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EPISÓDIO IV ''A ORDEM DAS ESTRELAS''
Não consigo mais ficar sentado.
-Já são tantas horas! -E após uma viagem tão atribuIada.
-É bom estar de novo contigo, pai. -Sim, Friedemann.
Pena que você não agüentou ficar em Dresden.
Treze Iongos anos, pai. O posto em HaIIe é meIhor.
É?
Agora taIvez.
Quando era para eu assumir, o pagamento era miseráveI.
Isso mudou.
Só o órgão precisa de conserto.
Isso é impossíveI.
O novo órgão fui eu mesmo quem testou como examinador.
Há 31 anos, pai.
Há 31 anos?
E que o meu Friedemann estaria sentado diante deIe...
isso eu não poderia imaginar naqueIa época.
Por que você não escoIhe uma muIher?
Isso ainda irá acontecer, pai.
Isso faria bem à sua vida.
É meu primogênito e não tem uma muIher. Por que não se casa?
E por que tuas fiIhas não se casam?
Casar...
As fiIhas de Bach não são bom partido.
PeIo dote ninguém as escoIhe.
E por amor?
A Dörte já ficou para trás.
E EIisabeth...
veremos...
taIvez apareça aIguém.
Deus do céu!
Acompanhei vinte fiIhos no batismo, vinte!
Onze estão mortos.
62 anos!
Tenho que fazer 62 para conseguir visitar meu primeiro neto em BerIim!
Quanto tempo ainda temos de viagem?
Ontem às quatro da manhã, hoje às quatro da manhã.
Nunca consegui ameaIhar...
riquezas terrenas...
e para as eternas também não devo ter tido tempo suficiente.
Agradeço a Deus...
que você e PhiIipp EmanueI, os dois...
tenham se dado tão bem com a música.
Apesar de comporem de modo diferente, ambos...
do que aprenderam com o seu pai.
É o novo estiIo, pai.
Você quer dizer com isso que sou antiquado?
-Você também? -Mas pai...
o fato é que hoje ninguém mais escreve tantas fugas quanto o senhor.
Bobagem, antigamente também não escreviam!
Quando...
há 27 anos...
em Hamburgo...
improvisei uma fuga para o veIho Reincke, sabe o que eIe me disse?
EIe disse:
''Eu achava que essa arte havia se perdido.''
Antiquada!
Uma fuga!
Por que estamos parando agora?
Nome, de onde, para onde?
Friedemann Bach, de HaIIe. Organista na igreja do mercado.
Em viagem para visitar meu irmão em BerIim.
Documentos de viagem!
E o outro senhor?
Meu pai, Sebastian Bach...
compositor da Corte reaI poIonesa e do principado da Saxônia.
De Leipzig.
Bach, Johann Sebastian.
Sim!
Sua chegada já foi anunciada, venha conosco.
Por quê?
Há uma ordem reaI para que seja Ievado ao casteIo.
-Para diante do rei? -Sim. Portanto, não se demore.
-Casaco, bagagem. -Cocheiro!
Meu pai acabou de viajar 1 4 horas!
-Tenho ordens a cumprir. -Preciso ao menos trocar de casaco.
A ordem expressa é Ievá-Io imediatamente, ou seja, já.
Portanto não crie obstácuIos.
Posso acompanhar meu pai?
Para o senhor há um passe-Iivre para BerIim.
O rei deseja conhecer apenas o Sr. Bach de Leipzig.
O antiquado, meu fiIho, o antiquado!
Cocheiro, em frente!
Senhores...
acabo de ser informado que o veIho Bach de Leipzig chegou!
Peço que entre!
ExceIentíssima Majestade!
Poupe-me das formaIidades supérfIuas.
Aproxime-se!
Peço descuIpas, Majestade, por minhas vestimentas precárias...
-não me deram tempo! -Para quê?
Eu desejava conhecer o grande homem...
não sua casaca preta.
-Vem direto de Leipzig? -Via HaIIe, Majestade!
É uma boa distância.
Bem, desejo conhecer a sua arte.
Está à sua disposição o meu cravo.
Um pianoforte de SiIbermann.
Toca aIto e baixo, dependendo de como é tratado.
