidade o degradou,
substituindo-o pela viol�ncia e a tortura,
n�o da carne, mas da mente, para obter o que querem.
Estamos dispostos a julgar um homem
que cometeu certos atos
sob os efeitos desta nova situa��o moral em que a mente
se acha submetida a um constante supl�cio que n�o conhece nenhuma piedade.
Nosso c�digo militar n�o inclui esta nova situa��o
porque n�o haviam previsto.
E o capit�o Hall, sendo uma de suas primeiras v�timas,
tem que ser julgado pelas leis atuais.
Todos sabemos que a resist�ncia de cada ser humano
tem um limite nos seus processos de depress�o.
E que sem sofrer danos corporais esse limite pode ser alcan�ado.
O acusado chegou a esse ponto.
Portanto, embora ele n�o tenha negado sua participa��o
nos atos julgados neste conselho,
nega sim ter feito voluntariamente, deliberadamente
ou conscientemente.
Creio que poucos de n�s resistiria nessas circunst�ncias.
Como a �nica pessoa familiarizada com os fatos � o pr�prio acusado,
deseja apresentar ao tribunal o seu testemunho.
O acusado sabe exatamente suas obriga��es em testemunhar
e que tudo que declarar pode ser usado contra voc�?
Foram expostas essas obriga��es e concorda com elas.
Ent�o pode continuar e prestar o juramento.
A defesa solicita como testemunha o capit�o Edward W. Hall.
Levante a m�o direita.
Jura que o que dizer neste conselho ser� a verdade, toda a verdade
e nada mais que a verdade com a ajuda de Deus?
- Eu juro. - Sente-se, capit�o.
Diga seu nome, posto e endere�o ou situa��o atual.
Edward W. Hall, capit�o, destacamento de pacientes, Hospital Letterman.
- � o acusado deste conselho? - Sim, senhor.
Capit�o, quero que mentalmente volte ao dia da sua captura, 2 de janeiro de 1951.
Nesse dia, voc� e muitos prisioneiros come�aram uma longa marcha,
que acabaria v�rios dias depois no campo n�mero 5.
Quer nos dizer o que lembra daquele dia?
Claro, me lembro que estava frio.
Por que mant�m essa impress�o t�o particular?
Porque eu tinha rasgado as cal�as numa cerca
na noite anterior e o vento entrava pelos furos.
Os rapazes riam, mas logo pararam e at� de falar.
- Por que? - Alguns come�aram morrer.
Muitos estavam esgotados, outros feridos.
Voc� tamb�m estava ferido, certo?
Sim, numa perna tinha ficado um peda�o de estilha�o.
Os feridos tinham que ser arrastados em tren�s.
Um rapaz que estava perto de mim tinha um buraco enorme na barriga.
Tentaram vedar, mas os curativos caiam e. . .
Bem, se algu�m visse que estava morto,
os outros continuavam no tren� de qualquer jeito.
Ent�o os chineses pararam a coluna e come�aram gritar
dizendo que andavamos devagar e que nos apressassemos.
Mas puxando os tren�s n�o era poss�vel.
- Eles deram alguma solu��o? - Sim,
disseram para enterrar todos que estavam nos tren�s.
Quer dizer os que haviam morrido?
N�o, n�o apenas eles. Havia. . .
um tenente que tentou explicar que o rapaz que cuidava do seu grupo
ainda n�o estava morto.
Lhe deram um enxad�o e o obrigaram a cavar duas sepulturas.
Uma para o rapaz do tren� e outra para ele.
- O tenente fez o que eles disseram? - Sim, lhe apontavam uma arma.
Cavou as sepulturas.
E disse ao seu guardi�o: "No meu pa�s algo assim seria um assassinato."
E depois de cuspir na cara do guardi�o, nos acenou em despedida
e fez uma ora��o.
Siga.
Atiraram na sua nuca e ele desabou.
� verdade que depois disso voc� pegou um oficial ferido
e o carregou por 4 dias para que n�o matassem ele?
Curaram sua perna quando chegou no campo?
N�o. Nos trancaram num barrac�o e nos deixaram l�.
Em geral, como estavam de sa�de?
