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Legendas: Jo�o Ahrens Teixeira
� melhor cavares mais depressa.
N�o vamos conseguir.
Vamos, pois. Tem de ser.
V�, descansa um pouco.
� a minha vez.
Vamos, pois. Tem de ser.
O meu irm�o Henry era assim.
Acreditava piamente que as coisas eram como ele queria.
O tempo seco viria a tempo de se plantar o algod�o.
Abrir�amos a cova antes de a tempestade chegar.
Raios.
- O que �? - Credo! � a cama de um escravo.
Como sabes?
Levou um tiro na cabe�a. Devia ser um fugitivo.
- Pronto, est� decidido. - O qu�?
N�o vou enterrar o meu pai numa campa de escravo.
N�o h� nada que abominasse mais.
Ajuda-me a subir.
N�o temos escolha.
J� est�, mano. Anda.
J� est�. Vamos l� tirar-te da�.
Vamos l�.
Raios partam. N�o consigo.
- For�a, Jamie. Aguenta firme. - N�o d�.
Vou buscar uma escada.
Henry!
Henry!
Henry!
Henry!
O meu irm�o Henry era assim.
Acreditava piamente que as coisas eram como ele queria.
- E que o irm�o mais novo... - Jamie.
jamais o trairia.
Anda l�. Chega aqui. Que bicho te mordeu?
Pensei que ias deixar-me l� em baixo.
Ora, porque faria uma coisa dessas? Porque faria uma coisa dessas?
AS LAMAS DO MISSISS�PI
Quando penso na quinta, penso em lama...
a cobrir joelhos e cabelos...
a marchar em pegadas de bota pelo soalho.
Sonhava em castanho.
- V�, levanta-o. - Vamos l�.
- Levanta-o l�, vamos. - Espera, deixa-me...
Espera. Levanta-o, Jamie.
- Um pouco mais de for�a. - P�ra, vamos pous�-lo.
Pomos as cordas ao comprido e fica cada um numa ponta.
O caix�o � muito estreito. Se volta a cair, parte.
- Podemos tentar. - N�o!
- Hap! - Henry...
- Hap! - N�o.
N�o tenho culpa do que aconteceu.
- Avisei o rapaz. Avisei-os aos dois. - Deixa-os.
Hap! Hap, espera um pouco!
Podes dar-nos uma ajuda, Hap? Temos de enterrar o caix�o.
Hap.
Era uma virgem de 31 anos quando conheci o Henry McAllan,
na primavera de 1939.
Vivia com os meus pais na casa onde tinha crescido.
O meu mundo era pequeno
e ele viera salvar-me de uma vida � margem.
Ai sim? Ele disse-me que o senhor tem um curso universit�rio.
Engenharia.
- Tirou engenharia na Ole Miss? - Sim.
Ouviste, Malde? Formado na Universidade do Mississ�pi.
Homessa!
A Laura tamb�m � formada.
Tirou o curso de professora na West Tennessee State.
Temos muito orgulho dela.
A minha querida irm� � a mais inteligente da fam�lia.
Tirou sempre melhores notas do que eu. N�o me deixa esquec�-lo.
Ela � inteligente.
Laura, devias tocar piano para n�s depois do jantar.
Devia ouvi-la cantar. Tem a voz de um anjo.
- Devias tocar para o Sr. McAllan. - M�e...
- "Ave Maria", a minha preferida. - M�e.
- Vai adorar, � lind�ssima. - M�e.
O que foi?
Duvido que o Teddy tenha trazido o chefe c� a casa para ouvir c�nticos.
Porque n�o lhe perguntamos?
Sr. McAllan, gostaria de ouvir m�sica depois do jantar?
Eu gosto de c�nticos.
Ele gosta de c�nticos.
N�o estava habituada � admira��o masculina.
Sabia apenas que queria mais.
Sempre era um descanso da piedade sincera
e da bondade hip�crita reservadas �s solteironas.
Certo.
Ele n�o tinha a minha necessidade de encher o sil�ncio com palavras.
Tinha a autoconfian�a que me faltava.
N�o posso dizer que estivesse verdadeiramente apaixonada.
Mas estava-lhe t�o grata que tudo o resto era irris�rio.
O meu irm�o Jamie vem de Oxford no pr�ximo fim de semana.
Gostava que ele a conhecesse.
Est� a entrar na linha n�mero cinco
o comboio de Oxford com destino ao Mississ�pi.
Ali est� ele.
Mano!
Mano!
- Est�s com bom ar, mano. - Igualmente.
Pelos vistos, os ares de Memphis fazem-te bem.
Ou ser� outra coisa?
Menina Chappell, este � o meu irm�o Jamie.
- Muito prazer. - O prazer � todo meu.
Julga-se uma personagem das pe�as dele.
Sim, mas que pe�a, querido irm�o? Hamlet? Fausto? Henrique V?
Um dos sujeitos que um dia te dar�o um sal�rio decente.
O que acha, Menina Chappell?
- Diria que � mais um Puck. - Quem � o Puck?
- "Que tolos s�o estes mortais..." - O Puck � um g�nero de trasgo.
� um duende. Perdoa-me, mano, estou s� a tentar impression�-la.
Ver�s que a Menina Laura n�o � impression�vel.
- Vamos? - Vamos, sim.
Tomei a liberdade de dizer ao Pappy que vinhas.
Quero ouvir, quero ouvir.
Quando dei conta, fui puxado, com um golpe na cabe�a e a sangrar.
Estava condenado. Outra v�tima da grande cheia de 1927.
- Nem acredito que n�o me contou isto! - Mas h� mais.
O que aconteceu?
Vi uma luz bruxuleante, como uma estrela cadente.
- Bruxuleante... - Vi uma grande m�o a sair dela
e pensei que era Deus que vinha buscar-me.
Mas n�o era, era o meu querido mano mais velho, o Henry.
- Salvou-lhe a vida, � um her�i. - � bem verdade.
O queria que fizesse? Que o deixasse afogar-se?
Um brinde ao futuro, reserve ele o que nos reservar.
Que sejas aben�oado com felicidade, sa�de, prosperidade
e, se ela te quiser, uma casa cheia de filhos.
T�m ambos o meu amor.
Bolhinhas.
Importas-te muito que dance com a tua namorada?
Menina Chappell, quer dar um pezinho de dan�a?
Com todo o gosto.
O Jamie tinha uma forma diferente de ver as coisas
e, quando olhava para mim, deixava de me sentir invis�vel.
Muito obrigado.
- Obrigado. - Ora essa.
Est� especialmente bonita esta noite.
Obrigada.
O Jamie tem esse efeito nas jovens.
F�-las cintilar.
Nota-se que gosta de si.
Duvido que antipatize seja com quem for.
N�o antipatiza com ningu�m de saias, isso � certo.
O pedido de casamento do Henry n�o correu como eu imaginara.
N�o se ajoelhou e a pergunta saiu-lhe mais como uma afirma��o.
O Henry n�o era rom�ntico.
Era de estirpe mais robusta.
S� mais um bocadinho.
- Gostas? - Sim.
Adorava a vida dom�stica.
Tinha vindo a este mundo para ser submissa ao Henry e esperar por ele.
Quando a Amanda Leigh nasceu, dediquei-me completamente a ela.
Foi ent�o que chegou o dia que mudou tudo.
Para sempre.
Sete de Dezembro de 1941,
uma data que viver� na inf�mia.
Os Estados Unidos da Am�rica
foram atacados repentina e deliberadamente
por for�as navais e a�reas do Imp�rio do Jap�o.
Os Estados Unidos encontravam-se em paz com essa na��o
e, a pedido do Jap�o, continuavam em negocia��es.
O pai pediu a carrinha ao Sr. Robert Young para me levar.
� a minha mem�ria mais v�vida.
As primeiras e as �ltimas coisas...
s�o as que ficam na mem�ria.
Obrigado.
Um abra�o.
Vamos rezar por ti.
Muito bem.