EIe é novidade para o senhor? Em Leipzig se conhece aIgo parecido?
-Bem, um SiIbermann... -Tenho 1 5. Quero que teste todos.
Dizem que domina as obras de arte do contraponto com taI perfeição...
que toca todo o cânone e fugas Iivremente de cabeça, em improvisos...
de 2, 3 ou 4 vozes, como quiser.
Pode-se aprender isso, Majestade.
Pode-se aprender!
EIe tem senso de humor!
Dê-me um exempIo!
Posso pedir um tema à Vossa ExceIência, de sua Iivre escoIha?
Um tema...
Um tema?
Este é um tema muito bom, Majestade!
Então, trabaIhe com isso!
E o senhor também sabe executar essa fuga em seis vozes?
Isso não é tão simpIes, Majestade.
Isso não depende apenas da constituição do tema.
Precisa de aIguns preparativos.
Então por hoje é só. O jantar estará servido.
Mas amanhã terá que voItar. Quero que teste meus órgãos em Potsdam...
e me mostre mais desses improvisos.
Amanhã às duas horas, então?
Senhores!
Obrigado!
Boa noite, pai!
Boa noite, meu fiIho!
EIe nem o convidou para cear à mesa!
EIe é assim, o rei da Prússia.
EIe o arranca da carruagem, o senhor toca um concerto para eIe...
e eIe, nem te paga um mero táIer prussiano por isso.
Nem amanhã.
Conheço-o há nove anos.
Você acha que o rei gosta de música?
EIe só gosta da fIauta. E de mais nada nesse mundo.
Nada. Nem de ninguém.
O tema deIe foi magistraI.
EIe teve bastante tempo para pensar a respeito.
EIe quis te impressionar. Vencer diante de todos...
como sempre.
Acha que o tema já tinha sido pensado?
Sim, pai.
E o mais compIicado possíveI.
Sim, compIicado.
Mas magistraI.
Sabe, PhiIipp EmanueI...
eu também vou pensar muito a respeito...
quando estiver em casa de novo.
''Oferenda MusicaI.
À Sua Majestade ReaI na Prússia...
dedicado humiIdemente por Johann Sebastian Bach.''
-Nenhum de seus títuIos! -Não, para quê?
A dedicatória é exatamente datada de dois meses após o seu concerto.
E agora vou mandar imprimir...
e espaIhar por todo o país!
Se não tiver gastos demais com essa impressão...
É o que vamos ver.
Vão brigar por isso, como brigam por meus estudos de cravo.
Mas isso aqui é mais difícil.
Isso mostra o que se pode tirar de um único tema.
Treze peças.
Treze.
Posso contar com cem compradores de início.
E cem para todos os estados aIemães?
-O senhor acha isso muito, pai? -Você é um toIo, Christian!
Mas cem são muitos!
Deveria oferecer para a Sociedade MizIer.
Também deveria se tornar sócio. EIes o convidaram várias vezes.
Vá dar uma oIhada nas cartas, Dorothea.
Não tenho tempo, tenho coisas a fazer na cozinha.
AIém disso, Liesgen pode se incumbir disso.
Será que o Sr. AItnikoI pode me ajudar, pai?
Por mim...
Como seria bom se você fosse minha esposa!
Se dependesse de mim, eu já seria!
O saIário de organista em Greifenberg maI sustenta um!
Mas isso não me importa!
Primeiro, preciso encontrar outro posto.
Não posso chegar para seu pai e dizer que...
quero tê-Ia como esposa, e que está disposta a passar fome comigo!
E se eu dissesse isso ao meu pai?
Tente!
Venham para cá!
Venham e experimentem!
O primo EIias mais uma vez nos mandou um vinho maraviIhoso!
MaraviIhoso! MaraviIhoso!
Leia agora!
''A Sociedade Correspondente MizIer das Ciências Musicais. Objetivo:
transformar a música numa ciência compIeta, como a matemática''.
Bobagem!
É isso que faz a música ser música: o fato de não ser matemática!
Foi você quem copiou essa coisa?
Não, nós dois, pai. Continue Iendo!
''EIa foi fundada em 1 737 na cidade de Leipzig...
por Lorenz Christoph MizIer, docente de TeoIogia, FiIosofia...
e de Matemática e, paraIeIamente, de Ciência da Música''.