N�o muito bem. S� nos davam trigo para comer. E ruim.
Falando de barrac�o, a qual se referia exatamente?
Ao dos oficiais, nos separaram dos soldados.
Voc� podia se comunicar com eles?
N�o, n�o oficialmente.
Mas consegui saber que estavam em condi��es desumanas
e que os jovens morriam.
Soube que comiam como n�s e nenhum de n�s ficava doente,
queria ver o que acontecia e uma tarde fui visit�-los.
Como conseguiu fazer isso?
Subornei o carcereiro, lhe dei a minha ra��o.
O que descobriu quando visitou o barrac�o dos soldados?
O que vi � que eram pocilgas cheias de um odor que dava n�useas.
N�o havia disciplina, nenhum comando, nenhuma autoridade.
E era verdade o que me disseram dos mais jovens, estavam abatidos.
Era um quadro pat�tico, n�o queriam comer nem beber.
Aqueles rapazes estavam afundando.
Fui a um deles e disse: "Quer morrer?" E ele disse que sim
que o deixasse em paz.
Lhe repreendi, lhe esbofeteei e disse que o jogaria no buraco.
Por que fez isso?
Pensei que a irrita��o o for�aria a se levantar.
Por que queria que se levantasse?
Porque tinha a estranha id�ia que estando de p�, um homem n�o morre.
Em outras palavras, voc� queria lhe dar �nimo para continuar vivendo
e n�o se divertir atacando-o brutalmente como a acusa��o
- tem sugerido. - Sim, senhor.
Diga-me, capit�o, alcan�ou o seu objetivo?
Bem, alguns dos que estavam l� se levantaram e come�aram a me bater.
- O incidente originou uma luta? - Sim, claro.
N�o achei que tivessem for�as, mas conseguiram me jogar no p�tio.
O que aconteceu depois deste acidente?
Em vez de deixar eu ir para o barrac�o, os chineses me levaram para o seu quartel.
Eles circularam a not�cia que iria trabalhar para eles.
E trataram de me fazer engordar para verem que recebia um tratamento diferenciado.
Me pediram para distribuir propaganda e aceitei,
porque era a �nica forma de entrar em contato com os soldados.
Consegui que me confiassem a reda��o dos textos.
Por que raz�o?
Pensei que eu fazendo, conseguiria que parecessem falsos,
queria que os soldados entendessem que n�o acreditava em tais absurdos.
Foi essa a raz�o de empregar a frase "Me sinto feliz e contente"?
Sim, pensei que com isso dava um tom sarc�stico.
Pelo que acaba de expor se deduz que tanto o incidente do rapaz
quanto a distribui��o de propaganda estavam de acordo
com seus deveres militares.
Apesar das apar�ncias, sua conduta impulsionava um ideal elevado.
Entendemos que antes da distribui��o da propaganda,
desapareceu por seis meses e depois voltou mudado.
Foi nessa epoca que amea�ava os soldados para assinarem
o manifesto da rendi��o de modo que muitos o considessem traidor?
Percebia que ao fazer aquilo violava as normas militares?
- Voc� est� me defendendo? - Que raz�es o impulsionaram?
- Ainda eram os elevados ideais? - Ideais elevados?
Quais foram as raz�es, tentava cumprir as ordens militares?
Ent�o tinha mudado os motivos, certo?
Voc� tamb�m tinha mudado. Fez tudo aquilo voluntariamente?
- N�o. - Deliberadamente?
- N�o. - Conscientemente?
Voc� havia mudado, capit�o, ou eles o haviam feito mudar?
N�o � verdade que foi atormentado durante aqueles seis meses
at� o extremo de j� n�o ter mais vontade pr�pria?
O que eles fizeram, capit�o?
Me deixaram isolado.
- Ficou isolado. Aonde? - Num cub�culo de um por�o.
Como era esse cub�culo?
Escuro.
A �gua infiltrava e o ch�o ficava molhado,
exceto num pequeno lugar e l� era onde dormia.
Todas as manh�s entravam um balde e uns panos
para a limpeza. Era quando deixavam me mover.
- Lhe permitiam fazer outra coisa? - N�o.