N�o te esque�as de n�s.
N�o esquecerei.
N�o esquecerei, ouviste?
Tem cuidado.
Terei.
D�em o litro c� por casa, ouviram? Ajudem a vossa m�e.
Fica descansado.
E afastem os maganos da Lilly May, n�o a deixem ser fresca.
- Tu volta para casa. - Eu volto.
Volta para casa inteiro.
- Ouviste? - Sim.
- Adoro-a, m�e. - E eu a ti, amor.
- Deus te aben�oe. - Adeus, Ronsel.
Obrigado.
N�o posso olhar para tr�s.
N�o olhei para tr�s.
Dizem que d� azar ver uma pessoa partir.
Tive o bater do cora��o dele nas m�os.
Recordo-me de cada pulsar.
Estava quente e vivo.
Conhe�o cada recanto dele.
Usei todas as minhas for�as para n�o olhar para tr�s.
Eu n�o tenho prefer�ncias.
Amo-os a todos na mesma medida, como qualquer m�e.
Ao longo daqueles quatro anos,
durante todo o tempo em que esteve ausente...
s� rezei por ele.
Deus h�-de perdoar-me.
Vamos l�.
For�a na enxada.
Vamos l�.
Vamos l�, Ruel. Ao trabalho, vamos l�.
Continua. O jantar estar� pronto quando formos para dentro.
De que vale uma escritura?
Os meus av�s e tios-av�s, as minhas av�s e tias-av�s,
o meu pai e a minha m�e...
Romperam a terra, araram, cavaram, plantaram,
colheram, criaram, queimaram e voltaram a romper a terra.
Trabalharam esta terra a vida toda.
Esta terra que jamais lhes pertenceria.
Trabalharam at� lhes correr o suor.
Suaram at� correr sangue e sangraram at� morrer.
Morreram com a sujidade da mesma terra nas unhas.
Morreram de dedos cravados na terra dura e castanha
que jamais lhes pertenceria.
Todos os seus feitos desfeitos.
E, no entanto, esta terra, este lugar, esta lei...
ditam que precisamos de uma escritura, n�o de feitos.
O Calvin Augustus arranjou terra aqui.
E o Bart Leo comprou terra aqui.
Acho que h� quase um hectare livre aqui.
Oxal� as veda��es se erguessem com carv�o.
S�o derrubadas assim a toda a hora.
J� n�o tarda muito, pois n�o, pai?
Por esta altura do ano que vem, terei 20 hectares de algod�o,
20 hectares de aveia, 20 hectares de arrozal...
- Esta terra n�o d� arroz, palerma. - N�o chames palerma ao teu irm�o.
Vou plantar arroz � mesma.
� por isso que n�o vou ser agricultora, vou ser esten�grafa.
- Vai ser o qu�? - � um g�nero de dactil�grafa.
- N�o aceitam c� dactil�grafas de cor. - A tua irm� ser� a primeira.
J� agora, querida, comprei uma quinta no Mississ�pi.
Mudamo-nos para l� daqui a tr�s semanas.
Fica 65 km a sul de Greenville.
Tem um grande alpendre,
uma grande �rvore...
As pequenas v�o adorar, tem quatro quartos.
Mas n�s adoramos esta casa.
Assim fica cada uma no seu quarto e o Pappy tem o espa�o dele.
O Pappy?
Agora que a m�ezinha morreu, temos de cuidar dele.
Temos 80 hectares de terra f�rtil. Pensa s� nisso.
- Ficaste muito calada. - Fiquei muito surpreendida.
- Sabias que queria ter uma quinta. - N�o.
- Eu disse-te. - Henry, n�o fazia ideia disso.
- Mas... - Lembrar-me-ia duma coisa dessas.
Bom, estou a dizer-te agora.
Vais adorar.
A s�rio que vais. Vais ver.
Querida!
Doce momento de ora��o
Que me afasta Deste mundo de cuidados
Doce momento de ora��o
Doce momento de ora��o
Que me afasta Deste mundo de cuidados
Doce momento de ora��o Doce momento de ora��o
Ent�o?
Ent�o?
Sim? Quem fica em que quarto? Vamos, ala! Vamos l�, meninas!
Espera a�, menina! Queres ficar com o melhor quarto?
� isso?
Ficas no quarto do fundo.
A chave deve estar debaixo do capacho.
- Vamos, tira-a. - Mas quem s�o voc�s?
Somos os McAllan, os inquilinos desta casa.
E quem � o senhor?
Orris Stokes. Sou o propriet�rio desta casa.
Aluguei a casa ao George Suddeth h� tr�s semanas.
Ele vendeu-ma na semana passada e n�o me falou de inquilinos nenhuns.
Bem, parece que vou ter de lhe avivar a mem�ria.
- Partiu h� dois dias. - Paguei $100 de cau��o.
- Tens isso por escrito? - N�o, foi um acordo verbal.
Dei-lhe 100 d�lares em dinheiro vivo, a� nessa sala.
Jantei com ele e com a esposa.
- Palavra. Mostrei... - � melhor ir andando.
Mostrei-lhe fotografias das minhas meninas.
Foste levado, rapaz. �s um palerma.
�s um palerma.
Nunca pensei que um filho meu pudesse ser t�o est�pido.
Podemos ficar na quinta. H� l� uma casa.
Vamos ficar na quinta. A gente arranja-se. Vamos.
Vamos viver com os pretos e os trabalhadores?
N�o h� nenhuma casa na vila que d� para n�s todos. Acredite, eu procurei.
Vamos l�, docinho.
Querida, � aqui! Vamos entrar na nossa terra!
Um dos meus tios-av�s, o tio William,
comprou um peda�o de terra durante a Reconstru��o.
Tinha uma escritura.
Um dia, apareceram quatro brancos a cavalo,
apontaram-lhe as pistolas e disseram que a terra era deles.
A escritura do meu tio foi rasgada em pedacinhos lan�ados ao vento.
Por isso pergunto. O que vale uma escritura?
Aquela mula fazia de mim um rendeiro, n�o um meeiro.
E tinha-me posto a sonhar com uma terra s� minha.
Talvez tenha sido essa a origem do problema.
Fazes as refei��es c� em casa e d�s-nos o sal�rio de esten�grafa.
N�o, porque estarei na Calif�rnia ou em Chicago, onde h� bom emprego.
- Nessa altura, j� a guerra acabou. - N�o acabou nada.
- Mas o Ronsel pode voltar mais cedo. - N�o quero que volte mais cedo.
- Isso significaria... - N�o vai voltar antes de tempo.
Acabem de comer e lavem a loi�a antes de irem para a cama, sim?
Ora viva.
- Boa tarde, senhor. - McAllan, Henry McAllan.
- �s o Hap Jackson. - Sim, senhor.
Acabo de chegar com a minha fam�lia.
Precisamos de ajuda para descarregar as coisas.
- Est� s�zinho? - Sim.
Pensei que s� vinha para a semana.
Tenho de descarregar as coisas. Quero isto despachado ainda de dia.
- Est� bem? - Sim, senhor.
Boa tarde.
Ent�o, diz-lhe que v� a p�.
� muito longe e n�o h� tempo. J� est� a ficar tarde.
N�o me aperto por um preto.
N�o pode ir com a Laura e as pequenas e n�o h� espa�o na caixa.
Pappy, por favor.
O Sr. McAllan era de Memphis
e acho que n�o percebia ponta de corno desta vida.
Disse-me que tencionava arranjar um daqueles tractores infernais.
Onde j� se viu?
Trabalhar a terra com uma m�quina em vez das m�os que Deus lhe deu.
- Est� bem, Sra. McAllan? - Estou sim, obrigada.
Manda-o arranjar as persianas ou morremos de frio.
Temos de descarregar antes que comece a chover.
Podes deixar aqui.
Deixe-se estar, Pappy, n�s damos conta do recado.
As pequenas est�o exaustas, preciso dos cobertores.
Est� bem. Tenho uns cobertores para aqui.