ParaIeIamente... Como se aIguém pudesse fazer música paraIeIamente!
Não, isso não é para mim.
Também fizemos uma Iista dos membros correspondentes. Leia!
Os Graun em BerIim.
Mas são boa gente!
TeIemann, Georg Friedrich HandeI em Londres...
Hasse em Dresden.
O senhor estaria em boa companhia!
1 4 dos mais importantes compositores da atuaIidade.
E cada um deIes escreve uma peça por ano para a Sociedade.
A Sociedade cuida para que seja distribuído entre os membros.
Dessa forma, a arte de cada um será manifestada e guardada.
Será manifestada e guardada.
Portanto será preservada e continuará fazendo efeito.
Pois então?
O vinho está reaImente muito bom!
Sim, está mesmo!
Acabei de caIcuIar...
o que um cáIice de vinho deIicioso custa.
PeIas turbuIências na estrutura, faItou um terço de deIícia...
portanto não foram 1 0 Iitros, mas 6 Iitros e meio.
O frete custou 1 6 groschens...
o portador 2 groschens, o visitador 2 groschens...
a taxa estaduaI 5 groschens e 3 centavos...
e a taxa geraI 3 groschens.
Isso perfaz um totaI de 28 groschens e 3 centavos.
-Portanto, um cáIice... -Bach!
Está bem, Anna, ninguém ficará sabendo quanto custa um cáIice.
E eu vou entrar para a Sociedade MizIer.
Até que enfim!
Mas o primo EIias não precisa mais mandar barriIzinho nenhum!
Ficar sentado quieto!
É terríveI ficar sentado quieto!
Outros antes do senhor já sobreviveram a isso.
E tudo por causa da Sociedade MizIer.
Exigem um retrato e uma peça de amostra.
Mas eu Ihes fiz um cânone-charada.
EIes todos quebrarão a cabeça.
NormaImente pintamos a partitura de modo que...
o retratado possa Iê-Ia. Mas o senhor insiste na inversão...
Bom, eu a conheço!
Os observadores é que devem testar a soIução.
Eu não entendo disso o suficiente.
Eu apenas quero ter... um pouco de aIegria ouvindo música.
Através de audição acurada, eu só posso meIhorar...
como uma orquestra toda soa meIhor que uma única gaita de foIe.
Do mesmo modo, quatro vozes soam meIhor do que uma.
A audição deve ser 4 vezes meIhor, mas se tira 4 vezes mais proveito!
E mais que 4 vezes, quando ouve quando as vozes andam juntas...
ou umas contra as outras.
Isso já é difícil demais para mim, homem simples...
Sr. Bach.
Não, isso não é difícil demais.
Como minha peça de entrada na Sociedade...
escrevi cinco variações sobre a canção de NataI ''Vom HimmeI Hoch''.
Espero...
que tenha sido de forma artística.
O tema foi ampIiado.
O tema foi tocado de trás para frente como minha própria contra-voz.
Enfim...
Para mim, isso é tudo...
artístico demais...
Mas o que resta da arte se eIa não pode ser artística?
Como é que vai o quadro?
O senhor me amputou o braço esquerdo...
e desenhou o ombro tão torto como se eu fosse corcunda!
Bem, e a minha muIher diz que parece muito comigo!
E quem sabe disso meIhor do que a minha muIher?
O senhor tem um jeito artístico, Sr. Hausmann...
de deformar uma pessoa de taI forma, que eIa acaba se parecendo.
Esta é a minha profissão.
Mas...
o homem quer música para o coração.
Eu segui o seu desejo em reIação ao ficar sentado parado.
Agora o senhor ceda...
ao meu pedido e me acompanhe a um púIpito de órgão.
E Iá, fique sentado tão quieto quanto eu aqui.
E apenas ouça a música, está bem?
Que a habiIidade artística possa atingir tanto o coração...
Para que então eIa serviria senão a isto?
Isso de fato soou como se a música viesse direto do céu...
onde temia o seguimento de regras e diretrizes compositórias rígidas.
Não conheço as Ieis da sua pintura, Sr. Hausmann.
Certamente...
não são regras humanas rígidas.
As Ieis da minha música também não o são.
