All language subtitles for Companero.Presidente.1971.720p

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Original subtitles

Companheiro Presidente, o senhor está no governo há 2 meses,

mas antes era um líder da oposição.

Você foi um revolucionário entre os revolucionários.

Eu o conheci um pouco antes,

com os colegas e agora é o chefe de Estado.

Um homem muda quando está no poder?

Olha, Regis, sempre me chamaram de companheiro Allende.

Hoje me chamam de companheiro Presidente.

Claro, sei da responsabilidade que isso significa.

Um militante socialista muda quando...

Quando é chefe de Estado?

Não.

Acredito que o chefe de Estado que é socialista

continua a pensar assim.

Seu desempenho tem de estar de acordo com a realidade.

Acho uma grande novidade,

que um socialista no poder continue socialista

e pratique o socialismo.

Como é o Allende?

Um homem muito completo.

À primeira vista, pode ser um social-democrata fora do comum...

Um social-democrata corajoso e consequente.

Depois de deputado, ministro,

-na primeira frente popular... -Ministro Pedro Aguirre Cerda.

Esse homem possuía uma grande qualidade humana,

muito gentil e bastante interessante.

Radicalizou-se no contato com a esposa.

Acredito que ainda haverá a segunda revolução,

embora não seja o caso da colocação da pergunta.

Você pode realmente fazer uma revolução?

Você aceita a luta de classes até o fim?

Ele aceitaria,

quebrar esse aparato, esses moldes e instituições

que o levaram até onde ele está hoje.

Porque se ele é Presidente,

é porque jogou as regras do jogo...

institucional, do jogo da república burguesa.

Allende realmente é um problema.

Conhece alguém da cidade?

Quer dizer, esteve em Valparaíso e conheceu gente, digamos...

mais humilde, que lhe ensinou algumas coisas?

Na minha vida ele influenciou muito.

Quando menino, eu tinha 14 anos, ele era anarquista, carpinteiro.

Cuja oficina era modesta, muito humilde,

ficava na frente da minha casa.

Quando terminava minhas aulas no colégio,

eu ia conversar com esse anarquista fã de Marx.

Um homem que tinha na época 63 anos e eu tinha 14, 15 anos.

Ele me ensinou a jogar xadrez

e me falava sobre as coisas da vida.

-Ele me emprestava livros... -Quais livros?

Todos esses, essencialmente teóricos,

Vejamos... De Bakunin, coisas assim?

Acima de tudo, seus comentários eram importantes,

porque eu não tinha vocação para ler coisas profundas

e ele me simplificava com aquela simplicidade,

a qualidade dos trabalhadores que assimilam as coisas.

Não é o que dizem lá fora.

Dizem que é um bom homem, que pertence à boa sociedade chilena,

que não há nada a temer dele…

Os americanos ficaram assustados.

Pelo contrário, dizem que Allende é marxista,

que Allende o vermelho, totalitário.

Acredito que nenhuma das duas coisas deve ser verdade.

Allende deve ser outra coisa, algo diferente.

Sei que você não é um homem de teoria,

mas percebe-se na sua forma de agir, nos seus discursos,

uma grande solidez conceitual.

Quer dizer, além de saber o que você fala,

sempre fala coisas embasadas cientificamente.

Então eu me pergunto...

quando e como você abordou o marxismo-leninismo.

E especificamente, quando leu Marx e Lenin?

Ou seja...

Na verdade, quando era estudante…

Estou falando do ano 26 ou 27, quando comecei a estudar Medicina...

Os estudantes de Medicina eram os mais avançados.

Não eram os filósofos ou da faculdade de Letras?

Não. Eram estudantes de Medicina por tradição.

Naquela época morávamos em um bairro muito modesto,

morávamos praticamente com o povo.

A maioria de nós era de estudantes provincianos

e à noite nos reuníamos, pois morávamos na mesma pensão.

E em voz alta líamos “O Capital”, líamos Lênin,

também líamos Trotsky, por exemplo.

Nós não tínhamos fronteiras.