Vamos l�, meninas.
- Pode p�-los ali ao canto? - Sim, senhora.
"Hist�ria de Duas Cidades".
- "O Monte dos..." - Sabe ler?
O meu filho Ronsel ensinou-me. Est� a combater com o General Patton.
Abre valas e descasca batatas, queres tu dizer.
- N�o, senhor. � chefe de carro. - Nem pensar que o ex�rcito poria
um tanque de milhares de d�lares nas m�os de um preto.
J� o meu Jamie � um guerreiro. Pilota bombardeiros.
O meu filho � sargento do 761� Batalh�o.
Chama-lhes os Panteras Negras.
O que foi?
Sabes o que se chama a um preto listrado?
Um guaxinim escarumba.
Querida, onde queres p�r o piano?
- Deixa-me deitar as pequenas primeiro. - N�o h� espa�o. Onde durmo?
- Teremos de p�-lo no telheiro. - N�o durmo l� fora, nem ch�o tem.
- Henry, por favor. - N�o h� espa�o.
Livra-te do piano e j� cabe aqui uma cama.
- Pomos uma cortina a tap�-la. - Pod�amos fazer isso.
- N�o quero um quarto na sala. - O piano...
- Est� a correr comigo. - N�o estamos nada, Pappy.
- Podemos falar a s�s? - Querida... N�o corremos consigo.
Quando disseste que v�nhamos para este fim de mundo, mal abri a boca.
Quando disseste que ele viveria connosco, aceitei.
Quando o Orris Stokes disse que tinhas sido endrominado, calei-me.
Mas digo-te j� que n�o nos desfazemos do piano.
� a �nica coisa civilizada neste lugar.
O teu pai pode dormir no telheiro ou na cama contigo,
porque eu n�o fico aqui sem o meu piano.
- Isso � o cansa�o a falar. - N�o, n�o �.
Raios me partam!
O meu trisav� e os escravos dele constru�ram a quinta onde cresci.
Um dia, o meu av� mandou-me buscar uma m�o cheia de terra do quintal.
Perguntou-me o que tinha na m�o e eu disse: "Solo."
"Isso mesmo. Agora, d�-mo c�."
Assim fiz. E ele perguntou: "O que � isto que tenho na m�o?"
"Solo", digo eu.
"N�o, rapaz, isto � terra. E sabes porqu�?
"Porque me pertence.
Porque � minha e, um dia, ser� tua. "
Por�m, aquela terra nunca chegou a ser minha.
N�o, o Pappy vendeu-a depois da cheia.
Disse �s pessoas que o rio o tinha deixado na mis�ria,
mas era mentira.
Virou as costas � terra de bom grado.
O ex�rcito fez do Jamie um piloto de bombardeiros,
mas a culpa de ele andar l� em cima � minha.
Fi-lo prometer que, a ter de combater, seria no ar.
Dizem que as batalhas s�o mais limpas l� em cima.
Parece estar tudo desimpedido.
O Adam est� � nossa esquerda?
Est�, pois.
Muito bem.
Perdi o anivers�rio da minha filha. N�o ficou l� muito contente.
Regressar�s em breve. Prometo que voltas a salvo, Reg.
Muito bem, vou cobrar a promessa.
Tu tens a tua pin-up e eu tenho a minha.
Mas a minha � de uma revista.
Querida fam�lia,
escrevo-vos de uma aldeia na B�lgica chamada Tillet.
A B�lgica � um pa�s a norte de Fran�a e � lind�ssima.
O pai ia gostar disto.
- H� muitas quintas. - O que � isto?
- "Prontos para a luta." - Sim, � uma lan�a.
Mas, quando receberem esta carta, j� deverei ter partido h� muito.
Parece que estamos sempre em andamento.
- Todos �s armas! - Venham comigo!
- Vamos embora! - Toca a andar! Toca a andar!
Vamos embora!
Tiveste de abater o cavalo? Quem abate o cavalo, Carl?
- Algu�m... - Nem lhe davas de comer a horas.
- O meu cavalo � propriedade minha! - J� ouvi que chegue, basta!
Se n�o fazes o teu trabalho, n�o te posso manter.
- N�o, Henry. - Sabes disso.
Henry, eu tenho... Por favor, tenho a Vera e as pequenas.
- E vem outro a caminho! - E eu tenho mulher e filhas, Carl!
- N�o tenho para onde ir! - Tenho mulher e filhas, ouviste?
Isto � uma quinta, n�o � a Santa Casa.
- Tens at� ao fim da semana! - Por favor!
Tens at� ao fim da semana e quero-te fora daqui!
A viol�ncia � parte integrante da vida no campo.
Somos constantemente confrontados com coisas mortas.
Ratos mortos, coelhos mortos, opossuns mortos.
Damos com eles no quintal.
Cheiramo-los a apodrecer debaixo da casa.
Depois, h� as criaturas que matamos para comer.
Frangos, porcos, veados, r�s, esquilos...
Depenar, esfolar, estripar, desossar, fritar...
comer e voltar ao princ�pio. Matar.
Aprendi a suturar feridas em sangue, a carregar e disparar uma ca�adeira.
A enfiar a m�o no �tero duma porca para ajudar um leit�o virado a nascer.
As minhas m�os faziam estas coisas, mas sempre me pesaram na alma.
Ora viva, Sra. McAllan.
- Ol�, senhora... - Vera. Pode tratar-me por Vera.
- Ol�, Vera. - Esta � uma das minhas filhas, Alma.
Precisamos de falar consigo.
- N�o podem correr connosco. - Perd�o?
N�o temos para onde ir, se nos mandarem embora.
Ningu�m nos contrata t�o tarde na �poca.
A decis�o n�o � minha, Vera, � do meu marido.
Estou a pedir-lhe que nos deixe ficar.
E eu estou a dizer-lhe que a decis�o n�o � minha.
E se fosse?
Alma.
Querida fam�lia,
as pessoas daqui tratam-nos muito bem.
N�o s�o como os brancos da�.
Tenho saudades da minha terra
e eles fazem tudo para nos fazer sentir em casa.
Sinto-me muito grato por isso.
Ronsel.
Henry!
Henry!
- O que foi? - A tua mulher est� a chamar-te.
A Isabelle est� doente e a outra tamb�m apanhou a maleita.
J� vou!
� tosse convulsa. Traz o m�dico e diz ao teu pai para ferver �gua.
Vai, Henry! Vai!
"Quem me dera que tivessem estado todos l� para ver.
"O vestido dela era t�o 'cintilante'... Cintilante.
"At� os soldados brancos ficaram embasbacados a olhar para ela.
"Digam � Lilly May
"que nem a grande Lena Horne
"tem metade dos rapazes que ela tem.
"Certifiquem-se de que o Ruel
"continua a praticar os lan�amentos dele.
"Digam ao Marlon
"que tentei guardar-lhe um pouco de neve, mas derreteu.
"Por isso, vou levar-lhe um copo de �gua no lugar da neve.
E..."
- Hap! - J� vai, senhor!
Preciso da tua mulher. Preciso da Florence.
As minhas filhas est�o com tosse convulsa
e n�o consigo chegar � vila porque a ponte est� alagada.
- Disseste que ela � parteira. - A minha mulher n�o � m�dica.
Eu sei, mas a minha mulher precisa de ajuda e pensei que...
Quando come�aram a tossir?
A Isabelle come�ou h� dois dias e a Amanda Leigh h� umas horas.
Ainda � contagioso.
Ela pode dar-lhe uns rem�dios, mas n�o pode ir consigo.
Posso pagar.
Terei de ficar quatro dias fora. Quem cuida da minha fam�lia?
Por favor... A minha mulher est� com medo.
N�o tive o luxo de amar apenas os meus filhos.
Lembro-me da minha m�e em tons de azul.
Azul da treva da noite, ainda a lua estava no c�u.
Beijava-nos as p�lpebras, a mim e �s minhas irm�s.
Eu fingia que dormia.