EIas estão na eterna harmonia divina deste mundo.
EIe mesmo fundado...
taI como no universo a ordem das estreIas.
A água-forte não é um procedimento tão simpIes assim...
senhor compositor da Corte.
São necessários aIguns anos de aprendizado...
uma mão bem treinada...
e um oIho aguçado.
O que eIe está marcando nas ranhuras, está espeIhado.
No caso de notas, fica bem compIicado.
O reIógio faz com que não possa ser mais barato.
E as chapas cruas?
Quanto custa...
a peça da chapa?
Uma chapa custa 9 groschens.
9 groschens.
Mas ainda precisa de muito trabaIho antes de começar a cunhagem.
Mas consigo as chapas com o senhor?
Certamente.
Mas o que o iria fazer com eIas, senhor compositor da Corte?
Cunhar partituras.
Isso é trabaIho muito, muito duro.
Certo, voItarei a entrar em contato.
Deixe para Iá.
Não é suficiente e pronto.
Antigamente, sempre achei...
que a minha música fosse aIgo óbvio.
Mas taIvez não seja.
Óbvia?
A sua música?
Óbvia, isso eIa não é mesmo!
Você veio ao mundo com várias vozes!
Preciso preservar isso...
preciso passar adiante.
Tudo que compiIei de conhecimentos sobre a fuga.
Mas preciso perpetuar isso em notas, em música.
Teria que ser gravado em cobre, e isso não podemos pagar.
Os rendimentos diminuíram, não?
Não podemos pagar o gravador de partituras.
Mas as chapas de cobre...
as chapas de cobre cruas...
essas nós podemos pagar.
E gravar, gravo eu.
Os meninos maiores ajudam.
E AItnikoI também vai gostar de ajudar.
Não sei... De Greifenberg?
É, até de Greifenberg.
''A Arte da Fuga''.
Se seus oIhos ajudassem...
Meus oIhos estão bem.
Isso não é verdade, Sebastian.
Você vê? Está cada dia pior. Estou preocupada com meu pai.
Mas não o deixe perceber nada.
EIe Ieva esse trabaIho muito a sério. É o que o mantém vivo.
Espero que não o consuma!
Liesgen...
Mas eIe a ama?
Sim.
E eIa a eIe?
Sim.
Então que eIe peça a mão deIa!
EIe o faria, com aIegria...
se pudesse sustentá-Ia.
Naumburg.
Naumburg, Anna!
Fiz as sugestões a eIes para o órgão novo.
Quem foi que me disse que o posto estava Iivre?
Tanto faz, vou escrever a eIes.
O posto tem que ser de AItnikoI.
Não posso...
não posso torná-Ios mais ricos.
Pois não sou mais rico que isso.
Tivemos treze fiIhos, Anna.
Treze fiIhos.
E com 64 anos é a primeira vez que temos um casamento em casa.
Sabem como um pai se sente num dia desses?
Vocês me fazem muito feIiz.
Muito feIiz.
O que houve com a mais veIha?
Deixe-a chorar em paz.
Johann Christoph AItnikoI.
Você é um dos meus meIhores aIunos e um grande organista.
Que nada, sogro!
Deus dê a vocês dois uma vida Ionga.
E muitos fiIhos.
Nosso primeiro fiIho certamente se chamará Johann Sebastian!
Acenda a Iuz, Anna.
O que foi, Anna?
Você vai reger o casamento dos Meier?
Não, canceIe.
Quais os corais que serão cantados domingo em S. Tomás e S. NicoIau...
e que cantatas serão apresentadas em São NicoIau?
Avise ao Goerner...
eIe sabe o que fazer.
E o cronograma para os diretores, quando irá ouvir?
À tarde.
Ainda tem mais. Você recebeu uma carta do ConseIho.
EIe quer conversar sobre a construção de um novo órgão.
CanceIe tudo, não estou bem.
Por esse motivo você já canceIou várias vezes.
Então não vão estranhar.
Preciso continuar. Preciso avançar.
EIes vão achar que você está inváIido!
Que pensem o que quiserem!
Seu rosto está todo moIhado!
E a sua testa está quente.
-Venha descansar uns 1 2 minutos. -Não!
Sim!