Sei perfeitamente bem...

que não há ação revolucionária sem teoria revolucionária.

Mas, essencialmente, fui um homem...

que agiu e sempre agiu.

O governo popular...

dizem que é a expressão e o produto histórico

de seu desenvolvimento muito especial e chileno

que combinou as formas políticas da democracia burguesa

com um amplo movimento social proletário.

Você, companheiro Presidente, tem 62 anos.

E bem-vividos!

Mas você pertence a uma geração...

à geração dos Bittencourts,

Haya de la Torre, Arevalo...

Essas pessoas estão hoje politicamente liquidadas.

Estão na pré-história da América Latina...

e você está na história fazendo história

e planejando o futuro.

Então uma pergunta:

Por que eles ficaram para trás

e por que você continua avançando?

O partido socialista era um partido marxista

e éramos categoricamente anti-imperialistas.

O APRA, também nessa época, era um partido anti-imperialista.

Mas na verdade, o que aconteceu no Chile...

quando, por exemplo, chegaram ao poder...

no caso da Venezuela,

os partidos populares, especialmente a Ação Democrática,

não se manifestaram para fazer mudanças,

não lutaram para transformar o regime e o sistema.

Pelo contrário, entenderam-se com o imperialismo.

O APRA, por exemplo...

não chegou ao poder,

mas essencialmente, para tentar abrir um caminho,

morreu, diminuiu, mudou de atitude perante o imperialismo.

E a partir daí, foram superados pela história...

Na verdade, hoje, esses partidos...

não representam nem interpretam os desejos

dos povos latino-americanos.

Quando o problema do imperialismo se tornou latente para você?

Tínhamos consciência

de que a frente popular foi sem dúvida um grande avanço,

pois foi a incorporação da classe média que saiu do poder.

A classe operária organizou-se na Agência Única do Trabalhador,

mas ao mesmo tempo entendíamos perfeitamente

que a dependência econômica

implicava submissão política.

Embora seja verdade que foi um avanço na frente popular,

não implicou, nem poderia implicar

em libertação política, soberania plena,

que está sujeita à dependência econômica.

Atuamos conscientemente na frente popular como palco,

mas indiscutivelmente,

cada vez víamos que os problemas, no fundo,

não podiam ser resolvidos. E por que não podiam?

Porque nossas riquezas essenciais estão nas mãos do capital estrangeiro.

Essa experiência vivida fortaleceu nossa convicção

de que a luta essencial nos países em desenvolvimento

é a luta anti-imperialista.

Esta é a linha de fundo do pensamento.

Mas a revolução não desempenhou um papel...

na exceção, digamos...

Influenciou de forma extraordinária,

porque vimos com mais clareza o que é o imperialismo

e de que forma não há fronteiras que o impeçam

quando tentam defender seus interesses.

Mas também temos a memória

de mais de 57 desembarques na América Latina,

dos fuzileiros navais.

Não se esqueça que o próprio Bolívar

tem uma frase que diz:

“Os Estados Unidos...

querem mergulhar a América na miséria em nome da liberdade.”

Duas pessoas me impressionaram,

por algo que não encontrei nos outros: Seu olhar.

Zhou Enlai

e Che Guevara.

Em ambos havia uma força interior,

em ambos havia firmeza,

em ambos havia ironia.

Quando conversava com o Comandante Guevara

e olhava para ele, eu sabia a resposta,

antes que ele a dissesse com suas palavras.

Qual foi seu primeiro contato com a revolução cubana?

Fidel Castro deve ter entrado em 5, 6 de janeiro, por aí.

Pois bem, cheguei a Cuba no dia 20 de janeiro.

E cheguei em um momento muito curioso.

Naquela tarde havia um desfile...

E esse desfile foi liderado por 200 policiais de Miami

e estavam em um carro aberto… o prefeito de Miami e...

não sei se era o prefeito de Havana.

Então, no dia seguinte,

pensei em pegar o avião para ir ao Chile,

quando encontrei com Carlos Rafael Rodriguez...

que conheci no Chile.