Tinha que ficar sentado no escuro sem apoiar as costas.
Quanto tempo ficou assim?
Eu n�o sei.
Comecei em alguns dias
a resolver problemas mentalmente e cantar algumas m�sicas
que recordava da escola para me entreter.
Mas n�o me deixaram continuar, disseram que fazia muito barulho.
O que aconteceu ent�o?
Ent�o me deram papel e uma vela dizendo que poderia escrever
se fosse sobre eu mesmo.
Continuaram interrogando-o durante esse per�odo?
Sim, entravam no meio da noite, quando tentava dormir.
O que eles queriam?
Queriam que assinasse aquele folheto de rendi��o.
E assinou?
Resisti muito tempo.
O que aconteceu durante esse tempo?
Me deixaram no por�o. Uma noite foram me buscar.
Tive que ir andando pela neve.
Estava gelado, n�o sentia nada nem sabia o que acontecia.
Ent�o, numa po�a,
disseram que tinha que assinar aquele folheto,
ou ficaria s� o resto da minha vida.
- Voc� assinou? - N�o.
Foi punido?
Sim, me trancaram no por�o novamente.
N�o me levaram mais trapos para limpar o ch�o.
Era tudo uma enorme po�a e quando queria dormir
tinha que fazer jogado na sujeira.
Meus membros estavam dormentes e a sujeira me encharcava at� os ossos.
Era como estar enterrado vivo.
Se aproximavam da clarab�ia
e me diziam que eu gostava ficar sozinho.
Tinha que morder a l�ngua para n�o responder.
N�o sei quanto tempo fiquei l�.
Ent�o, recordo que uma noite uma voz disse que tinha uma carta para mim.
A principio eu. . .
n�o acreditei, porque ningu�m me escrevia ou destruiam as cartas.
Eles me disseram que era porque. . .
Por qu�?
Porque ningu�m se lembrava de mim.
O que dizia na carta?
Era. . .
uma carta muito curta. Era do meu pai.
Me perguntava porque n�o voltara a escrever.
E isso era tudo?
N�o.
Dizia. . .
Dizia. . . Dizia que o meu irm�o Peter tinha morrido
e naquele momento percebi que n�o aguentava mais.
Estava triste e uma voz disse algo de cobertores e um lugar para dormir.
Disse que, ent�o assinasse o folheto,
ou ficaria s� o resto da minha vida.
Eu disse que concordava, sim.
Disse para me indicarem o que tinha que fazer.
Guerra bacteriol�gica, propaganda, tr�fico de drogas, o que quisessem
em troca de n�o ficar s� e poder dormir algumas horas.
Ent�o me tiraram,
me deram uma caneta e eu assinei tudo.
Em outras palavras, voc� desmoronou.
Sim.
Entre as coisas que assinou na noite do seu desmoronamento,
havia uma nota sobre o projeto de fuga do capit�o Miller,
- � ou n�o �? - Sim.
Tamb�m n�o � verdade que esteve trancado 6 meses
e que era humanamente imposs�vel saber dos planos
- de fuga do capit�o Miller? - Sim.
Capit�o, disse que quando estava no por�o,
lhe deram um dia papel e uma vela para escrever sobre si mesmo.
Foi talvez para escrever uma autobiografia?
- Sim. - Como era? Consegue se lembrar?
Quando era jovem trabalhei como mensageiro num escrit�rio,
esfregando pratos e lavando carros.
Encerei pisos, fiz de tudo.
N�o podia engan�-los, sempre sabiam.
Escreveu durante o seu isolamento o que agora chamam de "seu manifesto"?
Sim, escrevi umas 20. Eles me for�avam.
Se me esquecia de alguma coisa ou acrescentava algo novo,
eles me diziam que estava mentindo e me obrigavam a escrever novamente.
O que queriam com tudo isso, o que voc� acha?
Acho que queriam saber da minha vida.
Para usar algum detalhe contra voc�, certo?
Alguma coisa especial que poderia desmoraliz�-lo.
E finalmente lhes deu a chave, certo?
Finalmente lhes deu o que estavam procurando.