E l� ia ela para o trabalho,
para acordar e beijar os filhos de outra mulher � luz do dia.
Jurei que os meus filhos teriam a m�e por completo.
Cuidado com o degrau.
- Quem �? - � a Florence, � parteira.
- V�s algu�m a dar � luz? - A ponte alagou.
As mi�das precisam dum m�dico.
- A ponte alagou, o que queres? - Pega-lhe.
Passei por isto com os meus filhos. Temos de lhe dar l�quidos.
Mas, primeiro, temos de soltar algum deste muco.
Fez muito bem em p�-la a fazer vapores.
Sr. McAllan, faz a gentileza de ferver mais �gua?
- Mam�! - Vai soltar logo o muco.
Devia t�-las levado ao m�dico mal come�aram a tossir.
- Se lhes acontece alguma coisa... - Mam�!
Agora, sei o que a minha m�e devia saber.
- As suas meninas v�o ficar bem. - Est� bem.
Se tivesse acontecido alguma coisa aos filhos da outra,
teria sido a nossa desgra�a.
Agora, sei que ela nos deixava n�o s� por um sentido de dever,
mas tamb�m por amor. - Tenho sede.
Ouviste, rapariga? Quero o raio...
- Espetas-me essa faca e desfa�o-te. - Agora sei...
... que o amor � uma forma de sobreviv�ncia.
- Estamos a ser atingidos! - O que se passa?
Muita actividade! Para a direita!
- Abateram o artilheiro! - Estou por cima dele!
Abate-o!
- Verifiquem a altitude. - Nivela, nivela!
- Para a esquerda! - Vamos l�, capit�o!
Reggie!
Reg! Reg! Reggie!
Sa�mos da forma��o!
De onde v�m?
- Artilheiro, ainda a� est�s? - Ainda aqui estou! Tenho-o na mira!
- Aproxima-se um pela direita! - Estou a v�-lo!
Kirby!
Kirby, continua!
Mam�?
Bom dia.
Fico feliz por ver que est�s melhorzinha.
Temos uma boa not�cia para si. Gost�vamos de empreg�-la.
P�-la aqui a trabalhar para mim.
Preciso de ajuda com as pequenas. Cozinhar, limpar, essas coisas.
� um rendimento extra para si e para a sua fam�lia.
N�s n�o lhes pertencemos.
Pagamos uma renda.
"Cultivem as nossas terras", disseram eles.
N�o podem pegar-nos e largar-nos como se f�ssemos utens�lios.
Est�s sempre a falar em poupar dinheiro.
Dizes que s� possuindo terra nos livraremos do jugo deles.
- Estamos quase l�. - N�o te quero a trabalhar para eles.
N�o vou trabalhar para eles, vou trabalhar para n�s. J� aceitei.
Pois o marido � a cabe�a da esposa, como Cristo � a cabe�a da igreja.
Uma mulher virtuosa, quem a poder� encontrar?
O seu valor � superior ao das p�rolas.
O seu marido nela confia e jamais precisa de coisa alguma.
Aqueles domingos todos...
- Prestas mesmo aten��o � missa. - Sim.
E, agora, tens tu de me ouvir.
"Na casa de meu Pai h� muitas moradas.
"Sei que assim �. Se n�o fosse, ter-vo-lo-ia dito.
"Vou preparar-vos um lugar.
Para que, onde Eu estiver, estejais v�s tamb�m."
�men.
Estas palavras trazem-me consolo.
Consola-me saber que,
um dia, ser-me-� mais f�cil sair da cama do que na v�spera.
- �men! - Deus seja louvado.
Uma destas manh�s, os meus filhos n�o acordar�o neste lugar.
V�o abrir os olhos e ver um novo c�u.
Uma destas manh�s, vamos livrar-nos da bota que nos pisa
e quebrar os grilh�es que temos nos p�s.
Sim, senhor!
- Uma manh� destas... - Uma manh� destas!
N�o estou a falar do Al�m, estou a falar do agora.
- Agora! - Deus seja louvado!
- Uma manh�! - �men!
Eu disse...
Uma manh� destas
Uma manh� destas, Senhor
Uma manh� destas
Ouvi os anjos a cantar
� volta da minha cabe�a
� volta da minha cabe�a
� volta da minha cabe�a
Ouvi os anjos a cantar
Mesmo antes de o sol raiar
Mesmo antes de o sol raiar
Mesmo antes de o sol raiar
Ouvi os anjos a cantar
Estou de joelhos
Estou de joelhos
Tanque! Fogo!
Belo tiro, lindo! Belo tiro!
Sai do tanque! Sai do tanque!
Sai! Sai! Sai!
Sai do tanque! Sai do tanque, j�!
Pai!
Eu ajudo-te!
- Vamos toca a andar. - � esquerda.
Preciso de um m�dico! Preciso de um m�dico!
Calma.
E para ali fiquei, e para ali fiquei.
Ficava naquela cama enquanto a minha mulher fazia o meu trabalho.
As m�os da Florence cheias de bolhas.
E via-a massajar as costas quando achava que n�o estava a olhar.
A chuva veio no dia seguinte.
Um dil�vio que deixou a terra compacta como cera.
N�o pudemos fazer nada
al�m de ficar a olhar preocupados durante dois dias,
at� que finalmente abriu.
- Hap, est�s a�? - Sim, senhor.
- Como te sentes? - A melhorar a olhos vistos, senhor.
Pareces perceber disso que est�s a� a fazer.
� uma tradi��o de fam�lia.
Quanto tempo achas que vais continuar de cama?
O Dr. Tuppman disse seis semanas e j� passaram quatro.
Na segunda j� devo voltar ao trabalho.
- Na segunda, dizes? - Sim, senhor.
Bom, vou directo ao assunto.
Acho que n�o vais conseguir plantar tudo a tempo.
O tempo est� a escassear.
A Florence e os rapazes est�o a dar tudo por tudo
e sabe que temos de arar novamente por causa da chuvada.
A quem o dizes. Oxal� pud�ssemos controlar a chuva.
J� deviam estar a plantar e os campos ainda nem est�o prontos.
- N�o posso esperar mais, Hap. �s agricultor, compreendes.
Sim, senhor.
Se arranjasses uma mula...
... despachavas isso num instante.
- O t�tano levou-nos a mula, senhor. - Eu sei.
A Florence e os rapazes est�o a trabalhar...
Ter�s de alugar uma das minhas mulas. Recebes metade at� saldares a d�vida.
Manda um dos teus filhos buscar a mula depois do jantar.
Sim, senhor.
A prop�sito, querida, esqueci-me de te dizer.
A Florence n�o pode vir durante uns tempos.
Como assim, a Florence j� n�o volta?
N�o antes do fim de Julho, at� terem plantado tudo.
- Onde est� o Hap? - O Hap partiu a perna, como te disse.
- N�o disseste nada, Henry. - Disse, sim.
Preciso de ajuda, n�o podes emprestar-lhe uma mula?
N�o, n�o posso emprestar-lhe uma mula! N�o se empresta assim uma mula.
Mais valia dar-lhe a quinta de m�o beijada.
Se n�o conseguem plantar a tempo,
t�m de alugar uma das nossas e dar-nos metade do que fizerem.
- � duro para eles, mas bom para n�s. - Ele aleijou-se a trabalhar para n�s.
N�o, Laura, o Hap Jackson aleijou-se a trabalhar para ele.
A agricultura � um negocio.
- Eu s� acho... - Muito achas tu.
Investi tudo o que temos nesta quinta. Tudo.
Se n�o tivermos lucro este ano, a fam�lia fica em apuros.
Compreendes isso?
- Compreendes? - Sim, Henry.
Ent�o, pronto. Anda l�.
Oito, trinta...
... sessenta e dois.
A data da vit�ria da Confedera��o na Batalha de Richmond.
Acho que ele n�o imaginava que eu sabia o segredo.
- Ol�. � a Sra. Jackson? - Sim.
Sou o Dr. Pearlman. Vim tratar o seu marido.