Ele disse: “O que está fazendo aqui?” “Vim para ver a revolução.

Mas como não tem revolução, vou embora.”

Que revolução seria essa com a polícia de Miami?

Ele disse: “Você está enganado, Salvador.”

Fique aqui. Fale com o líder.

Mas eu disse: “Não, vou embora.”

Mas ele insistiu tanto... Além disso, conhecia Carlos Rafael.

“Então entre em contato com os líderes.”

E de fato, naquela tarde,

recebi um telefonema de Aleida,

que não conhecia, nem sabia quem era.

Era secretária do Che, ainda não era casada com ele.

“O comandante Guevara vai enviar um carro

e o aguardará no quartel-general em Havana.”

E lá eu cheguei... E lá estava o Che.

Ele estava deitado numa cama de campanha...

Lembro que era um quarto enorme...

havia uma cama de bronze, mas o Che estava numa cama simples...

só de calça e com o peito descoberto.

E nesse momento sofria um forte ataque de asma.

Estava com o inalador...

Esperei até passar e me sentei na outra cama.

Então, eu disse: “Comandante...”

E ele disse: “Allende, sei perfeitamente quem é você.

Ouvi dois discursos seus na campanha de 1951.

Um muito bom e outro muito ruim.

Vamos conversar com confiança,

porque tenho uma opinião clara sobre quem é você.”

Então aí percebi a qualidade intelectual, de um sentimento humano.

A visão continental do Che

e a concepção realista da luta dos povos.

E ele me colocou em contato com Raúl Castro

e eu fui imediatamente ver o Fidel...

E lembro como se fosse hoje,

estava em um conselho de gabinete e Fidel me fez entrar

e eu presenciei parte da reunião do conselho de gabinete

e depois teve um jantar e saímos para conversar com Fidel.

Teve uma coisa muito curiosa… A gente foi para uma sala

com camponeses jogando xadrez jogados no chão,

metralhadora e tal...

E tem uma foto que não está aqui,

onde apareço na única parte em que poderíamos estar,

numa espécie de lareira, e havia um espaço ao lado,

e lá ficamos Fidel e eu conversando.

O Chile tem seu caminho para o socialismo.

Que lição pessoal a revolução cubana deu para você?

Uma lição extraordinária.

Em primeiro lugar, é um povo unido,

um povo consciente de seu dever histórico é um povo invencível.

Também quando tem líderes consequentes.

Quando tem homens capazes de interpretar o povo,

quando o povo sente seu governo.

E qual é...

o fundamento humano e político de sua amizade com Fidel Castro?

Desde o primeiro momento,

fiquei impressionado com sua inteligência inacreditável,

aquela coisa incrível ao redor.

Porque é uma espécie de catarata humana.

E sua franqueza.

E nossa amizade às vezes foi...

-Com discussões? -Profundas e fortes!

-Mas com respostas. -Sempre!

Guerra de guerrilha.

Este exemplar estava na mesa do Che.

Deve haver uma segunda ou terceira cópia,

mas imagino que a primeira foi ganha por Fidel.

Este tem uma dedicatória que diz:

“A Salvador Allende,

que por outros meios tenta obter o mesmo.

Com carinho, Che.”

Fiquei muito surpreso ao ver um filme de sua campanha.

Um filme de transmissão de mandato.

No Estádio Nacional,

onde fez seu primeiro discurso político, havia um retrato do Che.

Você o citou como exemplo para a juventude chilena,

em seu primeiro discurso como ativista socialista,

mas também como Presidente da República.

E me pergunto, por que você...

com instintos politicamente diferentes do Che,

segue ele, não só assume a bandeira do Che, da revolução cubana,

mas também o coloca como exemplo.

Porque acredito que, indiscutivelmente,

na vida da América Latina, poucas vezes

ou talvez nunca tenha existido um homem que mostrou mais consequência

com suas ideias, mais generosidade, mais desapego.

Che tinha tudo, renunciou a tudo

para tornar possível a luta continental.