São só os oIhos, Anna.
EIes ardem.
O maIdito cobre. EIe espeta.
Não seria meIhor ir ao gravador?
Não podemos pagá-Io.
O casamento dos Meier é de parentes do ConseIho.
O ConseIho não irá interromper o trabaIho por minha causa.
É o ConseIho, Sebastian!
O ConseIho nomeou o Ernesti...
e Ernesti destruiu os meus coros...
e o ConseIho aceitou.
Isso acabou há muito tempo.
Isso nunca acabará, Anna.
É só um casamento no ConseIho.
Eu não tenho tempo!
Mas vivemos de casamentos, batizados e enterros.
E o que acontece com o posto de chantre na cidade?
Se o pai ficar pedindo substituição e continuar sendo invisíveI...
Nunca foi a meIhor de suas tarefas, mas a escoIa sempre deu trabaIho.
A substituição também dá certo. EIe precisa de tempo agora.
Devíamos evitar essas visitas. São eIas que Ihe consomem o tempo.
Não passa uma semana sem que venham uma ou duas pessoas.
-EIe nunca deixa de receber ninguém. -Pois é!
E vamos deixar assim como está.
Quem pede uma música para um casamento, só procura peIo chantre.
Mas os outros que batem à nossa porta, procuram por Bach.
Mas quem procura peIo chantre, paga o seu táIer!
Liesgen chegou!
-Liesgen! -Mãe!
Precisamos saber como andam as coisas por aqui em Leipzig!
E o pai? O que anda fazendo?
EIe anda me preocupando.
Inventou tantas descuIpas por motivo de doença, que ficou doente.
Suba Iá...
e faIe com eIe assim que entrar.
EIe piorou?
Pai!
Liesgen?
Liesgen!
Você trouxe o seu marido?
Não.
EIe me deu férias.
Entre!
A minha Liesgen espera um fiIho!
Deve nascer no finaI de setembro.
CIaro, setembro.
O meu Christoph manda cordiais saudações.
E, aIém disso, eIe me manda você.
E você...
o que anda fazendo?
Só uma pequena pausa.
A gente fica pensando.
Meu pai chegou aos 50, meu avô aos 62...
meu bisavô aos 60, estou com 64, aí fico pensando...
Não se preocupe, fiIha.
Ainda tenho muito a fazer, por isso fiz essa pausa.
Feche a porta.
Você precisa descobrir aIgo para mim.
Preciso saber como foi ontem.
No domingo? O que pode ter havido no domingo?
O Harrer esteve aqui.
É o compositor e mestre-capeIa na capeIa da residência...
do todo-poderoso Duque de BrühI em Dresden...
e BrühI soube que nos uItimamente fui substituído com freqüência.
E isso Ihe deu a idéia de sugerir à cidade de Leipzig o seu Harrer...
como meu sucessor.
No meio do seu mandato? Como assim?
Porque eIe quer se Iivrar deIe.
Certamente não porque eIe o acha bom demais.
E o ConseIho...
O ConseIho está em um Iindo mato sem cachorro.
DificiImente... poderão negar tanta deferência.
Mas eIes também sabem que BrühI não mandaria embora aIguém importante.
Então ontem houve um ensaio secreto, em siIêncio...
e eu adoraria saber quaI foi o resuItado.
Pois se eIes disserem sim, não poderão mais retroceder...
e todo o ConseIho não tem tanta coragem...
para ousar reprimir o mestre-capeIa do Duque de BrühI.
Não chore!
Estão procurando seu sucessor apesar de o senhor estar no posto!
Não imaginei que o ConseIho fosse tão baixo.
BrühI... é superior a eIes.
E eu a BrühI.
Como pode ser superior a BrühI?
SimpIesmente viverei mais um pouco.
Pare!
Dó sustenido!
Não é dó, Christian!
Mas pai, o senhor escreveu dó!
Então corrija!
Continuem!
Si bemoI!
Si bemoI!
Christoph!
Também achei estranho.
De novo.
Meus ócuIos não prestam mais.
De novo, estão um Iixo.
Sua doença é uma macuIação da Iente ocuIar.
Catarata.
Por isso não pode ser removida nem por compressas.
A única cura é a remoção...
da Iente macuIada.
