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Vá verificar.
Respire, só respire.
Tem água?
Seu chá, senhora.
Muito obrigada.
Mamãe?
Já chegamos? Já pousamos?
Ainda não, amor.
Continue dormindo. Chegaremos logo.
Me ajuda!
- Evgeni? - O que aconteceu?
Algo está errado, ele não está se mexendo. Ajudem, por favor.
Mamãe?
- Mamãe? - Evgeni, o que foi? Evgeni!
Senhores passageiros, pousaremos em Novosibirsk.
Por favor, permaneçam sentados com os cintos afivelados.
Senhores passageiros, o avião está…
Mamãe?
TERRÍVEL ACIDENTE DE AVIÃO
ACIDENTE
O ÚLTIMO VOO
A ÚNICA SOBREVIVENTE FOI UMA MENINA DE 7 ANOS
APÓS 3 ANOS, AINDA NÃO SE SABE A CAUSA DO ACIDENTE
PRIMEIRA ENTREVISTA 10 ANOS APÓS O ACIDENTE
ACIDENTE DE AVIÃO 20 ANOS DEPOIS
EKATERINA RYKOVA
ENTREVISTA 20 ANOS DEPOIS
EKATERINA RYKOVA: A VIDA DEPOIS DA CATÁSTROFE
Estamos gravando, gente.
- Olá, Ekaterina. - Oi.
Obrigado por aceitar falar conosco.
Me dê o copo pra não aparecer.
Vamos para um local com mais luz.
- Um pouco mais pra cá. - Venham, por favor.
Será uma bela tomada no cruzamento.
Me dê o microfone.
- Aqui está bom? - Sim.
- Aqui? - Venham, mais perto.
- Só mais um passo. - Aqui está bom.
Sorriam para a câmera.
Legal, Anton. Agora fique ali, rápido.
Gravando.
Prontas?
Vamos começar.
Há exatos 20 anos, aconteceu o acidente aéreo
do qual você sobreviveu por milagre.
Você se lembra dos detalhes daquele dia?
Tento não pensar nisso.
Diga a nossos espectadores como tem sido sua vida?
Agora estou bem, sou psicóloga.
Minha filha, Diana, vai muito bem na escola…
Ela tem quase a mesma idade que você tinha na época do acidente.
Você contou pra ela sobre o acidente?
Sim, ela disse que não tem mais medo de voar.
- É verdade? - É.
É verdade.
Só se assusta com o barulho do aparelho ortopédico.
Interessante. E o que é isso?
Quebrei a perna quando era pequena. Tive que usar um aparelho especial.
Se não se importa, poderia falar mais sobre isso?
Por que o barulho a assusta?
Ela não gosta de falar disso.
Acredite, Ekaterina,
entendo que deve ser uma lembrança desagradável,
mas, por favor, fale pelos nossos espectadores,
que provavelmente estão lutando para enfrentar
algo traumático do passado, assim como você.
A lembrança em si não me assusta, mas…
É mais a sensação de pânico e a falta de controle
que o som provoca.
Toda a minha vida, inclusive na profissão que escolhi,
eu me dediquei a lutar contra o medo.
É possível superá-lo, acreditem.
Pegaremos um voo amanhã pra visitar meu avô.
Que legal. Sua coragem é invejável.
Obrigado, Katya. Isso é tudo.
- Então tchau. - Tá.
- Tchau. - Se cuidem.
Tenham um bom dia.
- Bom voo. - Muito obrigada.
Vamos sair na TV?
Continuem gravando.
Grave elas indo.
Este é um verdadeiro exemplo de força.
Uma garotinha que desafiou o destino
e agora nos ajuda a superar nossos medos, tal como ela fez.
Portanto, não tenham medo. Fiquem firmes e fortes.
Sei lá, ficou bom? Ou ficou ruim?
Ficou bom.
Bem-vindas a bordo. Desculpem pela demora.
Oi.
- Aqui está. - Obrigada.