Agora a resposta do porquê está na dedicatória do livro de Che.

Ele diz a Allende que por outros meios tenta obter o mesmo.

Havia uma diferença indiscutível,

mas no fundo as posições são ou eram semelhantes, iguais.

-Diferenças de método. -Exato.

-Não diferenças de princípio. -Exato.

O que você sentiu...

É uma pergunta que você pode não querer responder...

O que sentiu quando apreendeu sua morte? Ou melhor, o assassinato dele.

Uma profunda dor.

Nessa combinação inscrita na dialética da história de todo o Chile,

o companheiro Presidente Salvador Allende

é o exemplo vivo, de como é sua encarnação.

Médico e companheiro, maçom e marxista.

Ex-presidente do Senado da República e sindicalista socialista.

De formação burguesa e de convicção revolucionária.

Enraizado na área provincial de seu país,

ainda mais do que na capital, um internacionalista consequente.

Ele realmente é, como dizem, crioulo, chileno até o âmago.

E se não tivesse sido essa síntese da história chilena,

com todos aqueles contrastes às vezes desconcertantes,

certamente não teria reunido em torno de seu nome

a primeira maioria nas eleições presidenciais.

Para cumprir esse papel determinante, que é o Sul na atualidade.

Não é por acaso que Allende é chamado por seus compatriotas

como chefe de Estado de um governo legalmente constituído.

Para lançar uma ponte na sociedade do passado e a do futuro,

por alto, e por assim dizer,

com a própria ajuda das contradições da sociedade presente.

Esse é o seu papel,

como unificador da esquerda, catalisador das causas populares,

talvez o inimigo tenha algum motivo para tentar eliminá-lo,

como sabemos que está ou estava tentando.

O que pensa que aconteceria?

Penso que a burguesia parte de um erro.

Supõe que é o homem quecarece de elementos essenciais do processo social.

Todos sabemos que é o povo, que são as massas,

mas também não ignoramos

que o homem tem uma certa influência em determinado momento.

Bem, eles acreditam e convertem esse princípio,

quase uma tática, de que eliminando um homem, um político, um líder,

o processo social vai desaparecer.

É um erro, pode demorar,

pode ser prolongado, para o final, não podem detê-lo.

No caso do Chile, se me assassinarem,

o povo seguirá seu caminho.

Com a diferença talvez que as coisas vão ser mais difíceis e violentas,

porque será uma agressão muito clara e objetiva para as massas,

porque essa gente não para diante de nada.

E eu tenho essa opção contabilizada.

Não estou oferecendo, nem facilitando,

mas também não vivo com a preocupação de que isso possa acontecer.

Construindo o socialismo Não vão nos banir!

Construindo o socialismo Não vão nos banir!

Tenho a impressão de que vocês se impuseram pouco

na tomada de trens,

migração de populações...

Todos os problemas locais, não da barragem de Frei,

porque ele enviava ferozmente a polícia,

para expulsar aqueles que invadiam terrenos, os sem-teto,

e essa história de San Miguel e Puerto Montt.

Mas é claro que um governo do povo não pode agir assim.

No entanto, o governo do povo não incentiva essas medidas...

das massas, digamos, dos despossuídos.

Sim...

O que pedimos aos nossos colegas

é que compreendam que eles são um governo.

Portanto, eles têm de ter confiança no que vamos fazer,

no que estamos fazendo.

O problema, Régis,

é muito claro e muito simples.

Não conheço nenhum país,

inclusive Cuba,

que tenha resolvido o problema da moradia.

Além disso, discordo de muitos aspectos da reforma urbana,

porque acredito que não é a solução.

Eu já disse isso a Fidel, em muitos aspectos.

Portanto, o que queremos fazer?

Queremos encarar o problema da moradia,

queremos dar um teto,

mas ao mesmo tempo não queremos que ocorra algo anárquico.

Porque você sabe bem que se amanhã tomam um determinado terreno,

a uma distância enorme do centro da cidade,

será impossível fornecer água, luz...