Aqui tenho a prova "A" da defesa, identificada, aceita
e inclu�da no sum�rio, capit�o Hall.
� ou n�o uma c�pia fiel da sua autobiografia,
que escreveu na noite que voltaram a tranc�-lo no por�o?
De onde tirou isso?
Tamb�m n�o � verdade que antes de receber a carta que anunciava
a morte de seu irm�o, sempre que apresentavam o folheto
se recusou a assinar?
Sublinhei um par�grafo para voc� mesmo ler.
Quer ler em voz alta para o tribunal ouvir?
- N�o, n�o quero. - P�gina 17. Leia, por favor.
N�o, n�o posso.
Considera o documento parte do testemunho?
- Sim, �. - A testemunha � obrigado a ler.
"Sendo ainda crian�a, lembro que nossa casa era. . ."
N�o se ouve nada. Tire a m�o da boca.
". . .um lugar onde mal se podia falar e tinha que fechar as portas
com muito cuidado, porque minha m�e estava doente.
Foi uma �poca triste para mim e para o Peter.
Ansiavamos para que nossa m�e sarasse para estarmos com ela.
Mas ent�o ela morreu. Depois daquilo nada nos restava.
Eu tinha 12 anos quando aconteceu.
Meu pai ficava no quartel ocupado quase o tempo todo.
Nos deixava uma nota detalhada ao sair com muitos avisos
e a empregada nos dava uma estrela a cada dia que tinhamos sido bons
e meu pai verificava as estrelas ao voltar.
Nos ensinava muitas coisas que todos os soldados devem saber:
como ter um quarto limpo, cumprir as ordens e nunca se queixar.
Eu n�o consigo me lembrar. . .
Eu sou consigo. . . N�o consigo me lembrar. . .
do meu pai nos dar um beijo um dia,
de nos abra�ar. . ."
"De nos abra�ar como viamos �s vezes outros pais fazerem.
Nunca nos demonstrou afeto e cheguei a ser t�o teimoso comigo mesmo
como ele era. Acho que n�o posso amar algu�m novamente.
Amava a minha m�e, mas n�o existe mais. Amava o meu irm�o, mas ele morreu.
Oxal� meu pai tivesse me dado uma oportunidade para demonstrar
como o amava.
Se essa solid�o consegue me matar, queria que fosse agora."
A defesa quer adiar o conselho?
N�o, senhor, n�o h� necessidade.
Este, senhores, tem sido um novo m�todo.
N�o houve lavagem cerebral, nem utilizaram drogas.
N�o tentaram aniquilar o c�rebro, mas
tamb�m n�o tentaram evitar nenhum sofrimento.
No capit�o Hall temos um soldado
cuja foha de servi�os permitia supor que poderia
suportar qualquer dor f�sica com integridade,
no entanto, este soldado, submetido ao supl�cio mental que sofreu,
n�o pode resistir.
� um processo de aplica��o gradual.
Primeiro se cria uma atmosfera de terror e incerteza,
ent�o separam os l�deres, atacando a sa�de e a moral.
Introduzem espi�es entre os prisioneiros
e se n�o h�, levam a crer de algum modo que existem.
Fazem de um ex�rcito um col�gio fantasma e conseguem que os soldados
se tornem crian�as ansiosas por recompensas e com medo de puni��o,
obrigando-os a ficar s�s e serem desconfiados.
Ent�o escolhem o mais solit�rio,
para destru�-lo ainda mais.
Fazem ele acreditar que somente eles podem lhe perdoar e ajudar.
Descobrem depois o seu segredo mais �ntimo
e uma vez descoberto, fazem uso dele.
Todos temos nossos segredos.
A defesa terminou.
S�o 4 horas. Com a v�nia do tribunal, a acusa��o n�o interrogar� o acusado
- at� amanh� de manh�. - O conselho est� suspenso at� amanh�.
- O que quer? - Falar com voc� um pouco.
- � meio tarde. - Ser� apenas um instante.
N�o pretendo demorar muito. Por favor.
Certo.
Entra.
- N�o, estou bem aqui. - Me d� a aten��o de entrar.
Isto. . . � dif�cil para mim, vai entender.