Acha que a classe executiva vale o que eu paguei?
Diana, espera.
Vamos poder decolar?
Não controlamos o clima.
Mãe, achei os lugares.
Preciso ir pra casa.
- Não é aí. - Fazemos o possível.
Mãe, quero sentar aqui, não aí.
Os nossos assentos não são aí, querida.
Vamos.
Mãe, por que estamos viajando tão tarde?
Porque este foi o único voo que não cancelaram.
- É a fileira de trás, Galina. - Eu sei.
- É a última. - Tá, eu sei.
Que menina tão linda.
Vamos, vamos.
Quem é a menina tão linda? Quem é?
- Eu ajudo. - Eu consigo.
Eu sei.
Bem…
- Pronto. - Obrigada.
De nada.
Parece que seremos vizinhos.
- Sou Alexei. - Katya.
Ela é a Diana.
Oi.
Prazer conhecê-las.
Vamos, Evgeni.
Só fica resmungando e nunca me escuta.
Já pus a mala.
Certo.
Agora a sua.
Nunca vi num avião tão vazio.
- A tempestade deve ter assustado o povo. - Minha mãe e eu não temos medo.
Pode me dar o livro?
Claro.
Por que não decolamos?
Não se preocupe. Estão descongelando o avião para poder decolar.
Deseja beber algo enquanto espera?
Sim, quero um uísque. E que seja bom.
Isso é normal.
As luzes piscam quando alternam a força para os motores.
Não gosta de voar?
Desculpe, estou sendo muito enxerido.
Tudo bem.
Você viaja muito?
Costumava viajar, mas agora…
Prefiro ficar no calor do escritório tomando um bom café.
Tomara que a gente decole.
Senhoras e senhores, desculpem a demora.
Nosso voo para Tomsk decolará em alguns minutos.
Agradeço a paciência.
Senhoras e senhores, desculpem a demora.
Acho que ouviram.
Decolará em alguns minutos.
Agradeço a paciência.
Evgeni?
Galina, pare de se preocupar, nem decolamos ainda.
Eu não aguento, Evgeni.
Eu avisei, mas você não ouve.
Vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem.
Por que fez isso?
- Meu Deus. - O que desejam?
Lamento, mas minha mulher tem medo de voar.
Preciso descer.
Agora não é possível. Tenha calma, por favor.
Estou ficando enjoada.
- Por favor, fique sentada. - Calma.
Não consigo.
Não me envergonhe.
- Por favor... - Por favor, fique no seu assento.
Calma. Coloque o cinto e não me envergonhe.
- Mão, aonde vai? - Já volto.
Tenho medo.
Pode ficar de olho nela pra mim?
- Claro. - Obrigada.
- Calma. - Desculpe, mas não dá.
Deixe-me falar com ela.
- Não é preciso. - Confie em mim, sou médica.
Ela é médica.
- Olá, seu nome é Galina, né? - É.
É.
- Eu também tinha medo de avião. - Viu? Não é a única.
Mas tenho um lugar para estar.
A senhora também deve ter um motivo pra viajar.
Sim.
Meu neto Dimitri vai se casar.
Ele deve estar querendo muito vê-la.
A senhora está tendo um ataque de pânico.
Eu também tinha, mas controlei.
E a senhora também pode.
Só precisa respirar profundamente.
Vamos, respira fundo.
- Isso. - Estou tentando.
Continua respirando.
É que…
Não consigo.
Tenho medo. Meu doce Dimitri…
Como vai ficar sem mim?
- Tome estes comprimidos. - Para que são?
Ajudam a controlar o estresse.
Não vai querer perder o casamento.
É claro que não quero perder. Eu…
Toma um pouco de água.
Vamos, vamos. Bebe.
O que está desenhando?
Nada em especial.
E por que está tão tenso?
Me ajuda a visualizar as coisas.
Hipster.
Estarei ali, se precisarem.
- Obrigada. - Obrigado.
Você é uma santa.