Obrigada.
Entre.
Se me tivessem perguntado antes daquilo,
teria dito que os brancos eram todos iguais.
O Henry ficou zangado comigo e mostrou-o ignorando-me na cama.
Nem sempre apreciava fazer amor com o Henry,
mas fazia-me sentir uma esposa a s�rio.
Nunca me ocorrera rejeit�-lo.
Como podia ele rejeitar-me?
� um momento solene, mas glorioso.
Fui informado pelo General Eisenhower
de que as for�as alem�s se renderam �s Na��es Unidas.
As bandeiras da liberdade est�o i�adas por toda a Europa.
Por esta vit�ria, temos de unir-nos em agradecimento � Provid�ncia,
que nos guiou e amparou.
A guerra acabou!
A guerra acabou!
A guerra acabou!
Liberdade!
Hitler morreu!
Vamos para casa!
Quer dizer que te vais embora?
A guerra acabou!
Estamos em territ�rio inimigo! Estamos em territ�rio inimigo!
Est�s morto, branquelo!
Estamos a pass�-los a ferro. Aten��o � direita, artilheiro!
Morreste.
S�bado era o meu dia da semana preferido.
Era o �nico dia em que me sentia verdadeiramente limpa.
No resto do tempo...
... fed�amos.
Mam�, vem a� gente!
- Tio Jamie! - Tio Jamie!
Venham c� dar um abra�o ao tio Jamie!
C� est� a Amanda, a minha bonequinha!
E quem � esta? � a minha Bella!
- D�em um abra�o ao tio Jamie! - Jamie!
- Est�o t�o crescidas! - Jamie!
Quem � este?
Venham c�, meninas.
- Est�s com bom ar, mano. - E tu est�s com p�ssimo ar.
- N�o te ponhas com pezinhos de l�. - Pezinhos de l�... Anda.
- J� o viste de farda? - A minha querida cunhadinha.
Bem-vindo a casa, Jamie.
Est�o a ver as malas dele?
Est�s a gostar de viver na ideia de para�so do Henry?
Seria de esperar que um filho cumprimentasse o pr�prio pai.
Meu querido Pappy. At� me esqueci das saudades que tinha.
Ele tamb�m teve saudades tuas, n�o que v� admitir.
Sim? E deixou de mascar tabaco e filiou-se na NAACP, at� aposto.
- Nem acredito que vieste a p�! - Bom...
- N�o quis incomodar-vos. - Muito bem.
E foi a �ltima coisa que ela disse.
Rapaz...
Valha-me Deus.
Qual � a sensa��o de ser um grande her�i de guerra?
- Sei l�! - N�o te ponhas com coisas.
O ex�rcito escreveu a contar das tuas medalhas,
disseram que era a maior distin��o que um piloto podia receber.
- � verdade. - Bom...
Tive sorte.
Outros n�o tiveram.
Bom, aposto que tamb�m te deu muito rabo de saia.
O Jamie nunca precisou de medalhas para arranjar mulher.
Nesse aspecto, saiu a mim.
A tua m�e era a rapariga mais bonita de Greenville
e o mulherio andava todo atr�s de mim.
Mas uma coisa � certa.
Tiveste de matar muitos boches para receber essas medalhas.
Quantos achas que limpaste? Cinquenta? Cem?
- N�o sei. - Faz uma estimativa.
N�o sei. O que se passa?
Um homem deve saber quantos homens matou.
Bom...
Digo-lhe uma coisa.
Foi mais do que um.
Bem, filho...
Pelo menos olhei o meu nos olhos antes de o matar.
N�o andei a largar bombas a mil metros de altitude.
- Pappy. Ent�o, Pappy... - Ele que v� para o diabo.
Porque foste fazer isso?
Ele est� orgulhoso de ti.
� s� isso.
- Sim. - Mas ele tem raz�o.
Dev�amos ir para a cama. Espero que fiques bem no sof�.
Sim.
Anda.
- � bom ver-te, maninho. - Tamb�m a ti.
Obrigado a ti e � Laura por me receberem.
Pronto... A ver se passas uma noite bem dormida.
A ver se te damos de comer e pomos carne nesses ossos.
Na verdade, eram mais 6000.
6000 qu�?
6000 metros de altitude.
Era a altura de que larg�vamos as bombas.
Nem sequer deviam v�-los dessa altura.
Ficarias surpreendido.
V�amos estradas, cidades, f�bricas...
S� n�o v�amos as pessoas.
A 6000 metros, s�o mais pequenas do que formigas.
E o Pappy tem raz�o.
Um homem deve saber.
Boa noite.
PESSOAS DE COR
De volta a casa, de volta a casa. Canta o pretinho.
Tupelo!
Pr�xima paragem, Tupelo.
Escarumba, macaco, escurinho, preto.
Fui lutar pelo meu pa�s e encontrei-o na mesma quando voltei.
S� ATENDEMOS BRANCOS
Obrigada.
- Viva, Sra. Tricklebank. - Ronsel... �s mesmo tu?
Sim, minha senhora, tanto quanto sei.
Ora esta, est�s feito um homem. Como est�s?
Estou impec�vel. E a senhora, como tem passado?
C� vou andando, c� vou andando. J� viste os teus pais?
N�o, vim s� comprar-lhes umas coisas antes de ir para casa.
Ol�, Ronsel. Sou a Sra. McAllan.
Os seus pais trabalham na nossa quinta.
- Prazer, minha senhora. - A sua m�e fala muito de si.
V�o ficar radiantes por v�-lo.
- � tudo? - N�o.
Precisava de um pacote de a��car e de uns doces.
- A��car e doces? - Sim.
O a��car � para a m�e e os doces s�o para o Marlon e a Lilly May.
Lembrei-me de levar um mimo. Remunera��o de sargento.
- De certeza que v�o gostar. - Sim, senhora.
Tenha um bom dia. Sra. McAllan...
Olhem o que temos aqui, um escarumba de farda.
Onde julgas que vais, rapaz?
Com licen�a, senhor. Ia agora para casa ver os meus pais.
N�o por esta porta.
� o Ronsel, filho do Hap e da Florence. Acaba de chegar da Europa.
Isso explica porque achas que podes sair pela porta da frente.
Ainda n�o deves saber bem onde est�s.
- N�o, sei perfeitamente onde estou. - Acho que n�o sabes, rapaz.
N�o sei o que vos deixam fazer por l�, mas agora est�s no Mississ�pi, preto.
Usas a porta das traseiras.
Vai l�, jovem. N�o queremos sarilhos, vai l�.
Vai.
Sabe que mais? Tem toda a raz�o.
No estrangeiro, n�o nos obrigavam a usar a porta das traseiras.
O General Patton mandou-nos para a frente.
Sim, senhor. E sabe o que n�s fizemos?
Demos cabo do canastro ao Hitler e aos alem�es.
Enquanto voc�s estavam na vossa casinha, s�os e salvos.
Henry, j� estou quase despachada.
De volta a casa, de volta a casa.
Aben�oai-nos, Senhor, com estas d�divas que vamos agora receber,
atrav�s de Jesus Cristo, nosso Salvador.
E Senhor, obrigado pelo sol que tem ajudado o algod�o a crescer
e pela sa�de de todos os presentes.
E bom Jesus, por favor, olhai pelo meu filho Ronsel,
onde quer que ele esteja na vossa Cria��o.
�men.
Ronsel!
Meu filhinho!
- Olha para ti, todo crescido! - E bonito.
Ol�.
Marlon, est�s quase da minha altura! Deste c� um pulo!
- Do que s�o essas medalhas? - Como foi a viagem?
- Foi por matar alem�es? - E n�o avisaste que vinhas?
Larguem l� o rapaz e deixem-no cumprimentar o pai.
Eu sabia que voltarias. Rezei por isso.
Obrigado, Senhor. Obrigado.
�s mesmo tu.
Que diabo lhe aconteceu?
- M�e, fiz umas compras para si. - Obrigada, filho.