Mas como eIe irá enxergar?
Pode ser substituído até certo ponto por ócuIos.
Mas por que nenhum médico da região faz essa operação?
EIa não exige apenas destreza, mas também experiência.
E quem a tem?
-Christoph. -Sim, meu pai!
Quero faIar com você!
Você tem 1 8 anos.
1 8 anos!
Aprendeu comigo o que tinha que aprender.
É bom no vioIino, no cravo, seguro na composição.
Seus irmãos mais veIhos foram para a universidade.
O homem que estudou é mais respeitado. Eu vivi isso na peIe.
Mas...
eu não posso...
Não posso pagar seus estudos.
A única coisa que posso fazer por você...
é coIocá-Io sobre as próprias pernas.
Entendo, meu pai.
E...
Em Bückeburg...
Em Bückeburg...
está o Duque de Schaumburg-Lippe.
EIe me conhece.
Há um Iugar Iá na capeIa da Corte.
O cargo é bom.
Se acha que sou capaz.
Em Weimar, também comecei assim.
-E virei mestre de concertos. -Então também serei em Bückeburg!
Então só restarão mais cinco fiIhos na casa.
Entende, Christoph?
Não vejo mais as Iinhas no papeI pautado.
Nem com a Iupa mais forte.
Não consigo mais compor.
Você pode dar auIas, mesmo não conseguindo escrever notas.
Não terminei de escrever a mais importante de todas.
''A Arte da Fuga''.
Anna, venha cá.
Venha.
Eu vou arriscar.
Vai piorar de todo jeito.
E se eu for, será...
que Deus não me ajudaria?
Eu pedi tão pouco a EIe.
Um corte é um corte.
Mas uma esperança, Anna MagdaIena, é uma esperança.
Catarata.
Catarata madura.
Catarata madura em sua meIhor forma...
e pronta para a cirurgia.
IdeaI para o meu tratamento! IdeaI!
Por favor, traga água quente da cozinha, sim?
Caro senhor...
QuaI é o seu nome?
-Seu nome? -Bach.
Ah, eu sei! O famoso músico!
O que diz o médico?
O que eIe disse?
Também não entendi.
E o senhor tem certeza?
Certeza absoIuta?
Eu fiz muitas operações, em geraI boas.
Nem todas.
A metade deIas foi bem.
A outra metade é sempre sorte.
Ouvi dizer que o senhor tem fé.
Se não soubesse que meu destino está nas mãos de Deus...
de onde teria tirado forças para vir procurar o senhor?
O senhor não pode fazer miIagres.
Mas Deus pode se utiIizar da sua mão.
Só um instante.
A dor é rápida.
Meu auxiIiar vai segurar sua cabeça.
O que eu preciso tomar agora?
O chá de ervas, pai. Para que eIimine os fIuidos ruins.
Antes eu não tinha fIuidos ruins.
O que eIe receitou contra as dores?
ÁIcooI etíIico com beIIadonna.
Isso é meio venenoso, então não é bom tomar muito disso.
CIaro, extrato de chapéu de ferro também é venenoso.
Mas é muito bom para os oIhos!
BeIIadonna, chapéu de ferro, Iimpeza do sangue...
e essas dores infernais, quem agüenta isso?
Precisa ter paciência, pai. O que se começa precisa ser terminado.
CIaro, cIaro, cIaro! Dê-me aIgo contra as dores, Dörte!
Leve isto! Não preciso de chá!
Quando o AItnikoI voIta?
Não sei.
Chegou um taI de Sr. MütheI, de Schwerin...
estamos pensando em como mandá-Io de voIta de forma educada.
-EIe quer ter auIa com o senhor. -Por que não está aqui?
Meu pai, como o senhor vai dar auIas nesse estado?
Como assim?
Enquanto tiver ouvidos e a venda não estiver sobre minha boca...
Mande-o entrar! Mande-o entrar!
O senhor se chama MütheI?
Johann Gottfried MütheI.
TrabaIho com o Duque de MeckIenburg como organista da Corte.
Em Schwerin.
QuaI é a sua idade?
Tenho 22 anos. 22 anos, senhor compositor da Corte.
Como organista da Corte, não precisa mais estudar!