Não foi complicado. Só lhe disse o que sempre digo pra mim mesma.
E o que é?
Enfrente seus medos, não fuja.
Ouviu isso?
Deve ser um parafuso solto ou algo do tipo.
Não se preocupe.
Mãe, tudo bem?
Estou bem, amor.
Não tenha medo.
Não tenho medo.
Já volto.
Senhora!
BANHEIRO
- Senhora, não pode ficar aí. - Um segundo.
- O avião não decolará se… - Por favor, só um segundo.
Em caso de emergência,
por favor, utilizem as saídas de emergência
da parte dianteira, central e traseira da cabine.
Cada saída possui um aviso de saída.
As luzes no chão irão ajudá-los a chegar até elas.
Em caso de descompressão,
máscaras de oxigênio cairão sobre seus assentos.
Quando virem as máscaras, puxem-nas
e posicionem contra seus rostos.
Já vou.
- Já disse que já vou… - Katya, vai se atrasar.
Mãe?
Vem cá, querida.
É hora de dormir.
Bons sonhos, querida.
Katya.
Mãe?
Cuidado, não se machuque.
Katya, não vai pra lá.
Katya, cuidado.
Acorda. É hora de acordar.
- Katya, para agora! - Mãe?
Katya, para! Katya, para!
…máscaras de oxigênio cairão sobre seus assentos.
Quando virem as máscaras, puxem-nas
e posicionem contra seus rostos.
O oxigênio sairá de...
Nossa, você me assustou.
Por favor, volte para o seu lugar e afivele o cinto.
SAÍDA DE EMERGÊNCIA
Tá, me desculpe.
Meu avô tem uma casa e um cão grande.
Um cão grande?
Sim, ele é gigante. Bate aqui em mim.
- Eu o desenhei. Posso te mostrar. - Por favor.
- Aqui está. - Olha só isso!
- É bem como descreveu. - É, ainda não terminei a casa.
- Querida, tudo bem? - Sim…
Ela estava me contando sobre os seus planos.
Falta uma cerca para o cachorro não fugir.
Tem razão.
Tudo bem?
A mamãe já teve um acidente.
De avião.
- Foi a única que sobreviveu. - Chega, Diana.
Caramba, Katya. Sinto muito.
Eu estou bem, é sério.
Senta direito.
Já estamos voando?
Não parece tão ruim.
Viu só? Eu falei.
Aposto que…
Dimitri ficará muito feliz em nos ver, Evgeni.
AFIVELAR CINTOS
Não quis ser grossa, desculpa.
Sem problema. Tudo bem.
Aliás, a culpa foi minha.
Estava fazendo muitas perguntas.
Hábito da profissão.
O que você faz?
Sou repórter.
Ex-correspondente de guerra.
Estive em todas as zonas de guerra.
Mas agora, só fico no escritório.
Não é muito interessante.
E vamos deixar as formalidades.
Feito.
Por que parou de fazer as coisas interessantes?
- Pronto. - Que lindo!
Posso mostrar pro Alexei, por favor?
Tá, mas rápido.
- Olha. - Ficou muito melhor.
Uma casa grande com uma linda cerca.
- É igual à casa do vovô? - É igualzinha.
Agora vem sentar.
Agora, vamos tentar dormir um pouco.
Mãe, não estou cansada.
Mas eu estou. Vamos tirar um cochilo.
Muito bem.
Mais duas horas e chegamos.
Está me desenhando?
Não tem nada melhor pra fazer?
Não, não está legal. Está tudo errado.
Artista hipster, estou falando com você.
O pêndulo que para...
O que está murmurando?
Arranje um trabalho real e pare de fazer rabiscos.
Mãe, esta cicatriz…
Vai curar logo?
Não, querida, cicatrizes são pra toda vida.
Calma, amor. Não tenha medo das cicatrizes.
Elas te lembram que sempre deve ter cuidado e…
ouvir os adultos.
Coma antes que esfrie.
Não gostou da comida?
O que foi, amor?