Senta-te, Ronsel.
Finalmente.
- Queres arroz? - Sim.
Obrigado, Senhor.
Obrigado.
N�o sabia que fumavas, filho.
Muita coisa mudou, pai.
- Ficaste satisfeito? - Sim.
Estou empanturrado. At� sonhava com os p�ezinhos.
Eu tamb�m sonhava contigo.
E o que via?
Agora est�s aqui connosco, s�o e salvo.
Vai ser bom ter mais duas m�os.
Contigo c�, talvez se compense o que o meu acidente nos custou.
Saldamos a d�vida, assinamos novo contrato e voltamos a ser rendeiros.
Pode ter os planos dele. Deixa-o seguir o caminho dele.
N�o, n�o...
� claro que fico.
Nem se discute.
D�-me tempo para fazer planos e p�r a guerra para tr�s das costas.
O que quer este agora?
- Boa noite, Sr. McAllan. - Boa noite, Hap.
Florence.
Este � nosso Ronsel, de quem lhe falei.
J� nos conhecemos.
Hap, preciso de falar contigo a s�s.
N�o sou uma crian�a.
O que tiver a dizer ao meu pai pode dizer � minha frente.
Ent�o, muito bem.
Ainda te metes em trabalhos, a agir daquela forma na mercearia.
Sei que n�o queres arranjar confus�o,
nem para ti, nem para a tua fam�lia.
O que fizeste?
N�o h� de ter feito nada de mal.
- Tentei sair pela porta, s� isso. - Pela porta principal.
Quando o meu pai e outro senhor lhe chamaram a aten��o,
ele p�s-nos no nosso lugar, n�o foi?
� verdade?
Ent�o, � melhor pedires desculpa.
Pe�o desculpa, senhor.
Muito bem.
O meu pai tamb�m quer um pedido de desculpas.
O Ronsel vai amanh�, depois da missa.
- N�o vais, filho? - Sim, senhor.
- Bem-vindo a casa. - Obrigado, senhor.
Tenham uma boa noite.
N�o vale a pena lutar contra eles, ganham sempre.
N�o estou habituado a fugir � luta, � s� isso.
J� n�o sou assim.
- H� quanto tempo voltou da Europa? - H� umas semaninhas.
- E est� a gostar de Marietta? - � uma vila encantadora. Um encanto.
- Eu levo a garrafa no bolso. - Est� bem.
Agradecido, Sra. Tricklebank. Um excelente dia para si.
- Fique bem. - Sim.
Olhem para aquele.
- O que lhe deu? - Que bicho lhe mordeu?
Deve ter voltado agora da guerra.
Est� tudo bem.
Foi s� o escape de um carro. Deve ter sido da v�lvula de admiss�o.
Dizem que passa com o tempo.
� o Ronsel, o filho do Hap.
- Jamie McAllan, irm�o do Henry. - Muito prazer.
- Veio a p�? - Sim.
Deixe-me dar-lhe boleia.
Venha.
- Venha c� para a frente. - Estou bem onde estou.
Entre, soldado, � uma ordem!
- Como sabia que era meu superior? - Era capit�o.
H� capit�es negros, estive �s ordens de muitos.
Bom, obedeceu-me. Aposto que era sargento.
761� Batalh�o de Tanques.
"Prontos para a luta."
Lider�vamos a frente para o General Patton.
E o capit�o?
Pilotava bombardeiros B-25.
Est� feliz por estar de volta ao Delta, sargento?
Pois, eu tamb�m.
- Desentendeu-se com o meu pai. - J� pedi desculpa.
� um sacana desagrad�vel, devia estar a pedi-las.
- � sua. - N�o quero, obrigado.
� mesmo casmurro ou � s� com brancos que tentam ser simp�ticos?
Beba l�.
Que raio de sargento me saiu?
Nada de estragar, � o meu rem�dio. Preciso dele at� � �ltima gota.
Os rapazes dos tanques mijavam nos capacetes?
- Quantas vezes. - N�s t�nhamos um tubo no cockpit.
�s vezes, era mais f�cil mijar nos capacetes.
A 6000 m de altitude, o mijo congela em menos de um minuto.
- Faz assim tanto frio l� em cima? - Cara�as...
Entre -28� C e -34� C.
Uma vez, num voo longo, mijei no capacete e nunca mais me lembrei.
Quando est�vamos a sobrevoar o alvo, voltei a p�r o capacete.
Est�vamos num bombardeamento, a fugir a fogo inimigo,
e comecei a sentir algo escorrer-me cara abaixo.
Pensei que tinha sido atingido.
Fiquei a cheirar a latrina.
Deve ter ouvido das boas no clube dos oficiais.
Caramba, os meus amigos n�o me deixam esquec�-lo.
Enfim, os que voltaram.
Tamb�m perdi amigos.
Bom, bebamos � sua mem�ria.
"Eu n�o chegava a casa..."
- Est� tudo bem, Sr. Jamie? - Est� tudo �ptimo.
Trouxe s� o Ronsel da vila.
Volto l� no s�bado � tarde.
Se quiser, passo por c� a ver se quer boleia.
Parece-me bem.
Muito bem.
Hap...
Vamos l�!
Meu Deus!
Meu Deus!
Comprei-lhe uma coisa, m�e.
� t�o grande.
- Vou d�-lo aos teus manos, v�o adorar. - N�o.
- � para si. - N�o posso, amor.
Quero v�-la comer isso.
Obrigada, filho.
Coma tudo, m�e. N�o guarde.
A Lilly May e o Marlon nem lhe v�o tocar.
Est� bem.
- Adoro-a. - Tamb�m te adoro, querido.
Obrigada.
Charlotte?
Desculpa...
N�o sei...
N�o sei nadar.
Meu Deus.
Meu Deus.
Meu Deus.
N�o!
- N�o! - Est� tudo bem.
Est� tudo bem, Jamie. Sou eu, sou eu.
Pronto, Jamie, j� passou.
J� passou, anda c�.
Pronto, querido...
N�o...
N�o, n�o posso.
- Jamie. - Tenho de ir.
Como sempre, quando algo mau acontecia, o Henry n�o estava.
Ele e o Pappy tinham ido ver de uns porcos
e eu estava s�zinha com as pequenas.
Vera?
Pode levar-me � vila?
Vou matar o Carl.
- Vera, venha sentar-se e conversar. - N�o tenho tempo para isso!
Ele est� com ela agora.
Meteu-se com a Alma, tal como fez com a Renie.
Amanda Leigh, leva a tua irm� para dentro de casa.
Amanda, mexe-te. Entrem pelas traseiras, j�.
- Vera... - Tem de me levar � vila, agora.
- Eu... N�o posso conduzir. - J� a vi guiar!
E meti-me em assados. O meu marido tirou-me as chaves.
Venha l�.
Deram com o corpo do Carl na estrada, a meio caminho da vila.
A Florence disse que a tinha visto na Main Street, coberta de sangue.
Disse que parecia ter tomado banho nele.
A Vera esfaqueou-o dezassete vezes.
Por�m, s� mais tarde soube os pormenores.
Estava demasiado perdida na minha pr�pria infelicidade.
N�o...
O que se passa, mam�?
Preciso que sejas crescida e v�s chamar a Florence.
Lembras-te do caminho?
Linda menina. Vai o mais depressa poss�vel.
N�o!
N�o!
Tamb�m perdi um dos meus beb�s.
Chamava-se Samuel.
Vinha muitas vezes aqui quando era petiz.
Quando precisava de estar s�zinho e de p�r as ideias em ordem.
Bom, gosto da decora��o.
Tome.
- Porque � t�o simp�tico comigo? - Porque parece precisar disso.
Balelas.
Est�vamos algures sobre a �ustria.
Depar�mo-nos com uma horda de Messerschmitts.
Estavam por todo o lado.
Mataram o meu artilheiro de cauda e o meu co-piloto.
N�o! Reggie!
Fiz um acordo com Deus naquele momento.