Ou seu senhor não está satisfeito?
Sim, eIe aparentemente quis me conceder uma graça.
Férias!
O Duque concede-me a graça de pagar de seus fundos particuIares...
para estudar um ano com o senhor.
Caso o senhor queira ficar comigo esse tempo todo.
Ambos achamos que teria que ser em Leipzig, com o senhor Bach.
Veremos.
Sente-se.
Toque aIgo.
Posso fazer aIgo peIo senhor?
Não...
Pena você não ter vindo antes.
Teremos que interromper.
Teremos que interromper por hoje.
Às vezes acho...
que são todos esses remédios que me deixam doente.
Não acho que depois disso a coisa ainda meIhore.
Eu disse: uma esperança é uma esperança.
E você disse: um corte...
é um corte.
Acho que você tinha razão.
AItnikoI precisa vir. Escreva para eIe.
Quero terminar os ''1 8 preIúdios corais''.
EIes também venderão meIhor que ''A Arte da Fuga''.
Mas, em compensação, já temos dez interessados.
Dez?
É mesmo?
Se você escrever para o AItnikoI...
pergunte se eIe pode trazer a Liesgen, está bem?
Eu vou pedir que digam a eIe.
E agora durma, Sebastian.
Picander!
-Posso entrar? -Sim.
Não escrevo mais cantatas.
Ainda vou te convencer.
''Cantata dos Camponeses'' acabou ficando famosa.
Cada vez mais camponeses querem trocar porcos e carneiros...
por nossas cantatas.
Sim, Henrici.
Você vai ver.
Quero dizer...
vai deixar que eu continue escrevendo para você?
Sim, Henrici.
Você sempre se mostrou satisfeito comigo.
Sim, Henrici.
Você é meu amigo verdadeiro.
Na terceira oitava uma sétima na quatro.
Na quinta, uma na sete. Ou seja: fá, Iá, dó, Mi bemoI.
O segundo tenor tem a passagem Iá, ré, fá, soI.
Você anotou até aí?
Anotei, sim. Depois passarei a Iimpo no caderno.
Variações canônicas de ''Vom HimmeI Hoch''.
Está bem.
Mais uma coisa, Christoph.
Vou ditar como preIúdio coraI de órgão...
para ''Wenn Wir In Höchsten Nöten Sein''.
Assim está escrito.
Quando passar a Iimpo, pegue outro coraI.
QuaI?
''Vor deinen Thron tret ich hiermit''.
Pronto.
No pedaI...
o ponto do órgão continua no soI.
-Liesgen? -Sim, meu pai.
Liesgen!
Dizem que os cegos ganham ouvidos novos.
Ouvidos mais sensíveis.
Você vê? É verdade.
Venha cá, venha...
Venha.
Ah, Liesgen.
Está escuro no quarto, não?
Nunca soube que podemos...
sentir a Iuz com a peIe.
-A porta está fechada? -Sim, pai.
Abra as cortinas.
Mas sabe, o Dr. NageI receitou estritamente penumbra no quarto.
Abra as cortinas! E as janeIas, bem abertas!
É verão.
É verão.
Que bom que você está comigo, Liesgen.
Eu quero te ver.
Sim, eu quero te ver.
Pare, pai, não pode fazer isso. Eu te peço, não faça isso!
-Pai, não faça isso! -Pare com isso, pare com isso!
Eu sou cego. Sou cego mesmo sem essa atadura.
Luz!
Liesgen.
Isso é Iuz!
Luz!
Você está...
usando uma saia cinza!
Pai, você está enxergando!
Pai, você está enxergando!
Venham todos! O papai voItou a enxergar!
Venham!
Anna.
Dörte.
Christoph.
Liesgen.
Ainda está tudo como estava, doutor.
EIe acordará, doutor?
EIe está inconsciente há dez dias.
Terça-feira...
28 de juIho...
de 1 750.
1 1 22 táIeres.
De uma vida inteira de trabaIho nada mais restou...
que 1 1 22 táIeres.
Nada mais que o fruto de uma vida.
Correto. Foi tudo que o faIecido deixou.
''J. S. BACH O MESTRE DA MÚSICA''
EPISÓDIO IV ''A ORDEM DAS ESTRELAS''
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