Mãe…
É você?
O quê? Claro que sou eu.
Mas você não morreu?
Katya...
Por favor, eu te peço.
Não comece com isso.
- Foi há três meses. - O quê?
O voo foi há três meses. São os seus pesadelos.
Eu estou viva.
Estou aqui com você.
Tem que parar de pensar nisso tudo.
Mas não…
Nosso avião não caiu?
Não.
Querida, foi só uma turbulência. Se mexeu um pouco, mas parou.
Quantas vezes mais vai ser assim?
Não precisa comer, se não gostou.
Mãe?
Que barulho é esse?
Que barulho?
Mãe?
Mãe, estou assustada.
Calma, filha. Está tudo bem.
É só turbulência.
Vai balançar um pouco, mas logo para.
Droga!
Senhores passageiros, permaneçam sentados com os cintos afivelados.
Estamos caindo, Evgeni?
Calma, querida. Ninguém vai cair.
Droga.
- É só uma pequena turbulência. - Meu Deus!
- Não é nada grave. - Deus, nos ajude.
Pense em algo bom e agradável.
Pense no nosso querido Dimitri.
Deve estar nos esperando no aeroporto.
Imagine que…
O que foi, Evgeni?
- Evgeni, o que foi? - Estou bem. É que…
O que houve?
- Evgeni? - Só estou um pouco tonto.
- O que está havendo? - Pode…?
- O quê? - …imaginar…
Evgeni...
O que foi?
- …que estamos… - O que houve?
Me ajuda! Alguém me ajuda!
Acorda, Evgeni!
Acorda! Alguém me ajuda!
- O que houve? - Ele desmaiou.
Ah, Evgeni… Evgeni…
É o marido da Galina.
- O que você tem? - Aonde vai?
Evgeni... Alguém me ajuda!
Por que não se mexe?
- Espere aqui. - Vou junto.
- Eu já volto. - Mãe...
- Cuidado, tudo bem? - Só estou tonta.
- O que houve? - Ele tem pulso?
Por favor, permaneçam sentados.
- Queremos ajudá-lo. - Como podemos ajudar? Ele está azul.
Deite-o de costas.
- Por que ela dá as ordens? - Façam isso.
Eu sou médica, obedeçam.
- Tragam a caixa de primeiros socorros. - Eu trago.
Só tenham cuidado, por favor.
Cuidado com a cabeça. Devagar.
Evgeni…
Ele parece morto, não?
Consegue fazer RCP?
Bem, contaremos até 30.
- Um, dois, três… - O que é isso?
- Quatro, cinco… - Vão machucá-lo!
Calma, eles sabem o que fazem.
…10, 11, 12, 13, 14…
…26, 27, 28, 29…
Pronto!
Evgeni...
Que droga foi essa?
O que ele tem? O que está acontecendo?
Acho que estou sentindo o pulso. Está fraco.
Katya, tudo bem?
O que está acontecendo?
Evgeni! O que é?
- Segurem ele! - Esperem, esperem.
Segurem ele!
- O que foi? - Por favor, calma.
Katya.
Katya, o que fazemos?
Katya?
Katya?
Está me ouvindo?
O que aconteceu?
O quê?
O quê?
Ele está morto.
- Não. - Que droga.
Não!
- Diana! - Fique aqui, eu vou. Sente-se.
- Mamãe! - Diana!
Mamãe!
Boa menina. Ela está bem!
Diana, segure firme! Respire fundo!
- Minha filhinha. - Mãe!
Calma, calma.
- Calma. - Não me deixe mais sozinha.
Não, eu juro. Sinto muito.
Ótimo.
Certo, cuidado.
- Ela está bem? - Parece que sim.
Cuidado, devagar.
Por favor, voltem todos aos seus lugares.
Voltar a que lugares? Que merda você está falando?
O homem morreu! Todos aqui quase morremos!
De qualquer forma, precisamos seguir as normas.
Faço o que posso para que ninguém mais saia ferido.