Prometi que, se me salvasse, faria algo de bom.
N�o sei o qu�, mas...
Seja como for, fiz uma promessa.
Quando demos conta, apareceram montes de P-51.
Pareciam a cavalaria.
Correram com os alem�es dali para fora.
Juro que eram como anjos enviados pelo Senhor.
As caudas dos P-51 estavam pintadas de vermelho.
Um deles aproximou-se de mim a seguir ao combate.
Olhei para ele e pensei que estava a alucinar.
O piloto do ca�a...
... era de cor.
Bateu-me contin�ncia.
E eu fiz-lhe o mesmo.
Ia morrendo, naquele dia.
Eles eram maridos, pais...
Eram bons homens.
Muito melhores do que eu.
Enfim.
Apanh�mos estas flores para ti, mam�.
Isto � para ti, mam�.
Vamos l�.
N�o se pode ter um chuveiro...
... sem os pain�is.
Bom, onde vamos p�r isso?
Onde achas melhor?
Talvez aqui, na �gua?
Tens de me ajudar a decidir onde pomos isso.
O que achas? Aqui dentro?
Cheira.
Mam�, o tio est� a construir um chuveiro para ti.
Ent�o, meu anjinho? Ficaste de me avisar se ela viesse a�!
Achei que gostarias de ter um pouco de privacidade, de vez em quando,
para tomar banho.
O que achas?
Acho que � maravilhoso.
- Obrigada. - Bem...
Vou buscar �gua.
Cheira bem, filhota.
Ele quase n�o come.
Quase n�o dorme.
N�o consegue parar quieto.
N�o consegue mexer-se.
� como se estivesse a cozer em lume brando.
� espera de algo.
� espera que aconte�a o que n�o aconteceu.
Anda l�! A garrafa n�o se bebe s�zinha!
- Daqui a nada, vai-se o dia. - Aguenta os cavalos. Como vai isso?
Eu tamb�m ficaria feliz por me ver.
N�o est�s cansada, mulher?
- Temos de deix�-lo partir. - N�o estamos a prend�-lo.
Ele s� fica por n�s, eu sei que sim.
E se ele quiser ficar?
N�o vai ser sempre assim.
Mal eu estiver bom...
... vamos embora daqui.
Vamos ficar bem.
Ele vai ficar bem quando tiver a casa dele.
- Ele vai ficar bem? - Prometo-te.
- Lembras-te desta? - Lembro, sim.
Sabes que mais? N�o devias esfor�ar essa perna partida, Jackson.
Se n�o a deixares sarar, n�o voltas a andar.
Para que quero andar se n�o posso dan�ar?
�s um encanto de mulher.
A Estrela de Prata?
Cara�as!
N�o te deixes impressionar, deram-ma por ser est�pido.
O qu�?
�s vezes, n�o tens saudades de l� estar?
N�o falo de andar a levar tiros, mas �s vezes tenho saudades.
Eu tamb�m.
L�, eu era um libertador.
As pessoas enchiam as ruas � nossa espera.
Atiravam-nos flores e aplaudiam-nos.
Aqui, n�o passo de um preto agarrado ao arado.
Tamb�m tenho saudades de alguns camaradas.
- Penso neles todos os dias. - Ver o mundo...
As raparigas italianas, as raparigas inglesas...
At� as gregas peludas, com aquelas fronhas cheias de pelo.
Era qualquer coisa.
Era qualquer coisa.
J� estiveste com uma branca?
Bom...
Diabos me levem.
Ai foi? Conta-me l�.
O ex�rcito dava-nos casernas separadas,
sangue diferente, latrinas � parte...
Mas as raparigas europeias n�o tinham problemas connosco.
Um dia, est�vamos n�s em Wimborne,
uma inglesa passou por mim e deu-me uma palmada no rabo.
Nunca a tinha visto.
Os militares brancos disseram-lhe que �ramos mais macacos...
... do que humanos.
Disse que estava a ver se tinha cauda.
Desculpa estar a rir.
Sempre que t�nhamos oportunidade, mostr�vamos-lhes a nossa humanidade.
- Sim. - �s alem�s tamb�m?
Conhe�o essa express�o.
Devia ser uma mulher especial.
Mas isso j� passou, os tempos s�o outros e estou onde devo estar.
Sim.
Exactamente onde tenho de estar.
A desperdi�ar a minha vida.
- Levo-te a salvo para casa, Reg. - Vou cobrar a promessa.
Avi�o inimigo � esquerda!
Abateram o artilheiro!
Vem a� outro, aten��o � retaguarda!
Gaita...
Rebocamo-lo amanh�, Henry.
Desculpa.
- Deste de comer �s galinhas? - Sim.
S�o nove e meia. S� te levantaste agora?
Vais passar o dia a mandriar enquanto os teus irm�os trabalham?
O que se passa contigo, filho?
O que se passa contigo, rapaz?
Chegou uma carta para ti. Diz que vem da Alemanha.
Alemanha...
Quem � o remetente, Reessel ou Ressel?
� um homem ou uma mulher?
Escreve-se "R-E-S-L", mas como se pronuncia?
� uma pessoa que conheci l�.
- Aonde vais? - Eu j� volto.
Ronsel!
Achas que tem piada entornar um balde de leite bom?
Sabes como se diz. N�o adianta chorar sobre o leite derramado.
Pois, sobretudo quando o leite n�o � nosso.
Quanto te devo pelo leite? Um d�lar e cinquenta? Dois, talvez?
Assim ficamos quites.
- N�o estou a falar de dinheiro. - O que queres de mim?
O que tens? Faz-te homem!
Entorno um balde de leite e deixo de ser homem?
N�o te comportas como tal!
Vais e vens como te apraz, somes durante dias a fio
e, quando c� est�s, est�s embriagado! - N�o te presto contas.
Se vives na minha casa e trabalhas na minha quinta, prestas.
Desculpe l�, patr�o.
N�o tenho culpa que o teu sonho de agricultor esteja a correr mal.
N�o tenho culpa que os teus campos de algod�o tenham alagado!
Sabes qual � o teu problema? N�o tens no��o do teu valor.
Aqui, onde um homem tem de saber. Deves saber o teu valor.
- Tens de acordar, mano velho. - Como assim?
Andas para a� entretido a armar-te em Deus Todo-Poderoso,
preocupado contigo e a quinta, e nem v�s a infelicidade da tua mulher.
V� l� o que dizes!
- Ou o qu�? - Ou o qu�?
Pois.
- Sabes que mais, irm�o? - Diz.
S� o homem que queres ser, Jamie.
Mas vai s�-lo noutro lado.
- Tudo bem, vou para a vila. - N�o estou a falar da vila.
Vou a Greenville por uns dias para comprar gado.
N�o te quero aqui quando voltar.
Qual � o teu problema?
Devias ter visto a tua cara.
N�o tem gra�a nenhuma!
Pelo contr�rio, meu amigo, � hilariante.
Est�s maluco de todo.
Bom, n�o tenho como negar.
Porque estavas a andar � chuva?
N�o tem import�ncia.
O que se passa contigo?
Qual foi a pior coisa que fizeste?
Uma coisa realmente m� que sabias que magoaria algu�m...
... mas que fizeste � mesma.
Deixar esta mulher aqui.
Diabos me levem...
Parab�ns, �s pai.
Chama-se Franz.
� um nome bonito.
O que vais fazer agora?
Ela quer que volte para a Alemanha.
- � um estic�o. - Sim...
� bem longe.
Ent�o, e tu? Qual foi a pior coisa que fizeste?
Eu?
Sou um santo.
N�o duvido.
N�o duvido.
Volta para casa Bill Bailey
Volta para casa
Passo o dia a lamentar-me
Eu fa�o a comida, amor
Eu pago a renda
Sei que estive mal contigo
Vem a� gente, baixa-te.
- Achas que nos viram? - N�o sei.
Bem, cheg�mos.
Sim.
Vou partir em breve.