Então, que tipo de moradia as pessoas vão ter?

Quanto custaria?

Em algumas partes não podemos construir casas de um andar,

casas isoladas, temos que construir blocos.

Porque, logicamente, temos de aproveitar a altura.

-Existe apego à casa individualista? -Sim.

Não seria uma característica da ideologia burguesa…

Você tem que superar isso, mas só na base no raciocínio,

para que as pessoas entendam e percebam.

Portanto, nós não somos uma barragem, mas uma causa.

Você entende bem que o mesmo pode acontecer nas tomadas de terra.

Existe uma lei.

Essa lei, indiscutivelmente, nos levará à apropriação

dos bens e fundos que ultrapassem o mínimo estabelecido por lei.

Mas acontece que o que nos interessa é fazer

a reforma agrária por zonas,

para fazer ao mesmo tempo,

as produções que o Chile precisa, segundo o clima, região e solo.

Se feito de forma anárquica, não há como planejar a produção.

-Este é o problema. -Claro.

As pessoas têm de entender que somos causa e não barragem.

O povo nunca será barragem, se o povo for o governo.

Na moeda,

você diz que no campo, na área da economia social,

o governo daria participação aos conselhos de empresas,

aos trabalhadores, então...

-Funcionários e técnicos. -Funcionários e técnicos.

Para mim, sendo você socialista

e conhecendo as aproximações do partido socialista com a Iugoslávia,

-me fazem pensar em autogestão. -Não.

Colocamos como necessidade…

a presença de trabalhadores, funcionários e técnicos

em percentagem na gestão das empresas.

Mas isso não significa que essas empresas serão autônomas

e terão independência para produzir. Não.

Somos e seremos a favor de uma economia centralizada.

As empresas devem desenvolver planos de produção exigidos pelo governo.

Agora, para que isso se cumpra,

vamos discutir com os trabalhadores,

mas não vamos dar uma empresa a certos trabalhadores,

para que produzam o que quiserem,

ou para que lucrem, do ponto de vista pessoal,

porque têm uma empresa vital para o país, com uma renda maior.

Eu tinha uma revista francesa, de esquerda,

que falava do Chile, da “revolução sem rifles”.

A revolução sem rifles.

Lá fora, uma revolução sem rifles,

para quem não tem, talvez, maior formação política,

não é revolução, é reformismo.

Então, é claro que…

os rifles ainda não saíram aqui no Chile… ou pouco…

Mas é revolução o que acontece aqui?

Estamos em um estágio revolucionário.

Como podemos definir uma revolução?

Do ponto de vista sociológico, pergunto ao filósofo e sociólogo.

Eu quero esclarecer uma dúvida logo.

Para mim, a questão da violência não é definidora.

Certo, quero dizer outra coisa.

É a passagem do poder de uma classe minoritária

-para uma majoritária. -Exato.

Aqui a classe minoritária foi deslocada e o povo...

Foi evidentemente,

porque se a classe minoritária não estivesse no poder,

não haveria estatização do cobre, dos bancos,

não haveria reforma agrária, Régis.

Mas até agora o governo não deixou os marcos reformistas,

agiram dentro da constituição que o governo burguês anterior legou…

Agiram dentro dos moldes estabelecidos.

Por isso podemos dizer que até agora houve reformas.

Lenin diz… desculpe, companheiro, não quero parecer pedante.

Mas Lênin diz que há dois tipos de reformas:

Aquelas destinadas a deter a revolução…

e as destinadas a abrir o caminho para a revolução.

Acredito que usamos aquelas que abrem caminho para a revolução.

Agora, temos a pretensão, e vou dizer com modéstia:

Estamos criando um caminho diferente.

E mostrar que isso pode ser feito,

essa transformação é profunda, pois é o caminho da revolução.

E nós falamos, e você sabe muito bem…

Falamos para criar um governo democrático, nacional,

revolucionário e popular,

que abrirá o caminho para o socialismo.

Porque o socialismo não é imposto por decreto.