- Mas e ele? - Evgeni…
Evgeni… O que você fez, Evgeni?
Não podemos deixá-lo no chão.
Concordo, é claramente uma emergência.
Desenhe um pouco.
Desenhe algo pra mim.
Algo alegre, está bem?
Ao terminarmos, voltem aos seus lugares e fiquem sentados.
Algo muito, muito alegre…
- Fique com a Diana. - É tudo culpa minha.
Do que está falando?
Ela estava sentada atrás de mim.
- Quem? - Uma idosa.
Repetia uma oração ou um feitiço várias vezes
e estava me olhando o tempo todo.
Quando ele me agarrou, eu a vi de novo.
Não estou entendendo.
A última vez que vi essa mulher…
o nosso avião caiu e todos morreram.
Menos eu.
Acho que quer terminar o que começou.
Não acredita?
Se ela estava no avião,
significa que também morreu, não?
Você mesmo viu,
ele me agarrou e sussurrou palavras estranhas.
Ele só estava ofegando.
Olha, tudo o que aconteceu aqui tem uma explicação racional.
Houve uma turbulência e o coração dele parou.
Não tem nenhuma senhora idosa aqui.
Quer dizer que é só minha imaginação?
Os remédios que tomou…
Podem provocar sérias alucinações.
Acredite, eu sei.
Não foram alucinações.
Por favor, cuidado.
Obrigada.
- Licença. - Obrigada.
Vem comigo, querida.
Katya, ouça…
Vou ficar do lado dele.
- É claro. - Katya, por favor, escuta.
Obrigada.
- Vou ficar aqui. - Adoraria um cigarro.
Fique aqui.
Não saia daqui, está bem?
Aí está você, meu amor.
Assim está muito melhor.
Querido.
Galina?
Eu sinto muito.
Não foi culpa sua.
Você tentou ajudá-lo.
Ele era uma boa pessoa, sabe?
Ficava irritado às vezes, mas me amava.
Meu querido Evgeni.
Quer vir sentar com a gente? Minha filha ia adorar a companhia.
Não, não precisa. Estamos bem aqui.
Se mudar de ideia, estamos aqui perto, está bem?
Obrigada.
Obrigada, querida.
Vamos.
Desenhei uma coisa alegre, como você pediu.
- E onde estamos? - Bem aqui.
Mas não são nossos lugares.
Gosto de pensar que são.
Vamos voltar aos nossos lugares.
Já informaram o piloto do ocorrido?
Voltem aos seus lugares.
Sente-se, querida.
Como você está?
Ainda não consigo aceitar o que aconteceu.
Vi que suas mãos estavam tremendo.
É de um ferimento?
Por isso tomava os remédios?
Há cinco anos, estávamos gravando uma matéria
e explodiram o túnel abaixo de nós.
Ficamos todos presos sob os escombros.
Quando acordei, estava sob uma pilha de pedras.
Os outros tinham morrido.
Isso é terrível.
Eu juro que ouvi a voz da minha mãe.
Na traseira do avião, antes de decolar.
Ela morreu no mesmo acidente.
Parece que tentava me alertar sobre alguma coisa.
Sobre o quê?
Que algo ruim vai acontecer.
Um recipiente vazio.
O que mais? Falta alguma coisa.
Um homem morreu, e isso é o que te inspira?
Pra que se incomodar em responder?
Você é artista e intelectual, e eu sou só…
um idiota.
Trabalhei a semana toda.
Como um cachorro, sem descanso.
Só quero ir pra casa.
Ficar com a minha família.
Olha só.
Este é o Sasha, meu caçula.
É um preguiçoso, como eu.
E essa é a Julia, está terminando o Ensino Médio.
Por que não olha?
Eu sou uma pessoa normal. Não sou um idiota, entende?
Está olhando o quê? Fala logo alguma coisa.
Cinzas que caem.
Aberração.
Quando eu tinha sete anos, caí e quebrei a perna.