Bem, o que quer falar comigo?
Do que leu no tribunal. Daquela autobiografia.
- Me fez pensar muito. - Escrevi a mais de tr�s anos.
Sim, eu entendo.
Mas � um assunto bastante espinhoso de qualquer modo.
Disse coisas minhas que eu ignorava. Me esmiu�ou.
Foi uma verdadeira disseca��o.
Mas quando se descobre como � realmente aos olhos dos filhos. . .
Acho que o Peter sentia o mesmo por mim. Era isso, certo?
Era.
Quanto eu perdi.
Foi uma dura li��o. E acho
que sua m�e tamb�m pensava que n�o a amava, heim?
Bem, amanh� � o �ltimo dia, certo?
Voc�. . . pensa voltar para casa terminando tudo bem?
Te esperamos, claro.
Obrigado.
Ser� que sempre vai existir esta dist�ncia entre n�s?
Eu n�o sei.
Ent�o o que eu posso fazer?
Ser� que tenho que perder todos os tr�s?
Por favor, me diz, o que posso fazer?
Tem que ceder. Por favor, tem que tentar.
� tudo o que quer?
Oh, Deus, Deus. . .
Capit�o, durante o per�odo de isolamento que descreveu ontem,
atormentaram ou bateram em voc�?
Quero dizer se foi submetido a algum tipo de tortura f�sica?
Quando o interrogavam, falavam sempre em condi��es desfavor�veis?
Sim.
Deu, portanto, a denuncia do capit�o Miller.
- N�o sabia que ele havia fugido. - N�o se importou se sabia ou n�o.
Assinou um documento sabendo que se referia a ele?
Um documento que podia ser usado pelo inimigo para abalar
- o �nimo dos que queriam fugir? - Sim, eu fiz.
- Quantos oficiais havia no campo? - Cerca de 70.
Algum deles assinou documentos, fez propaganda ou amea�ou os outros?
N�o, que eu saiba.
N�o � verdade que a maioria dos oficiais, quando pediram
para colaborar voluntariamente, deram apenas seus dados,
como foram ensinados a fazer?
Como fez o capit�o Miller ao ser torturado.
Sim, acho que sim.
N�o � verdade que aqueles que tiveram com o inimigo
somente o contato indispensavel, o permitido pelas normas,
que n�o deram facilidades aos chineses, nem oportunidades de prova,
- passaram seu cativeiro melhor? - Sim.
Em outras palavras, capit�o, todas as penalidades que suportou
foram resultados de suas a��es. Se mostrou disposto a colaborar,
- n�o � verdade? - Talvez.
� poss�vel, claro, que no in�cio tivesse uns motivos honrosos,
- foi assim ou n�o? - Sim.
Apesar de suas boas inten��es, voc� foi um dos poucos oficiais
que se prestou a trair sua p�tria.
- Protesto! - Protesto aceito.
Muito bem.
Agora vamos examinar isso que foi chamado aqui de "seu desmoronamento",
o processo de sua depress�o profunda,
como a defesa qualificou poeticamente.
Julga que sua resistencia chegou ao limite?
- Sim. - Qual foi a causa?
Sabemos que era alimentado, certo?
Sim.
- Foi por que morria de frio? - N�o.
- Ou pela dor na perna? - N�o.
- O risco de morte? - Disseram ser criminoso de guerra.
- Uma vez disseram que iam me matar. - Amea�aram execut�-lo?
Isso nunca era avisado. N�o.
N�o. E claro, sabemos que faltava algumas comodidades,
- mas isso n�o o for�ava a se render. - O que disse? Comodidades?
Ningu�m tinha comodidades, sabemos.
N�o. N�o foi nenhuma dessas causas. O que o for�ou a desmoronar
foi apenas solid�o. N�o � isso que voc� disse?
Acho que a quest�o da solid�o � um detalhe interessante.
Se voc� acha a examinaremos juntos. . .
Posso beber um pouco de �gua?
Claro.
- Obrigado. - De nada.
Capit�o, pode me citar algum outro momento especial em que a solid�o
se tornou insuport�vel antes de ser enviado para a Cor�ia?