-É verdade. -Então…

todas as medidas que tomamos são medidas que levam à revolução.

Mas a minha pergunta tem um pouco de fundo histórico.

Aqui já havia frentes populares.

Aqui já havia governos populares…

Mas o Aguirre... Você foi ministro dele.

Depois veio Gonzáles Videla, que terminou mal.

Depois veio o populismo de Ibáñez, etc.

E isso fracassou, não apenas aqui, mas em todo o continente.

Desculpe, mas o que fracassou?

Uma certa política colaboracionista e conciliatória

baseada na combinação de partidos operários

e partidos demo-burgueses, digamos assim.

Como você, companheiro Presidente,

pode assegurar que os fracassos de antes

não se repetirão agora, em 1970, no Chile?

Em primeiro lugar, Régis,

afirmo que a Frente Popular Chilena não fracassou,

por uma razão muito simples.

A Frente Popular Chilena não propôs a transformação revolucionária do Chile.

Pedro Aguirre Cerda criou um programa chamado:

“Pão, Peito e Abrigo”.

Um programa humano,

mas sem conteúdo social, muito menos revolucionário.

Quem pensa que Pedro Aguirre Cerda é um revolucionário,

diria, claro “fracassou”.

Mas acontece que entramos conscientemente para colaborar,

para fazer a esquerda do sistema.

Ou seja, do sistema capitalista.

Enquanto o programa diz

que hoje estamos lutando para transformar e mudar o sistema!

É completamente diferente.

Na Frente Popular, Régis…

havia um partido hegemônico, um partido majoritário,

um partido da burguesia: O Partido Radical.

Hoje, na Unidade Popular, não há partido hegemônico,

mas estão presentes dois partidos da classe trabalhadora:

Partidos revolucionários, partidos marxistas…

E finalmente, companheiro,

o Presidente da República é um socialista.

Então as coisas são diferentes.

E cheguei a este cargo para fazer a transformação

econômica e social do Chile.

Para abrir o caminho para o socialismo.

Nosso objetivo é o socialismo integral, científico e marxista.

Além disso, o contexto internacional é diferente...

Óbvio.

Antes...

Quando vamos chegar?

Eu estava, por exemplo, em 1953 na China...

Há quantos anos a China estava em revolução?

-Em 1963? -1953.

-Três ou quatro anos. -Um pouco mais, acho.

Não, Mao entrou em Pequim em 1949.

Bem..

Havia, por exemplo, em Xangai…

havia empresas mistas.

Bem, ainda existe Hong Kong…

Em Xangai, os ingleses ainda têm vantagens na alfândega.

Todo mundo sabe...

que a China, a República Popular Democrática,

poderia, em 24 horas acabar com Taiwan,

com Formosa. Por que não fazem isso?

Porque simplesmente estariam colocando em risco…

a paz mundial e sua própria revolução.

Por que Fidel não toma Guantánamo?

Alguém vai pensar que Fidel não iria querer

que os americanos não estivessem lá?

Por que não a tomam?

Devemos esclarecer que não aconselho esse tipo de medida…

-Claro! -Não!

Você está certo em medir sua paixão e escolher seu ritmo.

E a questão principal não é a violência.

A questão principal é qual a força motriz do processo?

É o proletariado.

Venceremos! Venceremos!

Mil correntes terão que quebrar Venceremos...

Quem usa quem neste sentido?

O proletariado e seus aliados vão ficar confinados

nas instituições burguesas, apaziguando entre reformas aqui, acolá?

Ou poderão, em determinado momento, quebrar esses moldes…

para criar uma democracia proletária?

No fundo, minha pergunta é:

O proletariado vai acabar se impondo à burguesia?

Ou é a burguesia que vai, aos poucos,

reabsorvendo e moldando

o proletariado em seu mundo?

Quem está provocando quem?

Totalmente e um pouco provocante, não?

Talvez.

Não creio que um companheiro me provoque com uma pergunta.

Eu sou um provocador profissional.

Não me permito ser provocado.

Então…

O proletariado...

A questão é importante.