Tive uma fratura exposta e fiquei com uma cicatriz pra vida toda.
Mas sumiu.
E quando percebeu isso?
Tenho certeza que estava aqui de manhã.
Não entendo. Como isso é possível?
Não sei.
Olha…
É melhor nos acalmarmos.
Vamos pousar logo e vai ficar tudo bem.
Você é jovem. Tem uma filha encantadora.
Katya?
O piloto não deveria falar conosco nestas situações?
Não acho que seja importante.
Deve ter problemas maiores com esse clima terrível.
Você está bem?
Sim, só me deu uma enxaqueca estranha.
Sinto que minha cabeça está explodindo.
A sua mão…
Estou caindo aos pedaços.
Até eu estou cansado de aviões.
Está falando com quem?
Com uma senhora.
Ela disse que você vai me deixar de novo.
Não vou a lugar algum.
Senhores passageiros, devido à forte tempestade de neve
e ao incidente ocorrido a bordo, fomos obrigados a mudar a rota.
- Pousaremos em Novosibirsk. - Droga.
É o aeroporto mais próximo
para realizarmos um pouso de emergência.
Obrigada pela paciência.
É esse.
Como é?
Íamos para esse aeroporto.
Mas que droga! Não paguei para pousar em Novosibirsk, ouviu?
Por que mudamos a rota?
Anunciamos o motivo.
Por um morto? Qual é! Ele não liga pra onde pousamos.
Entendo, mas não foi minha decisão mudar o percurso.
Deve querer beber alguma coisa.
Vai pro inferno.
Ponha o cinto, por favor.
Tem algo errado com essa mulher.
Estamos todos nervosos.
Não, é outra coisa.
O que você tem, meu bem? O que foi?
Mãe, não me deixe mais sozinha.
Por favor, pare de dizer isso, amor.
Não sou eu. É ela que fica dizendo isso.
Estou cheio disso tudo.
Maldito avião.
Ela falou que você me deixaria quando um homem pegasse fogo.
Fogo? O quê?
Babacas.
Não pode fumar aqui.
Vai pro inferno, Picasso.
Meu Deus. Apague isso!
- Apague o cigarro! - Nem morto.
Merda!
Socorro!
Alguém traz um cobertor!
O que diabos quer de mim?
Mãe.
Achei um. Estou indo.
Ainda está…?
Acho que sim.
Deus.
Precisamos descobri-lo.
O que vamos fazer?
Eu…
Katya, ele está sofrendo.
Podemos tentar colocar panos molhados nele.
Talvez aliviem a dor.
Estão atrás de mim, não me deixam em paz.
Katya, espera.
Sente, vamos. Deve se sentar.
Vou ver a Diana.
Mãe?
Mãe?
Aonde você vai?
Mãe!
Mãe.
Mãe.
Estava dormindo, mãe?
Acho que sim.
Vamos, a banheira está cheia.
Temos que nos preparar.
Preparar? Pra ir aonde?
Não lembra?
Vamos voar amanhã.
Venha cá.
Escuta…
Estive pensando…
E se cancelarmos?
Podemos ficar. Aqui é legal, não?
E o vovô e o cachorro grande?
Eles podem esperar.
Eu gosto daqui.
Eu também.
Mãe, está chorando?
Só estou feliz por ter você.
- Vai pra banheira. - Tá.
Mãe!
Mãe!
Mãe.
Diana?
Mãe.
Cadê você?
Diana?
Diana…
Você prometeu que não me deixaria.
Mas foi embora.
- Eu não te deixei, Diana. - Você me abandonou.
- Não! - Me abandonou.
- Abra a porta! - Me abandonou.
Katya, por que está no chão?
Não diga isso, Evgeni.
Com certeza que ela nunca abandonaria uma menina tão bonita.
Eu não a abandonei.
- Meu bebê! - Mãe!
Minha filhinha.
- Tudo bem, mãe? - Tudo, querida.
Eu estou aqui.
Você passou do meu lado…
Eu só…
Ficou parada, me olhando…
Como assim?