Queria desejar-te boa sorte.
Tens sido meu amigo.
Quero que saibas isso.
Sim.
Tamb�m tens sido meu amigo.
�s capaz de ser um dos bons.
Meu capit�o.
Espero que consigas ir ter com o teu filho.
Com a tua fam�lia.
Tem cuidado contigo.
Tu tamb�m.
Ol�, m�e.
- Tens fome? - N�o, estou bem.
- Onde est�o todos? - Foram � igreja, a uma missa tardia.
D� c�.
E c� est� ele!
- Outra vez com os copos. - Tio Jamie!
Ora viva, querida fam�lia.
Quem ia contigo na carrinha quando te vi na estrada? Quem era?
- Era o Ronsel Jackson. - Explica-me o que fazia aquele preto
ao teu lado na carrinha, tu e ele todos amiguinhos?
Ele pode ir onde eu quiser.
- Mais alguma coisa? - Seu...
Seu filho da m�e.
- N�o vales ponta de corno, sabias? - Sim, eu sei.
O grande her�i de guerra! N�o passas de um b�bedo!
D� c� as chaves.
V�-se embora.
Quere-lo s� para ti, rapariga?
� pena que esteja bebido, n�o te serve de nada.
- Como disse? - J� te vi toda melosa com ele.
Pappy.
O Henry pode ser demasiado tapado para reparar, mas eu n�o sou.
Viu a minha carta, m�e?
A que veio da Alemanha? Meu Deus... Pronto, espera. N�o te exaltes.
Espera at� o teu pai voltar, est� bem? Ronsel! Ronsel!
Ol�. Ficas para o jantar?
N�o.
- Vais a algum lado? - Sim, sou capaz de ir para oeste.
Tenho um camarada que vive em Los Angeles.
Los Angeles? Que conversa � essa, Jamie?
- Ele n�o te disse? - Quem n�o me disse o qu�?
O Henry.
Mandou-me embora.
- Talvez seja pelo melhor. - E vais embora sem mais nem menos?
Tencionavas despedir-te, sequer?
Claro que sim. O primeiro autocarro s� sai �s 14h00.
E as pequenas? V�o ter um desgosto.
N�o posso ficar aqui, Laura.
N�o posso...
N�o tens de ir, Jamie.
- Anda c�! - Vamos!
- Apanhem o preto! - Vejam como o preto foge!
- Aonde vais, rapaz? - Apanhem-no! Apanhem-no!
- Apanhem-no! - Segurem-no, rapazes!
Levantem-no!
Tragam-no.
Cal�a-te e vem connosco.
Santo Deus...
- Deixem-no ir! - Calado!
Calado, uma ova! Soltem-no, cara�as!
- Ouve, filho. - N�o sou teu filho!
Sugiro que dispares ou apontes a arma a outro.
Se n�o, mais vale matar-nos aos dois.
Trais o teu pr�prio sangue por causa de um preto!
Dispara.
- Vamos l�. - Apresenta a prova.
Ele � culpado!
- Matem-no! - Acaba com ele, v�!
Copulaste com esta mulher?
O que vos interessa uma puta alem�?
As vacas das fraulein mataram muitos dos nossos rapazes.
Se o Ronsel aqui a deixou com um mulato de lembran�a,
c� para mim, � justi�a! - Cala-te!
Seja como for, como sabem que o Ronsel � o pai?
Perguntemos-lhe.
�s o pai desta... Nem lhe chamo crian�a.
�s o pai desta abomina��o?
Vamos, responde!
Sim.
- Culpado! - A abomina��o � pun�vel com a morte.
Foi o senhor, n�o foi?
Pappy.
N�o.
Ele n�o vai disparar.
N�o tens tomates para matar um homem cara a cara. Pois n�o, filho?
N�o vais matar o teu Pappy.
Outro movimento em falso e estes rapazes matam-te.
- O que fazemos com ele? - J� disse que ele n�o abre a boca.
N�o � verdade, filho?
Deixem-no ir.
N�o est�s propriamente em posi��o de fazer exig�ncias.
O preto tem de ser castigado.
Deixem o meu filho decidir a pena.
Muito bem.
Qual ser� o castigo?
- Vou deixar-te escolher. - N�o!
Se n�o queres que o matemos, tens de escolher o castigo.
N�o!
A l�ngua, os olhos ou os tomates?
Escolhe.
Segurem-no!
- Escolhe, caramba! - N�o!
N�o!
A l�ngua.
N�o!
Meu Deus! N�o, n�o...
Vamos l�!
Ele vai ficar bem.
Estou a segur�-lo.
- Agarra-lhe a perna. - Segurem-no.
Valha-me Deus...
Agarrem-no.
O meu menino...
Ele vai ficar bem.
Levantem-no, levantem-no!
- Segurem-no. - N�o...
N�o...
O meu menino...
Tive o bater do cora��o dele na m�o.
O meu filho!
Recordo-me de cada pulsar.
Estava quente e vivo.
Conhe�o cada pedacinho dele.
Pappy.
Pappy.
� exactamente o que pensas.
Apanharam o Ronsel.
Eram demasiados.
O qu�?
- O qu�, Jamie? O que lhe aconteceu? - Eram muitos e eu n�o...
- Jamie? - N�o consegui impedi-los.
O que lhe fizeram? Est� vivo?
- Eles obrigaram-me a escolher. - O qu�?
Acorde.
Queria certificar-me de que o olhava nos olhos.
Agradecido.
Vemo-nos daqui a uns dias.
� o teu pai.
Morreu ontem � noite.
- Como? - Durante o sono. Pacificamente.
- Hap! - Henry.
- Hap! - N�o, Henry.
N�o tenho culpa do que aconteceu.
- Avisei o rapaz. Avisei-os a ambos. - Deixa-os.
Hap! Hap, espera um pouco!
Precisamos de enterrar o caix�o.
Hap.
Hap.
Agradecido.
A ajuda dos teus filhos era bem-vinda.
Os meus filhos n�o descem desta carro�a.
Muito bem.
O homem nascido da mulher tem vida curta e cheia de mis�rias.
� como uma flor que desabrocha e murcha,
uma sombra que foge sem parar.
E � sobre um tal ser que abris os Vossos olhos,
e assim o chamais ao Vosso tribunal?
Quem far� sair o puro do impuro?
Ningu�m.
Porque para a �rvore h� uma esperan�a. Cortada, pode deitar novos rebentos.
Mas o homem, ao morrer, acaba,
como as �guas desaparecem do mar e secam.
Assim o homem que morre nunca mais se levanta.
Enquanto durarem os c�us,
n�o despertar�, nem sair� do sono.
�men.
- �men. - �men.
Muito bem. Vamos l�, maninho.
�men, Pappy.
- Vamos, meninas. - Florence.
D� isto ao Ronsel.
Se o vir.
Jamie!
Jamie!
Jamie!
Tenho sempre o mesmo pesadelo.
Primeiro, estou num tanque com um capacete.
Depois, dou por mim num carro com um saco de serapilheira na cabe�a.
Grito.
Os l�bios mexem-se e sinto o esfor�o.
Mas n�o sai som algum.
Espero que a morte prematura do meu pai
tenha trazido paz � fam�lia Jackson.
Confesso, no entanto, que n�o me traz nenhuma.
Espero sempre que, por milagre,
o meu amigo Ronsel tenha encontrado a felicidade.
Mas deve a minha hist�ria acabar assim?
Em sil�ncio e derrota?
Depress�o, medo, desfiguramento...
S� um homem extraordin�rio ultrapassaria tudo isso.
Teria de fazer o desmame do l�udano e da autocomisera��o,
e viajar com um cart�ozinho a dizer "mudo" no bolso da camisa.
E, por fim,
teria de atravessar o Atl�ntico mais uma vez.
Desta vez, n�o para ir para a guerra...
mas por amor.
Ronsel!
Mam�?
Assim termino a minha hist�ria.
Com amor.
AS LAMAS DO MISSISS�PI
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