E a resposta é curta: O proletariado.

-O proletariado... -É uma aposta até agora, porque...

você sabe que as frentes populares

explicaram que não vão se repetir.

Este não é um procedimento popular.

Você tem que entender este problema!

Como chamar, então? Frente Operária?

Frente da Pátria?

Frente Operária, Frente da Pátria, Unidade Popular,

mas com uma espinha dorsal, onde a classe trabalhadora

é indiscutivelmente o motor.

Porque embora não haja hegemonia de um partido,

os partidos socialistas e comunistas

são indiscutivelmente os partidos que representam 90% dos trabalhadores.

Ou seja, operários e camponeses.

Eu acredito nisso...

Então, a questão é: Quem vai usar quem?

Mesmo aceitando a forma da pergunta, eu lhe digo: O proletariado.

Se não fosse assim, eu não estaria aqui.

Bem...

Sua pergunta me...

Estou trabalhando para o socialismo e pelo socialismo.

A sua resposta me convence,

ainda mais quando temos um contexto internacional

muito difícil...

E também no mundo uma cooperação de forças mudou muito desde 1938.

Lá fora, muitos dizem que o Chile é a Inglaterra do continente…

Não são tropicais, são gente boa, são pessoas como nós,

não gostam de violência, etc.

Quantas mortes teve o proletariado chileno...

para tornar possível hoje a chegada ao governo?

Porque essa luta não é de ontem,

não é de agora.

Quem patrocina a morte

Como um carrasco tranquilo Está tomando seu café da manhã

Massacres aqui, matanças ali…

Tudo isso vai ser uma luta de classes...

que talvez não se conheça,

talvez não conseguiu romper com essa ideia, esse clichê burguês,

do Chile pacifista, amoroso e bondoso,

onde tudo está arranjado. Na verdade, existe no campo.

Nos subúrbios...

não aconteceu assim, obviamente.

Tem sido uma luta de classes muito longa, dura.

Talvez uma das mais sangrentas do continente.

Onde estão os assassinos Que mataram por matar

Juramos pela terra Que vamos encontrá-los

Juramos pela vida Que vamos encontrá-los

Nas relações com os EUA...

vocês têm motivos para temer um agravamento dessas relações?

O que vocês esperam?

Se nos submetermos à história,

sem dúvida, podemos temer muitas coisas.

A experiência da América Latina é dramática, trágica e sangrenta.

Vamos falar da política do cassetete, da política do dólar,

do desembarque de Marinha, e você sabe.

Agora, nós também pensamos…

que os Estados Unidos, como povo e como nação,

hoje estão vivendo fases muito diferentes do que antes.

Têm problemas internos profundos.

Não só o problema racial, não só o problema dos negros.

Têm problemas de setores operários, estudantes, intelectuais...

que não aceitam uma política agressiva.

Além disso, despertaram uma rejeição mundial

com sua atitude no Vietnã.

Portanto, é mais difícil para eles prosseguir na América Latina.

Nós não temos nenhuma atitude agressiva contra os americanos.

A agressão virá deles, se for preciso.

É o que eu falo, nem mesmo verbal.

O Sr. Nixon é o presidente dos EUA e eu sou o presidente do Chile.

Não usarei nenhum termo depreciativo contra o Sr. Nixon,

desde que ele respeite o Presidente do Chile.

Se romperem...

com isso que é uma obrigação,

se mais uma vez vão aceitar o tipo de autodeterminação

e da não intervenção,

vão encontrar uma resposta digna de um povo e de um governante.

No que reside, finalmente para você,

a lição do processo chileno para a América Latina?

Qual é a lição na sua concepção?

A lição é que cada povo tem sua própria realidade…

E diante dessa realidade, devemos agir.

Não há receitas.

Nosso caso, por exemplo, abre perspectivas, caminhos.

Chegamos pelos canais eleitorais...

Aparentemente podemos dizer que somos reformistas,

mas tomamos medidas que implicam que queremos fazer a revolução.

Ou seja, transformar a nossa sociedade.