Você ficou parada, me olhando. E parecia muito triste.
Eu pensei… Pensei que estivesse em outro lugar.
Depois você se virou e ficou parada assim, sem se mexer.
Aí você caiu
e eu corri para te ajudar.
Eu sinto muito, amor.
Por favor, me perdoe.
Saiba que, haja o que houver, eu te amo muito.
Muito mesmo.
Entendeu?
Minha linda.
Também te amo, mãe.
Preciso te dizer uma coisa.
Katya? Venha.
Precisamos de você.
Vamos, querida.
Sente aqui, eu já volto.
- Aonde vai? - Está tudo bem, amor.
O que está acontecendo com ele?
Vias respiratórias bloqueadas.
O que devemos fazer?
Está com muita dor.
Não posso ficar parada sem fazer nada.
Traremos mais água.
Pode ajudá-lo?
Sim, pode segurar a cabeça dele aqui?
Ele vai respirar melhor.
Calma, tudo bem.
O que houve lá atrás?
Tive mais visões.
Parecem cada vez mais reais.
Já estou confundindo a realidade com elas.
O que está desenhando? Como pode desenhar agora?
Isso me acalma.
- Katya, está tudo bem. - Bem?
Olha em volta. Tudo está mesmo bem?
Aquele que ascendeu, que entrou na água.
Para com isso.
- Todos precisam acordar. - Para de dizer bobagens.
- Preciso saber. - Mandei parar!
Katya.
O que está desenhando? Um homem morrendo e ele fica desenhando?
- Katya… - Qual seu problema?
Katya, sua filha está olhando.
Seja forte por ela.
Ouça, você tem lutado contra seus medos por tanto tempo.
Não quer que Diana passe pela mesma coisa.
Não, não quero.
E agora?
O que está tentando dizer?
Casa.
Calma, não se mexa.
Ele quer pegar o celular.
Estou vendo eles.
Estou vendo todos eles.
Estão todos aqui.
Desculpe.
Não queria ter gritado com você.
Nem sei o seu nome.
Pavel.
Eu não queria machucar ninguém.
Acontece que meu trabalho me consome e eu só…
me perco nele.
Na hora da morte, as pessoas pensam…
Nas coisas mais importantes.
Por que faz isso?
Com seu colar.
Minha mãe me deu. Acredito que me dê sorte.
Devia apertá-lo mais forte.
- Galina, abra a porta. - Senhora, volte ao seu lugar.
- Galina, abra a porta. - Ouça minha colega.
Ela entrou há muito tempo.
Galina, abra a porta!
Pare agora.
- Ela está mal, está perturbada. - E a senhora?
Está estável?
Galina?
Acredite, foi uma noite muito dura para todos nós.
Galina, abra a porta!
Ela não está bem, e vocês sabem disso.
- Por favor, abra a porta. - Não.
- Abra a maldita porta! - Não!
Não pode ser.
Ela entrou.
Ela estava aqui.
- Deve ter se enganado. - Não.
Vocês a viram entrar, não?
Vocês sabem que ela estava aí.
Isso é ridículo.
E por onde acha que ela desapareceu?
- Façam algo… - Chega!
Isso é ridículo.
Tentei não dar atenção devido à situação, mas está assustando os outros passageiros.
Que outros passageiros?
Nós revisaremos a cabine.
A senhora vai se acalmar e voltar ao seu lugar.
Entendeu?
Senhores passageiros, vamos pousar em Novosibirsk.
Senhores passageiros, vamos pousar em…
O pouso…
Katya.
É você quem está fazendo isso? Está tentando me manter aqui?
Mas preciso continuar.
O que é preciso quebrar para usá-lo?
- Devemos ir, amor. Vamos. - O que foi, Katya?
- Ir aonde? - Pra frente.
- Por quê? - Confie em mim, querida.
- Não podemos. Não. - Katya…
Lá está a saída.
- Está assustando ela. - Diana, por favor.