- Quer dizer um dia de tristeza? - Sim, �.
Bem, n�o sei. Alguns dias seriam melhores que os outros, eu acho.
N�o se lembrar se houve um dia em que a solid�o foi t�o atroz
- que n�o pode resistir? - Parece se referir a uma dor f�sica.
- Algum dia seria insuport�vel. - O que quer dizer?
Qual foi o dia de maior solid�o que voc� se lembra?
- O dia em que minha m�e morreu. - O dia em que sua m�e morreu.
Lemos sua autobiografia que os chineses o obrigaram a escrever
e perceberam que voc� foi crian�a muito solit�ria
- e se aproveitaram disso, certo? - Reconheci que sempre estive sozinho.
- Reconheceu por si mesmo? - Sim e pela primeira vez.
At� ent�o nunca tinha dito a si mesmo
- "Ed, francamente, estou sozinho." - Sim, eu tinha.
Bem, j� que sabia, n�o era uma coisa nova para voc�.
Por que escolheu precisamente aquela noite para se render?
Eu n�o escolhi!
Foi a noite em que soube da morte do meu irm�o.
- Se chamava Peter? - Sim, Peter.
- Isso o fez se sentir ainda mais s�? - Sim.
De repente, acreditei que estava tudo acabado.
- Foi uma sensa��o de abandono. - Sim, como quando minha m�e morreu.
Quando sua m�e morreu, voc� sentiu o mesmo, como
se n�o aguentava mais, certo?
Mas ent�o viu que podia resistir e continuou vivendo.
Eu tinha que fazer.
E n�o poderia tamb�m ap�s a morte do Peter?
- Poderia, talvez. - Poderia, talvez.
Por que n�o fez? Acha que chegou ao limite da sua resist�ncia?
Ou apenas temia chegar a esse extremo?
N�o poderia ter resistido um pouco mais?
Um dia, uma hora, nem um minuto?
Pense, capit�o. Chegou ao limite?
Ser� que realmente ao limite?
N�o. N�o cheguei.
N�o tenho mais perguntas a fazer.
A defesa quer interrogar novamente a testemunha?
N�o � necess�rio.
- O tribunal quer interrog�-lo? - N�o, tamb�m n�o.
A testemunha est� dispensada.
A defesa diga se quer expor alguma considera��o final.
Sim, sim.
Senhores, tenho um documento aqui cuja leitura n�o � muito agrad�vel.
Este � um relat�rio do inimigo descrevendo
certos aspectos da conduta observada em alguns prisioneiros.
"Um: muitos prisioneiros revelam falta de afeto a seus familiares,
� sociedade ou ao ex�rcito.
Dois: quando isolados, se sentem desencorajados
e renunciam lutar para sobreviver porque perderam a f� em si mesmos."
O relat�rio diz ainda que mesmo os soldados com forma��o universit�ria
possuem prec�rios conhecimentos da hist�ria americana
e das vantagens e desvantagens da democracia.
Acrescenta que muitos deles n�o t�m id�ia do comunismo,
porque ningu�m se deu ao trabalho tentar preg�-lo.
Todo o programa de propaganda do inimigo
baseia-se em todas estas aprecia��es.
E em algum caso teve �xito, porque o observado era verdade.
Agora estamos julgando o capit�o Hall.
Senhores, a culpa, se houver, de quem �?
Apenas dos poucos que vacilaram sob press�o como ele?
N�o temos alguma coisa, pelo menos todos que contribuimos para formar
assim esta gera��o, capaz de desmoronar, fraca, mal disposta,
como no caso do capit�o Hall, que precisava de recursos
para resistir at� o limite, porque n�o tinha recebido o amor
que devia sustent�-lo at� o fim?
Agora, no momento de julg�-lo,
devemos nos perguntar se fizemos parte no colapso moral
deste homem que passou por duas guerras na sua juventude
e sofreu o cativeiro numas condi��es que nenhum de n�s
conhecemos at� agora.
Obrigado.
A acusa��o tem alguma obje��o a estes argumentos?
Senhores, em resposta � declara��o,
devo dizer que em alguns aspectos se pode considerar a sociedade
realmente respons�vel pelo delinquente e sua falta.