Ou seja...

construir o socialismo.

O que pensa de quem afirma

que o que acabou de acontecer no Chile,

nega a tese da guerra popular, em outras partes?

Eu disse antes de nossa vitória,

que o foco pode ser a luta revolucionária,

o exército armado, a guerra popular,

a insurgência e o caos eleitoral.

Depende do conteúdo que lhe é dado.

Diante de alguns países, não há outra opção senão a luta armada.

Onde não há partido nem sindicato, onde há ditadura,

quem vai acreditar na opção eleitoral?

Não há expectativas eleitorais.

Pessoalmente vi sua vitória como um incentivo para lutar.

Minha pouca experiência política e pouco conhecimento da América Latina

me levaram à conclusão de que…

muitos governos se autodenominam revolucionários,

mas há alguns que falam mais do que fazem…

E outros que, são muito poucos, fazem mais do que falam.

Tenho a impressão de estar no segundo caso, aqui.

Para nós, vale muito mais fazer do que falar.

Então, talvez não tenhamos muito a falar, a coisa é fazer.

Uma última pergunta que eu queria fazer…

Como você vê, a partir da experiência chilena

e da vitória popular no Chile, o futuro da América Latina?

Com ou sem vitória,

eu sempre disse a mesma coisa:

América Latina é um vulcão em erupção.

Os povos não podem continuar morrendo meio vivos.

Você sabe muito bem que neste continente

há 170 milhões de semianalfabetos e analfabetos.

Você sabe que na América Latina faltam 14 milhões de moradias.

E que 70% das pessoas se alimentam mal.

Você sabe que, potencialmente, nossos povos são muito ricos.

No entanto, são povos com desemprego, fome,

falta de cultura, com pobreza moral e fisiológica.

Os povos da América Latina não têm outra opção senão lutar,

cada um segundo a sua realidade.

Mas lutar, lutar para quê?

Para conquistar sua independência econômica

e também ser povos autenticamente livres politicamente.

Agora, creio que essa é a grande expectativa,

e é bom que, como presidente, eu possa dizer,

principalmente aos jovens,

que no caminho da luta, no caminho da rebelião,

no caminho da consagração,

para estar com os trabalhadores,

essa é a grande perspectiva e possibilidade.

Este continente tem que alcançar sua independência.

E um dia, a América terá uma voz de continente,

uma voz de um povo unido, uma voz respeitada e ouvida.

Porque será a voz de povos donos de seu próprio destino.

É o que eu penso, Régis…

E acredito que você, companheiro na rebelião dos povos,

pode nos ajudar muito, dizendo o que você viu e o que nós queremos.

Venceremos! Venceremos!

Mil correntes terão que quebrar Venceremos...

O que aconteceu aqui é muito chileno.

Chileno é também o lema que está no escudo nacional:

“Pela razão ou pela força”.

Aparentemente, até hoje, tudo foi pela razão.

Até quando?

VALPARAISO 6 DE JANEIRO DE 1971

A DOIS MESES DA RETOMADA DAS RELAÇÕES COM CUBA

A UM MÊS DA EXPROPRIAÇÃO DE BELLAVISTA TOMÉ,

GIGANTESCO IMPÉRIO TÊXTIL

A QUINZE DIAS DA ESTATIZAÇÃO DO AÇO

A DEZ DIAS DA ASSINATURA DOS PROJETEOS DE ESTATIZAÇÃO DO COBRE

E CRIAÇÃO DOS CONSELHOS CAMPONESES

A CINCO DIAS DA DESAPROPRIAÇÃO DO MAIOR LATIFÚNDIO DO PAÍS:

520 MIL HECTARES

A CINCO DIAS DA ESTATIZAÇÃO DO CARVÃO

A CINCO DIAS DO PROJETO DE ESTATIZAÇÃO DOS BANCOS PRIVADOS

A DOZE HORAS DA RETOMADA DAS RELAÇÕES COM A CHINA POPULAR

COMPANHEIRO PRESIDENTE

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