- Está me machucando! - Vamos!
Para, Katya. São suas fantasias.
Meu Deus.
O que está acontecendo?
Ela está fazendo isso. Vamos, rápido.
- Não precisamos ir lá, mãe. - Faça o que estou dizendo.
Por que nunca me ouve?
Ele precisa de um médico.
Ele precisa sair daqui. Todos nós precisamos.
O que tem lá? É a saída, não é?
A senhora ficou maluca. De que saída está falando?
Por favor, só diga o que tem lá.
- Mãe! O que está acontecendo? - Não olhe!
Diana, não olhe!
Meu Deus!
Mãe!
Vocês sabem o que está acontecendo. Fazem parte disso.
Uma porta não aberta, uma verdade não dita…
- O que está desenhando? O que é? - A inocente será a última a ver…
Ainda não terminei! Devolva, é meu!
O que é isso?
Me desenhou?
Você desenhou o que vi? Como isso é possível?
Como pode...?
A saída…
A saída.
A saída é ali, certo?
Mãe!
Katya, não há nada atrás daquela porta.
É verdade, Katya.
Fiquem longe de nós. Diana, corre!
Abra a porta! Abra a porta, por favor.
Está tudo bem, querida. Não chore.
- Não lhe faremos mal. - Por favor, deixem-nos entrar!
- Abra! - Katya.
- Estamos tentando te proteger. - Do quê?
Do seu…
Não olhe. Está tudo bem.
- Não olhe. - O que o Alexei tem?
Me perdoe, Katya.
Isso não pode ser real. Nada disso é real.
Por favor, não chore, meu bem. Vamos ficar bem, tá?
Vai ficar tudo bem.
Para trás.
Não pode ser.
Venha, Diana. Temos que ir.
- Mãe… - Vamos, Diana.
Temos que sair daqui.
Este mundo não é real.
Nada disso existe.
- Diana, cadê você? - Mãe, aqui.
Não, fique longe dela!
Agora você entende.
Na verdade, está sentada do meu lado no avião que está prestes a cair.
A criança não deve ver o quão terrível é a morte.
Então fiz você dormir,
para que pudesse experimentar um pouco da vida que não poderá ter.
Mas é uma menina especial.
Está constantemente tentando acordar.
O seu último desejo é poder se salvar do meu feitiço.
Não posso mais manter sua fantasia.
Agora você vai acordar, e o seu destino estará em suas mãos.
Adeus.
Vá verificar.
Ele não se sente bem, moça.
Tem algum remédio no avião?
Não preciso de remédio.
- Evgeni, precisamos fazer algo. - Galina, não preciso de remédio. Calma.
Aqui está seu chá.
Muito obrigada.
- Não preciso de remédio. - Precisa, sim.
Preciso de algo para dilatar os vasos sanguíneos dele.
- Me dê um copo de conhaque. - Traga água, pelo menos…
- Evgeni, por que faz isso? - Não viajo mais com você.
- Evgeni… - Por que fazer tanto…?
Evgeni?
Evgeni, Evgeni!
O que você tem, Evgeni? Evgeni!
Alguém me ajuda!
Ele não está bem. Ajudem! Evgeni.
- O que houve? - Não sei, ele não está se mexendo.
Por favor, nos ajude.
Certo.
- Mãe, tenho que ir. - Não.
Não! Por favor, não vá, querida!
Algum dia nos encontraremos de novo.
Mas, como? Me diga o que tenho que fazer.
Você só precisa ouvir.
Ouvir…
- Mãe, achei os lugares. - Não são nossos lugares.
Mãe, não precisamos ir lá. Por que nunca me ouve?
- E onde estamos? - Bem aqui.
Fileira 19.
Já sabe o que fazer.
Mãe! Mãe!
Mãe!
Mãe! Mãe!
Mãe!
- Mãe! - Katya!
- Mãe! - Tudo bem! Te peguei.
Ali!
Mãe!
Mãe, mãe!
Mãe!
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