Mas a sociedade n�o est� isenta do dever e da responsabilidade
de submeter o delinquente � a��o da justi�a.
Colaborar com o inimigo em tempos de guerra
� crime. E est� previsto nas leis como o assassinato.
A defesa tem apenas um argumento legal.
Um argumento que vai interessar tanto ao p�blico quanto � imprensa:
o colapso moral. Que certamente existiu.
Mas neste caso, os fatos s�o claros.
As penalidades foram descritas pelo acusado.
N�o foram elas que o levaram ao colapso moral.
O capit�o Hall � um oficial respons�vel com comando
que colaborou com o inimigo.
Tentou convencer as tropas da frente a se renderem.
Estava disposto a informar sobre os prisioneiros.
Tentou convencer os outros a colaborar com ele.
Desobedeceu as ordens de dar apenas
o nome, posto e n�mero, fazendo isso
favoreceu nossos inimigos.
Se declararem o capit�o Hall inocente dessas acusa��es
dever�o declarar culpados de estupidez todos os americanos
que se recusaram a colaborar.
Os depoimentos demonstraram
que o capit�o Hall � culpado das acusa��es contra ele.
O tribunal se retira para come�ar as delibera��es.
Posso esperar o veredito com voc�?
- Claro, se voc� quiser. - Eu gostaria.
Certo. Vamos fumar um cigarro.
- Aonde a Aggie est�? - L� fora. N�o resistiu mais.
- Desculpa, capit�o. - Comandante,
apresento o meu pai, o coronel Hall.
- �s suas ordens. - Comandante.
- Me desculpa. - � seu dever.
- Frank. Meu pai, o coronel Hall. - Prazer, senhor.
Quero lhe agradecer por defender o meu filho.
Voc� � compreensivo, coronel.
Acho que estou compreendendo algo mais desde que conheci o Ed.
- Tem filhos? - Tr�s.
Me pergunto se s�o t�o incompreens�veis para voc� como foram para mim.
Quem entende as crian�as? At� logo.
Vamos?
- N�o chore sozinha. - N�o estou chorando.
- Vamos tomar um ar? - Tudo bem.
V�o voc�s. Vou ficar aqui.
Ordem no tribunal. Sil�ncio, por favor.
A sess�o est� retomada.
Todos os componentes do tribunal que estavam presentes
ao interromper a sess�o, est�o novamente na sala.
Que o acusado fique diante do tribunal.
Capit�o Edward W. Hall, � meu dever informar como presidente do conselho
que reuniu o tribunal em sess�o pelo voto secreto
dois ter�os dos votos dos membros presentes
concordaram em declarar voc�,
em rela��o �s acusa��es e especifica��es,
culpado, com exce��o da acusa��o de incita��o � rendi��o.
Dessa acusa��o, o conselho n�o o considera culpado.
Antes do conselho terminar com o caso do capit�o Hall,
� avisado que, desta vez pode expor as circunst�ncias
atenuantes antes da senten�a ser lida.
- Falarei sob juramento. - Bem. Ainda est� sob juramento.
O que quero expor n�o ser� uma atenuante, mas eu quero dizer.
O capit�o Miller esteve no meu hotel esta manh� cedo.
� a testemunha que foi torturado.
Disse que havia lido os documentos, que havia presenciado a minha declara��o
e que queria falar comigo. Nos sentamos e conversamos
sobre os companheiros de cativeiro que tivemos.
Disse que, na sua opini�o, todos os seres t�m na sua vida
um momento decisivo.
Se acertam na escolha, ent�o se sentem orgulhosos.
Se a escolha for errada,
o remorso que invade n�o o abandonar� na sua vida.
Queria que todo soldado,
queria que todas as pessoas sentissem o que eu sinto agora.
Porque dessa forma entenderiam o que significa para um homem
ter traido a sua p�tria,
arruinando um momento de orgulho e de gl�ria.
Pe�o a Deus para que todos
acertem a escolha.
Am�m.
LEGENDA : Laercio GRUPO ALLIED FORCE Tradu��o da legenda em Espanhol
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